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11/09/2019

Do velho lar ancestral


A vida que cercou a minha infância era simples, rude, poderosa, como o grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha família, o primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingénuas criaturas que… no interior da sua casa eram admiráveis exemplos de dignidade, de trabalho, de ordem, de economia, de bom humor… e eu seria o primeiro dos artistas portugueses se conseguisse um dia condensar num livro toda a soma de método, de ordem, de execução estética, de picante espírito pitoresco, de risonha graça, de que era modelo a incomparável cozinha de minha avó – aberta ao nível do pátio defronte do poço, cheia das alegrias cintilantes do sol e do balsâmico perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabelos de carvalho de cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira onde se espanejavam os capões; os troféus ornamentais dos instrumentos agrícolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do fumeiro suspensos do tecto; a comprida mesa dos moços da lavoura, tendo em cima a grande selha com a braçada verde dos frescos legumes, picada com as pintas douradas das cenouras entre as aveludadas e gordas eflorescências dos brócolos; e no meio disso, a intervenção periódica do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua escudela de batatas ou de caldo, enquanto os pardais mais atrevidos iam sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.
Esse conjunto exalava uma penetrante sensação de tépido aconchego, de suave alegria, de inalterável paz; inspirava sentimentos práticos e honestos; era o complemento e o comentário vivo das velhas histórias contadas à lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da família; explicava o amor à terra da pátria, pela dedicação às quatro braças de solo cobertas por esse velho tecto.
A cozinha de minha avó era, finalmente, uma profunda obra de arte, da qual os mais belos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da poesia doméstica, não puderam dar-me jamais senão uma ideia desbotada e fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas literatas tem havido em Portugal, não pode senão fazer-me sorrir comparada à obra modesta de minha avó, que ela tirou num precioso exemplar único para a educação das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da saudade eterna dos seus netos.

Ramalho Ortigão in «As Farpas», Janeiro de 1878.

11/03/2019

A família e o lar


A família exige por si mesma duas outras instituições: a propriedade privada e a herança. Primeiro a propriedade – a propriedade dos bens que possa gozar e até a propriedade dos bens que possam render. A intimidade da vida familiar reclama aconchego, pede isolamento, numa palavra, exige a casa, a casa independente, a casa própria, a nossa casa. Há impossibilidade, haverá mesmo em muitos casos inconveniente em que o trabalhador possua os meios de produção e em deixar dividir a terra por minúsculas parcelas, dando-se a todos um pedaço para a cultura. Mas é utilíssimo que o instinto de propriedade que acompanha o homem possa exercer-se na posse da parte material do seu lar. É naturalmente mais económica, mais estável, mais bem constituída a família que se abriga sob tecto próprio. Eis porque nos não interessam os grandes falanstérios, as colossais construções para habitação operária, com seus restaurantes anexos e sua mesa comum. Tudo isso serve para os encontros casuais da vida, para as populações já seminómadas da alta civilização actual; para o nosso feitio independente e em benefício da nossa simplicidade morigerada, nós desejamos antes a casa pequena, independente, habitada em plena propriedade pela família.

António de Oliveira Salazar in discurso de 16 de Março de 1933.

06/09/2018

O Catolicismo e a vida rural


A vida rural tem muito a ver com a vida religiosa dos lavradores. A Igreja cuidou que as principais festas do ano litúrgico coincidissem sempre que possível com o ciclo das estações e as fainas do campo correspondentes, realizando-se assim uma interessantíssima comunhão entre a vida espiritual e o acontecer cósmico. O sino da paróquia, ou do convento, conferia à existência camponesa um ritmo não só cronológico, mas também sacral. Pouco antes da aurora tocava a laudes e encerrava a jornada na hora das vésperas. Deste modo, a oração matutina e a prece vespertina marcavam o trabalho, conferindo-lhe uma significação transcendente. Os dias de festa eram numerosos, muito mais do que no nosso tempo. Tanto aos domingos como nos dias festivos os camponeses assistiam à Santa Missa e com frequência aos ofícios das Horas canónicas. Participavam também nas procissões, presenciavam nos átrios representações teatrais dos mistérios sagrados, ouviam sermões e homilias, aprendiam o Catecismo. Tudo isso somado às visitas domiciliares dos sacerdotes, constituía uma espécie de cátedra ininterrupta para sua educação nos princípios da fé e da moral. Toda a existência do camponês pulsava ao ritmo estabelecido pela Igreja. Desde o nascimento até à morte, passando pelo matrimónio e as enfermidades, os momentos fundamentais da sua vida eram sublimados pelo alento sobrenatural da liturgia.

Pe. Alfredo Sáenz in «La Cristiandad y su Cosmovisión», 1992.

16/07/2018

Do valor da terra


Eu sou um rural e, embora em situação diferente, vivi duas guerras, uma em que interviemos activamente nos quadros de uma aliança, outra em que não batalhámos, mas houvemos de organizar a defesa nos quatro cantos do mundo. Daí bem compreender o campo e conhecer as necessidades vitais que o campo tem de satisfazer. Independentemente do que se possa chamar a poesia campestre, que atrai os sorrisos um tanto desdenhosos da economia industrial, por mim, e se tivesse de haver competição, continuaria a preferir a agricultura à indústria; mas se quereis ser ricos, não chegareis lá pela agricultura, ainda que progressiva e industrializada, neste País de solos pobres e climas vários. A terra é humilde, tanto que se deixa a cada momento pisar; o trabalho da terra é humilde, porque o homem a cultiva, humildemente debruçado sobre as leivas; o fruto do trabalho da terra é pobre, porque está no início do ciclo das operações comerciais ou industriais, destinadas a valorizá-lo ou a enriquecê-lo. Assim, a faina agrícola, sujeita à torreira do sol ou à impertinência das chuvas, é acima de tudo uma vocação de pobreza; mas o seu orgulho vem de que só ela alimenta o homem e lhe permite viver. Quando se governa um País, e se nos deparam os mercados difíceis, os mares impraticáveis, as bocas famintas sem saber de onde há-de vir um bocado de pão, a terra pobre, a terra humilde, sobe então à culminância dos heroísmos desconhecidos e dos valores inestimáveis.

António de Oliveira Salazar in discurso de 18 de Fevereiro de 1965.

04/09/2014

Atavismo


Nós somos aquilo que a lenta elaboração dos séculos forjou e constituiu – e não o que de nós queiram fazer as lucubrações subjectivas de qualquer filosofia social ou política. A substância do nosso ser colectivo foi a História que a teceu. Trabalhando sobre a raça e sobre os indivíduos, estes reagem pelas suas instituições próprias e com as qualidades morais, espirituais e físicas, herdadas dos seus antepassados, conforme as leis misteriosas do atavismo. Os sulcos profundos desse atavismo encontram-se esculpidos no íntimo da alma portuguesa. Abrindo os regos da terra, com as armas ao lado, prontos para a defesa dos torrões que revolviam, tal é a imagem dos velhos portugueses. Atavismos da independência e atavismos da livrança e dos povoamentos – criadores da Metrópole.

Henrique de Paiva Couceiro in «Profissão de Fé: Lusitânia Transformada».