Quem negará ser o melhor dia de Portugal o primeiro de
Dezembro, em que se viu sujeito a Vossa Majestade, e livre do governo d'el-Rei
D. Filipe IV de Castela? Não digo que se viu livre Portugal então de um mau
Príncipe, porque o decoro que se deve às Majestades, o não permite, nem as
excelências pessoais d'el-Rei católico poderão nunca ser menoscabadas. De um
mau governo digo, que se livrou justamente, e nesta parte não fica ofendida a
católica Majestade, a quem sempre veneraremos, pelo que foi enquanto tolerado
Rei deste Reino... Nunca da nação Portuguesa, observantíssima veneradora dos Príncipes
que teve, emanarão indecências descorteses, contra a imunidade de Príncipe tão
grande. (...)
Nas Crónicas de São Francisco se conta que estando o
Seráfico Patriarca em Portugal, vaticinara que nunca este Reino havia de ser
unido a Castela. Muitos, que, sem considerar as coisas as desestimam, negavam
esta predicação vendo que entrou Filipe Segundo na herança do Reino: mas ainda
assim sustentava o doutíssimo Padre Frei Lucas Wandingo, cronista da mesma
Ordem, ser verdadeira a profecia do Santo, porque ainda que unidos os Reinos de
Portugal e Castela num herdeiro, entre si eram distintos, tanto que os naturais
de um Reino se reputavam por estrangeiros no outro; a moeda era diferente e as
provisões se passavam em diferentes línguas, em forma que se não podiam chamar
Reinos unidos. Intentou nos dois anos passados a soberba Castelhana apertar
mais o ponto, e fazer que esta união de Reinos, que havia na pessoa do injusto possuidor,
estivesse também entre os mesmos Reinos. Aqui acudiu São Francisco, e mostrou
com efeito o entendimento de sua profecia, que era não ser Portugal nunca unido
a Castela, e assim quando naquele Reino pretendiam a união de ambos, executámos
nós a total separação...
Frei Francisco Brandão in «Discurso gratulatório sobre o dia da feliz restituição e aclamação da Majestade d'el-Rei D. João», 1642.

1 comentário:
Maravilha. Pedaço de crónica ou discurso que é uma delícia de se ler.
Renovo os parabéns pela acuidade dos temas que tem vindo a abordar ao longo dos meses, a maioria dos quais fazem bem à alma.
Maria
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