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25/07/2018

O Integralismo Lusitano e o "Absolutismo"

D. Pedro III

E não se deixe de salientar que se o Integralismo considerava pseudo-monarquia a chamada Monarquia liberal, condenava ainda como desvio perigoso do rumo normal da Tradição, a denominada Monarquia absoluta, em que as Cortes deixaram de ser ouvidas.
Quanto a nós, a Monarquia desapareceu, efectivamente, em 1820 (com breve reaparecimento no reinado de D. Miguel, 1828-1834) mas não sofreu o desvio perigoso com um chamado "absolutismo" caracterizado pela não reunião de Cortes. As Cortes eram convocadas por iniciativa do Rei e que, durante largo tempo, não fossem convocadas, em nada alterava a constituição da Monarquia.

António José de Brito in «Comunicação ao I Congresso Nacionalista Português», 2001.


Relembro:

17/08/2017

A propósito de António Sardinha


Nesse ano de 1919, em Janeiro, é proclamada a Monarquia do Porto que, em 13 de Fevereiro, foi vencida. António Sardinha, que colaborara nesse acontecimento, vê-se obrigado a abandonar o País e a refugiar-se em Espanha.
O mal que a Espanha fez a António Sardinha é coisa que ainda não foi suficientemente apreciada. [pág. 17]

Quando António Sardinha regressou a Portugal, a primeira vez que o encontrei, na Rua do Carmo, fiz menção de me dirigir a ele. Ergueu os braços, gritando-me: «Não me fale! Não me fale!». [pág. 19]

Algumas vezes resmunguei. Mas porque considerei tudo mera borbulhagem de varíola politiqueira de campanário, puro acidente de desencontro sanável – quando Sardinha morreu, em Janeiro de 1925, escrevi na Acção Realista artigo de homenagem que, pela sinceridade, pelo equilíbrio dos juízos, penso ainda hoje que é um dos melhores, senão o melhor dos estudos sintéticos até agora consagrados à obra do autor do Ao princípio era o Verbo e do Tronco reverdecido.
Sempre que, depois dessa data, me tenho referido a Sardinha, é sempre com respeito e justiça, – prova de que me estava no propósito varrer do meu espírito, a recordação penosa das injúrias que da sua pena recebi. [pág. 21]

Não. No período que vem desde 1914 a 1925, durante a vida de Sardinha, e no que se lhe segue, desde 1925 até à hora em que escrevo, não houve apenas o Integralismo Lusitano e os seus chefes dirigentes.
O silêncio sistemático que se faz à volta do mais que houve, não o arranca, não o apaga da História da Contra-Revolução portuguesa e da Filosofia política.
Pode induzir em erros as gerações fúteis e superficiais que se têm sucedido; pode alimentar a má vontade dos falhos, e as ambições dos videirinhos ou gafados.
Mas os livros, as revistas, os jornais, toda essa soma de fontes indispensáveis ao historiador escrupuloso e sério, que até agora tem vivido afogada, abafada, ocultada, por força da ignorância e da má-fé, está nas bibliotecas públicas e particulares, e nem a ignorância nem a má-fé a farão desaparecer da vida.
E quando, amanhã, a crítica impessoal, responsável e honesta, nas suas intenções e nos seus processos, chamar a si este período da história portuguesa, verificará a existência de acontecimentos, trabalhos e pessoas que até agora, a crítica «mentirosa, torpe e grosseiramente injusta» (Bettencourt e Galvão dixit) tem ocultado, abafado e afogado!
Não! Não houve só o Integralismo e os seus chefes dirigentes! [págs. 28-29]

Que foi, afinal, António Sardinha?
Nada do que os seus panegiristas ineptos proclamam; foi o que a sua obra define.
Que é a sua obra?
Historiador? Erudito? Sardinha nunca foi historiador e erudito. Desconhecia as fontes directas, originárias. A sua leitura era larga, mas de segunda mão. [págs. 33-34]

Isso a que se chama, no meio de muito ruído de tambores e pratos de metal, a obra histórica de António Sardinha, não passa de obra de vulgarização polémica em que o escritor substituiu o sinal mais pelo sinal menos, ou vice-versa, não em consequência de estudos pessoais, ou pesquisas originais, mas apenas em obediência a propósitos que, de forma alguma, se podem chamar científicos. [pág.34]

Não há talvez, em Portugal, quem fale mais em Fustel de Coulanges, do que Sardinha; e ninguém anda mais afastado do que ele, dos métodos do insigne historiador das Instituições políticas da antiga França.
Fustel de Coulanges é escravo do documento, e ergueu o seu edifício sobre documentos; António Sardinha manuseou livros de opiniões, folheou autores; não estudou documentos, em Arquivos, nem sequer consultou Cartulários publicados! Não fez História: trabalhou sobre história feita. [págs. 34-35]

É aí que está a explicação das contradições de António Sardinha, como aquela famosa de, uma vez, e com toda a razão, chamar «usurpação sinistra dos Filipes» (O Valor da Raça, pág. 165) ao período da nossa sujeição a Castela, para, depois, pretender convencer-nos de que «se Filipe II ascende ao Trono de Afonso Henriques, ascende como sucessor do Mestre de Avis, invocando títulos jurídicos, em que a força das armas não intervém senão como argumento decisivo, sim, mas a empregar em último recurso» (Aliança Peninsular, pág. IV). [pág.35]

Um exemplo muito significativo ilustra superabundantemente a minha crítica.
Querendo provar-nos que o Absolutismo triunfante no século XVIII não era «a vontade caprichosa do Soberano», em que se funda António Sardinha? Na afirmação do autor de certo Tratado de Direito Constitucional! E autor francês!
O argumento é inoperante – porque aos dizeres de uns autores, opõem-se os dizeres de outros. Mas não é inoperante o texto da Rainha de Portugal, D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V, quando definiu a função régia: «Os Reis são os Executores e os mais ilustres Vassalos das Leis do Reino». Pois não teria mais autoridade, para definir o Absolutismo Régio, a Rainha absoluta que o exercia? [pág. 36]

Porque não fatigou os olhos no estudo dos documentos, tem a audácia de afirmar entonadamente que D. Afonso I e o seu filho D. Sancho se intitularam «reis dos Portugueses», como se não tivessem usado outros títulos que provam que a significação dada por Sardinha àquela expressão é manifestamente errada. (...)
Para Sardinha, em Castela, a terra pertencia ao Rei; em Portugal, não. Daí os Reis serem, em Castela, «de Castela», e em Portugal, «dos Portugueses»!
Mas os documentos desmentem-no. [pág. 37]

O livro em que isto se encontra é muito gabado – por quem não reflecte no que lê, e é propenso a deixar-se ir na corrente doce do ribeiro. Refiro-me à Aliança Peninsular em que Sardinha desenvolve e glosa a tese esboçada por Moniz Barreto, e vincada por Oliveira Martins em artigos de jornal.
A tese é má, por perigosa, e partir de premissas falsas. Sardinha mói e remói, pisa e repisa os argumentos, num tecido pastosos de sofismas, erros, digressões, juízos tendenciosos e quimeras absurdas.
Hipólito Raposo, um dos seus amigos íntimos, confessa que o autor, pouco tempo depois do aparecimento da Aliança Peninsular já «se sentia desgostoso e magoado com pessoas e instituições de além-fronteiras por certas razões e circunstâncias» que não deseja revelar.
Pois é pena que o não revele, porque essas razões poderiam em muito evitar contágios indesejáveis.
E Hipólito Raposo continua: «Depois da morte dele, ao meu conhecimento vieram, e por mim passaram alguns dados dos quais seguramente deduzi que não eram compreendidos e aceites em toda a pureza da sua sinceridade, em todo o escrúpulo do seu patriotismo, os esforços do nosso querido companheiro» (Vanguarda, de Coimbra, 17 de Março de 1928).
Esse livro não afecta o carácter de Sardinha ou o seu amor à Pátria; mas afecta a sua inteligência e a sua cultura, e serve – ai de nós! – desígnios hostis ao interesse nacional.
Importa pouco que esses desígnios ultrapassem o objectivo do escritor, ou se manifestem à margem dele. Mas importa muito que utilizem o livro como seu instrumento.
Esse livro é uma triste monstruosidade. E o depoimento insuspeitíssimo do Sr. Hipólito Raposo é a sua condenação irrevogável.
A História objectiva ensina precisamente o contrário do que António Sardinha pretende convencer os seus leitores.
Só um português cego pela paixão mais doentia, ou por demência calamitosa, pode aceitar a unidade hispânica, como a concebeu Sardinha: «a unidade hispânica exige que os dois povos se mantenham livres no seu governo interno, embora ligados militar e diplomaticamente para a defesa comum, porque comum, pensando bem, é o património que a ambos pertence» (págs. 63 e 64).
Esta tese está visceralmente, substancialmente errada. Não posso evidentemente desenvolver a minha oposição a ela, porque os meus argumentos emanam dos factos, e eu não posso discutir ou comentar os factos.
Mas a inteligência do leitor esclarecido e independente facilmente suprirá o meu silêncio.
A tese vincara-a Oliveira Martins, quando dizia que «devemos outra vez aliar as nossas forças no propósito de uma defesa comum», depois de ter proclamado: «união de pensamento e acção; independência de governo» (Dispersos, II, págs. 216 e 219).
Espero que as gerações futuras, ainda não tocadas da mitomania que por aí vai, e porventura dela afastadas pelos esforços do meu espírito e doutros como eu, sepulte para sempre esse livro nefasto e essa tese demoníaca, no silêncio e no desprezo.
Que as circunstâncias de um momento possam conduzir-nos a uma cooperação ocasional, compreendo; mas transformar essa precaridade, essa momentaneidade, em perenidade e sistema, em princípio e norma de vida, só pode pretende-lo quem desconheça por completo a História de oito séculos de Portugal, ou a conheça mal, – que é ainda pior.
Tenho permanentemente diante de mim, os juízos e desejos dos altos espíritos, como Juan de Valera ou Menendez y Pelayo que valem mais, para mim, na sinceridade do seu pensamento puro, desinteressado e livre de preconceitos políticos ou respeitos e conveniências, do que todos os argumentos de António Sardinha ou de Oliveira Martins.
Entre a hostilidade, que formalmente condeno, e a tese que António Sardinha foi buscar a Oliveira Martins, de uma política militar e diplomática comum, que decididamente rejeito, há lugar para a única posição sensata que a História justifica: a da simpatia fundada na compreensão recíproca da independência plena dos nossos respectivos interesses, – o que não exclui, é óbvio, qualquer entendimento eventual que as circunstâncias aconselhem, como em 1936.
Tanto Oliveira Martins como Sardinha, seu eco, falam muito na política da Dinastia de Avis, chamando-lhe política de cooperação.
Mas isto é uma escandalosa falsificação da História, contra que protestam todos os textos!
Nunca, até ao advento do Liberalismo ou da Revolução, a política portuguesa se orientou no sentido de comunidade militar ou diplomática. Parece incrível que se diga o contrário.
Se António Sardinha tivesse sido historiador e erudito, nunca teria escrito as páginas infelizes da Aliança Peninsular, que, no seu conjunto, não passa de simples romance. [págs. 39-43]

Tinha, indiscutivelmente, apreciável cultura literária, que lhe forneceram principalmente escritores franceses, castelhanos ou brasileiros do nosso tempo. Os seus livros estão recheados com transcrições de um número limitado de autores das três literaturas, e são estes que lhe ministram, em segunda mão, os conhecimentos, informações ou sugestões de que a sua inteligência se alimenta, para o desenvolvimento das suas teses.
Já tive ocasião de provar que não conheceu S. Tomás directamente, dando por tomistas doutrinas que eram apenas de comentadores muito posteriores.
Qualquer poderá verificar, se se quiser dar a esse trabalho, que os próprios textos pontifícios às vezes citados na obra de Sardinha emanam de versões francesas e não dos originais latinos.
Ora a erudição exige que nos reportemos às fontes originárias e não aos discreteadores, por muito fiéis que sejam. Dá mais trabalho, mas são mais firmes os passos. [pág. 43]

António Sardinha não foi um pensador reflectido e meditativo; foi um pensador impressionista.
As ideias científicas que nos deixou são raras; o que ficou da sua acção, principalmente, foram emoções.
Não formulou nem resolveu problemas de Ciência ou Erudição. Foi brilhante, muitas vezes; nunca foi profundo. [pág. 44]

António Sardinha morreu cedo – para a sua família e para os seus amigos. Morreu, porém, a tempo, para o seu nome.
Há homens que só lucram em não sobreviver a certos acontecimentos. Na nossa vizinha Espanha, José António Primo de Rivera. Em Portugal, António Sardinha.
José António, porque morreu nas circunstâncias que todos conhecem e no momento que ninguém ignora, está, hoje, no Escorial, junto do Panteão dos Reis de Espanha! Onde não estão Menendez Pelayo, ou Balmes...
António Sardinha, porque morreu em 1925, anda por aí aos ombros de uma turba de medíocres ou falsários do Espírito que não o leram, nem são capazes de o ler.
Se José António fosse vivo, é muito possível que estivesse, a esta hora, no exílio, a contemplar a sua glória de fundador da Falange – se não preferisse conformar-se.
Quanto a António Sardinha...
Vimo-lo, nos últimos tempos da sua vida, acamaradar com uma chafarica de «homens livres», sabujando dois autênticos mistificadores e malfeitores da Inteligência – Raúl Proença e António Sérgio (veja-se o desgraçado artigo Almas republicanas, no livro Purgatório das Ideias, pág. 279); vimo-lo gritar às gentes emparvecidas: «Monarquia? República? Oh! A balbúrdia ignóbil dos mitos que nada exprimem!».
Ora através dos catorze volumes que constituem a sua obra, precisamente o que se vincou, proclamou, ensinou, e repetiu, foi que Monarquia e República eram realidades acima de tudo expressivas...
Para onde o teriam levado os acontecimentos, se ainda fosse vivo?
As tendências manifestadas nos últimos meses da sua vida induzem-me a crer que, tendo abandonado a doutrina do primado do político para lhe substituir a do primado do social, estaria hoje integrado inteiramente na orientação que inspira a vida política portuguesa, a qual aliás, pressupõe, indiscutivelmente, o primado do político, sem o que não existiria.
E é isso que proclamam os que fazem variações cómicas nos clarins e cornetins, na pista da Inquietação e da Presença. [págs. 45-46]

Alfredo Pimenta in «A propósito de António Sardinha», 1944.

03/05/2015

Do Integralismo ao anti-Integralismo


Análise crítica para a compreensão do Integralismo Lusitano:

Assim surgiu o Integralismo Lusitano com Sardinha, Pequito Rebelo, Hipólito Raposo, Almeida Braga, João do Ameal, Alberto Monsaraz, Rolão Preto, etc. Começaram eles por publicar uma revista a Nação Portuguesa, constituir um movimento e ter um jornal denominado Monarquia. No primeiro número da Nação Portuguesa, apareceu um texto célebre "O que nós queremos". Aí se traça a concepção de uma monarquia de poder pessoal como condição sine qua non da sobrevivência da Portugalidade.
Mas o que os integralistas dessa época expunham era bastante mais do que esse texto dizia.
Eles desenvolviam um nacionalismo claro, corporizado, verbi gratia, nas palavras de Sardinha "pondo a nacionalidade como razão e fim de nós próprios, concluímos na necessidade do Rei como elemento do seu prestígio e da sua existência".
E não esqueçamos que, na obra de maior fundo teorético do Integralismo – Pela Dedução à Monarquia de Pequito Rebelo – este, depois de traçar a hierarquia ontológica-axiológica dos seres – "matéria-força, organismo vivo, pessoa humana e sociedade", não hesitava em escrever que "a pessoa humana, constituindo parte da sociedade, é menos complexa que a sociedade", continuando mais adiante "o mal reside até, não directa e essencialmente na personalidade, mas na actualização de uma possibilidade da personalidade que é exactamente a possibilidade que tem a personalidade de persistir em si mesma não se integrando nas leis sociais".
Como se vê, o Integralismo tomava posição universalista na questão básica "indivíduo-sociedade". Dela é que decorria a sua atitude monárquica. E nem vale a pena exibir as páginas, tão numerosas elas são, em que a partir das suas concepções iniciais, deduzia uma série de negações firmes como o repúdio do liberalismo e da democracia e do período constitucional.
(...)
Anote-se que o Integralismo inicial foi acompanhado, desde 1915, por um escritor que jamais aderiu formalmente a ele, mas com cuja doutrina declarava estar de acordo por inteiro. Refiro-me a Alfredo Pimenta, um dos mais coerentes, mais eruditos e mais desassombrados dos pensadores monárquicos portugueses.
E não se deixe de salientar que se o Integralismo considerava pseudo-monarquia a chamada monarquia liberal, condenava ainda como desvio perigoso do rumo normal da tradição, a denominada monarquia absoluta, em que as Cortes deixaram de ser ouvidas.
Quanto a nós, a monarquia desapareceu, efectivamente, em 1820 (com breve reaparecimento, no reinado de D. Miguel) mas não sofreu o desvio perigoso com um chamado absolutismo caracterizado pela não reunião de Cortes. As Cortes eram convocadas por iniciativa do Rei e que, durante largo tempo, não fossem convocadas, em nada alterava a constituição da Monarquia.
Não vou aqui deter-me longamente nas vicissitudes do Integralismo. Ele, de início, aceitou a realeza de D. Manuel II, sem embargo deste, em 1914, data do aparecimento da Nação Portuguesa, não ter renegado a Carta e não ter dado sinais de se aproximar da genuína realeza.
Em Janeiro de 1919, teve lugar a Monarquia do Norte, assim chamada porque durante cerca de um mês a norte do Douro, a bandeira azul e branca substituiu aí a verde e vermelha. D. Manuel, partidário entusiasta dos meios legalitários e, aliás, pouco informado, permaneceu alheio à revolta.
O Integralismo, depois da vitória do regime republicano escolheu o momento para formular um Ultimato ao Rei exigindo que repudiasse a Carta e adoptasse a doutrina tradicionalista. Como aquele não aceitasse a exigência, os integralistas desligaram-se da obediência a quem, até então, acatavam como soberano e aclamaram rei o descendente de D. Miguel, D. Duarte Nuno de Bragança (a seguir a várias abdicações), uma criança ainda que ficou sob tutela da Infanta D. Aldegundes.
Monárquicos houve que, aderindo aos princípios integralistas, achavam descabida a imposição feita a D. Manuel. Por exemplo, Alfredo Pimenta.
Em 1922, celebrou-se o Pacto de Paris, entre o ramo miguelista e o ramo manuelista. D. Aldegundes em nome do Sr. D. Duarte, reconhecia a realeza de D. Manuel. E estabeleceu-se que a futura constituição seria da competência das Cortes.
Os integralistas repudiaram o Pacto considerando-o, e bem, uma pura expressão de parlamentarismo, usando até António Sardinha a dura expressão "atraiçoados por uma infanta de Portugal".
Nessa altura, o Integralismo Lusitano dissolveu-se enquanto organização política, apenas ressurgindo quando o Pacto foi denunciado por D. Aldegundes, em 1925. Já então morrera Sardinha.
Entretanto, após algumas tentativas infrutíferas, os integralistas manuelistas estruturaram-se num grupo sólido, que foi a Acção Realista Portuguesa, em que Alfredo Pimenta era vulto destacado e onde se salientaram Caetano Beirão, João Ameal, Fernando de Campos, António Cabral, Luís Chaves, Ernesto Gonçalves e outros.
Depois do 28 de Maio, um dos fundadores do Integralismo, exilado no Brasil, a seguir a 1919 – João do Amaral –, regressou e fundou a Liga de Acção Integralista, a que aderiram a Acção Realista e uma série de Integralistas da nova geração. Nesse período agitado, em que as tentativas de golpe abundavam, uma série de oficiais, ligados à referida Liga, falharam na imposição das suas directrizes, arrastando-a na débacle. Permaneceram a Acção Realista, tal como os velhos integralistas.
(...)
Em 1939, foram numerosas as defecções. Alguns exemplos. (...)
Hipólito Raposo que em 1936 asseverava "se não fossem as reacções salvadoras da Itália e da Alemanha... a Europa teria abdicado do seu título de mãe da civilização cristã", em 1940, no prefácio do livro Amar e Servir alude aos "totalitarismos em seus exageros criminosos, desprezadores da moral e dos direitos das gentes, negadores da personalidade humana". E o velho lutador contra a monarquia constitucional, que equiparava à república, ei-lo que desponta a elogiar a pseudo-monarquia inglesa bradando "na Grã-Bretanha reina uma monarquia que ainda há pouco deu prova da sua vitalidade, uma nobreza com função social e uma câmara dos Lordes com pares hereditários", monarquia, nobreza e Câmara dos Lordes que não passavam, naquela época, na Grã-Bretanha, de presenças decorativas.
E, depois, Hipólito investe contra o Estado Novo que corporiza numa imaginária República da Ilusitânia a qual "fica situada à maior latitude do Arbítrio Pessoal e na maior longitude da Razão política".
"Convertendo ou pervertendo os meios em fins na Ilusitânia deixou de haver escala e medida nos sacrifícios impostos pelo estatismo puro a benefício de quem lá governa e administra". Salazar e Carmona a encherem os bolsos como hoje os abrilinos. Enfim! E, perdido todo o bom senso, Hipólito proclama que "a mendicidade aberta ou descoberta é o meio de vida de metade da população" de Lisboa. Embora muito jovem, vivi nessa época e encolho os ombros.
Quanto a Pequito Rebelo, em 1942, numa conferência proclama "a doutrina da personalidade, um indicador da tendência da evolução" achando que "o integralismo se mostrou mais pró-personalista que anti-individualista", numa auto-interpretação assaz discutível. Depois, aponta à segunda geração integralista a missão de "combater a pseudo-nação" que era como designava o Estado Novo. Isto no momento em que no nosso país a anti-nação erguia de novo a cabeça. Mas combater a pseudo-nação de que ponto de vista? Pelo que tinha de transigente, de vestígios de democracia, de não rigorosamente autoritária? Nada disso. Interessava-lhe como um dos pontos básicos a "salvaguarda da dignidade e dos direitos da pessoa humana".
E na altura em que a Inglaterra era a campeã da democracia lá vinha dedicar um volume assaz fantasista "O Aspecto Espiritual da Aliança Inglesa".
Por seu turno Almeida Braga, em 1944, no prefácio a livro de um militar heróico, que se mostrou insensato líder político (diga-se entre parêntesis que por exemplo em 37 ele achava que "o nosso libelo contra o liberalismo não visa as alegadas finalidades de liberdade e fraternidade que são justas e cristãs e como tais dignas de franca aprovação, mas sim apenas as suas fórmulas de realização prática") Almeida Braga, repetimos, exalta "a liberdade política", condena "a rigidez molesta da censura" e lembrado, por certo, dos elogios que, na revista Integralismo Lusitano – Estudos Portugueses, vol. II, fascículo IV, Julho de 1933, p. 242 e fascículo VI, Agosto de 1933, pp. 327-328, sob os títulos, respectivamente, "Itália gloriosa" e "Giovinezza, Giovinezza", quando já tinha sido formulada por Mussolini (e Gentile) o que pitorescamente classifica de "doutrina satânica", dedicara ao Fascismo, adverte "já pode dizer-se" (o é uma delícia) que "o fascismo foi um erro político".
Alberto de Monsaraz, em 1945, em plena ofensiva do MUD contra o Estado Novo, em que anti-nação parecia prestes a triunfar, lá veio com um opúsculo Altura Solar, exalçando "as múltiplas liberdades individuais com que se dignifica a personalidade humana" e apontando "o alto exemplo da Inglaterra monárquica, derradeiro baluarte de liberdades".
O mal que estes desvios doutrinários produziram nos ambientes nacionalistas, que veneravam os autores mencionados como mestres, foi incalculável.
No momento em que parecia que se ia voltar ao caos anterior ao 28 de Maio e o nacionalismo seria varrido da terra, os mais respeitados dos seus fundadores resolviam alinhar com os erros triunfantes, trazendo a maior das desorientações a velhos e novos.
Felizmente, houve Alfredo Pimenta que se manteve impávido face à onda de desvario, apegado às antigas verdades, recusando-se sempre a pactuar com o liberalismo, a democracia, os direitos do homem, a eminente dignidade da pessoa humana e quejandas tolices.
Por circunstâncias ligadas à guerra fria, o Estado Novo de Salazar pôde ir sobrevivendo, mas já enfraquecido, forçado a relações perigosas e privado do que poderia ser, no plano doutrinário, uma crítica positiva de extrema-direita, visando a monarquia integral.
Ao invés, em 1947, apareceu uma gazeta dita monárquica Diário Nacional, patrocinado pelos ex-integralistas que referimos, um dos quais – Alberto de Monsaraz – resolveu considerar as denominadas quatro liberdades de Roosevelt – a que chamava Carta do Atlântico – como pilares da Realeza. Essa gazeta era entusiasta da monarquia democrática, ou seja, do círculo quadrado. Alfredo Pimenta combateu energicamente o triste papel, que não durou muito tempo. Ai de nós, deixou semente. Nas várias campanhas eleitorais lá iam aparecendo listas que se proclamavam monárquicas e o que eram realmente é demo-liberais.
Em 1950, Hipólito Raposo, Pequito Rebelo, Almeida Braga deram à luz, creio que na pequena revista Gil Vicente um manifesto, republicado na Cidade Nova, IIª série, n.º 6, de 1951, em que além da habitual reivindicação da liberdade de imprensa propunham que as Cortes tivessem funções deliberativas na votação e alteração da Lei Fundamental.
Precisamente um dos pontos que os fez repudiar o Pacto de Paris em 1922. Onde tínhamos chegado!

António José de Brito in «Comunicação ao I Congresso Nacionalista Português», Outubro de 2001.

22/01/2014

A Monarquia cristã

Rei David

A Realeza antiga encarnava fundamentalmente o tipo patriarcal de sociedade. Ressurgido através da família, é esse tipo que persiste na formação das monarquias medievais. Com estas vinha, porém, fecundar-lhe a obra a lei moral que faltara às instituições do paganismo.
A consciência cristã, traçando limites ao poder, fazia dos Reis, não tiranos ao modo clássico, mas magistrados, conforme aos Juízes de Israel.

António Sardinha in «Ao Princípio era o Verbo».

25/08/2013

Plus ultra


Para testemunhar a verdade da sua Terra, mandou Deus a geração nova. Para testemunhar a mesma verdade, praticando o acto de Inteligência que eu peço à geração nova para praticar, é que eu me confesso católico e monárquico. Confessando-me católico e monárquico, confesso o património civilizador da minha Raça e a parte que me cabe, dentro dele para o prolongar e enriquecer ainda mais. Preparemos os corações, saindo pela noite funda ao encontro da madrugada!

António Sardinha in «O Integralismo Lusitano» de Leão Ramos Ascensão.

11/12/2012

Para que conste


Não somos conservadores – dada a passividade que a palavra ordinariamente traduz. Somos antes renovadores, com a energia e a agressividade de que as renovações se acompanham sempre. O nosso movimento é fundamentalmente um movimento de guerra. Destina-se a conquistar – e nunca a captar. Não nos importa, pois, que na exposição dos pontos de vista que preconizamos se encontrem aspectos que irritem a comodidade inerte dos que em aspirações moram connosco paredes-meias.

António Sardinha in «Ao Princípio era o Verbo».

06/08/2012

A importância do Catolicismo na história pátria


Um dos pontos fundamentais do nosso programa, tão fundamental como o do poder pessoal do Rei, é o revigoramento da fé católica esmorecida; o prestígio moral da Igreja a restabelecer para que a Pátria, criada moralmente por ela, como politicamente o foi pela Monarquia, possa encontrar nessas duas grandes instituições (...) energias novas para ressuscitar, viver e progredir. À Igreja devemos as ordens religiosas e militares que ajudaram a conquista e a cristianização da terra; devemos-lhe a Inquisição, que nos livrou da reinvasão do perigo judaico, que hoje assoberba todos os governos e colabora em todos os motins; devemos-lhe as missões ultramarinas, sobretudo essa admirável Companhia de Jesus, que tanto se opôs à empresa de África, tarde e a más horas empreendida e com a qual só Castela aproveitou, essa portuguesíssima Companhia de Jesus que, durante a ocupação castelhana, soube manter o culto da língua e da pátria sempre vivo, lá longe, no império ultramarino em decomposição; devemos-lhe, finalmente, à Igreja Católica, o espírito de resistência anti-maçónico que até à última defendeu a Pátria, de 1828 a 1834 dos assaltos repetidos de maus portugueses, de gorra com maus estrangeiros, que, vencendo por fim, nos conduziram à apagada e vil tristeza dos nossos dias. Uma ou outra excepção de carácter pessoal, mesmo entre o alto clero, não pode diminuir a obra extraordinária da resistência católica ao maçonismo invasor.

20/06/2012

Tradição


Não há ciência sem experiência, nem Pátria sem tradição. Que se diria do sábio que desprezasse as obras e as experiências dos seus predecessores e limitasse o seu trabalho à própria experiência, ao simples facto presente, à prova momentânea?
Não tem sentido a terra, fora da lembrança daqueles que a serviram e amaram. O passado alarga e ilumina o presente. Através de todas as transformações económicas e científicas, há paixões, instintos e sentimentos que se conservam fixos e necessários. Somos tributários do Passado, servos de instintos herdados. Tradição não é velharia, hábito irreflectido, que apenas consiste em repetir cegamente o que já teve razão de ser e a não tem mais. Isso é inércia, e a tradição é o contrário dela. Não é também sinónimo de conservação, nem a explica o amor das ruínas extáticas, suspensas do beijo melancólico do luar. Para o verdadeiro tradicionalista, inteligente e activo, o Passado é fonte de exemplos e de lições. A tradição é para ele o que durou, o que provou secularmente. A vera tradição exige estudo e reflexão. É crítica. Reúne as forças da terra e do sangue, dos reveses do Passado tira ensinamentos, dos êxitos – modelos. Representa-a o que de positivo nos legaram nossos pais antigos. E esse conteúdo positivo, continuadamente acrescentado no rodar do tempo, torna a Tradição coisa viva, que não cessa de se enriquecer, de progredir. Produto de costumes seculares e de necessidades próprias, assente sobre a observação e sobre a história, a Tradição é força activa que se desenvolve incessantemente. Tradição é continuidade no desenvolvimento, permanência na renovação, como Sardinha gostava de repetir. Direi mesmo: Tradição é selecção.

Luís de Almeida Braga in «Posição de António Sardinha».

17/03/2012

António Sardinha e o Fascismo


Coube à Itália romper a jornada sonhada por nós para Portugal. E tão depressa os loureiros romanos acolheram na sua sombra patrícia os legionários audazes do Fascio, toda a sagrada terra latina se agitou. Giovineza! Giovineza! Primavera di belleza! Sacudindo o seu marasmo centenário, o Ocidente acordava para as sugestões exaltadoras do futuro... O que nós quiséramos para Portugal, pôde Mussolini empreendê-lo... Enche-nos essa vitória de animadoras certezas, tanto mais que, na vizinha Espanha, um ditador se levanta também e, com gentil bravura, liberta a Realeza dos vergonhosos compromissos partidários que a diminuíam e manietavam... De modo que Benito Mussolini e Primo de Rivera, reagindo cada um segundo as possibilidades e o temperamento dos seus respectivos países, confirmam experimentalmente a admirável atitude contra-revolucionária assumida em França por Maurras e pelos seus companheiros, – atitude que o Integralismo Lusitano, por seu turno, corporizou e definiu entre nós...

António Sardinha in «A Prol do Comum: Doutrina e História».

16/01/2012

Sardinha, hoje

Com a morte, em 1925, do autor de «Ao Princípio era o Verbo», perdeu, sem dúvida, o nacionalismo português um dos seus mais altos representantes e um dos seus mais ardorosos doutrinadores.
Educado no culto dos Direitos do Homem e na admiração entusiástica dos Imortais Princípios, António Sardinha, perante o espectáculo irrisório do Constitucionalismo, foi republicano e revolucionário. A falência catastrófica e anárquica do regime implantado a 5 de Outubro veio, porém, destruir as suas ilusões e quimeras. Tinha chegado a hora angustiosa da crise interior.
Diante das realidades ele, como tantos outros jovens da sua geração, fez o seu exame de consciência. Qual o valor dos ideais até então professados? Quais as causas de desordem? Como salvar Portugal? Que caminho seguir? A essas perguntas perplexas, Sardinha não tardou a dar resposta. Maurras, Barrès, Daudet, Taine, Renan, Agostinho de Macedo, Gama e Castro, o Marquês de Penalva, ensinaram-lhe a crítica à Democracia, ao Liberalismo, o apreço às elites, o amor à realidade. Gama Barros, Alberto Sampaio, os eruditos da Portugália, o estudo das crónicas, de velhas memórias, trouxeram-lhe uma nova visão da história, uma nova compreensão da origem e do destino do país. Tendo encontrado a Verdade, Sardinha não hesitou um momento. Na companhia do grupo ardente de rapazes que constituía então o Integralismo, lançou-se, através das páginas da «Nação Portuguesa», no mais aceso combate.
À oposição clássica: Liberdade ou Autoridade, respondia que a Liberdade sem a Autoridade era um absurdo pois a primeira, proclamando-se um valor, implicitamente estava atribuindo a si mesma Autoridade. E, contra o Individualismo, traçava o esboço da síntese entre estes dois falsos contrários, por meio da noção viva e criadora da Ordem que atribui a cada coisa o seu lugar; da Ordem realizada na Monarquia integral com o Rei ao alto federando e unindo energias, com os municípios, as províncias e as corporações autónomas na sua esfera, toda esta grandiosa hierarquia desenvolvendo-se, fluindo e formando, na inseparabilidade do soberano com os diversos agregados, o formidável todo que é a Pátria.
Às calúnias e deturpações dos escritores liberais, discípulos dilectos da Maçonaria, respondia, triunfalmente com as provas na mão, lançando abaixo do pedestal o falso mártir Gomes Freire, combatendo a nefasta acção do Marquês de Pombal, reabilitando a memória dos nossos reis, de D. João IV, D. Miguel I, D. João V, D. Sebastião, D. Fernando, atacando a obra da Carta Constitucional, provando quão de falso havia na lenda de uma suposta tirania existente até ao radioso ano de 1820, demonstrando como não tinham fundamento as acusações injuriosas e difamantes que pesavam sobre a Inquisição e os Jesuítas, etc.
Aos tímidos conservadores, que se insurgiam contra os extremismos, quer das esquerdas quer das direitas, aos defensores puros do existente, aos monárquicos que se limitavam a combater a República comparando o valor dos estadistas de antes de 1910 com o mérito dos de depois de 1910, aos que repeliam a doutrina como luxo ou a reduziam a palavras vagas, a esses todos fazia a apologia de Sorel e da violência, proclamava o direito do pensamento dirigir a acção, afirmava a existência de princípios objectivos a defender e a exaltar. E com a energia para repelir os apelos escandalizados da burguesia exclamava: «O nosso movimento é fundamentalmente um movimento de guerra».
Aos que apelavam para as memórias gloriosas dos eminentes espíritos do século dezanove, ele, sem hesitação, repelindo preconceitos extraía o sentido contra-revolucionário subjacente nas obras de Herculano, Garrett, Oliveira Martins, Antero, Ramalho, Eça, e, sem os erros, por vezes graves, de tão grandes vultos, enquadrava-os no momento histórico que lhes cabia, explicando o significado dos seus ataques e das suas ironias, significado bem mais alto que o atribuído pelo fácil jacobinismo da época.
Aos defensores sentimentais ou interessados do Judaísmo ele mostrava, com Sorel e Sombart, a nefasta influência exercida pelo espírito talmúdico na economia europeia, a responsabilidade que lhe competia no desenvolvimento e na frutificação da Plutocracia, da agiotagem, da avidez desenfreada de lucro. E assim, de cara descoberta, ele combateu os mitos sem transigir, sem pactuar com uma glória ou um comodismo tranquilo.
Não nos deixou uma vasta obra sistemática; não nos deixou uma doutrina de cânones estabelecidos; mas, se não compôs tratados no remanso dum gabinete, legou-nos a lição incessante dum combate sem tréguas de nacionalista desinteressado. Com o auxílio dos seus companheiros do Integralismo, com Mariotte e com o inquebrantável e enérgico Alfredo Pimenta, conseguiu Sardinha levar a cabo uma das mais notáveis revoluções espirituais do nosso tempo. Por isso, enquanto houver portugueses, jamais será olvidado o seu apostolado, expressão clara, manifestação gloriosa da vitalidade perene do Génio da Raça.
Por isso o invocamos hoje, nós os que lutamos pela mesma eterna verdade da Pátria e do Rei, certos de que não faltará à chamada e de que o seu espírito nos acompanhará.

António José de Brito in «O Diabo», 27 de Dezembro de 2011.