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28/09/2018

O banqueiro anarquista


– Realmente, disse eu, você é anarquista. Em todo o caso, dá vontade de rir, mesmo depois de o ter ouvido, comparar o que você é com o que são os anarquistas que pr'aí há...
– Meu amigo, eu já lho disse, já lho provei, e agora repito-lho... A diferença é só esta: eles são anarquistas só teóricos, eu sou teórico e prático; eles são anarquistas místicos, e eu científico; eles são anarquistas que se agacham, eu sou um anarquista que combate e liberta… Em uma palavra: eles são pseudo-anarquistas, e eu sou anarquista.
E levantámo-nos da mesa.

Fernando Pessoa in «O Banqueiro Anarquista», 1922.

31/08/2018

Usurocracia


A Banca, que alcançou um poder determinante no século XIX, chegou, na actualidade, ao domínio absoluto da vida económica, tanto no Ocidente do mercado livre, como no Leste comunista. Hoje em dia, quando se apresenta a ocasião de fazer funcionar uma nova empresa, tenha ou não finalidade lucrativa, a primeira coisa a ponderar é a atitude provável da Banca – local ou nacional, segundo a índole das suas actividades – relativamente à empresa em questão. Na época presente já quase nada se pode fazer e, praticamente, nada consegue perdurar sem o apoio dos bancos. De simples executivos de um serviço que devia facilitar o intercâmbio de mercadorias, os banqueiros passaram a ser, sucessivamente, os reguladores, depois os controladores e, por fim, os donos de toda a riqueza mundial. E, apoiando-se nesta, donos também, como é óbvio, do poder político.
Shylock [d'O Mercador de Veneza] e os seus correligionários da Idade Média eram inocentes meninos de coro comparados com os magos da moderna Finança. Ao fim e ao cabo, os agiotas daquela época cobram "apenas" uns 30 ou 40% de juros mensais... Também não devemos esquecer que esse juro exorbitante, por abusivo que fosse, era cobrado sobre dinheiro existente, real, tangível, pertencente ao usurário, que, além disso, corria riscos pessoais materializados, com muita frequência, em penas de prisão, quando não em pogrom, expropriações e expulsões. Pelo contrário, os modernos banqueiros praticam, grosso modo, a operação seguinte: tomam emprestado dinheiro, o dos seus depositantes, pelo qual pagam um juro de 2%. Esse dinheiro é emprestado, por sua vez, a um juro de 12%, o que representa logo um benefício de 2000%, benefício este que não deu, nem dará nunca, lugar a negócio nenhum. É espantoso comprovar como nenhum Estado, nenhum juiz, nenhuma comissão (ao estilo da Fiscalização de Taxas que já existiu em Espanha) tomam a mais pequena medida contra esses benefícios abusivos, contra esses comerciantes do dinheiro – e comerciantes monopolistas, não se esqueça... – quando por uns "miseráveis" 30% se fecharam empresas estabelecidas e se meteram na prisão os seus proprietários. Mas não termina aqui o abuso bancário: os bancos não ganham "só" 2000%, mas sim, como vimos já, ao multiplicarem por 9 os seus empréstimos, criando moeda escriturada – moeda falsa, não nos cansaremos de o repetir – os seus benefícios, ao ficar consumado esse delito – autêntico delito – contra o Código Penal e contra a humanidade, têm que ser multiplicados outra vez por 10. Por cada 100 denários recebidos dos seus clientes, o banco paga a estes um juro anual de 2 denários e cobra, ao "emprestar" 900 denários, um juro de 12%, ou seja, 108 denários, o que equivale a um juro de 21600%!
E os céus não trovejam!... Entretanto, os frios monstros estatais assanham-se continuamente contra o pequeno e médio empresário que dissimula os seus benefícios para poder sobreviver...

Joaquín Bochaca in «A Finança e o Poder», 1973.

21/05/2018

Partidos políticos


Para a Democracia, a Pátria não existe organicamente: só há os partidos políticos, agrupamentos numéricos de indivíduos-eleitores, lutando em nome do interesse público para utilidade dos associados. Desconhece-se, ou logicamente se renega, a Tradição, para que tudo comece no dia em que a Democracia começou. Os partidos, em geral dois, três ou mais, nas sociedades em decomposição, representam, um, tendências conservadoras, outro, tendências avançadas ou radicais, como fórmulas de equilíbrio e correcção. Teoricamente, o princípio é uma falsidade, porque não há princípios conservadores, nem avançados: há ideias que matam e ideias que salvam; mentiras políticas e verdades políticas; ideologias e realidades.
A alimentar a corrupção dos partidos, há ainda a considerar as influências internacionais da Maçonaria, que combate a ideia de Pátria, e a pressão dos interesses das plutocracias, por meio da venalidade de políticos sem escrúpulos nem convicções, que formulam programas e fazem promessas que antecipadamente sabem não poder cumprir.

Adaptado de «Cartilha Monárquica», 1916.

21/04/2018

Sobre quem manda nos E.U.A.


A Constituição dos Estados Unidos tinha posto nas mãos do Congresso o direito de criar e controlar a moeda do país. Mas, a 23 de Dezembro de 1913, com a maioria dos membros do Congresso a passar férias de Natal em casa, foi votada, de maneira quase sub-reptícia, uma lei conhecida com o nome de Federal Reserve Act. Esta lei autorizava, grosso modo, a constituição de uma entidade com o nome de Federal Reserve Corporation e um conselho de directores (Federal Reserve Board). Tal lei arrebatava ao Congresso o direito de criação e controlo do dinheiro e concedia-o à Federal Reserve Corporation. O pretexto dado para a aprovação desta lei insólita foi de «separar a Política do Dinheiro». A realidade foi que – nesta grande democracia que costuma apresentar-se como o protótipo ideal dessa forma de governo – o poder de criar e controlar o dinheiro foi arrebatado aos chamados «representantes do povo» e concedido a uma empresa privada. E cremos não incorrer no pecado de juízo temerário se dissermos que uma empresa privada tenderá, por definição, a obter proveito próprio, coincida ou não este com o interesse geral da Nação.
O mais grave, juridicamente falando, desta Federal Reserve Act de 1913 é que o acordo se arranjou com uma minoria de deputados que, segundo tudo indica, foram pressionados e subornados; não existia o quórum necessário... de modo que, mesmo do ponto de vista mais estritamente democrático, era de todo impossível justificar aquela lei. O caso, porém, é que foi aprovada, e desde então, é uma empresa privada que emite o dinheiro do país mais democrático – e poderoso – do planeta. Desde aquele Natal de 1913, um número comparativamente pequeno de pessoas – cerca de 8000 – passou a controlar, emitir, criar e destruir, segundo a sua própria conveniência, o dinheiro de um país que se supõe ser o estandarte do Ocidente. Essas pessoas, na sua imensa maioria, nem sequer são americanas de origem. O deus ex machina desta nefasta Federal Reserve Act foi um banqueiro de Hamburgo chamado Paul Warburg.
O Federal Reserve Board emite o dinheiro do país e empresta-o, onerado com juros, ao governo «legal» dos Estados Unidos. Se, por exemplo, o governo de Washington necessitar de 1000 milhões de dólares para financiar obras públicas, renovar armamento, ou o que quer que seja, deve dirigir-se ao Board e pedir-lhe esse dinheiro. Então, o omnipotente Board dá o seu acordo, na condição do governo lhe pagar juros. Logo que o Congresso dá a sua autorização, o Departamento do Tesouro imprime 1000 milhões de dólares em bónus que são entregues ao Federal Reserve Board. Este paga os gastos de impressão (que rondam os 500 dólares), retira os juros e faz o câmbio. Então, o governo já pode dispor do dinheiro para cobrir as suas necessidades.
Quais são os resultados desta inverosímil transacção? Pois, muito simplesmente, que o governo dos Estados Unidos pôs os seus cidadãos em dívida para com o Federal Reserve Board numa quantia de 1000 milhões de dólares, mais juros, até que sejam pagos. O resultado desta demencial política financeira é que, em menos de 60 anos – de 1913 até hoje [1971] – o povo dos Estados Unidos deve aos banqueiros do Federal Reserve Board um total de 350 biliões de dólares, tendo que pagar um juro de 1,5 biliões mensais, sem nenhuma esperança de poder pagar, nem a dívida propriamente dita, nem sequer os juros, pois ambos aumentam continuamente. 195 milhões de americanos estão irremissivelmente endividados relativamente a 8000 indivíduos mais ou menos americanizados; o montante dessa dívida é superior ao valor total de todas as riquezas do país.
Mas há mais: com este sistema de «dinheiro-dívida», os bónus a que mais acima nos referimos, são convertidos em valores bancários, com o apoio dos quais os bancos podem fazer empréstimos a clientes privados. Como as leis bancárias dos Estados Unidos exigem somente uma reserva de 20%, os bancos do Federal Reserve Board podem fazer empréstimos até um total de cinco vezes o valor do bónus que possuem. Ou seja, voltando à transacção de 1000 milhões de dólares que tomámos como exemplo, o Federal Reserve Board pode emprestar 5000 milhões ao juro «legal». Isto dá-lhe direito aos juros de 6000 milhões... por um custo original de 500 dólares em despesas de impressão! E como o Congresso abdicou – em tão excelsa democracia – do direito de emitir dinheiro, a única saída que resta aos industriais, exploradores agrícolas e comerciantes dos Estados Unidos, quando necessitam de dinheiro para desenvolver as riquezas do país, é pedi-lo emprestado ao consórcio do Federal Reserve Board... entregando-se de mãos atadas.

Joaquín Bochaca in «A Finança e o Poder», 1973.

06/04/2018

Da tirania bancária


O carácter mais sinistro e anti-social do dinheiro escriturado é a sua não existência. Os bancos devem ao público uma quantia total de dinheiro que não existe. Comprando e vendendo por meio de cheques, só se produz uma troca no particular a quem o dinheiro é devido pelo banco. Enquanto a conta de um cliente é debitada, a de outro cliente é creditada, e os bancos podem continuar a dever indefinidamente essa quantia.
Só o capital do grande negócio bancário, tal como existe hoje, beneficia com a emissão de dinheiro. Graças a uma artimanha, tendo começado sem nada próprio, os banqueiros puseram o mundo inteiro a dever-lhes dinheiro. Esse dinheiro nasce cada vez que os bancos "emprestam" e desaparece cada vez que o empréstimo é devolvido. De maneira que, se a indústria pagar tudo, o dinheiro da nação desaparece. É isto que torna a prosperidade tão "perigosa", já que destrói o dinheiro justamente quando é mais necessário, precipitando a crise.
Não nos resta mais nada, a não ser afundar cada vez mais em dívidas ao sistema bancário, de forma a fornecer as quantidades crescentes de dinheiro que a nação requer para a sua expansão e crescimento. Um sistema monetário honesto é a única alternativa.

Frederick Soddy in «Wealth, Virtual Wealth and Debt», 1926.

28/02/2018

Bancocracia: Um episódio sintomático

Em Dezembro de 2004, cinco meses depois de ter dado posse ao Governo liderado por Pedro Santana Lopes, o Presidente da República, Jorge Sampaio, demitiu o Governo e convocou eleições antecipadas.


Entrevista de Pedro Santana Lopes à Renascença, 16 de Março de 2017:

Como é que em 13 anos nunca houve o "porquê"? Disse que nunca teve essa resposta, mas também nunca a procurou.
Não, não a procurei. Porque nunca tive dúvidas de que aquilo foi uma decisão política deliberada. Atenção, Jorge Sampaio era o Presidente da República. Mas o que tem que ser explicado é quem apoiou Jorge Sampaio nessa decisão. E porquê! Jorge Sampaio tomou essa decisão na noite da COTEC [associação empresarial constituída por iniciativa de Jorge Sampaio], grupo empresarial que se reúne de quando em vez. E foi dito e redito por pressão de alguns empresários e banqueiros.
Se havia uma coisa que o Governo fazia nessa altura era "cair em cima" da banca. Tenho muito respeito pelo sector financeiro, por todo o trabalho que realizam, mas sempre tive a ideia de que é o poder político que manda no económico e não o contrário. Uma semana antes, recebi os banqueiros todos em São Bento, com o ministro das Finanças, quando foram protestar contra as decisões do meu Governo de aumentar os impostos sobre a banca e de exigir mais elementos na contabilidade da banca para prestação de contas.

A banca forçou este desfecho?
Alguma banca, algum sector financeiro e alguns empresários. Aliás, julgo que isso também está referido no livro. Isto não foi o povo. Vêm depois dizer que o povo veio dar razão a Jorge Sampaio? Ouça lá, na véspera da dissolução – eu já trabalhei com muitos primeiros-ministros, para além de mim próprio, como diria o outro – e nunca vi, digo-o sem presunção, uma recepção a um primeiro-ministro como tive no domingo anterior à dissolução em Trás-os-Montes. Nunca vi. Portanto, não foi o povo que exigiu a dissolução! O povo não estava nas ruas, não havia protestos, não havia ruptura social. Isto foi uma conspiração de "corte" em Lisboa. Porque já sabiam que eu não aceitava ordens, nem sou comprável!

03/02/2018

Plutocracia

A dívida mundial supera em mais de 3X a riqueza produzida no mundo.

Suponhamos que sou um banqueiro e que empresto 1000 dólares a John Smith, com a garantia da sua fábrica. A seguir, retiro uma parte dos meus outros empréstimos, diminuindo assim o poder de compra na região onde John Smith montou o seu negócio. Em consequência dessa contracção do poder de compra, de "procura", os preços baixarão e John Smith deixará de ganhar dinheiro. Como tem que pagar-me os juros do empréstimo que lhe fiz, começa por reduzir no pessoal e a instalar maquinaria que poupe mão-de-obra. Mas eu continuo a reduzir os meus empréstimos. Os preços continuam a baixar e, no final, John Smith fica sem recursos. Diz-me que não pode continuar a pagar os juros. Então, hipoteco-lhe a fábrica e ponho-a à venda. Faço-lhe uma oferta de 800 dólares, quantia que servirá para pagar o empréstimo que lhe fiz. Um pouco mais tarde começo a emprestar de novo, e os preços voltam a subir. A fábrica de John Smith tem agora muito valor, uma vez que voltou a aumentar – proporcionando poder de compra – a chamada "procura" do que ele fabricava. De maneira que vendo-lhe agora a fábrica por 5000 dólares, metendo ao bolso, "com toda a legalidade", 4000 dólares.

Arthur Nelson Field in «The Truth about the Slump», 1931.

14/01/2017

Despotismo económico e financeiro


É coisa manifesta, como nos nossos tempos não só se amontoam riquezas, mas acumula-se um poder imenso e um verdadeiro despotismo económico nas mãos de poucos, que as mais das vezes não são senhores, mas simples depositários e administradores de capitais alheios, com que negoceiam a seu desejo. Este despotismo torna-se intolerável naqueles que, tendo nas suas mãos o dinheiro, são também senhores absolutos do crédito e por isso dispõem do sangue de que vive toda a economia, e manipulam de tal maneira a alma da mesma, que nem se pode respirar sem a sua licença. Este acumular de poderio e recursos, nota característica da economia actual, é consequência lógica da concorrência desenfreada, à qual só podem sobreviver os mais fortes, isto é, ordinariamente os mais violentos competidores e que menos sofrem de escrúpulos de consciência.

Papa Pio XI in «Quadragesimo Anno», 1931.

10/08/2014

Aos banqueiros


Quando amanhã
fugirem os banqueiros
dos palácios roubados
E em vez deles
homens verdadeiros
Forem monges, poetas ou soldados

Então,
na Mão Direita de Deus
Rolará a terra
E será perfeita

Pedro Homem de Mello

01/05/2012

Democracia é Plutocracia


Sendo contra os princípios funestos da Revolução Francesa, nós somos necessariamente contra a organização económica da sociedade moderna. O Trabalho e a Propriedade sofreram com a obra da revolução a influência duma nova ordem de coisas, donde deriva imediatamente a crise que a todos nos toca e que escurece o horizonte com tão cerradas interrogações. O proletário, que nós vemos enfeudado ao cortejo dos agitadores políticos, deve à democracia a sua situação miseranda; a desorganização individualista da revolução aboliu os quadros corporativos em que o Trabalho se protegia e defendia dos acasos da concorrência em que o trabalho deixou o produtor entregue ao arbítrio da plutocracia, que é sem dúvida a única e a verdadeira criação do espírito revolucionário. Enganam-se os humildes se nas promessas falaciosas do erro democrático supõem encontrar a realização das suas reivindicações justíssimas! Um século inteiro de experiências dolorosas mostra-nos que nunca a sorte das classes pobres pode ser tratada e minorada pelos governos saídos do voto, que são estruturalmente governos sujeitos, por defeito de origem, à venalidade e à corrupção.
A Propriedade e o Trabalho, constituindo a pedra angular da Família, constituem os alicerces inalienáveis da Nacionalidade. Cosmopolita, mais fácil de se furtar às suas responsabilidades sociais, o Capital precisa de se restringir aos seus defeitos de relação entre a terra e o homem. Os desaforos do cambismo, envolvendo e universalizando a sociedade por meio da judiaria argentária, empurram-nos fatalmente para a dissolução do conceito supremo da Pátria. Impossibilitam por outro lado o operário de se hierarquizar como uma energia positiva e autónoma.
As democracias resultam daqui, agora e sempre, como as formas de governo mais aptas à supremacia da alta finança. São «Le pays de cocâgne rêvê par des financiers sans scrupules» como Georges Sorel as define. A instabilidade do poder nos governos electivos e a sua conquista pela corrupção eleitoral torna-os por natureza regimes abertos, como nenhuns outros, às imposições do Plutocratismo.

António Sardinha in «Durante a Fogueira».

20/12/2011

A Ordem Burguesa


A concepção de existência na democracia é materialista. Vem de Voltaire a sua herança filosófica e ninguém melhor a representa do que os aventureiros de 1830, com Thiers e Périer, gritando para os camaradas: – «Enrichissez-vous! Enrichissez-vous!». Deus ficara para os outros. Ficara para os outros, pelo muito que lhes haviam roubado, a lei antiga da honra que sujeitava as fortunas ao interesse da colectividade e que levantara, por isso mesmo, a Vendeia em defesa dos seus nobres, timbrando sempre em cumprir as suas obrigações de boas autoridades sociais.
A Revolução desembaraçou, ao contrário, a propriedade de tais encargos, que eram seculares. E quem andar um pouco em dia com as coisas da história, verificará que, dos redentores de 89, os que escaparam à obra purificadora da guilhotina acabaram inevitavelmente príncipes do Império e ministros da Restauração. «Ouça cá, Duque de Otranto! – dizia-me duma vez Robespierre». E nesta anedota célebre de Fouché está contido o parvenu que a Revolução elevou de um salto às culminâncias doiradas do poder.
Ora as democracias, desenvolvendo por um lado o arrivismo e por outro o amor do lucro, colocam o Estado ao alcance dos ambiciosos que o souberem conquistar e segurar. Cria-se assim a ordem burguesa, bem caracterizada pela maneira sangrenta como se liquidam em democracia as convulsões populares. Luís XVI morreu no cadafalso porque recuou em frente do alvitre de mandar metralhar a canalha de Paris. Por outro tanto caiu nas jornadas de Julho a Realeza legítima. Já não acontece o mesmo na França republicana, com Clemenceau ordenando os massacres de Narbonne e de Davreuil, e na «livre-América», com o milionário Carnegie, e autor do tal livro famoso, – A Democracia Triunfante, fuzilando por conta própria os seus operários em greve. A ordem burguesa é, pois, a ordem que se defende no Estado unicamente por meio da força e que, não tendo consigo nem um passado nem um futuro, pratica, enquanto lhe é possível, a máxima de Guizot: – «Governar é aguentar-se no poder».

António Sardinha in «Durante a Fogueira».

19/12/2011

Reina a Bancocracia


Quem diz «democracia» diz «individualismo». Quem diz «individualismo» diz por sua vez «burguesia» e «capitalismo». Na pavorosa confusão mental de que a Europa é vítima há mais de um século, acredita-se ainda que a Revolução Francesa, porque proclamou os Imortais Princípios, abriu às classes pobres uma era nova de emancipação e prosperidade. Se a superstição liberalista não falasse tanto à sentimentalidade das massas, com certeza que não se teria ido tão longe num ludíbrio que encobre a maior das falsidades. Se hoje existe, e em grau tão agudo, uma questão irredutível entre o rico e o pobre, entre o que produz e o que consome, a culpa é precisamente da metafísica mentirosa da Revolução. A Revolução só deu acesso a arrivistas cobiçosos de oiro e de domínio, a quem faltava a preparação moral da antiga sociedade.
A antiga sociedade fundamentava-se no Sangue e no Trabalho, na Família e na Corporação. A Corporação e a Família eram assim as bases dum acordo permanente das classes, identificadas pelo seu interesse comum com o interesse próprio duma dinastia. Tudo se subverteu, porém, na hora em que pôde mais a oratória duma turba anónima de agitadores. E, de então para cá, correndo sempre atrás de uma miragem que nunca mais se alcança, os homens dividem-se furiosamente na demanda dessa fraternidade por que tanto suspiram, mas da qual cada vez se afastam mais.
Não há dúvida que nos achamos em frente de uma demorada e dolorosa crise. As reivindicações das camadas operárias crescem ameaçadoras, enegrecendo de apreensões o horizonte já carregado das incertezas mais sombrias. Apregoa-se, vai em século e meio, a soberania do povo e só descobrimos ocupando-lhe o lugar o capitalismo mais desaforado e mais omnipotente. É o oiro quem manda desbragadamente. Manda a agiotagem como nunca. Reina a bancocracia. Um feudalismo pior que o outro, visto não conhecer nenhuma limitação de natureza espiritual nem resultar das necessidades históricas de sociedade, – um feudalismo, pior que o outro, escraviza a produção nas suas tenazes de ferro, ao mesmo tempo que entoa a ária estafada dos chamados Direitos do Homem.

António Sardinha in «Durante a Fogueira».