
Fala, a propósito, na operação de salvamento dos refugiados republicanos espanhóis e dos judeus que, no início da Segunda Guerra Mundial, se acumulavam na fronteira de Irún, na ânsia de salvar as
vidas. Vieram embarcados nos vagões da Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira
Alta, que iam até Irún carregados de volfrâmio, e voltavam a Vilar Formoso
carregados de fugitivos. A operação foi mantida rigorosamente secreta porque as
autoridades espanholas não consentiriam. Segundo um protocolo firmado pelas
autoridades ferroviárias dos dois países, os vagões deviam circular selados,
quer à ida quer à vinda. Um dos que assim salvaram a vida foi o Barão de Rothschild.
O embaixador Teixeira de Sampaio confirmou-me, mais tarde, esses factos. O
salvamento de 30.000 refugiados deu-se ao mesmo tempo que o cônsul de Portugal
em Bordéus, em cumplicidade com dois funcionários da PIDE, falsificava algumas
centenas de vistos, que vendia por bom preço a emigrantes com dinheiro. Um dos
que utilizaram esta via supôs que todos os outros vieram do mesmo modo – e
assim nasceu a versão, hoje oficialmente consagrada, de que a operação de
salvamento se deve ao cônsul de Bordéus, Aristides de Sousa Mendes. Este, homem
muito afecto ao Estado Novo, nem sequer foi demitido, mas sim colocado na situação
de aguardar aposentação. Os seus cúmplices da PIDE foram julgados, condenados e demitidos.