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14/09/2018

Vestígios da religião primitiva de Adão (Parte II)



O Ser Supremo, entre quase todas as tribos pertencentes à cultura primitiva, é o supremo legislador e juiz moral das acções humanas, se bem que certas tribos deduzam disto conclusões bastante curiosas, como esta: Todos os velhos são bons; de contrário, Deus já os teria punido, tirando-lhes a vida.
A crença de que Deus pune e premeia as acções dos homens nesta terra não se opõe à de uma remuneração mais perfeita, na outra vida. Mas em que consiste esta outra vida, nem todos sabem explicar (G. SCHMIDT, 1938). Por isso algumas tribos, como os Yámanas, mostram grande tristeza quando morrem os seus parentes.
Alguns primitivos admitem uma vida celeste, outros, uma vida semelhante à terrena, mas mais feliz para os bons e mais triste para os maus.
Segundo os Maidu, o caminho para o Céu é representado pela Via Láctea, e onde esta se divide, separar-se-ão os bons e os maus. Para outros, por exemplo os Andamaneses, o arco-íris serve de ponte para o Céu.
Mas o atributo, direi, mais radicado, é o da bondade de Deus. O Ser Supremo é exclusivamente, essencialmente bom. D'Ele não pode vir senão bem e felicidade. Por isto, alguns povos, para explicar o mal físico e moral do mundo, recorrem a outro ser, que se rebelou contra o Grande Manitu e que, por ódio a Este, espalha o mal.
Os modos mais comuns de honrarem o Ser Supremo são a oração e o sacrifício.
A oração não é sempre oral; entre alguns povos é muda, isto é, só do coração e da mente, acompanhada quanto muito por algum gesto. Por isso, certos exploradores acreditaram de princípio que não tinham oração.
O sacrifício é menos frequente que a oração, mas também bastante difundido e praticado com todo o seu profundo significado, qual atestação da total submissão da natureza humana ao Ser Supremo, ou, então, como expiação dos próprios pecados (W. SCHMIDT, 1935).
Geralmente, oferecem as primícias da caça ou das colheitas, uma porção de alimento antes de o terem provado (O. MENGHIN, 1931). Outras vezes, oferecem o crânio e os ossos compridos dos animais caçados (ursos, renas) contendo ainda as partes mais apreciadas: os miolos e a medula, como é costume entre algumas tribos primitivas do círculo árctico (A. GAHS e W. SCHMIDT, 1928).

Quanto à moral, existem laços rigorosos nas relações sexuais, e o sentimento do pudor é geralmente muito vivo. Os vestidos nos adultos são claramente sugeridos pelo pudor. O Pe. Shebesta teve a felicidade de assistir entre os Semang à repreensão, dada por um adulto a um rapazote, que tinha pronunciado, na presença dos companheiros, frases lúbricas. «Lawaid Karei!», disse em tom ameaçador o velho voltado para o jovem, o que queria dizer: isto é pecado contra o Ser Supremo Karei, e o jovem calou-se imediatamente (G. SCHMIDT, 1931).
Os Negritos das ilhas Filipinas e os Coriacos da Kamchatka exigem a castidade pré-conjugal, nas raparigas. As eventuais transgressões são punidas com penas severas. A monogamia, por preceito ou de facto, é a forma de matrimónio absolutamente dominante (G. WUNDT, 1929; O. MENGHIN, 1931).
A indissolubilidade do vínculo matrimonial não é, de igual modo, observada entre todos os primitivos, sendo menos rigorosa entre os primitivos do Norte. Merece menção o facto de entre algumas tribos (Pigmeus de África, Bosquímanos) não ser possível a dissolução do matrimónio, desde que nasce um filho. Entre estas tribos é muito rara a infidelidade conjugal, sendo punida severamente e até com a morte (L. LIVI, 1937; G. SCHMIDT, 1931).
Não existem entre estas antiquíssimas fases de cultura, nem promiscuidade, nem troca de mulheres. Não se vêem crimes de infanticídio ou outros que se encontram em tribos de ciclo cultural superior. Numa palavra, e etnologia moderna chegou à conclusão à qual tinha chegado, um século atrás, o famoso etnólogo jesuíta Pe. Lafitau, fundador da moderna etnologia: «Os povos primitivos – escrevia ele – na maior parte dos casos, não são produtos de degeneração, de decadência de civilizações elevadas; mas, antes, conservam até aos nossos dias as fases primordiais do desenvolvimento da humanidade» (PE. LAFITAU, Moeurs des Sauvages Amériquains, Comparées aux Moeurs des Premiers Temps, 1724).
Os homens primitivos têm um conceito bastante elevado da moral e de Deus, que honram com sacrifícios; praticam a monogamia, como afirma a Sagrada Escritura a respeito dos primeiros homens. Logo, as afirmações da Sagrada Escritura são verdadeiras e é falso o evolucionismo religioso.

Pe. Victor Marcozzi in «Deus e a Ciência», 1957.

12/09/2018

Vestígios da religião primitiva de Adão (Parte I)


O estudo objectivo da religião destes povos primitivos levou às seguintes conclusões: «Em todos os grupos étnicos de cultura primitiva existe a crença num Ser Supremo, senão entre todos com a mesma forma e força, certamente em toda a parte com a força suficiente para excluir toda a dúvida acerca da sua acção predominante» (G. SCHMIDT, Manual de História Comparada das Religiões, 1938).
A crença num Ser Supremo é claríssima em todas as tribos de pigmeus da África e da Ásia (H. BAUMANN, 1936). Até há pouco tempo, o que sabíamos da maior parte dos pigmeus da África era quase nada e tinha um conceito diverso das suas crenças religiosas; mas investigações recentes de Trilles no Gabão, de Schumacher no Ruanda, de Schebesta no Congo, puseram em evidência, com toda a clareza, a crença deles no Ser Supremo. O mesmo se pode dizer de algumas tribos africanas, como os Ajongos, Vátuas, Bagellos, Bambutos e outros; de povos primitivos do Sul, como os Bosquímanos, os habitantes da Terra do Fogo e os australianos de cultura primitiva; no círculo polar árctico, como os Samoiedos, os Coriacos e os Ainu, e numerosas tribos da América do Norte. Mas aquilo que mais surpreende, ainda, é que a ideia deste Ser Supremo é tanto mais pura, isto é, menos ofuscada de ideias de outros deuses menores, quanto mais a tribo apresenta caracteres primitivos.
Alguns primitivos, como os Fueguinos, Negritos, Bátuas, Andamaneses, afirmam que o Ser Supremo é imperceptível aos sentidos, inaferível como o vento.
Outros dão-lhe um aspecto humano, venerando, com longa barba, mas dotado de caracteres superiores ao homem; umas vezes, é resplandecente como o fogo; outras, circundado por uma auréola solar. O arco-íris, entre algumas tribos, é a fímbria do manto do Ser Supremo. Significativo é o facto de que mesmo as tribos que representam o Ser Supremo com feições humanas, quase nunca lhe atribuem mulher e filhos, achando irreverente até a pergunta se o Ser Supremo é casado.
Múltiplos e expressivos são os nomes pelos quais é designado o Ser Supremo, sempre pronunciados com respeito e em raras ocasiões; mas nunca, sem necessidade. Em muitos casos recorrem a circunlóquios ou sinais. Por exemplo: um aceno para o céu, como fazem os Juin com Daramulum e os Kulin com Bundyil.
Três grupos de nomes são mais frequentes, e precisamente os que exprimem paternidade, ou a obra criadora e a morada no céu. Os pigmeus do Ituri, os Bosquímanos e muitos outros chamavam-lhe simplesmente: pai. Os Samoiedos usavam esta invocação: meu pai Nun, meu pai celeste. Os Ainu chamavam-lhe: o Divino Construtor dos mundos. Muitas tribos norte-americanas chamavam-lhe simplesmente: o Criador, o Artífice, o Criador da Terra. Os Samoiedos: o Criador da vida.
Encontram-se outras expressões que indicam, ou a morada de Deus, como esta: Aquele que habita no alto, ou outros atributos: o Antiquíssimo, o Suporte do universo, o Grande Manitu, isto é, o Grande Espírito (Algonquinos), Gawa, o Invisível (Bosquímanos), o Omnipotente, o Vigilante, o Eterno, etc.
Já por estes nomes, que acabamos de enumerar, se revela o conceito, como se vê, altíssimo, que tinham estes povos do Ser Supremo, bastante semelhante àquele que tinham os Patriarcas do Génesis.
Mas, mesmo quando não existe um nome para exprimir os atributos de Deus, existe sempre o conceito, que exprimem recorrendo a circunlóquios. A eternidade do Ser Supremo é conhecida por quase todos os povos primitivos. A omnisciência está em estreitíssima relação com a vigilância que o Ser Supremo exerce sobre as acções morais dos homens. As tribos da Austrália sul-oriental avisam disto os jovens, tanto no rito da iniciação, como noutras ocasiões, com a advertência que o Omnisciente sabe também punir (F. GRAEBNER, 1926). Os Bátuas do Ruanda dizem claramente: nada existe mais que Imana, o Ser Supremo. Ele sabe tudo. Conhece até os pecados secretos do pensamento.


Pe. Victor Marcozzi in «Deus e a Ciência», 1957.

27/03/2013

A vida é fruto do acaso?


Suponhamos que, chegando a uma ilha desabitada, encontramos uma estátua maravilhosamente esculpida. Certamente – concluiremos – esta ilha foi em tempos habitada ou, pelo menos, visitada por homens que ali deixaram aquela estátua.
Que diríamos, porém, se alguém quisesse troçar da nossa natural suposição e nos dissesse: Mas quê? Isso é uma explicação gratuita, devida simplesmente à tendência que tendes de interpretar antropomorficamente as coisas! A estátua não é obra do homem! Foram as chuvas e os ventos que, primeiro, arrancaram da montanha o mármore; os agentes atmosféricos e os temporais que depois o trabalharam e, por fim, uma rajada violenta que a pôs de pé!
Quem poderia aceitar uma tal explicação sem renunciar ao mais elementar bom senso?
Mas, se o acaso é impotente para produzir uma estátua, que apenas é uma imagem da vida, como poderemos nós supor que o mesmo tenha produzido um organismo, inteiro e complexo, com todos os seus órgãos maravilhosos?

Pe. Victor Marcozzi in «Deus e a Ciência», 1957.