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08/08/2018

A Fé e a "fé"


Segundo a doutrina católica, a Fé é uma anuência, uma submissão da inteligência à autoridade de Deus que revela, sob o impulso da vontade livre movida pela Graça. Por um lado o acto de Fé deve ser livre, ou seja, deve escapar a toda a coacção exterior que tivesse por objecto ou por efeito directo obtê-lo contra a vontade da pessoa. Por outro lado, sendo o acto de Fé uma submissão à autoridade divina, nenhum poder ou terceira pessoa tem o direito de se opor à influência da Verdade primeira, que tem o direito inalienável de iluminar a inteligência do fiel. Disto se segue que o fiel tem direito à liberdade religiosa; ninguém tem o direito de o coagir, e ninguém tem o direito de impedi-lo de abraçar a Revelação divina ou de realizar com prudência os actos exteriores de culto.

Entretanto os liberais, esquecidos do carácter objectivo, completamente divino e sobrenatural do acto de Fé, e os modernistas que correm no seu rastro, fazem da Fé uma expressão da convicção subjectiva do sujeito no fim da sua procura pessoal, ao tentar responder às grandes interrogações que lhe apresenta o universo. A Igreja, que propõe o facto da Revelação divina exterior, dá lugar à invenção criadora do sujeito, ou pelo menos o sujeito deve esforçar-se para ir de encontro à fonte... Sendo assim, então a Fé divina é rebaixada ao nível das convicções religiosas dos não-cristãos, que pensam ter uma fé divina, quando não têm mais do que uma persuasão humana, pois o motivo para aderir à sua crença não é a autoridade divina, mas o livre julgamento do seu espírito. Aí está a sua inconsequência fundamental: os liberais pretendem manter para este acto de persuasão completamente humano, o carácter de inviolabilidade e isenção de toda a coacção que não pertence senão ao acto de Fé divina. Eles asseguram que, pelos actos das suas convicções religiosas, os adeptos de outras religiões põem-se em relação com Deus, e que a partir daí esta relação deve ficar livre de toda coacção que possa afectá-la. Eles dizem: «Qualquer fé religiosa é respeitável e intocável».

Mas estes últimos argumentos são visivelmente falsos, pois pelas suas convicções religiosas, os adeptos das outras religiões não fazem mais do que seguir invenções do seu próprio espírito, produções humanas que não têm em si nada de divino, nem em seu princípio, nem em seu objecto, nem no motivo pelo qual aderiram a elas.

Isto não quer dizer que não há nada de verdadeiro nas suas convicções, ou que não possam conservar sinais da Revelação primitiva ou posterior. Mas a presença destas semina Verbi, não bastam, por si, para fazer das suas convicções um acto de Fé divina. Principalmente porque se Deus quisesse suscitar este acto sobrenatural pela Sua Graça, na maioria dos casos ver-se-ia impedido pela presença de inúmeros erros e superstições aos quais estes homens continuam ligados.

Frente ao subjectivismo e ao naturalismo dos liberais, devemos reafirmar hoje o carácter objectivo e sobrenatural da Fé divina que é a Fé católica e cristã. Somente ela tem o direito absoluto e inviolável ao respeito e à liberdade religiosa.

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar», 1987.

04/06/2018

Maurras, mentor do Patriotismo português?


A verdade, que eu pretendo fazer ressaltar destas páginas, e das que lhes hão-de seguir, é que o nosso nacionalismo [patriotismo] não precisa socorrer-se dos mestres franceses da Contra-Revolução, porquanto, graças a Deus, os tem em casa, muito seus, os quais nada devem aos estranhos, como facilmente poderá averiguá-lo quem queira dar-se a esse trabalho, antes de fulminar o nosso apostolado, com críticas, talvez muito espirituosas, mas sem nenhuma consistência.
No século passado, ainda a Action Française estava na massa dos impossíveis, já nós possuíamos os nossos doutrinadores da Contra-Revolução, em cujos escritos de modo algum se reflectia a influência dos contra-revolucionários franceses dessa época, alguns dos quais surgiram até posteriormente, e revelando-se, nas suas obras, de uma forma incompleta, o que não sucedia aos nossos Gamas e Macedos, que eram declarada e integralmente reaccionários.
Nós podemo-nos orgulhar de ter mestres, e dos melhores, como nos temos esforçado por demonstrar em mais de doze anos de bom combate, e os quais só aguardam ser conhecidos e meditados, para que a sua superioridade se imponha a quantos de boa-fé queiram formar a sua cultura nacionalista [patriótica]. «Nós temos tudo feito», como ainda há tempos me dizia o Sr. Dr. Hipólito Raposo, ao percorrermos em comum algumas páginas da Dissertação a Favor da Monarquia.
De resto, o que certos pedagogos se obstinam em recusar ao Pensamento nacionalista [patriótico] português, não o recusam a estranhos. O próprio Charles Maurras, que esses críticos de escada abaixo têm querido arvorar em nosso mentor, é o primeiro a reconhecer a base tradicional do nosso doutrinarismo, como tive ensejo de o verificar, quando um dia me recebeu no seu gabinete da Action Française, e lhe dei a ler alguns passos de O Novo Príncipe do doutor José da Gama e Castro, um dos quais Maurras classificou de «luminoso», acrescentando, ao inquirir da sua data, que aquilo se escrevera quando ele ainda nem era nascido.

Fernando Campos in «A Genealogia do Pensamento Nacionalista», 1931.

§

Nota: Admite-se aqui o uso da palavra "nacionalismo" no sentido impróprio do termo, como sinónimo de "patriotismo". Pois como é sabido, o Nacionalismo é uma concepção napoleónica que nasceu do dogma liberal da independência – independência do Povo (Nação) face ao seu Soberano. O que só demonstra que os autores do século XX ficaram muito aquém dos mestres do século XIX.

15/12/2017

Rei de Jerusalém


Acaba de ser publicado no amigo blogue FIDELISSIMUS o brasão que a Cristandade reconhece como sendo do católico Rei de Jerusalém. É muito apropriado para o momento, na esperança de católicas pessoas enganadas abdicarem do erro judaizante e sionista, lugares por onde já infelizmente andam lançados.

01/12/2017

1º de Dezembro: Dia da Restauração


A guerra de Portugal com Castela é tão antiga, que começou juntamente com o mesmo Reino e seus primeiros Príncipes, e há mais de 500 anos que dura. Pelo que nem esta guerra se deve de ter por coisa nova, nem se deve de fazer da nossa parte por modo novo; mas termos por certo, que seguindo-se os meios por onde se conservaram os nossos Reis, teremos na ocasião presente a mesma segurança e bons sucessos contra Castela, que por tantos séculos tivemos.

Pe. Manuel Severim de Faria in «Notícias de Portugal», 1655.

§

As palavras citadas são de um chantre e cónego da Sé de Évora, contemporâneo da Guerra da Restauração, na qual Portugal se defendeu da usurpação espanhola. E são também palavras que refutam a absurda e revolucionária tese da Aliança Peninsular... Em relação a Espanha, os nossos antepassados sempre mantiveram uma atitude de um prudencial afastamento, daí o famoso adágio popular: De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento. Mas foi preciso que viessem uns certos intelectuais no século XIX e XX, para nos ensinar o contrário daquilo que sempre fizemos... E se é por razão de ignorância que hoje também alguns caem nesse mesmo erro, pois que façam como indica o Padre Severim de Faria: "...seguindo-se os meios por onde se conservaram os nossos Reis, teremos na ocasião presente a mesma segurança e bons sucessos... que por tantos séculos tivemos". Que nos reportemos, pois, à nossa Tradição Portuguesa e às suas fontes originárias, e não a modernos autores com as suas subjectivas interpretações, por mais bem-intencionados que alguns possam ter sido.

16/10/2017

O Tradicionalismo tem que vir da Tradição (II)


Mas o que é a Tradição? Parece-me que, com frequência, a palavra é imperfeitamente compreendida: comparam-na às tradições como existem nas profissões, nas famílias, na vida civil: o bouquet colocado sobre o telhado quando se põe a última telha, o cordão que se corta para inaugurar um monumento, etc. Não é nada disto que eu falo; a Tradição não são os costumes legados pelo passado e conservados por fidelidade a este, mesmo na ausência de razões claras. A Tradição define-se como o depósito de fé transmitido pelo Magistério de século em século. Este depósito é aquele que nos deu a Revelação, isto é, a palavra de Deus confiada aos Apóstolos e cuja transmissão é assegurada pelos seus sucessores.

Mons. Marcel Lefebvre in «Carta Aberta aos Católicos Perplexos», 1984.

02/10/2017

2 de Outubro: Dia dos Anjos da Guarda

Iluminura Manuelina

O nosso Santo Anjo da Guarda tem por missão proteger-nos e defender-nos, pôr-nos ao abrigo das ciladas do Demónio e dos inimigos da alma, para podermos alcançar a vida eterna. Este fiel companheiro merece o nosso reconhecimento e a veneração que convém a um santo que goza da visão de Deus no Céu. Por isso, roguemos ao nosso Anjo da Guarda:

Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, pois que a ti me confiou a piedade divina, hoje e sempre me governa, rege, guarda e ilumina. Ámen.

Também as famílias, os povos, os reinos, as dioceses, as igrejas, as comunidades religiosas, todos têm o seu Anjo da Guarda que as protege dos perigos e adversidades. Assim, roguemos também ao Santo Anjo Custódio de Portugal, que sempre defenda e dignifique a nossa Pátria:

Vinde, Anjo de Portugal, livrar a Pátria e os portugueses de todo o mal.

Vinde, Anjo de Portugal, afastar da Pátria a vós confiada os males espirituais assim como tudo o que puder perturbar a paz dos portugueses.

Anjo Custódio de Portugal, defendei a nossa Pátria!
Anjo Custódio de Portugal, salvai a nossa Pátria!
Anjo Custódio de Portugal, santificai a nossa Pátria!

18/09/2017

O Tradicionalismo tem que vir da Tradição (I)


Por ocasião da publicação de certas proposições, e por uma incompreensível má inteligência, para não dizer intencional, os jornais disseram e repetiram, com inaudita ligeireza, que Roma, a Santa Sé e a Igreja condenaram o tradicionalismo; o que equivaleria a dizer que a Igreja Católica condenou o princípio fundamental do Catolicismo e se condenou a si mesma; porque no fundo, o Catolicismo não é mais que a tradição apostólica, que nos garante a autenticidade da Escritura, da qual a Igreja é fiel e infalível depositária.

Pe. Ventura de Raulica in «La Tradición y los Semipelagianos de la Filosofia», 1862.

(Via: Ascendens)

19/07/2017

Mais livros recomendados


Tenho o prazer de anunciar aos leitores, que acrescentei na coluna da esquerda do blogue mais quatro obras de leitura. São elas:

Cartas de um Português aos seus Concidadãos de José Acúrsio das Neves.
Defesa de Portugal do Padre Alvito Buela Pereira de Miranda.
O Mastigóforo de Frei Fortunato de São Boaventura.
Refutação dos Princípios Metafísicos e Morais dos Pedreiros Livres Iluminados do Padre José Agostinho de Macedo.

Estas obras são de grande valor, indispensáveis a qualquer patriota e tradicionalista autêntico. Os seus autores, não foram meros escritores de realidades passadas, foram sim testemunhos dos avanços liberais contra os quais lutaram e de quem foram vítimas. Eles, melhor do que ninguém, conheceram e combateram a infiltração maçónico-liberal, dando-nos assim todas as munições necessárias contras os erros modernos, incluindo os que hoje se fazem passar por tradicionalistas. Por isso, aproveitem.

03/06/2017

Os nossos mestres


No século passado, ainda a Action Française estava na massa dos impossíveis, já nós possuíamos os nossos doutrinadores da Contra-Revolução, em cujos escritos de modo algum se reflectia a influência dos contra-revolucionários franceses dessa época, alguns dos quais surgiram até posteriormente, e revelando-se, nas suas obras, de uma forma incompleta, o que não sucedia aos nossos Gamas e Macedos, que eram declarada e integralmente reaccionários.
Nós podemo-nos orgulhar de ter mestres, e dos melhores, como nos temos esforçado por demonstrar em mais de doze anos de bom combate, e os quais só aguardam ser conhecidos e meditados, para que a sua superioridade se imponha a quantos de boa-fé queiram formar a sua cultura nacionalista [patriótica]. "Nós temos tudo feito", como ainda há tempos me dizia o Sr. Dr. Hipólito Raposo, ao percorrermos em comum algumas páginas da Dissertação a Favor da Monarquia.

Fernando Campos in «A Genealogia do Pensamento Nacionalista», 1931.

§

Nota 1: Admite-se aqui o uso do termo nacionalismo num sentido lato e não-técnico da palavra. Pois como é sabido, o conceito ideológico de nacionalismo nasceu do dogma liberal da independência, neste caso da independência dos povos face ao Rei.
Nota 2: É uma pena que não se tenha também referido o Frei Fortunato de São Boaventura, que é possivelmente o maior vulto do combate tradicionalista em Portugal.

09/04/2017

Jesus Cristo e o sentido da História


Qual é pois o verdadeiro sentido da História? Há por acaso um sentido da História? Toda a História tem por centro uma pessoa: Nosso Senhor Jesus Cristo, porque como diz São Paulo: "Nele foram fundadas todas as coisas, as dos céus e as que estão sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, dominações, principados ou potestades. Tudo foi criado por Ele e n'Ele, e Ele é antes de todas as coisas e n'Ele todas subsistem. Ele é a cabeça do corpo da Igreja, sendo Ele mesmo o princípio (...) para que em tudo tenha o primeiro lugar. Deus quis que toda a plenitude habitasse n'Ele, e por meio d'Ele reconciliar todas as coisas tanto as da Terra como as do Céu, trazendo a Paz mediante o sangue de Sua Cruz".

Jesus Cristo é portanto o pólo da História. A História tem somente uma lei: "É necessário que Ele reine" (I Coríntios 15, 25). Se Ele reina, reinam também o verdadeiro progresso e a prosperidade, que são bens muito mais espirituais do que materiais. Se Ele não reina, vem a decadência, a caducidade, a escravidão em todas as formas, o reino do mal. É o que profetiza a Sagrada Escritura: "Porque a nação e o reino que não Te servem perecerão, estas nações serão completamente destruídas" (Isaías 60, 12). Há excelentes livros sobre a filosofia da História, mas que me deixam surpreso e impaciente ao comprovar que omitem este princípio absolutamente capital, ou não o põe no lugar que lhe é devido. Trata-se do princípio da filosofia da História, sendo também uma verdade de Fé, verdadeiro dogma revelado e confirmado centenas de vezes pelos factos!

Eis a resposta à pergunta: Qual é o sentido da História? A História não tem um sentido, uma direcção imanente. Não existe o sentido da História. O que há é um fim da História, um fim transcendente: a "recapitulação de todas as coisas em Cristo"; é a submissão de toda ordem temporal à Sua obra redentora; é o domínio da Igreja militante sobre a cidade temporal que se prepara para o reino eterno da Igreja triunfante no Céu. A Fé afirma e os factos o demonstram que a História tem um primeiro pólo: a Encarnação, a Cruz, Pentecostes; ela teve o seu completo desenvolvimento na cidade católica, quer seja em Carlos Magno ou em Garcia Moreno; e terminará, chegará ao seu pólo final quando o número dos eleitos se completar, depois do tempo da grande apostasia (II Tessalonicenses 2, 3); não estamos vivendo este tempo?

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar», 1987.

24/03/2017

Os castigos sociais


Os indivíduos que cometeram faltas podem expiá-las neste mundo. Se não as expiarem neste mundo, expiá-las-ão no outro. Os indivíduos serão portanto castigados em proporção dos pecados cometidos, quer no Purgatório, expiando-os, quer no Inferno, sofrendo os suplícios eternamente. As sociedades, como tal, não entram na eternidade. Se se tornarem culpadas, apenas podem ser castigadas neste mundo. Ora, o seu crime é um pecado contra a Justiça, que exige reparação. Então, os países que abandonaram Nosso Senhor devem expiar e reparar neste mundo, e compete à Sabedoria de Deus infligir aos povos os castigos conforme os Seus desígnios eternos.
(...)
Por castigo social, Deus quer tocar as almas e atraí-las até Ele. É por isso que não é fácil sondar os desígnios eternos nos castigos com que Deus fere os países. O que devemos considerar é que Deus pode castigar, que castiga efectivamente, e que para evitar estes castigos, é necessário que toda a ordem social se submeta a Ele.
(...)
Todas as calamidades que podem levar os povos à reflexão servem os desígnios de Deus. As guerras, as doenças, as catástrofes de toda a espécie, e acima de tudo as calamidades de ordem intelectual e moral podem atingi-los e levá-los a corrigir-se.
Nosso Senhor fala-nos de todos estes flagelos, fala sobretudo da grande desventura da cegueira. Dirigindo-se aos judeus: "Este povo não entenderá, porque não pode compreender, e não pode compreender, porque não quer compreender". É no sentido de um castigo social que é necessário entender estas palavras. Nada de mais terrível que ser para si mesmo a causa da sua própria infelicidade em consequência de incompreensão. (...) Assim é também nas sociedades modernas de hoje. Para salvar a ordem social e os povos, estes devem começar por entender que só Jesus Cristo é a salvação. Ora, não querem entender que assim seja. Deus então conforma-se à sua vontade obstinada. Não compreendem, não vêem, e já não podem ver em Jesus Cristo unicamente a sua salvação: é o seu castigo.
A este ponto de vista geral, juntam-se muitos outros de ordem mais especial. Não compreendem que é necessário suprimir da ordem social os princípios do direito moderno, as grandes liberdades modernas. Não querem entender que é preciso recusar a cada um a sua liberdade de opinião. Não compreendem que é mister, apesar de tudo, opor-se à invasão dos princípios perversos e que é preciso favorecer a única verdade católica. Há uma quantidade de coisas que não entendem. Tudo isso leva o carácter e a marca do castigo que fere os países e os leva à ruína.

Pe. Philippe C.SS.R. in «Catecismo dos Direitos Divinos na Ordem Social».

16/03/2017

As "Luzes" que escureceram


Respeito tanto as luzes do século no que toca aos conhecimentos físicos, quanto as abomino pelo que pertence à Religião e ao Governo. Neste sentido são elas mesmas a própria revolução pura, e sem máscara, que na sua marcha, umas vezes rápida, outras vezes lenta, mas sempre progressiva, vai destruindo tudo o que encontra. O grande número dos chefes é funesto, dizia Ulisses aos Gregos na Ilíada, não tenhamos senão um chefe, senão um Rei, aquele a quem o prudente filho de Saturno confia o ceptro, e as leis para nos governar a todos. Esta máxima, que se lê no mais antigo dos livros profanos bem conhecidos, ao menos cá dos da Europa, é a mesma dos Provérbios de Salomão: Por mim governam os Reis. Vede como já era conhecida naqueles tempos primitivos, e como a respeito dela estavam de acordo os Escritores sagrados e os profanos: hoje é perseguida, porque as luzes do século a condenam; mas onde irão parar os homens com estas luzes do século, que tanto os tem feito retrogradar nas ideias religiosas e políticas.

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos», 1822.

23/01/2017

O nosso atraso é de ouro

Dom Miguel, o tradicionalista.

À conversa com um tradicionalista hispânico, dizia-me ele, em tom crítico, que Portugal é um país muito atrasado. Eu concordei. De facto, de certo modo, Portugal é um país atrasado, atrasadíssimo! Já os iluministas e liberais diziam o mesmo, que Portugal era um "relógio atrasado", pouco permeável às "ideias avançadas" da "Europa", ou melhor, deles! Mas eu digo: graças a Deus que desde que as ideias "iluminadas" começaram a vingar no mundo, sempre fomos mais "atrasados" que outros. Pois enquanto na Europa já se vivia o caos revolucionário das "ideias avançadas", Portugal ainda se conservava bastante fiel – os fidelíssimos... E hoje em dia... somos "atrasados". Muito daquilo que aparece de "novo" em Portugal, já é "velho" nos outros lados, incluindo em Espanha. E nem é preciso falar das aberrações modernas, como o casamento gay, o aborto, ou o facto de o governo espanhol pretender incluir as festas muçulmanas no calendário civil. É suficiente lembrar que Portugal foi o último reino tradicional católico a cair, em 1834, e que Dom Miguel foi considerado pelo Papa Gregório XVI como o rei mais católico de toda a Cristandade. Assim como também o Grande Oriente Lusitano só foi fundado 75 anos depois da abertura da primeira loja maçónica em Madrid. Que atraso... 75 anos!
Portanto, cada vez que algum estrangeiro vier dizer que Portugal é "muito atrasado", devemos responder-lhe: "graças a Deus".

04/01/2017

Verdadeiro e Falso Tradicionalismo


Grande número de modernos, seguindo as pegadas daqueles que, no século passado, se deram o nome de filósofos ["seita dos filósofos" = maçonaria], declaram que todo o poder vem do povo; que em consequência aqueles que exercem o poder na sociedade não a exercem como sua própria autoridade, mas como uma autoridade a eles delegada pelo povo e sob a condição de poder ser revogada pela vontade do povo, de quem eles a têm. Inteiramente contrário é o pensamento dos católicos, que fazem derivar de Deus o direito de mandar, como de seu princípio natural e necessário.

Papa Leão XIII in «Diuturnum Illud», 1881.

§

Esta citação de Leão XIII não é uma opinião. Ela representa aquilo que é, sempre foi, e sempre será o pensamento tradicional católico, é Magistério Ordinário da Igreja. Contudo, em dado grupo recente auto-intitulado "tradicionalista" estão a ser difundidas ideias contra-tradicionalistas... Nem todos os seus membros pensam assim, mas alguns deles, mais bem colocados no grupo, tinham sido já confrontados com a correcção a este e outros erros. Porém a "democratice" volta sempre à tona. Eles avançam e teimam... Tal como já referi noutra ocasião: parece até haver nisto uma mão escura, que promove a criação de "meios-termos", infunde-os de activismo e visibilidade, e assim intercepta e capta aquelas almas que se iriam dirigir a um tradicionalismo autêntico.

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02/01/2017

A deformação da figura de Jesus Cristo

Jesus Cristo é o bom pastor.

Desde que se aborda a questão social, está na moda, em certos meios, afastar primeiro a divindade de Jesus Cristo, e depois só falar de Sua soberana mansidão, de Sua compaixão por todas as misérias humanas, de Suas instantes exortações ao amor do próximo e fraternidade. Certamente, Jesus nos amou com um amor imenso, infinito, e veio à Terra sofrer e morrer, a fim de que, reunidos em redor d'Ele na justiça e no amor, animados dos mesmos sentimentos de mútua caridade, todos os homens vivam na paz e na felicidade. Mas para a realização desta felicidade temporal e eterna, Ele impôs, com autoridade soberana, a condição de se fazer parte de Seu rebanho, de se aceitar Sua doutrina, de se praticar a virtude, e de se deixar ensinar e guiar por Pedro e seus sucessores. Além disso, se Jesus foi bom para os transviados e os pecadores, não respeitou suas convicções erróneas, por sinceras que parecessem; amou-os a todos para os instruir, converter e salvar. Se chamou junto de si, para os consolar, os aflitos e os sofredores, não foi para lhes pregar o anseio de uma igualdade quimérica. Se levantou os humildes, não foi para lhes inspirar o sentimento de uma dignidade independente e rebelde à obediência. Se Seu coração transbordava de mansidão pelas almas de boa vontade, soube igualmente armar-se de uma santa indignação contra os profanadores da casa de Deus, contra os miseráveis que escandalizam os pequenos, contra as autoridades que acabrunham o povo sob a carga de pesados fardos, sem aliviá-la sequer com o dedo. Foi tão forte quão doce; repreendeu, ameaçou, castigou, sabendo e nos ensinando que, muitas vezes, o temor é o começo da sabedoria, e que, às vezes, convém cortar um membro para salvar o corpo. Enfim, não anunciou para a sociedade futura o reinado de uma felicidade ideal, de onde o sofrimento fosse banido; mas, por lições e exemplos, traçou o caminho da felicidade possível na Terra e da felicidade perfeita no Céu: a estrada real da Cruz. Estes são ensinamentos que seria errado aplicar somente à vida individual em vista da salvação eterna; são ensinamentos eminentemente sociais, e nos mostram em Nosso Senhor Jesus Cristo outra coisa que não um humanitarismo sem consistência e sem autoridade.

Papa São Pio X in «Notre Charge Apostolique», 1910.

14/11/2016

Delírios de monárquicos pseudo-tradicionalistas

Sem fazer referência a nomes e identidades, digo apenas que a pessoa que escreveu o texto da primeira imagem foi a mesma que escreveu o texto da segunda imagem.


Não tecendo mais comentários, recordo uma passagem da Carta de Alfredo Pimenta a Caetano Beirão:

Um dos mais lúcidos tratadistas portugueses, Francisco Coelho de Sousa e São Paio, definiu assim a nossa Monarquia: «O Império Português é Monárquico e Pleno, sem outra norma que os preceitos naturais, deduzido da natureza da Monarquia, e o fim da Sociação; isto é, a conservação do Estado, e a felicidade do seu Povo» (Prelecções de Direito Pátrio Público e Particular, § 26). 
O eminente António Caetano do Amaral ensina que o nosso governo é «puramente Monárquico» (Memória V, cap. 2).
O grande Pascoal José de Melo Freire escreve: «Os nossos Príncipes não devem a sua autoridade ao Povo nem dele receberam o grande Poder que hoje e sempre exercitaram». (Resposta que deu Pascoal José de Mello Freire às censuras que fez e apresentou o Dr. António Ribeiro dos Santos, in António Ribeiro, Notas ao Plano do Novo Código de Direito Público do Dr. Pascoal José de Mello Freire, pág. 65).
E o insuspeito Coelho da Rocha, negando que o governo tivesse sido «puramente Monárquico ou Absoluto», acrescenta: «ainda que se não possa assentir à opinião de alguns modernos que inexactamente chegam quase a confundi-lo com o constitucional» (Ensaio sobre a História do Governo e Legislação de Portugal, § 63).
Coelho da Rocha falava assim, porque defendia a tese de que as Cortes eram deliberativas. Hoje, depois dos estudos dos textos, não há duas opiniões: as Cortes, em Portugal, foram sempre consultivas. 
O insigne medievista Sánchez-Albornoz ensina: «aunque no puede decirse que residiese en ella la facultad de hacer las leyes, si podemos afirmar que rara vez se elaboraron sin su dictamen» (La Curia Regia portuguesa, pág. 69). Note-se que Sánchez-Albornoz é espírito de formação revolucionária. São os factos que lhe impõem aquele parecer.
De facto, as Cortes não reúnem por direito próprio; o Rei convoca-as, quando quer; ouve-as, como entende; segue-as, se concorda com elas; decide contra elas, se assim o entender.
O Poder, a Soberania estava no Rei; nas Cortes estava o conselho, e não a deliberação.

A respeito disto, recomendo ainda a leitura de Absoluto e Absolutismo e O Rei e as Cortes.

05/10/2016

Rei sem Soberania não é Rei

D. Miguel, o último Soberano

Os que julgaram e até escreveram, que na Monarquia Constitucional a Soberania era exercida colectivamente pelo Rei e pelas Câmaras, ou Câmara, enganaram-se e sinceramente se iludiram. A Soberania é uma, e nestes papéis o tenho dito, é uma e indivisível, e deve sempre encontrar-se e existir em um só ponto. Só o poder que decide definitivamente uma questão é o verdadeiro Soberano. No caso de uma oposição entre o Rei e a Câmara dos Deputados, as Fórmulas chamadas Constitucionais, colocam naturalmente a Soberania na Câmara, porque a Câmara tem o poder legal de rejeitar tudo sem apelação. O Rei que quiser conservar o Poder Soberano, não tem outro recurso mais do que a força que destrua ou suspenda a Constituição.

Pe. José Agostinho de Macedo in «O Desengano», Nº 14, 1831.

29/08/2016

Soberania divida é soberania perdida

Estandarte do século XIX.

Não sei que raiva é esta contra os Reis, que é o mesmo que dizer contra a unidade e concentração de todos os poderes em um sujeito; ao mesmo passo que as lições da experiência e da história depõem altamente contra esta pretensão maçónica de fazer ou retalhar em diferentes quinhões o Poder Soberano!
Como se fundaria a Monarquia Portuguesa, se os das Cortes de Lamego fossem todos Soberanos, e só deferissem o poder supremo a El-Rei D. Afonso Henriques nos lances de apertos, para lho tirarem, apenas se restabelecesse a boa ordem e a segurança pública? Qual dos Reis desta Monarquia terá sido um verdadeiro tirano? Ainda que o fossem; estou pelo dito judicioso do grande Padre Vieira: antes sofrer um ladrão, do que um cento deles; porém a verdade histórica nos afiança que nenhum dos nossos Príncipes se inclinou para a tirania.

Frei Fortunato de São Boaventura in «O Mastigoforo», 1824.

§

As palavras de Dom Frei Fortunato – Lente de Coimbra e Arcebispo de Évora – valem não apenas como autor e homem culto do Clero, mas sobretudo como testemunho presente de todos os acontecimentos que levaram à derrocada material da Monarquia Portuguesa. Dom Frei Fortunato não só conheceu a verdadeira Monarquia Tradicional, como foi contemporâneo do surgimento da Maçonaria em Portugal (1802), da Revolução Liberal do Porto (1820), da primeira Constituição escrita (1822) e da Guerra Liberal (1828-1834), mas sobretudo conheceu em primeira mão a demagogia das ideias liberais. No entanto, aparecem agora auto-proclamados "monárquicos tradicionalistas", com associação já montada e tudo, a difundir ideias bastante parecidas com as dos liberais do século XIX. Curioso, não?! Quase até parece uma vingança do liberalismo maçónico: para abafar o tradicionalismo autêntico e evitar que verdadeiros tradicionalistas se levantem, criaram um falso tradicionalismo monárquico.

01/10/2015

A Monarquia tradicional é absoluta


A Monarquia Portuguesa desde a sua instituição, quando o nosso primeiro Afonso foi aclamado, até os nossos dias, é uma prova de facto de tudo quanto tenho dito em favor desta casta de governo; e para que as provas ainda favoreçam mais a minha opinião, sucede que os nossos Reis são os mais legítimos e absolutos Senhores de seus Reinos. Espero que o meu Leitor suponha qual seja o sentido em que devem tomar-se estas palavras: a legitimidade dos nossos Soberanos consiste na justiça do seu domínio, e o seu absoluto poder, não quer dizer um poder despótico, que ofende a razão, e que eles mesmos recusariam, entende-se este absoluto poder pela extensão e independência da sua jurisdição verdadeiramente Real.

Marquês de Penalva in «Dissertação a Favor da Monarquia», 1799.