04/08/2013

D. Sebastião, o rei casto


Sua alma cada vez mais se esmaltava de intenções formosas, e seu corpo vestia-se de castidade. Não deixava que nenhuma dama lhe tocasse, e quando passeava a cavalo pela Rua Nova, ou pelas betesgas da velha e mourisca Lisboa, jamais levantava os olhos para as donzelas que chegavam às ventanas ou curiosamente espreitavam por detrás das verdes adufas árabes.
Era que seu espírito, vivendo exclusivamente para o catolicismo e para a guerra, queria servir estas ideias com alma pura e corpo casto.
Uma manhã, na igreja de São Roque, confessado e comungado, recolheu-se todo em si, cabeça inclinada para o peito, em profunda absorção. Esteve assim muito tempo. Depois, ergueu a fronte, pôs firme os olhos num crucifixo alto e, entre grossas lágrimas, rogou com a alma inteira:
– Senhor, Vós que a tantos príncipes haveis concedido impérios e monarquias, concedei-me ser vosso capitão!
Eram três as suas orações diárias: – Que Deus o inflamasse no zelo da fé, que ele queria propagar pelo mundo; – que Deus o tornasse um ardido guerreiro; – que Deus o conservasse casto.
Ser casto! Para ele a castidade era uma graça física que o tornava forte, uma fortaleza que o fazia ledo. A castidade dilatava-lhe a alma, amando a todos – ao reino, à grei. Era uma pureza que, vivendo em si, marcava conceito nobre em todos os seus propósitos, lhe punha frescor no olhar e lhe brunia as faces com sorrisos brancos. Ser casto era vestir um arnês de candura.

Antero de Figueiredo in «D. Sebastião: Rei de Portugal», 1924.

30/07/2013

Amor não é Tolerância


Existe também outra falsificação da imagem deste amor sobrenatural. Acredita-se que um homem que actua na vida segundo a lei do amor, deve ser necessariamente um homem bondoso, pleno de compaixão, disposto a todos os compromissos, incapaz de fazer uso da violência, pronto a perdoar todas as injustiças e sobretudo amante da paz. Isto não é verdade.
Existem circunstâncias nas quais o amor de tipo espiritual pode chegar a ser terrível e impiedoso. Quando o Arcanjo São Miguel expulsou Lúcifer e as suas hostes do Céu, não procedeu com suavidade com os rebeldes; Jesus Cristo tomou um chicote e escorraçou os vendilhões do templo. No dia do Juízo Final, não podemos dizer que Jesus Cristo não tem amor porque vai a julgar-nos e muitos terminarão no Inferno. Quando um líder de um país manda cortar a cabeça de um malfeitor, não significa que não tem amor; pelo contrário, poderia ser acusado de falta de amor para com o povo se não tivesse procedido tão severamente. Corneliu Codreanu, acusado no parlamento do seu país de não ser cristão, por exigir a aplicação da pena capital, respondeu: «Entre a morte da minha nação e a morte de um malfeitor, prefiro a morte deste último».

Horia Sima in «El Hombre Cristiano y La Acción Política».

18/07/2013

Os católicos-liberais


Embora os filhos do século sejam mais hábeis que os filhos da luz, seus ardis e suas violências teriam, sem dúvida, menor êxito se um grande número, entre aqueles que se intitulam católicos, não lhes entendesse mão amiga. Sim, infelizmente, há os que parecem querer caminhar de acordo com os nossos inimigos, e se esforçam por estabelecer uma aliança entre a luz e as trevas, um acordo entre a justiça e a iniquidade por meio dessas doutrinas que se chamam católico-liberais, as quais, apoiando-se sobre os mais perniciosos princípios, adulam o poder civil quando ele invade as coisas espirituais, e impulsionam as almas ao respeito, ou ao menos à tolerância das leis mais iníquas. Como se absolutamente não estivesse escrito que ninguém pode servir a dois senhores. São eles muito mais perigosos certamente e mais funestos do que os inimigos declarados, não só porque lhes secundam os esforços, talvez sem o perceberem, como também porque, mantendo-se no extremo limite das opiniões condenadas, tomam uma aparência de integridade e de doutrina irrepreensível, aliciando os imprudentes amigos de conciliações e enganando as pessoas honestas, que se revoltariam contra um erro declarado. Por isso, eles dividem os espíritos, rasgam a unidade e enfraquecem as forças que seria necessário reunir contra o inimigo.

Papa Pio IX in «Carta ao Círculo Santo Ambrósio de Milão», 6 de Março de 1873.

14/07/2013

As três revoluções


Este inimigo terrível tem um nome: chama-se Revolução. A sua causa profunda é uma explosão de orgulho e de sensualidade que inspirou, não diríamos um sistema, mas toda uma cadeia de sistemas ideológicos. Da larga aceitação dada a estes no mundo inteiro, decorreram as três grandes revoluções da História do Ocidente: a Pseudo-Reforma, a Revolução Francesa e o Comunismo. (...)
A Pseudo-Reforma foi uma primeira Revolução. Ela implantou o espírito de dúvida, o liberalismo religioso e o igualitarismo eclesiástico, em medida variável aliás nas várias seitas a que deu origem.
Seguiu-se-lhe a Revolução Francesa, que foi o triunfo do igualitarismo em dois campos. No campo religioso, sob a forma do ateísmo, especiosamente rotulado de laicismo. E na esfera política, pela falsa máxima de que toda a desigualdade é uma injustiça, toda a autoridade é um perigo, e a liberdade é o bem supremo.
O Comunismo é a transposição destas máximas para o campo social e económico.

Plinio Corrêa de Oliveira in «Revolução e Contra-Revolução».

10/07/2013

A vulgaridade como direito


Não se trata de o homem-massa ser estúpido. Pelo contrário, o actual é mais esperto, tem mais capacidade intelectiva que o de qualquer outra época. Mas essa capacidade não lhe serve de nada; com rigor, a vaga sensação de possuí-la serve-lhe só para encerrar-se mais em si mesmo e não usá-la. Consagra de uma vez para sempre o sortido de tópicos, preconceitos, ideias-feitas ou, simplesmente, vocábulos ocos que o acaso amontoou no seu interior e, com uma audácia que só se explica pela ingenuidade, imporá onde quer que seja. É isto que no primeiro capítulo eu enunciava como característico da nossa época: não que o vulgar julgue que é excelente e não vulgar, mas que o vulgar proclame e imponha o direito da vulgaridade, ou a vulgaridade como direito.

José Ortega y Gasset in «A Rebelião das Massas».

02/07/2013

País governado ao acaso


Ordinariamente todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o estadista. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?

Eça de Queiroz in «O Distrito de Évora».

24/06/2013

Livro: O cônsul Aristides Sousa Mendes: a Verdade e a Mentira


O embaixador Carlos Fernandes, diplomata de carreira e professor universitário, com vasta obra publicada, foi sempre um moderado, na sua vida privada e na pública. E é-o neste livro. Nunca quis entrar na política, mais ou menos partidária, para que foi convidado desde muito novo. Só quis servir o Estado, isto é, toda a comunidade portuguesa organizada como tal, e não apenas uma fracção dela. E serviu-o durante muitos anos e intensamente, como se verifica pelo seu extraordinariamente vasto curriculum vitae, tendo tido actividade notável na negociação dos acordos no seio da EFTA, na Conferência da Haia de Direito Internacional Privado, e sido até pioneiro na elaboração e negociação dos acordos sobre protecção no trabalho e segurança social dos emigrantes, e na transferência de presos condenados e a cumprir prisão no estrangeiro.

Cansado de ler e ouvir tão abundantes como mirabolantes fantasias a respeito de A. de Sousa Mendes, enquanto cônsul de Portugal em Bordéus, em Junho de 1940, fantasias que este nunca invocou nem sugeriu, além de pressionado por vários amigos, dado que ele é, actualmente, a única pessoa viva que, ainda no MNE, conviveu com Sousa Mendes, e, crê-se, a única dos que sobre ele escreveram que o conheceu pessoalmente, decidiu escrever este livro, repondo a verdade sempre que o julgou necessário, sem deixar de evidenciar simpatia pessoal, não profissional, por este cônsul de Portugal, dadas as circunstâncias de tempo, lugar, e psicológicas em que actuou.

É, como verificarão, um livro muito bem documentado, e, sem dúvida, a queda de um mito, não de um anjo, já que esta descreveu-a o grande Camilo Castelo Branco de forma inexcedível.

O leitor vai encontrar aqui vasta informação relevante que certamente desconhecia, porque, propositadamente, se tem omitido ou deturpado, por razões políticas e económicas, que aborrecem a verdade.

Aristides, ao contrário do que se tem propalado, não deu 30.000 vistos dos quais 10.000 a judeus nos dias da ira, mas apenas entre 600 e 650, nunca tendo sido exonerado de cônsul de Portugal nem aposentado por Salazar, recebendo até morrer o seu vencimento como tal.

Desde alguns descendentes de Aristides até ao influente político americano de origem açoriana Tony Coelho, passando por grupos judaicos amestrados para isso, e por Jaime Gama e outros políticos portugueses, tem-se elevado uma monstruosa montanha mitificadora à base de falácias que não engrandecem quer Aristides quer a Assembleia da República, quer o Governo e o Presidente da República que para isso contribuíram.

23/06/2013

O ateísmo é o ópio do povo


Lenine disse que a religião é o ópio do povo... Mas é apenas crendo em Deus que nós podemos criticar o Estado. Uma vez abolido Deus, e o Estado torna-se Deus. Este facto está escrito em toda a história humana; mas está escrito mais claramente na história recente da Rússia; que foi criada por Lenine... Lenine apenas caiu num pequeno erro: ele percebeu tudo ao contrário. A verdade é que o ateísmo é o ópio do povo. Onde quer que as pessoas não acreditem em algo para além do mundo, elas irão adorar o mundo.

Gilbert Keith Chesterton in «Christendom in Dublin».

20/06/2013

Cicuta


O Constitucionalismo nunca se casou com a Nacionalidade Portuguesa, porque foi sempre estrangeiro. Toda a obra que um povo realizar, fora do seu espírito, não vinga, é estéril e condenada a uma morte próxima.

Teixeira de Pascoais in «Saudade e o Saudosismo».

13/06/2013

Santo António


Martelo de hereges, volta à vida!
que a tua língua resplandeça ardente,
p'ra bem de tanta alma empedernida.

Lá donde estás, António, não nos deixes!
Se os homens te esqueceram negramente,
lembra-te, Santo, que ainda tens os peixes!

António Sardinha in «Pequena Casa Lusitana».

10/06/2013

Portugal Crucificado


Crucificado sobre um alto cerro,
com moiros a jogar-lhe a roupa aos dados,
eis Portugal pagando o antigo erro,
eis Portugal penando os seus pecados.

Insultam-no de baixo com aferro
esses a quem o insulto fez medrados.
Hora de expiação. Um ar de enterro
tingiu de treva os longes carregados.

E exclama Portugal: – «Senhor! Senhor!
A mim, alcaide-mor da Cristandade,
assim me abandonaste na agonia!»

António Sardinha in «Pequena Casa Lusitana».

09/06/2013

A liberdade e a independência perdida


Independência, liberdade, quer dizer vida; e vida quer dizer – concordância entre o meio e o fim, obediência do condicional ao absoluto, sacrifício do inferior ao superior, do criador individual e animal à criatura espiritual.
O antigo português foi livre no sentido verdadeiro da palavra. As descobertas nasceram da sua própria força criadora. Nas cortes, falava, rosto a rosto ao Príncipe, e a sua lança, cravada na fronteira, assegurou a Portugal a nobre independência garantida pelo espírito de sacrifício.
Portugal foi livre, enquanto foi português nas suas obras; enquanto soube realizá-las, obedecendo apenas à sua Vontade vitoriosa.
Sem actividade criadora não há liberdade nem independência. Cada instante de liberdade é preciso construí-lo e defendê-lo como um reduto. Representa um estado de esforço alegre e doloroso; alegre, porque dá ao homem a consciência do seu valor; e doloroso porque lhe exige trabalho nos dias de paz e vida nas horas de guerra.
A escravidão é feita de descanso e de tristeza.

Teixeira de Pascoaes in «Arte de Ser Português».

04/06/2013

Ecumenismo e Maçonaria


Podemos dizer que o ecumenismo é o filho legítimo da Maçonaria... No nosso tempo, o nosso irmão Franklin Roosevelt reclamou para todos a possibilidade de "adorar a Deus segundo os seus princípios e convicções". Isto é tolerância, e é também ecumenismo. Nós, os maçons tradicionais, permitimo-nos parafrasear e transpor estas palavras de um estadista célebre, adaptando-as às circunstâncias: católicos, ortodoxos, protestantes, israelitas, muçulmanos, hindus, budistas, livres-pensadores, livres-crentes, estes são apenas os nossos primeiros nomes; a Maçonaria é o nome da nossa família.

Yves Marsaudon in «L'oecuménisme vu par un franc-maçon de tradition».

29/05/2013

Vilafrancada


A força dos males nacionais, já sem limites, não me deixou escolher: a honra não me permitiu ver por mais tempo em vergonhosa inércia a majestade real, ultrajada e feita ludíbrio dos facciosos, todas as classes da nação com diabólico estudo deprimidas, e todos nós o desprezo da Europa e do mundo, por um sofrimento que passaria a cobardia; e em lugar dos primitivos direitos nacionais que vos prometeram recobrar em 24 de Agosto de 1820, deram-vos a sua ruína, o rei reduzido a um mero fantasma; a magistratura diariamente despojada e ultrajada; a nobreza, à qual se agregaram sucessivamente os cidadãos beneméritos e à qual deveis vossa glória nas terras de África e nos mares da Ásia, reduzida ao abatimento, despojada do lustre que outrora obtivera do reconhecimento real; a religião e seus ministros objecto de mofa e escárnio.
Que é uma nação quando sofre ver-se assim aviltada? Eia, portugueses, uma mais longa prudência seria infâmia. Já os generosos transmontanos nos precederam na luta; vinde juntar-vos ao estandarte real que levo em minhas mãos; libertemos o rei e Sua Majestade livre dê uma Constituição a seus povos; fiemo-nos em seus paternais sentimentos; e ela será tão alheia do despotismo como da licença; assim reconciliará a nação consigo mesmo e com a Europa civilizada.
Acho-me no meio de valentes e briosos portugueses, decididos como eu a morrer ou a restituir Sua Majestade à sua liberdade e autoridade, e a todas as classes seus direitos. Não hesiteis, eclesiásticos e cidadãos de todas as classes, vinde auxiliar a causa da religião, da realeza e de vós todos: e juremos não tornar a beijar a real mão senão depois de Sua Majestade estar restituído à sua autoridade.
Não acrediteis que queremos restaurar o despotismo, operar reacções ou tomar vinganças; juremos pela religião e pela honra que só queremos a união de todos os portugueses e um total esquecimento das opiniões passadas.

S.M.F. El-Rei Dom Miguel

26/05/2013

Possibilidades ilimitadas


Por princípio somos aquilo que o nosso mundo nos convida a ser, e as partes fundamentais da nossa alma são impressas nela de acordo com o perfil do seu contorno, como se fosse um molde. Naturalmente, viver não é mais do que lidar com o mundo. As características gerais que ele nos apresentar serão as características gerais da nossa vida. Por isso insisto tanto em fazer notar que o mundo onde as massas actuais nasceram mostrava uma fisionomia radicalmente nova na história. Enquanto no passado viver significava para o homem médio encontrar em seu redor dificuldades, perigos, escassez, limitações de destino e dependência, o mundo novo aparece como âmbito de possibilidades praticamente ilimitadas, seguro, onde não se depende de ninguém. Em torno desta impressão primária e permanente vai-se formar cada alma contemporânea, como em torno da oposta se formaram as antigas. Porque esta impressão fundamental converte-se em voz interior que murmura sem cessar algo assim como que palavras no mais profundo da pessoa e lhe insinua tenazmente uma definição da vida que é, simultaneamente, um imperativo. E, se a impressão tradicional dizia: "Viver é sentir-se limitado e, por isso mesmo, ter de contar com o que nos limita", a novíssima voz grita: "Viver é não encontrar limitação alguma; portanto, abandonar-se tranquilamente a si mesmo. Praticamente nada é impossível, nada é perigoso e, em princípio, ninguém é superior a ninguém".

José Ortega y Gasset in «A Rebelião das Massas».

24/05/2013

A Era do Álibi


Os cientistas oficiais preferem explicar o Estado pela luta de classes, o canibalismo pela deficiência em proteínas, a guerra pelas indústrias de armamento e pelo capitalismo, a droga pela falta de amor, o crime pela frustração, e assim por diante. O ciclo cultural que nos integra culminou afinal numa gigantesca Era do Álibi. Tudo está desculpado. Ninguém tem culpa de nada.

António Marques Bessa in «Ensaio sobre o fim da nossa Idade».