Quem conhece um mínimo de História, sabe que, durante milénios,
tanto os mais elevados espíritos pagãos como os cristãos – no Ocidente e no
Oriente – chegaram à certeza de que a autêntica felicidade só podia
encontrar-se na virtude, no bem, na realização do ideal divino sobre o homem.
Os homens e as mulheres falhavam, pecavam, cometiam
crimes, eram muitas vezes mesquinhos; mas em nenhum momento se apregoou ou se
pensou que o mal residisse no sofrimento ou no sacrifício; o mal estava, sim,
na falta de virtude, na falta de valores, na mentira, no desregramento, na
escravidão da alma às paixões baixas, em suma, no mal moral, no pecado.
Todos os heróis admirados e propostos como modelo à
juventude eram homens e mulheres capazes de grandes sacrifícios, de generosas
renúncias, de heróicos sofrimentos por uma causa, por um ideal que se
identificava sempre com a verdade e o bem, e nunca com a auto-satisfação
hedonista ou o interesse egoísta. Este era o comum denominador dos grandes personagens
bíblicos – Moisés, David, Judite, Ester... –, dos heróis pagãos – Aquiles, Penélope,
Eneias, Dido... – e dos heróis cristãos, quer se tratasse de mártires, de
virgens enamoradas de Deus, de grandes servidores dos pobres; quer de modelos
de cavaleiro cristão, como o rei São Luís da França ou El-Rei Dom Sebastião; ou
os heróis lendários como Sir Lancelot, Tirant lo Blanc e o louco e genial Dom
Quixote de la Mancha. O espelho da grandeza era a virtude. E a virtude não só
tolerava, mas exigia o sofrimento heróico, paciente, e o sacrifício
desinteressado, até chegar à entrega – sem um arrepio – da própria vida.
Pe. Francisco Faus in «A Sabedoria da Cruz».


