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17/11/2016

Metropolitanos e Provincianos


A civilização [moderna] é a metrópole. Cada vez cresce mais a separação entre os metropolitanos e os provincianos. Enquanto estes [os provincianos] continuam a ser os guardiões das culturas, aqueles [os metropolitanos] aniquilam-se na morte das ideias, que substituem por brilhos de moeda falsa. Estamos numa época de decadência, porque se instaura definitivamente no mundo, o predomínio inconteste das metrópoles.
São elas que falam em nome dos povos. Paris é a França; Berlim é a Alemanha; Londres, a Inglaterra; e Nova Iorque, os Estados Unidos.
São essas cidades os oráculos dos povos e apontam os destinos das nações. No entanto, nelas existe a depressão de todos os valores do Homem. E é por isso que elas são o primeiro capítulo da decadência.

Mário Ferreira dos Santos in «Páginas Várias», 1966.

13/12/2013

Nova Ordem Social


Os lobos, descontentes da vida que levavam, resolveram reconstruir a sua ordem social.
– Imitemos as abelhas! – Propôs um.
– Melhor, as térmitas! – Propôs outro.
Depois de muitos debates, a maioria convenceu-se que a ordem estabelecida pelas abelhas seria a que melhor se coadunaria aos lobos.
Antes de pôr em votação, um velho lobo, pedindo a palavra, disse:
– As razões da proposta são inegavelmente interessantes e ponderadas. Que tenha servido para abelhas e térmitas, compreendo. Que venha a servir para lobos é o que duvido, pela simples razão de lobos serem lobos, e não abelhas nem térmitas. E por outro lado, deixai-me ao menos pôr uma pequena dose de pessimismo lupino: depois de milénios e milénios, os lobos volvem para os insectos em busca de construções sociais. Será que a isso chamam progresso?

Mário Ferreira dos Santos in «Assim Deus Falou aos Homens».

29/10/2012

Credo de Dom Quixote


Creio na sabedoria divina criadora do cosmos; creio no cavalheirismo dos libertadores de bons prisioneiros; creio no amparo aos perseguidos, e aos necessitados, ávidos de justiça e de liberdade.
Creio no orgulho ante os poderosos; na justiça ante os maus; na magnanimidade ante os bons e os mansos, na delicadeza ante as mulheres e as crianças.
Creio na coragem; no domínio dos desejos e no amor eterno.
Creio na vida e na morte; amo as sombras dos bosques e a luz plena do meio-dia.
Creio na cavalaria andante, realização suprema do homem bom e viril.
Creio que há sempre um ideal a conquistar; feiticeiros que combater, duendes que enfrentar, e monstros que destruir.
Creio na necessidade do mal para maior glória do bem.
Creio na noite para maior glória do sol, e no sol para maior glória da lua, inseparáveis amigos e confidentes dos campeadores do ideal.