08/06/2018

Portugal e o Sagrado Coração de Jesus


Apesar de desatendida em França desde 1689, a Providência não desistia do Seu propósito de valer ao mundo e às nações pela aceitação oficial do reinado de Amor do SS. Coração de Jesus. E, sem novas mensagens, sem conhecimento mesmo, ao que parece, da mensagem [de S. Margarida Maria Alacoque] a Luís XIV, surge na Igreja, setenta anos mais tarde, uma nobilíssima Rainha a cumprir à letra, por inspiração da sua terníssima piedade, quase tudo o que o Divino Coração tinha pedido e o Eterno Pai queria. Foi a Senhora D. Maria I, Rainha de Portugal.
Os portugueses do seu tempo proclamaram-na «Mãe da Pátria» e deram-lhe o cognome de «Piedosa» porque à sua piedade e ao seu compassivo coração de Mãe deveram o termo de indizíveis sofrimentos e horrorosas crueldades de vinte anos do reinado precedente, assim como a restauração da concórdia, da confiança e da paz com que o Reino voltou a ser a «Casa de Família» de todos os portugueses.
Mas o seu glorioso título à gratidão nacional está no que a nossa excelsa Rainha fez pela exaltação da realeza do SS. Coração de Jesus, atraindo com isso para Portugal singulares bênçãos de predilecção do Senhor, e alcançando para si e para a sua Pátria um lugar de altíssimo destaque na História da Igreja, com admiração e simpatia das outras nações católicas.
Vejamos, por agora só em resumo, o que foi a obra da Senhora D. Maria I, deixando para os números seguintes de O Monumento a descrição pormenorizada de tão formosos sucessos.
1.º Em 1777, ano em que subiu ao trono, alcança do Papa Pio VI, Ofício e Missa do Coração de Jesus, com rito duplex maior. É a 1ª vez que em Portugal se reza e se faz a festa do Divino Coração. No Patriarcado foi dia santo de guarda decretado em Pastoral de 22 de Maio do mesmo ano. A festa ao Sagrado Coração só depois de 1856 foi decretada para toda a Igreja.
2.º Em 5 de Agosto de 1778, a instâncias da Rainha, Pio VI dá o maior relevo à festa do Coração de Jesus, concedendo novo Ofício e Missa, elevando-a ao rito de 1ª classe, decretando que seja dia santo de guarda e tenha vigília com jejum em Portugal e seus domínios, isto é, nas cinco partes do mundo. Nenhuma nação pedira isto ainda, e assim se fez em Portugal até à reforma do Direito Canónico em 1918.
3.º Em Fevereiro de 1778 começaram as obras de construção do Convento, e em Outubro de 1779, as da Basílica do SS. Coração de Jesus, na Estrela, em Lisboa, para cumprimento do voto feito pela Rainha em 1760 se tivesse sucessor para o trono. E em 15 de Novembro de 1789, precisamente um século depois da mensagem a Luís XIV e no mesmo ano em que a Revolução Francesa começava a fazer aluir os alicerces do trono e da própria França, era sagrada solenissimamente e aberta ao culto com participação activa de toda a Casa Real, da côrte, do exército e do povo, a nova Basílica, a primeira que em todo o mundo foi erguida e consagrada ao Divino Coração.
4.º A Rainha, em Junho de 1789 e como preparação para a consagração da Basílica, restaurou e arvorou em Cavalaria do Divino Rei, as três Ordens Militares, de Cristo, S. Bento de Avis e S. Tiago da Espada, ordenando que os grã-cruzes e comendadores tivessem nas suas insígnias o Coração de Jesus; que, estando em Lisboa, assistissem todos os anos com a Família Real, à festa do Sagrado Coração naquela Basílica e que o dia da festa fosse de gala nacional. E assim se cumpriu fielmente quase até à queda da monarquia em 1910 este preito da vassalagem de Portugal representado pelo seu Rei, família real, governo, exército, todo o elemento oficial da nação.
Também nisto, Portugal foi sem exemplo.

Simão de Xavier in jornal «O Monumento», 1 de Dezembro de 1938.

2 comentários:

Maria disse...

Ao final está escrito "Sem exemplo". Suponho que seja "sempre exemplo". Aliás, maravilhosas acções da Coroa Portuguesa! Pela legitimidade sempre!

Reaccionário disse...

"Portugal foi sem exemplo" quer dizer que mais ninguém foi como Portugal.