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23/09/2019

Do Francesismo


O deão da Sé de Elvas, José Carlos de Lara, dirige-se ao Convento dos Capuchos, em cuja cerca encontra um padre jubilado, com quem trava uma conversa acerca das estatuetas do jardim.

O bom Lara, que havia longo tempo,
Que, nesta santa Casa não entrava,
Aturdido ficou, quando a seus olhos,
Na Cerca entrando, juntos se lhe oferecem
As areadas ruas, as Estátuas,
Os Buxos, os Craveiros, as Latadas
De mil flores cobertas, e que, em torno,
O virente jardim adereçavam;
E não bem quatro passos tinha dado,
Quando, fitando curioso a lente
Na estátua, que primeira ali se encontra,
Pergunta ao Jubilado: «Quem é este
Monsieur Paris, segundo diz a letra,
Que por baixo, na base, tem aberta?
Se se houver de julgar pela aparência;
O nome, a catadura, o penteado
Dizendo-nos estão que este bilhostre
Foi Francês, e talvez Cabeleireiro,
Inventor do topete, que o enfeita.»
– «Páris, e não Paris diz o letreiro,
(Circunspecto lhe volve o Padre Mestre)
Nem Francês, como crê, Cabeleireiro
A personagem foi, que representa;
Mas em Tróia nasceu de estirpe régia.»
– «Pois, se Francês não foi (replica o Lara)
Como Monsieur lhe chamam?» – C'um sorriso
Lhe torna o Padre Mestre: «Não se admire
Que isto está sucedendo a cada passo:
Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo,
Se tratam de Monsieurs os Portugueses.
Isto, Senhor, é moda; e como é moda,
A quisemos seguir; e sobretudo
Mostrar ao mundo, que Francês sabemos.»

– «De tanto peso pois (lhe volve o Lara)
É, Padre Jubilado, por ventura,
O saber o Francês, que d'isso alarde
Fazer quisessem vossas Reverências?
Por acaso, sem esse sacramento,
Não podiam salvar-se, e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro,
Que o Francês, para mim, o mesmo monta,
Que a língua dos selvagens Botocudos.»

– «Não diga, Senhor, tal; que neste tempo,
Oh Tempos, oh Costumes! (diz o Padre)
O saber o Francês é saber tudo.
É pasmar ver, Senhor, como um pascácio,
De Francês com dois dedos se abalança,
Perante os homens doutos, e sisudos,
A falar nas ciências mais profundas,
Sem que lhe escape a Santa Teologia,
Alta ciência, aos Claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Escoto,
Aos Bacónios, aos Lúlios, e a mim próprio.
Desta audácia, Senhor, deste descoco,
Que entre nós, sem limite, vai lavrando,
Quem mais sente as terríveis consequências,
É a nossa Portuguesa, casta linguagem,
Que em tantas traduções anda envasada
(Traduções, que merecem ser queimadas!)
Em mil termos, e frases Galicanas!
Ah! se as marmóreas campas levantando,
Saíssem dos Sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os Antigos
Lusitanos Varões, que com a pena,
Ou com a espada e lança, a Pátria ornaram;
Os novos idiotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos, ridículos Autores;
(Como se a bela, e fértil língua nossa,
Primogénita filha da Latina,
Precisasse de estranhos atavios)
Súbito, certamente, pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala, ou Moçambique;
Até que já, por fim, desenganados
Que eram em Portugal, que os Portugueses
Eram também, os que costumes, língua,
Por tão estranhos modos, afrontaram,
Segunda vez de pejo morreriam.

António Cruz e Silva in «O Hissope», 1768.

15/12/2018

Do "provincianismo"

Coletes Amarelos.

A hipnose do estrangeiro é um dos característicos distintivos [dos provincianos]. A hipnose das cidades é outro sintoma de provincianismo. Tudo que se faz em Paris, por estúpido que seja, é motivo de gesto igual para os macacos da Europa.
Quando foi da guerra, como em França se constituísse uma coisa a que se chamou Union Sacrée, logo que os idiotas de cá simularam a mesma atitude não puderam deixar de simular também o mesmo nome – chamaram-lhe União Sagrada. Não tiveram invenção para mais. E, como houvesse uma La Croisade des Femmes Françaises, a idiotice correspondente passou a chamar-se Cruzada das Mulheres Portuguesas, como se não houvesse dicionário. Do mesmo modo, os parvos que arreatam a nossa proletariedade, como encontraram uma Confédération Générale du Travail já baptizada em França, não levaram a imaginação além de traduzir esse nome. Não queríamos que esses pseudo-homens buscassem conscientemente um nome português que para eles isto é a "região portuguesa" daquilo a que – com a ingenuidade natural em quem não sabe ler, mesmo não sendo analfabeto –, chamam a "humanidade". Mas gostávamos de ver o cérebro – até o cérebro deles – usado para mais que para equilibrar pelo peso o cabide natural do chapéu.

Fernando Pessoa in «Da República».

07/06/2012

Um fado contra-revolucionário


Não namores os franceses
Menina, Lisboa,
Portugal é meigo às vezes
Mas certas coisas não perdoa
Vê-te bem no espelho
Desse honrado velho
Que o seu belo exemplo atrai
Vai, segue o seu leal conselho
Não dês desgostos ao teu pai

Lisboa, não sejas francesa
Com toda a certeza
Não vais ser feliz
Lisboa, que ideia daninha
Vaidosa, alfacinha,
Casar com Paris
Lisboa, tens cá namorados
Que dizem, coitados,
Com as almas na voz
Lisboa, não sejas francesa
Tu és portuguesa
Tu és só pra nós

Tens amor às lindas fardas
Menina, Lisboa,
Vê lá bem pra quem te guardas
Donzela sem recato, enjoa
Tens aí tenentes,
Bravos e valentes,
Nados e criados cá,
Vá, tenha modos mais decentes
Menina caprichosa e má

Lisboa, não sejas francesa
Com toda a certeza
Não vais ser feliz
Lisboa, que ideia daninha
Vaidosa, alfacinha,
Casar com Paris
Lisboa, tens cá namorados
Que dizem, coitados,
Com as almas na voz
Lisboa, não sejas francesa
Tu és portuguesa
Tu és só pra nós

Amália Rodrigues