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18/08/2018

Do mentiroso


P'ra a mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.

António Aleixo

11/04/2018

Fado: Uma Casa Portuguesa


Numa casa portuguesa fica bem
Pão e vinho sobre a mesa.
E se à porta humildemente bate alguém,
Senta-se à mesa co'a gente.
Fica bem esta franqueza, fica bem,
Que o povo nunca desmente.
A alegria da pobreza
Está nesta grande riqueza
De dar, e ficar contente.

Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho a alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejos
Mais o sol da primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
Há fartura de carinho.
E a cortina da janela e o luar,
Mais o sol que bate nela...
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar
Uma existência singela...
É só amor, pão e vinho
E um caldo verde, verdinho
A fumegar na tijela.

Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho a alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejos
Mais o sol da primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

30/03/2018

Sexta-feira Santa


Se sois Riqueza, como estais despido?
Se Omnipotente, como desprezado?
Se Rei, como de espinhos coroado?
Se Forte, como estais enfraquecido?

Se Luz, como a luz tendes perdida?
Se Sol Divino, como eclipsado?
Se Verbo, como é que estais calado?
Se Vida, como estais amortecido?

Se Deus, como estais como homem nessa Cruz?
Se Homem, como dais a um ladrão,
Com tão grande poder, posse dos Céus?

Ah, que sois Deus e Homem, bom Jesus!
Morrendo por Adão enquanto Adão,
E redimindo Adão enquanto Deus.

Frei António das Chagas (século XVII)

02/03/2018

Esparsa de Camões


Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado.

Luís Vaz de Camões

16/02/2018

Conde D. Henrique


Destes Henrique, dizem que segundo
Filho de um Rei da Hungria experimentado
Portugal houve em sorte, que no mundo
Então não era ilustre nem prezado;
E, para mais sinal de amor profundo,
Quis o Rei Castelhano que casado
Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
E com ela das terras tomou posse.

Este, depois que contra os descendentes
Da escrava Agar, vitórias grandes teve,
Ganhando muitas terras adjacentes.
Fazendo o que a seu forte peito deve,
Em prémio destes feitos excelentes
Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
Um filho, que ilustrasse o nome ufano
Do belicoso Reino Lusitano.

Luís de Camões in «Os Lusíadas».

§

11/10/2017

Soneto de Camões


Tu que, descanso buscas com cuidado,
Neste mar do mundo tempestuoso
Não esperes de achar nenhum repouso,
Senão em Cristo Jesus Crucificado.

Se por riquezas vives desvelado,
Em Deus está o tesouro mais precioso,
Se estás de formosura desejoso,
Se olhas este Senhor ficas namorado.

Se tu buscas deleites ou prazeres,
Nele está o dulçor dos dulçores,
Que a todos nos deleita com vitória.

Se porventura glória ou honra queres,
Que maior honra pode ser nem glória
Que servir ao Senhor Grande dos senhores?

Luís Vaz de Camões

24/06/2017

D. Afonso Henriques


Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!

Fernando Pessoa

21/03/2017

Fado: Cantiga da Boa Gente


Três palmos de terra, com uma casa à beira,
E o Manel mais eu para a vida inteira!
Ele e quatro filhos são tudo o que eu gosto,
Gente mais feliz não há neste mundo, aposto!

Vamos para o trabalho, logo ao clarear,
E de sol a sol, vá de moirejar,
Tenho a vida cheia, tenho a vida boa,
Que Deus sempre ajuda a quem é boa pessoa!

Quando chega a tarde, tarde tardezinha,
Já o jantar fumega na lareira da cozinha.
Os filhos sorriem, o Manel também,
Não há melhor vida que aquela que a gente tem!

Os sinos ao longe dão Ave-Marias,
Reza-se a oração de todos os dias.
Menino Jesus, meu botão de rosa,
Faz que a minha gente não seja má nem vaidosa!
Menino Jesus, boquinha de riso,
Faz que a minha gente seja gente de juízo!

Acabada a reza, vai-se para o jantar,
Se alguém bate à porta, também tem lugar,
Come do que há, tarde tardezinha,
Mesmo ali à beira da lareira da cozinha.
Os filhos sorriem, o Manel também,
Não há melhor vida que aquela que a gente tem!

Não invejo nada, nem quem tem dinheiro,
Pois para trabalhar tem-se o mundo inteiro.
Basta só fazer o que se é capaz.
Que a felicidade está naquilo que se faz.

E assim vou andando, na graça de Deus,
Em paz e amor com todos os meus,
Trabalho não falta, todo santo dia,
Mas o coração chega à noite, é uma alegria!

Quando chega a tarde, tarde tardezinha,
Já o jantar fumega na lareira da cozinha.
Os filhos sorriem, o Manel também,
Não há melhor vida que aquela que a gente tem!

Os sinos ao longe dão Ave-Marias,
Reza-se a oração de todos os dias.
Menino Jesus, meu botão de rosa,
Faz que a minha gente não seja má nem vaidosa!
Menino Jesus, boquinha de riso,
Faz que a minha gente seja gente de juízo!

Acabada a reza, vai-se para o jantar,
Se alguém bate à porta, também tem lugar,
Come do que há, tarde tardezinha,
Mesmo ali à beira da lareira da cozinha.
Os filhos sorriem, o Manel também,
Não há melhor vida que aquela que a gente tem!

21/12/2016

O último soneto de Bocage


Nos 211 anos da morte de Bocage, recordo o último soneto do poeta, ditado no seu próprio leito de morte:

Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!

Bocage

O último soneto do liberal e libertino Bocage tem sido segundo a opinião geral um dos frutos da sua possível conversão, às portas da morte. Bocage tinha até então representado oposição ao Pe. José Agostinho de Macedo (grande defensor da pureza da Fé, um dos maiores inimigos da Maçonaria e do Liberalismo), motivo pelo qual a Maçonaria (e outros que tal) preferem difundir um Bocage desgraçado até ao fim dos seus dias, e dizer que os seus últimos versos são alteração feita pelos católicos.

09/06/2016

Poema: Europa


Europa! Europa (e já não te avisto!)
Não ouves esta voz que por ti chama?
Onde ficou o lábaro de Cristo?
Onde deixaste, Europa, a tua flama?

Eis novamente o caos tumultuário
Negando os claros dons que tu semeias.
Ó Madre antiga, embora no Calvário
Não passes o teu facho a mãos alheias!

António Sardinha

21/03/2016

Poema: Conta e Tempo


Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo...

Frei António das Chagas (século XVII)

11/03/2016

Poema para sexta-feira de Quaresma


Se sois Riqueza, como estais despido?
Se Omnipotente, como desprezado?
Se Rei, como de espinhos coroado?
Se Forte, como estais enfraquecido?

Se Luz, como a luz tendes perdida?
Se Sol Divino, como eclipsado?
Se Verbo, como é que estais calado?
Se Vida, como estais amortecido?

Se Deus, como estais como homem nessa Cruz?
Se Homem, como dais a um ladrão,
Com tão grande poder, posse dos Céus?

Ah, que sois Deus e Homem, bom Jesus!
Morrendo por Adão enquanto Adão,
E redimindo Adão enquanto Deus.

Frei António das Chagas (século XVII)

10/01/2016

Solenidade da Sagrada Família


A Casa de Nazaré

Casinha branca, asseada,
Ó casa de Nazaré,
Louvada sejas, louvada,
Por quem no Lar tenha fé.

Era a família sagrada,
Jesus, Maria e José.
A nossa casa, coitada,
Já foi o que hoje não é.

Tu, na costura, entretida,
Eu trabalhando na vida,
E ele entre mimos ao pé...

Sem ser a tanto elevada,
Lembrava a nossa morada,
A casa da Nazaré.

António Sardinha

25/10/2015

Solenidade de Cristo Rei


Velas que passam Tejo abaixo...
É vê-las todas orgulho e glória
Velas que passam Tejo abaixo...
Nelas vão sonhos de fazer futuro e história.

Velas que passam Tejo acima...
Além nasce a rosa do Sol que as ilumina.
Velas que passam Tejo acima...
Quem as faz andar pela manhã divina?

Talvez não seja o vento... Talvez não.
Basta a luz acordá-las, logo as velas
Abrem no céu enamorado, e vão
Como se houvesse um anjo à espera delas!

Talvez não seja o vento nem a luz.
Talvez não seja nada, senão isto:
O eterno apelo do Sinal da Cruz
Que é na terra o sinal de Jesus Cristo.

Mons. Francisco Moreira das Neves

07/10/2015

Portugal: quase mil anos de história


Não herdámos as canções do invasor,
herdámos a nossa voz para cantar a Pátria.
Não herdámos ouro para comprar a liberdade,
herdámos ferro para a defender!

Sangre Cavallum

21/08/2015

600 anos da tomada de Ceuta


Não sofre o peito forte, usado à guerra,
não ter amigo já a quem faça dano;
e assim não tendo a quem vencer na terra,
vai cometer as ondas do Oceano.
Este é o primeiro Rei que se desterra
da Pátria, por fazer que o Africano
conheça, pelas armas, quanto excede
a lei de Cristo à lei de Mafamede.

Luís Vaz de Camões in «Os Lusíadas».

14/08/2015

Rosácea d'Aljubarrota


À vista do Mosteiro
da Batalha
– há conquista
que resista,
há lá guerreiro
que valha?!...

...Deixai, então, que vos fale
(– porque me dá cuidado
e por mais nada!)
d'aqueloutro Portugal
talhado à espada
– e condenado, afinal,
a não ser nada... –

...Sala d'aula do Além,
anfiteatro do Mar,
– que ninguém, que já ninguém
hoje vem
contemplar...

Rodrigo Emílio

03/04/2015

Soneto a Cristo crucificado


Não me move, meu Deus, para Te amar
o Céu que me prometeste,
nem me move o Inferno tão temido
para deixar por isso de Te ofender.

Tu me moves, Senhor; move-me ver-Te
pregado numa cruz e escarnecido,
move-me ver o Teu Corpo tão ferido,
movem-me as Tuas afrontas e a Tua morte.

Move-me, enfim, o Teu amor, e de tal maneira,
que ainda que não houvesse Céu, eu Te amaria,
e ainda que não houvesse Inferno, eu Te temeria.

Nada tens que me dar para que Te queira,
pois mesmo que eu não esperasse o que espero,
o mesmo que Te quero, eu Te quereria.

São João de Ávila

01/12/2014

A el-rei D. João IV


Que logras Portugal? Um rei perfeito.
Quem o constituiu? Sacra piedade.
Que alcançaste com ele? A liberdade.
Que liberdade tens? Ser-lhe sujeito.

Que tens na sujeição? Honra e proveito.
Que é o novo rei? Quase deidade.
Que ostenta nas acções? Felicidade.
E que tem de feliz? Ser por Deus feito.

Que eras antes dele? Um labirinto.
Que te julgas agora? Um firmamento.
Temes alguém? Não temo a mesma Parca.

Sentes alguma pena? Uma só sinto.
Qual é? Não ser um mundo, ou não ser cento.
Para ser mais capaz de tal Monarca.

Violante do Céu

26/11/2014

Os Democráticos


Andam sempre atribulados,
Prógnatas sorumbáticos,
Esfalfam-se enredados,
Em partidos fantasmáticos,
Têm arranques eléctricos,
Têm humores hepáticos,
São metódicos e métricos,
Mas com apelos lunáticos,

Os Democráticos,
Os Democráticos.

São como ratos cinzentos,
Esgueiram-se rápidos, tácticos,
Por dentro dos parlamentos,
Onde já não são dogmáticos,
Comem pratos semióticos,
Tratados nefelibáticos,
Fazem programas demóticos,
Cuneiformes e hieráticos,

Os Democráticos,
Os Democráticos.

Fazem sermões quilométricos,
Até ficarem asmáticos,
Por entre comícios tétricos,
Teatrais, melodramáticos,
Repetem formas enfáticas,
Para públicos apáticos,
Reproduzem as temáticas,
Inspirados, carismáticos,

Os Democráticos,
Os Democráticos.

P'ra fazer efeitos ópticos,
Envergam estilos áticos,
Ao país servem narcóticos,
Com rótulos profiláticos,
A falar são diuréticos,
A trabalhar são sabáticos,
A governar são caquécticos,
A escrever pouco gramáticos,

Os Democráticos,
Os Democráticos.

Antes de ser deputados,
Andavam em carros práticos,
Funcionários poupados,
De orçamentos matemáticos,
Mas uns bons anos passados,
Em lugares mais numismáticos,
Já se passeiam, coitados,
Em Mercedes tecnocráticos,

Os Democráticos,
Os Democráticos.
-
Poema de Luís Sá Cunha.
Canção de José Campos e Sousa.