31/08/2018

Usurocracia


A Banca, que alcançou um poder determinante no século XIX, chegou, na actualidade, ao domínio absoluto da vida económica, tanto no Ocidente do mercado livre, como no Leste comunista. Hoje em dia, quando se apresenta a ocasião de fazer funcionar uma nova empresa, tenha ou não finalidade lucrativa, a primeira coisa a ponderar é a atitude provável da Banca – local ou nacional, segundo a índole das suas actividades – relativamente à empresa em questão. Na época presente já quase nada se pode fazer e, praticamente, nada consegue perdurar sem o apoio dos bancos. De simples executivos de um serviço que devia facilitar o intercâmbio de mercadorias, os banqueiros passaram a ser, sucessivamente, os reguladores, depois os controladores e, por fim, os donos de toda a riqueza mundial. E, apoiando-se nesta, donos também, como é óbvio, do poder político.
Shylock [d'O Mercador de Veneza] e os seus correligionários da Idade Média eram inocentes meninos de coro comparados com os magos da moderna Finança. Ao fim e ao cabo, os agiotas daquela época cobram "apenas" uns 30 ou 40% de juros mensais... Também não devemos esquecer que esse juro exorbitante, por abusivo que fosse, era cobrado sobre dinheiro existente, real, tangível, pertencente ao usurário, que, além disso, corria riscos pessoais materializados, com muita frequência, em penas de prisão, quando não em pogrom, expropriações e expulsões. Pelo contrário, os modernos banqueiros praticam, grosso modo, a operação seguinte: tomam emprestado dinheiro, o dos seus depositantes, pelo qual pagam um juro de 2%. Esse dinheiro é emprestado, por sua vez, a um juro de 12%, o que representa logo um benefício de 2000%, benefício este que não deu, nem dará nunca, lugar a negócio nenhum. É espantoso comprovar como nenhum Estado, nenhum juiz, nenhuma comissão (ao estilo da Fiscalização de Taxas que já existiu em Espanha) tomam a mais pequena medida contra esses benefícios abusivos, contra esses comerciantes do dinheiro – e comerciantes monopolistas, não se esqueça... – quando por uns "miseráveis" 30% se fecharam empresas estabelecidas e se meteram na prisão os seus proprietários. Mas não termina aqui o abuso bancário: os bancos não ganham "só" 2000%, mas sim, como vimos já, ao multiplicarem por 9 os seus empréstimos, criando moeda escriturada – moeda falsa, não nos cansaremos de o repetir – os seus benefícios, ao ficar consumado esse delito – autêntico delito – contra o Código Penal e contra a humanidade, têm que ser multiplicados outra vez por 10. Por cada 100 denários recebidos dos seus clientes, o banco paga a estes um juro anual de 2 denários e cobra, ao "emprestar" 900 denários, um juro de 12%, ou seja, 108 denários, o que equivale a um juro de 21600%!
E os céus não trovejam!... Entretanto, os frios monstros estatais assanham-se continuamente contra o pequeno e médio empresário que dissimula os seus benefícios para poder sobreviver...

Joaquín Bochaca in «A Finança e o Poder», 1973.

26/08/2018

O paradoxo da tolerância

Um tolerante intolerante.

Ocupemo-nos a seguir da tolerância.
Esta consiste em admitir todas as doutrinas e na recusa de qualquer fundamentalismo ideológico.
Por vezes, quando se fala em tolerância alude-se à liberdade religiosa. Lembremos, por exemplo, as célebres Cartas sobre a Tolerância de Locke em que se discute fundamentalmente a liberdade dos vários cultos (excluídos, desde logo, o católico e o islâmico).
Em todo o caso, a tolerância, tomada na sua mais estrita acepção, embora abranja a liberdade religiosa, ultrapassa-a patentemente.
Conforme dissemos, a tolerância envolve não só as concepções religiosas mas todas as concepções em geral – filosóficas, políticas, etc.
Ora se devem tolerar todas as concepções também se deve tolerar a intolerância com o que, consoante nota Marcuse, a tolerância se destrói a si mesma.
Para obviar a isso só há um processo: não tolerar qualquer espécie de intolerância. Em semelhante circunstância a tolerância transforma-se numa ideia oficial, num credo que tem de ser acatado por todos. Eis que a tolerância se torna intolerância. O paradoxo é patente porque das malhas desta tenaz não há que escapar.

António José de Brito in «Alguns paradoxos das doutrinas sobre os direitos dos homens».

22/08/2018

D. Nuno: Herói e Santo


Modelo de príncipes, exemplo de senhores, espelho de contemplativos, és tu bem-aventurado Nuno! Tu foste firme e forte em combate, tu foste comedido e apiedado na vitória, tu foste justo e misericordioso na paz, tu foste obediente e devoto no claustro. Assim como em toda a situação te comportaste com dignidade e brio, e como nos teus dias de vida alcançaste honra e glória, assim também alcançaste no Céu a bem-aventurança eterna.

Infante D. Pedro, citado pelo seu irmão, el-Rei D. Duarte, em carta escrita a 21 de Julho de 1437.

20/08/2018

Patriotismo e Catolicismo


O patriotismo, princípio interno de unidade e ordem, ligação orgânica dos membros de uma mesma pátria, era considerado pela elite dos pensadores da Grécia e da Roma antiga, como a mais alta das virtudes naturais. Aristóteles, o príncipe dos filósofos pagãos, determinava que o desinteresse ao serviço da Cidade, isto é, do Estado, é o ideal terrestre por excelência.
A religião de Cristo faz do patriotismo uma lei: não há cristão perfeito que não seja patriota perfeito.
Ela eleva o ideal da razão pagã e o esclarece, mostrando que ele só se realiza no Absoluto [que é Deus].
(...)
À luz deste ensinamento, que é repetido por São Tomás de Aquino, o patriotismo assume um carácter religioso.

Cardeal Mercier in carta pastoral de 25 de Dezembro de 1914.

18/08/2018

Do mentiroso


P'ra a mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.

António Aleixo

16/08/2018

Do Império Português


A Casa portuguesa, este velho solar português feito pela espada dos Reis nos campos de batalha, pela sua astúcia nas conferências diplomáticas, e pelo sangue generoso e o sacrifício ilimitado dos que, dentro dos seus limites nasceram, e, vassalos daqueles Reis se orgulharam de ser, este velho solar português deita, pelas bandas do Oriente e do Norte, para os solares de Espanha.
Disputaram, uns e outros, durante três séculos. Portugal acabou, finalmente, por convencer os vizinhos, da sua personalidade, e trancou as portas e as janelas da sua casa que davam para as terras do vizinho, e, seguro de que este não poderia facilmente assaltar-lhe as janelas e arrombar-lhe as portas, voltou-se para o mar misterioso e nebuloso, de trilhos ignorados ou esquecidos, de praias desconhecidas, e de limites quiméricos. Voltou-se para o mar; e firmando-se na tensão profunda que constituía fundamentalmente o seu querer viver, afirmou essa vontade na mais tenaz, na mais inteligente, na mais bela das realizações.
Debruçado, no Promontório de Sagres, sobre o mar infinito, estudando, na sua casa de Sagres, com nautas, astrólogos e cartógrafos, os segredos do Espaço, o Infante traçava os primeiros delineamentos decisivos do novo Império cristão. Ele corporizava as aspirações latentes do seu povo, que já fora a Ceuta desfraldar, nas muralhas dos infiéis, o estandarte da Cruz!
Ia gravada nas velas das nossas caravelas, ela que já andava nos dinheiros do tempo do nosso D. Sancho I.
Nos padrões que os nossos navegadores e descobridores implantavam, a marcar o nosso direito e a nossa posse, era ela que se alçava a dominá-los. E foi ela que um dos maiores Reis da nossa história escolheu para a sua empresa – com a legenda: in hoc signo vinces.
Se tirarmos ao Imperialismo português a sua característica cristã – tudo se torna incompreensível na acção imperialista dos portugueses de 1400 e 1500.
Nós não nos abalançámos à realização da Epopeia – como os corsários franceses, como os piratas ingleses, por apetite do roubo. Não nos deitámos a realizar a Epopeia marítima, por despeito, como os navegadores de Castela. Não foi Cartago, não foram os romanos, os nossos modelos, os nossos mestres. Não!
No continente, durante os três séculos de consolidação política, se fomos, em face de Castela recalcitrante, portugueses ciosos da nossa honra, do nosso nome, e da nossa independência – quero dizer, da honra, do nome e da independência dos nossos reis, fomos também cruzados cristãos, perante a afronta da mourama.
Cruzados fomos, e cruzados continuamos a ser, em África, em Índia, em América, em Oceânia – porque o que primacialmente nos levou às paragens mais remotas, e nos sujeitou aos riscos mais graves, foi o sentimento cristão.
Mas muito se engana quem vê na nossa acção de cruzados, jeitos de anunciação de foot-ball, de golf, ou de pedestrianismo cristão.
Fomos cruzados, para servir a Fé. E foi para a servir, que fizemos o Império – o Império cristão que ninguém mais fez.
Quando o Infante, em Sagres, continuando a obra que, meio século antes, D. Afonso IV semeara, viu o caminho para a Índia, e na consciência plena da sua vontade, procurando-o, guiou o povo português para essa meta de glórias, era a mais exaltada fé católica que o inspirava, e se tornava de ser de toda a sua vida.
Civilização essencialmente cristã, a civilização portuguesa tinha uma força estimulante interna, uma ideia-força que vencia e venceu todos os obstáculos: a propagação da fé católica.
Só o nega quem ignora ou finge desconhecer os documentos.
Entre tantos, oiçamos este testemunho bem de valor: é de Francisco de Almeida, o cronista do mais deslealmente caluniado dos nossos reis: «Mas como o principal fruyto que os Reis deste reyno pretenderão, e desejarão sempre nas terras que desubrião e conquistavão de novo, foy a conversão dos infieis, e a dilatação e acrecentamento da nossa santa fé catholica isto fez a el Rey dom João pôr os olhos com mais atenção na povoação do Brasil...» (IVª parte, cap. 32).
Só por milagre quase inacessível às inteligências de hoje, paganizadas, obscurecidas, decrépitas, só por milagre se pode explicar que um povo minúsculo – meia mão de gente! – tivesse sido capaz de estender o seu domínio, o seu Império, sobre milhões e milhões de almas de todas as raças, de todos os tons psíquicos, espalhadas pelas mais longínquas terras.
Em África, primeiro, em Ásia, em América, em Oceânia – por todo o orbe, a Cruz de Cristo portuguesa se instalou dominadora, e venceu todas as batalhas que lhe deram.
Império tão vasto, que o Poeta pode dizer dele, dirigindo-se a D. Sebastião, que era um «alto Império» que

O sol, logo em nascendo, vê primeiro;
Vê-o também no meio do Hemisphério,
E, quando dece, o deixa derradeiro.
(I, 8)

O Império português é um milagre de Deus!
Porque pudemos realizá-lo? Porque conseguimos levá-lo a termo, no espaço relativamente curto de século e meio?
Primeiro, porque acreditávamos na nossa missão – na nossa missão de cruzados, de dianteiros da Fé, de soldados de Deus. E a primeira condição para se poder realizar bem uma obra consiste em acreditarmos em nós, e nela. Acreditar que somos capazes de a fazer, e acreditar em que ela tem de se realizar. Os portugueses dos séculos dos Descobrimentos acreditavam na verdade católica – morrendo por ela, sob os golpes dos alfanges, nas muralhas de Diu, ou nas praias da América. Acreditavam em Deus, porque não os tocara ainda a malária da Dúvida racionalista, e a lepra calcinante do Livre Pensamento.
Acreditavam em que eram portadores da Verdade – daquela Verdade impassível ante todos os ataques, e invulnerável diante de todos os ultrajes. Acreditavam em que eram portadores do verbo divino, por amor do qual a morte é gloriosa, e todo o sofrimento é prazer.
Eram raros viçosos daquela árvore de maravilhas que se chamou Nun'Álvares; eram filhos obedientes daquela Mãe transumana que se chama Igreja Católica.
O ideal supremo que os guiava não era o tirar aos outros o que os outros tinham; nem rasoirar os valores; nem ombrear com a divindade: o seu ideal supremo era servir e amar a Deus. E todos serviam e amavam a Deus, desde os reis, nos paços, aos camponeses da serra lavradia; desde os pastores das serras agrestes, aos nautas destemidos, desde Camões, poeta de génio, a Albuquerque, guerreiro de raça.
Andava longe a Reforma bastarda; e quando se aproximou, – previdente, oportuno, e cumpridor dos seus deveres, D. João III opôs-lhe uma milícia – a Companhia, e um cordão sanitário, esplêndido, para o tempo – a Inquisição.
Ainda não se pressentiam os rumores da Revolução sangrenta das sarjetas e prostíbulos, a cujo serviço se puseram os sábios da Enciclopédia, e as elegantes mièvres dos salões de Paris, e das ante-câmaras de Versalhes...
Tudo isso vinha longe – e o solar português, rezando, ao anoitecer, as Ave-Marias das Trindades, e fazendo o sinal da cruz, ao surgir da alvorada, cria em Deus, e servia Deus. Se era forte e puro na sua fé, era forte e leal na sua vida cívica. Os seus reis foram sempre paternais na justiça, justiceiros no prémio ou na pena. E o povo a quem as loucuras do homem despolarizado não tinham proclamado ainda soberano, o povo que ignorava o poder bruxo dos papelinhos do voto, na governação do Estado – o povo unia-se à volta do seu chefe natural, daquele que não saíra das tropelias e malabarices de uma urna, mas viera dos desígnios impenetráveis da Providência, para mandar, e ser obedecido, para guiar, e ser respeitado.
O povo português dos Descobrimentos, o povo português que fez o Império desconhecia os génios miríficos que as plebes geram, no tumulto das arruaças, e no rascante voejar dos impropérios. Todo ele era uma família – unânime na crença religiosa, homogénea no sentimento de obediência.
Ignorava a panaceia mórbida dos Direitos, porque vivia dentro do quadrado firme dos Deveres.

Alfredo Pimenta in «O Império Colonial como factor de Civilização», 1936.

14/08/2018

No 633º aniversário da Batalha de Aljubarrota


Frei Nuno recebeu o embaixador de Castela, em sua cela, amortalhado no hábito.
Nunca mais despireis essa mortalha? – perguntou-lhe o castelhano.
Só se el-Rei de Castela outra vez movesse guerra a Portugal...
E erguendo-se:
Em tal caso, enquanto não estiver sepultado, servirei ao mesmo tempo a religião que professo e a terra que me deu o ser.
Por baixo do escapulário, tinha o arnês vestido.
O castelhano, curvando a cabeça, saiu.

João J. Brandão Ferreira in «D. Nuno Álvares Pereira: Um Português de Excepção», 2009.

§

Santo Condestável do Reino de Portugal, o Beato Nuno de Santa Maria nasceu no dia de São João Baptista em 1360 e morreu no dia de Todos-os-Santos em 1431. Foi beatificado há um século, a 23 de Janeiro de 1918.

12/08/2018

Da palavra Império

Conde D. Henrique

Há um sem-número de palavras que toda a gente emprega, sem reflectir, e sem ter noção clara do conceito que elas traduzem.
Andam, essas palavras, no ar: a gente respira-as com o ar que respira, usa-as, e espalha-as, como usa e espalha o que emana do Inconsciente. A palavra Império, com os seus afins, é uma das tais palavras. Toda a gente fala em Império, em Imperialismo. A cada instante, nos jornais que nos fornecem o alimento espiritual normal, ou nos livros de polémica política que nos desorientam e endoidecem, esbarramos com essas palavras tremendas. E, no entanto, se fossemos perguntar a cada uma das pessoas que as usam e espalham, que ideia traduzem com elas, observaríamos a mais aflitiva das confusões, e a mais escandalosa das identidades. A palavra é velha como o homem.
Àquilo que os romanos chamavam Imperium, tinham os gregos chamado Arké, como se vê em Heródoto: «mégalen arkèn» (Clio, 91).
Da palavra latina é afim o termo Imperator, e da palavra grega o termo arkós (Odisseia, canto X, v. 204).
Imperium e Imperator são filhos de Impero, originariamente: in+paro, «tomar medidas, fazer preparativos para que uma coisa se realize» (Ernout et Meillet, Dictt. étym. de la langue latine, palavra impero).
Se os gregos tinham, a par do seu Arkós, os termos Autokrátôs ou Basileús, para designarem o poder supremo do Arké, os latinos possuíam, ao lado de Imperator, o Dux, com os seus filhos ducator e ducatus, ou Princeps, e outros. Isto, que parece extremamente simples, não tem nada de simples – dada a elasticidade da significação dos termos.
Tanto no grego, como no latim.
Neste, por exemplo, o Imperium tanto pode ser o poder paternal, como o supremo poder político, e o Imperator tanto pode ser o que César define, na sua Guerra Civil, em oposição ao Legatus, como aquele de que nos fala Cícero quando o considera senhor do mundo – «Populus imperator omnium gentium», ou Varrão, ao dizer-nos que ele é o vingador das injúrias feitas pelo inimigo ao império do Povo.
E dentro destes pontos limites, quantas modalidades, quantas cores, no significado do termo.
O que é certo, porém, é que na imprecisão da tradução conceitual, no mar imenso e revolto das ideias expressadas, na paisagem difusa e confusa das noções transmitidas, há um fundo em que todas as raízes mergulham, e algo de que todas as raízes se sustentam.
No Arké e no Imperium, há o poder; no Arkós e no Imperator, há o exercício do mando.
Quando chegamos àquela época a que, por acinte e infeliz má vontade, se chama Idade Média (Idade Média, porquê?!), quando chegamos a essa época, notamos coisas curiosas. Um rei de Inglaterra atribui-se três títulos: Basileus, Imperator e Dominus: «Ego Edgarus Anglorum Basileus, omniunque Regum Insularum Oceani, quae Britanniam circumjacent, cunctarumque Nationum infra eam includuntur, Imperator et Dominus» (Du Cange, Glossarium, palavra Imperatoris).
Não lhe bastavam os termos latinos: foi-lhe ainda preciso recorrer ao termo grego tão predilecto em Bizâncio...
Ao nosso próprio conde D. Henrique, se chamou, um dia, Imperator. É num documento de 1105 – uma doação: «Sub Adefonso Principis, et gener ejus Enricho Imperator Portugalense...» (in João Pedro Ribeiro, Dissertações, III, 1.ª parte, n.º 141). 
Imperator Portugalense! Imperator de Portugal. Não há outro vestígio de tão pomposo título. Mas este mostra, além do mais, que o Imperator está nas velhas tradições portuguesas.
O termo Império veio pelos tempos fora, e, entre nós, Camões, no século XVI, propõe-se cantar, entre outras coisas,

...as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império...
(I, 2)

e aconselha o Rei a que estime os seus cavaleiros, pois estes, à custa do próprio sangue,

Estendem não somente a Lei de cima,
Mas inda vosso Império preeminente
(X, 151)

É outra vez a Fé e o Império. Qual, aqui, o conceito camoniano do Império? O conceito geográfico? O conceito político?
No primeiro sentido, o tomou Fr. Francisco de Santo Agostinho de Macedo, o monstro da Inteligência, quando, ao traduzir o termo, fala em «regni fines».
No segundo sentido o toma o doutíssimo Epifânio, quando interpreta: «senhorio político».
Qual dos dois interpreta bem o pensamento do Poeta? Só averiguá-lo dava para uma conferência...

Alfredo Pimenta in «O Império Colonial como factor de Civilização», 1936.

08/08/2018

A Fé e a "fé"


Segundo a doutrina católica, a Fé é uma anuência, uma submissão da inteligência à autoridade de Deus que revela, sob o impulso da vontade livre movida pela Graça. Por um lado o acto de Fé deve ser livre, ou seja, deve escapar a toda a coacção exterior que tivesse por objecto ou por efeito directo obtê-lo contra a vontade da pessoa. Por outro lado, sendo o acto de Fé uma submissão à autoridade divina, nenhum poder ou terceira pessoa tem o direito de se opor à influência da Verdade primeira, que tem o direito inalienável de iluminar a inteligência do fiel. Disto se segue que o fiel tem direito à liberdade religiosa; ninguém tem o direito de o coagir, e ninguém tem o direito de impedi-lo de abraçar a Revelação divina ou de realizar com prudência os actos exteriores de culto.

Entretanto os liberais, esquecidos do carácter objectivo, completamente divino e sobrenatural do acto de Fé, e os modernistas que correm no seu rastro, fazem da Fé uma expressão da convicção subjectiva do sujeito no fim da sua procura pessoal, ao tentar responder às grandes interrogações que lhe apresenta o universo. A Igreja, que propõe o facto da Revelação divina exterior, dá lugar à invenção criadora do sujeito, ou pelo menos o sujeito deve esforçar-se para ir de encontro à fonte... Sendo assim, então a Fé divina é rebaixada ao nível das convicções religiosas dos não-cristãos, que pensam ter uma fé divina, quando não têm mais do que uma persuasão humana, pois o motivo para aderir à sua crença não é a autoridade divina, mas o livre julgamento do seu espírito. Aí está a sua inconsequência fundamental: os liberais pretendem manter para este acto de persuasão completamente humano, o carácter de inviolabilidade e isenção de toda a coacção que não pertence senão ao acto de Fé divina. Eles asseguram que, pelos actos das suas convicções religiosas, os adeptos de outras religiões põem-se em relação com Deus, e que a partir daí esta relação deve ficar livre de toda coacção que possa afectá-la. Eles dizem: «Qualquer fé religiosa é respeitável e intocável».

Mas estes últimos argumentos são visivelmente falsos, pois pelas suas convicções religiosas, os adeptos das outras religiões não fazem mais do que seguir invenções do seu próprio espírito, produções humanas que não têm em si nada de divino, nem em seu princípio, nem em seu objecto, nem no motivo pelo qual aderiram a elas.

Isto não quer dizer que não há nada de verdadeiro nas suas convicções, ou que não possam conservar sinais da Revelação primitiva ou posterior. Mas a presença destas semina Verbi, não bastam, por si, para fazer das suas convicções um acto de Fé divina. Principalmente porque se Deus quisesse suscitar este acto sobrenatural pela Sua Graça, na maioria dos casos ver-se-ia impedido pela presença de inúmeros erros e superstições aos quais estes homens continuam ligados.

Frente ao subjectivismo e ao naturalismo dos liberais, devemos reafirmar hoje o carácter objectivo e sobrenatural da Fé divina que é a Fé católica e cristã. Somente ela tem o direito absoluto e inviolável ao respeito e à liberdade religiosa.

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar», 1987.

07/08/2018

Catolicismo não é sinónimo de Sentimentalismo

Cristo não veio para nos tornar pessoas simpáticas. Ele veio para nos tornar homens novos.

A civilização moderna separou Cristo da Cruz, tomou-O sem ela e fê-l'O um moralista sentimental como Buda.

Mons. Fulton Sheen in «Aprendei a Amar», 1957.

06/08/2018

Democracia, sugestibilidade e manipulação


Os ideais da democracia e da liberdade chocam com o facto brutal da sugestibilidade humana. Um quinto de todos os eleitores [20%] pode ser hipnotizado quase num abrir e fechar de olhos, um sétimo [14,3%] pode ser aliviado das suas dores mediante injecções de água, um quarto [25%] responderá de modo pronto e entusiástico à hipnopedia. A todas estas minorias demasiado dispostas a cooperar, devemos adicionar as maiorias de reacções menos rápidas, cuja sugestibilidade mais moderada pode ser explorada por não importa que manipulador ciente do seu ofício, pronto a consagrar a isso o tempo e os esforços necessários.

Aldous Huxley in «Regresso ao Admirável Mundo Novo», 1958.

03/08/2018

Individualismo


O Individualismo é a crença falsa em que o indivíduo não depende da verdade; é a superstição que faz do indivíduo humano a mais importante realidade, princípio e fim, base e fundamento de toda a ordem moral, política, social e jurídica.
Como descreveu o Padre Augustin Roussel: «O liberal é um fanático da independência, proclama-a em tudo e para tudo, chegando às raias do absurdo». E como filho do Liberalismo, o Individualismo caracteriza-se como o fanatismo da independência individual.
O Individualismo opõe-se, logicamente, à noção católica e clássica de que o menor se ordena ao maior, que o todo é maior do que a soma das partes, e que o bem comum é superior ao bem individual. Conforme expôs São Tomás de Aquino: «Pois a parte ordena-se ao todo, como o imperfeito ao perfeito, e, por isso, cada parte existe naturalmente para o todo.»