27/02/2017

Entrudo Português

Numa época em que Portugal se vê invadido por carnavais brasileiros, vale a pena recordar o nosso Entrudo, através de uma bela música tradicional da Beira Baixa:


Entrudo vem do latim introitu, que quer dizer entrada. O Entrudo corresponde assim aos três dias de entrada ou que precedem a Quaresma. Como sinónimo de Entrudo existe também a palavra Carnaval, que é de origem mais recente, provindo do italiano Carnevale, e referindo-se às carnes especialmente consumidas nos dias de Entrudo. Por esse motivo, em Portugal é comum chamar-se Terça-Feira Gorda ao dia de Carnaval.

7 comentários:

Pedro Oliveira disse...

Ora lá está! Nem mais.
Aqui nas aldeias ainda é o entrudo que se faz. O carnaval é quase apenas representado pelas crianças das escolas. Há poucos anos via-se nas aldeias gente coberta com lençóis brancos, e disfarces, que andavam pela aldeia a pregar partidas e sustos. Fazia-se o funeral do burro, e coisas assim.

Reaccionário disse...

Caro Pedro,

Obrigado pelo seu comentário.
Desconheço o funeral do burro. Em que consiste?

Cumprimento.

Ferdinando dos Reis Falcão disse...

Em Goa também festejamos o carnaval com festas e Entrudo. A palavra 'Entrudo' usam-se vulgarmente que tornou a ser "Intruz' em Concanim, a língua local.
As festas começam no Sábado de tarde chamando-lhe 'Sabado Gordo'. João

Anónimo disse...

Infelizmente, meus amigos, o espírito do Entrudo genuíno vai-se esfumando entre as novas gerações. Dou-lhes um exemplo que me entristece: tenho um filho na primária a quem as professoras pediram que levasse um fato de super-herói, como todas as restantes crianças, para desfilar pela vila. Creio que as próprias professoras ignoram - ou desprezam - as raízes pagãs da celebração, ligada à sã e benfazeja vida humilde do trabalho agrícola e do contacto com a terra e a lavoura. Isto tudo aponta para a degenerescência da nossa sociedade, que esquece as suas raízes e história e adopta até as tradições de outras... Sic transit gloria mundi.

José Mendonça

Reaccionário disse...

José Mendonça,

Tem a certeza das raízes pagãs do Entrudo? Já viu que Entrudo quer dizer entrada e que o seu dia é na véspera da Quaresma? E também já viu que o Entrudo termina sempre com a morte ou queima de algo que simboliza todos os pecados colectivos cometidos no ano anterior? Acrescente-se ainda que a Quaresma é a época por excelência em que se faz penitência dos nossos pecados. Por tudo isto, creio que o Entrudo liga perfeitamente com a Quaresma, e portanto, parece mais cristão do que pagão. Não vejo como as diabruras dos chocalheiros e a queima do "Bicho" se possa relacionar com a natureza, a agricultura, etc.

Pedro Oliveira disse...

Ora aqui estou novamente por causa do enterro do burro... O problema é que não me consigo lembrar se era uma procissão, enterro ... Tive a oportunidade de perguntar a uma familiar, mas passou-me.

O José estava a dizer das raízes pagãs unidas a coisas salutares etc.. e quero comentar que as coisas pagãs que ficaram como católicas, são aquelas que coincidem com o catolicismo e que o catolicismo completa ou expurga. O paganismo por si mesmo não dá sentido ou credibilidade a coisa alguma.

Cumprimentos a todos.

Anónimo disse...

Caríssimo Reaccionário,

Como sempre, as suas esclarecidas palavras são pertinentes, e agradeço-as.
Todavia, sou forçado a discordar da sua posição. Creio ser muito redutor para a compreensão do fenómeno ignorar as suas origens pagãs (desde logo greco-romanas, mas também celtas e germânicas) só porque actualmente ele se identifica, ou parece identificar-se, mais com o Catolicismo.

O facto de entrudo significar entrada e de, em alguns casos, terminar com a queima de algo (que não tem necessariamente de simbolizar os pecados cometidos; pode simbolizar a maior luz solar que vem com o crescimento dos dias até ao solstício de verão, tão necessária às sementeiras, ou purificação, regeneração e fecundação dos campos para preparar a lavoura...) parece-me que clarifica a essência dual do ritual: por um lado, é um ritual de passagem, transição, e por outro é um ritual de inversão.

Enquanto ritual de passagem, trata-se em grande parte da transição da estação fria para a estação quente. Estamos sempre no campo da dualidade: frio-quente, escuro-claro, morrer-renascer, noite-dia, etc. As festividades assinalavam sobretudo a fertilidade. Entre os germânicos era costume celebrar-se isto com uma procissão em honra de Freyr e usar disfarces de animais (Tácito descreve este costume algures no final do século I a. C.).
Do mesmo modo, o termo "Carnevale" pode bem estar associado ao consumo da última carne reservada para o Inverno e que não se pode conservar mais, seguindo-se um período de jejum.

Enquanto ritual de inversão, trata-se em grande parte da representação da dualidade caos-ordem. É de novo a passagem de um estado de coisas a outro, assinalando sobretudo a passagem de um estado indesejado - embora sempre necessário, porque natural - para outro desejado. Passa-se de um estado em que a ordem regular é afectada pela desordem regular, e em que essa transição é assinalada. A origem das "diabruras dos chocalheiros" pode ter aqui a sua origem mais provável.

A antropologia e etnografia têm confirmado estas origens pagãs do entrudo. E claro, o Pedro Oliveira tem razão ao apontar a integração de certos elementos pagãos no Catolicismo. O que me parece redutor é negar as origens pagãs do entrudo e tentar encontrar a sua origem exclusivamente no Catolicismo.

Desculpem se me alonguei. E mais haveria ainda para dizer sobre isto. Talvez fique para outra ocasião. Cumprimentos a todos.

José Mendonça