30/01/2018

O Punhal dos Corcundas Nº 20 (II)

(continuação da Parte I)

Lugar do Paço da Inquisição, hoje Teatro D. Maria II

Enfim tanto dá a água na pedra, que chega a consumi-la e gastá-la de todo, e outro tanto sucedeu neste Reino afrancesado, onde corriam livremente as mais furiosas diatribes contra o S. Ofício; e por isso a doutrina de ser indispensável a extinção do Tribunal da Fé se vulgarizou de tal maneira, que todo o Português medianamente sábio teria pejo de sustentar a contraria por mais bem fundada que lhe parecesse, que a tanto chega o Despotismo Filosófico dos nossos dias! Acrescia o ressentimento de vários adeptos, que em melhores tempos figurariam como partes essenciais nos autos-de-fé, mas que por especial indulgência do S. Ofício foram apenas exortados e repreendidos, para que não tardasse mais outra solene verificação de que poupar tais inimigos é condenar-se a morrer-lhes nas mãos...
Exultaram os Pedreiros deste como ensaio de mais claros triunfos; e por isso em Coimbra manifestaram o seu gozo, acudindo às portas do Tribunal extinto, e deitando foguetes no meio de espantosos alaridos em tempo que já dormiam os habitantes da cidade, porque os tais heróis folgam muito destas manobras feitas às escuras. Seguiu-se a estrondosa revista dos cárceres, onde se via tudo o que podia exaltar a imaginação, e acender o justo rancor de todos os Portugueses, menos as vítimas, que faltaram absolutamente!!! Forjaram-se calúnias, inventaram-se formas exóticas de castigar os réus, e a própria cal vermelha das paredes interiores foi denunciada como sangue das vítimas! Arrombaram-se os cartórios (medida constitucional), furtaram-se muitos processos inteiros, e foi pena que nunca saíssem da mão de seus descobridores, que talvez por filantropia não quisessem tocar nos defeitos graves do S. Ofício, quando por outra parte lhos assacavam a seu bel-prazer... 
Ainda não contente a fúria dos liberais, decretou a solene demolição dos cárceres (parece que lhe adivinhava o coração o perigo iminente de serem ainda os seus povoadores) e para a execução desta providência foi necessário que se gastassem avultadas somas, e, o que é ainda mais próprio deste século de extravagâncias, a sala principal do S. Ofício de Évora destinou-se, valha a verdade, para local de sociedades maçónicas... Tanto mudam os homens e as coisas!!! Nada mais fácil que tapar de uma vez a boca aos inimigos do S. ofício. Muito embora não penetrem os indiferentistas modernos a justíssima causa desse impenetrável e misterioso segredo, que até certo ponto se guarda nos processos. Quando os negócios da Fé eram os que mais doíam aos Portugueses, não se estranhava coisa alguma destas, e os bons Católicos perdoavam de boamente ao S. Ofício que ele ocultasse muito do que só poderia irritar e escandalizar os fiéis. Depois que começou a grassar (até nas próprias classes que deviam sobressair em zelo e actividade para tudo que fosse promover a glória do Cristianismo) essa maldita indiferença para tudo que é sobrenatural e Divino, começaram também de estranhar-se os rigores do S. Ofício, que teve de abrandá-los, e conformar-se nesta parte às opiniões do século... O grito de usurpação dos direitos Episcopais é agora o mais indiscreto e menos atendível. Já mostrou a experiência que os Excelentíssimos Ordinários carecem da maior parte da força que acompanhava todos os procedimentos do S. Ofício. Saíram impressos nas cidades episcopais alguns escritos obscenos, e ímpios, e não vi que saíssem Pastorais a desviarem o rebanho dos pastos venenosos; o que deve cortar pela raiz o ciúme de alguns Bispos que se lastimavam dessa pretendida usurpação, que era mais um favor, e um auxílio poderoso, que sustentava o ministério Episcopal, do que um atentado contra os seus inauferíveis direitos, nem os filósofos do tempo adularam os Bispos, e trataram de lhes agravar a ferida, senão com o doloso intuito de enervarem o poder do S. Ofício, que era o único de que mais se temiam, e que mais obstava aos progressos da Maçonaria. Era tão poderosa a ascendência do Tribunal sobre os malfadados vingadores de Adonirão, que assim mesmo debilitado, enfraquecido, e posto numa certa nulidade, tinha ainda forças de sobejo para lhes estorvar as suas reuniões, e impedir que se metessem a recrutar impunemente, e que fazendo gala do sambenito (o verdadeiro ficava-lhes a morrer!) preparassem, e adereçassem as lojas dos seus paninhos envernizados, de suas mitras, esquadrias, e mais insígnias e utensílios de lata, etc., etc., etc.

Doces despojos
Tão bem logrados
Enquanto Deus,
Enquanto os fados
O consentiam!

Ainda bem que na invenção e descoberta da Farraparia maçónica leu toda a cidade de Coimbra duas verdades muito importantes, e da maior consequência para o futuro. 1.ª A existência dos Pedreiros Livres, que era impugnada por certos heróis, aos quais ou faltava o senso comum, ou sobejava a malícia para encobrirem deste modo os seus caríssimos irmãos. 2.ª A urgente necessidade da imediata restituição do Tribunal do S. Ofício, o único que pode fazer uma guerra bem-sucedida ao Maçonismo, que só vigiado de perto, contrariado em seus planos, e ameaçado de jazer, ou jazendo de facto nos cárceres do S. Ofício, é que poderá tomar juízo. Entrementes para que o tal Sr. Maçonismo, tão presunçoso como depravado, não cuide que só contei histórias e disse algumas chalaças, e que ele esgotou a matéria, e fez um papel brilhantíssimo no Salão das Necessidades, farei um par de observações sobre a estrepitosa Sessão em que foi abolido o Tribunal da Fé, e caminharei, depois senão a uma apologia formal, que não é agora do meu intento, pelo menos a um ensaio de apologia, que não será de todo inútil para as crianças que a lerem, e poderá consolar os bons Portugueses, para os quais já tarda muito a desejada restituição de um Tribunal, a quem devemos o ser Católicos; pois que seria de nós se as heresias de Lutero e Calvino tivessem penetrado e lavrado impunemente neste Reino!!

Erros, contradições, e sandices dos tresloucados e furibundos Preopinantes, quando fizeram abolir o Tribunal da Fé...

Se ao tempo em que eu via sair de Coimbra no meio de Verdeais e homens de vara um carro atulhado de estudantes, ou vadios, ou facciosos, ou amadores de novidades prejudiciais à ordem pública, me dissesse algum dos circunstantes que aplaudiam esta rigorosa, mas indispensável medida do Vice-Reitor José Monteiro da Rocha: "Aquele de horrenda catadura que vês estendido na carreta em ar meditabundo, propriedade de ciência que faz objecto de seus estudos; e assim com a fisionomia de cabeça de motim, ou chefe de seita... esse mesmo há de governar ainda os Portugueses, há de ser ouvido pelos maiores sábios da Nação como oráculo, e para te dizer de uma vez até onde chegará a sua poderosa influência, há de extinguir o Tribunal do Santo Ofício, e ninguém abrirá bico diante dele para o impugnar ou contradizer... eu pedia a quem tal me dissesse que ninguém mais o ouvisse, temendo que o remetessem de envolta com os heróis do carro, mas para outro destino, a saber, Casa de Orates... A que chegámos no tempo constitucional!! Tudo isso vimos, e o vimos calados e tranquilos!!! Não quero agora trabalhar os nossos Ixiões, a quem as nuvens pareceram Deusas... Apareça em Cena o novo Fayel ou Hamlet, o pavoroso Diário de Cortes nº 42, que nos regalou as entranhas com os debates ou rebates falsos da sessão de 26 de Março de 1821, e vejamos como ele fica depois da esfrega Histórico-crítica, que lhe tenho preparado.

Texto

Esta bula (a da instituição do Tribunal da Fé) foi recebida por agrado pelo Rei D. João III, sem saber que recebia com ela a infâmia e a desgraça deste Reino.

Censura e comentário

Bem sei, meu Português à força (vai o C plicado, se o quiseres sem ela, farás o que te parecer melhor) que essa famigerada bula não poderia nunca ser ouvida com agrado nos Congressos de Satanás, Belzebu, Astaroth, Asmodeu, e outros que tais... porém um Rei Católico e verdadeiro Pai dos seus vassalos (não tenhas medo a este papão), e verdadeiro Pai dos seus vassalos, muito bem inteirado do que sucedera em Lisboa no tempo de seu Augusto Pai, e de quanto era inflamável o zelo dos Portugueses em tudo o que respeitava à santa Religião dos seus maiores; e vendo-se por outra parte ameaçado das heresias de Lutero e Calvino, que só lhe traziam a perdição eterna de seus vassalos, assentou que era melhor obstar aos males em seu princípio, que ter de chorar dentro em poucos anos outra matança e destruição de seus filhos, muito acima da que se perpetrara em Lisboa debaixo de pretextos de Judaísmo... Por isso alcançou, apesar de grandes obstáculos que lhe foram suscitados na Cúria Romana, a bula da instituição do Tribunal, que Santo Ofício já o havia nestes Reinos, e os erros e heresias costumavam declarar-se aos Inquisidores gerais, que foram tirados das Ordens de S. Francisco e de S. Domingos. Soube El-Rei perfeitamente o que recebia, e soube que afastava dos seus Reinos, quanto nele era, a infâmia de ser suspeito de heresia, e a desgraça de correr após as novidades do século e de perecer eternamente... Ora tudo isto é de uma verdade inquestionável; mas era tal o predomínio das opiniões filosóficas neste Reino, que a erecção do Tribunal do Santo Ofício costumava ser um grande apuro em que se viam os Pregadores nas exéquias deste Soberano, que é de tarifa celebrarem-se anualmente pela Universidade de Coimbra... Não o foi para mim, que em 1819 tirei desse mesmo princípio a maior glória do Restaurador da Academia, e de bom grado quis passar por intolerante e fanático, ou por insecto asqueroso, e imundo resto do Tribunal de sangue, como depois me chamou certo escritor liberalíssimo.

(continuação, Parte III)

28/01/2018

O Punhal dos Corcundas Nº 20 (I)


O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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N.º 20

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Ostendam gentibus nuditatem tuam.

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EXTINÇÃO DO TRIBUNAL DO SANTO OFÍCIO.

Com que autoridade e com que bulas se decidiu nas Cortes Pseudo-Lusitanas que fosse abolido o Tribunal do S. Ofício? Por autoridade do Príncipe dos Mações ou Satanás, fielmente representado pelos seus Lugar-Tenentes, que dominavam o Congresso; e pelas bulas que assistiam a esse reformadores intrusos para levarem adiante quanto fosse impiedade e sacrilégio.
Um Tribunal instituído por autoridade Apostólica de acordo com o Império civil, como se vê da bula do S. Padre Paulo III expedida em 1536, debaixo dos auspícios e rogativas do Senhor D. João III, é deitado por terra sem que fosse ouvida a Sé Apostólica, nem o mui alto e mui poderoso Rei o Senhor D. João VI Rei de Portugal!!! Ora viva a Jurisprudência moderna, que ensinou e habilitou os Juízes leigos para fazerem impunemente destas maravilhas!! E querem que o mundo seja feliz enquanto houver tais abortos de maldade? Não, não... ele caminhará desenfreadamente ao último precipício; mas ai mil vezes, ai de quem se deixa perder neste labirinto de opiniões modernas, e tem por coisa indiferente provocar a ira de Deus! Não cuideis miseráveis Teólogos e misérrimos Canonistas, ainda tão contentes do melzinho que vos passou pelos beiços, não cuideis que estremeço, como vos sucede milhares de vezes, que me tenham por homem abusado, supersticioso, e ignorante, pois ainda no século 19 me abalanço a sustentar a causa desse Tribunal de sangue, que vós tachais de afronta e opróbrio da humanidade! Bem sei que o vosso predilecto Montesquieu, citado triunfalmente na Enciclopédia, chega a dizer que a maior prova alegável nos séculos futuros, para se defender que o século 18 ainda foi século de ignorância, é o existir em alguns Reinos da Europa o Tribunal do S. Ofício... mas que se me dá a mim deste sinalado precursor dos maiores ímpios que tem desonrado o Universo e a espécie humana? O grande espírito das leis bem pequeno se mostra em vários assuntos religiosos, e as Cartas Persanas estão bem longe de serem oráculos para quem tiver o juízo no seu lugar. A vossa enfiada de campanudos autores, desde o Protestante ou Remonstrante Limborch até ao moderno e trânsfuga Lorente, não me mete medo, nem eu o terei nunca a essas avantesmas literárias, que, tirado certo verniz que os abrilhanta, são bem pouco ou nada, e só tem valor no conceito de papalvos, que por terem cursado um aula elementar ou lido quatro regras de livros pequenos mui asseados e mui douradinhos, tem para si que ficaram arvorados em preceptores do género humano!! Chegámos a um tempo em que a verdadeira apologia do Tribunal do S. Ofício roda sobre um eixo firme e indestrutível, qual é o mais que Vatiniano ódio que lhe tem os Pedreiros Livres. É agora ocioso ir buscar no grande no incomparável S. Agostinho as provas da necessidade de se usar muitas vezes de coacção com os hereges, ou remeter os leitores para as muitas passagens das obras deste Santo Doutor e verdadeiro luminar da Igreja, que se a princípio foi sobremaneira estudioso do espírito de mansidão, veio depois a conhecer pela mais funesta experiência que também o medo repara grandes males, e grangeia muitos bens. Nós igualmente avisados pela experiência, conhecemos que a Seita Maçónica se encaminha por todas as artes e meios a lançar mão dos governos, para assim destruir mais comodamente a Igreja do Redentor, e que toda humana e filantrópica, só para se fazer benquista dos povos e adormecer os Soberanos, tem feito, quando lhe chega a ocasião, mais estragos num só dia do que fizeram os autos da Fé em duzentos anos. Tanta compaixão, tantas lágrimas pelo bem merecido suplício de um Judeu relapso, dogmatizante, e perturbador do sossego público, e tanta indiferença por esses centenares de Sacerdotes que foram septembrizados em 1792!! Se a França tivesse uma Inquisição vigilante, e cuidadosa de proibir maus livros, nunca se teria divulgado a Enciclopédia, e morreriam nas trevas ou no borrador de seus ímpios autores as blasfémias vomitadas no século 18 contra a santidade e verdade do Cristianismo. E que seria melhor, terem vinte Filósofos a sorte do Cavalheiro de la Barre, ou perecerem por sua causa bons três milhões de vítimas inocentes? É o espírito revolucionário quem perturba os Estados, quem alaga de ruínas e de sangue as cidades e os campos, e no meio de tudo isto merece perdão, e nunca deverá ser arguido de obstar aos progressos do entendimento, e à felicidade dos Impérios!! Os mais intolerantes de todos os sectários que bramem, espumam de raiva, apenas sonharam alguma espécie de resistência, e que levados de meras suspeitas, vexam, maltratam e desterram sem dizerem porquê, nem darem lugar à mais justa defesa... são estes, bom Deus, são estes os queixosos do mistério que se guarda nos processos do S. Ofício, e os que se atrevem a pintar com vivas cores o estado de violência, e de terror a que se chega facilmente, quando uma simples denúncia, uma suspeita fazem as vezes de prova suficiente para ser um homem inquietado e punido!! Lembra-me ao pensar nestas coisas que por ventura o século 19 estará incumbido da gloriosa missão de esgotar as incoerências todas, em que pode cair o espírito humano! Ora aqueles inimigos do Tribunal do S. Ofício partem sempre do que não sabem, nem se atreveram jamais a provar; e nós, seguindo melhor caminho, partimos de sucessos públicos e notórios; e só algum estúpido ou malvado é que não verá eclipsadas e sumidas de todo as antigas sevícias do Tribunal da Fé ante os males incomensuráveis que produziu e vai produzindo a escola de filantropia, a niveladora das condições e das fortunas, a restauradora do século de ouro, a Revolução Francesa.
Só teme a Inquisição quem é suspeito na Fé. Os bons, longe de a temerem, desejam ardentemente que ela se instaure e reassuma os seus direitos. Invejamos de presente a barbaridade dos nossos maiores, e sosseguem as nações estranhas a nosso respeito, escusam de lastimar a nossa ignorância e o nosso atrasamento, que nós teremos ainda mais razão para lastimarmos a sua deplorável cegueira, que só por efeitos dela é que os negócios da Fé se consideram os últimos, e se põem de parte quando é necessário atentar pelos interesses deste mundo. Antes queremos ser pobres, mas Católicos, do que senhores do universo, mas ímpios e libertinos. Se os estrangeiros clamarem, pondo as mãos na cabeça, que perpetrámos um crime de Lesa-Filosofia, nós lhe apontaremos um sem número de crimes de Lesa-Majestade Divina e humana. Honra-nos aquele crime, e os nossos incompetentes juízes deveriam assuntar-se destes últimos, porque cedo ou tarde hão-de ouvir a sentença de um juiz, que não dará quartel nem aos direitos públicos, nem aos sonhados interesses das Nações.
Antes que me chamem declamador, tocarei algumas espécies relativas à Inquisição deste Reino: sabemos quanto foi contrariada em seus princípios, e que a mais atroz calúnia forcejou desde então para a denegrir e aviltar. Sonharam que o embusteiro Sávedra, tomando as vestes, e a equipagem de um Legado a later, fingira Letras Apostólicas, e chegando à corte de Lisboa, conseguira estabelecer o Tribunal do S. Ofício, e abusar da conhecida piedade d'El-Rei D. João III. Tacharam de manhosos e cruéis os muitos perdões, que de autoridade Apostólica foram concedidos aos Judeus deste Reino; e para vermos com que espírito, e boa lógica procedem os adversários da Inquisição, basta dizer que Filipe Limborch no mesmo capítulo em que trata da Inquisição em Portugal, zomba daquelas graças como inúteis e prejudiciais à gente de Nação, e lá para o fim queixa-se de que não se renovassem mais vezes estes perdões, nem fossem atendidas as súplicas endereçadas à Cúria Romana pelos Judeus Portugueses nos fins do século dezassete. Ora aproveitam a condenação do Padre Vieira, que podia ser um grande homem, e abusar dos textos da Sagrada Escritura, seguindo nessa parte o depravado gosto daqueles tempos, e fazendo-se fortes com ela, pensam ter mostrado que o S. Ofício era um perseguidor tão injusto como aleivoso. Ora empregam a mesma condenação, graduando-a de espécie de oráculo para vexar, e atormentar os Jesuítas; e assim costumam inverter os factos para lhes servirem de apoio aos seus intentos e doutrinas. Choram aquele mau tempo dos Índices expurgatórios, que nos obstruía os canais de erudição, e da sabença, e quase nos fazia viver como Africanos selvagens no meio da Europa civilizada; e eu choro ainda mais, porque depois que se limparam e desentupiram esses canais, ainda vi partos literários dessa gente pedreira, que nos indemnizassem das lamentáveis ruínas causadas pela introdução das luzes neste Reino!! (*)

(continuação, Parte II)

(*) Não repito agora o que já disse numa carta que debaixo do nome de = Académico religioso = saiu impressa no número quarto da Mnemosine Lusitana de 4 de Janeiro de 1821, onde mostrei evidentemente que a história verdadeira de Cornélia Bororquia, ou a Vítima da Inquisição, era uma fábula que nesse tempo se assoalhou neste Reino, para dispor os ânimos a fim de que não se estranhasse a extinção do S. Ofício.

26/01/2018

Lutero: herói da Alemanha Comunista


Celebra-se neste ano de 1983 os 500 anos do nascimento de Lutero. Ele nasceu em 10 de Novembro de 1483 e a sua influência é ainda considerável no nosso tempo. Na Alemanha, o Lutherjahr une as duas partes da nação alemã [ocidental e oriental] na comemoração da vida e obra do monge herege que professou na Ordem dos Agostinhos. Filmes, livros, cerimónias oficiais e iniciativas de índole religiosa, chamam a atenção do povo germânico para os remotos tempos do século XV.
No Ocidente, o presidente Karl Carstens inaugurou no Verão uma exposição em Nuremberga e declarou sintomaticamente: «Lutero tornou-se um símbolo de unidade para toda a Alemanha. Nós somos todos herdeiros de Lutero». Bustos, medalhas, colóquios e debates, fazem parte do bric-à-brac, que também inclui uma participação católica...
Na Alemanha de Leste, depois de o terem injuriado como um serventuário dos príncipes e um traidor à causa revolucionária, a elite política entendeu que ele é, a quinhentos anos de distância, um herói. É justamente o chefe do Partido Comunista, o presidente Erich Honecker, que chefia o quadro de honra das comemorações oficiais e foi ele que se lhe referiu como «o iniciador de um grande movimento revolucionário», descrevendo a Bíblia de Lutero como «uma das maiores realizações culturais da nossa história».
O governo do Leste, em cujo território se encontram a maior parte dos locais em que Lutero se movimentou, teve o cuidado de restaurar, à custa de milhões de dólares, as instalações primitivas: Eisleben, onde ele nasceu e morreu, Erfurt, onde se preparou para o sacerdócio católico, Wartburg, onde traduziu o Novo Testamento e, evidentemente, Wittenberg, o berço do Protestantismo. O famoso Lutherjahr da RDA tem uma comissão oficial com 104 membros, 6 membros do Politburo e uma larga equipa de especialistas e burocratas do governo. Honecker e o seu aparelho estão apostados na recuperação do «herói» germânico, o que ajudaria a forjar um mito fundacional e a demonstrar a genuína realidade de uma verdadeira Alemanha no Leste, herdeira e admiradora das suas belas tradições históricas.
Paradoxalmente, este interesse objectivo por Lutero por parte do Leste alemão depara-se com um grande problema. É que Lutero ajudou e incitou os príncipes a liquidar os camponeses revoltosos, que apenas desejavam pôr em prática as teorias de Lutero... Mas o facto é que o interesse alemão é demasiado para se prender a estes pormenores. O Partido Comunista da República Democrática Alemã (RDA) preparou-se antecipadamente e, em 1981, declarou Lutero «precursor da Revolução» e «objectivamente progressista», e contra isto não há nada que objectar. Assim, fica arrumado o monge falaz na galeria honrada dos heróis germânicos, de leste e oeste, penhor de uma revolta contra o Papado, contra o Vaticano, contra a Doutrina Tradicional e, enfim, contra a herança velha de séculos que a Igreja tem à sua guarda.

Adaptado de revista «Futuro Presente», 1984.

23/01/2018

Salmo 42


Fazei-me justiça, ó Deus, e tomai a defesa da minha causa contra gente não santa; do homem iníquo e fraudulento livrai-me, Senhor.
Pois Vós, ó Deus, sois a minha fortaleza, por que então me haveis repelido? Por que ando eu assim triste, oprimido pelo inimigo?
Enviai-me a vossa luz e a vossa verdade; que me guiem e me conduzam até à vossa montanha santa, até à vossa morada.
E eu vou-me aproximar do altar de Deus, do Deus que é a alegria da minha juventude.
Eu Vos louvarei ao som da cítara, Senhor, meu Deus. E tu, minha alma, por que hás-de estar triste e por que alvoroçar-te dentro de mim?
Espera em Deus, que uma vez mais O quero enaltecer, a Ele, salvação minha e meu Deus.

§

Nota: Este salmo é rezado do início de cada Missa Tradicional, sendo apenas omitido nas missas de defuntos e no Tempo da Paixão.

17/01/2018

Informação


Atendendo a um desafio lançado em caixa de comentários, faço saber que o VERITATIS pelos anos de 2011 e 2012 teve a colaboração de um amigo, desde então é apenas e só operado por uma única pessoa: eu próprio, o Reaccionário. Este é o único blogue que possuo.

15/01/2018

A falsidade da soberania do povo


Na sua luta contra a Monarquia que era chamada de tirânica, a Democracia disfarçada em Monarquia Constitucional ou Liberal, transferiu para o povo a soberania do Rei. Assim se abatiam os tronos e se davam aos descontentes motivos de exaltação, estabelecendo entre os reis e os povos, uma oposição que na Monarquia não pode existir.
De elemento obediente, o povo tornou-se autoritário e os reis foram declarados empregados públicos ou mandatários da Nação. De todas as mentiras democráticas, nenhuma mais irrisória do que a da soberania do povo. Da soberania advém a faculdade de declarar o interesse nacional e o poder de o defender; mas o povo nunca atinge o grau de consciência e a unidade de pensar que o exercício da soberania exige. Os únicos soberanos são os chefes políticos, manobrando à sombra de maiorias inconscientes e irresponsáveis. Uma consulta ao sufrágio do povo pode exprimir o seu agrado a estes ou àqueles homens, a uma ou a outra medida, mas nunca o que mais lhe convém, porque não tem capacidade para conhecer do interesse nacional. Só o Rei, com o conselho dos Estados, pode decidir no sentido da maior utilidade colectiva [bem-comum].

Adaptado de «Cartilha Monárquica», 1916.

14/01/2018

Coincidências...


Vale a pena lembrar que em 2008, há precisamente 10 anos, António Costa e Rui Rio participaram no Clube Bilderberg. Na altura, ambos eram autarcas de Lisboa e Porto, respectivamente. Hoje, um é primeiro-ministro, e o outro é líder do maior partido da oposição...

O Clube Bilderberg foi fundado por Józef Hieronim Retinger, judeu sionista e maçon nascido em Cracóvia. Retinger foi também fundador do Movimento Europeu, que está na génese da actual União Europeia.

10/01/2018

O Marxismo e a Ciência


A interpretação marxista é não só estranha à ciência, como também incompatível com ela, como se tem verificado sempre que os materialistas dialécticos, saindo do puro verbalismo teórico, se lançam a iluminar as vias da ciência experimental com a ajuda das suas concepções. Neste caso o desastre foi total. O próprio Engels foi levado a rejeitar, em nome da dialéctica marxista, uma das maiores descobertas do seu tempo: a Segunda Lei da Termodinâmica... E foi em virtude do mesmo princípio... que Lisenko acusava os geneticistas russos de sustentarem uma doutrina radicalmente incompatível com o materialismo dialéctico e, por consequência, necessariamente falsa. Apesar dos desmentidos dos geneticistas russos, Lisenko tinha razão: a teoria do gene como determinante hereditário invariante através de gerações, e mesmo hibridações, é com efeito absolutamente inconciliável com os princípios dialécticos. É por definição uma teoria idealista, dado que se apoia num postulado de invariância.

Jacques Monod, prémio Nobel da Fisiologia (Medicina) em 1965.

01/01/2018

A perda do sentido sobrenatural


Relato na biografia do meu marido, "The Soul of a Lion", que poucos anos após a sua conversão ao Catolicismo, nos Anos 20, ele começou a ensinar na Universidade de Munique.
Munique era uma cidade católica. A maioria dos católicos da época ia à Missa, mas ele sempre dizia que foi ali que começou a preocupar-se com a perda do sentido do sobrenatural entre os católicos. Um incidente, em especial, ofereceu-lhe a prova suficiente, e isso entristecia-o imensamente.
Quando passava por uma porta, o meu marido deixava sempre entrar primeiro os seus alunos, que eram sacerdotes. Um dia, um professor, colega dele, expressou a sua admiração e desagrado: Por que deixa os seus alunos entrar antes de si? Porque são sacerdotes, respondeu o meu marido. Mas eles não possuem Doutoramento. O meu marido ficou arrasado. Valorizar um Doutoramento é uma reacção natural; mas estar ciente da sublimidade do sacerdócio é uma reacção sobrenatural. A atitude daquele professor provava que a sua reacção para o sobrenatural havia erodido.
Isso foi muito antes do Vaticano II. Mas até ao Concílio, a beleza e a sacralidade da Liturgia Tridentina mascarava esse fenómeno.