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19/04/2019

A Cristo Crucificado


Divinas mãos e pés, peito rasgado,
Chagas em brandas carnes imprimidas...
Meu Deus! que por salvar almas perdidas,
Por elas quereis ser crucificado.

Outra fé, outro amor, outro cuidado,
Outras dores às Vossas são devidas;
Outros corações limpos, outras vidas,
Outro querer, no Vosso transformado.

Em Vós se encerrou toda a piedade,
Ficou no mundo só toda a crueza;
Por isso cada um deu do que tinha...

Claros sinais de amor, ah saudade!
Minha consolação, minha firmeza,
Chagas do meu Senhor, redenção minha!

Frei Agostinho da Cruz (1540-1619)

31/03/2019

Alumiar os que erram


Ao arcebispo de Granada, disse um criado seu, palavras pesadas, descomedindo-se com ele com maior liberdade do que se podia esperar da dignidade de um e ofício de outro. O bom prelado esteve muito em si, sem responder-lhe; e quando o viu partir, colérico, de sua presença, pegou do castiçal e o foi alumiando pela escada abaixo.
Que faz Vossa Senhoria? Aonde vai? – disse o criado, assustando-se com aquela acção de humildade.
Respondeu o prelado:
A fazer o meu ofício, que é alumiar os que erram.
Ficou o criado confundido; e prostrando-se a seus pés, lhe pediu perdão.

Pe. Manuel Bernardes in «Nova Floresta», 1706.

14/03/2019

O saco de penas


Era uma vez um homem que, por inveja, caluniou gravemente um amigo seu, levando-o à ruína.
Anos depois, arrependido do mal que as suas calúnias fizeram ao seu amigo, procurou um velho sábio, perguntando-lhe: "Que posso eu fazer para corrigir todo o mal que fiz ao meu amigo?" O velho respondeu: "Pega num saco cheio de penas de ave e solta-as ao vento".
No dia seguinte, o homem voltou ao velho sábio: "Já fiz como me mandaste". Ao que o velho lhe respondeu: "Essa foi a parte mais fácil, agora volta a encher o saco com as mesmas penas que soltaste ao vento". Mas o homem entristeceu-se, pois sabia que a tarefa era impossível.
E o velho sábio acrescentou: "Assim como não consegues juntar todas as penas que espalhaste ao vento, também não consegues reparar todo o mal que se espalhou de boca em boca. Vai, sê humilde e caridoso, pedindo perdão ao teu amigo e falando bem dele".

Catecismo Maior de São Pio X:
Quem pecou contra o Oitavo Mandamento [não levantar falsos testemunhos], não basta que se confesse disso, mas é também obrigado a retractar tudo o que disse caluniando o próximo, e a reparar, do melhor modo que possa, os danos que lhe causou.

06/03/2019

Meditação sobre o Inferno


Todo o Inferno está nestas palavras de Jesus Cristo: «Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno».

1º O Inferno é a separação, a perda de Deus. «Afasta-te de Mim, pecador». É assim que Deus repele para longe de Si a alma pecadora. É a perda de Deus, a perda da suma beleza, da suma bondade, do sumo bem. Enquanto a nossa alma estiver presa no cárcere da carne, não poderá nunca compreender a imensidade desta desgraça que, na frase dos santos, constitui o inferno dos infernos.

2º O Inferno é a maldição de Deus. «Afasta-te, pecador maldito». A maldição eficaz de um Deus todo-poderoso. Se é terrível a maldição de um pai, de uma mãe, que será a maldição de Deus? Pecador maldito, maldito no corpo, maldito na alma. Olhos, língua, mãos, pés, inteligência, coração, vontade, tudo é maldito, porque tudo serviu de instrumento ao pecado.

3º O Inferno é o fogo. «Afasta-te de Mim, pecador maldito, para o fogo». Quando os profetas falam do Inferno, logo se lhes apresenta à imaginação o mar, o mar sem limites e sem fundo, e os condenados, nadando e mergulhando neste abismo de fogo. O fogo os envolve, penetra-os, circula em suas veias, insinua-se até à medula dos ossos.

4º O Inferno é a eternidade. «Afasta-te, pecador maldito, para o fogo eterno». A eternidade... quem pode compreendê-la! É um tempo que não acaba. Mil anos, milhões de anos, mil milhões de anos. Contai as gotas de água do oceano, os grãos de areia das praias, as folhas das árvores... a eternidade tem mais anos, mais séculos. Sempre! Nunca! Sempre queimar, sempre sofrer! Nunca o menor alívio, a menor esperança!

Se os condenados que estão no Inferno pudessem voltar à Terra, que fariam? Procurariam outra vez a ocasião do pecado, as danças, os espectáculos, as tabernas, as casas de perdição? Não! Correriam para a igreja, ao pé do altar do Santíssimo Sacramento, de Nossa Senhora, ao pé do confessor principalmente, para alcançar o perdão dos seus pecados. O que os condenados não podem mais, vós o podeis. Não estais no Inferno, mas talvez estejais no caminho do Inferno. Quanto antes, voltai para trás; talvez amanhã seja tarde.

Pe. Guilherme Vaessen in «O Pequeno Missionário», 1953.

24/02/2019

Sermão da Sexagésima


As palavras que tomei por tema o dizem: Semen est Verbum Dei. Sabeis (cristãos) a causa por que se faz, hoje, tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus (como dizia) é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. Mas se as palavras dos pregadores não são palavras de Deus, que muito admira que não tenham a eficácia e os efeitos da palavra de Deus? Ventum seminabant, et turbinem colligent, diz o Espírito Santo: «Quem semeia ventos, colhe tempestades». Se os pregadores semeiam vento, se o que se prega é vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta em vez de colher fruto?

Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus: Qui habet sermonem meum, loquatur sermonem meum vere, disse Deus por Jeremias. As palavras de Deus, pregadas no sentido em que Deus as disse, são a palavra de Deus; mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavra de Deus, antes podem ser palavra do Demónio. Tentou o Demónio a Cristo a que fizesse das pedras pão. Respondeu-lhe o Senhor: Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo, quod procedit de ore Dei. Esta sentença era tirada do capítulo oitavo do Deuteronómio. Vendo o Demónio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura, leva-O ao Templo, e alegando o lugar do Salmo noventa, diz-lhe desta maneira: Mitte te deorsum; scriptum est enim, quia angelis suis Deus mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: «Deita-te daí abaixo, porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços, para que te não faças mal». De sorte que Cristo defendeu-Se do Diabo com a Escritura, e o Diabo tentou a Cristo com a Escritura. Todas as Escrituras são palavra de Deus; pois se Cristo toma a Escritura para se defender do Diabo, como toma o Diabo a Escritura para tentar a Cristo? A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o Diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido; e as mesmas palavras, que, tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus, tomadas em sentido alheio, são armas do Diabo. As mesmas palavras que, tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus as não disse, são tentação. Eis aqui a tentação com que então quis o Diabo derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do Templo. O pináculo do Templo é o púlpito, porque é o lugar mais alto dele. O Diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-O no monte, tentou-O no Templo: no deserto, tentou-O com a gula; no monte, tentou-O com a ambição; no Templo, tentou-O com as Escrituras mal interpretadas, e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, senão a Cristo, a sua Fé.

Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo, indignos verdadeiramente de tão sagrado nome), dizei-me: esses assuntos inúteis que tantas vezes levantais, essas empresas ao vosso parecer agudas, que prosseguis, achaste-las alguma vez nos Profetas do Testamento Velho, ou nos Apóstolos e Evangelistas do Testamento Novo, ou no autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Génesis até à última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras. Pois, se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus? Mais: nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendem os Padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não, por certo; porque muitas vezes as tomais pelo que toam, e não pelo que significam, e talvez nem pelo que toam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos de que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem?! E então ver cabecear o auditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante: se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos! Oh, que bem levantou o pregador! Assim é; mas que levantou? Um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se a alguém parecer demasiada a censura, oiça-me.

Estava Cristo acusado diante de Caifás, e diz o Evangelista S. Mateus que por fim vieram duas testemunhas falsas: Novissime venerunt duo falsi testes. Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que, se os Judeus destruíssem o Templo, Ele o tornaria a reedificar em três dias. Se lermos o Evangelista S. João, acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas. Pois, se Cristo tinha dito que havia de reedificar o templo dentro em três dias, e isto mesmo é o que referiram as testemunhas, como lhes chama o Evangelista testemunhas falsas: Duo falsi testes? O mesmo S. João deu a razão: Loquebatur de templo corporis sui. Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o Templo, falava o Senhor do templo místico de Seu Corpo, o qual os Judeus destruíram pela morte e o Senhor o reedificou pela ressurreição; e como Cristo falava do templo místico, e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém, ainda que as palavras eram verdadeiras, as testemunhas eram falsas. Eram falsas, porque Cristo as dissera em um sentido, e eles as referiram em outro; e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas, é levantar falso testemunho a Deus, é levantar falso testemunho às Escrituras. Ah! Senhor, quantos falsos testemunhos Vos levantam! Quantas vezes oiço dizer que dizeis o que nunca dissestes! Quantas vezes oiço dizer que são palavras Vossas, o que são imaginações minhas, que me não quero excluir deste número! Que muito admira logo que as nossas imaginações, e as nossas vaidades, e as nossas fábulas, não tenham a eficácia de palavra de Deus!

Miseráveis de nós, e miseráveis dos nossos tempos, pois neles se veio a cumprir a profecia de S. Paulo: Erit tempus, cum sanam doctrinam non sustinebunt: «Virá tempo», diz S. Paulo, «em que os homens não sofrerão a doutrina sã». Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes auribus: «Mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão, e sem escolha, os quais não façam mais que adular-lhes as orelhas». A veritate quidem auditum avertent, ad fabulas autem convertentur: «Fecharão os ouvidos à verdade, e abri-los-ão às fábulas».

Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento, e quer dizer comédia; e tudo são muitas pregações deste tempo. São fingimento, porque são subtilezas e pensamentos aéreos, sem fundamento de verdade; são comédia, porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia; e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes. Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente, era acabarem-se as comédias em Portugal; mas não foi assim. Não se acabaram, mudaram-se; passaram-se do teatro ao púlpito. Não cuideis que encareço em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam. Tomara ter aqui as comédias de Plauto, de Terêncio, de Séneca, e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros e muito mais sólidos, do que hoje se ouvem nos púlpitos. Grande miséria por certo, que se achem maiores documentos para a vida nos versos de um poeta profano e gentio, que nas pregações de um orador cristão, e muitas vezes, sobre cristão, religioso!

Pouco disse S. Paulo em lhes chamar comédia, porque muitos sermões há, que não são comédia, são farsa. Sobe talvez ao púlpito um pregador dos que professam ser mortos ao mundo, vestido ou amortalhado em um hábito de penitência (que todos, mais ou menos ásperos, são de penitência; e todos, desde o dia que os professámos, mortalhas), a vista é de horror, o nome de reverência, a matéria de compunção, a dignidade de oráculo, o lugar e a expectação de silêncio; e quando este se rompeu, que é o que se ouve?

Se neste auditório estivesse um estrangeiro que nos não conhecesse, e visse entrar este homem a falar em público naqueles trajos, e em tal lugar, cuidaria que havia de ouvir uma trombeta do Céu; que cada palavra sua havia de ser um raio para os corações, que havia de pregar com o zelo e com o fervor de um Elias, que com a voz, com o gesto, e com as acções, havia de fazer em pó e em cinza, os vícios.

Isto havia de cuidar o estrangeiro. E nós, que é o que vemos? Vemos sair da boca daquele homem, assim naqueles trajos, uma voz muito afectada e muito polida, e logo começar com muito desgarro, a quê? A motivar desvelos, a acreditar empenhos, a requintar finezas, a lisonjear precipícios, a brilhar auroras, a derreter cristais, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras, e outras mil indignidades destas.

Não é isto farsa a mais digna de riso, se não fora tanto para chorar? Na comédia, o rei veste como rei e fala como rei; o lacaio veste como lacaio e fala como lacaio; o rústico veste como rústico e fala como rústico; mas um pregador vestir como religioso e falar como... Não o quero dizer, por reverência do lugar.

Já que o púlpito é teatro, e o sermão comédia, sequer não faremos bem a figura? Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício? Assim pregava S. Paulo, assim pregavam aqueles patriarcas que se vestiram e nos vestiram destes hábitos? Não louvamos e não admiramos o seu pregar? Não nos prezamos de sermos seus filhos? Pois por que não os imitamos? Porque não pregamos como eles pregavam? Neste mesmo púlpito pregou S. Francisco Xavier, neste mesmo púlpito pregou S. Francisco de Borja; e eu, que tenho o mesmo hábito, porque não pregarei a sua doutrina, já que me falta o seu espírito?

Pe. António Vieira in «Sermão da Sexagésima», 1655.

06/06/2018

Do fim para que somos criados


O homem é criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus nosso Senhor e, mediante isso, salvar a sua alma; e as outras coisas sobre a face da Terra são criadas para o homem, para que o ajudem na prossecução do fim para que é criado. Donde se segue que o homem tanto há-de usar delas quanto o ajudem para o seu fim, e tanto deve afastar-se delas quanto para isso o impedem. Pelo que é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre-arbítrio, e não lhe está proibido; de tal maneira que não queiramos da nossa parte mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida curta, e consequentemente em tudo o mais; mas somente desejando e elegendo o que mais nos conduz ao fim para que somos criados.

Santo Inácio de Loyola in «Exercícios Espirituais», 1548.

30/03/2018

Sexta-feira Santa


Se sois Riqueza, como estais despido?
Se Omnipotente, como desprezado?
Se Rei, como de espinhos coroado?
Se Forte, como estais enfraquecido?

Se Luz, como a luz tendes perdida?
Se Sol Divino, como eclipsado?
Se Verbo, como é que estais calado?
Se Vida, como estais amortecido?

Se Deus, como estais como homem nessa Cruz?
Se Homem, como dais a um ladrão,
Com tão grande poder, posse dos Céus?

Ah, que sois Deus e Homem, bom Jesus!
Morrendo por Adão enquanto Adão,
E redimindo Adão enquanto Deus.

Frei António das Chagas (1631-1682)

25/03/2018

O «vale de lágrimas» e a nostalgia do Céu

São Francisco de Assis e a morte

Recordemos outra vez a lição que nos dão os santos; para eles, a verdadeira vida era a vida eterna e a vida presente não era mais que uma sombra. Para eles, a vida eterna era um livro imenso, de que a presente vida era o prefácio, a introdução.
Para eles a vida eterna era a pátria verdadeira, e a vida na terra, um «vale de lágrimas».
Alegravam-se também eles com os raios do sol; escutavam e deliciavam-se com o trinado das avezinhas; lutavam para cumprir o seu dever. Para o cumprirem tão heroicamente como o faziam, tiravam forças do pensamento da vida eterna, tinham nostalgia do Céu. A nostalgia do Céu compele a praticarmos verdadeiros heroísmos. Esta nostalgia faz-nos esquecer as lágrimas e juntar as mãos na oração, para vencermos os ímpetos da cólera, perdoando aos inimigos. Só assim podemos nós sorrir no meio dos sofrimentos; sabemos que todas as nossas lágrimas caem nas mãos de Deus.
Estejamos certos que, por maiores que sejam as tribulações, por mais sombrio que se nos mostre o céu, a luz da vida eterna penetra através da mais escura cerração.

Mons. Tihamér Tóth in «Jesus Cristo Rei», 1956.

14/02/2018

Começa a Quaresma


Tende piedade de mim, ó Deus, pela Vossa misericórdia! Pela Vossa imensa piedade, apagai a minha iniquidade!
Lavai-me todo da minha culpa e limpai-me do meu pecado.
Eu reconheço a minha iniquidade e tenho sempre à vista o meu pecado!
Foi só contra Vós que eu pequei e fiz o mal que está à Vossa vista!
Por isso sois justo na Vossa sentença e recto no Vosso juízo.
Aqui estou eu nascido na culpa, e a quem minha mãe concebeu no pecado!
Aí estais Vós, que Vos agradais de um coração sincero, e que no meu íntimo me ensinais a sabedoria!
Aspergi-me com o hissope e ficarei limpo; lavai-me e ficarei mais branco do que a neve!
Fazei-me ouvir uma palavra de alegria e gozo, e que exultem estes ossos por Vós triturados!
Desviai o Vosso olhar dos meus pecados e apagai todas as minhas culpas.
Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei renascer em mim um espírito decidido.
Não me queirais repelir da Vossa face e não me retireis o Vosso santo Espírito.
Dai-me a alegria de por Vós ser salvo e consolidai-me com um espírito generoso!
Hei-de ensinar aos maus os Vossos caminhos, e os pecadores hão-de voltar-se para Vós!
Deus, ó Deus, meu Salvador, livrai-me dos castigos sanguinários e que a minha língua exulte com a Vossa justiça!
Vós, Senhor, descerrareis os meus lábios e a minha boca publicará os Vossos louvores!
Porque não é só no sacrifício que Vós Vos comprazeis; e o holocausto não o aceitaríeis, se eu Vo-lo oferecesse.
O meu sacrifício, ó Deus, é um espírito contrito; e Vós não desprezais, ó Deus, o coração contrito e humilhado!
Pela Vossa bondade, Senhor, sede propício para com Sião, reconstruindo os muros de Jerusalém.
Então aceitareis os sacrifícios legais, as oblações e os holocaustos; então serão oferecidos novilhos sobre o Vosso altar!

Salmo 50

05/02/2018

Assim começa a "Imitação de Cristo"...


I – Imitação de Cristo pelo desprezo às vaidades do mundo

Quem Me segue não anda em trevas. São palavras com que Jesus Cristo nos exorta à imitação da Sua vida e dos Seus costumes, se quisermos ser verdadeiramente esclarecidos e livres de toda a cegueira do coração. O nosso empenho deve, portanto, consistir em meditar profundamente a vida de Nosso Senhor.

A Sua doutrina excede as de todos os santos. Quem dela tiver o espírito, nela achará um maná escondido. Por falta desse espírito é que muitos, ainda que ouvindo frequentemente o Evangelho, estão pouco inclinados para Ele. Quem quiser, entretanto, entendê-Lo com perfeição, procure conformar a sua vida à vida do seu Autor.

De que te serve debater altas coisas sobre a Trindade, se pela tua soberba desagradas a essa mesma Trindade? Não é o saber sublime que torna o homem santo e justo, mas uma vida inocente o faz agradável a Deus.
Antes quero ter a compunção do que saber defini-la. Se soubesses de cor toda a Bíblia e fosses versado nas doutrinas de todos os filósofos, de que te aproveitaria tudo isto, sem o amor e a graça de Deus? Tudo o que não é amar e servir a Deus é vaidade das vaidades. A suprema sabedoria consiste em caminhar para o Céu pelo desprezo do mundo.


É, pois, vaidade procurar riquezas caducas e nelas pôr a esperança. É vaidade pretender honras e altas posições. É vaidade seguir os apetites da carne e desejar aquilo que se deve contrariar e castigar. É vaidade desejar vida larga e tratar pouco de que seja boa. É vaidade atender somente a vida presente e não prever a futura. É vaidade amar o que passa com tanta ligeireza e não aspirar a uma felicidade que sempre dure.

Lembra-te amiúde do que diz o Eclesiastes: «O olho não se cansa de ver nem o ouvido de ouvir». Procura, pois, desprender o teu coração das coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis, porque os que se entregam à sensualidade mancham a consciência e perdem a graça de Deus.

Tomás de Kempis in «Imitação de Cristo», 1441.

23/01/2018

Salmo 42


Fazei-me justiça, ó Deus, e tomai a defesa da minha causa contra gente não santa; do homem iníquo e fraudulento livrai-me, Senhor.
Pois Vós, ó Deus, sois a minha fortaleza, por que então me haveis repelido? Por que ando eu assim triste, oprimido pelo inimigo?
Enviai-me a vossa luz e a vossa verdade; que me guiem e me conduzam até à vossa montanha santa, até à vossa morada.
E eu vou-me aproximar do altar de Deus, do Deus que é a alegria da minha juventude.
Eu Vos louvarei ao som da cítara, Senhor, meu Deus. E tu, minha alma, por que hás-de estar triste e por que alvoroçar-te dentro de mim?
Espera em Deus, que uma vez mais O quero enaltecer, a Ele, salvação minha e meu Deus.

§

Nota: Este salmo é rezado do início de cada Missa Tradicional, sendo apenas omitido nas missas de defuntos e no Tempo da Paixão.

26/10/2017

Contra a vã curiosidade


Não procures saber o que excede a tua capacidade, e não especules o que ultrapassa as tuas forças (intelectuais), mas pensa sempre no que Deus te mandou, e nas muitas obras Suas não sejas curioso. Porque não te é necessário ver com os teus olhos o que está escondido.
Não te apliques a esquadrinhar com ânsia as coisas supérfluas, e não indagues com curiosidade as diversas coisas de Deus. Porque muitas coisas te foram reveladas, que excedem a inteligência humana. A muitos enganou a falsa opinião que formavam delas, e as suas conjecturas sobre tais coisas conservaram-nos no erro.

Eclesiástico III, 22-26

23/06/2017

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus


Antiga inscrição na Catedral de Lübeck, Alemanha:

Chamais-Me Mestre, e não Me obedeceis.
Chamais-Me Luz, e não Me vedes.
Chamais-Me Caminho, e não Me percorreis.
Chamais-Me Vida, e não palpitais com o Meu Coração.
Chamais-Me Sábio, e não Me escutais.
Chamais-Me Adorável, e não Me adorais.
Chamais-Me Providência, e nada Me pedis.
Chamais-Me Eterno, e não Me procurais.
Chamais-Me Misericordioso, e não vos confiais a Mim.
Chamais-Me Senhor, e não Me servis.
Chamais-Me Todo-Poderoso, e não Me receais.
Chamais-Me Justo, e não vos justificais.
Se Eu vos condenar, não Me culpeis, só a vós culpai!

07/03/2017

Verdades que o cristão deve recordar diariamente


VERDADES DE QUE O CRISTÃO SE DEVE RECORDAR TODAS AS MANHÃS

Cristão, lembra-te que tens hoje:
Deus a glorificar,
Jesus a imitar,
A Santíssima Virgem a invocar,
Os Santos a imitar,
Os Santos Anjos a honrar,
Uma alma a salvar,
Um corpo a mortificar,
Virtudes a pedir e praticar,
Pecados a expiar,
Um paraíso a ganhar,
Um inferno a evitar,
Uma eternidade a meditar,
Tempo a aproveitar,
Próximo a edificar,
Um mundo a temer,
Demónios a combater,
Paixões a subjugar,
Talvez a morte a sofrer,
E o juízo a suportar!

OH! ETERNIDADE!

Retirado de «Manual de Orações», aprovado pelo Arcebispo de Porto Alegre, 10 de Novembro de 1926.

01/03/2017

Quarta-feira de Cinzas


Lembra-te ó homem que és pó, e que em pó te hás-de tornar. (Génesis 3, 19)

É certíssimo que todos devemos morrer, mas não sabemos quando. "Nada há mais certo do que a morte – diz Idiota – porém nada mais incerto do que a hora da morte".
Meu irmão, estão fixados ano, mês, dia, hora e momento em que terás que deixar este mundo e entrar na eternidade; porém nós o ignoramos. Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de estarmos sempre bem preparados, disse que a morte virá como um ladrão, oculto e de noite (I Tessalonicenses 5, 2). Outras vezes exortou a que estejamos vigilantes, porque, quando menos esperarmos, virá Ele a julgar-nos (Lucas 12, 40). Disse São Gregório que Deus nos oculta, para nosso bem, a hora da morte, a fim de que estejamos sempre preparados para morrer. Disse São Bernardo: A morte pode levar-nos em qualquer momento e em qualquer lugar; por isso, se queremos morrer bem e salvar-nos, é preciso que a estejamos à espera em qualquer tempo ou lugar.
Ninguém ignora que deve morrer; mas o mal está em que muitos vêem a morte a tamanha distância que a perdem de vista. Mesmo os anciãos mais decrépitos e as pessoas mais enfermas não deixam de alimentar a ilusão de que hão-de viver mais três ou quatro anos. Eu, porém, digo o contrário: Devemos considerar quantas mortes repentinas vemos em nossos dias. Uns morrem caminhando, outros sentados, outros dormindo em seu leito. É certo que nenhum deles julgava morrer tão subitamente, no dia em que morreu. Afirmo, ademais, que de quantos no decorrer deste ano morreram na sua própria cama, e não de repente, nenhum deles imaginava que devia acabar sua vida neste ano. São poucas as mortes que não chegam inesperadas.
Assim, pois, cristão, quando o demónio te provoca a pecar, sob o pretexto de que amanhã te confessarás, diz-lhe: Quem sabe se não será hoje o último dia da minha vida? Se esta hora, se este momento, em que me apartasse de Deus, fosse o último para mim, de modo que já não restasse tempo para reparar a falta, que seria de mim na eternidade? Quantos pobres pecadores tiveram a infelicidade de ser surpreendidos pela morte ao recrearem-se com manjares intoxicados e foram precipitados no inferno? "Assim como os peixes caem no anzol, assim são colhidos os homens pela morte num momento mau" (Eclesiastes 9, 12). O momento mau é exactamente aquele em que o pecador ofende a Deus.
Diz o demónio que tal desgraça não nos há-de suceder; mas é preciso responder-lhe: E se suceder, que será de mim por toda a eternidade?

Santo Afonso Maria de Ligório in «Preparação para a Morte».

E se o justo a custo se salva, o que virá a ser do ímpio e do pecador? (I Pedro 4,18)

21/10/2016

Para salvar o mundo, há que salvar as almas


Se as almas não forem salvas, nada se salvará. Não poderá haver paz no mundo, se não houver paz de alma. As guerras mundiais não passam de projecções dos conflitos travados dentro das almas dos homens modernos, pois nada acontece no mundo exterior que não haja primeiro acontecido dentro de uma alma.

Mons. Fulton Sheen in «Angústia e Paz».

08/09/2016

Céu e Inferno


Dois frades descalços, às seis da manhã, em pleno Inverno e nevando copiosamente, saíam de uma igreja de Paris. Tinham estado a noite inteira em adoração ao Santíssimo Sacramento. Descalços, em pleno Inverno, nevando... E eis que, naquele mesmo momento, de um cabaret situado na rua da frente, saíam dois jovens pervertidos, que tinham passado ali uma noite de crápula e luxúria. Saíam meio mortos de sono, vestidos com os seus magníficos casacões, e ao cruzar-se com os dois frades descalços que saíam da igreja, encarando um dos jovens com um deles, disse-lhe em tom irónico: "Irmãozinho, que grande choque vais ter se resulta que não há Céu". E o frade, que tinha grande agilidade mental, respondeu-lhe de imediato: "E tu que grande choque vais ter se resulta que há Inferno".

Pe. Antonio Royo Marín in «El Misterio del Más Allá», 1957.

31/07/2016

Sem combate não há vitória


Aparelha-te, pois, para o combate, se queres a vitória. Sem peleja não podes chegar à coroa da vitória. Se não queres sofrer, renuncia à coroa; mas, se desejas ser coroado, luta varonilmente e sofre com paciência. Sem trabalho não se consegue o descanso e sem combate não se alcança a vitória.

Tomás de Kempis in «Imitação de Cristo».

21/07/2016

Os cristãos nasceram para o combate


É uma ilusão supor que a guerra é sempre um erro e que o mundo se poderá ver livre dela. Isto é falso. A guerra deve existir sempre; mas não a guerra exterior: a interna. Quando travamos guerra, contra o mal em nós, diminuem ao mesmo tempo as guerras exteriores. A razão por que vivemos num século de guerras exteriores é a de nos descurarmos no travar da batalha interior contra as forças que destroem a mente e a alma. Aquele que não descobrir o inimigo dentro de si, encontrá-lo-á, sem dúvida alguma, fora. O que se passar na mente, passar-se-á em seguida no mundo. Se a mente estiver no erro, então o mundo será uma loucura.

Mons. Fulton Sheen in «Aprendei a Amar».

08/07/2016

Carta do assassino de Santa Maria Goretti

Alessandro Serenelli

Tenho agora quase 80 anos. Estou perto do fim dos meus dias.
Olhando para o meu passado, reconheço que na minha juventude eu segui um mau caminho, um caminho que levou à minha ruína.
Através das revistas, dos espectáculos imorais e dos maus exemplos na imprensa, eu vi a maioria dos jovens da minha idade seguir o caminho do mal sem pensar duas vezes. Despreocupado, eu fiz a mesma coisa.
Havia fiéis e cristãos verdadeiramente praticantes à minha volta, mas eu não lhes dava importância. Eu estava cego por um impulso bruto que me empurrava para uma forma errada de vida.
Com a idade de 20 anos, eu cometi um crime passional, cuja memória ainda hoje me horroriza. Maria Goretti, hoje uma santa, foi o bom anjo que Deus colocou no meu caminho para me salvar. As palavras dela, tanto de repreensão como de perdão, ainda hoje estão impressas no meu coração. Ela rezou por mim, intercedeu pelo seu assassino. Quase 30 anos de prisão se seguiram.
Se eu não fosse menor de idade, pela lei italiana eu teria sido condenado a prisão perpétua. No entanto, eu aceitei a pena como algo que eu merecia.
Resignado, eu expiei pelo meu pecado. A pequena Maria foi verdadeiramente a minha luz, a minha protecção. Com a ajuda dela, eu cumpri bem esses 27 anos na prisão. Quando a sociedade me aceitou de volta entre os seus membros, eu procurei viver de forma honesta. Com caridade angélica, os filhos de São Francisco, os frades capuchinhos menores, receberam-me entre eles, não como servo, mas como irmão. Tenho vivido com eles há 24 anos. Agora eu olho serenamente para o dia em que serei admitido à visão de Deus, para abraçar os meus entes queridos mais uma vez, e para ficar próximo do meu anjo da guarda, Maria Goretti, e a sua querida mãe, Assunta.
Que todos os que vierem a ler esta carta desejem seguir o santo ensinamento de fazer o bem e evitar o mal. Que todos possam acreditar, com a fé dos pequeninos, que a religião e os seus preceitos, não são algo que se possa prescindir. Pelo contrário, é o verdadeiro conforto e a única via segura em todas as circunstâncias da vida, mesmo nas mais dolorosas.
Paz e bem.

Alessandro Serenelli
Macerata, Itália
5 de Maio de 1961