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10/10/2017

Os Lusitanos


Cumpre ter sempre presente que a Lusitânia é habitada pela mais poderosa das nações da Hispânia; e que, achando-se já subjugadas as outras, é esta a que se atreve ainda a deter as armas romanas.
Não provém a sua força do número dos seus habitantes, mas da sua resistência devida a um temperamento tenaz e incansável, a uma dignidade individual que antes prefere a morte a qualquer aparência de escravidão.

Caio Lélio, Cônsul Romano, 190 a.C.

11/09/2017

Roma não paga a traidores

Viriato

Em 155 a.C., o Império Romano dominava já todo o território leste e sul da Península Ibérica. Nesse mesmo ano começa a chamada Guerra Lusitana.
Entre 155 e 150 a.C. os combates sucedem-se, quase sempre favoráveis aos lusitanos. Até que, neste último ano, os lusitanos sofrem um grande revés. Tal deve-se à promessa do governador romano, Galba, de oferecer terras aos lusitanos. Mas a promessa era uma cilada. Com os lusitanos concentrados em poucos lugares perto dos romanos, Galba promoveu uma chacina.
Após a matança de Galba, segue-se um período de relativa acalmia. Até que no ano 147 a.C., os lusitanos irrompem num novo ataque aos romanos. Nesta altura, o governador romano Vetílio propõe um novo acordo de paz. Mas contra esse acordo levanta-se Viriato, um sobrevivente da chacina de Galba, que, lembrando aos lusitanos a perfídia dos romanos, apela à resistência.
Viriato, aclamado como "Rei" (Dux Lusitanorum), venceu o governador Vetílio. Os romanos reagiram, mas foram quase sempre vencidos em batalha.
Para Roma, a guerra estava a revelar-se um verdadeiro fracasso. Após vários desaires e uma pesada derrota em 140 a.C., os romanos propõem novamente a paz. Viriato firma o tratado e recebe o título de "amigo do povo romano" (amicus populi romani) pela humanidade com que tratou os inimigos vencidos na batalha de Arsa. No Senado Romano, porém, este tratado é visto como uma humilhação, e no ano seguinte, Roma rompe as tréguas e envia um novo governador para terminar a guerra.
O novo governador romano, Cipião, desencadeou uma ofensiva fulgurante, mas Viriato mantém a superioridade militar e força-o a pedir a paz. Envia dois emissários para negociar com Cipião, mas este suborna-os, prometendo-lhes grandes recompensas caso matassem Viriato. E assim aconteceu. Enquanto dormia, Viriato foi assassinado à punhalada.
Os lusitanos, enfraquecidos, acabaram por ser derrotados pelos romanos. A morte de Viriato marcou o início da ocupação romana no ocidente da Península Ibérica.
Quanto aos traidores, estes refugiaram-se em Roma, reclamando o prémio prometido. No entanto, as autoridades romanas ordenaram a sua execução em praça pública, onde ficaram expostos os seus corpos com a inscrição: "Roma não paga a traidores".

A morte de Viriato

22/09/2014

O substractum de Portugal


Confirmando a intuição de Menéndez y Pelayo, temos que reconhecer, realmente, a existência no Ocidente da Península duma família étnica, um pouco, senão bastante, diversificada da que residia no Centro e no Levante. Não nos demoraremos a deslindar complicados novelos genealógicos. Basta consignar que já Apiano Alexandrino, historiador das Guerras Ibéricas, se faz eco das divergências existentes entre Lusitanos e Celtiberos que, estando todos em luta contra Roma, não foi nunca possível obter a sua união. Dispondo duma alta erudição clássica, dificilmente haverá quem se socorra com tanta segurança das fontes histórico-geográficas do conhecimento da Península na Antiguidade como o ilustre professor da universidade de Erlangen, Dr. Adolfo Schulten, sábio explorador das ruínas de Numância. Pois no seu recente estudo sobre Viriato, o Dr. Adolfo Schulten aí alude, como factor de significação na vida social e militar da Península, ao que ele chama a "obstinação ibérica". A "obstinação ibérica", traduzindo de Lusitanos para Celtiberos, apesar do seu próximo parentesco, uma diferença que os séculos perpetuaram, decerto se radicava em causas mais fundas de que uma simples rivalidade de vizinhança, então bem fácil de explicar pelo apertado cantonalismo em que se confinavam, em relação umas às outras, as diversas tribos peninsulares.
Na verdade, se considerarmos que a Península foi passeada por inumeráveis invasões, para o Ocidente, – extremo inóspito e desamparado, seriam empurradas aquelas gentes mais antigas, quase autóctones, que não puderam resistir à conquista e não quiseram fundir-se com os novos senhores. Ou sejam Lígures, Celtas ou Iberos – para o caso a designação pouco importa – eis o tronco donde os Lusitanos derivaram. Representando assim na Península, como um substractum menos assimilável, uma etnia mais agarrada à terra, compreende-se desde já a arreigada índole agrária dessa grei, que, vivendo agremiada em estreitas mancomunidades agrícolas, bem cedo assentou os alicerces do futuro Portugal.

António Sardinha in «A Aliança Peninsular».