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04/06/2015

A procissão do Corpo de Deus em Lisboa

Procissão do Corpo de Deus na Lisboa quatrocentista.

A procissão do Corpo de Deus faz-se há anos com uma pompa e solenidade, que excede tudo o que se pratica nos outros lugares da Cristandade.
As ruas, por onde passa, estão juncadas de verdura e de flores, e guarnecidas de tropa. As casas estão cobertas de parte a parte na altura dos telhados de damasco e carmesim, forrado por cima de toldos de linho. De distância a distância vêem-se grandes lustres e magníficos altares de descanso.
Há neste dia no Terreiro do Paço e no Rossio uma colunata de madeira em arcada muito larga e muito elevada, em forma de algo de triunfo todo pintado, e ornado de belos painéis, por baixo do qual passa a procissão, como em todo o resto do trânsito, a coberto das injúrias do tempo. As casas estão armadas de seda; às janelas vêem-se as damas riquíssimamente enfeitadas e é defeso aos homens aparecer às janelas.
El-Rei assiste à cerimónia acompanhado de todos os grandes da Corte, e precedido de todas as confrarias, dos cavaleiros de Cristo, de Avis e de São Tiago, de todas as ordens eclesiásticas, e do Patriarca com seu clero, a que dão grande realce os principais mitrados.
A Rainha nesta ocasião vai para casa do Ministro, a qual está situada de maneira que Sua Majestade fica no centro da procissão; porque a descobre ao longe vindo da esquerda, donde se estende depois pela grande rua dos ourives do ouro, que está em frente das janelas que ela ocupa; e depois vê-se dar volta pela rua dos mercadores, que lhe fica à direita. Esta procissão mete tanto povo que há já uma boa parte de volta antes da outra ter acabado de desfilar neste sítio; de maneira que a Rainha, descobrindo a procissão toda de ponta a ponta a igual distância das janelas, que ocupa, vê-a assim em forma de cruz, formando um soberbo espectáculo.

Pierre Prault in «Description de la ville de Lisbonne», 1730.

25/05/2015

A Maçonaria, a Constituição e a Guerra Civil (II)

D. Pedro, o mação.


Após alguns anos, o Imperador do Brasil, D. Pedro, perde o trono e decide voltar para a Europa, banir o "usurpador" [D. Miguel] e proclamar rainha a sua filha, D. Maria. Tentativa ousada e, aparentemente, sem nenhuma hipótese de sucesso – pois D. Miguel era o Rei legítimo e reinava tranquilamente há alguns anos, adorado pela maioria do povo. Mas D. Pedro era apoiado por um grupo de exilados políticos e, sobretudo, pela Inglaterra – que não via, com certeza, com bons olhos, o reino católico e anticonstitucional de D. Miguel. O centro dos exilados políticos localizava-se em Inglaterra. Ali juntaram-se todos aqueles que, por convicção ou interesse, por espírito de aventura, por paixão ou, pura e simplesmente, por mero acaso, estavam do outro lado da barricada; por outras palavras, eram liberais, constitucionalistas e revolucionários. Entre eles, alguns homens políticos que desempenharam mais tarde papéis importantes no país: Palmela, Saldanha, Terceira. Verdadeiros ditadores do liberalismo, detestavam-se mutuamente e tentavam, sempre que tinham oportunidade, tornar-se, cada um deles, o dono absoluto do movimento.
(...)
Assim que D. Pedro chega à Europa, começam febrilmente as preparações para a guerra civil. Inglaterra e França dão-lhe todo o apoio. Sob um pretexto qualquer, a esquadra francesa aparece inesperadamente no estuário do Tejo e captura boa parte da frota portuguesa. Com esse golpe, D. Miguel não podia mais ousar uma tentativa de expedição contra os rebeldes da Terceira, fortificados nos Açores. Em Inglaterra, improvisa-se o exército libertador: alguns exilados, os desmobilizados das guerras napoleónicas, alguns aventureiros e mercenários. Vários tipos de homens, na sua maioria ingleses. Um deles, Doyle, excêntrico e fanfarrão (Oliveira Martins), proclama que tem de se fazer algo para a libertação "daqueles indígenas desgraçados" (those damn'd natives). Os indígenas eram os portugueses "aterrorizados" por D. Miguel. Em Londres apareciam cartazes com o seguinte texto: "Companhia comercial e colonial procura homens activos e inteligentes para trabalharem como fazendeiros no Brasil ou algures". As pessoas alistam-se sem saberem para onde é que iam ser enviadas. São empregues marinheiros ingleses e os seus capitães – todos com excelentes salários e contratos assinados. Há dinheiro suficiente. O Governo inglês põe à disposição de D. Pedro um empréstimo de 10.000 libras. Seguramente, intervém também um banqueiro judeu, Mendizábal. "Um banqueiro que era ao mesmo tempo um homem político e um fanático liberal. Todavia, como qualquer bom judeu, sabia conciliar o entusiasmo com os cálculos, sem arriscar a sua fortuna pelas suas ideias", escreve o historiador socialista Oliveira Martins.
Com dinheiro inglês compram-se alguns barcos e, no dia 7 de Julho de 1832, o exército de D. Pedro – cerca de 6.000 homens – desembarca e ocupa a cidade do Porto. (...) O Porto tem sido permanentemente um centro de insurreição. Os generais de D. Pedro tinham escolhido sabiamente o seu ponto de partida. Porém, a ocupação da cidade do Porto não traz consigo a revolução que D. Pedro e os seus partidários tinham esperado. Ninguém reage. Em todo o país reina a paz e D. Miguel pode organizar, em liberdade, o seu exército regular de 60.000 homens.
Mais do que nunca, Portugal está do seu lado. Os rebeldes fortificam-se no Porto e ficam a aguardar. São alimentados, por mar, pela esquadra inglesa. Os meses passam monótonos, sem nenhuma batalha decisiva. (...)
Exasperado pela inactividade, o comandante da esquadra rebelde, o inglês Napier, parte do Porto, no dia 2 de Julho de 1833 – passado um ano desde o começo da guerra civil – e encontra a esquadra de D. Miguel no Cabo de São Vicente. Bastam-lhe duas horas para consumar o ataque, afundando-a parcialmente e capturando os navios restantes, pois Napier era inglês, dinâmico e animado por um grande espírito de aventura. Alguns dias antes da batalha naval, parte das forças rebeldes cercadas no Porto tinha partido para o sul do país, ocupando o Algarve. Tinha-se iniciado uma série de golpes corajosos em pontos muito afastados uns dos outros, o que desorganizava a defesa do exército governamental, bastante abalado pela má condução das operações, pelo cerco insuficiente do Porto e pelos desentendimentos entre os generais. A 24 de Julho, o exército da Terceira entra em Lisboa, evacuada pelo exército de D. Miguel. As tropas governamentais não param de se retirar, embora o exército de D. Miguel tenha larga superioridade de efectivos. E quando atacam, fazem-no sem qualquer perícia, cometendo os maiores erros de táctica e estratégia. No princípio de Outubro, D. Miguel tenta reconquistar Lisboa, mas é derrotado. Também é vencido em Leiria, em Janeiro de 1834, em Almoster, em Fevereiro, em Viana, em Março, e as derrotas continuam uma após outra, embora o país esteja do seu lado, embora as suas tropas sejam valentes, embora quase ninguém o traia ou o abandone. Mas, por uma longa série de erros, sendo sempre perseguido pelo azar, tendo o infortúnio de surgirem em França e em Espanha movimentos liberais que auxiliam abertamente D. Pedro, D. Miguel perde, perante o invasor, a quase totalidade do país. Raramente se viu uma campanha militar, como esta, em que a má sorte estivesse sempre de um só lado. Contudo, o povo não aclamava D. Pedro. Por onde passava o exército "libertador", os mosteiros eram incendiados e o clero escorraçado.
Com alguns milhares de homens – tudo o que lhe restava – D. Miguel capitula a 26 de Maio de 1834, em Évora Monte, e explica ao seu exército porque é que foi quase forçado a pôr fim a uma guerra fratricida que demorara aproximadamente dois anos. Nas condições da capitulação mencionava-se igualmente o direito que tinham os "miguelistas" de regressarem sãos e salvos às suas terras. Mas esse pormenor provocou a indignação do grupo de revolucionários em Lisboa. (...)
Mal chegando a reinar em Lisboa, D. Pedro implementou os seus princípios demo-liberais. Expulsou os jesuítas e o Núncio Apostólico, suspendeu as relações com a Santa Sé. Mendizábal chegou a ser um ditador e um factótum: nomeava e substituía ministros, promulgava leis, fazia empréstimos em nome do Estado. Entretanto, com a morte de D. Pedro, desencadearam-se em todo o país massacres organizados contra os "miguelistas". Diariamente, centenas de pessoas foram assassinadas e as suas casas incendiadas, sem ninguém intervir. Um liberal que tinha lutado do lado dos contra-miguelistas, Marques Gomes, escrevia: "É uma tristeza dizê-lo, mas é bem verdade: os vencedores não foram generosos com os vencidos. Muitos dos vencidos de Évora Monte que, em virtude do decreto de amnistia de 27 de Maio, regressaram às suas terras, foram assassinados de maneira selvagem, em nome da liberdade... De nada serviram as medidas do Governo para se pôr termo a esses excessos; os crimes continuaram e, infelizmente, ainda por muito mais tempo". De acordo com a estatística de Franzini, num só ano de regime demo-liberal ocorreram 3.550 assassinatos e 4.900 saques. Em 1836, Passos Manuel, que nessa altura era ministro, declarou perante a Câmara: "De acordo com as informações das autoridades do país inteiro, constata-se que até hoje foram cometidos 16.000 assassinatos e mais de 7.000 casas foram despojadas". Acrescenta ainda que "os dados são incompletos". Oliveira Martins, o socialista, escreve em Portugal Contemporâneo: "O miguelista era uma vítima, um inimigo vencido. Era caçado tal como são caçados os lobos e qualquer ofensa anterior, qualquer crime, era punido com a morte, sem qualquer julgamento. Considerando-se os vencidos, os dirigentes máximos de uma soberania absoluta pagaram cem vezes mais aquilo que tinham recebido".
A guerra civil, em vez de terminar com a capitulação de Évora Monte, irá ainda continuar por muitos anos. Portugal fica abalado, desunido, vítima fácil das sociedades secretas. A derrota de D. Miguel não significou apenas a abolição da Monarquia Legítima, mas sobretudo a orientação de Portugal numa direcção anti-tradicionalista, onde a maçonaria desempenha um papel maior.

Mircea Eliade in «Salazar e a Revolução em Portugal».

23/05/2015

A Maçonaria, a Constituição e a Guerra Civil (I)

D. Pedro proclamando a independência do Brasil

A ameaça francesa terminou em 1814. "Livrámo-nos do exército francês que tem semeado entre nós ruínas, sangue, misérias, horrores e ideias perversas. Livrámo-nos do exército. Mas não das «ideias»", escrevia Alfredo Pimenta. Na verdade, só então começaram a notar-se os resultados da presença das tropas revolucionárias na Península. (...) Em 1820 surge uma insurreição militar no Porto que exige a substituição do Governo nomeado pelo Rei e o afastamento de Beresford. É o primeiro sinal de uma série quase infinita de insurreições, pronunciamentos, revoluções, contra-revoluções – a maioria realizada pelo exército ou contra o exército. O Rei D. João VI vê-se obrigado a regressar à pátria em 1821, após 14 anos de ausência.
No Brasil, deixa como regente o seu filho mais velho, D. Pedro, um jovem que se tinha formado nas fontes da ideologia revolucionária, que sonhava desempenhar o papel de um Bolívar e de impor à força, aos seus súbditos, as ideias liberais. Pouco tempo depois da partida do Rei D. João para a pátria, o regente D. Pedro declara a independência do Brasil, sendo aclamado imperador (12 de Outubro de 1822). A primeira ordem assinada pelo Imperador do Brasil é a reabertura da Loja do Grande Oriente. "D. Pedro não podia esquecer-se de que, segundo a expressão do Marechal, o acto de 12 de Outubro foi entièrement leur ouvrage" (Oliveira Lima). Com a perda do Brasil, o império colonial português sofrerá o golpe mais duro da sua história. É pelo menos estranho que esse golpe tenha sido realizado pelo príncipe herdeiro...
Alguns meses após a insurreição do Porto, (...) cria-se uma Junta do Governo provisório, que administra em nome do Rei e elabora, ao mesmo tempo, uma Constituição segundo os modelos francês e espanhol. Pouco antes do seu embarque, cedendo às insistências do príncipe herdeiro, D. João VI tinha jurado lealdade para com essa Constituição, em elaboração em Lisboa. (...) D. Pedro desempenhou igualmente neste caso o papel principal, confraternizando com os manifestantes que o aclamavam, na Praça Rossio do Rio de Janeiro, ao convencer o Rei a ceder.
Ao chegar a Lisboa, D. João VI será obrigado a aceitar as ordens da Junta que estabelece pormenorizadamente o processo do desembarque, sem solenidade ou manifestações, com um número certo de ovações para o Congresso, a Constituição, o Rei constitucional e a Família Real. D. João VI é prisioneiro do Congresso provisório, constituído por uma série de ambiciosos e iluminados da maçonaria que falavam, em plena Assembleia, do "Supremo Arquitecto". Alguns meses depois, a 1 de Outubro de 1822, o Rei é de novo obrigado a jurar perante a Constituição...
(...)
A 23 de Fevereiro de 1823, alguns meses após o Rei D. João VI, em Lisboa, ter de novo jurado lealdade à Constituição, iria surgir no norte do país a revolta do Conde de Amarante. A multidão gritava: "Viva o Rei absoluto! Morte à Constituição!" Ainda mal se tinha aclamado o movimento do Conde de Amarante, quando um regimento de infantaria se revolta, à saída de Lisboa. Em Vila Franca de Xira, os militares aquartelados tentam um movimento semelhante. O segundo filho do Rei, o infante D. Miguel, toma o comando das tropas, "jurando que ia libertar o Soberano das garras da maçonaria". D. João VI resiste algum tempo, mas acaba por prometer que dará ao país "uma nova ordem". Porém, essa promessa não acalmou a corrente contra-revolucionária. De modo que, a 30 de Abril de 1824, o infante D. Miguel tenta um novo golpe, como chefe da insurreição dos regimentos da capital. No manifesto dirigido às tropas, afirma que devia "triunfar a obra começada, dando-lhe uma estabilidade certa e destruindo de vez o bando pestilencial dos mações". No mesmo dia, o Infante proclamará aos portugueses: "Ou morremos na luta gloriosa em que estamos empenhados, ou cortamos de raiz o mal que nos abala, derrubando, de uma vez por todas, a infernal raça maçónica, antes que ela nos derrube".
Mas "a infernal raça maçónica" de que falava o infante D. Miguel era mais forte do que se assumia. O Corpo Diplomático de Lisboa, através de uma "intervenção vergonhosa" (Alfredo Pimenta), separa o Rei das forças de D. Miguel, isolando-o num barco inglês e obrigando-o a demitir o seu filho da função de comandante supremo do exército. A "Revolução de Abril" (Abrilada) falhou, graças à intervenção dos grandes poderes, e o infante D. Miguel embarca, a 13 de Maio, numa longa viagem ao estrangeiro. (...)
A 10 de Março de 1826, o Rei morre – morte inteiramente suspeita que alguns historiadores modernos atribuem às sociedades secretas. Certo é que D. João VI criou, através do afastamento do Infante, e sobretudo pelo seu testamento obscuro, uma situação que muito tem contribuído para a ruína de Portugal, pois esse testamento foi a causa da guerra civil. A época da verdadeira glória de D. João VI foi o seu período brasileiro, na criação do Estado moderno do Brasil. Ao regressar à metrópole, o Rei revelou sempre fraqueza e indecisão. Jurou lealdade à Constituição, embora tivesse chorado quando, por aquele ensejo, a multidão o aclamava com frenesim, no Rio de Janeiro. Assistiu com passividade às conspirações do seu filho mais velho, D. Pedro, em resultado das quais o Brasil se separou da pátria-mãe. Estava perfeitamente de acordo com as convicções e o movimento de D. Miguel, mas nem sempre teve a coragem de o defender. (...)
Sem qualquer dúvida, o verdadeiro herdeiro do trono era D. Miguel. D. Pedro era então Imperador do Brasil e as leis da Monarquia Portuguesa excluíam do trono um cidadão estrangeiro. D. Pedro tinha mesmo declarado guerra a Portugal e cometia actos de inimizade para com a sua antiga pátria. Por outro lado, num capítulo dos regimentos antigos exigia-se que o Soberano deveria residir em Portugal e D. Pedro permanecia no Brasil há 19 anos. Do mesmo modo, através de documentos vários, D. Pedro tinha definitivamente desistido dos seus direitos de primogénito.
Todavia, o Conselho de Regência reconhece na pessoa do Imperador do Brasil, D. Pedro, o Rei legítimo de Portugal – "e foi isso que abriu as portas à guerra civil" (Alfredo Pimenta). D. Pedro abdica a favor da sua filha, D. Maria da Glória, que decide dar em casamento ao seu irmão, D. Miguel. É uma situação confusa, absurda, que ninguém aceita.


Mircea Eliade in «Salazar e a Revolução em Portugal».

§

Nota 1: Sei que alguns monárquicos brasileiros, por ligações afectivas a D. Pedro, podem ficar melindrados com algumas palavras transcritas. Mas a Fé e a Razão dizem-nos para que se livrem desse afecto desordenado pela figura de D. Pedro, mas sem nunca desonrar os seus legítimos superiores.

Nota 2: Infelizmente Mircea Eliade – um estrangeiro – fez uso de alguma linguagem liberal, ao classificar o movimento miguelista como "insurreição", "revolta" ou "revolução". O justo e adequado seria chamá-lo de "restauração", uma vez que era disso mesmo que se tratava, de uma restauração da Ordem legítima. Peço por isso aos leitores que perdoem esse erro de linguagem.

Nota 3: Um liberal dito monárquico apontou como crítica ao texto o uso da expressão "regresso à pátria" de D. João VI, mas ao contrário do que sugere esse liberal, não há erro nenhum a apontar. Portugal e o Brasil eram de facto dois reinos distintos, unidos pela mesma coroa. Portanto quando se diz que D. João regressa à pátria, diz-se que regressa à sua terra natal ou terra de origem, isto é, à Metrópole.

15/05/2015

Monarquia liberal ou absoluta: o que desejava o povo?


Querem um Rei sem alcunha, como tenho ouvido a alguns dos nossos rústicos das províncias, designando por alcunha o título de constitucional. Querem um Rei que tenha uma existência própria, um princípio activo, que sem dependência de outrem anime e vivifique o Estado; que não reparta com outrem os atributos essenciais da Soberania, nem por outrem possa ser embaraçado de fazer todo o bem possível aos seus vassalos; um Rei que seja o órgão da Divindade e não o das facções.

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos», 1822.

09/05/2015

A bandeira de guerra de Dom Miguel

Os falsos tradicionalistas monárquicos, portadores de uma tradição que só existe nas suas próprias mentes, costumam apresentar uma bandeira bipartida de azul e vermelho, como sendo o estandarte militar de Dom Miguel. Porém, importa esclarecer que tal bandeira nunca existiu. O que não deixa de ser irónico: os tais que apresentam uma falsa monarquia tradicional, são os mesmos que apresentam uma falsa bandeira miguelista... Mas, então, como seria a bandeira de guerra de Dom Miguel? As fontes da época mostram-nos que as bandeiras militares seriam partidas, não em duas, mas em várias partes de azul e vermelho, como mostram as imagens:



A primeira imagem é de um estandarte militar do período das Invasões Francesas (Dona Maria) e a segunda é de um estandarte militar do período da Guerra Civil (Dom Miguel). Fica assim a devida correcção histórica, à qual junto um novo aviso aos leitores do blogue, para que não se deixem enganar por falsos tradicionalismos monárquicos, de falsas éticas e falsas estéticas. A Monarquia Portuguesa – de São Mamede a Évora Monte – foi só uma, e nunca conheceu doutrinas como as defendidas por tais monárquicos!

03/05/2015

Do Integralismo ao anti-Integralismo


Análise crítica para a compreensão do Integralismo Lusitano:

Assim surgiu o Integralismo Lusitano com Sardinha, Pequito Rebelo, Hipólito Raposo, Almeida Braga, João do Ameal, Alberto Monsaraz, Rolão Preto, etc. Começaram eles por publicar uma revista a Nação Portuguesa, constituir um movimento e ter um jornal denominado Monarquia. No primeiro número da Nação Portuguesa, apareceu um texto célebre "O que nós queremos". Aí se traça a concepção de uma monarquia de poder pessoal como condição sine qua non da sobrevivência da Portugalidade.
Mas o que os integralistas dessa época expunham era bastante mais do que esse texto dizia.
Eles desenvolviam um nacionalismo claro, corporizado, verbi gratia, nas palavras de Sardinha "pondo a nacionalidade como razão e fim de nós próprios, concluímos na necessidade do Rei como elemento do seu prestígio e da sua existência".
E não esqueçamos que, na obra de maior fundo teorético do Integralismo – Pela Dedução à Monarquia de Pequito Rebelo – este, depois de traçar a hierarquia ontológica-axiológica dos seres – "matéria-força, organismo vivo, pessoa humana e sociedade", não hesitava em escrever que "a pessoa humana, constituindo parte da sociedade, é menos complexa que a sociedade", continuando mais adiante "o mal reside até, não directa e essencialmente na personalidade, mas na actualização de uma possibilidade da personalidade que é exactamente a possibilidade que tem a personalidade de persistir em si mesma não se integrando nas leis sociais".
Como se vê, o Integralismo tomava posição universalista na questão básica "indivíduo-sociedade". Dela é que decorria a sua atitude monárquica. E nem vale a pena exibir as páginas, tão numerosas elas são, em que a partir das suas concepções iniciais, deduzia uma série de negações firmes como o repúdio do liberalismo e da democracia e do período constitucional.
(...)
Anote-se que o Integralismo inicial foi acompanhado, desde 1915, por um escritor que jamais aderiu formalmente a ele, mas com cuja doutrina declarava estar de acordo por inteiro. Refiro-me a Alfredo Pimenta, um dos mais coerentes, mais eruditos e mais desassombrados dos pensadores monárquicos portugueses.
E não se deixe de salientar que se o Integralismo considerava pseudo-monarquia a chamada monarquia liberal, condenava ainda como desvio perigoso do rumo normal da tradição, a denominada monarquia absoluta, em que as Cortes deixaram de ser ouvidas.
Quanto a nós, a monarquia desapareceu, efectivamente, em 1820 (com breve reaparecimento, no reinado de D. Miguel) mas não sofreu o desvio perigoso com um chamado absolutismo caracterizado pela não reunião de Cortes. As Cortes eram convocadas por iniciativa do Rei e que, durante largo tempo, não fossem convocadas, em nada alterava a constituição da Monarquia.
Não vou aqui deter-me longamente nas vicissitudes do Integralismo. Ele, de início, aceitou a realeza de D. Manuel II, sem embargo deste, em 1914, data do aparecimento da Nação Portuguesa, não ter renegado a Carta e não ter dado sinais de se aproximar da genuína realeza.
Em Janeiro de 1919, teve lugar a Monarquia do Norte, assim chamada porque durante cerca de um mês a norte do Douro, a bandeira azul e branca substituiu aí a verde e vermelha. D. Manuel, partidário entusiasta dos meios legalitários e, aliás, pouco informado, permaneceu alheio à revolta.
O Integralismo, depois da vitória do regime republicano escolheu o momento para formular um Ultimato ao Rei exigindo que repudiasse a Carta e adoptasse a doutrina tradicionalista. Como aquele não aceitasse a exigência, os integralistas desligaram-se da obediência a quem, até então, acatavam como soberano e aclamaram rei o descendente de D. Miguel, D. Duarte Nuno de Bragança (a seguir a várias abdicações), uma criança ainda que ficou sob tutela da Infanta D. Aldegundes.
Monárquicos houve que, aderindo aos princípios integralistas, achavam descabida a imposição feita a D. Manuel. Por exemplo, Alfredo Pimenta.
Em 1922, celebrou-se o Pacto de Paris, entre o ramo miguelista e o ramo manuelista. D. Aldegundes em nome do Sr. D. Duarte, reconhecia a realeza de D. Manuel. E estabeleceu-se que a futura constituição seria da competência das Cortes.
Os integralistas repudiaram o Pacto considerando-o, e bem, uma pura expressão de parlamentarismo, usando até António Sardinha a dura expressão "atraiçoados por uma infanta de Portugal".
Nessa altura, o Integralismo Lusitano dissolveu-se enquanto organização política, apenas ressurgindo quando o Pacto foi denunciado por D. Aldegundes, em 1925. Já então morrera Sardinha.
Entretanto, após algumas tentativas infrutíferas, os integralistas manuelistas estruturaram-se num grupo sólido, que foi a Acção Realista Portuguesa, em que Alfredo Pimenta era vulto destacado e onde se salientaram Caetano Beirão, João Ameal, Fernando de Campos, António Cabral, Luís Chaves, Ernesto Gonçalves e outros.
Depois do 28 de Maio, um dos fundadores do Integralismo, exilado no Brasil, a seguir a 1919 – João do Amaral –, regressou e fundou a Liga de Acção Integralista, a que aderiram a Acção Realista e uma série de Integralistas da nova geração. Nesse período agitado, em que as tentativas de golpe abundavam, uma série de oficiais, ligados à referida Liga, falharam na imposição das suas directrizes, arrastando-a na débacle. Permaneceram a Acção Realista, tal como os velhos integralistas.
(...)
Em 1939, foram numerosas as defecções. Alguns exemplos. (...)
Hipólito Raposo que em 1936 asseverava "se não fossem as reacções salvadoras da Itália e da Alemanha... a Europa teria abdicado do seu título de mãe da civilização cristã", em 1940, no prefácio do livro Amar e Servir alude aos "totalitarismos em seus exageros criminosos, desprezadores da moral e dos direitos das gentes, negadores da personalidade humana". E o velho lutador contra a monarquia constitucional, que equiparava à república, ei-lo que desponta a elogiar a pseudo-monarquia inglesa bradando "na Grã-Bretanha reina uma monarquia que ainda há pouco deu prova da sua vitalidade, uma nobreza com função social e uma câmara dos Lordes com pares hereditários", monarquia, nobreza e Câmara dos Lordes que não passavam, naquela época, na Grã-Bretanha, de presenças decorativas.
E, depois, Hipólito investe contra o Estado Novo que corporiza numa imaginária República da Ilusitânia a qual "fica situada à maior latitude do Arbítrio Pessoal e na maior longitude da Razão política".
"Convertendo ou pervertendo os meios em fins na Ilusitânia deixou de haver escala e medida nos sacrifícios impostos pelo estatismo puro a benefício de quem lá governa e administra". Salazar e Carmona a encherem os bolsos como hoje os abrilinos. Enfim! E, perdido todo o bom senso, Hipólito proclama que "a mendicidade aberta ou descoberta é o meio de vida de metade da população" de Lisboa. Embora muito jovem, vivi nessa época e encolho os ombros.
Quanto a Pequito Rebelo, em 1942, numa conferência proclama "a doutrina da personalidade, um indicador da tendência da evolução" achando que "o integralismo se mostrou mais pró-personalista que anti-individualista", numa auto-interpretação assaz discutível. Depois, aponta à segunda geração integralista a missão de "combater a pseudo-nação" que era como designava o Estado Novo. Isto no momento em que no nosso país a anti-nação erguia de novo a cabeça. Mas combater a pseudo-nação de que ponto de vista? Pelo que tinha de transigente, de vestígios de democracia, de não rigorosamente autoritária? Nada disso. Interessava-lhe como um dos pontos básicos a "salvaguarda da dignidade e dos direitos da pessoa humana".
E na altura em que a Inglaterra era a campeã da democracia lá vinha dedicar um volume assaz fantasista "O Aspecto Espiritual da Aliança Inglesa".
Por seu turno Almeida Braga, em 1944, no prefácio a livro de um militar heróico, que se mostrou insensato líder político (diga-se entre parêntesis que por exemplo em 37 ele achava que "o nosso libelo contra o liberalismo não visa as alegadas finalidades de liberdade e fraternidade que são justas e cristãs e como tais dignas de franca aprovação, mas sim apenas as suas fórmulas de realização prática") Almeida Braga, repetimos, exalta "a liberdade política", condena "a rigidez molesta da censura" e lembrado, por certo, dos elogios que, na revista Integralismo Lusitano – Estudos Portugueses, vol. II, fascículo IV, Julho de 1933, p. 242 e fascículo VI, Agosto de 1933, pp. 327-328, sob os títulos, respectivamente, "Itália gloriosa" e "Giovinezza, Giovinezza", quando já tinha sido formulada por Mussolini (e Gentile) o que pitorescamente classifica de "doutrina satânica", dedicara ao Fascismo, adverte "já pode dizer-se" (o é uma delícia) que "o fascismo foi um erro político".
Alberto de Monsaraz, em 1945, em plena ofensiva do MUD contra o Estado Novo, em que anti-nação parecia prestes a triunfar, lá veio com um opúsculo Altura Solar, exalçando "as múltiplas liberdades individuais com que se dignifica a personalidade humana" e apontando "o alto exemplo da Inglaterra monárquica, derradeiro baluarte de liberdades".
O mal que estes desvios doutrinários produziram nos ambientes nacionalistas, que veneravam os autores mencionados como mestres, foi incalculável.
No momento em que parecia que se ia voltar ao caos anterior ao 28 de Maio e o nacionalismo seria varrido da terra, os mais respeitados dos seus fundadores resolviam alinhar com os erros triunfantes, trazendo a maior das desorientações a velhos e novos.
Felizmente, houve Alfredo Pimenta que se manteve impávido face à onda de desvario, apegado às antigas verdades, recusando-se sempre a pactuar com o liberalismo, a democracia, os direitos do homem, a eminente dignidade da pessoa humana e quejandas tolices.
Por circunstâncias ligadas à guerra fria, o Estado Novo de Salazar pôde ir sobrevivendo, mas já enfraquecido, forçado a relações perigosas e privado do que poderia ser, no plano doutrinário, uma crítica positiva de extrema-direita, visando a monarquia integral.
Ao invés, em 1947, apareceu uma gazeta dita monárquica Diário Nacional, patrocinado pelos ex-integralistas que referimos, um dos quais – Alberto de Monsaraz – resolveu considerar as denominadas quatro liberdades de Roosevelt – a que chamava Carta do Atlântico – como pilares da Realeza. Essa gazeta era entusiasta da monarquia democrática, ou seja, do círculo quadrado. Alfredo Pimenta combateu energicamente o triste papel, que não durou muito tempo. Ai de nós, deixou semente. Nas várias campanhas eleitorais lá iam aparecendo listas que se proclamavam monárquicas e o que eram realmente é demo-liberais.
Em 1950, Hipólito Raposo, Pequito Rebelo, Almeida Braga deram à luz, creio que na pequena revista Gil Vicente um manifesto, republicado na Cidade Nova, IIª série, n.º 6, de 1951, em que além da habitual reivindicação da liberdade de imprensa propunham que as Cortes tivessem funções deliberativas na votação e alteração da Lei Fundamental.
Precisamente um dos pontos que os fez repudiar o Pacto de Paris em 1922. Onde tínhamos chegado!

António José de Brito in «Comunicação ao I Congresso Nacionalista Português», Outubro de 2001.

07/04/2015

Salazar e os novos bispos progressistas

Salazar e Paulo VI

Os nossos bispos estão a desaparecer. Têm quase todos setenta anos, ou perto. Quando desaparecerem, ficam os novos padres, os progressistas, sem disciplina, e desenvolvendo aquela actividade caótica e sem freio que é própria de todo aquele que de repente se sente solto da disciplina a que estava submetido. Vai ser uma tragédia. Estamos como no tempo das lutas entre o Império e o Papado. [19 de Julho de 1965]

Eu não os compreendo. Eu não sei compreendê-los. Monsenhor Rotoli, da Nunciatura, tem razão quando diz que eu não tenho sensibilidade católica. Quer ele dizer que as minhas ideias não são as da maioria de hoje. É verdade. E no entanto nunca na História de Portugal alguém fez pela Igreja mais do que eu. Desde os tempos de D. Pedro I, de D. João V, etc., fui eu quem mais tem protegido e ajudado a Igreja. Mas não me importo. Enquanto não se meterem comigo, não me importo. [12 de Dezembro de 1965]

António de Oliveira Salazar, citado por Franco Nogueira in «Um Político Confessa-se».

13/03/2015

Renascença Carolíngia


Para desmistificar a ideia de que a Idade Média era uma idade de trevas:

Se muitos se deixarem contagiar por essa aspiração, criar-se-á na França uma nova Atenas, uma Atenas mais refinada que a antiga, porque, enobrecida pelos ensinamentos de Cristo, superará toda a sabedoria da Academia. Os antigos tiveram por mestres apenas as disciplinas de Platão, que, inspiradas nas sete artes liberais, ainda brilham com esplendor: mas os nossos estarão dotados também dos sete dons do Espírito Santo e superarão em brilho toda a dignidade da sabedoria secular.

Santo Alcuíno em carta a Carlos Magno, citado por Thomas E. Woods Jr. in «O que a Civilização Ocidental deve à Igreja Católica».

11/02/2015

Efeméride: 86 anos do Tratado de Latrão


A 11 de Fevereiro de 1929, dia de Nossa Senhora de Lurdes, foi assinado o Tratado de Latrão entre a Santa Sé e o Reino de Itália, pondo assim fim à Questão Romana que aprisionava a Igreja desde 1870, ano em que o governo maçónico do Risorgimento usurpou os Estados Pontifícios, doados por Pepino, o Breve, no ano de 754.
O Tratado reconhecia a soberania do Estado do Vaticano, declarava o Catolicismo como religião oficial do Estado Italiano, e garantia à Santa Sé o pagamento de uma determinada quantia de dinheiro por perdas territoriais.

08/12/2014

Maria Imaculada e Portugal


Em todas as fases da História de Portugal, Nosso Senhor concedeu à nação lusa especiais graças de predilecção. E que maior graça de predilecção poderia prodigalizar, senão uma intensíssima devoção a Nossa Senhora, devoção essa que é o sinal dos predestinados?
Já vimos nos capítulos anteriores como a devoção mariana marcou profundamente a história lusa.
Desde a fundação do Reino, essa devoção estava presente de modo insigne: na cura milagrosa, atribuída a Nossa Senhora de Cárquere, de D. Afonso Henriques menino, primeiro Rei e homem-símbolo do Portugal nascente; no relacionamento com Santa Maria de Claraval, a quem Portugal foi consagrado como feudatário, como feudatário também foi de São Pedro Apóstolo; em incontáveis invocações que acompanharam passo a passo o esforço dos primeiros reis, para livrar o território luso do inimigo agareno.
Uma vez expulso o invasor, veio um período de guerras intestinas, no qual também esteve bem marcada a devoção a Maria Santíssima. Nesse período brilhou, como estrela de brilho magnífico, a virtuosíssima Rainha Santa Isabel, que perfumou toda a História de Portugal. Princesa da Casa Real de Aragão, com apenas 9 anos de idade foi para Portugal, onde completou a sua educação para a vida e sobretudo para a santidade.
Vieram depois as guerras para assegurar a independência e – bem incomparavelmente mais alto – a fidelidade à Santa Sé Romana. Também nessa fase foram muitas as devoções mariais; Nossa Senhora da Vitória, Santa Maria do Assumar, Nossa Senhora do Carmo, Santa Maria de Agosto, a Imaculada Conceição. Como homem-símbolo do Portugal dessa fase, sem dúvida se destaca o Santo Condestável.
Seguiu-se a fase das Navegações. Por toda a superfície da Terra os portugueses foram erigindo igrejas a Nossa Senhora, desde a primeira delas, em Ceuta, até o remotíssimo e tão querido e sofrido Timor, cuja Catedral, em Díli, é também consagrada a Nossa Senhora, sob a invocação da Imaculada Conceição. Homens-símbolos não faltam nesse período, desde o Infante D. Henrique com a Ínclita Geração, até, no crepúsculo dessa era de glória, o inigualável Rei D. Sebastião.
Na triste fase em que Portugal perdeu sua independência – e na perda dessa independência, como também em Alcácer-Quibir, causa próxima da perda, como não ver um castigo da Providência pelas infidelidades de seus filhos portugueses? – foi em Vila Viçosa que se concentraram as esperanças de Restauração. Vila Viçosa foi, com efeito, um foco de intensíssima devoção marial, que se irradiava para o Alentejo, para todo o Portugal continental e ultramarino. Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa foi, pode-se dizer, símbolo e penhor da Restauração. Foi a seus pés, sob seu olhar e não sem sua milagrosa protecção que se consumou em 1640 a Restauração.
Com o natural reerguer-se da nação, seguiu-se uma era de grande esplendor marial. São desse tempo a consagração do Reino a Nossa Senhora e o juramento da Universidade de Coimbra, de defender o privilégio da Imaculada Conceição.
Em todos os primeiros sete séculos da História de Portugal, sempre os reis estiveram à frente do imenso movimento global das almas em direcção a Nossa Senhora – com excepção, infelizmente, do período pombalino e, de certa forma, dos monarcas liberais do século passado, que pagaram pesado tributo aos erros do seu tempo.
O Brasil muito se beneficiou com a devoção a Nossa Senhora trazida pelos portugueses. Além do Padroado de Nossa Senhora da Conceição, literalmente incontáveis são as igrejas e capelas, sob as mais diversas invocações, consagradas no Brasil por obra dos portugueses. Essa terna e filial devoção a Nossa Senhora é precisamente um dos maiores benefícios que Portugal trouxe ao Brasil.
Já no século XX, precisamente sete anos após a instalação de uma república laica e persecutória da Igreja, Nossa Senhora Se dignou aparecer em Fátima e tomar a Terra de Santa Maria como pedestal de cima do qual falou ao mundo inteiro.
Na terceira aparição, a 13 de Julho de 1917, depois de mostrar aos três videntes o Inferno, disse a Virgem:
"Vistes o Inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração.
Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz.
A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo dos seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.
Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.
Em Portugal se conservará sempre o Dogma da Fé, etc.
Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo".
Trata-se de uma mensagem sumamente séria, sumamente grave, mensagem profética e anunciadora de dias terríveis que ainda estão por vir. Mas mensagem que, em meio à tragédia, contém duas promessas de um valor inestimável: "Por fim o meu Imaculado Coração triunfará", e "Em Portugal se conservará sempre o Dogma da Fé".
A primeira dessas promessas é de âmbito mundial, sem dúvida; a segunda, mais restrita a Portugal, embora tenha sido formulada depois, de certa forma se ordena à primeira. De facto, só se pode entender a conservação do Dogma da Fé em Portugal como um elemento do triunfo global do Imaculado Coração de Maria, ou até como um meio para tal triunfo.
É muito bonito ver que, 800 anos depois de Ourique, em última análise Nossa Senhora veio reafirmar a mesma promessa de aliança que seu filho fizera a D. Afonso Henriques. Portugal parecia ter esquecido dela... mas Nossa Senhora veio lembrá-la.
"Quase todos os portugueses estamos convencidos de que Ela veio a esse coração de Portugal, que é Fátima, retomar o padroado da nossa terra, que pareceu quererem arrebatar-Lhe. Aquela, a quem a Igreja chama a Virgem fiel, não abandonou os que queriam abandoná-La" – disse o Cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira em 1946, quando se comemoravam os 300 anos da consagração de D. João IV.
Meio século depois [1996], tais palavras permanecem actualíssimas.

Armando Alexandre dos Santos in «O Culto de Maria Imaculada na Tradição e na História de Portugal».

05/11/2014

Portugal fez o Brasil


Recentemente, alguém fazendo-se passar por uma actriz brasileira de ascendência italiana, disse que Portugal foi o primeiro responsável pela decadência brasileira. Ora, o raciocínio do dito ladrão de identidades assenta em premissas totalmente falsas. São elas:

1) O Brasil já existia antes de 1500 e era uma nação próspera e coesa.
2) Portugal invadiu e explorou, isto é, usurpou e pilhou, esse preexistente Brasil.

Infelizmente este tipo de discurso falacioso é comum entre um grande número de brasileiros. Tal deve-se a uma tentativa forçada das elites intelectuais brasileiras em criar uma identidade própria separada de Portugal, uma espécie de pátria crioula. Daí também que muitos escritores do século XIX, como Machado de Assis, José de Alencar, Castro Alves ou Gonçalves Dias, tenham apostado numa exaltação desmesurada dos índios e dos pretos. O Brasil seria, segundo esta elite intelectual, uma criação exclusivamente afro-indígena, na qual Portugal teve um contributo mínimo e até negativo. Importa pois corrigir esse erro e dizer que o papel de Portugal na Terra de Vera Cruz foi de modo algum irrelevante ou prejudicial. O território brasileiro antes da chegada de Pedro Álvares Cabral era uma manta de retalhos de tribos de caçadores-recolectores – alguns canibais –, pagãos e idólatras, sem ciência desenvolvida ou linguagem escrita. Coube assim a Portugal o papel de conquistar o Pindorama para a Fé e para a Civilização, tal como sempre foi reconhecido e apoiado pela Igreja – o reinado de Cristo sobrepõe-se a qualquer direito humano. Portanto, quem acusa Portugal de roubar ou destruir o Brasil, mente. Até porque Portugal jamais poderia roubar aquilo que lhe pertencia por direito – ninguém se rouba a si mesmo. Contudo, Portugal não é responsável pelo que se sucedeu após 1822. Se hoje o Brasil é uma nação falhada e inviável, tal deve-se em exclusivo aos próprios brasileiros e ao seu afastamento da matriz original portuguesa.

14/10/2014

Astúrias: Cristianismo e Reconquista


A Crónica de Afonso III mostra-nos o sentido que na corte ásturo-leonesa se dava à obra da Reconquista; nela, o reino ásture reivindicava o seu carácter de sucessor do reino visigodo de Toledo, cuja queda se justificava pelo estado de pecado em que se encontravam os reis e sacerdotes daquele reino nos seus últimos tempos. Assim, o reino ásture iniciava a Reconquista sob o signo do Cristianismo. Já na Crónica de Albelda, os Ástures aparecem claramente identificados com os cristãos e a expansão do reino ásture com a da Igreja.

Adaptado de «História Universal», Volume II, Publicações Alfa, 1985.

10/10/2014

Batalha de Poitiers


Neste mês de Outubro, há 1282 anos, as tropas francas de Carlos Martelo travavam o exército sarraceno do Califado de Córdoba, em Poitiers. Era o fim da expansão mourisca na Europa e o início da Reconquista. Pelo enorme feito, Carlos Martelo recebeu do Papa Gregório III o título de Herói da Cristandade.

17/09/2014

17 de Setembro de 1939


Neste mesmo dia, há 75 anos, o Exército Vermelho de Estaline invadia a parte oriental da Polónia, anexando-a à União Soviética. Ficava assim ocupada a totalidade da Polónia, cuja parte ocidental já tinha sido invadida pela Alemanha a 1 de Setembro de 1939, conforme o planeado no Pacto Molotov-Ribbentrop, que definia as áreas de influência alemã e soviética na Europa Oriental. Contudo, se as conquistas alemãs deixaram a França e a Inglaterra em estado de alerta, o mesmo já não aconteceu com a URSS, que além da Polónia, também invadiu os Estados Bálticos, a Carélia e a Moldávia. À agressão soviética só escapou a Finlândia, que lutou arduamente na célebre Guerra do Inverno, com grandes perdas para o Exército Vermelho.
Para a História, fica a passividade dos Aliados perante as agressões soviéticas, em contraste com a declaração de guerra à Alemanha pela invasão da Polónia. Uma estranha dualidade de critérios.

12/09/2014

A Ostpolitik: um mau fruto do Concílio Vaticano II


Depois do Vaticano II, os Acordos de Helsínquia foram patrocinados pelo Vaticano: o primeiro e o último discurso foram pronunciados por Mons. Casaroli, sagrado arcebispo para a ocasião. A Santa Sé manifestou logo hostilidade a todos os governos anti-comunistas. No Chile, a Santa Sé sustentou a revolução comunista de Allende de 1970 a 1972. O Vaticano age assim por meio de suas nunciaturas com a nomeação de cardeais como Tarancón (Espanha), Ribeiro (Portugal), Silva Henríquez (Chile), de acordo com a política pró-comunista da Santa Sé. A influência de tais cardeais é considerável nestes países católicos! Suas influências são determinantes sobre as conferências episcopais, na nomeação de bispos revolucionários que também são, na maioria, favoráveis à política da Santa Sé e em oposição ao governo. O que pode fazer um governo católico contra a maioria do episcopado que trabalha contra ele? É uma situação horrorosa! Assistimos a uma incrível subversão de forças: a Igreja transforma-se na principal força revolucionária nos países católicos.

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar».

31/08/2014

Portugal na Capela Sistina


Os feitos portugueses causaram muita admiração em Roma; e Deus quis que Miguel Ângelo desse testemunho disso, para os que haveriam de vir, no painel principal da Capela Sistina (sobre o altar-mor), pintando a cena "o resgate dos escravos" (na qual Portugal com um longo rosário faz subir a África e a Índia).
Entre as dezenas de figuras desenhadas por Miguel Ângelo na famosa pintura "Juízo Final" – almas perdidas, anjos, demónios, apóstolos e santos – destacam-se dois homens pendentes num rosário, em movimento ascendente de Salvação.
Eles estabelecem uma relação simbólica com Portugal. São um negro e um indiano agarrados a um terço. O primeiro representa o continente africano, o segundo o mundo oriental e o rosário representa a oração.
Falta um índio da América – facto que talvez se possa atribuir à animosidade que então reinava contra os espanhóis. Mas a mensagem é clara: levado pelos missionários portugueses, o Evangelho salvaria o novo mundo do Fim dos Tempos.

Fonte: Ascendens

28/08/2014

Alterações republicanas na toponímia da cidade de Lisboa


A Avenida Ressano Garcia passou a denominar-se Avenida da República e a Rua António Maria de Avelar passou a designar-se Avenida Cinco de Outubro. Uma semana depois são feitas novas alterações: a Rua Bela da Rainha passa a denominar-se Rua da Prata; a Avenida D. Amélia passa a Avenida Almirante Reis; a Rua D. Carlos I passa a chamar-se Avenida das Cortes; a Rua d'el-Rei passa a Rua do Comércio; a Avenida José Luciano passa a denominar-se Avenida Elias Garcia; a praça D. Fernando passa a praça Afonso de Albuquerque; a Avenida Hintze Ribeiro passa a Avenida Miguel Bombarda; a Rua da Princesa a Rua dos Fanqueiros; a praça do Príncipe Real passa a praça Rio de Janeiro; o Paço da Rainha passa a largo da Escola do Exército.

22/08/2014

Da expressão "há mouro na costa!"


Relata a História que durante vários séculos toda a costa norte do Mediterrâneo, a região do Algarve e a orla marítima Alentejana, as Ilhas Britânicas e até mesmo a Escandinávia, foram objecto de frequentes razias protagonizadas por corsários e piratas mouriscos, na demanda de escravos europeus, os quais seriam consequentemente vendidos nos mercados esclavagistas de Argel, Marraquexe ou Trípoli.
Face a isto, os povoamentos localizados nas zonas costeiras encontravam-se em permanente estado de alerta de maneira a prevenir o perigo. Por toda a costa foram erguidos numerosos postos de vigia. Desde o alto dessas torres observava-se o horizonte, sendo que ao se avistarem as velas dos navios mouriscos, o sentinela de turno gritava desesperadamente: "há mouro na costa!". Acto contínuo, acendiam-se as fogueiras de sinal e as populações – alertadas – preparavam-se para se defenderem ou abandonavam as aldeias e dirigiam-se para o interior, onde os corsários não se atreviam a penetrar.
Esta prática criminosa perdurou durante séculos, havendo relatos destas incursões ainda em pleno século XIX. O grito "há mouro na costa!" passou a ser expressão de uso popular para advertir alguém sobre um eventual perigo. Em sentido inverso, a expressão antónima "não há mouro na costa!", serve para dar a entender que não existe perigo iminente para uma pessoa que procura realizar determinada tarefa.

20/08/2014

Espartanos: descendentes de Abraão


Areu, rei dos espartanos, ao sumo-sacerdote Onias, saúde!
Encontrou-se num escrito, sobre os espartanos e os judeus, que estes povos são irmãos e descendentes de Abraão. Agora que sabemos isto, fareis bem em escrever-nos a dizer se gozais de paz. Nós também vos escreveremos. Os vossos rebanhos e os vossos haveres são nossos e os nossos são vossos. Enviamos-vos esta mensagem para que sejais informados.

I Macabeus 12:20-23