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01/12/2017

1º de Dezembro: Dia da Restauração


A guerra de Portugal com Castela é tão antiga, que começou juntamente com o mesmo Reino e seus primeiros Príncipes, e há mais de 500 anos que dura. Pelo que nem esta guerra se deve de ter por coisa nova, nem se deve de fazer da nossa parte por modo novo; mas termos por certo, que seguindo-se os meios por onde se conservaram os nossos Reis, teremos na ocasião presente a mesma segurança e bons sucessos contra Castela, que por tantos séculos tivemos.

Pe. Manuel Severim de Faria in «Notícias de Portugal», 1655.

§

As palavras citadas são de um chantre e cónego da Sé de Évora, contemporâneo da Guerra da Restauração, na qual Portugal se defendeu da usurpação espanhola. E são também palavras que refutam a absurda e revolucionária tese da Aliança Peninsular... Em relação a Espanha, os nossos antepassados sempre mantiveram uma atitude de um prudencial afastamento, daí o famoso adágio popular: De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento. Mas foi preciso que viessem uns certos intelectuais no século XIX e XX, para nos ensinar o contrário daquilo que sempre fizemos... E se é por razão de ignorância que hoje também alguns caem nesse mesmo erro, pois que façam como indica o Padre Severim de Faria: "...seguindo-se os meios por onde se conservaram os nossos Reis, teremos na ocasião presente a mesma segurança e bons sucessos... que por tantos séculos tivemos". Que nos reportemos, pois, à nossa Tradição Portuguesa e às suas fontes originárias, e não a modernos autores com as suas subjectivas interpretações, por mais bem-intencionados que alguns possam ter sido.

17/08/2017

A propósito de António Sardinha


Nesse ano de 1919, em Janeiro, é proclamada a Monarquia do Porto que, em 13 de Fevereiro, foi vencida. António Sardinha, que colaborara nesse acontecimento, vê-se obrigado a abandonar o País e a refugiar-se em Espanha.
O mal que a Espanha fez a António Sardinha é coisa que ainda não foi suficientemente apreciada. [pág. 17]

Quando António Sardinha regressou a Portugal, a primeira vez que o encontrei, na Rua do Carmo, fiz menção de me dirigir a ele. Ergueu os braços, gritando-me: «Não me fale! Não me fale!». [pág. 19]

Algumas vezes resmunguei. Mas porque considerei tudo mera borbulhagem de varíola politiqueira de campanário, puro acidente de desencontro sanável – quando Sardinha morreu, em Janeiro de 1925, escrevi na Acção Realista artigo de homenagem que, pela sinceridade, pelo equilíbrio dos juízos, penso ainda hoje que é um dos melhores, senão o melhor dos estudos sintéticos até agora consagrados à obra do autor do Ao princípio era o Verbo e do Tronco reverdecido.
Sempre que, depois dessa data, me tenho referido a Sardinha, é sempre com respeito e justiça, – prova de que me estava no propósito varrer do meu espírito, a recordação penosa das injúrias que da sua pena recebi. [pág. 21]

Não. No período que vem desde 1914 a 1925, durante a vida de Sardinha, e no que se lhe segue, desde 1925 até à hora em que escrevo, não houve apenas o Integralismo Lusitano e os seus chefes dirigentes.
O silêncio sistemático que se faz à volta do mais que houve, não o arranca, não o apaga da História da Contra-Revolução portuguesa e da Filosofia política.
Pode induzir em erros as gerações fúteis e superficiais que se têm sucedido; pode alimentar a má vontade dos falhos, e as ambições dos videirinhos ou gafados.
Mas os livros, as revistas, os jornais, toda essa soma de fontes indispensáveis ao historiador escrupuloso e sério, que até agora tem vivido afogada, abafada, ocultada, por força da ignorância e da má-fé, está nas bibliotecas públicas e particulares, e nem a ignorância nem a má-fé a farão desaparecer da vida.
E quando, amanhã, a crítica impessoal, responsável e honesta, nas suas intenções e nos seus processos, chamar a si este período da história portuguesa, verificará a existência de acontecimentos, trabalhos e pessoas que até agora, a crítica «mentirosa, torpe e grosseiramente injusta» (Bettencourt e Galvão dixit) tem ocultado, abafado e afogado!
Não! Não houve só o Integralismo e os seus chefes dirigentes! [págs. 28-29]

Que foi, afinal, António Sardinha?
Nada do que os seus panegiristas ineptos proclamam; foi o que a sua obra define.
Que é a sua obra?
Historiador? Erudito? Sardinha nunca foi historiador e erudito. Desconhecia as fontes directas, originárias. A sua leitura era larga, mas de segunda mão. [págs. 33-34]

Isso a que se chama, no meio de muito ruído de tambores e pratos de metal, a obra histórica de António Sardinha, não passa de obra de vulgarização polémica em que o escritor substituiu o sinal mais pelo sinal menos, ou vice-versa, não em consequência de estudos pessoais, ou pesquisas originais, mas apenas em obediência a propósitos que, de forma alguma, se podem chamar científicos. [pág.34]

Não há talvez, em Portugal, quem fale mais em Fustel de Coulanges, do que Sardinha; e ninguém anda mais afastado do que ele, dos métodos do insigne historiador das Instituições políticas da antiga França.
Fustel de Coulanges é escravo do documento, e ergueu o seu edifício sobre documentos; António Sardinha manuseou livros de opiniões, folheou autores; não estudou documentos, em Arquivos, nem sequer consultou Cartulários publicados! Não fez História: trabalhou sobre história feita. [págs. 34-35]

É aí que está a explicação das contradições de António Sardinha, como aquela famosa de, uma vez, e com toda a razão, chamar «usurpação sinistra dos Filipes» (O Valor da Raça, pág. 165) ao período da nossa sujeição a Castela, para, depois, pretender convencer-nos de que «se Filipe II ascende ao Trono de Afonso Henriques, ascende como sucessor do Mestre de Avis, invocando títulos jurídicos, em que a força das armas não intervém senão como argumento decisivo, sim, mas a empregar em último recurso» (Aliança Peninsular, pág. IV). [pág.35]

Um exemplo muito significativo ilustra superabundantemente a minha crítica.
Querendo provar-nos que o Absolutismo triunfante no século XVIII não era «a vontade caprichosa do Soberano», em que se funda António Sardinha? Na afirmação do autor de certo Tratado de Direito Constitucional! E autor francês!
O argumento é inoperante – porque aos dizeres de uns autores, opõem-se os dizeres de outros. Mas não é inoperante o texto da Rainha de Portugal, D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V, quando definiu a função régia: «Os Reis são os Executores e os mais ilustres Vassalos das Leis do Reino». Pois não teria mais autoridade, para definir o Absolutismo Régio, a Rainha absoluta que o exercia? [pág. 36]

Porque não fatigou os olhos no estudo dos documentos, tem a audácia de afirmar entonadamente que D. Afonso I e o seu filho D. Sancho se intitularam «reis dos Portugueses», como se não tivessem usado outros títulos que provam que a significação dada por Sardinha àquela expressão é manifestamente errada. (...)
Para Sardinha, em Castela, a terra pertencia ao Rei; em Portugal, não. Daí os Reis serem, em Castela, «de Castela», e em Portugal, «dos Portugueses»!
Mas os documentos desmentem-no. [pág. 37]

O livro em que isto se encontra é muito gabado – por quem não reflecte no que lê, e é propenso a deixar-se ir na corrente doce do ribeiro. Refiro-me à Aliança Peninsular em que Sardinha desenvolve e glosa a tese esboçada por Moniz Barreto, e vincada por Oliveira Martins em artigos de jornal.
A tese é má, por perigosa, e partir de premissas falsas. Sardinha mói e remói, pisa e repisa os argumentos, num tecido pastosos de sofismas, erros, digressões, juízos tendenciosos e quimeras absurdas.
Hipólito Raposo, um dos seus amigos íntimos, confessa que o autor, pouco tempo depois do aparecimento da Aliança Peninsular já «se sentia desgostoso e magoado com pessoas e instituições de além-fronteiras por certas razões e circunstâncias» que não deseja revelar.
Pois é pena que o não revele, porque essas razões poderiam em muito evitar contágios indesejáveis.
E Hipólito Raposo continua: «Depois da morte dele, ao meu conhecimento vieram, e por mim passaram alguns dados dos quais seguramente deduzi que não eram compreendidos e aceites em toda a pureza da sua sinceridade, em todo o escrúpulo do seu patriotismo, os esforços do nosso querido companheiro» (Vanguarda, de Coimbra, 17 de Março de 1928).
Esse livro não afecta o carácter de Sardinha ou o seu amor à Pátria; mas afecta a sua inteligência e a sua cultura, e serve – ai de nós! – desígnios hostis ao interesse nacional.
Importa pouco que esses desígnios ultrapassem o objectivo do escritor, ou se manifestem à margem dele. Mas importa muito que utilizem o livro como seu instrumento.
Esse livro é uma triste monstruosidade. E o depoimento insuspeitíssimo do Sr. Hipólito Raposo é a sua condenação irrevogável.
A História objectiva ensina precisamente o contrário do que António Sardinha pretende convencer os seus leitores.
Só um português cego pela paixão mais doentia, ou por demência calamitosa, pode aceitar a unidade hispânica, como a concebeu Sardinha: «a unidade hispânica exige que os dois povos se mantenham livres no seu governo interno, embora ligados militar e diplomaticamente para a defesa comum, porque comum, pensando bem, é o património que a ambos pertence» (págs. 63 e 64).
Esta tese está visceralmente, substancialmente errada. Não posso evidentemente desenvolver a minha oposição a ela, porque os meus argumentos emanam dos factos, e eu não posso discutir ou comentar os factos.
Mas a inteligência do leitor esclarecido e independente facilmente suprirá o meu silêncio.
A tese vincara-a Oliveira Martins, quando dizia que «devemos outra vez aliar as nossas forças no propósito de uma defesa comum», depois de ter proclamado: «união de pensamento e acção; independência de governo» (Dispersos, II, págs. 216 e 219).
Espero que as gerações futuras, ainda não tocadas da mitomania que por aí vai, e porventura dela afastadas pelos esforços do meu espírito e doutros como eu, sepulte para sempre esse livro nefasto e essa tese demoníaca, no silêncio e no desprezo.
Que as circunstâncias de um momento possam conduzir-nos a uma cooperação ocasional, compreendo; mas transformar essa precaridade, essa momentaneidade, em perenidade e sistema, em princípio e norma de vida, só pode pretende-lo quem desconheça por completo a História de oito séculos de Portugal, ou a conheça mal, – que é ainda pior.
Tenho permanentemente diante de mim, os juízos e desejos dos altos espíritos, como Juan de Valera ou Menendez y Pelayo que valem mais, para mim, na sinceridade do seu pensamento puro, desinteressado e livre de preconceitos políticos ou respeitos e conveniências, do que todos os argumentos de António Sardinha ou de Oliveira Martins.
Entre a hostilidade, que formalmente condeno, e a tese que António Sardinha foi buscar a Oliveira Martins, de uma política militar e diplomática comum, que decididamente rejeito, há lugar para a única posição sensata que a História justifica: a da simpatia fundada na compreensão recíproca da independência plena dos nossos respectivos interesses, – o que não exclui, é óbvio, qualquer entendimento eventual que as circunstâncias aconselhem, como em 1936.
Tanto Oliveira Martins como Sardinha, seu eco, falam muito na política da Dinastia de Avis, chamando-lhe política de cooperação.
Mas isto é uma escandalosa falsificação da História, contra que protestam todos os textos!
Nunca, até ao advento do Liberalismo ou da Revolução, a política portuguesa se orientou no sentido de comunidade militar ou diplomática. Parece incrível que se diga o contrário.
Se António Sardinha tivesse sido historiador e erudito, nunca teria escrito as páginas infelizes da Aliança Peninsular, que, no seu conjunto, não passa de simples romance. [págs. 39-43]

Tinha, indiscutivelmente, apreciável cultura literária, que lhe forneceram principalmente escritores franceses, castelhanos ou brasileiros do nosso tempo. Os seus livros estão recheados com transcrições de um número limitado de autores das três literaturas, e são estes que lhe ministram, em segunda mão, os conhecimentos, informações ou sugestões de que a sua inteligência se alimenta, para o desenvolvimento das suas teses.
Já tive ocasião de provar que não conheceu S. Tomás directamente, dando por tomistas doutrinas que eram apenas de comentadores muito posteriores.
Qualquer poderá verificar, se se quiser dar a esse trabalho, que os próprios textos pontifícios às vezes citados na obra de Sardinha emanam de versões francesas e não dos originais latinos.
Ora a erudição exige que nos reportemos às fontes originárias e não aos discreteadores, por muito fiéis que sejam. Dá mais trabalho, mas são mais firmes os passos. [pág. 43]

António Sardinha não foi um pensador reflectido e meditativo; foi um pensador impressionista.
As ideias científicas que nos deixou são raras; o que ficou da sua acção, principalmente, foram emoções.
Não formulou nem resolveu problemas de Ciência ou Erudição. Foi brilhante, muitas vezes; nunca foi profundo. [pág. 44]

António Sardinha morreu cedo – para a sua família e para os seus amigos. Morreu, porém, a tempo, para o seu nome.
Há homens que só lucram em não sobreviver a certos acontecimentos. Na nossa vizinha Espanha, José António Primo de Rivera. Em Portugal, António Sardinha.
José António, porque morreu nas circunstâncias que todos conhecem e no momento que ninguém ignora, está, hoje, no Escorial, junto do Panteão dos Reis de Espanha! Onde não estão Menendez Pelayo, ou Balmes...
António Sardinha, porque morreu em 1925, anda por aí aos ombros de uma turba de medíocres ou falsários do Espírito que não o leram, nem são capazes de o ler.
Se José António fosse vivo, é muito possível que estivesse, a esta hora, no exílio, a contemplar a sua glória de fundador da Falange – se não preferisse conformar-se.
Quanto a António Sardinha...
Vimo-lo, nos últimos tempos da sua vida, acamaradar com uma chafarica de «homens livres», sabujando dois autênticos mistificadores e malfeitores da Inteligência – Raúl Proença e António Sérgio (veja-se o desgraçado artigo Almas republicanas, no livro Purgatório das Ideias, pág. 279); vimo-lo gritar às gentes emparvecidas: «Monarquia? República? Oh! A balbúrdia ignóbil dos mitos que nada exprimem!».
Ora através dos catorze volumes que constituem a sua obra, precisamente o que se vincou, proclamou, ensinou, e repetiu, foi que Monarquia e República eram realidades acima de tudo expressivas...
Para onde o teriam levado os acontecimentos, se ainda fosse vivo?
As tendências manifestadas nos últimos meses da sua vida induzem-me a crer que, tendo abandonado a doutrina do primado do político para lhe substituir a do primado do social, estaria hoje integrado inteiramente na orientação que inspira a vida política portuguesa, a qual aliás, pressupõe, indiscutivelmente, o primado do político, sem o que não existiria.
E é isso que proclamam os que fazem variações cómicas nos clarins e cornetins, na pista da Inquietação e da Presença. [págs. 45-46]

Alfredo Pimenta in «A propósito de António Sardinha», 1944.

21/05/2017

Sobre Espanha e a Restauração de 1640

1128 e 1640

Pela morte formosíssima de D. Sebastião, em Alcácer Quibir, em 1578, o trono de Portugal ficou virtualmente vago, pois o Cardeal D. Henrique, pelo seu estado e pela sua idade, não podia assegurar a continuidade da dinastia. E pelo seu falecimento em 1580, a Corôa portuguesa, ocupada desde o seu início, em 1128, pelo Rei de Portugal, estava à mercê do mais forte: o mais forte era, nesse tempo, D. Filipe II de Castela. E o Estado português teve que suportar a afronta de passar a ser dirigido e governado pelo Rei castelhano.
Durou a afronta, que ainda hoje nos vexa e revolta, sessenta anos...
Em 1640, Portugueses leais, na Nobreza, no Clero e no Povo, agrupado à volta do Duque de Bragança, D. João, português de melhor têmpera, e diplomata da melhor escola, repetiram a façanha dos seus Antepassados de 1128.
Se estes repeliram e expulsaram da terra portuguesa, os galegos e leoneses seus inimigos, os portugueses de 1640 repeliram e expulsaram os castelhanos, tão seus inimigos, ou mais do que os outros.
«Que es esto, portugueses, onde está vuestra fidelidad?» – perguntava, pasmada, a Duquesa de Mântua, vice-Rainha de Portugal, em 1 de Dezembro de 1640, aos Nobres que lhe tinham invadido o Palácio.
E os Nobres, muito serenos, pela boca de D. Carlos de Noronha, responderam-lhe que estivesse quietinha, para não terem de lhe faltar ao respeito.
«A mi? Como?!» – retorquiu, irada, a Duquesa. E, sereno, D. Carlos de Noronha, a tranquilizá-la, e em linguagem de hoje: «Como? Baldeando V. A. por uma dessas janelas fora...»
É das páginas mais bonitas da nossa história, essa que se escreveu em 1 de Dezembro de 1640, – com valentia, com elegância, com habilidade, com um desprezo soberano pela morte.
À frente de todos, e a destacar-se pela acção prudente e firme, a figura varonil, bem desenhada, bem personalizada, do Duque de Bragança que uma História ignóbil, apostada a desvirilizar Portugal, a envergonhar Portugal de si mesmo, a desacreditar Portugal, nos ensinou a ter como figurino de poltrões.
Que fez o Duque de Bragança?
Responda, por mim, um homem insuspeito – insuspeito porque despido de toda a espécie de ambições; insuspeito, porque superiormente culto; insuspeito, porque de feitio avesso a lisonjas, antes acusado de excessivamente azedo nos seus juízos – Joaquim de Vasconcelos, erudito notável:
«Restaurar o reino em todo o sentido, reorganizar a administração, restabelecer as finanças, criar os complicados elementos de defesa, reconquistar quase todas as possessões de África e todo o Brasil, criar a Junta Geral do Comércio, negociar alianças valiosas, tudo isto em dezasseis anos... parece-nos uma obra digna de admiração e do nosso respeito, ainda que não fossem conhecidas as circunstâncias dificílimas em que estes trabalhos foram executados».
É este o D. João IV que os factos, as realidades, autorizam e levam a criar, e não o que formam as calúnias e misérias que aquela História anti-portuguesa tem forjado a seu respeito.
Foi D. João IV vítima dessa História infame. E com ele, a nobre Dinastia de Bragança, que, a despeito do desventurado D. Afonso VI, personagem ainda insuficientemente definida e, portanto, deformadamente julgada, se mostrou digna continuadora da acção admirável das dinastias suas predecessoras.
A Restauração começou em 1 de Dezembro de 1640. Mas foi uma rude e longa campanha que durou vinte e sete anos – desde aquela data até 13 de Fevereiro de 1668, e ocupou três reinados, os de D. João IV, D. Afonso VI e os três primeiros tempos de D. Pedro II.
Portugal aureolou-se de glória militar, – pelas notáveis vitórias alcançadas nos campos de batalha; de glória cívica, – pela tenacidade que revelou, pelo espírito de sacrifício de que deu exemplo constante; e de glória diplomática – pela posição que conquistou nas chancelarias europeias.
Como em 1128, como em 1383, como em 1580 – o inimigo está na fronteira de leste. Use ele as máscaras que usar; seja ele o arauto de que ideologias quiser; revista ele a forma política que revestir, o vizinho de leste é sempre o inimigo.
D. Afonso I sujeitou-o à sua espada, obrigando-o a reconhecer o nosso direito e a respeitar-nos; D. João I e o Condestável obrigaram-no a beijar o pó de Aljubarrota e a fugir desvairado para além das fronteiras; os generais da Restauração – naqueles campos famosos das linhas de Elvas, do Canal, de Montes Claros, derrotaram-no em sucessivos combates. Inimigo vencido – mas não convencido.
Pode, às vezes, dar-nos a impressão de adormecido ou desinteressado, com as unhas encolhidas, quase inofensivo. Não nos iludamos! O inimigo está vencido, mas não está convencido. E a toda a hora, seja qual fôr a sua posição no quadro dos acontecimentos do mundo, – ele vive da saudade indominada de 1580 a 1640, e da esperança de recomeçar 1580.
Desgraçadamente, cá dentro, há quem lhe alimente essa saudade, e lhe fortaleça essa esperança, sob o disfarce traiçoeiro da Aliança Peninsular ou da Hispanidade.
Devemos aos Humanistas – espíritos internacionalizados, isto é, desnacionalizados, cidadãos do mundo e não das suas pátrias, devemos, aos Humanistas do século XVI, esse conceito perigoso e falso do Hispanismo. Até o nosso Camões se deixou seduzir pelo canto da sereia maldita.
Perdão! Portugal nunca foi Espanha; foi sempre Portugal!
Quando D. Afonso VII se proclamou Imperador, em Toledo, em Junho de 1135, passou a designar-se nos diplomas da sua Chancelaria, «totius Hispanie Imperator», ou «Imperator hispaniorum», ou «hispaniarum Imperator»; e este título que Afonso VIII transformou em «Ispanorum rex», mostra claramente que Portugal não fazia parte das Espanhas, nem da Espanha, e os portugueses não pertenciam à grei dos espanhóis.
De resto, o termo Hispania, tão simples, à primeira vista, é muito mais complicado do que se supõe. Em muitos documentos dessa época, denomina-se Hispania tudo o que na Península está ainda em poder dos mouros. São vulgares as expressões de Hispania ou venire de Hispania ou ire de Hispania, como referindo-se a terras da Península ainda não conquistadas por cristãos. E Petter Rassow que isto nos revela, acrescenta que «Valencia, Murcia, Cordoba, y Malaga son las partes o terras de Hispania».
Seja como fôr, o que é indiscutível é que Portugal era Portugal, e nunca, ninguém, na Idade Média, concebeu a Espanha como abrangendo também Portugal, nem os Reis desse tempo, dizendo-se «de Hespanha», se supunham de Portugal.
Foi preciso que viessem os Humanistas do século XVI, com as suas invencionices, para que se criasse um conceito colectivo de Hispanidade, que prendesse no mesmo elo, ou fundisse no mesmo sangue, a Espanha e Portugal, como se entre uma e outro não houvesse um abismo que ninguém pode transpôr.
Esse conceito colectivo despertou ultimamente, na pena de António Sardinha, e na acção proselítica do desventurado Ramiro de Maeztu, assassinado canibalescamente pelas hordas vermelhas de Madrid, mas é preciso fazer-lhe frente, e negar-lhe passaporte de trânsito em terras de Portugal.
Compreendo que ele seduza o inimigo tradicional de Portugal; espíritos portugueses não pode seduzi-los, uma vez que não estejam doentes.
Não! A leste o inimigo – contra quem devemos ter sempre preparadas as nossas forças, as nossas energias, as nossas vontades, e as nossas vidas. Isto não significa que lhe queremos mal: quer dizer, sim, que nos queremos bem a nós próprios...
E o que acabo de dizer não se opõe a que possamos observar certos momentos de entendimento ou colaboração, como durante a última guerra de Espanha, ou como na hora que passa. Esses momentos são filhos de tendências pessoais deste ou daquele governante: não reflectem sentimentos colectivos. Tivemos desses momentos, depois de 1128 – o que não impediu 1385; voltamos a tê-los posteriormente, e nem por isso escapamos a 1580. É que acima das atitudes pessoais deste ou daquele homem de Estado – estão as condições psicológicas e as tradições históricas dos Povos, que nos impõem a verificação permanente das realidades, e nos defendem dos perigos das ilusões ocasionais.

Alfredo Pimenta in «A Fundação e a Restauração de Portugal», 1940.

29/10/2016

Os Reis como ministros de Deus


Os Reis sabiam bem que os Reinos não se lhes encontravam à frente, senão para os dirigir em bondade e em direitura. Tudo se resume, afinal, com a mais vigorosa das simplicidades, nas últimas palavras de D. Fernando sobre o leito de morte, segundo o texto de Fernão Lopes: "Tudo isso creio como fiel cristão, e logo creio mais que Ele [Deus] me deu estes Reinos para os manter em direito e justiça; e eu por meus pecados o fiz de tal guisa, que lhe darei deles muito mau conto: e em dizendo isto, chorava com muita vontade, rogando a Deus que lhe perdoasse". À Realeza anda assim ligado um património espiritual de que não pode abdicar, sem abdicar da sua íntima razão de ser.

António Sardinha in «Ao Ritmo da Ampulheta».

04/09/2016

Crítica de Alfredo Pimenta a António Sardinha (Parte 2)


IV

Juntaram-se estes trinta e seis cavalheiros, para aquilo que o leitor viu.
Nenhum deles teve a coragem de vir sozinho, e vá de juntarem-se em magote, os trinta e seis.
Nenhum deles se sentia com autoridade bastante para se fazer ouvir ou acreditar; e vá de se juntarem em turba, os trinta e seis.
Mas a Quantidade não cria a Qualidade; o Número não é fonte de valor – e serve apenas para se diluírem responsabilidades. E assim, se a cada um dos trinta e seis lhe escasseava o ânimo para o insulto, não ficaram mais animosos os trinta e seis, por virem em manada; porque o que lhes parece que seja ânimo não passa de manifesta fraqueza. E se nenhum deles se sentia com autoridade para a Declaração, não é por virem em ramilhete que a possuem.
Depois do que fizeram, dessa vergonha sem-nome de se reunirem em hoste ou mesnada, para assaltarem um homem isolado, vocês perderam qualquer sombra de autoridade moral seja para o que for.
Um homem desonra-se pelos seus actos, pelas suas palavras, pelas suas atitudes. Não é porque um fulano ou trinta e seis fulanos o proclamam pecador, que esse homem peca.
Pode um de vocês, ou podem vocês todos proclamar criminoso um homem, que se ele estiver inocente, inocente ficará.
E vice-versa. E pode um de vocês e podem vocês todos proclamar o António Sardinha intangível e tabu, divino e taumaturgo, que se ele for de barro e fanado, fanado e de barro continuará a ser.
Mas, em qualquer hipótese, poderem, vocês, julgar-me? Terem, vocês, autoridade moral para me julgar?!
Vocês!
Primeiro, juntarem-se trinta e seis para enxovalhar um homem sozinho, é uma coisa miserável, de que, graças a Deus, não há exemplo.
Depois, entrarem na onda nove pessoas com quem estava de relações cortadas é escândalo maior ainda. Onde se viu que alguém que está de relações cortadas com outrem se bandeie com terceiros para lhe apedrejar as vidraças ou a honra?
Pois, aqui, não houve uma dessa força: houve nove!
Ao que se desceu!
Ora saiba-se isto.
Um desses nove, o arauto da tropa fandanga, e redactor da prosa repugnante, aqui há anos, esteve preso por amor daquele que Sardinha acusara de gastar a seu talante, dinheiro que não lhe pertencia. Pelo mesmo motivo, fora preso igualmente um querido amigo meu.
Quando soou a circunstância única de ser imediatamente eficiente o meu esforço para restituir este meu amigo à sua vida livre, não a deixei escapar, e empenhei-me a fundo. Reparei, então, em que também estava preso o outro com quem havia anos já eu cortara as relações.
Não hesitei. O meu trabalho abrangeu os dois; eram dois escritores; pedi pelos dois, e os dois vieram, ao mesmo tempo, para a rua.
Compare-se o meu procedimento com o desse tipo; eu, de relações cortadas com ele, intervenho a seu favor, ou se se prefere, não o excluo da minha intervenção; ele, de relações cortadas comigo, não treme, ao redigir a prosa indigna, o esguicho nauseabundo, a injúria reles que pretende atingir-me!
Mas, francamente, vocês, ó trinta e seis heróis da Declaração, vocês tomaram-se a sério? Vocês supõem que me fizeram algum mal, me causaram arrelia, ou me tiraram o sono, ou me desviaram do meu trabalho, quando lhes li a sentença?
Vocês estão matias de todo!
O vosso António Sardinha – e era o vosso António Sardinha! – acusou a Senhora Infanta D. Aldegundes de ter atraiçoado os monárquicos portugueses. E vocês acreditaram?
Acreditassem ou não – o que é certo é que Sua Alteza Real não ficou diminuída perante o conceito de ninguém, e a calúnia não passou do caluniador.
O vosso António Sardinha – e era o vosso António Sardinha! – acusou Paiva Couceiro de gastar, como lhe apeteceu, dinheiro que não lhe pertencia. Isto é horrível.
Mas vocês ligaram tanto crédito à acusação, como eu. Vocês e toda a gente. E a calúnia ficou com o caluniador.
Dar-se-á o caso de vocês se considerarem superiores ao Sardinha, ou mais dignos de crédito do que ele, ou mais limpos em juízos do que ele, querendo convencer-nos de que as suas apreciações são moeda falsa, e só as vossas têm a liga leal?
Deixem-se disso!
A vossa Declaração ninguém a toma a sério. Poderá, amanhã, ser invocada, no fragor de polémicas, ou com intuitos de propaganda. Nenhum homem de honra e de boa-fé a subscreverá.
Ninguém a toma a sério. Nem vocês!
Julgarem-me, vocês, a mim!
Vocês, entre os quais há um que ainda ontem me procurava para se queixar de que caminhávamos para uma Monarquia de Banksters que nos desonraria a todos, e no dia seguinte, vi de braço dado com quem ele acusava de o levar a tão fúnebre prognóstico?
Vocês, entre os quais há um que ainda ontem me procurava para comentar, com palavras de fel e de vitríolo, certas circunstâncias adstritas ao colar da Torre e Espada que cai sobre o peito do Lugar Tenente do Rei?
Vocês, que ainda ontem promoviam golpes de estado contra os supremos organismos dirigentes da Causa Monárquica e, posto o jogo a descoberto, se ficavam, mudos e quedos, como se nada se tivesse passado?
Vocês entre os quais há um que ainda ontem, diante dum artigo de serviço ao Rei, escrito por mim, me gritava ao telefone: «este jornal não é dos monárquicos, nem da Causa Monárquica, mas unicamente meu; e eu não sou o meu Pai...; porque não preciso da Causa Monárquica para nada!», e, no dia seguinte, corria a aceitar, na mesma Causa, o lugar de anódino para que, por sugestão exclusivamente minha, era convidado?
Vocês, entre os quais há um que ainda ontem me procurava, quando me supunha em transe de hostilidade, para me revelar que, sob pseudónimo cauteloso, tinha tentado ajustar à figura de Miguel de Vasconcelos – para, no dia seguinte, se fingir cooperador duma política de apoio leal e sincero ao mesmo Chefe do Governo?
Vocês, entre os quais há um que ainda ontem comentava as últimas determinações régias, chamando-lhes doutorescamente «certidão de óbito da Monarquia»?
Vocês, entre os quais há um que açambarca múltiplas posições rendosas, sem tempo nem vagar para honradamente as desempenhar e ontem era alvo de chacotas acerbas por amor disso, por parte de alguns íntegros, e hoje se encontra entre os seus chacoteadores, enquadrado no grupo dos trinta e seis?
Vocês, entre os quais há um que ainda ontem, chamando-me seu «querido amigo», me agradecia os meus dois opúsculos sobre o António Sardinha e Paiva Couceiro, embora não gostasse deles, do primeiro, por «excessivo e injusto», pedindo-me que desculpasse «esta franqueza», mas «a amizade a isso obriga», e, dizendo-se meu amigo e admirador, muito obrigado» – meia dúzia de dias depois se mancomuna com torpes inimigos meus, e assina a Declaração ignóbil?!
Vocês, entre os quais há um que, encontrando-se no estrangeiro, quando Sardinha morreu, teve um comentário tão grave, que eu nem sequer me atrevo a deixar perceber qual ele tivesse sido? Está aí vivo quem lho ouviu.
Vocês, que ainda ontem alfinetavam, e combatiam aqueles a quem chamavam «catolaicos» – os políticos do sector católico que tem por órgão as Novidades, e hoje me aparecem entendidos com os mesmos catolaicos?
Vocês, que ainda ontem filiavam a orientação ou a atitude da política do Estado actual, que ferozmente e odientamente contrariam, no espírito do Centro Católico, e hoje fraternizam às mil-maravilhas com o pior que há dos restos do mesmo Centro?
Vocês, julgarem-me?! Vocês, com todo esse cadastro de baixezas, mentiras, hipocrisias, tartufices – julgarem-me, a sério, a mim?
Vocês estão matias de todo! Quem vos convenceu dessa patranha?
Alguns de vocês arrancaram a máscara que lhes serviu de gazua para poderem entrar em minha casa, na intimidade do meu lar, na discreta confiança do meu coração. E aos trinta e seis eu vejo-os agora igualados, irmanados, confundidos, revelando-me a mesma face repelente do Ódio impotente e selvagem que não reconhece escrúpulos, e se afunda no lodo com que sonhou poder manchar o meu nome.
Não! Vocês são hediondos e ridículos. Destituíram um Rei, caluniando-o, tentando desonrá-lo; ameaçaram de passar por cima do actual3; a mim, agora, endereçam-me a Declaração famosa – que distribuem, ao domicílio, e vendem, nas lojas, a tostão!
O Rei continuou a ser o Rei; eu continuarei a ser quem sou.
Esses atestados que vocês tão facilmente passam não têm cotação; denotam a carência moral de quem os assina; e confirmam a integridade das vítimas.
Fiquem-se, vocês – que eu sigo o meu caminho.
Vocês são do Sardinha, não são do Rei; e querem fazer da Causa Monárquica, uma Causa que não seja a do Rei, mas do Sardinha, e dos amigos do Sardinha.
Para ser monárquico, e servir o Rei e os Princípios da Realeza, não preciso de placet dos trinta e seis, nem de licença da Causa do... António Sardinha.
Há mais de dez anos que exerço, quase sozinho, a minha actividade política. Os raros que estavam comigo porventura comigo continuarão.
A despeito de repetidos e insistentes convites, nunca quis entrar para o Integralismo. Nestes últimos dez anos, a vocês só vos encontrei, para me contrariarem.
Quando em 1941, pronunciei na Sala de Salazar, na Universidade do Porto, a conferência das Palavras à Juventude4, essencialmente, manifestamente portuguesa e monárquica, vocês que nunca foram, e jamais serão capazes de atitude idêntica, como a acolheram? Com silêncio, ou pessimismo, ou hostilidade.
Quando fiz a campanha a favor da presença da Família Real nas Festas dos Centenários, que me chegou de vocês? Ou silêncio, ou dificuldades, ou desdéns, ou hostilidade.
A Família Real veio; mas não foi a vossa política torta e imbecil que a trouxe: foi a minha política honesta, e feita à luz do dia.
Há meses, fui convidado para entrar no chamado Supremo Conselho Cultural da Causa Monárquica. Acedi, com repugnância. Assisti ao acto de posse, e nem sequer «obrigado» disse. Presente à primeira reunião, quando vi que vocês estavam lá todos, fiz considerações que claramente demonstraram que não me sentia disposto a aturá-los. As minhas palavras de essa tarde devem ter sido como chicotadas firmes que vocês sentiram – grotescamente ouriçados.
A Causa Monárquica, a pretexto de uma reunião obscena, trazia-vos para o seu seio, e entregava-se ao domínio dos vossos caprichos, das vossas ambições, dos vossos rancores. Era de prever o resto. Ao sair dessa reunião, declarei a um amigo: «não volto a pôr os pés, aqui!»
A minha crítica a António Sardinha operou instantaneamente o milagre de esclarecer tudo – depois de alinhar os meus inimigos.
Vocês não estão na Causa Monárquica, como soldados do Rei, ou para servir o Rei: estão, sim, como homens da Junta Central do Integralismo Lusitano, como sócios da sua sucursal comercial, A Gama, e para servir os interesses fechados desse grupo funesto ontem, funesto hoje, sempre funesto.
Então, hoje, vocês, ao que parece, senhores da Causa Monárquica: à política do Rei, opõem, vocês, a política sinistra da Revolução mestiça – a que o Rei chama «obter a Restauração monárquica pela Conquista».
A política sensata, inteligente e lealíssima do Rei, chamam vocês, «a certidão de óbito da Monarquia», e opõem-lhe a política sinistra em que podem colaborar a Maçonaria, o Judaísmo, a Democracia e o Bolchevismo – porque vocês sustentam que o perigo comunista é uma... lenda, e recebem lições de carácter dos representantes dessas seitas.
Entre a vossa política e a política do Rei há um fosso: a política de El-Rei é a política nacional; a vossa é a política do mais mesquinho clientelismo e do mais rancoroso maquiavelismo.
Estão, vocês, agora, ao que parece, senhores da Causa Monárquica que se vos entregou imbecilmente. Pois bem.
Fiquem-se, vocês, a receber as tais lições de carácter dos inimigos mais teimosos da Realeza – por ódio ao Chefe do Governo. Não é verdade, João da Neiva? Pois bem.
Se encontrarem Rei adequado – porque o actual tem outras intenções políticas, façam a Monarquia – pela Conquista, vocês a dizerem que a Causa Monárquica arrasta pela lama a bandeira da Monarquia, e a Causa a agradecer-lhes o elogio...
Mas que comédia tudo isto é! Vocês, patrões da Causa Monárquica!?
Vocês dizem-se monárquicos – mas romperam a obediência que deviam ao Senhor D. Manuel, unicamente porque Ele se não prestou a servir de estribo às vossas ambições. Dizem-se monárquicos – mas não respeitam os princípios fundamentais da Realeza, pretendendo que esta não seja terreno aberto aos vossos ódios e disparates. Dizem-se monárquicos – mas não acreditam no Rei, a Quem desprestigiam, porque Lhe desobedecem. Dizem-se monárquicos – mas não crêem na doutrina monárquica, nem na sua virtude. Dizem-se monárquicos – mas recebem lições de carácter, dos inimigos mais assanhados da Monarquia!
Dentro da Causa Monárquica, vocês são o elemento essencialmente dissolvente e corruptor. Senhores da Causa Monárquica, vocês têm que seguir as instruções régias que repudiam, e que defender a política do Rei que combatem, e alinhar o vosso passo pelo passo do Rei que desacreditam.
Que comédia!
Dentro da Causa Monárquica – estão a atraí-la para um campo equívoco, em que nada se salvará, nem a honra, pois não tardará muito que o país deseje saber qual é, afinal, o pensamento que orienta essa Causa: – o pensamento do Rei, claro, rectilíneo e nobre, ou o vosso pensamento, equívoco, ziguezagueado e desleal? Desejará saber, o País, qual é a verdadeira atitude da Causa Monárquica diante da realidade do Poder; a que o Rei, com inteligência e grandeza, sempre tem declarado, ou a que vocês desde sempre adoptaram, e os tem levado a conchavar-se com os piores inimigos do Rei e do Poder?
Que tenebrosa comédia!
Façam, vocês, e a Causa de António Sardinha, a Monarquia – pela Conquista.
A Monarquia que vocês fizerem, se tiverem Rei que os acompanhe, não será, porventura, a Monarquia de Banksters que, ontem, compungidamente, um de vocês me anunciava; mas feita por vocês, inspirada por vocês, informada por vocês, dirigida por vocês, será, indiscutivelmente, tal Monarquia, uma verdadeira Monarquia de Gangsters!
Façam-na, e sejam felizes...

Sexta-feira Santa, 1944.

Alfredo Pimenta.

1 – E não se percebe, ou percebe-se demais o escrúpulo com que tais expressões foram reproduzidas pelos editores, ao subtraírem ao conhecimento do público, por exemplo, o artigo que se intitula A Apologia da Guerra, e ocupa dez páginas do nº 5 da Nação Portuguesa. Que conteve o labor dos editores para os levar a esconder estas dez páginas, eles tão meticulosos, ao reproduzirem injúrias?
2 – Chamo a atenção para o prefácio-dedicatória do livro do Professor da Universidade de Salamanca, Francisco Tejada, Las Doctrinas Políticas en Portugal: Sardinha agasalha sob «el manto egregio de su nombre a todos cuantos añoramos la vuelta de aquella edad dorada» que «el mayor de todos los hispanos Filipe el calumniado», representa, quando, «reune en su mano los cestros de todos y cada uno de los reyes peninsulares» (págs. 8 e 10).
3 – Dizia António Sardinha: «...se ele (o Senhor D. Duarte) não quiser... outro Rei que as assembleias escolham». Que monárquico!
4 – Ver publicação Cadernos Culturais.

02/09/2016

Crítica de Alfredo Pimenta a António Sardinha (Parte 1)


António Sardinha e o Grupo Recreativo dos Trinta e Seis

I

Quando escrevi o meu trabalho crítico sobre António Sardinha, demais sabia eu o que estava a fazer. Ele seria como o bisturi implacável que rasga furúnculo fundo – porque era o camartelo que reduzia a estilhas o ídolo com que se andava a mistificar um Povo, e o gesto forte que fendia o véu sob que se ocultava um sistema de mentecaptices.
Ninguém lhe conheceu o texto antes de ser publicado. Apenas em roda de amigos, porque me perguntassem em que me ocupava agora, respondi que compunha dois trabalhos explosivos.
Quando o opúsculo apareceu, logo me chegou aos ouvidos o rumor de que no seio vasto da Madre-Gama, era grande a rabiosidade das crias dos gamos, e de que pessoas sensatas e criteriosas procuravam contê-la, por certificadas de que sairia disparate.
Tomei o meu lugar, para assistir à fita.
Passaram três semanas. Ouvira dizer que os irrequietos gamos andavam a colher assinaturas para um Protesto muito violento, – pois os convocara para capítulo, o seu Chefe, Mentor ou Dono, não sei bem.
Na terça-feira, à noite, chamaram-me ao telefone, para me felicitarem. Como fosse, esse dia, aniversário de uma filha, supus que se tratasse do aniversário festivo, e corri ao telefone.
Então que há?
Quero dar-lhe os parabéns pela torpeza dos seus inimigos!
Efectivamente...
No dia seguinte, recebi pelo correio, com dizeres que revelavam reacção espontânea e simpática, um papel desprezível, onde se lêem estas palavras que aqui reproduzo, para possível escarmento e vergonha dos seus signatários, se é que algum deles, depois do que fez, é capaz de vergonha, ou sensível ao escarmento:

«Publicou-se recentemente em Lisboa um desprezível panfleto em que se pretende deprimir o valor das obras de António Sardinha e ultrajar a alta dignidade da sua memória.
Os abaixo assinados, amigos, companheiros ou admiradores do Poeta e Mestre do pensamento político português, não podem atribuir àquele mórbido intento qualquer alcance ofensivo por que deva responsabilizar-se um profissional do escândalo.
Mas por atenção a leitores ainda desprevenidos, e pelo respeito à verdade, são levados a manifestar publicamente a sua comiseração por uma triste anormalidade que subtrai o autor a qualquer domínio do senso moral.
Lisboa, Março de 1944.»

Assinam esta prosa de Limoeiro – se se não ofendem os desgraçados que lá penam seus infortúnios – assinam esta prosa de Limoeiro, trinta e seis sujeitos: nove com quem já estava de relações cortadas; e doze a quem nem de vista conheço; dos quinze restantes: treze tinham comigo relações de cortesia, mais ou menos seguidas; dois considerava-os em verdade, meus amigos, um, principalmente, Alberto de Monsaraz. É este o único que sinceramente lastimo ver metido nesta cegada maltrapilha.
São trinta e seis, os heróis da façanha!
Eh! pá! Trinta e seis, para um homem só é coisa assinalada. Ou são frágeis como palhiço de centeio seco, ou a minha pena é de calibre tão potente que só em coorte cerrada se atrevem a investir com ela.
Trinta e seis para um homem só que não dispõe de mais nada, senão do vigor do seu espírito e da inflexibilidade da sua coragem! Trinta e seis para um homem só chega a ser a máxima das cobardias.
Nunca, nem para repelir injúrias, ou para discutir ideias, precisei de recorrer a tribos. Solus, totus et unus – é assim que tenho aparecido e apareço, assumindo, sozinho, a responsabilidade das minhas palavras, das minhas sentenças, dos meus juízos, das minhas atitudes, ou defrontando multidões exacerbadas e incontidas, como em Setúbal, no Barreiro, em Coimbra, ou indiferente às possíveis reacções dos gamos – sejam trinta e seis, ou trinta e seis mil...
Enlamearia a minha cara, por contrição ou pudor, se, algum dia, me passasse pela cabeça angariar assinaturas para praticar, cobrir ou proteger qualquer agressão que tivesse em mente, fosse contra quem fosse, quanto mais contra um só!
Andavam os gamos no vasto seio da Madre-Gama que lhes dá o nome, quando saíu o meu livro sobre o António Sardinha.
O Guia, o Mentor, o Mestre, o Dono, ou lá o que é, correu, esbaforido, e gritou-lhes: «Então que silêncio é esse?! Então não defendem a memória do grande morto? Têm quarenta e oito horas de prazo...»
Habituado a que lhe obedeçam, dentro de quarenta e oito horas de prazo, o Guia, o Mentor, o Mestre, o Dono ou lá o que é, foi-se à vida; e os gamos tocados pelo ultimatum do Chefe, Mentor, Mestre, Guia, Dono ou lá o que é, reuniram-se, conciliabularam, contaram-se, e, uma vez que se viram trinta e seis bem juntos, bem unidos, bem presos, arrancaram por aí fora, e, separando-se em duas colunas guerreiras, quando perceberam a minha sombra, estacaram, criaram ânimo e... zás! despejaram para cima da minha sombra aquele vómito cerebral.
Mas eu já ia longe, indiferente à arremetida dos gamos, e nem um salpico só do seu vómito atingiu sequer a minha sombra...
E para conceber, gerar e dar á luz aquilo, se reuniram, em coito danado, aqueles trinta e seis sujeitos!
Fenómeno único, na história literária do meu país!
Dão-se as mãos, em maçonaria de Entrudo, trinta e seis criaturas – não para discutir, não para argumentar, não para esclarecer, não para rebater, mas para injuriar, para insultar, para sujar quem está só, quem é só, quem, sozinho, se apresenta a desafiar as cóleras e as injúrias das manadas, dos bandos, das capelinhas, dos grupelhos, das chafaricas, tendo sobre todos eles a superioridade manifesta, visível, indiscutível, de uma coragem e de uma lealdade que nenhuma dessas púrrias de esgoto sabe o que seja!
Trinta e seis sujeitos ligados pelo cabresto da Impotência para um homem só que não dispõe nem de Poder, nem de Imprensa, nem de Partidos, nem de Fortuna – mas apenas da sinceridade dos seus juízos, e da consciência plena dos seus deveres, havemos de convir em que é singular!

II

Impressionar-me-ia mais aquela Declaração, se a assinasse um apenas dos trinta e seis – assina que o mais medíocre, ou o mais abjecto.
Assinado por trinta e seis figurões de cegada do Entrudo, constitui a mais estrondosa vitória que eu podia desejar, para a minha crítica à obra e à pessoa de António Sardinha, e, simultaneamente, o mais escandaloso, o mais retumbante e insólito desserviço que à pessoa e à obra do criticado, se poderia prestar.
Em primeiro lugar, se, em Lisboa, não há amigos do Sardinha, com a nobreza bastante para se não agruparem para insultar um homem sozinho, e com a inteligência e a cultura suficientes para tentarem rebater as afirmações da minha crítica, deploremos todos nós a situação do malogrado escritor, que só tem a seu lado, aqueles trinta e seis signatários da Declaração. E estes não valem um caracol apodrecido.
Em segundo lugar, críticas desfazem-se com críticas.
Quem às críticas responde com insultos, murros ou bengalada, confessa a sua inaptidão, a sua incompetência, a sua ignorância, ou a sua indignidade. Pode ser excelente agente provocador, exímio boxista ou óptimo esgrimista de pau. Escritor é que não é.
Ao António Sardinha que inventaram, opus o António Sardinha real, humano, como foi na sua vida e nos seus escritos.
Menti? Prove-se que menti.
Enganei-me? Prove-se que me enganei.
Deformei? Prove-se que deformei.
Feita a prova – ou me retrato, arrependido, e sou homem de bem; ou sustento as falsidades, teimosamente, e sou indigno de viver entre homens honrados.
Nas cinquenta páginas da minha crítica, apontei factos, textos, realidades.
Por isso das esferas universitárias descem até mim vozes de simpatia pela obra «de há muito necessária»...
Para os amigos sinceros de António Sardinha (não falo dos seus exploradores comerciais que transmudaram o seu nome em moeda que corre no balcão, nem é claro, dos trinta e seis patuscos da Declaração) para os amigos sinceros de António Sardinha, – que os deve ter! – só uma de duas atitudes é digna: rebater as posições da Crítica; ou o silêncio.
Insultar por insultar, como fizeram os trinta e seis famigerados heróis, é de regateiros, não é de homens de letras. Mas se lhes puxava a língua para o insulto soez, para a injúria canalha, começassem por tentar desfazer a crítica, e, depois, espinoteassem à vontade para gáudio da galeria, porque, nessas condições, o pinote é livre.
Se, juntando-se trinta e seis em grupo, e arremetendo em duas colunas contra um homem sozinho, não tiveram a mais leve sombra de nobreza, tomando a atitude que tomaram, afastando a Crítica para enxovalharem o crítico, faltaram ao mais leve respeito devido à Inteligência. E, ao mesmo tempo, desampararam, deixaram inteiramente a descoberto, a figura de António Sardinha.
Porque o público que já assiste interessado a este prélio, raciocina assim: «se aqueles trinta e seis, onde há de tudo, se escapam pela tangente da injúria e da difamação, é porque a Crítica foi certa, e nada há a responder-lhe».
Desgraçadamente, a Crítica é inexpugnável. Desgraçadamente para Sardinha, para os seus amigos sinceros, e até para mim que fui violentado a sanear a atmosfera.
Os trinta e seis heróis, com a sua Declaração, pretendem desviar as atenções da Crítica, e concentrá-las no crítico. O processo é pré-adâmico. E eu não sou criança.

III

Intimo os trinta e seis signatários da Declaração, em conjunto ou individualmente, a responder a estas perguntas, pelo menos:
1.º) É ou não verdade que, há anos para cá, são reproduzidas contra mim, e pelos meus inimigos, as expressões injuriosas de Sardinha, sem que ninguém as desautorize ou desabone?1
2.º) É ou não verdade que tais expressões injuriosas foram escritas unicamente por eu não ter acompanhado Sardinha, na sua atitude de rebeldia impertinente para com o Senhor D. Manuel?
3.º) É ou não verdade que Sardinha tendo, em 1918, escrito palavras de louvor em minha honra, em 1921, procurara torcer-lhes o significado, e diminuir-lhes o alcance?
4.º) É ou não verdade que Sardinha cooperou na greve de 1907, e mais tarde, diante do sacrifício, faltou à sua palavra, furando a greve?
5.º) É ou não verdade que Sardinha confirmou as palavras que lhe foram atribuídas, como comentário ao Regicídio?
6.º) É ou não verdade que Sardinha acusou Sua Alteza Real a Senhora Infanta D. Aldegundes de ter traído os monárquicos portugueses?
7.º) É ou não verdade que Sardinha acusou Paiva Couceiro de dispor «a seu talante, de dinheiro que não lhe pertencia»?
8.º) É ou não verdade que Sardinha acusou o Senhor D. Manuel de cumplicidade com os que «venderam ignobilmente, como marchantes, o sangue dos seus compatriotas», e de conceder títulos «como o Banco de Portugal fabrica notas»?
9.º) É ou não verdade Sardinha me pediu que o autorizasse a subscrever comigo o projecto de revogação do Divórcio, que apresentei à Câmara dos Deputados, em 1919?
10.º) É ou não verdade que a sua revisão histórica de D. João VI e de D. Carlota Joaquina é decalcada sobre os trabalhos de Oliveira Lima e [Julian Maria] Rubio?
11.º) É ou não verdade que o seu Prefácio à 2.ª edição das Memórias para a História e Teoria das Côrtes Gerais, do Visconde de Santarém, é uma coisa absurda, visto a todas as luzes?
12.º) É ou não verdade que Sardinha não fez História, limitando-se a trabalhar sobre a história feita, e que não utilizou, nem folheou, nem conheceu Documentos de Arquivos ou Cartulários impressos?
13.º) É ou não verdade que não foi antropólogo ou arqueólogo – mas escreveu o Valor da Raça?
14.º) É ou não verdade que Sardinha caluniou Gomes Freire, afirmando que ele se batera em Argel «com destemperado arrôjo», quando Gomes Freire nunca esteve em Argel?
15.º) É ou não verdade que proclamou, contra a evidência dos textos, que os Reis de Portugal, D. Afonso I e D. Sancho I se intitulavam «reis dos portugueses» em posição oposta à dos Reis de Castela e Leão que se intitulavam «reis de Castela» ou «reis de Leão», e esboçou sobre essa falsidade – uma doutrina disparatada?
16.º) É ou não verdade que Sardinha escreveu a Aliança Peninsular, sobre a qual, um dos trinta e seis signatários da Declaração formulou os juízos que transcrevi no meu livro?
17.º) É ou não verdade que a tese defendida nessa obra maléfica2 pertence a Oliveira Martins e Moniz Barreto?
18.º) É ou não verdade que Sardinha falava de S. Tomás, sem o ter lido directamente?
19.º) É ou não verdade que proclamou Teófilo Braga «prelector da mística nacional», para, volvidos poucos tempos, se penitenciar de ter lido e admirado o mesmíssimo Teófilo?
20.º) É ou não verdade que um dos trinta e seis signatários da Declaração me narrou a tarde de Madrid, com a visão do coche de gala, e tudo o mais?
21.º) É ou não verdade que no conjunto da obra de Sardinha se proclama:
a) Primado do Político;
b) O exclusivismo da solução monárquica;
c) A ligação indissolúvel da Causa da Igreja e da Causa da Monarquia;
d) A sua antipatia pela França;
e) A sua hostilidade à Aliança Inglesa;
f) A sua predilecção pela Aliança Peninsular;
g) O seu amor ao Brasil;
h) O seu racismo anti-semita?
22.º) É ou não verdade que Sardinha viveu na Quinta do Bispo – desde 1914, a qual constituía, «pelo seu casamento a base principal dos seus interesses»?
23.º) É ou não verdade que na Acção de 25 de Março de 1943, o Sr. Azinhal Abelho reproduziu, sem contestação de ninguém, e portanto transitou em julgado, a afirmação feita por António Torres de Carvalho, de que Sardinha morrera a tempo, porque de outra forma, «a fortuna da mulher ter-se-ia sumido, e esta ficaria na miséria»?
Porque nenhum dos trinta e seis signatários da Declaração se enxofrou, então, e protestou?
24.º) São ou não verdadeiras, autênticas, irrecusáveis, as quatro cartas que Sardinha me dirigiu, e eu publiquei?
25.º) É ou não verdade que nos últimos tempos da sua vida, Sardinha abandonara a tese do primado do Político, embarcara na chafarica dos Homens livres, e incensara Proença e Sérgio, e proclamara que a República e Monarquia eram mitos que nada exprimiam?
26.º) É ou não verdade que Sardinha nunca foi historiador, nem erudito, nem pensador, mas apenas um colector de impressões, glosando-as através da viveza do seu espírito, e do brilho ardente da sua palavra?
É isto que se discute, Srs. trinta e seis signatários da Declaração! É isto que convém apurar! É isto que as gentes moças que estavam a ser ludibriadas, esperam e desejam que se esclareça. É isto que vocês têm que sujeitar à análise do Saber, se o possuem, ou da Dialéctica, se está ao vosso alcance.
É isto que os emprazo, é poeira, é evasiva, é chantage, é carnaval pelintra!
Vá, discutam, respondam, esclareçam – arrumem devidamente os assuntos dessas vinte e seis perguntas, e, depois, insultem.
Recorram aos sistemas fluídicos, ou aos futurismos malabáricos, ou à dialéctica retorcida – mas discutam, contestem, destruam os vinte e seis items do Libelo.
Isso é o que interessa. Para isso é o que os emprazo; a isso é que os intimo.
O resto, repito, é fumo, poeira, evasiva, chantage – Carnaval.
Respondam, e não se façam lorpas, e não digam como por aí dizem, que António Sardinha está acima das discussões. Porque acima das discussões – só Deus, ou o Papa, quando define, ex-cathedra, doutrina.
E o António Sardinha ainda não é Deus, nem Papa, em funções de vice-Deus; pertence à História profana, e à Crítica humanas.
Vamos: respondam!