10/08/2013

A Olivença, a perdida


Fiel ao sangue, nossa irmã germana,
chora Olivença as suas horas más
junto do rio que tornou atrás,
quando soou a trompa castelhana.

Ó Casa de Antre Tejo-e-Guadiana,
lembra-te dela que entre ferros jaz!
Não a dobrou a guerra nem a paz,
– fiel ao sangue, o sangue a ti a irmana!

E todo aquele em quem ainda viva
o ardor da Raça e a voz que nele anseia,
se for p'ra além da raia alguma vez,

é Olivença, nossa irmã cativa
lá onde com surpresa a gente alheia
oiça dizer adeus em português!

António Sardinha in «Epopeia da Planície».

06/08/2013

Memorial para governo do Reino


Num memorial de sua letra, que fez antes de tomar o governo do Reino, El-Rei D. Sebastião escreveu as máximas que devia observar, e são as seguintes:

– Terei a Deus por fim de todas as minhas obras, e em todas elas me lembrarei d'Ele.
– Em me deitando, e levantando, conto com Ele muito particular. – Cuidar à noite, em que falei naquele dia.
– Trabalharei muito por dilatar a Fé. – Favorecerei muito as coisas da Igreja. – Armar todo o Reino. – Defender alfaias e delícias. – Fazer mercê a bons, castigar a maus. – Não crer levemente, e ouvir sempre ambas as partes. – Fazer justiça ao grande, e ao pequeno, sem excepção de pessoa. – Tirar as onzenas. – Conquistar e povoar a Índia, Brasil, Angola e Mina. – Todo o que me falar desonestidades, castigá-lo rijamente.
– Quando houver de fazer alguma coisa, comunicá-la primeiro com Deus. – Reformar os costumes, começando por mim no vestir e comer. – Em negócios, ter primeiro conta com o bem comum, e depois com os particulares. – Tirar alguns tributos e buscar modo com que Lisboa seja abastada. – As leis que fizer, mostrá-las primeiro a homens de virtude e letras, para que me apontem os inconvenientes que tiverem.
– Levar os súbditos por amor, enquanto puder. – Ser inteiro aos grandes, humano aos pequenos.
– As comendas sirvam em África.
– Não ter junto de mim senão homens tementes a Deus.
– Devassar dos ofícios de justiça, e fazenda, cada ano.
– Escrever a todos os Prelados que façam dizer Missas e Orações por mim, e pedir jubileu ao Papa.
– Terei nos postos do mar homens de confiança, e os que entram, que não sejam suspeitos na Fé.
– As coisas que não entender bem, comunicá-las primeiro com quem me possa dar parecer desenganado.
– Não dar, nem prometer nada, sem saber se é injustiça ou mal feita. – Mostrar bom rosto e agasalhado a todos. – Prover os cargos e ofícios em quem faz para isso, e não por outros respeitos. – Não desmaiar nas dificuldades, antes ter maior fé e confiança em Deus. – Tirar a cobiça. – Mostrar sempre ânimo liberal e não acanhado. – Gabar os homens, e cavaleiros, que tiverem bons procedimentos, diante de gente, e os que tiverem préstimo para a República, e mostrar aborrecimento às coisas a ela prejudiciais. – Não dizer palavras que escandalizem, mormente quando estiver agastado. – Os meus Embaixadores andarão sempre vestidos à portuguesa.
– Em todas as coisas que fizer, terei primeiro conta com a honra de Deus. – Serei pai dos pobres e de quem não tem quem faça por eles.

04/08/2013

D. Sebastião, o rei casto


Sua alma cada vez mais se esmaltava de intenções formosas, e seu corpo vestia-se de castidade. Não deixava que nenhuma dama lhe tocasse, e quando passeava a cavalo pela Rua Nova, ou pelas betesgas da velha e mourisca Lisboa, jamais levantava os olhos para as donzelas que chegavam às ventanas ou curiosamente espreitavam por detrás das verdes adufas árabes.
Era que seu espírito, vivendo exclusivamente para o catolicismo e para a guerra, queria servir estas ideias com alma pura e corpo casto.
Uma manhã, na igreja de São Roque, confessado e comungado, recolheu-se todo em si, cabeça inclinada para o peito, em profunda absorção. Esteve assim muito tempo. Depois, ergueu a fronte, pôs firme os olhos num crucifixo alto e, entre grossas lágrimas, rogou com a alma inteira:
– Senhor, Vós que a tantos príncipes haveis concedido impérios e monarquias, concedei-me ser vosso capitão!
Eram três as suas orações diárias: – Que Deus o inflamasse no zelo da fé, que ele queria propagar pelo mundo; – que Deus o tornasse um ardido guerreiro; – que Deus o conservasse casto.
Ser casto! Para ele a castidade era uma graça física que o tornava forte, uma fortaleza que o fazia ledo. A castidade dilatava-lhe a alma, amando a todos – ao reino, à grei. Era uma pureza que, vivendo em si, marcava conceito nobre em todos os seus propósitos, lhe punha frescor no olhar e lhe brunia as faces com sorrisos brancos. Ser casto era vestir um arnês de candura.

Antero de Figueiredo in «D. Sebastião: Rei de Portugal», 1924.

30/07/2013

Amor não é Tolerância


Existe também outra falsificação da imagem deste amor sobrenatural. Acredita-se que um homem que actua na vida segundo a lei do amor, deve ser necessariamente um homem bondoso, pleno de compaixão, disposto a todos os compromissos, incapaz de fazer uso da violência, pronto a perdoar todas as injustiças e sobretudo amante da paz. Isto não é verdade.
Existem circunstâncias nas quais o amor de tipo espiritual pode chegar a ser terrível e impiedoso. Quando o Arcanjo São Miguel expulsou Lúcifer e as suas hostes do Céu, não procedeu com suavidade com os rebeldes; Jesus Cristo tomou um chicote e escorraçou os vendilhões do templo. No dia do Juízo Final, não podemos dizer que Jesus Cristo não tem amor porque vai a julgar-nos e muitos terminarão no Inferno. Quando um líder de um país manda cortar a cabeça de um malfeitor, não significa que não tem amor; pelo contrário, poderia ser acusado de falta de amor para com o povo se não tivesse procedido tão severamente. Corneliu Codreanu, acusado no parlamento do seu país de não ser cristão, por exigir a aplicação da pena capital, respondeu: «Entre a morte da minha nação e a morte de um malfeitor, prefiro a morte deste último».

Horia Sima in «El Hombre Cristiano y La Acción Política».

18/07/2013

Os católicos-liberais


Embora os filhos do século sejam mais hábeis que os filhos da luz, seus ardis e suas violências teriam, sem dúvida, menor êxito se um grande número, entre aqueles que se intitulam católicos, não lhes entendesse mão amiga. Sim, infelizmente, há os que parecem querer caminhar de acordo com os nossos inimigos, e se esforçam por estabelecer uma aliança entre a luz e as trevas, um acordo entre a justiça e a iniquidade por meio dessas doutrinas que se chamam católico-liberais, as quais, apoiando-se sobre os mais perniciosos princípios, adulam o poder civil quando ele invade as coisas espirituais, e impulsionam as almas ao respeito, ou ao menos à tolerância das leis mais iníquas. Como se absolutamente não estivesse escrito que ninguém pode servir a dois senhores. São eles muito mais perigosos certamente e mais funestos do que os inimigos declarados, não só porque lhes secundam os esforços, talvez sem o perceberem, como também porque, mantendo-se no extremo limite das opiniões condenadas, tomam uma aparência de integridade e de doutrina irrepreensível, aliciando os imprudentes amigos de conciliações e enganando as pessoas honestas, que se revoltariam contra um erro declarado. Por isso, eles dividem os espíritos, rasgam a unidade e enfraquecem as forças que seria necessário reunir contra o inimigo.

Papa Pio IX in «Carta ao Círculo Santo Ambrósio de Milão», 6 de Março de 1873.

14/07/2013

As três revoluções


Este inimigo terrível tem um nome: chama-se Revolução. A sua causa profunda é uma explosão de orgulho e de sensualidade que inspirou, não diríamos um sistema, mas toda uma cadeia de sistemas ideológicos. Da larga aceitação dada a estes no mundo inteiro, decorreram as três grandes revoluções da História do Ocidente: a Pseudo-Reforma, a Revolução Francesa e o Comunismo. (...)
A Pseudo-Reforma foi uma primeira Revolução. Ela implantou o espírito de dúvida, o liberalismo religioso e o igualitarismo eclesiástico, em medida variável aliás nas várias seitas a que deu origem.
Seguiu-se-lhe a Revolução Francesa, que foi o triunfo do igualitarismo em dois campos. No campo religioso, sob a forma do ateísmo, especiosamente rotulado de laicismo. E na esfera política, pela falsa máxima de que toda a desigualdade é uma injustiça, toda a autoridade é um perigo, e a liberdade é o bem supremo.
O Comunismo é a transposição destas máximas para o campo social e económico.

Plinio Corrêa de Oliveira in «Revolução e Contra-Revolução».

10/07/2013

A vulgaridade como direito


Não se trata de o homem-massa ser estúpido. Pelo contrário, o actual é mais esperto, tem mais capacidade intelectiva que o de qualquer outra época. Mas essa capacidade não lhe serve de nada; com rigor, a vaga sensação de possuí-la serve-lhe só para encerrar-se mais em si mesmo e não usá-la. Consagra de uma vez para sempre o sortido de tópicos, preconceitos, ideias-feitas ou, simplesmente, vocábulos ocos que o acaso amontoou no seu interior e, com uma audácia que só se explica pela ingenuidade, imporá onde quer que seja. É isto que no primeiro capítulo eu enunciava como característico da nossa época: não que o vulgar julgue que é excelente e não vulgar, mas que o vulgar proclame e imponha o direito da vulgaridade, ou a vulgaridade como direito.

José Ortega y Gasset in «A Rebelião das Massas».

02/07/2013

País governado ao acaso


Ordinariamente todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o estadista. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?

Eça de Queiroz in «O Distrito de Évora».

24/06/2013

Livro: O cônsul Aristides Sousa Mendes: a Verdade e a Mentira


O embaixador Carlos Fernandes, diplomata de carreira e professor universitário, com vasta obra publicada, foi sempre um moderado, na sua vida privada e na pública. E é-o neste livro. Nunca quis entrar na política, mais ou menos partidária, para que foi convidado desde muito novo. Só quis servir o Estado, isto é, toda a comunidade portuguesa organizada como tal, e não apenas uma fracção dela. E serviu-o durante muitos anos e intensamente, como se verifica pelo seu extraordinariamente vasto curriculum vitae, tendo tido actividade notável na negociação dos acordos no seio da EFTA, na Conferência da Haia de Direito Internacional Privado, e sido até pioneiro na elaboração e negociação dos acordos sobre protecção no trabalho e segurança social dos emigrantes, e na transferência de presos condenados e a cumprir prisão no estrangeiro.

Cansado de ler e ouvir tão abundantes como mirabolantes fantasias a respeito de A. de Sousa Mendes, enquanto cônsul de Portugal em Bordéus, em Junho de 1940, fantasias que este nunca invocou nem sugeriu, além de pressionado por vários amigos, dado que ele é, actualmente, a única pessoa viva que, ainda no MNE, conviveu com Sousa Mendes, e, crê-se, a única dos que sobre ele escreveram que o conheceu pessoalmente, decidiu escrever este livro, repondo a verdade sempre que o julgou necessário, sem deixar de evidenciar simpatia pessoal, não profissional, por este cônsul de Portugal, dadas as circunstâncias de tempo, lugar, e psicológicas em que actuou.

É, como verificarão, um livro muito bem documentado, e, sem dúvida, a queda de um mito, não de um anjo, já que esta descreveu-a o grande Camilo Castelo Branco de forma inexcedível.

O leitor vai encontrar aqui vasta informação relevante que certamente desconhecia, porque, propositadamente, se tem omitido ou deturpado, por razões políticas e económicas, que aborrecem a verdade.

Aristides, ao contrário do que se tem propalado, não deu 30.000 vistos dos quais 10.000 a judeus nos dias da ira, mas apenas entre 600 e 650, nunca tendo sido exonerado de cônsul de Portugal nem aposentado por Salazar, recebendo até morrer o seu vencimento como tal.

Desde alguns descendentes de Aristides até ao influente político americano de origem açoriana Tony Coelho, passando por grupos judaicos amestrados para isso, e por Jaime Gama e outros políticos portugueses, tem-se elevado uma monstruosa montanha mitificadora à base de falácias que não engrandecem quer Aristides quer a Assembleia da República, quer o Governo e o Presidente da República que para isso contribuíram.

23/06/2013

O ateísmo é o ópio do povo


Lenine disse que a religião é o ópio do povo... Mas é apenas crendo em Deus que nós podemos criticar o Estado. Uma vez abolido Deus, e o Estado torna-se Deus. Este facto está escrito em toda a história humana; mas está escrito mais claramente na história recente da Rússia; que foi criada por Lenine... Lenine apenas caiu num pequeno erro: ele percebeu tudo ao contrário. A verdade é que o ateísmo é o ópio do povo. Onde quer que as pessoas não acreditem em algo para além do mundo, elas irão adorar o mundo.

Gilbert Keith Chesterton in «Christendom in Dublin».

20/06/2013

Cicuta


O Constitucionalismo nunca se casou com a Nacionalidade Portuguesa, porque foi sempre estrangeiro. Toda a obra que um povo realizar, fora do seu espírito, não vinga, é estéril e condenada a uma morte próxima.

Teixeira de Pascoais in «Saudade e o Saudosismo».

13/06/2013

Santo António


Martelo de hereges, volta à vida!
que a tua língua resplandeça ardente,
p'ra bem de tanta alma empedernida.

Lá donde estás, António, não nos deixes!
Se os homens te esqueceram negramente,
lembra-te, Santo, que ainda tens os peixes!

António Sardinha in «Pequena Casa Lusitana».

10/06/2013

Portugal Crucificado


Crucificado sobre um alto cerro,
com moiros a jogar-lhe a roupa aos dados,
eis Portugal pagando o antigo erro,
eis Portugal penando os seus pecados.

Insultam-no de baixo com aferro
esses a quem o insulto fez medrados.
Hora de expiação. Um ar de enterro
tingiu de treva os longes carregados.

E exclama Portugal: – «Senhor! Senhor!
A mim, alcaide-mor da Cristandade,
assim me abandonaste na agonia!»

António Sardinha in «Pequena Casa Lusitana».

09/06/2013

A liberdade e a independência perdida


Independência, liberdade, quer dizer vida; e vida quer dizer – concordância entre o meio e o fim, obediência do condicional ao absoluto, sacrifício do inferior ao superior, do criador individual e animal à criatura espiritual.
O antigo português foi livre no sentido verdadeiro da palavra. As descobertas nasceram da sua própria força criadora. Nas cortes, falava, rosto a rosto ao Príncipe, e a sua lança, cravada na fronteira, assegurou a Portugal a nobre independência garantida pelo espírito de sacrifício.
Portugal foi livre, enquanto foi português nas suas obras; enquanto soube realizá-las, obedecendo apenas à sua Vontade vitoriosa.
Sem actividade criadora não há liberdade nem independência. Cada instante de liberdade é preciso construí-lo e defendê-lo como um reduto. Representa um estado de esforço alegre e doloroso; alegre, porque dá ao homem a consciência do seu valor; e doloroso porque lhe exige trabalho nos dias de paz e vida nas horas de guerra.
A escravidão é feita de descanso e de tristeza.

Teixeira de Pascoaes in «Arte de Ser Português».

04/06/2013

Ecumenismo e Maçonaria


Podemos dizer que o ecumenismo é o filho legítimo da Maçonaria... No nosso tempo, o nosso irmão Franklin Roosevelt reclamou para todos a possibilidade de "adorar a Deus segundo os seus princípios e convicções". Isto é tolerância, e é também ecumenismo. Nós, os maçons tradicionais, permitimo-nos parafrasear e transpor estas palavras de um estadista célebre, adaptando-as às circunstâncias: católicos, ortodoxos, protestantes, israelitas, muçulmanos, hindus, budistas, livres-pensadores, livres-crentes, estes são apenas os nossos primeiros nomes; a Maçonaria é o nome da nossa família.

Yves Marsaudon in «L'oecuménisme vu par un franc-maçon de tradition».

29/05/2013

Vilafrancada


A força dos males nacionais, já sem limites, não me deixou escolher: a honra não me permitiu ver por mais tempo em vergonhosa inércia a majestade real, ultrajada e feita ludíbrio dos facciosos, todas as classes da nação com diabólico estudo deprimidas, e todos nós o desprezo da Europa e do mundo, por um sofrimento que passaria a cobardia; e em lugar dos primitivos direitos nacionais que vos prometeram recobrar em 24 de Agosto de 1820, deram-vos a sua ruína, o rei reduzido a um mero fantasma; a magistratura diariamente despojada e ultrajada; a nobreza, à qual se agregaram sucessivamente os cidadãos beneméritos e à qual deveis vossa glória nas terras de África e nos mares da Ásia, reduzida ao abatimento, despojada do lustre que outrora obtivera do reconhecimento real; a religião e seus ministros objecto de mofa e escárnio.
Que é uma nação quando sofre ver-se assim aviltada? Eia, portugueses, uma mais longa prudência seria infâmia. Já os generosos transmontanos nos precederam na luta; vinde juntar-vos ao estandarte real que levo em minhas mãos; libertemos o rei e Sua Majestade livre dê uma Constituição a seus povos; fiemo-nos em seus paternais sentimentos; e ela será tão alheia do despotismo como da licença; assim reconciliará a nação consigo mesmo e com a Europa civilizada.
Acho-me no meio de valentes e briosos portugueses, decididos como eu a morrer ou a restituir Sua Majestade à sua liberdade e autoridade, e a todas as classes seus direitos. Não hesiteis, eclesiásticos e cidadãos de todas as classes, vinde auxiliar a causa da religião, da realeza e de vós todos: e juremos não tornar a beijar a real mão senão depois de Sua Majestade estar restituído à sua autoridade.
Não acrediteis que queremos restaurar o despotismo, operar reacções ou tomar vinganças; juremos pela religião e pela honra que só queremos a união de todos os portugueses e um total esquecimento das opiniões passadas.

S.M.F. El-Rei Dom Miguel

26/05/2013

Possibilidades ilimitadas


Por princípio somos aquilo que o nosso mundo nos convida a ser, e as partes fundamentais da nossa alma são impressas nela de acordo com o perfil do seu contorno, como se fosse um molde. Naturalmente, viver não é mais do que lidar com o mundo. As características gerais que ele nos apresentar serão as características gerais da nossa vida. Por isso insisto tanto em fazer notar que o mundo onde as massas actuais nasceram mostrava uma fisionomia radicalmente nova na história. Enquanto no passado viver significava para o homem médio encontrar em seu redor dificuldades, perigos, escassez, limitações de destino e dependência, o mundo novo aparece como âmbito de possibilidades praticamente ilimitadas, seguro, onde não se depende de ninguém. Em torno desta impressão primária e permanente vai-se formar cada alma contemporânea, como em torno da oposta se formaram as antigas. Porque esta impressão fundamental converte-se em voz interior que murmura sem cessar algo assim como que palavras no mais profundo da pessoa e lhe insinua tenazmente uma definição da vida que é, simultaneamente, um imperativo. E, se a impressão tradicional dizia: "Viver é sentir-se limitado e, por isso mesmo, ter de contar com o que nos limita", a novíssima voz grita: "Viver é não encontrar limitação alguma; portanto, abandonar-se tranquilamente a si mesmo. Praticamente nada é impossível, nada é perigoso e, em princípio, ninguém é superior a ninguém".

José Ortega y Gasset in «A Rebelião das Massas».

24/05/2013

A Era do Álibi


Os cientistas oficiais preferem explicar o Estado pela luta de classes, o canibalismo pela deficiência em proteínas, a guerra pelas indústrias de armamento e pelo capitalismo, a droga pela falta de amor, o crime pela frustração, e assim por diante. O ciclo cultural que nos integra culminou afinal numa gigantesca Era do Álibi. Tudo está desculpado. Ninguém tem culpa de nada.

António Marques Bessa in «Ensaio sobre o fim da nossa Idade».

22/05/2013

O grande mal dos modernos


O grande mal dos modernos é ter perdido o senso comum sem ter aprendido a raciocinar. Isto é de resto apenas uma forma do mal de hoje: o termo-nos desligado do passado sem nos termos adaptado ainda ao futuro.

Fernando Pessoa in «Da República».

18/05/2013

Civilização Cristã


Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos príncipes e à protecção legítima dos magistrados. Então o sacerdócio e o império estavam ligados em si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, frutos cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer.

Papa Leão XIII in «Immortale Dei», 1885.

17/05/2013

Quem ganha com a adopção gay?

No dia em que o Parlamento português (cuja maioria se diz "de direita") aprovou a adopção de crianças por parelhas de homossexuais, nada melhor do que ouvir Alain Soral, um homem sem papas na língua e que expõe os verdadeiros intentos por detrás da adopção gay em França (e no Mundo):



Nota: Alain Soral não se considera um homem de direita, no entanto também não é um esquerdista típico. Alain Soral representa aquilo que se pode chamar "esquerda do trabalho" e "direita dos valores".

11/05/2013

O Nacionalismo em acusação


Sabemos que o nacionalismo está em acusação. Quem o professa ou defende arrisca a reputação perante os "colegas"; é apontado de retrógrado pelos universalistas utópicos, e burguês-tachista, por todos em geral.
O nacionalismo devido a interesses da plutocracia e propaganda capitalista-marxista tornou-se réu. Dificulta negócios. Quando as ideias desta Europa, a única que perdeu a Guerra, são os dólares, as mais-valias e os salários, e onde os jovens se tornam espectadores idiotas (convencidos que são activistas) da derrocada, os utilitaristas podem-se congratular. Mais: quando as nações são encaradas como mercados, e unicamente como mercados, do capital apátrida, tem-se toda a conveniência em que os focos nacionalistas sejam suprimidos.
O nacionalismo, portanto, vê-se atacado numa ampla frente: desde os militantes e simpatizantes comunistas até aos "palermas de café", que falam de cór consoante a propaganda impingida pelos meios de informação onde eles bebem usualmente a "cultura política" com que fazem revoluções radicais.

António Marques Bessa in revista «Política», Fevereiro de 1969.

04/05/2013

Os Sete Pecados Mortais da Democracia


Os Sete Pecados Mortais da Democracia: a Soberba Individualista; a Avareza Capitalista; a Luxúria das Palavras; a Ira Revolucionária; a Inveja Democrática; a Gula do Orçamento; a Preguiça Constitucional.

António Pedro in jornal «Revolução», 1932.

01/05/2013

1º de Maio, dia de São José Operário


Quantas vezes Nós manifestámos e explicámos o amor da Igreja para com os operários! No entanto, propaga-se amplamente a calúnia atroz de que «a Igreja é aliada do capitalismo contra os trabalhadores»! Ela, mãe e mestra de todos, teve sempre particular solicitude pelos filhos que se encontram em condições mais difíceis, e também, na realidade, contribuiu notavelmente para a conquista dos apreciáveis progressos obtidos por várias categorias de trabalhadores. Nós mesmo, na radio-mensagem natalícia de 1942, dizíamos: «Levada sempre por motivos religiosos, a Igreja condenou os vários sistemas do socialismo marxista e condena-os ainda hoje como é seu dever e direito permanente de preservar os homens de correntes e influências que põem em risco a sua salvação eterna. Mas a Igreja não pode ignorar ou deixar de ver que o operário, no esforço de melhorar a sua condição, choca com qualquer engenho que, longe de ser conforme à natureza, contrasta com a ordem de Deus e com o objectivo que ele assinalou aos bens terrenos. Por mais falsos, condenáveis e perigosos tenham sido e sejam os caminhos seguidos, quem, sobretudo se é sacerdote ou cristão, poderia permanecer surdo ao grito que se levanta dos profundos e, num mundo de um Deus justo, clama por justiça e espírito de fraternidade?».

Papa Pio XII in «Discurso por ocasião da solenidade de São José Operário», 1 de Maio de 1955.

28/04/2013

Do amor pátrio


O homem é devedor a respeito de outro em diversos graus, que correspondem, por um lado a excelência das pessoas, por outro lado a importância dos benefícios recebidos. Sob um e outro aspecto, Deus ocupa o primeiro lugar, visto que Ele é ao mesmo tempo o melhor de todos os seres e o primeiro princípio ao qual o homem deve tudo. Mas os princípios secundários da vida humana são os Pais e a Pátria. Por isso a eles, depois de Deus, é a quem o homem é principalmente devedor. De modo que depois da virtude da religião, cujo papel é prestar culto a Deus, vem a virtude da piedade, que presta culto aos Pais e à Pátria.

São Tomás de Aquino in «Compendio de la Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino» do Pe. Raphael Sineux.

25/04/2013

Rebentou um cano de esgoto


Na manhã de 25 de Abril de 1974 um amigo do professor Bissaia Barreto telefonou-lhe: rebentara uma revolução, que já se declarava triunfante. O velho mestre de Coimbra, que fora dentro do Estado Novo o cabecilha da corrente democrática, teve apenas este comentário: – «Olhe, meu amigo, rebentou um cano de esgoto».

Barradas de Oliveira in «Quando os Cravos Murcham», 1975.

21/04/2013

Partidos para quê?


Que desapareçam os partidos políticos. Nunca ninguém nasceu membro de um partido político; em troca, todos nascemos membros de uma família, somos todos vizinhos num município, esforçamo-nos todos no exercício de um trabalho. Pois se essas são as nossas unidades naturais, se a família e o município e a corporação é no que verdadeiramente vivemos, para que necessitamos do instrumento intermédio e pernicioso dos partidos políticos que, para unir-nos em grupos artificiais, começam por desunir-nos nas nossas realidades autênticas?

José Antonio Primo de Rivera in «Discurso de fundação da Falange Espanhola».

18/04/2013

A máfia do avental


Tu deves encobrir todos os crimes dos teus irmãos maçons... e se fores chamado a testemunhar contra um irmão maçon, está sempre certo em protegê-lo. Prevaricando, não digas toda a verdade sobre o seu caso, mantém os seus segredos, esquece as partes mais importantes. Pode ser perjúrio fazer isto, é verdade, mas estarás a cumprir com as tuas obrigações maçónicas.

Edmond Ronayne in «Handbook of Masonry», 1917.

14/04/2013

Os judeus e as Invasões Mouras


Uma vez que a ilegítima Assembleia da República aprovou por unanimidade a atribuição de nacionalidade portuguesa aos descendentes de judeus sefarditas, nada melhor do que recordar a acção destes durante as Invasões Mouras do século VIII, segundo a palavra de dois historiadores judeus:

No ano de 711, a Espanha foi conquistada pelos muçulmanos e os judeus saudaram a sua vinda com júbilo. Eles regressaram a Espanha dos países para onde haviam fugido. Eles saíram ao encontro dos conquistadores, ajudando-os a tomar as cidades de Espanha.
Deborah Pessin in «The Jewish People», 1951.

Os barbarescos ajudaram o movimento Árabe a estender-se até Espanha, enquanto os judeus sustentavam o empreendimento ao mesmo tempo com homens e com dinheiro. Em 711, os barbarescos comandados por Tariq cruzaram o Estreito e ocuparam a Andaluzia. Os judeus convergiram com piquetes de tropas e guarnições para o distrito.
Josef Kastein in «History and Destiny of the Jews», 1933.

08/04/2013

O progresso traz felicidade?


Que tem feito a sociedade há três séculos a favor da parte moral do homem? Nada, querer iluminar o homem, tirar-lhe ilusões. E tiradas essas ilusões, que sucedeu? O homem materializou-se, e a sociedade corrompeu-se. Vejamos que progressos materiais obtivemos nesses três séculos: obtivemos as aplicações do vapor, a química fez passos de gigante, as ciências naturais chegaram quase à perfeição, os resultados científicos e artísticos simplificaram-se, inventou-se o galvanismo, o telégrafo eléctrico, a fotografia, desapareceram as distâncias, o comércio reina dominador sobre todos, somos engolfados em prosperidade material, e ao mesmo tempo somos muito infelizes.

D. Pedro V in «Escritos de El-Rei D. Pedro V».

06/04/2013

A Ilustre Casa de Ramires


Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra, e teso na estrada, com o coco à banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo:
– Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o Sr. Padre Soeiro quem ele me lembra?
– Quem?
– Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o Sr. Padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
– Quem?
– Portugal.
Os três amigos retomaram o caminho de Vila-Clara. No céu branco uma estrelinha tremeluzia sobre Santa Maria de Craquede. E Padre Soeiro, com o seu guarda-sol sob o braço, recolheu à Torre vagarosamente, no silêncio e doçura da tarde, rezando as suas avé-marias, e pedindo a paz de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos e casais adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia de graça amorável, que sempre bendita fosse entre as terras.

Eça de Queiroz in «A Ilustre Casa de Ramires».

31/03/2013

Aleluia!


Louvai ao Senhor, todas as nações; louvai-O, todos os povos. Porque a Sua benignidade é grande para connosco, e a verdade do Senhor é para sempre. Louvai ao Senhor.

Salmo 117

29/03/2013

Filme: A Paixão de Cristo

Vexilla Regis


O órgão geme. É Sexta-feira Santa.
Adoração da Cruz na Catedral.
E sobe o coro numa voz que espanta,
– voz de tragédia e cerração mortal!

Só um madeiro agreste se levanta,
abrindo os braços negros por igual.
Os padres cantam. E em tristeza tanta
recanta o incenso a mística espiral.

Soluça o órgão... Com a cruz erguida,
por todo o templo a fé que nos alenta
entoa um hino à Árvore-da-Vida.

E eu, pobre criatura transitória,
enquanto a procissão perpassa lenta,
julgo assistir ao desfilar da História!

António Sardinha in «Na Corte da Saudade».

27/03/2013

A vida é fruto do acaso?


Suponhamos que, chegando a uma ilha desabitada, encontramos uma estátua maravilhosamente esculpida. Certamente – concluiremos – esta ilha foi em tempos habitada ou, pelo menos, visitada por homens que ali deixaram aquela estátua.
Que diríamos, porém, se alguém quisesse troçar da nossa natural suposição e nos dissesse: Mas quê? Isso é uma explicação gratuita, devida simplesmente à tendência que tendes de interpretar antropomorficamente as coisas! A estátua não é obra do homem! Foram as chuvas e os ventos que, primeiro, arrancaram da montanha o mármore; os agentes atmosféricos e os temporais que depois o trabalharam e, por fim, uma rajada violenta que a pôs de pé!
Quem poderia aceitar uma tal explicação sem renunciar ao mais elementar bom senso?
Mas, se o acaso é impotente para produzir uma estátua, que apenas é uma imagem da vida, como poderemos nós supor que o mesmo tenha produzido um organismo, inteiro e complexo, com todos os seus órgãos maravilhosos?

Pe. Victor Marcozzi in «Deus e a Ciência», 1957.

24/03/2013

Os frutos do Ateísmo


Ele encontra-se em toda a parte e no meio de todos: sabe ser violento e astuto. Nestes últimos séculos tentou realizar a desagregação intelectual, moral e social da unidade no organismo misterioso de Cristo. Ele quis a natureza sem a graça, a razão sem a fé; a liberdade sem a autoridade; às vezes a autoridade sem a liberdade. É um "inimigo" que se tornou cada vez mais concreto, com uma ausência de escrúpulos que ainda surpreende: Cristo sim, a Igreja não! Depois: Deus sim, Cristo não! Finalmente o grito ímpio: Deus está morto; e, até, Deus jamais existiu. E eis, agora, a tentativa de edificar a estrutura do mundo sobre bases que não hesitamos em indicar como principais responsáveis pela ameaça que pesa sobre a humanidade: uma economia sem Deus, um direito sem Deus, uma política sem Deus.

Papa Pio XII in Discurso «Nel contemplare» de 12 de Outubro de 1952.

17/03/2013

Pior do que a guerra


Pior do que a guerra é as sociedades humanas viverem subjugadas pela violência unilateral de um só grupo, pelo poder dos fortes sem escrúpulos, pelo vício, pela corrupção que não conhece limites, pela negação da verdade, da justiça ou liberdade. Ou seja, pelo domínio do mal e pelo desespero de saber que a paz e a ordem jamais serão restabelecidos. O bem que a paz fomenta nunca poderá ser garantido pelo comodismo pacifista, nem poderá provir da iniquidade de entregar as populações aos caprichos de ideologias ou de ideais perversos.

João José Brandão Ferreira in «Em Nome da Pátria».

16/03/2013

Guerra Justa


Durante séculos, o pensamento católico procurou um meio-termo possível entre a imoralidade de deixar sem defesa o bem-comum e a imoralidade da violência desproporcionada. A Igreja sempre procurou humanizar os conflitos armados tidos como um mal. Foi no seguimento desse princípio que surgiram as leis da cavalaria, as tréguas de Deus, os usos da guerra, o tratamento de prisioneiros, etc., que estão na origem das modernas leis da guerra. O dever de defender uma cidade era evidente para a maior parte dos ministros religiosos, já Santo Agostinho afirmava que «ninguém negará ao sábio o direito de fazer a guerra justa ao inimigo», enquanto que Santo Ambrósio, por seu lado, considerava justa a guerra por ofensas à honra. Estavam assim lançados os fundamentos da guerra justa, cuja primeira definição foi avançada pelo bispo de Hipona: «Costumam definir-se guerras justas as que vingam injustiças».

Brandão Ferreira in «Em Nome da Pátria».

09/03/2013

António José de Brito em entrevista

Entrevista de Dezembro de 2009 com o Professor António José de Brito para o projecto Direitas Radicais em Portugal:








03/03/2013

Deu-se a reacção


Deu-se a reacção. Mas quem reagia? Criaturas das mesmas classes que governavam. Criaturas, portanto, com a mesma hereditariedade, vivendo no mesmo meio que os governantes. Criaturas, portanto, moral e intelectualmente idênticas a eles, pois seria o maior dos milagres se, com idêntica hereditariedade e com idêntico meio fossem diferentes. Um ou outro reagia em virtude de [...] e carácter, de legítima e honesta indignação moral. Mas nenhum partido podia reagir senão corruptamente, porque, quando uma sociedade é corrupta, pode haver, e há, indivíduos que o não são; mas não há agrupamentos que o não sejam, ou, se os há, não podem ter acção social, pois só corruptamente se pode agir numa sociedade corrupta. Um partido político, a ser são, tende a não agir, o que é uma contradição com o próprio conceito de partido político; a agir, terá de se integrar nos modos de acção do meio, tinha, na expressão mais moral, que se adaptar ao meio.

Fernando Pessoa in «Da República».

24/02/2013

Nem só de pão vive o Homem


Estes três patrimónios [físico, material e espiritual] têm uma importância capital e uma nação deve protegê-los aos três. Mas a importância maior deve ser atribuída ao património espiritual, porque apenas ele transporta o selo da eternidade, porque apenas ele subsiste através dos séculos.
O que sabemos dos gregos antigos não é o resultado da sua condição física, por bela que fosse – disso apenas restam as cinzas – nem mesmo da sua fabulosa riqueza – mesmo supondo que ela tivesse podido perdurar – mas unicamente da sua cultura.
Uma nação vive para a eternidade pelos conceitos que escolheu, pela sua honra e pela sua cultura. É a razão pela qual os chefes de Estado não devem julgar e trabalhar tendo apenas em conta os interesses físicos ou materiais da nação, mas considerando a linha histórica, a honra do país e os seus interesses exteriores.
Em consequência disso o que se exige não é "pão a todo o custo" mas "honra a todo o custo".

Corneliu Zelea Codreanu in «Guarda de Ferro».

21/02/2013

A Internet alterou o curso na batalha das ideias


4ª Tese: O aparecimento e desenvolvimento da Internet alteraram o curso na batalha das ideias.
A «revolta das elites» foi imposta aos povos por intermédio dos grandes meios de comunicação centrais: televisões, rádios e grandes jornais; o seu método de funcionamento é vertical: a informação parte de um emissor e desce até um receptor.
A Internet inverte a relação de forças entre o centro e a periferia. Na Internet cada um é ao mesmo tempo receptor e emissor.
O monopólio da imprensa é quebrado. Jean-Paul Cluzel, presidente da Radio France, constatou-o desiludido no «Les Échos» de 14 de Outubro de 2008: «Nos sítios de Internet, os internautas, jovens em particular, encontraram uma informação bruta que lhes parece mais objectiva e honesta».
Diversas características da Internet contribuem para quebrar o monopólio da ideologia única difundida pela hiper-classe mundial:
– Primeiro, a Internet permite a expressão da opinião privada que, por natureza, é mais livre que a opinião pública; o uso de pseudónimos pode ainda reforçar essa atitude; e os tabus impostos pela vida quotidiana desvanecem-se na Internet;
– Em seguida, a Internet permite uma propagação viral das mensagens; propagação que pode ser extremamente rápida e que força cada vez mais os meios de comunicação centrais a divulgar informações inicialmente ocultadas;
– Por fim, os motores de busca não têm – ainda – consciência política. São neutros, o que garante a factos e análises não-conformes uma boa esperança de vida e de desenvolvimento na Internet.

Jean-Yves Le Gallou in «Douze thèses pour un gramscisme technologique», 2008.

19/02/2013

Sobre a tradição e a ciência náutica


Efectivamente, não concordo com a interferência decisiva dos judeus peninsulares nesse período áureo da nossa existência nacional, embora à célebre Junta dos Estrólicos, que funcionava junto de El-Rei D. João II, pertencessem vários astrónomos hebreus. E não concordo porque, posta a questão em termos gerais, é bom recordar que Renan, na Histoire Générale et Systèmes Comparés des Langues Sémitiques assegurava, com a autoridade da sua larga competência filológica, que a raça semita se define quase unicamente por caracteres negativos. O semita individualiza-se, na verdade, não por qualidades criadoras, que não possui, mas antes por preciosos recursos de assimilação que ele valoriza excepcionalmente. Não dispõem assim duma arte, ou duma civilização, no sentido alto da palavra. Não é outro o juízo de Renan, ao escrever, no pequeno estudo De la Part des Peuples Sémitiques dans l'Histoire de la Civilisation, «que o negócio e a indústria foram pela primeira vez exercidos em grande escala pelos povos semitas, ou pelo menos falando uma língua semita, – os fenícios. Na Idade Média, os árabes e os judeus tornaram-se também os senhores do nosso comércio. Todo o luxo europeu, desde a antiguidade até ao século XVII, veio-nos do Oriente. Eu digo o luxo, e não a arte porque duma ao outro lado está o infinito a separá-los».
Entende-se já porque eu não adiro incondicionalmente à tese do senhor Bensaúde. O Ocidente possuía uma ciência náutica remotíssima, com memória na Odyssea. A navegação aqui sobe aos fins do neolítico. É donde derivam as tradições apagadas que enchem de mistério e encanto o périplo decalcado por Rufius Festus Avienus na Ora Marítima. Claro que a estas tradições se ligaria forçosamente uma arte de navegar. Não é por literatura que Séneca afirma não ser Thule o ponto final do Orbe (non erit terris ultima thule), conforme o pretendia a geografia antiga. O mar imenso, o oceano sem limites, é nos Errores de Ulisses que nos aparece pela primeira vez, se não me engano.
E tão ocidentais são as impressões contidas no Nostos, tão atlânticas elas são, que, localizando o poema de Homero no declinar resplendente de Micenas, as moradas que lá encontramos descritas não guardam em nada a sumptuosidade da casa típica dos átridas! A habitação de Ulisses é mais uma cabana nórdica, tal como no-la sugerem as sagas medievais, do que o palácio dum rei, com o requinte egeano os sabia erigir.
Foi, pois, o Levante que recebeu o influxo ocidental no conhecimento das coisas do mar. No descalabro da civilização do Cobre, quando nós mergulhamos na sombra, para só ressurgirmos depois de Roma, alguma coisa subsistiria no entanto. Em forma de conto, em forma de superstição, naturalmente. É que ao espírito empreendedor do ocidental correspondera, decerto, uma regra, como que uma direcção, tirada do convívio dos astros na dimensidão das águas. Com o adiantamento das horas da história, essa herança perdida passa para o património da astrologia. A astrologia é exercida na Idade Média, cavalheiresca e militante, por judeus e árabes, visto que a defesa do europeísmo, expressa na fé da Igreja, impunha aos cristãos o uso exclusivo da espada. Nós não ignoramos por outro lado que a chamada ciência hebraica e islamita não é mais do que uma apropriação da filosofia clássica, na sua forma racionalista, – o Helenismo. É a altura de ouvirmos de novo Renan.
«Fala-se muitas vezes duma ciência e duma filosofia árabe, – observa ele; na realidade, durante um século ou dois na Idade Média, os árabes foram nossos mestres, mas só enquanto não conhecemos os originais gregos. A ciência e a filosofia árabe nunca deixaram de ser uma mesquinha tradução da ciência e da filosofia grega. Desde que a Grécia autêntica despertou, essas míseras traduções ficaram sem sentido e não foi sem razão que os filólogos da Renascença iniciaram contra elas uma verdadeira cruzada. De resto, olhando de perto, essa ciência não tinha nada de árabe. O seu fundo é puramente grego, e entre os que a criaram não se aponta um único semita. Eram espanhóis e persas, escrevendo o árabe. O papel filosófico dos judeus na Idade Média é também o de simples intérpretes.
A filosofia hebraica desta época é a filosofia árabe sem modificações. Uma página de Roger Bacon encerra mais espírito científico do que toda essa ciência em segunda mão, respeitável, sem dúvida, como um anel de tradição, mas despida de grande originalidade».
Fui longo demais na transcrição de Renan. Mas o seu depoimento ajuda-nos a invalidar a tese geral do rabino Yahuda e ensina-nos, muito particularmente, como no caso das Descobertas a influência hebraica seria resumida, ao contrário do que pretende o senhor Joaquim Bensaúde. Ninguém duvida que da Junta dos Estrólicos «faziam parte israelitas, Físicos do Rei, mas lá estava também o bispo de Ceuta, D. Diogo Ortiz».
E tanto as minhas reflexões ao trabalho do senhor Bensaúde correspondem ao aspecto definitivo do problema, que o astrolábio náutico não é mais do que a simplificação do astrolábio plano que os árabes recolheram dos gregos e introduziram na Península. De quem o recolheriam os gregos na sua indicação originária senão das civilizações sepultas em Creta e em Micenas, da extinta talassocracia do Egeu, impulsionada cá do Ocidente, talvez da misteriosa Társis de mais uma passagem da Bíblia? Assim não nos espanta que a construção do primitivo astrolábio que é o plano, se estude já minuciosamente nos Libros del Saber de Astronomia de Afonso, o Sábio de Castela. Há a acrescentar, ainda em favor do meu ponto de vista, que, na necessidade de se ordenarem tábuas de declinação do sol, para o efeito do cálculo das latitudes, do nosso D. João II é que partira a ideia, encarregando ele e os seus estrólicos de resolverem a dificuldade.

António Sardinha in «Na Feira dos Mitos».

07/02/2013

Homens de acção?


Como é possível definir como «homem de acção» quem, no seu trabalho de gestor, faz cento e vinte telefonemas por dia para vencer a concorrência? É um homem de acção aquele que é louvado porque aumenta os ganhos da própria empresa, viajando para os países subdesenvolvidos e aproveitando-se dos seus habitantes? Na nossa época são geralmente estes vulgares dejectos sociais a serem julgados homens de acção. Atolados nesta sujidade estamos obrigados a assistir à decadência e à morte do modelo de Herói, que exala já um fétido odor.

Yukio Mishima in «Introduzione alla Filosofia dell'Azione».

05/02/2013

O significado dos governos democráticos


Estes politiqueiros, com as suas famílias e os seus agentes, têm necessidade de dinheiro: dinheiro para as diversões, para manter a clientela política, para os votos e para comprar consciências humanas. A seguir as suas hordas correrão e despojarão o País. É isto o significado, em última análise, do seu governo e da sua obra. Esgotarão o orçamento do Estado e dos Municípios; agarrar-se-ão como carrapatos aos conselhos de administração de todas as empresas, das quais receberão percentagens de dezenas de milhões sem fazerem trabalho algum, subtraindo-o do suor e do sangue dos trabalhadores esgotados.
Estarão enquadrados nos conselhos dos banqueiros eleitos, dos quais receberão mais milhões e dezenas de milhões como preço da estirpe que venderam.
Criarão negócios escandalosos que assombrarão o mundo; a corrupção estender-se-á à vida pública do País como uma praga, desde o mais ínfimo criado até aos ministros. Vender-se-ão a qualquer um...

Corneliu Zelea Codreanu in «Guarda de Ferro».

01/02/2013

Nos 105 anos do Regicídio


Um facto sumamente grave preocupava, no entanto, a atenção dos que isoladamente contemplavam a integral concatenação dos acontecimentos. Esse facto era a decomposição da sociedade, lentamente, surdamente, progressivamente contaminada pela mansa e sinuosa corrupção política. Quantos sintomas inquietantes! A indisciplina geral, o progressivo rebaixamento dos caracteres, a desqualificação do mérito, o descomedimento das ambições, o espírito de insubordinação, a decadência mental da imprensa, a pusilanimidade da opinião, o rareamento dos homens modelares, o abastardamento das letras, a anarquia da arte, o desgosto do trabalho, a irreligião, e, finalmente, a pavorosa inconsciência do povo.

Ramalho Ortigão in «Rei D. Carlos - O Martirizado».

31/01/2013

Um outro género de homens


Que maldição o atingiu [o Ocidente] para que, ao final de seu desenvolvimento, só tenha produzido esses homens de negócios, esses comerciantes, esses trapaceiros de olhar nulo e sorriso atrofiado que se encontram por toda parte, tanto na Itália quanto na França, tanto na Inglaterra quanto na Alemanha? É essa gentalha o resultado de uma civilização tão delicada, tão complexa? Talvez seja preciso passar por isso, pela abjecção, para poder imaginar um outro género de homens.

Emil Cioran in «História e Utopia».