29/06/2018

A Colónia do Sacramento


Por ordem de el-Rei D. Pedro II, a 1 de Janeiro de 1680 foi fundada por D. Manuel Lobo a Colónia do Santíssimo Sacramento, no estuário do Rio da Prata, a cidade mais antiga do Uruguai.

Contudo, sete meses depois de ter sido fundada, a Colónia do Sacramento foi sitiada e ocupada pelos Espanhóis, que só a devolveram em 1683.


Em 1706 foi novamente capturada por Espanha, que a restituiu em 1715, em virtude do Tratado de Paz de Utrecht, assinado por D. João V e por D. Filipe V de Espanha.

Excerto do Tratado de Utrecht:

Sua Majestade Católica não somente restituirá o Território e Colónia do Sacramento, sita na margem setentrional do Rio da Prata, a sua Majestade Portuguesa; mas cederá assim em seu nome, como de todos os seus Descendentes, Sucessores e Herdeiros de toda a Acção e Direito, que pretendia ter ao dito Território e Colónia, fazendo a Desistência pelos termos mais fortes e mais autênticos, e com todas as Cláusulas que se requerem, como se elas aqui fossem declaradas, para que o dito Território e Colónia fiquem compreendidos nos Domínios da Coroa de Portugal, e pertencendo a sua Majestade Portuguesa, seus Descendentes, Sucessores e Herdeiros como parte dos seus Estados, com todos os direitos de Soberania, Poder absoluto e inteiro Domínio, sem que sua Majestade Católica, seus Descendentes, Sucessores e Herdeiros intentem jamais perturbar a dita posse a sua Majestade Portuguesa, seus Descendentes, Sucessores e Herdeiros: E em virtude desta Sessão ficará sem efeito ou vigor o Tratado Provisional, que se celebrou entre as duas Coroas aos sete dias do mês de Maio de mil e seiscentos e oitenta e um; mas sua Majestade Portuguesa se obriga a não consentir que alguma Nação da Europa, que não seja a Portuguesa, se possa estabelecer ou comerciar na dita Colónia directa nem indirectamente, por qualquer pretexto que for, e muito menos dar mão e ajuda a qualquer Nação Estrangeira, para que possa introduzir Comércio algum nos domínios que pertencem à Coroa de Espanha, o que também está proibido aos mesmos Vassalos de sua Majestade Portuguesa.


Apesar do Tratado de Paz de Utrecht, o território foi novamente atacado por Espanha e a Colónia do Sacramento esteve cercada entre 1735 e 1737.

Em 1750 é assinado o Tratado de Madrid, no qual Portugal cede o território à Espanha. Mas o tratado nunca chega a cumprir efeito e acaba anulado por vontade de ambos os Reinos.

A Colónia do Sacramento foi mais uma vez assaltada pelos Espanhóis em 1763, sendo devolvida nesse mesmo ano.

Em 1777 o território é novamente ocupado por Espanha. E o Tratado de Santo Ildefonso, do mesmo ano, assegura a ocupação espanhola.

A cidade só voltou à posse de Portugal a 20 de Janeiro de 1817, com a reconquista da Cisplatina, empreendida por D. João VI.

Mas com a independência do Brasil em 1822, a Colónia do Santíssimo Sacramento ficou definitivamente desvinculada de Portugal.

26/06/2018

Não se pode servir a dois senhores


Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou há-de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.

Evangelho segundo São Mateus VI, 24

25/06/2018

Verdade e Realismo


A verdade consiste no acordo do pensamento com a realidade. E por isso, na sua obra A Metafísica, Aristóteles identifica a verdade com o ser e a falsidade com o não-ser. Com efeito, escreve: «Uma coisa tem tanto de ser como de verdade». E acrescenta: «Ser e não-ser são, no sentido mais estrito, verdade e falsidade». Significa isto que é o ser e o não-ser que determinam a verdade e a falsidade dos juízos de existência e não-existência. E exemplifica: «Não é pelo facto de pensarmos com verdade que és branco, que tu és branco, mas é porque tu és branco que, ao afirmá-lo, dizemos a verdade».

Em oposição a isto, temos o Subjectivismo.

20/06/2018

Portugal: um exemplo sem igual


Em todas as regiões do mundo por onde passei, sempre que via uma ponte perguntava quem a construíra e sempre me respondiam: os Portugueses. Diante de uma estrada e ao fazer semelhante pergunta, a resposta era idêntica: os Portugueses. E quando se tratava de uma igreja ou de uma fortaleza, sempre a mesma resposta: os Portugueses, os Portugueses, os Portugueses.
O meu desejo seria que, se Marrocos se tornasse algum dia esquimó ou chinês, os nossos sucessores lá encontrassem tantas reminiscências francesas como portuguesas nós temos achado.

Marechal Hubert Lyautey, General-Residente de França em Marrocos (1912-1925).

11/06/2018

O intendente Pina Manique


Diogo Inácio de Pina Manique (1733-1805). Era formado em Leis pela Universidade de Coimbra, tendo demonstrado sempre muito zelo no desempenho de elevados cargos e delicadas missões. Ganhou por isso a confiança do Marquês de Pombal, que o encarregou de variados serviços. Criou os serviços aduaneiros e fez o censo da população portuguesa em 1776. Após a queda do Marquês de Pombal (1777), foi nomeado Intendente-Geral da Polícia, cargo que acumulou com outros de grande importância, podendo dizer-se ter sido uma das figuras políticas de maior relevo durante a «Viradeira», no reinado de D. Maria I. Desenvolveu dura repressão contra as ideias liberais, criando um corpo de polícia especial para combater a espionagem e a literatura revolucionária, o que obrigou ao exílio de alguns intelectuais e artistas. Em Lisboa, mandou construir o Teatro de São Carlos e instalar a iluminação pública. Fundou a Casa Pia, que começou a funcionar em 1781, no Castelo de São Jorge, como recolhimento de pobres mendigos. Foi demitido em 1803 pelo regente D. João, por pressão diplomática de Napoleão Bonaparte. Faleceu dois anos depois.

Fonte: «Focus: Enciclopédia Internacional», Volume III, 1965/1970.

08/06/2018

Portugal e o Sagrado Coração de Jesus


Apesar de desatendida em França desde 1689, a Providência não desistia do Seu propósito de valer ao mundo e às nações pela aceitação oficial do reinado de Amor do SS. Coração de Jesus. E, sem novas mensagens, sem conhecimento mesmo, ao que parece, da mensagem [de S. Margarida Maria Alacoque] a Luís XIV, surge na Igreja, setenta anos mais tarde, uma nobilíssima Rainha a cumprir à letra, por inspiração da sua terníssima piedade, quase tudo o que o Divino Coração tinha pedido e o Eterno Pai queria. Foi a Senhora D. Maria I, Rainha de Portugal.
Os portugueses do seu tempo proclamaram-na «Mãe da Pátria» e deram-lhe o cognome de «Piedosa» porque à sua piedade e ao seu compassivo coração de Mãe deveram o termo de indizíveis sofrimentos e horrorosas crueldades de vinte anos do reinado precedente, assim como a restauração da concórdia, da confiança e da paz com que o Reino voltou a ser a «Casa de Família» de todos os portugueses.
Mas o seu glorioso título à gratidão nacional está no que a nossa excelsa Rainha fez pela exaltação da realeza do SS. Coração de Jesus, atraindo com isso para Portugal singulares bênçãos de predilecção do Senhor, e alcançando para si e para a sua Pátria um lugar de altíssimo destaque na História da Igreja, com admiração e simpatia das outras nações católicas.
Vejamos, por agora só em resumo, o que foi a obra da Senhora D. Maria I, deixando para os números seguintes de O Monumento a descrição pormenorizada de tão formosos sucessos.
1.º Em 1777, ano em que subiu ao trono, alcança do Papa Pio VI, Ofício e Missa do Coração de Jesus, com rito duplex maior. É a 1ª vez que em Portugal se reza e se faz a festa do Divino Coração. No Patriarcado foi dia santo de guarda decretado em Pastoral de 22 de Maio do mesmo ano. A festa ao Sagrado Coração só depois de 1856 foi decretada para toda a Igreja.
2.º Em 5 de Agosto de 1778, a instâncias da Rainha, Pio VI dá o maior relevo à festa do Coração de Jesus, concedendo novo Ofício e Missa, elevando-a ao rito de 1ª classe, decretando que seja dia santo de guarda e tenha vigília com jejum em Portugal e seus domínios, isto é, nas cinco partes do mundo. Nenhuma nação pedira isto ainda, e assim se fez em Portugal até à reforma do Direito Canónico em 1918.
3.º Em Fevereiro de 1778 começaram as obras de construção do Convento, e em Outubro de 1779, as da Basílica do SS. Coração de Jesus, na Estrela, em Lisboa, para cumprimento do voto feito pela Rainha em 1760 se tivesse sucessor para o trono. E em 15 de Novembro de 1789, precisamente um século depois da mensagem a Luís XIV e no mesmo ano em que a Revolução Francesa começava a fazer aluir os alicerces do trono e da própria França, era sagrada solenissimamente e aberta ao culto com participação activa de toda a Casa Real, da côrte, do exército e do povo, a nova Basílica, a primeira que em todo o mundo foi erguida e consagrada ao Divino Coração.
4.º A Rainha, em Junho de 1789 e como preparação para a consagração da Basílica, restaurou e arvorou em Cavalaria do Divino Rei, as três Ordens Militares, de Cristo, S. Bento de Avis e S. Tiago da Espada, ordenando que os grã-cruzes e comendadores tivessem nas suas insígnias o Coração de Jesus; que, estando em Lisboa, assistissem todos os anos com a Família Real, à festa do Sagrado Coração naquela Basílica e que o dia da festa fosse de gala nacional. E assim se cumpriu fielmente quase até à queda da monarquia em 1910 este preito da vassalagem de Portugal representado pelo seu Rei, família real, governo, exército, todo o elemento oficial da nação.
Também nisto, Portugal foi sem exemplo.

Simão de Xavier in jornal «O Monumento», 1 de Dezembro de 1938.

06/06/2018

Do fim para que somos criados


O homem é criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus nosso Senhor e, mediante isso, salvar a sua alma; e as outras coisas sobre a face da Terra são criadas para o homem, para que o ajudem na prossecução do fim para que é criado. Donde se segue que o homem tanto há-de usar delas quanto o ajudem para o seu fim, e tanto deve afastar-se delas quanto para isso o impedem. Pelo que é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre-arbítrio, e não lhe está proibido; de tal maneira que não queiramos da nossa parte mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida curta, e consequentemente em tudo o mais; mas somente desejando e elegendo o que mais nos conduz ao fim para que somos criados.

Santo Inácio de Loyola in «Exercícios Espirituais», 1548.

04/06/2018

Maurras, mentor do Patriotismo português?


A verdade, que eu pretendo fazer ressaltar destas páginas, e das que lhes hão-de seguir, é que o nosso nacionalismo [patriotismo] não precisa socorrer-se dos mestres franceses da Contra-Revolução, porquanto, graças a Deus, os tem em casa, muito seus, os quais nada devem aos estranhos, como facilmente poderá averiguá-lo quem queira dar-se a esse trabalho, antes de fulminar o nosso apostolado, com críticas, talvez muito espirituosas, mas sem nenhuma consistência.
No século passado, ainda a Action Française estava na massa dos impossíveis, já nós possuíamos os nossos doutrinadores da Contra-Revolução, em cujos escritos de modo algum se reflectia a influência dos contra-revolucionários franceses dessa época, alguns dos quais surgiram até posteriormente, e revelando-se, nas suas obras, de uma forma incompleta, o que não sucedia aos nossos Gamas e Macedos, que eram declarada e integralmente reaccionários.
Nós podemo-nos orgulhar de ter mestres, e dos melhores, como nos temos esforçado por demonstrar em mais de doze anos de bom combate, e os quais só aguardam ser conhecidos e meditados, para que a sua superioridade se imponha a quantos de boa-fé queiram formar a sua cultura nacionalista [patriótica]. «Nós temos tudo feito», como ainda há tempos me dizia o Sr. Dr. Hipólito Raposo, ao percorrermos em comum algumas páginas da Dissertação a Favor da Monarquia.
De resto, o que certos pedagogos se obstinam em recusar ao Pensamento nacionalista [patriótico] português, não o recusam a estranhos. O próprio Charles Maurras, que esses críticos de escada abaixo têm querido arvorar em nosso mentor, é o primeiro a reconhecer a base tradicional do nosso doutrinarismo, como tive ensejo de o verificar, quando um dia me recebeu no seu gabinete da Action Française, e lhe dei a ler alguns passos de O Novo Príncipe do doutor José da Gama e Castro, um dos quais Maurras classificou de «luminoso», acrescentando, ao inquirir da sua data, que aquilo se escrevera quando ele ainda nem era nascido.

Fernando Campos in «A Genealogia do Pensamento Nacionalista», 1931.

§

Nota: Admite-se aqui o uso da palavra "nacionalismo" no sentido impróprio do termo, como sinónimo de "patriotismo". Pois como é sabido, o Nacionalismo é uma concepção napoleónica que nasceu do dogma liberal da independência – independência do Povo (Nação) face ao seu Soberano.