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27/06/2015

A Carta da Terra e a Nova Ordem Mundial (II)



A Carta da Terra é um manifesto materialista, pagão, panteísta, e que pretende fornecer uma base ética para um rígido controlo da população mundial. Os especialistas disfarçam de boas intenções o projecto de transformar grandes áreas do planeta em armazéns de matérias-primas que garantam a manutenção dos opulentos hábitos de consumo de uns poucos privilegiados. Se não fosse assim, por que a Carta mandaria adoptar – com a usual linguagem anti-natalista da ONU – "modos de reprodução que respeitem os direitos humanos e as capacidades regenerativas da Terra"? Serão impostas, em certas áreas do planeta, quotas populacionais para preservar os recursos naturais?
A Carta da Terra é um paradigma da reengenharia social anti-cristã que promove a perspectiva de género e a saúde sexual e reprodutiva – homossexualismo e aborto químico ou cirúrgico – como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável.
A Carta da Terra é a manifestação desse novo humanismo que visa preservar as florestas e salvar de um suposto extermínio as focas, baleias, gorilas, peixes-boi, leopardos, elefantes, as várias espécies de borboletas, ursos e cabras-montesas, e, por outro lado, não apenas justifica, mas obriga a perseguir e provocar um verdadeiro holocausto com leis que autorizam o abominável crime do aborto em nome dos direitos humanos, da paz, da igualdade, da harmonia universal. Não é o assassinato de milhões de inocentes o maior ataque à paz e aos direitos humanos?
"A Terra, cada forma de vida e todos os seres vivos possuem um valor intrínseco. Deve ser assegurado o seu respeito e cuidado", diz a Carta no seu primeiro ponto. Será que esta declaração reconhece que apenas os homens detêm os direitos de proprietários e guardiões inteligentes e nobres com que lhes dotou o Criador? Ou, pelo contrário, as pedras, plantas e animais têm os mesmos "direitos" que o homem?
Uma vez desconhecida a acção criadora de Deus, fonte da dignidade humana, não há dificuldade em dizer que todas as criaturas, sejam racionais, irracionais, animadas ou inanimadas, são iguais em dignidade. Um orangotango, um homem e uma espécie vegetal valem o mesmo. "Exigimos a extensão da comunidade de iguais a todos os hominídeos: os seres humanos, os bonobos, chimpanzés, gorilas e orangotangos", afirma o primeiro item da Declaração do Grande Símio, que circula pelo mundo à procura de consenso para se tornar um documento oficial das Nações Unidas. Mais ainda, a agenda espiritual da Carta, "fruto de debates com líderes religiosos", impõe dois mandamentos: guardar reverência pela Terra e pelo Cosmos, e respeitar as Miríades de Espécies.
A Carta também responde a uma ideologia que cultiva várias formas de materialismo pseudo-religioso, próprias das mitologias orientais, do indigenismo e de estranhos esoterismos, tornando-se um instrumento de descristianização.
Como alguém que conserva num zoológico um orangotango albino, este novo humanismo procura preservar o que ele chama de povos originários com a esterilização prévia para que não cresçam mais do que o necessário. E, como se isso fosse pouco, pretende que sejam reconhecidos os seus direitos de retornar às suas práticas religiosas ancestrais: uma maneira de apagar e, em outros casos, impedir a evangelização.
O processo da Carta da Terra já tem mais de quinze anos, com actividades nos cinco continentes, sendo significativo, por exemplo, o número de apresentações da Carta em Espanha e no México. A estratégia consiste em apresentá-la em congressos e foros, âmbitos parlamentares e de governo, procurando adeptos para o consenso universal. É notável como tentam, com muita paciência e perseverança, a adesão de municípios de grandes e pequenas cidades e de legislaturas regionais, ao mesmo tempo que tentam a incorporação do documento em currículos académicos.
Entre os indivíduos e associações que procuram aderir ao consenso, estão políticos e financiadores de todos os níveis, bem como comunidades religiosas católicas e instituições e autoridades de outras denominações cristãs.
(...)
A UNESCO incorporou plenamente a Carta da Terra em 2003, atribuindo-lhe a categoria de instrumento educativo em Abril de 2005, no Projecto de Aplicação Internacional da Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (EDS). Mas, mesmo antes disso, no Fórum do Milénio das ONGs (2000), organizado pelas Nações Unidas, a Carta foi listada entre os documentos que os participantes do Fórum se comprometeriam a impor à sociedade global.

Pe. Juan Claudio Sanahuja in «Poder Global e Religião Universal», 2010.

22/06/2015

A Carta da Terra e a Nova Ordem Mundial (I)


A Carta foi idealizada no início dos anos 90 por duas organizações: a Cruz Verde Internacional, de Mikhail Gorbachev, e o Conselho da Terra, dirigido por Maurice Strong. Gorbachev declarou, em 1997: "O mecanismo que usaremos será a substituição dos Dez Mandamentos pelos princípios contidos na presente Carta ou Constituição da Terra". A Carta foi patrocinada desde o início por Federico Mayor, Director Geral da UNESCO de 1987 a 1999.
Quais são os princípios da Carta? O prefácio afirma: "A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva como uma comunidade de vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra proveu as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de resistência da comunidade de vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável, com todos os seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global, com os seus recursos finitos, é uma preocupação comum a todos os povos. A protecção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado".
Os postulados agnósticos e panteístas da Carta seriam a base da nova sociedade: "O surgimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir um mundo democrático e humanitário. Os nossos desafios ambientais, económicos, políticos, sociais e espirituais estão interrelacionados, e juntos podemos forjar soluções inclusivas". A visão totalizadora do desenvolvimento sustentável, impregnada da linguagem vaga do holismo Nova Era, aparece de vez em quando: "Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas. Assegurar que as comunidades garantam, em todos os níveis, os direitos humanos e as liberdades fundamentais, e proporcionem a cada um a oportunidade de desenvolver o seu pleno potencial".
Para isso, nos termos da Carta, torna-se imperativo: "Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial preocupação com a diversidade biológica e os processos naturais que sustentam a vida. Adoptar, em todos os níveis, planos de desenvolvimento sustentável e regulamentos que permitam incluir a conservação e a reabilitação ambientais como parte integrante de todas as iniciativas de desenvolvimento".
Não poderia faltar o mandamento ecologista de controlar a natalidade para salvar o planeta, próprio do paradigma do desenvolvimento sustentável: "Adoptar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário", além de outros imperativos que colaboram directamente com as políticas do anti-natalismo compulsório e com a reengenharia anti-cristã da sociedade: "Afirmar a igualdade e a equidade de género como pré-requisito para o desenvolvimento sustentável e garantir o acesso universal à educação, o cuidado à saúde e a oportunidade económica (...). Garantir os direitos humanos das mulheres e das meninas, e acabar com toda a violência contra elas (...). Garantir o acesso universal aos cuidados de saúde reprodutiva, promovendo a reprodução responsável. Adoptar estilos de vida que acentuem a qualidade de vida e a suficiência material num mundo finito".
Para concluir, a imposição de dobrar-se às Nações Unidas e à Nova Ordem Mundial adoptando a Carta como o fundamento da nova religião global: "Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar o seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir com as suas obrigações sob os acordos internacionais existentes e apoiar a implantação dos princípios da Carta da Terra, através de um instrumento internacional juridicamente vinculante sobre o meio ambiente e desenvolvimento".
Na Carta da Terra, Deus está totalmente ausente. Não aparece nem mesmo como uma "hipótese" conciliadora. Isso faz com que a proposta de defesa da Vida e da Terra se apoie em fundamentos equivocados. E sabemos que defender uma realidade com argumentos e razões que não são correctos e adequados, é a melhor maneira de deixar esta realidade completamente indefesa, e que afirmá-la com uma base errónea é a maneira mais directa de deixá-la sem apoio.
A visão cristã é inconciliável com o imanentismo panteísta da Carta. Na Carta da Terra o homem é uma partícula do universo em pé de igualdade com um animal ou um vegetal, incapaz de conhecer qualquer realidade que não seja material. Não é o centro da Criação, criado como sábio administrador de Deus. (...)
Na Carta da Terra, o ser humano – homem e mulher – parece ser constantemente carregado pela corrente de uma evolução que não tem causa eficiente nem final, sem origem ou objectivo transcendente. O destino comum que daria unidade à grande diversidade na qual se encontra indiscriminadamente imerso não é a Parusia, a vinda do Senhor Jesus na Glória, a Transfiguração do Cosmos; é mais propriamente uma permanência nesta Terra, que exige uma solidariedade dos seres vivos a fim de construir e perpetuar uma bem-aventurança intramundana. As sucessivas gerações usufruirão desta felicidade ao melhor estilo das utopias milenaristas ou materialistas.
Sob esse ponto de vista, o desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade assume o carácter de uma pseudo-categoria teológica que aspira a ser critério de moralidade universalmente vinculante. Isso tudo constitui uma profunda negação da escatologia cristã e um retorno ao pensamento mágico promovido pelas correntes da Nova Era.


Pe. Juan Claudio Sanahuja in «Poder Global e Religião Universal», 2010.