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15/10/2019

Os erros de Rousseau à luz da biologia animal


Para Rousseau, o homem era originalmente um ser solitário. É só quando a sociedade passa a ser uma necessidade, por consequência, assaz tardiamente, que ele é pervertido e se torna mau. A sociedade será a fonte de todos os males. Na realidade, esta teoria é inteiramente desmentida pelos factos. Sabemos que o homem nunca foi um ser solitário, porque a espécie humana é uma espécie social.
Rousseau sustentou igualmente que a propriedade era uma invenção do homem social, que ela se tornou inevitável pela instauração da sociedade, que ela levou, por sua vez, à criação do Estado, e que este último institucionalizou as desigualdades, totalmente artificiais, garantindo a protecção dos que possuíam em relação aos que não possuíam (ou se que quisermos, a protecção dos soberanos em relação aos súbditos). A propriedade, também ela, seria a fonte do mal. É o que sustentam, sob uma forma um pouco mais elaborada, os diferentes teóricos marxistas. Eu afirmo, ao contrário, que a propriedade não é obra do homem e que ela existe desde que o homem existe.
Enfim, segundo Rousseau, o homem primitivo teria sido «naturalmente bom». O mito bem conhecido do «bom selvagem», tal como Jean-Jacques Rousseau o exprime nas primeiras linhas de Emílio: «O homem nasceu bom e feliz. É a sociedade a causa da sua ruína». Esta afirmação encontra-se em toda a obra de Rousseau; ela impregna todas as suas teorias. Mas não tem fundamento algum, como prova a biologia.
Os trabalhos de Tinbergen, de Lorenz, de Hall, e de muitos outros, demonstram de forma irrefutável, que a maior parte das espécies existentes são espécies sociais. Os indivíduos que as compõem vivem em grupos, porque necessitam uns dos outros para sobreviverem. Todos os macacos, todos os primatas, são espécies sociais. Os grupos podem ter, aliás, uma importância variável. O gibão, por exemplo, vive em família, enquanto o grupo base de certos macacos japoneses, pode atingir quinhentos ou seiscentos indivíduos. (...)
Assim, a sociedade não é uma criação tardia para a qual o homem teria sido empurrado por constrangimentos momentâneos. Ela faz, integralmente, parte da sua natureza.
Uma outra observação que se impõe ao estudo das espécies animais, e muito particularmente das espécies sociais superiores, quer se trate dos macacos da Etiópia, dos búfalos ou dos símios, é a existência de uma hierarquia. No seio dos grupos, certos indivíduos exercem uma influência mais forte e mais durável do que os outros: são os alfa. Nos galináceos são os que darão mais bicadas aos outros; nas vacas, os que dão maior número de cornadas. São estes que escolhem e se apoderam das fêmeas mais belas, que traçam os limites do território, que dão o sinal para a refeição, etc. Em suma, os alfa são os indivíduos dominantes do grupo. A hierarquia é, por consequência, também ela um facto natural.
A biologia mostra-nos até que ponto a espécie humana está enraizada na natureza. Seria, aliás, prova de um limitado espírito científico, imaginar que por alguma razão misteriosa o homem não obedecia, no que ele tem de comum com os outros animais, às leis que regem a totalidade dos seres vivos. Como podemos ver, as observações que se podem fazer a propósito da sociedade e do mundo dos seres vivos, não estão particularmente orientadas no mesmo sentido das ideias de Rousseau. Estão em completa contradição com elas.
Mas queria dizer-vos ainda algumas palavras a propósito do território. Nos animais o território é exactamente equivalente à propriedade nos seres humanos. Pode ser ocupado por um indivíduo, um casal, uma família, um grupo. Em qualquer dos casos define-se como uma extensão de terreno à qual o seu, ou os seus proprietários, consideram como sua pertença, e que defendem contra as passagens ou intromissões de indivíduos ou de grupos estranhos.
A noção de território e o instinto que a ele se prende (o instinto territorial) foram descobertos em 1920 por um ornitólogo britânico chamado Eliot Howard. Tendo ficado muito tempo ignorado, este princípio foi sendo, no entanto, progressivamente aceite pela maior parte dos biólogos. Só foi, contudo, objecto de importantes discussões desde a saída do meu livro intitulado O Imperativo Territorial. Simultaneamente, depois de Howard (cujos trabalhos se debruçavam exclusivamente sobre pássaros) outros cientistas verificaram a realidade deste princípio em muitas outras espécies animais, fossem lagartos ou peixes, macacos ou cães, em suma, por oposição aos insectos, em quase todos os vertebrados. Sustento, por minha parte, que o território é igualmente uma noção humana, que nós somos uma espécie territorial. Esta afirmação foi, claro está, vivamente discutida, porque trazia consigo um debate que abrangia o domínio reservado por excelência. Opõe-se, voluntariamente o reconheço, a certas convicções filosóficas ou metafísicas. Mas os factos são inflexíveis. Por isso, a oposição com a qual fui esbarrar, não era tanto uma oposição científica (para todo o biólogo se torna evidente que o homem é dotado de um instinto territorial) mas político-filosófica. A demonstrar que certas leis animais se aplicam também ao homem, ao sublinhar que o homem não escapa à lei natural que rege, como já disse, a totalidade dos seres vivos, melindrei frontalmente as ideologias românticas que decorrem das teorias de Rousseau.

Robert Ardrey in revista «Futuro Presente», Janeiro-Fevereiro de 1983.


03/05/2019

Rousseau: apóstolo da Revolução


No quadro do livre-pensamento, devemos considerar isoladamente um escritor original, elegante, comovente, atraente, colorido e romanesco, que sempre mereceu lugar de destaque entre os autores de seu século: Jean-Jacques Rousseau. Com ele, chegamos ao centro do naturalismo. Glorifica a natureza, proclama-a pura e boa em si mesma, em suas origens. Não será ele, é claro, que admitirá o pecado original. Com Rousseau chegamos aos antípodas do luteranismo, do calvinismo, do jansenismo. Quem estragou o homem foi a sociedade. As artes e a ciência só agravam a corrupção humana. Partindo desse paradoxo – perguntamos como o homem fundamentalmente bom, pode se corromper em comum! – Rousseau funda uma espécie de religião nova que, em literatura, tomará a forma de romantismo, mas que é o fundo da actual religião do progresso, da ciência, da técnica. Em Rousseau, essa religião é a adoração da natureza, de seus instintos, sentimentos, impulsos passionais, numa palavra, adoração do coração humano mais do que da razão humana. As Confissões (surgidas em 1781), a Nova Heloísa (1761), Emílio (1762), o Contrato Social – que será uma espécie de Evangelho da Revolução – exerceram enorme influência. Podemos dizer que Rousseau é o pai do misticismo democrático que inspirou os Marat, os Robespierre e mais tarde um Edgar Quinet e os neo-jacobinos do combismo, – pai do misticismo socialista e comunista que, através de Saint-Simon, Fourier, Proudhon, Karl Marx, levou a Jaurès, Léon Blum, por um lado, e a Lenine e Estaline, por outro. Finalmente, Rousseau é o pai do misticismo passional e estético, no qual se inspiraram a literatura contemporânea e a religião da música, ou da arte pela arte.

Mons. Léon Cristiani in «Bréve Histoire des Hérésies», 1956.

30/07/2012

Marxismo


Tomando por base Rousseau e aceitando que o homem é intrinsecamente bom e perfeito, como requer a falácia humanista e expôs metafisicamente o filósofo de Genebra, os pais do marxismo desenvolveram a temática que se viria também a tornar o fundamento filosófico da Era Moderna. No «Discurso Sobre a Desigualdade» Rousseau tinha escrito: o homem é naturalmente bom. Qualquer traço de violência no seu íntimo é produzido pelas instituições sociais. A propriedade privada e o Estado são as duas instituições predominantes de invenção e autoria humanas. A primeira, produz a desigualdade e requer a segunda para a manter. A propriedade privada e o Estado combinam-se para produzir a ruína do homem. Glosando este tema Proudhon haveria de escrever: «a propriedade privada é o roubo» e Owen, Fourier, Marx, Engels e outros utópicos, aplicar-se-iam a determinar cientificamente a validade destes raciocínios.
Marx chegou inevitavelmente ao diagnóstico e à receita: aceitando que a natureza humana é pacífica e boa, adiantou que o ambiente social é que é responsável pela violência e o vício. A natureza da sociedade humana é determinada pela posse da terra e dos meios de produção. Portanto, a natureza do homem é determinada pela posse do capital. Enquanto a propriedade for privada, a humanidade permanecerá dividida entre explorados e exploradores, e os Estados existirão para proteger os exploradores. Toda a História, por conseguinte, deve ser interpretada em termos de luta de classes, todo o conflito em termos de esforços da classe exploradora para manter as suas vantagens. Porém, se os explorados conseguirem chegar ao controlo do Estado, a propriedade privada será extinta e terminará a luta de classes. A guerra, a miséria e o vício, a violência e a necessidade do Estado acabarão, porque nesse momento o homem será naturalmente pacífico e bom. É claro que nos países onde esta lógica foi levada até às suas últimas consequências pode constatar-se a ironia final: quando um homem confia na bondade de outro, nunca perde mais do que a vida.

António Marques Bessa in «Ensaio sobre o fim da nossa Idade».