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01/09/2019

O Pai e o Rei


Pai e Rei são palavras sinónimas: Filhos, ou súbditos, têm a mesma significação – Pai é o legislador, que recebeu todo o poder para o governo e direcção da sua família, por meio da razão, ou da Lei escrita no coração do homem.

Este poder é transmissível, quando o requer o bem da família, ou seja pelo instinto social, ou pelo desejo de comunicar seus pensamentos uma alma racional, ou pelo medo e temor dos adversários da vida, ou pela força, ou por qualquer outro motivo d'atracção, sobre que são baldadas as disputas ou entretimentos.

O certo é o poder dos Pais sobre os Filhos, e o poder dos Reis sobre os súbditos: não são diversos direitos, ou poderes; são idênticos; o Rei não pode mais que o Pai: estes poderes não foram concedidos, como privilégios, mas só ao fim da conservação das famílias.

Nasceram os homens em dependência absoluta de seus progenitores, até ao tempo em que possam trabalhar, e ganhar o pão com o suor do seu rosto: lei formidável, mas necessária para expiação, e regeneração da carne corrompida pelo pecado: o que não escapou ao Filosofismo natural d'um Platão, e outros homens ilustrados pela revelação primitiva, ou por dom da graça, que não é tão restrita, como pensam muitos homens.

Esta dependência peculiar do género humano, não converteu em coisas as pessoas, mas produziu o direito paternal, o mais sagrado de todos os direitos, para criar, educar e vigorizar a sua descendência, que deve crescer e multiplicar-se, enquanto couber na terra: esta é a força da palavra "replete" escrita no Génesis, que deve entender-se por faculdade de propagar-se.

Pe. José Agostinho de Macedo in jornal «O Escudo», Nº 1, 1823.

15/05/2019

Côrtes tradicionais e Côrtes liberais


Quanto às funções de umas Côrtes, ou de outras, a oposição é manifesta. As antigas Côrtes Gerais tinham funções apenas consultivas, embora os Reis tivessem o seu voto em grande conta, porque elas eram de facto a representação dos corpos da Nação [Clero, Nobreza e Povo]. As Côrtes liberais tinham funções legislativas, o seu principal papel era fazer leis (Art. 5.º § 6). Isto é, em monarquia constitucional, temos umas Côrtes que não representam a Nação, exercendo uma função para a qual não têem competência; a função suprema de legislar e governar. É o germe da anarquia. É a república mascarada de manto e coroa.

Caetano Beirão in revista «Acção Realista», 15 de Janeiro de 1926.


12/01/2019

Despotismo e Absolutismo


Deve notar-se, que quando estes autores escreveram sobre a natureza dos governos despóticos, tomaram sempre o dos Turcos para exemplo: e como a autoridade dos Sultões se exercitou quase sempre com muita crueldade e violência para com os povos que governavam, concluirão logo, que a ideia de governo despótico incluía necessariamente em si as ideias de barbaridade, de injustiça e de crueza. Não era sem fim particular esta maneira de discorrer. Tratava-se de tornar odiosos todos os governos monárquicos absolutos, entre os quais e os despóticos não estabeleciam diferença essencial; e por este motivo escolheram para base dos seus raciocínios o governo dos Turcos com preferência a uma imensidade de governos da Ásia e da Europa, e ainda da África e da América, que, posto que absolutos e até mesmo despóticos, se não acomodavam tão facilmente ao seu modo de discorrer.

Por que motivo, sendo o governo de Roma no tempo dos Reis, e ainda mesmo no tempo dos cônsules até o estabelecimento dos decênviros, o dos Egípcios, o de Macedónia, e mil outros por ventura tão despóticos como o dos Turcos, não é nenhum deles citado para exemplo por estes escritores apaixonados? Porque de nenhum deles se podia tirar tão facilmente, como do dos Turcos, a consequência de que todo o governo despótico, e, por associação de ideias, todo o governo absoluto, há-de ser necessariamente cruel, injusto e violento.

Seja como for, é certo que do modo por que autores pouco sinceros reuniram nos seus escritos as duas ideias de despotismo e crueldade, de governo despótico e injustiça, se seguiu tomar a palavra Absolutismo sentido tão odioso, que aos revolucionários de todas as cores está servindo de ensalmo para fazerem adoptar e progredir os planos de revolução, em que vão pondo em prática os mais inauditos atentados contra os governos estabelecidos.

A significação primitiva da palavra Grega Déspotes nunca teve nada de odioso; porque os termos que em latim lhe correspondem são – Rex, Imperator. Não há coisa mais ordinária do que encontrar em todos os livros sagrados escritos em Grego, passagens em que se dá a Deus o nome de déspota, acompanhado de todas as expressões de gratidão e amor que podem sair de um coração reconhecido. Do mesmo modo a palavra despotismo, que se deriva de déspota, nada tinha de odioso na sua significação natural: indicava aquela espécie de governo em que todas as leis e regras de governar eram unicamente estabelecidas pelo soberano, sem dependência de outra autoridade qualquer; e deste modo tanto competia o nome de despótico ao governo de Deus, que, sendo o melhor de todos os governos possíveis, é o mais completamente independente que pode imaginar-se, como a todos os governos absolutos da Europa, em que os soberanos faziam e revogavam as leis, conforme entendiam que era conveniente às necessidades do povo que governavam. Estas leis que eles mesmos faziam, eram as únicas condições que limitavam o seu poder: mas, se o soberano era senhor das leis, dizia El-Rei D. João II, logo se fazia servo delas, pois lhe primeiro obedecia; sempre independente como o Deus que representava, mas sempre, como Ele, escravo das suas promessas.

E nesta completa independência de todas as autoridades do mundo consiste o motivo secreto por que o rei absoluto está muito mais habilitado para fazer a felicidade do povo do que aquele que o não é. O soberano que é rei pela graça de Deus, como nunca pode ter medo de que lhe tirem a coroa, também nunca pode ter motivo suficiente para resistir aos impulsos benéficos do seu coração, ou para fazer-se surdo ao grito da consciência. Certo da sua sorte futura, será naturalmente generoso e bem-facejo, porque nunca pode ter medo de vir a cair em miséria: independente de favores alheios, fará sempre justiça direita, porque nunca pode ter precisão de comprar benevolências de outrem.

Não é assim o que é rei pela graça do povo. A incerteza da sorte que o espera é a espada de Dâmocles que lhe está sempre pendente sobre a cabeça. Quem sabe se o povo soberano retirará um dia ao seu Real mandatário a comissão que primeiramente lhe dera de governá-lo? Em tais circunstâncias é força que o príncipe aguarente, até se fazer miserável, todas as suas despesas; que se faça mesquinho, e até mesmo avaro; que mande para fora os capitães da nação, a fim de segurar para si e para a sua família um fundo de que em todo o caso possa dispor. Se se trata de fazer justiça, quantas vezes lhe não será preciso torcê-la para captar o favor de alguma personagem influente que pode ser-lhe hostil, quer seja no parlamento, quer seja em assembleias populares!

Como o soberano é o primeiro interessado na prosperidade do reino que lhe pertence, deve supor-se que todas as suas leis são dirigidas a fazer a felicidade dos vassalos que governa; porque é absurdo pensar que aquele cuja glória, prosperidade e interesse nasce, prospera e cresce com o interesse, prosperidade e glória da nação a que preside, trabalhe por arruinar-se a si mesmo, arruinando os interesses do povo de que é rei. Pode não acontecer a mesma coisa, quando alguma outra autoridade, sem ser a do soberano, tem parte na formação das leis; porque em se tratando de súbditos, não são raros aqueles que procuram fazer a sua fortuna à custa da nação, cujos interesses administram.

(...)

Parece pois que o governo despótico em si, e por muito mais forte razão o absoluto, nada tem donde devam derivar-se todas as barbaridades e injustiças que os declamadores de todas as épocas lhe atribuem; e que se o contrário se verifica em alguns países da Ásia, como na Turquia e no Japão, é porque há nesses países alguma outra causa oculta, independente da natureza do governo, a que deva ser atribuído este fenómeno. Esta causa oculta, de que falo, parece-me que deve procurar-se na natureza da religião de qualquer das duas nações.

José da Gama e Castro in «O Novo Príncipe», 1841.

14/03/2018

Das assembleias deliberativas


Um parlamento nunca pode exprimir o interesse nacional [bem comum], revela apenas a força dos partidos em que a influência eleitoral se divide. Derivando da eleição por sufrágio directo, ele é o resultado de uma burla, porque a massa eleitoral é e será sempre incompetente para realizar uma escolha conscienciosa, pronunciando-se sobre merecimentos que não pode avaliar, em indivíduos que não conhece ou só viu nas arengas da praça pública ou dos centros onde cada um vai apregoar qualidades boas que julga ter. É pela maioria de votos assim obtida que na Democracia se regula a confiança para a administração, como se um preconceito numérico pudesse corresponder à capacidade de governo. Para nada faltar à ficção eleitoral, os candidatos propostos pelos diversos círculos, até deixam de os representar para se dizerem deputados da Nação, mal acabam de se contar os votos. Pela tirania da maioria, o chefe político que conseguiu ganhá-la, maneja por detrás dela e fica irresponsável, bem como os seus cúmplices, em todos os desvarios de que são portadoras as leis votadas. É uma ditadura tortuosa, mais cara e menos nobre do que o mais abusivo poder pessoal. Na sua inconsciência e irresponsabilidade, cada um dos parlamentares se julga competente para versar e discutir todos os assuntos. Daí, o espectáculo permanente de miséria mental e moral dos parlamentos, o seu descrédito inevitável e morte próxima.

Adaptado de «Cartilha Monárquica», 1916.

23/02/2018

O Estado Novo não era republicano


A Revolução de 28 de Maio não abriu um novo capítulo na conturbada história da República, deu origem a um outro regime, bem diferente daquele que os revoltosos da Rotunda impuseram pela força ao nosso País.
Aconteceu que, constitucionalmente, o regime salazarista conservou o nome de república, herdado da situação anterior: mas isso não quer dizer nada porque a palavra em si não tem significado especial, o que importa realmente é o qualificativo que acompanha a referida expressão. A República Corporativa, como estabelece a Constituição Política do Estado, perdeu a maior parte dos vícios inerentes ao sistema demo-liberal e preservou a essência monárquica do Poder, afastando da plebe a escola dos governantes. Neste sentido, a república corporativa é muito mais autoritária e monárquica do que certos reinos minados pelo cancro democrático.

Luís Fernandes in jornal «Agora», 26 de Outubro de 1968.

15/01/2018

A falsidade da soberania do povo


Na sua luta contra a Monarquia que era chamada de tirânica, a Democracia disfarçada em Monarquia Constitucional ou Liberal, transferiu para o povo a soberania do Rei. Assim se abatiam os tronos e se davam aos descontentes motivos de exaltação, estabelecendo entre os reis e os povos, uma oposição que na Monarquia não pode existir.
De elemento obediente, o povo tornou-se autoritário e os reis foram declarados empregados públicos ou mandatários da Nação. De todas as mentiras democráticas, nenhuma mais irrisória do que a da soberania do povo. Da soberania advém a faculdade de declarar o interesse nacional e o poder de o defender; mas o povo nunca atinge o grau de consciência e a unidade de pensar que o exercício da soberania exige. Os únicos soberanos são os chefes políticos, manobrando à sombra de maiorias inconscientes e irresponsáveis. Uma consulta ao sufrágio do povo pode exprimir o seu agrado a estes ou àqueles homens, a uma ou a outra medida, mas nunca o que mais lhe convém, porque não tem capacidade para conhecer do interesse nacional. Só o Rei, com o conselho dos Estados, pode decidir no sentido da maior utilidade colectiva [bem-comum].

Adaptado de «Cartilha Monárquica», 1916.

05/10/2017

A Monarquia caiu antes de 5 de Outubro de 1910


JOÃO TIAGO – Vejo, com certo espanto, que julgas perfeitamente legítimos governos, ou regimes, que não tenham a adesão da generalidade dos governados.

JORGE GUILHERME – Não percebo porque te admiras. Se a adesão dos governados na generalidade fosse o fundamento da legitimidade, toda a revolução tornaria ipso facto ilegítimo um regime. E até o regime que aceite tal fundamento, também, por seu turno, se tornaria ilegítimo se contra ele se erguessem alguns cidadãos. Seria o absurdo e o caos sem tirar nem pôr. O que já é pitoresco é que tão estranha doutrina também tenha sido defendida hoje em dia por cavalheiros que se proclamam monárquicos, isto é, adeptos de uma forma de governo em que a vontade dos governados não entra em nada para a designação dos governantes. A serem lógicos, o rei poderia ser deposto a cada instante, desde que a ele não aderissem os súbditos na sua generalidade. Claro que, então, a monarquia passaria a república e o rei a presidente. Enfim, sintomas de degenerescência intelectual que confrangem.

António José de Brito in «Diálogos de Doutrina Anti-Democrática», 1975.

17/02/2017

Salazar devia ter restaurado a Monarquia?

Ao visitar um grupo pseudo-tradicionalista no facebook, deparei-me com a seguinte imagem:


A respeito do "erro" de Salazar em não ter restaurado a Monarquia, vejamos a opinião de um verdadeiro monárquico em 1949:

Consequentemente, a Realeza a restaurar não é a Realeza liberal, constitucional, democrática, parlamentar, que aí tivemos a abrir a catástrofe de 1910 – mas a outra, a Realeza que vem de 1128 a 1820, a quem se deve a formação, a consolidação, o prestígio de Portugal; a quem se devem os fundamentos sobre que repousa a Nacionalidade; a quem se devem as fronteiras portuguesas, no continente europeu e no Ultramar. A Realeza postiça de 1834 a 1910, devemos a República, que foi a consequência lógica das lutas partidárias que a Realeza de então não podia evitar, porque ela própria saíra de uma luta partidária vitoriosa; que ela não podia condenar, porque era da sua essência reconhecê-las; que ela não podia dominar, porque fôra ela quem as desencadeara. Já não sei se há monárquicos em Portugal capazes de um movimento transcendente, como este que preconizo – tão afastado vivo de todos e de tudo – desde o Rei até à mais rudimentar organização da chamada Causa Monárquica. Fiel aos princípios, cada vez mais integrado neles, vivo distante dos homens que têm a fama de os representar, por incompreensão mútua: nem eles me entendem, nem eu os entendo a eles. A hora é dos videirinhos e dos trafulhas, e eu limito-me a assistir, de longe, como de longe das roletas do Estoril ou das celas do Limoeiro, à acção e ao triunfo admirável de uns e de outros. Eu sou o irrequieto, porque não me conformo com que se ponham no mesmo plano, homens honestos e homens desonrados, aventureiros e homens sérios; eu sou o conflituoso, porque digo que um gato é um gato, e um coelho é um coelho; eu sou réprobo, porque me caracterizam estas duas qualidades, que pelos vistos são defeitos, e se traduzem pela expressão adoptada por um alto espírito português: a independência dos meus juízos, e a firmeza das minhas convicções. Por tudo isto, vivo distante, em isolamento que progride, porque não dou um passo, nem esboço um gesto para conter ou limitar. E assim não sei se há monárquicos em Portugal capazes de dar à doutrina monárquica a forma que ela requer, e a força que ela solicita, para poder emergir dos escombros em que a Vitória das Democracias a sepultou. Monárquicos, é claro, que não tragam à frente, como o judeu das tâmaras, o balcão dos negócios; monárquicos que não sejam comerciantes e traficantes, e não façam da doutrina monárquica moeda de compra e venda.
Se os há, bom seria que alguém os juntasse, e os animasse à obra que tudo indica como indispensável.
Se os não há... Nem por isso me demitirei de dizer o que é necessário realizar.

Alfredo Pimenta in «Três Verdades Vencidas: Deus, Pátria, Rei», 1949.

05/10/2016

Rei sem Soberania não é Rei

D. Miguel, o último Soberano

Os que julgaram e até escreveram, que na Monarquia Constitucional a Soberania era exercida colectivamente pelo Rei e pelas Câmaras, ou Câmara, enganaram-se e sinceramente se iludiram. A Soberania é uma, e nestes papéis o tenho dito, é uma e indivisível, e deve sempre encontrar-se e existir em um só ponto. Só o poder que decide definitivamente uma questão é o verdadeiro Soberano. No caso de uma oposição entre o Rei e a Câmara dos Deputados, as Fórmulas chamadas Constitucionais, colocam naturalmente a Soberania na Câmara, porque a Câmara tem o poder legal de rejeitar tudo sem apelação. O Rei que quiser conservar o Poder Soberano, não tem outro recurso mais do que a força que destrua ou suspenda a Constituição.

Pe. José Agostinho de Macedo in «O Desengano», Nº 14, 1831.

20/05/2016

Salazar e a Monarquia

Imagem adaptada de N.E.O.S.

Reparem, Senhores: o pensamento político de Salazar que se denuncia nas Festas centenárias que idealizou e promoveu, que raízes tem? De que sangue se alimenta? Em que doutrinas se funda? Numa palavra, – de onde emana, o Pensamento político de Salazar?
É, porventura, da ideologia que inspirou as disposições da Constituição de 1911? É por acaso do Verbo dos agitadores da plebe da geração de 90, e das gerações suas discípulas?
É, porventura, dos princípios fixados pela Tábua dos Direitos do Homem, ou das doutrinas execráveis da Enciclopédia do século XVIII? Quem foram os mestres desse Pensamento? Rousseau e Voltaire, Lamartine e Victor Hugo? Mouzinho e Oliveira Martins? Guilherme Braga e Junqueiro? Todos nós sabemos que esses doutrinadores são antitéticos da orientação de Salazar.
Leiam-se os discursos políticos deste; interpretem-se as suas posições, não sob o ângulo da hora em que são ditas, mas à luz da crítica filosófica, e, sem dificuldades, se verá que os seus Mestres foram Maurras e Le Play, Jean Guiraud e Menendez y Pelayo, Leão XIII e Pio X, os Mestres da contra-revolução portuguesa, e Alberto Sampaio. E se, algum dia, os seus olhos se poisaram em rimas ou estrofes, para receber os eflúvios espirituais que contêm foi – nas de Camões ou Bernardes, Sá de Miranda ou Correia de Oliveira, António Nobre ou Eugénio de Castro, Guilherme de Faria ou Mário Beirão, – poetas cristãos e genuinamente portugueses e não em certos pretensos modernistas, deformadores ou falsificadores da Beleza pura e da Poesia em si.
Ora tudo isto traduz, não Revolução francesa – alma mater do Liberalismo comunizante, mas Realeza tradicional de Portugal.
Veja-se a orgânica política do Estado Novo – obra de Salazar: a Assembleia política, reduzida ao mínimo, no tempo, e nas funções; quase só consultiva e esclarecedora, é a versão actual das nossas Côrtes tradicionais; a Câmara corporativa é o reconhecimento legal dos grandes elementos tradicionais da Nação – desde a Família à Província, desde as Corporações aos ofícios; o predomínio da Autoridade, benéfico para todos, sobre a Liberdade, prejudicial para todos; o predomínio do Bem comum sobre o Bem individual; o conceito da Família primando sobre o conceito do Indivíduo; o Social preferido ao Individual; o Bem de cada um consequência do Bem de todos, em vez do Bem de todos consequência do Bem de cada um – tudo isto que é se não de origem tradicional, obra da Realeza secular da nossa terra?
E se isto não bastasse, tínhamos no princípio da reeleição presidencial sem limites, garantindo na Constituição em vigor, o reconhecimento da grande virtude da Realeza, – como adopção da minha velha lei: «a República é tanto mais perfeita quanto mais se aproximar da Monarquia, sem nunca a atingir».
Qual tem sido o grande fundamento da obra de Salazar?
A continuidade no Poder.
Há perto de trinta anos que eu formulei, diante do público, as condições essenciais de um governo fecundo: estabilidade, continuidade e homogeneidade – características específicas da Realeza hereditária.
Têm essas características sido o instrumento feliz da política de Salazar. Estabilidade: – há mais de dez anos que governa o País; Continuidade: – promete e realiza, porque a Estabilidade lho permite; Homogeneidade: – com todas as suas falhas e desvios, os elencos ministeriais têm-se, mais ou menos, adaptado ao pensamento director do Presidente do Conselho.
A sua política, quer nas directrizes de técnica constitucional, quer nos processos realistas da execução, é de pura inspiração monárquica, e anda manifestamente distante do Estado de coisas que preparou o regime de 5 de Outubro.
E Salazar, o homem profundamente nacionalista [patriota], católico como o Portugal de sete séculos; ele que proclamou D. Afonso I «fundador do nacionalismo [patriotismo]» português; Salazar, o espírito culto e reflectido que é, não podia sonhar para os tempos novos que idealiza, para o futuro português que prepara, outros alicerces morais que não fossem os do Catolicismo, e outros alicerces políticos que não fossem os da Realeza hereditária, matriz admirável em que se criou Portugal: ou sejam – o Trono e o Altar.
Portugal foi durante sete séculos um Estado hierarquizado, vertebrado – imagem do Homem ou imagem de Deus: um pensamento a mandar; órgãos a executar; e o corpo a obedecer.
Só assim o Rei D. Afonso I pôde fundar Portugal, e o Rei D. João IV pôde restaurar a sua Independência.
Só assim Portugal pôde realizar a grande obra de seus descobrimentos e do seu Império.
Pulverizem a Autoridade de um só; invertam as funções, e ponham o dirigente à mercê dos votos ou caprichos dos dirigidos – e nem Portugal se teria fundado, nem Portugal se teria restaurado, nem o Império português se criaria.
Como podia Salazar inspirar-se no Portugal acéfalo ou anárquico, invertebrado e catastrófico da Demência parlamentar e liberal que a Revolução de 1820 introduziu entre nós, e a de 5 de Outubro consagrou, se tudo nele é propósito realizador, dentro do mais estreme nacionalismo [patriotismo]?

Alfredo Pimenta in «A Fundação e a Restauração de Portugal», 1940.

§

Nota: Alfredo Pimenta caiu num certo intelectualismo ao dar a entender que Salazar apenas foi quem foi, porque leu determinados autores. Seria mais justo dizer que Salazar, apesar de ter lido certos autores, herdou um espírito, uma moral e uma mentalidade que era normal no Portugal rural daquela época.

19/03/2016

As monarquias modernas

Constitucionalistas pseudo-monárquicos.

Dizem-se constitucionais as monarquias hodiernas. Porque comportam consigo um princípio contrário à sua índole, terminam sempre numa balbúrdia inglória da rua, depois da insignificância de meia dúzia de tiros. É que o poder sobe-lhes de baixo para cima, derivado dessa heresia social e religiosa que é a concepção materialista da soberania do povo. São por isso a negação da verdadeira Realeza, que depõe na fé e na legitimidade do direito a inspiração segura do seu carácter providencial.

António Sardinha in «Ao Ritmo da Ampulheta».

18/02/2016

O Rei como Pai da Nação


Sendo a Nação, no seu melhor conceito, uma família extensa e permanente, na impossibilidade de a manter sob o governo do mesmo chefe, recorre-se ao benefício da hereditariedade para que o poder não sofra interrupção. Por isso o Rei representa tanto a Nação, como cada um de nós os seus antepassados. Ninguém escolhe o Rei, como ninguém escolhe o próprio Pai para lhe obedecer.

Adaptado de «Cartilha Monárquica», 1916.

25/06/2015

Monarquia democrática, para quê?


Entre Monarquia constitucional parlamentar e República parlamentar constitucional não distingo diferença, nem considero que ela sequer exista, a não ser historicamente, entre o princípio da eleição e o da hereditariedade, tendo eu por tão precários os acasos do voto como os do nascimento.
O que me repugna num e noutro dos dois regimes é a embusteira tirania do sufrágio em que ambos se baseiam, e a consequente interferência da néscia razão da urna na solução de problemas tão melindrosamente científicos como o da governação dos homens.
O votismo e o parlamentarismo são, em Portugal pelo menos, os agentes mais perniciosamente destrutivos de toda a competência administrativa.

Ramalho Ortigão in «Últimas Farpas», 1911.

31/03/2012

Deus, Pátria, Rei

O Essencial que pode unir-nos e a Inteligência esclarecida proclama, e as lições multiseculares da História confirmam; o Essencial que pode unir-nos e a Filosofia formula, e a Experiência garante, é constituído por três noções substanciais que eu, desde a maioridade do meu Espírito, caracterizada pela mais intensa independência e a mais manifesta autonomia, infatigavelmente afirmo: Deus, Pátria e Rei.
Deus – na pureza do Dogma católico – o único verdadeiro; Pátria, na plena manifestação da sua soberania indecomponível; Rei – como sempre foram os Reis legítimos: responsáveis perante Deus, sem os outros embaraços nas suas determinações que não sejam os da sua consciência e os da compreensão dos seus deveres.
Deus – não o Deus dos vários cultos, superstições, idolatrias, ou religiões, mas o Deus da Igreja Católica Apostólica Romana que tem sido, até agora, a única Religião verdadeira no mundo, e que para mim, será, até o último alento, a única religião verdadeira na vida.
Deus – o Deus do Catolicismo definido e rigoroso, e não o Deus do Cristianismo furta-cores, saco onde cabe tudo – desde o Rotarismo maçónico ao Liberalismo maritainesco, desde a heresia luterana ao teosofismo americano.
Deus – o Deus do Catolicismo que é o único em que creio, o único que adoro, e não o Deus dos conclaves internacionais, pau para toda a obra, leitmotiv de todos os discursos de todas as chafaricas leigas e racionalistas, moeda de troca no balcão de Estaline, ou no guichet de Truman.
Pátria – a Pátria dos nossos antepassados que se fez contra o castelhano ou contra o mouro, que teve os judeus concentrados nos seus ghettos, e abriu as portas do mundo aos outros povos.
Pátria – a Pátria dos portugueses, cuidadosa das suas fronteiras, ciosa da sua liberdade, e inflexivelmente fiel à sua soberania, e não a Pátria bastarda, diminuída na sua vontade, algemada na sua expansão, e cerceada no seu Direito.
Pátria – a Pátria de Ourique e de Aljubarrota, de Montes Claros e do Bussaco; a Pátria que dominou os mares e a Índia, que fez o Brasil, e deu a volta ao mundo, e, em pleno século XIX, perante a Europa atónita, trouxe à corte de Portugal, como escravo, o maior e mais temível régulo da África oriental – amigo de S. Majestade a Rainha Victória da Grã-Bretanha, e Imperatriz das Índias...
Pátria – a Pátria da luminosa dinastia dos soldados do Ultramar, que começa em Ceuta, na madrugada do século XV e vive ainda, palpitante de glória e de audácia, no século XIX representada pelos legítimos émulos dos Albuquerques, dos Joões de Castro, dos Duartes Pachecos, dos Salvadores Correia de Sá.
Pátria – a Pátria que cantou e lavrou, navegou e batalhou, de cara erguida, e só se humilhou, contrita e frágil, a pedir perdão a Deus.
É essa Pátria imortal e altiva, capaz de dizer sim e capaz de dizer não, a Pátria das minhas convicções e das minhas aspirações, e não a Pátria que me querem dar, enquadrada em Federações ocidentais, sacrificando a sua independência em benefício dos outros, diminuindo a sua Vontade de Poder, para servir os outros, algemada, encadeada, mutilada, decepada para vantagem e gozo dos outros.
Rei – aquele Rei que a Realeza legítima e pura – legítima e pura na sua origem, legítima e pura na sua orgânica, legítima e pura na sua finalidade –, compreende, forma e garante.
Não esse Rei serventuário dos caprichos das turbas, enfeudado aos interesses volúveis das facções, enredado nos concluios dos grupos, à mercê, como catavento dócil, das combinações e das ambições dos demagogos e aventureiros, – mas aquele Rei que possa dizer, como no verso de Horácio: «Non ego uentosa plebis suffragia uenor».
Não a esse Rei, boneco de Entrudo, palhaço de feira, movido a cordel, como os títeres das barracas dos Robertos, que o Liberalismo inventou, espalhou e consagrou – mas aquele Rei que reina e governa, que não cede o leme da Nau, porque só ele é responsável, perante Deus e perante a História, dos destinos do seu Povo.
Não podia dispensar-me de lembrar e fixar esta base doutrinária, porque só ela explica e justifica aquilo que vou dizer. É absolutamente necessário partir-se dessa base prévia e tê-la presente, para se compreender a posição que vou marcar.
Sou intransigentemente, fanaticamente católico; sou intransigentemente, fanaticamente patriota; sou intransigentemente, fanaticamente monárquico.
A intransigência não exclui a compreensão dos princípios, dos pontos de vista diferentes: antes a supõe: é precisamente porque compreendo o erro, que sou intransigentemente pela verdade.
O fanatismo não exclui a consciência raciocinante e a objectividade analítica: antes as supõe: é precisamente porque, em profundidade e em largueza, vivo, discuto, ausculto e critico; é precisamente porque estudo a frio, sem paixão que perturbe, sem amor que deforme, sem interesse que perverta, ou sem receio que acobarde, que sou fanático da Ideia que sustento, do plano em que me coloco.
Porque intransigente, não abdico, não contemporizo, não cedo; porque fanático, não me conformo nem me convenço.
Católico – sou católico integral, na aceitação do Dogma, na sujeição ao Credo que é indiferente ao que foi ou poderá ser; patriota – sou patriota integral, exclusivista, só duma peça; monárquico – sou monárquico integral, não admitindo transacções, subterfúgios, plebiscitos.
Não sou, pois, católico progressivo, papagaio de Maritain, a proclamar que a Igreja viveu vinte séculos no erro e no desvairo, sem se aperceber de que outro era o caminho a seguir, na sua missão e no seu dever, e de que o Social deve ser anteposto a tudo, substituindo a Terra em que vivemos ao Céu a que aspiramos e para que nascemos.
Não sou, pois, patriota manchado de Internacionalismo, pacifista por definição, e perpetuamente agachado diante do Estrangeiro – seja a Inglaterra que nos despreza, a Espanha que nos amesquinha, e o Brasil que nos não pode ver.
Não sou, pois, monárquico que reconhece a República, que a confunde com a Pátria, que a julga capaz de bem servir a Pátria.
O Catolicismo progressivo é a Formiga Branca introduzida na Igreja. O Patriotismo internacionalizado é a anemia da Nação; o Monarquismo conchavado com a República é a Realeza traída.
O Catolicismo, o Patriotismo, o Monarquismo são conceitos fechados, noções rígidas, que não toleram elasticidade, mais ou menos. Toda a fissura que se abra nesses conceitos ou nessas noções é ataque fundamental à sua natureza; todo o énthema que se introduza nessas noções ou nesses conceitos é instrumento de corrupção do seu sistema; toda a emenda, correcção ou acrescento que se proponha a tais noções ou conceitos é o seu descrédito.
Toda a relatividade é diminuição do Ser. Ora os conceitos que acabo de enunciar são absolutos como o sim ou o não.
Salazar, ficando a meio caminho, disse um dia: «não se discute Deus, não se discute a Pátria». Eu acrescento: «não se discute a Realeza – porque Portugal é obra de Deus, do Rei e do Povo»...

Alfredo Pimenta in «Contra a Democracia».