04/06/2018

Maurras, mentor do Patriotismo português?


A verdade, que eu pretendo fazer ressaltar destas páginas, e das que lhes hão-de seguir, é que o nosso nacionalismo [patriotismo] não precisa socorrer-se dos mestres franceses da Contra-Revolução, porquanto, graças a Deus, os tem em casa, muito seus, os quais nada devem aos estranhos, como facilmente poderá averiguá-lo quem queira dar-se a esse trabalho, antes de fulminar o nosso apostolado, com críticas, talvez muito espirituosas, mas sem nenhuma consistência.
No século passado, ainda a Action Française estava na massa dos impossíveis, já nós possuíamos os nossos doutrinadores da Contra-Revolução, em cujos escritos de modo algum se reflectia a influência dos contra-revolucionários franceses dessa época, alguns dos quais surgiram até posteriormente, e revelando-se, nas suas obras, de uma forma incompleta, o que não sucedia aos nossos Gamas e Macedos, que eram declarada e integralmente reaccionários.
Nós podemo-nos orgulhar de ter mestres, e dos melhores, como nos temos esforçado por demonstrar em mais de doze anos de bom combate, e os quais só aguardam ser conhecidos e meditados, para que a sua superioridade se imponha a quantos de boa-fé queiram formar a sua cultura nacionalista [patriótica]. «Nós temos tudo feito», como ainda há tempos me dizia o Sr. Dr. Hipólito Raposo, ao percorrermos em comum algumas páginas da Dissertação a Favor da Monarquia.
De resto, o que certos pedagogos se obstinam em recusar ao Pensamento nacionalista [patriótico] português, não o recusam a estranhos. O próprio Charles Maurras, que esses críticos de escada abaixo têm querido arvorar em nosso mentor, é o primeiro a reconhecer a base tradicional do nosso doutrinarismo, como tive ensejo de o verificar, quando um dia me recebeu no seu gabinete da Action Française, e lhe dei a ler alguns passos de O Novo Príncipe do doutor José da Gama e Castro, um dos quais Maurras classificou de «luminoso», acrescentando, ao inquirir da sua data, que aquilo se escrevera quando ele ainda nem era nascido.

Fernando Campos in «A Genealogia do Pensamento Nacionalista», 1931.

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Nota: Admite-se aqui o uso da palavra "nacionalismo" no sentido impróprio do termo, como sinónimo de "patriotismo". Pois como é sabido, o Nacionalismo é uma concepção napoleónica que nasceu do dogma liberal da independência – independência do Povo (Nação) face ao seu Soberano. O que só demonstra que os autores do século XX ficaram muito aquém dos mestres do século XIX.

4 comentários:

Telmo Pereira disse...

Maurras considera "luminoso" o 'Novo Príncipe' de Gama e Castro, que apesar de tentar defender os direitos de D. Miguel, da Monarquia e da Igreja em Portugal, e de formular um plano político e social que considerava adequado ao seu tempo, já revelava a decadência literária, a pobreza do argumento e a fraca analogia, comparado com outros autores portugueses, como o Marquês de Penalva, autor de mencionado livro "Dissertação a Favor da Monarchia". A sua aprovação ao "Novo Príncipe" só prova o que Fernando Campos prediz: "Nós podemo-nos orgulhar de ter mestres, e dos melhores", criticando aqueles que acharam em Maurras o vislumbre da Contra-Revolução.

Gang2 Ervilha disse...

A nota de rodapé, estou completamente de acordo. No entanto quanto ao termo "Nação", donde deriva "nacionalismo", existe uma hipótese, que escutei de um professor medievista, muito recentemente. Ele aventa a hipótese de uma influência dos ditos "marranos" no que toca á mudança de "Pátria" para "Nação". Diz respeito ao facto de eles se nomearam entre si,e isto séculos antes da Ripublika se implantar, como "os natio". E era de tal maneira em voga esta auto-denominação, que assim um marrano reconhecia a outro marrano de terras mais longínquas. Pouco importava a distância.

A tese do professor, é que a influência do folclore hebraico é tão grande na maçonaria, que ele desconfia que "Nação" é uma projecção do termo marrano "os natio".

Pedro Oliveira disse...

Nem haveria necessidade de recorrer aos autores... Os autores são aqueles que escrevem obras nas quais assentam coisas que quase nunca criaram, mas sim ordenaram para fazer entender.

A população mais antiga em Portugal (e mais "antiga" significa "aquela que sofreu menos influências hodiernas e assenta melhor naquilo que de comum herdámos)tem na prática o que os autores por vezes pretendem sistematizar. Há que valorizar isto, há que ir por esta via.

Olhando o exemplo de outros países europeus, há muita "intelectualice", por carecer a realidade. Parece que esses esqueceram que o coração da TRADIÇÃO depende MENOS dos livros e MAIS dos vivos. Os intelectualistas por vezes matam os vivos para fazer subir os autores. (não aplico isto a Maurras; falo de outra coisa).

Pedro Oliveira disse...

ERVILHA,

"nação" não é nada disso que está a beber nos intelectualuas ... "Nação" é palavra antiga que deriva de NASCIMENTO, tão somente.

O que é a nação? A nação é o lugar de nascimento, tão somente. E como usaram os nossos antigos "nação"? Usaram "nação" tanto para designar a casa, a aldeia, a região, o Reino e até o continente. Como!?... Assim... veja:
AFRICANO - Oi senhor Ervilha, gosta de vir aqui passear por terras africanas?
ERVILHA - Sim, claro.
AFRICANO - De onde o senhor é?
ERVILHA - SOU DE PORTUGAL
(entretanto o Ervilha já está de regresso a Portugal, e encontra-se no aeroporto, onde começa uma conversa com um estranho ao seu lado sentado, o qual leva um campote alentejano posto).
ERVILHA - O senhor é de onde?
ESTRANHO - SOU DO ALENTEJO. E o Senhor?
ERVILHA - Ena ... EU SOU DO MILHO
ESTRANHO - Tenho uma comadre no Minho, ELA É DE BRAGA.
ERVILHA - Mas de Braga mesmo? Porque de BRAGA SOU EU
ESTRANHO - Não não ... ELA É DE UMA ALDEIA PERTO.

Afinal... de onde é o ERVILHA (nesta história?)... ora diz que é de Portugal, ora diz que é do Minho, ora diz que é de Braga... Porque é de todas, e porque responde conforme a diferença que tem pela frente. O mesmo é com NAÇÃO (nascimento). Se no séc. XVI estivesse a falar com alguém do Alentejo, poderia bem dizer-lhe, como se dizia "não, não sou alentejano, sou da nação do Minho; ou com um minhoto, dizendo "Braga é muito minha amada, é a minha nação e criação". Etc..

Acontece que Napoleão viu-se a braços para designar por uma mesma identidade cada um dos reinos, principados, república, Estados Pontifícios ... reduzindo tudo a meros LOCAIS DE NASCIMENTOS: nações.

Tire daqui as conclusões... que o "testamento" já me vai longo.

Cumprimentos.