30/11/2011

Feriados

Para lá dos feriados religiosos, só há duas datas nacionais: o Dez de Junho e o Primeiro de Dezembro. Para mim, é data nacional toda aquela que engrandece Portugal. O resto são epifenómenos ideológicos.

Marcello Duarte Mathias in «Diário de Paris».

29/11/2011

Protestantismo: 1ª Revolução

A Igreja Católica, segundo ensinamento de São Pio X, é uma Igreja de desiguais. Uns foram instituídos para ensinar, governar e santificar. E outros para serem ensinados, governados e santificados. Estes últimos são os leigos. (cf. Encíclica Vehementer, de 11-2-1906)
Nesta sociedade de desiguais há uma hierarquia: Cardeais, Arcebispos, Bispos, cónegos, párocos e coadjutores. Em baixo, o povo fiel, que está para a Igreja, como a plebe para a sociedade civil.
O protestantismo nega a autoridade doutrinária da Hierarquia eclesiástica. Cada qual tem o direito de interpretar a Bíblia como quer. A partir desse momento deixa de haver hierarquia. Todas as seitas protestantes têm esse denominador comum igualitário: não há mestres para interpretar o Evangelho, cada um é mestre de si mesmo.
Elas negaram o monarca da Igreja Católica, o Papa, excepto os anglicanos, que reconhecem ao Papa um vago primado de honra, mas não jurídico. Na seita protestante anglicana continuaram os arcebispos, bispos, certos dignitários eclesiásticos à maneira de cónegos, párocos, coadjutores.
A seita luterana também admite esses graus. Mas Calvino, que foi um heresiarca pouco posterior a Lutero, negou os Arcebispos e Bispos, admitindo apenas os padres; são os chamados presbiterianos.
Surgiu depois uma outra seita, a dos niveladores, também conhecidos por quackers, que não admitiam sequer os padres. Ficaram abolidos todos os graus, restando apenas o povo. É uma hierarquia que se destruiu.
Dentro das próprias seitas protestantes esse trabalho de demolição continuou. Na igreja anglicana como na luterana, a autoridade dos homens que continuaram a se dizer bispos e arcebispos foi reduzida a quase a zero. Não tem comparação com a autoridade de um Bispo católico. Os bispos anglicanos não passam de figuras decorativas. O título ainda existe, mas nada significa. Também entre os presbiterianos o título de padre, de ministro, ainda existe, mas quase nada significa. Eles não têm autoridade doutrinária sobre seus fiéis.
Esse movimento igualitário não ficou apenas dentro do protestantismo, mas tentou penetrar várias vezes na Igreja Católica. E acabou penetrando e triunfando por meio do progressismo, que quer reduzir a Igreja a uma república, em que o povo fiel tem o direito soberano de mandar, e o Papa e os bispos fazerem o que o povo quer. Portanto, o contrário da organização hierárquica que estudamos; no fundo não haveria governo, seria a anarquia, o fim da Igreja.
Os protestantes acabaram com as ordens religiosas. Confiscaram, saquearam, fecharam. Algumas se mantiveram na aparência, mas com um ar de mero pensionato. O estado religioso desapareceu nas seitas protestantes. Toda a hierarquia eclesiástica começou a sofrer uma corrosão, cujo termo último é o progressismo em nossos dias.

Plinio Corrêa de Oliveira in As três Revoluções: etapas da destruição da Cristandade medieval.

26/11/2011

Por um Natal mais cristão

Em Defesa da Portugalidade


Tendo deixado pegadas do meu nome em dezenas de livros que são os marcos miliários da minha obra caleidoscópica, não preciso de perguntar a nenhum dos que estão aqui, o que, nessa obra, os trouxe aqui.
Não foram os Poemas, nem os estudos históricos; não foram os trabalhos de investigação erudita, nem os estudos de revisão histórica; não foram as polémicas literárias ou filosóficas, ou as críticas teológicas. Pode haver alguma coisa de tudo isto; mas o que principalmente vêem em mim é o que lá fora faz de mim alvo dos aplausos delirantes, ou de pedradas furiosas: o doutrinador político e social, o expositor da Monarquia e do Nacionalismo integral, do Autoritarismo contra-revolucionário, do Tradicionalismo católico e ocidental – numa palavra, o doutrinador de Portugalidade. Repito e insisto: de Portugalidade.
Nem da Latinidade – termo que nada significa, por amplo de mais; nem da Hispanidade, que nos absorve e confunde; nem da Lusitanidade, que nos abastarda. Não somos latinos, nem somos hispanos, nem somos lusitanos, somos portugueses!
A Latinidade é uma categoria histórica, sem base concreta; a Hispanidade tem Castela por centro; a Lusitanidade tem por lar a Lusitânia que não é toda nossa.
Só a Portugalidade é inteiramente nossa, característica e tipicamente nossa.
Portugalenses, portugaleses, portugueses, assim nos chamamos e nos chamaram, ao nascer; assim nos chamamos e nos chamaram, durante séculos, até que a pedantaria dos humanistas nos crismou de – lusitanos.
Portugueses nascemos, portugueses devemos morrer. Doutrinador de Portugalidade – eis o sector da minha multiforme actividade intelectual, que, como íman fatídico, atrai as dedicações luminosas que me cercam, aqui, e lá fora, e encandeia os ódios e os rancores que me seguem a sombra...
Porque doutrinador de Portugalidade – católico, não católico progressivo, à maneira de Maritain e os seus sequazes portugueses, mas católico português, como sempre foram os portugueses católicos que nunca se envergonharam de o ser, e nunca se esconderam sacrílega e comodamente atrás do termo equívoco, confuso e neutro de cristão, como nunca aceitaram que lhes estendessem a mão os inimigos da sua Fé.
Sou católico, intemeratamente fiel ao Credo fixado na Profissão fidei tridentina, em 13 de Novembro de 1534; católico conscientemente informado no Syllabus; católico português, empregando todos os meus esforços para que a Nação regresse à sua missão de Fidelíssima, mas não tocada dum Fidelismo progressivo, e anarquizante das consciências.
Porque doutrinador de Portugalidade – monárquico, porque foi a Monarquia que fez Portugal, mas a Monarquia pura, a Monarquia tradicional, a que vem de 1128, se afirma em Ourique, se consolida em Aljubarrota, rasga o caminho marítimo da Índia, cria o Império, sucumbe, devagar, em Alcácer, e ressuscita em 1640, para cair, apunhalada pelas costas, em 1834, em Évora-Monte.
Porque doutrinador de Portugalidade – monárquico, mas da Monarquia que fez a Nação, e não da que começou a desfazê-la; da Monarquia em que o Rei é a síntese viva do Povo, da Monarquia que ama o Povo, que se confunde com o próprio Povo – mas o Povo verdadeiro, e não o Povo dos Partidos, o Povo pulverizado em indivíduos que são números; a Monarquia que é o próprio Povo, o Povo trabalhador, – camponês, soldado, marinheiro, artífice, doutor, padre, letrado, sábio, artista, funcionário, e não o Povo vadio e tunante das conjuras, das alfurjas, dos apetites das facções, dos grupos e dos clubes políticos, dos demagogos e arruaceiros.
Porque doutrinador da Portugalidade – inimigo da Democracia que, entrando as nossas fronteiras nas mochilas das hordas napoleónicas representativas da Revolução Francesa, nos veio dementar, e se instalou no Poder em 1820, e tomou conta definitivamente do Estado, sob a máscara de Monarquia, em 1834, com o Senhor D. Pedro, Imperador do Brasil, e sem máscara, em 5 de Outubro de 1910, por obra e graça da Carbonária de Lisboa.
Porque doutrinador de Portugalidade – inimigo do Liberalismo político que matou as liberdades profissionais ou corporativas, e as regalias municipais – preanunciando o Standardismo comunista.
Porque doutrinador de Portugalidade – adversário do Parlamentarismo que é a falsificação do Supremo Interesse Nacional.
Porque doutrinador de Portugalidade – amigo do Povo, cheio de carinhos para as suas desditas, cheio de entusiasmo fervoroso para as suas glórias, ríspido, às vezes, para os seus desmandos, mas sempre zeloso das suas virtudes, e, consequentemente, inimigo declarado e implacável dos exploradores das suas paixões e dos seus instintos, dos que, sistematicamente, fazem dele degrau para as suas ambições mais depravadas, e para a satisfação dos seus interesses mais inconfessáveis.
Porque doutrinador de Portugalidade – defensor do Povo contra os Mitos que o fascinam e pervertem, contra as nuvens que o embriagam e corrompem, contra as Miragens que o seduzem e estrangulam.
Porque doutrinador de Portugalidade – nacionalista integral, pondo acima de tudo, e de todas as considerações, o Interesse legítimo, o Prestígio honesto, a grandeza eterna, e a honra Imaculada da Pátria – e por isso mesmo católico e monárquico.
E é ainda porque doutrinador de Portugalidade, que páro, a escutar e a interpretar as vozes que vêm de lá de fora e da distância – pela repercussão que possam ter nos destinos da minha Pátria.

Alfredo Pimenta in Em Defesa da Portugalidade.

24/11/2011

A democracia segundo Fernando Pessoa

Tudo quanto, em matéria social, é facilmente compreensível é falso ou estúpido.
Fernando Pessoa

O conceito de império - V Império Português - substitui em Portugal o que em alguns países existe como ideal nacional gerado vulgo, em Inglaterra, o liberal-constitucionalismo (consuetudinário), nascido da Revolução Oligárquica do século XVII e, em França, no que veio a ser o demo-republicanismo, de inspiração jacobina, brotado da Revolução Democrática do século XVIII. Porém, enquanto nos países mencionados como exemplo há uma correspondência material entre a teoria formulada e a doutrina praticada, na vida institucional portuguesa - que Fernando Pessoa considera ilegítima uma vez que não existe, entre nós, um conceito de vida constitucional (porque também não o pode haver) - constata-se uma constante imposição de formas de governo e regímenes políticos estranhos à nossa forma de vida nacional. Este é o cerne de um dos grandes problemas histórico-políticos, que as elites pretendem ignorar, resultado de um provincianismo que as caracteriza há séculos (não obstante com alguns interregnos) e que se projecta em seguir, ipsis litteris, os modelos estrangeiros e especialmente os piores (o último caso foi o 25 de Abril, como é tido).

Todavia, o processo de desnacionalização português começou nos Filipes, exacerbou-se com os Bragança (porque tornámos a ser portugueses de nacionalidade, mas nunca mais tornámos a ser portugueses de mentalidade) e explodiu no Constitucionalismo Liberal (um 1640 por Miguel de Vasconcellos), sendo que a república jacobina de linha francesa fez Portugal apodrecer no estrangeirismo completo.

Em especial, nesta regressão histórica desnacionalizante, importa, para o entendimento do agravar da contenda, referir que o absolutismo político não é sinónimo de despotismo, esse sucedâneo pombalista que, igualitarizando os súbditos perante a majestade do Rei, abriu caminho ao liberalismo – logo, mais uma configuração adulterada da forma monárquica de governo. É, com efeito e segundo a lógica dedutiva, na Monarquia Tradicional e Orgânica que se deve colocar o foco, uma reacção harmoniosa do pensamento doutrinário à desabrida decadência, o pugnar pela defesa de um regímen estruturalmente português (e que nos governou muito bem durante 7 séculos). Daqui a máxima pessoana: "toda a situação governante em Portugal, depois da queda da monarquia absoluta, é substancialmente uma fraude"!

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O problema da democracia e dos partidos (id est do sistema partidocrático por eles criado) subsiste no facto de, ao invés de se orientarem pela Opinião Pública, a base primeira sobre a qual deve assentar qualquer governo legítimo, ou como dizia Hume: "não há verdadeiro governo, ainda o mais autocrático, que não se apoie na Opinião Pública", pelo contrário tentam os partidos políticos mesmo orientá-la, ou seja, orientar o seu sentido de voto no seu próprio interesse, pervertendo-a assim e completamente, servindo-se dela ao invés de a servirem eles próprios. A isto acresce que, sendo a Opinião Pública de uma Nação um misto e aglomerado orgânico, secular e homogéneo de hábitos e instintos sociais, a democracia pouco mais sendo que um somatório de votos, ou seja, um empilhamento de opiniões ideológicas fornecidas pela inteligência, nada deve a essa Opinião Pública. A democracia moderna é pois "a sistematização da anarquia".

Por outro lado, o Patriotismo, ou seja, a base do instinto social (o único instinto social verdadeiro e fundamental, aliás) limita-se a absorver ou rejeitar o seu antagonista, não o assimila e muito menos concilia ou se define. Consequentemente a própria democracia que tem no seu cerne a ideia de que é a inteligência que leva o ser humano à acção, raciocínio absurdo dado que esse papel cabe aos instintos, hábitos e sentimentos tornando-se assim, pela acção, o homem num ser social (e não uma atomização ao gosto liberal), a democracia é pois ANTIPATRIÓTICA.

A democracia que, noutro prisma, tenta quebrar e dividir uma Opinião Pública que é, esse in, e como se disse orgânica, homogénea e indivisível, por meio do somatório repartido de e por vontades individuais, derivado da noção uma cabeça um voto, vontades estas que decorrem da inteligência que se expressa numa ideia e que se situam no ponto exactamente oposto ao do instinto, como se viu, a base dessa mesma Opinião Pública e que, por isso mesmo, não permite qualquer definição; a democracia representa, assim, um desfasamento absolutamente gritante entre um princípio intelectual e idealista de definição política de voto que não o é (porque não o pode ser) e, da mesma forma, uma suposta representação política que nada representa. Trata-se da democracia como fenómeno ANTI-SOCIAL.

A Opinião Pública é, como antagónica e instintiva, também tradicionalista e arreigada no conservadorismo. Tradicionalista porque, desde logo, a tradição é o nome da hereditariedade dos instintos e hábitos socais, sendo o melhor exemplo a língua materna falada pela Nação. Noutra perspectiva, conservadora porque tende a manter-se tal qual é, não originado e muito menos se adaptando. Trata-se, de facto, de uma atitude egoísta, própria do homem, de resto, que se projecta na Nação como um todo comunitário e corporativo. Esta noção que a democracia corrompe por meio da adaptação, assimilação e aparente igualitarização social anti-egoísta está, por seu lado, inspirada no liberalismo das Luzes, que condena e destrói o privilégio social e a desigualdade, segundo uma perspectiva de quem não o possui, ao invés de estimular quem não o tem a vir a possui-lo em abundância e assim, estabelecer uma lógica social de acesso a um patamar social superior que, para existir, tem de ter exacta e constringentemente, a corresponder um patamar social inferior. Conclui-se, enfim, que a democracia é ANTIPOPULAR.


Não somos obrigados a vencer, mas somos obrigados a lutar.
Alfredo Pimenta