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05/02/2018

Assim começa a "Imitação de Cristo"...


I – Imitação de Cristo pelo desprezo às vaidades do mundo

Quem Me segue não anda em trevas. São palavras com que Jesus Cristo nos exorta à imitação da Sua vida e dos Seus costumes, se quisermos ser verdadeiramente esclarecidos e livres de toda a cegueira do coração. O nosso empenho deve, portanto, consistir em meditar profundamente a vida de Nosso Senhor.

A Sua doutrina excede as de todos os santos. Quem dela tiver o espírito, nela achará um maná escondido. Por falta desse espírito é que muitos, ainda que ouvindo frequentemente o Evangelho, estão pouco inclinados para Ele. Quem quiser, entretanto, entendê-Lo com perfeição, procure conformar a sua vida à vida do seu Autor.

De que te serve debater altas coisas sobre a Trindade, se pela tua soberba desagradas a essa mesma Trindade? Não é o saber sublime que torna o homem santo e justo, mas uma vida inocente o faz agradável a Deus.
Antes quero ter a compunção do que saber defini-la. Se soubesses de cor toda a Bíblia e fosses versado nas doutrinas de todos os filósofos, de que te aproveitaria tudo isto, sem o amor e a graça de Deus? Tudo o que não é amar e servir a Deus é vaidade das vaidades. A suprema sabedoria consiste em caminhar para o Céu pelo desprezo do mundo.


É, pois, vaidade procurar riquezas caducas e nelas pôr a esperança. É vaidade pretender honras e altas posições. É vaidade seguir os apetites da carne e desejar aquilo que se deve contrariar e castigar. É vaidade desejar vida larga e tratar pouco de que seja boa. É vaidade atender somente a vida presente e não prever a futura. É vaidade amar o que passa com tanta ligeireza e não aspirar a uma felicidade que sempre dure.

Lembra-te amiúde do que diz o Eclesiastes: «O olho não se cansa de ver nem o ouvido de ouvir». Procura, pois, desprender o teu coração das coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis, porque os que se entregam à sensualidade mancham a consciência e perdem a graça de Deus.

Tomás de Kempis in «Imitação de Cristo», 1441.

31/07/2016

Sem combate não há vitória


Aparelha-te, pois, para o combate, se queres a vitória. Sem peleja não podes chegar à coroa da vitória. Se não queres sofrer, renuncia à coroa; mas, se desejas ser coroado, luta varonilmente e sofre com paciência. Sem trabalho não se consegue o descanso e sem combate não se alcança a vitória.

Tomás de Kempis in «Imitação de Cristo».

02/11/2015

Meditação sobre a morte


Muito depressa chegará o teu fim neste mundo; vê, pois, como te preparas: hoje está vivo o homem, e amanhã já não existe. Entretanto, logo que se perdeu de vista, também se perderá da memória. Ó cegueira e dureza do coração humano, que só cuida do presente, sem olhar para o futuro! De tal modo te deves haver em todas as tuas obras e pensamentos, como se fosse já a hora da morte. Se tivesses boa consciência não temerias muito a morte. Melhor fora evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás preparado hoje, como o estarás amanhã? O dia de amanhã é incerto, e quem sabe se te será concedido?

Que nos aproveita vivermos muito tempo, quando tão pouco nos emendamos? Oh! nem sempre traz emenda a longa vida, senão que aumenta, muitas vezes, a culpa. Deus queira que tivéssemos, um dia sequer, vivido bem neste mundo! Muitos contam os anos decorridos desde a sua conversão; frequentemente, porém, é pouco o fruto da emenda. Se for tanto para temer o morrer, talvez seja ainda mais perigoso o viver muito. Bem-aventurado aquele que medita sempre sobre a hora da morte, e para ela se dispõe cada dia. Se já viste alguém morrer, reflecte que também tu passarás pelo mesmo caminho.

Pela manhã, pensa que não chegarás à noite, e à noite não te prometas o dia seguinte. Por isso anda sempre preparado e vive de tal modo que te não encontre a morte desprevenido. Muitos morrem repentina e inesperadamente; pois na hora em que menos se pensa, virá o Filho do Homem (Lc 12,40). Quando vier aquela hora derradeira, começarás a julgar muito diferentemente toda a tua vida passada, e doer-te-á muito teres sido tão negligente e remisso.

Quão feliz e prudente é aquele que procura ser em vida como deseja que o ache a morte. Pois o que dará grande confiança de morte abençoada é o perfeito desprezo do mundo, o desejo ardente do progresso na virtude, o amor à disciplina, o rigor na penitência, a prontidão na obediência, a renúncia de si mesmo e a paciência em sofrer, por amor de Cristo, qualquer adversidade. Muito fácil é praticar o bem enquanto estás são; mas, quando estás enfermo, não sei o que poderás. Poucos melhoram com a enfermidade; raros também se santificam os que andam em muitas peregrinações.

Não confies em parentes e amigos, nem proteles para mais tarde o negócio da tua salvação, porque mais depressa do que pensas te esquecerão os homens. Melhor é providenciar agora e fazer algo de bem, do que esperar pelo socorro dos outros. Se não cuidas de ti no presente, quem cuidará de ti no futuro? Muito precioso é o tempo presente: agora são os dias da salvação, agora é o tempo favorável (2 Cor 6,2). Mas, ai! Que melhor não aproveitas o meio pelo qual podes merecer viver eternamente! Tempo virá de desejares, um dia, uma hora sequer, para a tua emenda, e não sei se a alcançarás.

Olha, meu caro irmão, de quantos perigos te poderias livrar e de quantos terrores fugir, se sempre andasses temeroso e desconfiado da morte. Procura agora de tal modo viver, que na hora da morte te possas antes alegrar que temer. Aprende agora a desprezar tudo, para então poderes voar livremente para Cristo. Castiga agora o teu corpo pela penitência, para que possas então ter legítima confiança.

Ó louco, que pensas viver muito tempo, quando não tens seguro nem um só dia! Quantos têm sido logrados e, de improviso, arrancados ao corpo! Quantas vezes ouviste contar: morreu este à espada; afogou-se aquele; este outro, caindo do alto, quebrou a cabeça; um morreu comendo, outro expirou jogando. Estes se terminaram pelo fogo, aqueles pelo ferro, uns pela peste, outros pelas mãos dos ladrões, e de todos é o fim a morte, e, depressa, qual sombra, acaba a vida do homem (Sl 143,4).

Quem se lembrará de ti depois da morte? E quem rogará por ti? Faz já, irmão caríssimo, quanto puderes; pois não sabes, quando morrerás nem o que te sucederá depois da morte. Enquanto tens tempo, ajunta riquezas imortais. Só cuida da tua salvação, ocupa-te só nas coisas de Deus. Granjeia agora amigos, venerando os santos de Deus e imitando as suas obras, para que, ao saíres desta vida, te recebam nas eternas moradas (Lc 16,9).

Considera-te como hóspede e peregrino neste mundo, como se nada tivesses com os negócios da Terra. Conserva livre o teu coração, e erguido a Deus, porque não tens aqui morada permanente. Para lá dirige as tuas preces e gemidos, cada dia, com lágrimas, a fim de que mereça a tua alma, depois da morte, passar venturosamente ao Senhor.

Tomás de Kempis in «Imitação de Cristo».