29/06/2015

Pecados que pedem vingança a Deus


Quais são os pecados que bradam ao Céu e pedem vingança a Deus?
Os pecados que bradam ao Céu e pedem vingança a Deus são quatro:
1º homicídio voluntário;
2º pecado impuro contra a natureza;
3º opressão dos pobres, principalmente órfãos e viúvas;
4º não pagar o salário a quem trabalha.

Por que se diz que estes pecados pedem vingança a Deus?
Diz-se que estes pecados pedem vingança a Deus, porque o diz o Espírito Santo, e porque a sua malícia é tão grave e manifesta, que provoca o mesmo Deus a puni-los com os mais severos castigos.

Adaptado de «Catecismo Maior de São Pio X».

27/06/2015

A Carta da Terra e a Nova Ordem Mundial (II)



A Carta da Terra é um manifesto materialista, pagão, panteísta, e que pretende fornecer uma base ética para um rígido controlo da população mundial. Os especialistas disfarçam de boas intenções o projecto de transformar grandes áreas do planeta em armazéns de matérias-primas que garantam a manutenção dos opulentos hábitos de consumo de uns poucos privilegiados. Se não fosse assim, por que a Carta mandaria adoptar – com a usual linguagem anti-natalista da ONU – "modos de reprodução que respeitem os direitos humanos e as capacidades regenerativas da Terra"? Serão impostas, em certas áreas do planeta, quotas populacionais para preservar os recursos naturais?
A Carta da Terra é um paradigma da reengenharia social anti-cristã que promove a perspectiva de género e a saúde sexual e reprodutiva – homossexualismo e aborto químico ou cirúrgico – como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável.
A Carta da Terra é a manifestação desse novo humanismo que visa preservar as florestas e salvar de um suposto extermínio as focas, baleias, gorilas, peixes-boi, leopardos, elefantes, as várias espécies de borboletas, ursos e cabras-montesas, e, por outro lado, não apenas justifica, mas obriga a perseguir e provocar um verdadeiro holocausto com leis que autorizam o abominável crime do aborto em nome dos direitos humanos, da paz, da igualdade, da harmonia universal. Não é o assassinato de milhões de inocentes o maior ataque à paz e aos direitos humanos?
"A Terra, cada forma de vida e todos os seres vivos possuem um valor intrínseco. Deve ser assegurado o seu respeito e cuidado", diz a Carta no seu primeiro ponto. Será que esta declaração reconhece que apenas os homens detêm os direitos de proprietários e guardiões inteligentes e nobres com que lhes dotou o Criador? Ou, pelo contrário, as pedras, plantas e animais têm os mesmos "direitos" que o homem?
Uma vez desconhecida a acção criadora de Deus, fonte da dignidade humana, não há dificuldade em dizer que todas as criaturas, sejam racionais, irracionais, animadas ou inanimadas, são iguais em dignidade. Um orangotango, um homem e uma espécie vegetal valem o mesmo. "Exigimos a extensão da comunidade de iguais a todos os hominídeos: os seres humanos, os bonobos, chimpanzés, gorilas e orangotangos", afirma o primeiro item da Declaração do Grande Símio, que circula pelo mundo à procura de consenso para se tornar um documento oficial das Nações Unidas. Mais ainda, a agenda espiritual da Carta, "fruto de debates com líderes religiosos", impõe dois mandamentos: guardar reverência pela Terra e pelo Cosmos, e respeitar as Miríades de Espécies.
A Carta também responde a uma ideologia que cultiva várias formas de materialismo pseudo-religioso, próprias das mitologias orientais, do indigenismo e de estranhos esoterismos, tornando-se um instrumento de descristianização.
Como alguém que conserva num zoológico um orangotango albino, este novo humanismo procura preservar o que ele chama de povos originários com a esterilização prévia para que não cresçam mais do que o necessário. E, como se isso fosse pouco, pretende que sejam reconhecidos os seus direitos de retornar às suas práticas religiosas ancestrais: uma maneira de apagar e, em outros casos, impedir a evangelização.
O processo da Carta da Terra já tem mais de quinze anos, com actividades nos cinco continentes, sendo significativo, por exemplo, o número de apresentações da Carta em Espanha e no México. A estratégia consiste em apresentá-la em congressos e foros, âmbitos parlamentares e de governo, procurando adeptos para o consenso universal. É notável como tentam, com muita paciência e perseverança, a adesão de municípios de grandes e pequenas cidades e de legislaturas regionais, ao mesmo tempo que tentam a incorporação do documento em currículos académicos.
Entre os indivíduos e associações que procuram aderir ao consenso, estão políticos e financiadores de todos os níveis, bem como comunidades religiosas católicas e instituições e autoridades de outras denominações cristãs.
(...)
A UNESCO incorporou plenamente a Carta da Terra em 2003, atribuindo-lhe a categoria de instrumento educativo em Abril de 2005, no Projecto de Aplicação Internacional da Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (EDS). Mas, mesmo antes disso, no Fórum do Milénio das ONGs (2000), organizado pelas Nações Unidas, a Carta foi listada entre os documentos que os participantes do Fórum se comprometeriam a impor à sociedade global.

Pe. Juan Claudio Sanahuja in «Poder Global e Religião Universal», 2010.

25/06/2015

Monarquia democrática, para quê?


Entre Monarquia constitucional parlamentar e República parlamentar constitucional não distingo diferença, nem considero que ela sequer exista, a não ser historicamente, entre o princípio da eleição e o da hereditariedade, tendo eu por tão precários os acasos do voto como os do nascimento.
O que me repugna num e noutro dos dois regimes é a embusteira tirania do sufrágio em que ambos se baseiam, e a consequente interferência da néscia razão da urna na solução de problemas tão melindrosamente científicos como o da governação dos homens.
O votismo e o parlamentarismo são, em Portugal pelo menos, os agentes mais perniciosamente destrutivos de toda a competência administrativa.

Ramalho Ortigão in «Últimas Farpas», 1911.

24/06/2015

22/06/2015

A Carta da Terra e a Nova Ordem Mundial (I)


A Carta foi idealizada no início dos anos 90 por duas organizações: a Cruz Verde Internacional, de Mikhail Gorbachev, e o Conselho da Terra, dirigido por Maurice Strong. Gorbachev declarou, em 1997: "O mecanismo que usaremos será a substituição dos Dez Mandamentos pelos princípios contidos na presente Carta ou Constituição da Terra". A Carta foi patrocinada desde o início por Federico Mayor, Director Geral da UNESCO de 1987 a 1999.
Quais são os princípios da Carta? O prefácio afirma: "A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva como uma comunidade de vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra proveu as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de resistência da comunidade de vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável, com todos os seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global, com os seus recursos finitos, é uma preocupação comum a todos os povos. A protecção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado".
Os postulados agnósticos e panteístas da Carta seriam a base da nova sociedade: "O surgimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir um mundo democrático e humanitário. Os nossos desafios ambientais, económicos, políticos, sociais e espirituais estão interrelacionados, e juntos podemos forjar soluções inclusivas". A visão totalizadora do desenvolvimento sustentável, impregnada da linguagem vaga do holismo Nova Era, aparece de vez em quando: "Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas. Assegurar que as comunidades garantam, em todos os níveis, os direitos humanos e as liberdades fundamentais, e proporcionem a cada um a oportunidade de desenvolver o seu pleno potencial".
Para isso, nos termos da Carta, torna-se imperativo: "Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial preocupação com a diversidade biológica e os processos naturais que sustentam a vida. Adoptar, em todos os níveis, planos de desenvolvimento sustentável e regulamentos que permitam incluir a conservação e a reabilitação ambientais como parte integrante de todas as iniciativas de desenvolvimento".
Não poderia faltar o mandamento ecologista de controlar a natalidade para salvar o planeta, próprio do paradigma do desenvolvimento sustentável: "Adoptar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário", além de outros imperativos que colaboram directamente com as políticas do anti-natalismo compulsório e com a reengenharia anti-cristã da sociedade: "Afirmar a igualdade e a equidade de género como pré-requisito para o desenvolvimento sustentável e garantir o acesso universal à educação, o cuidado à saúde e a oportunidade económica (...). Garantir os direitos humanos das mulheres e das meninas, e acabar com toda a violência contra elas (...). Garantir o acesso universal aos cuidados de saúde reprodutiva, promovendo a reprodução responsável. Adoptar estilos de vida que acentuem a qualidade de vida e a suficiência material num mundo finito".
Para concluir, a imposição de dobrar-se às Nações Unidas e à Nova Ordem Mundial adoptando a Carta como o fundamento da nova religião global: "Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar o seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir com as suas obrigações sob os acordos internacionais existentes e apoiar a implantação dos princípios da Carta da Terra, através de um instrumento internacional juridicamente vinculante sobre o meio ambiente e desenvolvimento".
Na Carta da Terra, Deus está totalmente ausente. Não aparece nem mesmo como uma "hipótese" conciliadora. Isso faz com que a proposta de defesa da Vida e da Terra se apoie em fundamentos equivocados. E sabemos que defender uma realidade com argumentos e razões que não são correctos e adequados, é a melhor maneira de deixar esta realidade completamente indefesa, e que afirmá-la com uma base errónea é a maneira mais directa de deixá-la sem apoio.
A visão cristã é inconciliável com o imanentismo panteísta da Carta. Na Carta da Terra o homem é uma partícula do universo em pé de igualdade com um animal ou um vegetal, incapaz de conhecer qualquer realidade que não seja material. Não é o centro da Criação, criado como sábio administrador de Deus. (...)
Na Carta da Terra, o ser humano – homem e mulher – parece ser constantemente carregado pela corrente de uma evolução que não tem causa eficiente nem final, sem origem ou objectivo transcendente. O destino comum que daria unidade à grande diversidade na qual se encontra indiscriminadamente imerso não é a Parusia, a vinda do Senhor Jesus na Glória, a Transfiguração do Cosmos; é mais propriamente uma permanência nesta Terra, que exige uma solidariedade dos seres vivos a fim de construir e perpetuar uma bem-aventurança intramundana. As sucessivas gerações usufruirão desta felicidade ao melhor estilo das utopias milenaristas ou materialistas.
Sob esse ponto de vista, o desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade assume o carácter de uma pseudo-categoria teológica que aspira a ser critério de moralidade universalmente vinculante. Isso tudo constitui uma profunda negação da escatologia cristã e um retorno ao pensamento mágico promovido pelas correntes da Nova Era.


Pe. Juan Claudio Sanahuja in «Poder Global e Religião Universal», 2010.

20/06/2015

O testemunho de um dissidente soviético


Palavras de quem sofreu directamente a brutalidade do sistema comunista:

Se me perguntarem se eu quero propor ao meu país como modelo o Ocidente, tal como hoje se apresenta, devo responder com franqueza: não, não posso recomendar a vossa sociedade como ideal para a transformação da nossa. (...) Uma sociedade não pode permanecer no fundo do abismo sem leis, como é o nosso caso, mas será irrisório manter-se à superfície lisa dum juridismo sem alma, como sucede convosco. Uma alma humana acabrunhada por muitas dezenas de anos de violência aspira a algo de mais elevado, mais quente e mais puro do que o que pode propor-lhe a existência de massa no Ocidente, anunciada, como se fosse um cartão-de-visita, por uma pressão enjoativa de publicidade, pelo embrutecimento da televisão e por uma música insuportável.

Aleksandr Solzhenitsyn in «O Declínio da Coragem», 1978.

17/06/2015

A ideologia do género explicada em 2 minutos


Transcrição:

Um menino e uma menina. São o mesmo? À primeira vista, sabemos que não são. Meninos e meninas não são o mesmo. São diferentes. São diferentes quando são bebés. São diferentes quando crescem. E, sobretudo, são diferentes por dentro. Mas, para alguns, eles são diferentes, não por terem corpos diferentes. E sim, porque os pais, a família, a sociedade, a escola, o mundo inteiro os obriga a serem diferentes. Uma menina é menina, porque foi obrigada a ser menina. Um menino é menino, porque foi obrigado a ser menino. E como são diferentes, não são iguais. Mas, segundo alguns, isto gera um problema. A desigualdade entre meninos e meninas, que mais tarde se converterá em desigualdade entre homens e mulheres. Como resolvem este problema? Eliminando toda a diferença entre meninos e meninas, e actuando como se fossem o mesmo. Assim tiveram que encontrar uma forma para que os pais, a família, a sociedade e a escola, deixem de obrigar os meninos a serem meninos e as meninas a serem meninas. Mas como os pais, a família e a sociedade não aceitam isto, alguns chegaram à conclusão de que a escola é a melhor forma de alcançarem os seus objectivos. Porque na escola, longe dos pais e da família, podem reprogramar o que é ser um menino e uma menina. Sim, o papá pode usar vestidos femininos e batom nos lábios. Sim, uma mulher pode conduzir camiões. Sim, um bebé pode ter "duas mamãs" ou "dois papás". A escola deve, segundo alguns, desaparecer com as diferenças naturais entre o masculino e o feminino. Deste modo, criando uma confusão, meninos e meninas são idênticos e a desigualdade já não é mais um problema. Em seguida, como um menino sabe se é um menino?! Vamos lá... Depois de misturar tudo, e dizer que todos são idênticos, um menino já não sabe se é um menino e uma menina já não sabe se é uma menina. Solucionámos o problema da igualdade? Não. Somente criámos outro problema. O problema da identidade. Não queremos uma escola que confunda as crianças. Queremos que as crianças aprendam a ler, a escrever e a fazer contas na escola. Queremos escolas que formem cidadãos críticos por meio da cultura. Deixem as meninas serem meninas! Deixem os meninos serem meninos!

10/06/2015

São Miguel Arcanjo, Custódio de Portugal


De entre as nações, que se sabe terem festejado liturgicamente o seu Anjo Tutelar, Portugal é a que mantém tal devoção, com culto oficializado, há mais tempo, sendo também a única a ter tido o privilégio da sua assistência epifânica (em Fátima, no ano de 1916).
Alguns autores estribados numa tradição, segundo a qual Afonso Henriques, após ter desbaratado Albaraque nos campos de Santarém, teria designado São Miguel como tutelar do Reino, crêem poder identificar esse Arcanjo com o Anjo Custódio de Portugal. Essa identificação, já anteriormente ensaiada por distintos memorialistas, havia de tornar-se quase consensual durante o consulado miguelista (1828-1834).
As aparições de Fátima têm, igualmente, servido para fundamentar a assunção, porquanto, alegam os proponentes dela, o Anjo da Paz é, na liturgia eclesial, o próprio São Miguel (Angelus pacis Michael).

Manuel J. Gandra in «O Anjo da Saudade».

§

Atenção: Este autor e esta obra não são inteiramente recomendáveis. A passagem aqui citada é divulgada apenas pela informação verídica que contém.

08/06/2015

A grande apostasia e a "falsa igreja"

Pe. Leonardo Castellani

Vem-me à memória a grande apostasia anunciada no Apocalipse e recordo especialmente um romance do Pe. Leonardo Castellani, Sua Majestade, Dulcineia.
Nesse romance apocalíptico, Castellani retrata a igreja infiel, a igreja apóstata dos últimos tempos, perseguidora da Igreja de Cristo que se vê reduzida a uns poucos fiéis. Os hierarcas corruptos dessa caricatura de igreja, subservientes ao poder político, mendicantes de protagonismo temporal, bajuladores do Anti-Cristo, tinham substituído, diz Castellani, as três virtudes teologais – Fé, Esperança e Caridade – pela prosperidade, democracia e doçura, iludindo assim a maioria dos baptizados, porque o Demónio já não estava interessado em matar, mas, através desses falsos profetas, corromper, envenenar, falsificar.
Como dizia Santo Agostinho: "Como aos nossos pais foi necessária a paciência contra o leão, assim também a nós é necessária a vigilância contra o dragão. Nunca cessa a perseguição à Igreja, tanto da parte do leão, quanto da parte do dragão, e deve-se temer tanto mais quando engana, que quando se enfurece. Noutro tempo, incitava os cristãos a renegar Cristo; neste, ensina a negar Cristo. Antes impelia, agora ensina. Então, usava de violência, agora, de insídias; então, escutava-se rugir, e agora, apresentando-se com aparente mansidão e rondando, é dificilmente percebido" (Comentários aos Salmos).

Pe. Juan Claudio Sanahuja in «Poder Global e Religião Universal».

04/06/2015

A procissão do Corpo de Deus em Lisboa

Procissão do Corpo de Deus na Lisboa quatrocentista.

A procissão do Corpo de Deus faz-se há anos com uma pompa e solenidade, que excede tudo o que se pratica nos outros lugares da Cristandade.
As ruas, por onde passa, estão juncadas de verdura e de flores, e guarnecidas de tropa. As casas estão cobertas de parte a parte na altura dos telhados de damasco e carmesim, forrado por cima de toldos de linho. De distância a distância vêem-se grandes lustres e magníficos altares de descanso.
Há neste dia no Terreiro do Paço e no Rossio uma colunata de madeira em arcada muito larga e muito elevada, em forma de algo de triunfo todo pintado, e ornado de belos painéis, por baixo do qual passa a procissão, como em todo o resto do trânsito, a coberto das injúrias do tempo. As casas estão armadas de seda; às janelas vêem-se as damas riquíssimamente enfeitadas e é defeso aos homens aparecer às janelas.
El-Rei assiste à cerimónia acompanhado de todos os grandes da Corte, e precedido de todas as confrarias, dos cavaleiros de Cristo, de Avis e de São Tiago, de todas as ordens eclesiásticas, e do Patriarca com seu clero, a que dão grande realce os principais mitrados.
A Rainha nesta ocasião vai para casa do Ministro, a qual está situada de maneira que Sua Majestade fica no centro da procissão; porque a descobre ao longe vindo da esquerda, donde se estende depois pela grande rua dos ourives do ouro, que está em frente das janelas que ela ocupa; e depois vê-se dar volta pela rua dos mercadores, que lhe fica à direita. Esta procissão mete tanto povo que há já uma boa parte de volta antes da outra ter acabado de desfilar neste sítio; de maneira que a Rainha, descobrindo a procissão toda de ponta a ponta a igual distância das janelas, que ocupa, vê-a assim em forma de cruz, formando um soberbo espectáculo.

Pierre Prault in «Description de la ville de Lisbonne», 1730.

02/06/2015

Santa Hildegarda e as classes sociais


Interrogada por que só admitia no seu convento damas de alta linhagem, quando o Senhor se rodeara de gente humilde, escreveu Santa Hildegarda de Bingen:

Deus vela junto de cada homem para que as classes baixas nunca se elevem sobre as altas, como fizeram outrora Satanás e o primeiro homem, que quiseram exaltar-se acima do seu próprio estado.
Quem há que guarde num só estábulo todo o seu rebanho, bois e jumentos, ovelhas e carneiros? Por isso devemos velar para que o povo não se apresente todo misturado num só rebanho. De outro modo produzir-se-ia horrorosa depravação dos costumes, e todos se dilacerariam mutuamente, levados pelo ódio recíproco ao ver como as classes altas se rebaixariam ao nível das classes baixas, e estas se alçariam até a altura daquelas.
Deus divide o Seu povo sobre a Terra em diferentes classes, como no Céu classifica os Seus anjos em diferentes grupos. Porém Deus ama a todos igualmente.

31/05/2015

Repreender ou não repreender?


Um liberal dito católico costuma dizer que repreender um superior em público é necessariamente pecar contra o 4º Mandamento. Segundo o sujeito, as repreensões devem ser sempre em privado. São Tomás de Aquino, Doutor da Igreja, discorda:

Deve observar-se, porém, que se a Fé estiver em perigo, um subordinado deve repreender o seu prelado, mesmo publicamente. Por isso, Paulo, que estava sujeito a Pedro, o repreendeu em público, devido ao perigo iminente de escândalo com respeito à Fé.
São Tomás de Aquino in «Summa Theologica», Parte II-II, Questão 33, Artigo IV.

Não confundir, porém, uma repreensão legítima com desonra. Essa, sim, seria pecado.

30/05/2015

São Pio X sobre os padres modernistas

O "porreiro" Papa Francisco.

Procuram lisonjear os ouvintes "que são movidos pelo prurido da novidade", contanto que mantenham as igrejas cheias, embora as almas não sejam curadas por permanecerem vazias. Por isso não falam nunca do pecado, nunca dos novíssimos, nunca de outras verdades gravíssimas que poderiam abalar a salvação, mas falam somente "com palavras de bajulação"; e isso o fazem também com eloquência mais de tribunal do que de apóstolos, mais profana do que sagrada, atraindo para eles os aplausos; esses já haviam sido condenados por São Jerónimo, quando escreveu: "Quando tu ensinas em assembleia, seja suscitado não o aplauso do povo, mas o arrependimento; o teu louvor sejam as lágrimas dos ouvintes".

Papa São Pio X in «Sacrorum Antistitum», 1910.

28/05/2015

Mente sã em corpo são


A educação é a formação do indivíduo, entendendo por isso o desenvolvimento integral e harmonioso de todas as suas faculdades. O homem possui inteligência e ela deve ser orientada pela verdade, possui vontade, que deve ser dirigida para o bem, possui corpo, que se deve tornar vigoroso e saudável... Quem encara a educação intelectual como um objectivo, está enganado... De pouco serve a ciência se não ajuda o homem a tornar-se melhor...

António de Oliveira Salazar in «A Minha Resposta», 1919.

25/05/2015

A Maçonaria, a Constituição e a Guerra Civil (II)

D. Pedro, o mação.


Após alguns anos, o Imperador do Brasil, D. Pedro, perde o trono e decide voltar para a Europa, banir o "usurpador" [D. Miguel] e proclamar rainha a sua filha, D. Maria. Tentativa ousada e, aparentemente, sem nenhuma hipótese de sucesso – pois D. Miguel era o Rei legítimo e reinava tranquilamente há alguns anos, adorado pela maioria do povo. Mas D. Pedro era apoiado por um grupo de exilados políticos e, sobretudo, pela Inglaterra – que não via, com certeza, com bons olhos, o reino católico e anticonstitucional de D. Miguel. O centro dos exilados políticos localizava-se em Inglaterra. Ali juntaram-se todos aqueles que, por convicção ou interesse, por espírito de aventura, por paixão ou, pura e simplesmente, por mero acaso, estavam do outro lado da barricada; por outras palavras, eram liberais, constitucionalistas e revolucionários. Entre eles, alguns homens políticos que desempenharam mais tarde papéis importantes no país: Palmela, Saldanha, Terceira. Verdadeiros ditadores do liberalismo, detestavam-se mutuamente e tentavam, sempre que tinham oportunidade, tornar-se, cada um deles, o dono absoluto do movimento.
(...)
Assim que D. Pedro chega à Europa, começam febrilmente as preparações para a guerra civil. Inglaterra e França dão-lhe todo o apoio. Sob um pretexto qualquer, a esquadra francesa aparece inesperadamente no estuário do Tejo e captura boa parte da frota portuguesa. Com esse golpe, D. Miguel não podia mais ousar uma tentativa de expedição contra os rebeldes da Terceira, fortificados nos Açores. Em Inglaterra, improvisa-se o exército libertador: alguns exilados, os desmobilizados das guerras napoleónicas, alguns aventureiros e mercenários. Vários tipos de homens, na sua maioria ingleses. Um deles, Doyle, excêntrico e fanfarrão (Oliveira Martins), proclama que tem de se fazer algo para a libertação "daqueles indígenas desgraçados" (those damn'd natives). Os indígenas eram os portugueses "aterrorizados" por D. Miguel. Em Londres apareciam cartazes com o seguinte texto: "Companhia comercial e colonial procura homens activos e inteligentes para trabalharem como fazendeiros no Brasil ou algures". As pessoas alistam-se sem saberem para onde é que iam ser enviadas. São empregues marinheiros ingleses e os seus capitães – todos com excelentes salários e contratos assinados. Há dinheiro suficiente. O Governo inglês põe à disposição de D. Pedro um empréstimo de 10.000 libras. Seguramente, intervém também um banqueiro judeu, Mendizábal. "Um banqueiro que era ao mesmo tempo um homem político e um fanático liberal. Todavia, como qualquer bom judeu, sabia conciliar o entusiasmo com os cálculos, sem arriscar a sua fortuna pelas suas ideias", escreve o historiador socialista Oliveira Martins.
Com dinheiro inglês compram-se alguns barcos e, no dia 7 de Julho de 1832, o exército de D. Pedro – cerca de 6.000 homens – desembarca e ocupa a cidade do Porto. (...) O Porto tem sido permanentemente um centro de insurreição. Os generais de D. Pedro tinham escolhido sabiamente o seu ponto de partida. Porém, a ocupação da cidade do Porto não traz consigo a revolução que D. Pedro e os seus partidários tinham esperado. Ninguém reage. Em todo o país reina a paz e D. Miguel pode organizar, em liberdade, o seu exército regular de 60.000 homens.
Mais do que nunca, Portugal está do seu lado. Os rebeldes fortificam-se no Porto e ficam a aguardar. São alimentados, por mar, pela esquadra inglesa. Os meses passam monótonos, sem nenhuma batalha decisiva. (...)
Exasperado pela inactividade, o comandante da esquadra rebelde, o inglês Napier, parte do Porto, no dia 2 de Julho de 1833 – passado um ano desde o começo da guerra civil – e encontra a esquadra de D. Miguel no Cabo de São Vicente. Bastam-lhe duas horas para consumar o ataque, afundando-a parcialmente e capturando os navios restantes, pois Napier era inglês, dinâmico e animado por um grande espírito de aventura. Alguns dias antes da batalha naval, parte das forças rebeldes cercadas no Porto tinha partido para o sul do país, ocupando o Algarve. Tinha-se iniciado uma série de golpes corajosos em pontos muito afastados uns dos outros, o que desorganizava a defesa do exército governamental, bastante abalado pela má condução das operações, pelo cerco insuficiente do Porto e pelos desentendimentos entre os generais. A 24 de Julho, o exército da Terceira entra em Lisboa, evacuada pelo exército de D. Miguel. As tropas governamentais não param de se retirar, embora o exército de D. Miguel tenha larga superioridade de efectivos. E quando atacam, fazem-no sem qualquer perícia, cometendo os maiores erros de táctica e estratégia. No princípio de Outubro, D. Miguel tenta reconquistar Lisboa, mas é derrotado. Também é vencido em Leiria, em Janeiro de 1834, em Almoster, em Fevereiro, em Viana, em Março, e as derrotas continuam uma após outra, embora o país esteja do seu lado, embora as suas tropas sejam valentes, embora quase ninguém o traia ou o abandone. Mas, por uma longa série de erros, sendo sempre perseguido pelo azar, tendo o infortúnio de surgirem em França e em Espanha movimentos liberais que auxiliam abertamente D. Pedro, D. Miguel perde, perante o invasor, a quase totalidade do país. Raramente se viu uma campanha militar, como esta, em que a má sorte estivesse sempre de um só lado. Contudo, o povo não aclamava D. Pedro. Por onde passava o exército "libertador", os mosteiros eram incendiados e o clero escorraçado.
Com alguns milhares de homens – tudo o que lhe restava – D. Miguel capitula a 26 de Maio de 1834, em Évora Monte, e explica ao seu exército porque é que foi quase forçado a pôr fim a uma guerra fratricida que demorara aproximadamente dois anos. Nas condições da capitulação mencionava-se igualmente o direito que tinham os "miguelistas" de regressarem sãos e salvos às suas terras. Mas esse pormenor provocou a indignação do grupo de revolucionários em Lisboa. (...)
Mal chegando a reinar em Lisboa, D. Pedro implementou os seus princípios demo-liberais. Expulsou os jesuítas e o Núncio Apostólico, suspendeu as relações com a Santa Sé. Mendizábal chegou a ser um ditador e um factótum: nomeava e substituía ministros, promulgava leis, fazia empréstimos em nome do Estado. Entretanto, com a morte de D. Pedro, desencadearam-se em todo o país massacres organizados contra os "miguelistas". Diariamente, centenas de pessoas foram assassinadas e as suas casas incendiadas, sem ninguém intervir. Um liberal que tinha lutado do lado dos contra-miguelistas, Marques Gomes, escrevia: "É uma tristeza dizê-lo, mas é bem verdade: os vencedores não foram generosos com os vencidos. Muitos dos vencidos de Évora Monte que, em virtude do decreto de amnistia de 27 de Maio, regressaram às suas terras, foram assassinados de maneira selvagem, em nome da liberdade... De nada serviram as medidas do Governo para se pôr termo a esses excessos; os crimes continuaram e, infelizmente, ainda por muito mais tempo". De acordo com a estatística de Franzini, num só ano de regime demo-liberal ocorreram 3.550 assassinatos e 4.900 saques. Em 1836, Passos Manuel, que nessa altura era ministro, declarou perante a Câmara: "De acordo com as informações das autoridades do país inteiro, constata-se que até hoje foram cometidos 16.000 assassinatos e mais de 7.000 casas foram despojadas". Acrescenta ainda que "os dados são incompletos". Oliveira Martins, o socialista, escreve em Portugal Contemporâneo: "O miguelista era uma vítima, um inimigo vencido. Era caçado tal como são caçados os lobos e qualquer ofensa anterior, qualquer crime, era punido com a morte, sem qualquer julgamento. Considerando-se os vencidos, os dirigentes máximos de uma soberania absoluta pagaram cem vezes mais aquilo que tinham recebido".
A guerra civil, em vez de terminar com a capitulação de Évora Monte, irá ainda continuar por muitos anos. Portugal fica abalado, desunido, vítima fácil das sociedades secretas. A derrota de D. Miguel não significou apenas a abolição da Monarquia Legítima, mas sobretudo a orientação de Portugal numa direcção anti-tradicionalista, onde a maçonaria desempenha um papel maior.

Mircea Eliade in «Salazar e a Revolução em Portugal».

24/05/2015

Sequência de Pentecostes


Vinde, ó Espírito Santo,
e mandai-nos, lá do Céu,
um raio da Vossa luz!

Vinde até nós, Pai dos pobres,
caudal de todos os dons,
e fulgor dos corações!

Ó Consolador supremo,
hóspede santo das almas,
e refrigério dulcíssimo!

No trabalho sois descanso,
a calma na turbação,
e sois bálsamo no pranto!

Inundai, ó luz santíssima,
os recessos mais profundos
das vossas almas fiéis!

Sem a Vossa protecção,
nada subsiste no homem
sem a jaça do pecado!

Lavai toda a impureza,
fecundai toda a aridez,
curai todas as feridas!

Curvai-nos o nosso orgulho,
fundi-nos o nosso gelo,
velai o nosso extravio!

Aos que confiam em Vós,
que são os Vossos fiéis,
dai os sete dons sagrados!

Coroai-lhes a virtude,
dai-lhes o porto da glória,
e a alegria que não finda!
Ámen. Aleluia.

Estevão Langton, arcebispo de Cantuária (século XIII).

23/05/2015

A Maçonaria, a Constituição e a Guerra Civil (I)

D. Pedro proclamando a independência do Brasil

A ameaça francesa terminou em 1814. "Livrámo-nos do exército francês que tem semeado entre nós ruínas, sangue, misérias, horrores e ideias perversas. Livrámo-nos do exército. Mas não das «ideias»", escrevia Alfredo Pimenta. Na verdade, só então começaram a notar-se os resultados da presença das tropas revolucionárias na Península. (...) Em 1820 surge uma insurreição militar no Porto que exige a substituição do Governo nomeado pelo Rei e o afastamento de Beresford. É o primeiro sinal de uma série quase infinita de insurreições, pronunciamentos, revoluções, contra-revoluções – a maioria realizada pelo exército ou contra o exército. O Rei D. João VI vê-se obrigado a regressar à pátria em 1821, após 14 anos de ausência.
No Brasil, deixa como regente o seu filho mais velho, D. Pedro, um jovem que se tinha formado nas fontes da ideologia revolucionária, que sonhava desempenhar o papel de um Bolívar e de impor à força, aos seus súbditos, as ideias liberais. Pouco tempo depois da partida do Rei D. João para a pátria, o regente D. Pedro declara a independência do Brasil, sendo aclamado imperador (12 de Outubro de 1822). A primeira ordem assinada pelo Imperador do Brasil é a reabertura da Loja do Grande Oriente. "D. Pedro não podia esquecer-se de que, segundo a expressão do Marechal, o acto de 12 de Outubro foi entièrement leur ouvrage" (Oliveira Lima). Com a perda do Brasil, o império colonial português sofrerá o golpe mais duro da sua história. É pelo menos estranho que esse golpe tenha sido realizado pelo príncipe herdeiro...
Alguns meses após a insurreição do Porto, (...) cria-se uma Junta do Governo provisório, que administra em nome do Rei e elabora, ao mesmo tempo, uma Constituição segundo os modelos francês e espanhol. Pouco antes do seu embarque, cedendo às insistências do príncipe herdeiro, D. João VI tinha jurado lealdade para com essa Constituição, em elaboração em Lisboa. (...) D. Pedro desempenhou igualmente neste caso o papel principal, confraternizando com os manifestantes que o aclamavam, na Praça Rossio do Rio de Janeiro, ao convencer o Rei a ceder.
Ao chegar a Lisboa, D. João VI será obrigado a aceitar as ordens da Junta que estabelece pormenorizadamente o processo do desembarque, sem solenidade ou manifestações, com um número certo de ovações para o Congresso, a Constituição, o Rei constitucional e a Família Real. D. João VI é prisioneiro do Congresso provisório, constituído por uma série de ambiciosos e iluminados da maçonaria que falavam, em plena Assembleia, do "Supremo Arquitecto". Alguns meses depois, a 1 de Outubro de 1822, o Rei é de novo obrigado a jurar perante a Constituição...
(...)
A 23 de Fevereiro de 1823, alguns meses após o Rei D. João VI, em Lisboa, ter de novo jurado lealdade à Constituição, iria surgir no norte do país a revolta do Conde de Amarante. A multidão gritava: "Viva o Rei absoluto! Morte à Constituição!" Ainda mal se tinha aclamado o movimento do Conde de Amarante, quando um regimento de infantaria se revolta, à saída de Lisboa. Em Vila Franca de Xira, os militares aquartelados tentam um movimento semelhante. O segundo filho do Rei, o infante D. Miguel, toma o comando das tropas, "jurando que ia libertar o Soberano das garras da maçonaria". D. João VI resiste algum tempo, mas acaba por prometer que dará ao país "uma nova ordem". Porém, essa promessa não acalmou a corrente contra-revolucionária. De modo que, a 30 de Abril de 1824, o infante D. Miguel tenta um novo golpe, como chefe da insurreição dos regimentos da capital. No manifesto dirigido às tropas, afirma que devia "triunfar a obra começada, dando-lhe uma estabilidade certa e destruindo de vez o bando pestilencial dos mações". No mesmo dia, o Infante proclamará aos portugueses: "Ou morremos na luta gloriosa em que estamos empenhados, ou cortamos de raiz o mal que nos abala, derrubando, de uma vez por todas, a infernal raça maçónica, antes que ela nos derrube".
Mas "a infernal raça maçónica" de que falava o infante D. Miguel era mais forte do que se assumia. O Corpo Diplomático de Lisboa, através de uma "intervenção vergonhosa" (Alfredo Pimenta), separa o Rei das forças de D. Miguel, isolando-o num barco inglês e obrigando-o a demitir o seu filho da função de comandante supremo do exército. A "Revolução de Abril" (Abrilada) falhou, graças à intervenção dos grandes poderes, e o infante D. Miguel embarca, a 13 de Maio, numa longa viagem ao estrangeiro. (...)
A 10 de Março de 1826, o Rei morre – morte inteiramente suspeita que alguns historiadores modernos atribuem às sociedades secretas. Certo é que D. João VI criou, através do afastamento do Infante, e sobretudo pelo seu testamento obscuro, uma situação que muito tem contribuído para a ruína de Portugal, pois esse testamento foi a causa da guerra civil. A época da verdadeira glória de D. João VI foi o seu período brasileiro, na criação do Estado moderno do Brasil. Ao regressar à metrópole, o Rei revelou sempre fraqueza e indecisão. Jurou lealdade à Constituição, embora tivesse chorado quando, por aquele ensejo, a multidão o aclamava com frenesim, no Rio de Janeiro. Assistiu com passividade às conspirações do seu filho mais velho, D. Pedro, em resultado das quais o Brasil se separou da pátria-mãe. Estava perfeitamente de acordo com as convicções e o movimento de D. Miguel, mas nem sempre teve a coragem de o defender. (...)
Sem qualquer dúvida, o verdadeiro herdeiro do trono era D. Miguel. D. Pedro era então Imperador do Brasil e as leis da Monarquia Portuguesa excluíam do trono um cidadão estrangeiro. D. Pedro tinha mesmo declarado guerra a Portugal e cometia actos de inimizade para com a sua antiga pátria. Por outro lado, num capítulo dos regimentos antigos exigia-se que o Soberano deveria residir em Portugal e D. Pedro permanecia no Brasil há 19 anos. Do mesmo modo, através de documentos vários, D. Pedro tinha definitivamente desistido dos seus direitos de primogénito.
Todavia, o Conselho de Regência reconhece na pessoa do Imperador do Brasil, D. Pedro, o Rei legítimo de Portugal – "e foi isso que abriu as portas à guerra civil" (Alfredo Pimenta). D. Pedro abdica a favor da sua filha, D. Maria da Glória, que decide dar em casamento ao seu irmão, D. Miguel. É uma situação confusa, absurda, que ninguém aceita.


Mircea Eliade in «Salazar e a Revolução em Portugal».

§

Nota 1: Sei que alguns monárquicos brasileiros, por ligações afectivas a D. Pedro, podem ficar melindrados com algumas palavras transcritas. Mas a Fé e a Razão dizem-nos para que se livrem desse afecto desordenado pela figura de D. Pedro, mas sem nunca desonrar os seus legítimos superiores.

Nota 2: Infelizmente Mircea Eliade – um estrangeiro – fez uso de alguma linguagem liberal, ao classificar o movimento miguelista como "insurreição", "revolta" ou "revolução". O justo e adequado seria chamá-lo de "restauração", uma vez que era disso mesmo que se tratava, de uma restauração da Ordem legítima. Peço por isso aos leitores que perdoem esse erro de linguagem.

Nota 3: Um liberal dito monárquico apontou como crítica ao texto o uso da expressão "regresso à pátria" de D. João VI, mas ao contrário do que sugere esse liberal, não há erro nenhum a apontar. Portugal e o Brasil eram de facto dois reinos distintos, unidos pela mesma coroa. Portanto quando se diz que D. João regressa à pátria, diz-se que regressa à sua terra natal ou terra de origem, isto é, à Metrópole.

20/05/2015

Doutrina da Igreja sobre a Pena de Morte

Rei David

Evangelho segundo São João:
Disse-Lhe então Pilatos: Não me falas? Não sabes que tenho poder para Te soltar e poder para Te crucificar? Jesus respondeu: Nenhum poder terias sobre Mim se do Alto te não fosse dado.

Catecismo Romano ou Catecismo de Trento:
Outra espécie de morte lícita é a que compete às autoridades. Foi-lhes dado o poder de condenar à morte, pelo que punem os criminosos e defendem os inocentes, de acordo com a sentença legalmente lavrada. Quando exercem o seu cargo com espírito de justiça, não se tornam culpados de homicídio; pelo contrário, são fiéis executores da Lei Divina, que proíbe de matar.
Se o fim da Lei é garantir a vida e segurança dos homens, as sentenças dos magistrados obedecem à mesma finalidade, enquanto eles são os legítimos vingadores dos crimes, reprimindo a audácia e a violência mediante a pena de morte. Por essa razão dizia David: Desde o romper do dia, exterminava todos os pecadores da terra, a fim de suprimir da cidade de Deus todos os que praticam a iniquidade.

Catecismo Maior de São Pio X:
É lícito tirar a vida do próximo: durante o combate em guerra justa; quando se executa por ordem da autoridade suprema a condenação à morte em castigo de algum crime; e finalmente quando se trata de necessária e legítima defesa da vida, no momento de uma injusta agressão.

18/05/2015

O trabalho como forma de santificação


– Homem, porque trabalhas tu?
– Trabalho, porque sou o instrumento da vontade de Deus, que manda pôr ao serviço divino todas as faculdades e todas as graças que do Senhor recebi em usufruto!

Georges Valois citado por António Sardinha in «Ao Princípio era o Verbo».