03/06/2012

O Génio Peninsular


Se a civilização é essencialmente o Cristianismo, ninguém a dilatou e serviu como os povos naturais da antiga Hispânia. É o traço dominante da sua alma, – o selo que lhes imprime grandeza e individualidade. Por esse prisma o génio peninsular é universal como nenhum outro. A vocação apostólica constitui a sua determinante mais poderosa. E, pelo nosso amor ao Absoluto, é fácil de se abranger a razão por que o Cristianismo na Península se revela e radica, não só como confissão religiosa, mas, sobretudo, como uma íntima e veemente afirmação social.
Compreende-se já porque portugueses e castelhanos foram no mundo missionários e descobridores e como apenas eles se glorificam com o raro título de fundadores de nacionalidades! Ninguém ignora a lenda-negra que infama a Península como inútil para as conquistas superiores da humanidade. É uma calúnia do século XVIII, principalmente, – da estreita e sectária mentalidade dos Enciclopedistas, que não podendo separar o Catolicismo da vida da Península, a denegriram por sistema, cobrindo-a de diatribes e de aleives sem conto. No entanto, metade do mundo devia às Espanhas a sua entrada na civilização, – e a paz da Europa, perturbada, dum lado, pela ameaça crescente do Turco e, pelo outro, pelo alastramento da heresia protestante, salvou-se duma catástrofe mortal, por virtude ainda do esforço heróico dos reis e soldados peninsulares.

António Sardinha in «À Lareira de Castela».

7 comentários:

Anónimo disse...

Nunca gostei de António Sardinha. Não percebo como pode um nacionalista ser iberista.

Reaccionário disse...

Essa acusação é falsa e revela total desconhecimento acerca do pensamento de António Sardinha, que não era iberista. Antes pelo contrário, Sardinha era adepto da ideia de Hispanismo por oposição ao Iberismo. Inclusivamente, são lhe conhecidos diversos escritos contra o Iberismo, que para ele era um produto directo da maçonaria (anti-católica, anti-monárquica, liberal, republicana e democrática).
Mas, afinal, o que entendia António Sardinha por Hispanismo? Leiamos com atenção...

«Não há a "Espanha", – expressão política. Há as "Espanhas", – expressão geográfica. Dentro das "Espanhas", Portugal foi a vocação marítima, enquanto Castela foi a vocação terrestre. Graças a Castela, a Europa se salvou do perigo turco e da anarquia religiosa. Graças a Portugal, novos mundos se dilataram para o domínio da Fé e para o império da Civilização. Assim, por paradoxal que isso possa parecer, é exactamente na separação das duas pátrias que reside a sua unidade imortal. Olhemos para as páginas da história e sem demora se reconhecerá que o desastre de Toro consolidou a vitória de Aljubarrota!» (in À Lareira de Castela)

Fica assim patente que o Hispanismo de António Sardinha é algo puramente espiritual, não-político. Portanto, quem acusa Sardinha de defender uma união ibérica, fá-lo por desconhecimento ou com a intenção de o difamar.

Sobre este assunto existe ainda o livro «António Sardinha e o Iberismo: Acusação Contestada», o qual refuta essa velha e absurda acusação. Uma parte pode ser lida aqui: http://www.angelfire.com/pq/unica/il_pr_1972_antonio_sardinha_e_o_iberismo.htm

Skedsen disse...

O problema é que se confunde iberismo e hispanismo, que são dois conceitos muito diferentes. E essa confusão continua na mente de muitas pessoas, sem que ninguém se proponha a esclarecer o assunto. mas evidente que isso não acontece por acaso. Há interesses em que a confusão aumente, não só neste tema como em muitos outros. Sinal dos tempos...

Reaccionário disse...

Infelizmente as calúnias perduram no tempo. A acusação de iberismo foi muito usada pelos opositores de António Sardinha como forma de desacreditar o Integralismo Lusitano perante a opinião pública. Outra calúnia famosa é de que o Integralismo Lusitano era uma cópia da Action Française, nada mais falso como também pode ser comprovado.
Enfim, na ausência de melhores argumentos, os adversários de Sardinha acusavam-no de «estrangeirismo». O que não deixa de ser curioso, pois muitos deles tinham simpatias por ideias «estrangeiras» como o liberalismo francês ou o socialismo alemão.

Cumprimentos.

ASCENDENS ASCENDENS disse...

A confusão, meus senhores, é o muito "ismo". Em torno dos "ismos", como clubes, sempre há uma política governativa muito ou pouco material que acaba sempre por deslocar o "ismo" mais para um lado ou mais para o outro. Não gosto de "ismos" e penso que nisto tenho bom gosto.

O uso de "ESPANHAS" indica claramente a existência de mais de uma "espanha". Ora, segundo o que os antigos andam a dizer nos livros, as ESPANHAS eram 5 Reinos (depois mais e depois menos, etc). Mas tudo se passa na Península Ibérica.

Falta-me saber se cada Reino é uma ESPANHA. E o que é uma "espanha"? Não sei... mas certamente tem de ter algum significado antigo.

HISPANIA (à romana), é parecido a chamar OLIVAL a um conjunto de oliveiras? É um colectivo? Não sei...

Acho que é mais simples colocar na gaveta os autores e o que foi dito, e nos atermos ao significado da palavra e à intenção original. Só depois deveríamos abrir a gaveta e entender o que aconteceu ao longo dos tempos....

ASCENDENS ASCENDENS disse...

Reaccionário,

Pode o integralismo não ser uma cópia da Action Française, mas que são cara uma da outra são. Devem ter nascido no mesmo hospital à mesma hora. Não se assuste com a excomunhão dada para afugentar a Ac.Fr., pois ela foi um engano lamentável que depois foi retirado por Roma. Acontece que Roma do séc. XX cedeu a muitas pressões do inimigo já montado no poder dos países.

Reaccionário disse...

Bem sei que a excomunhão sobre a AF foi retirada, mas a questão não é essa. A questão está em saber se o IL foi ou não uma cópia da AF. E eu respondo que não. Poderiam existir algumas semelhanças de método, mas não de doutrina. Sobre isso existe um estudo de Hipólito Raposo chamado «Dois Nacionalismos: l'Action Française e o Integralismo Lusitano» onde este desmascara na totalidade essa teoria.