21/05/2017

Sobre Espanha e a Restauração de 1640

1128 e 1640

Pela morte formosíssima de D. Sebastião, em Alcácer Quibir, em 1578, o trono de Portugal ficou virtualmente vago, pois o Cardeal D. Henrique, pelo seu estado e pela sua idade, não podia assegurar a continuidade da dinastia. E pelo seu falecimento em 1580, a Corôa portuguesa, ocupada desde o seu início, em 1128, pelo Rei de Portugal, estava à mercê do mais forte: o mais forte era, nesse tempo, D. Filipe II de Castela. E o Estado português teve que suportar a afronta de passar a ser dirigido e governado pelo Rei castelhano.
Durou a afronta, que ainda hoje nos vexa e revolta, sessenta anos...
Em 1640, Portugueses leais, na Nobreza, no Clero e no Povo, agrupado à volta do Duque de Bragança, D. João, português de melhor têmpera, e diplomata da melhor escola, repetiram a façanha dos seus Antepassados de 1128.
Se estes repeliram e expulsaram da terra portuguesa, os galegos e leoneses seus inimigos, os portugueses de 1640 repeliram e expulsaram os castelhanos, tão seus inimigos, ou mais do que os outros.
«Que es esto, portugueses, onde está vuestra fidelidad?» – perguntava, pasmada, a Duquesa de Mântua, vice-Rainha de Portugal, em 1 de Dezembro de 1640, aos Nobres que lhe tinham invadido o Palácio.
E os Nobres, muito serenos, pela boca de D. Carlos de Noronha, responderam-lhe que estivesse quietinha, para não terem de lhe faltar ao respeito.
«A mi? Como?!» – retorquiu, irada, a Duquesa. E, sereno, D. Carlos de Noronha, a tranquilizá-la, e em linguagem de hoje: «Como? Baldeando V. A. por uma dessas janelas fora...»
É das páginas mais bonitas da nossa história, essa que se escreveu em 1 de Dezembro de 1640, – com valentia, com elegância, com habilidade, com um desprezo soberano pela morte.
À frente de todos, e a destacar-se pela acção prudente e firme, a figura varonil, bem desenhada, bem personalizada, do Duque de Bragança que uma História ignóbil, apostada a desvirilizar Portugal, a envergonhar Portugal de si mesmo, a desacreditar Portugal, nos ensinou a ter como figurino de poltrões.
Que fez o Duque de Bragança?
Responda, por mim, um homem insuspeito – insuspeito porque despido de toda a espécie de ambições; insuspeito, porque superiormente culto; insuspeito, porque de feitio avesso a lisonjas, antes acusado de excessivamente azedo nos seus juízos – Joaquim de Vasconcelos, erudito notável:
«Restaurar o reino em todo o sentido, reorganizar a administração, restabelecer as finanças, criar os complicados elementos de defesa, reconquistar quase todas as possessões de África e todo o Brasil, criar a Junta Geral do Comércio, negociar alianças valiosas, tudo isto em dezasseis anos... parece-nos uma obra digna de admiração e do nosso respeito, ainda que não fossem conhecidas as circunstâncias dificílimas em que estes trabalhos foram executados».
É este o D. João IV que os factos, as realidades, autorizam e levam a criar, e não o que formam as calúnias e misérias que aquela História anti-portuguesa tem forjado a seu respeito.
Foi D. João IV vítima dessa História infame. E com ele, a nobre Dinastia de Bragança, que, a despeito do desventurado D. Afonso VI, personagem ainda insuficientemente definida e, portanto, deformadamente julgada, se mostrou digna continuadora da acção admirável das dinastias suas predecessoras.
A Restauração começou em 1 de Dezembro de 1640. Mas foi uma rude e longa campanha que durou vinte e sete anos – desde aquela data até 13 de Fevereiro de 1668, e ocupou três reinados, os de D. João IV, D. Afonso VI e os três primeiros tempos de D. Pedro II.
Portugal aureolou-se de glória militar, – pelas notáveis vitórias alcançadas nos campos de batalha; de glória cívica, – pela tenacidade que revelou, pelo espírito de sacrifício de que deu exemplo constante; e de glória diplomática – pela posição que conquistou nas chancelarias europeias.
Como em 1128, como em 1383, como em 1580 – o inimigo está na fronteira de leste. Use ele as máscaras que usar; seja ele o arauto de que ideologias quiser; revista ele a forma política que revestir, o vizinho de leste é sempre o inimigo.
D. Afonso I sujeitou-o à sua espada, obrigando-o a reconhecer o nosso direito e a respeitar-nos; D. João I e o Condestável obrigaram-no a beijar o pó de Aljubarrota e a fugir desvairado para além das fronteiras; os generais da Restauração – naqueles campos famosos das linhas de Elvas, do Canal, de Montes Claros, derrotaram-no em sucessivos combates. Inimigo vencido – mas não convencido.
Pode, às vezes, dar-nos a impressão de adormecido ou desinteressado, com as unhas encolhidas, quase inofensivo. Não nos iludamos! O inimigo está vencido, mas não está convencido. E a toda a hora, seja qual fôr a sua posição no quadro dos acontecimentos do mundo, – ele vive da saudade indominada de 1580 a 1640, e da esperança de recomeçar 1580.
Desgraçadamente, cá dentro, há quem lhe alimente essa saudade, e lhe fortaleça essa esperança, sob o disfarce traiçoeiro da Aliança Peninsular ou da Hispanidade.
Devemos aos Humanistas – espíritos internacionalizados, isto é, desnacionalizados, cidadãos do mundo e não das suas pátrias, devemos, aos Humanistas do século XVI, esse conceito perigoso e falso do Hispanismo. Até o nosso Camões se deixou seduzir pelo canto da sereia maldita.
Perdão! Portugal nunca foi Espanha; foi sempre Portugal!
Quando D. Afonso VII se proclamou Imperador, em Toledo, em Junho de 1135, passou a designar-se nos diplomas da sua Chancelaria, «totius Hispanie Imperator», ou «Imperator hispaniorum», ou «hispaniarum Imperator»; e este título que Afonso VIII transformou em «Ispanorum rex», mostra claramente que Portugal não fazia parte das Espanhas, nem da Espanha, e os portugueses não pertenciam à grei dos espanhóis.
De resto, o termo Hispania, tão simples, à primeira vista, é muito mais complicado do que se supõe. Em muitos documentos dessa época, denomina-se Hispania tudo o que na Península está ainda em poder dos mouros. São vulgares as expressões de Hispania ou venire de Hispania ou ire de Hispania, como referindo-se a terras da Península ainda não conquistadas por cristãos. E Petter Rassow que isto nos revela, acrescenta que «Valencia, Murcia, Cordoba, y Malaga son las partes o terras de Hispania».
Seja como fôr, o que é indiscutível é que Portugal era Portugal, e nunca, ninguém, na Idade Média, concebeu a Espanha como abrangendo também Portugal, nem os Reis desse tempo, dizendo-se «de Hespanha», se supunham de Portugal.
Foi preciso que viessem os Humanistas do século XVI, com as suas invencionices, para que se criasse um conceito colectivo de Hispanidade, que prendesse no mesmo elo, ou fundisse no mesmo sangue, a Espanha e Portugal, como se entre uma e outro não houvesse um abismo que ninguém pode transpôr.
Esse conceito colectivo despertou ultimamente, na pena de António Sardinha, e na acção proselítica do desventurado Ramiro de Maeztu, assassinado canibalescamente pelas hordas vermelhas de Madrid, mas é preciso fazer-lhe frente, e negar-lhe passaporte de trânsito em terras de Portugal.
Compreendo que ele seduza o inimigo tradicional de Portugal; espíritos portugueses não pode seduzi-los, uma vez que não estejam doentes.
Não! A leste o inimigo – contra quem devemos ter sempre preparadas as nossas forças, as nossas energias, as nossas vontades, e as nossas vidas. Isto não significa que lhe queremos mal: quer dizer, sim, que nos queremos bem a nós próprios...
E o que acabo de dizer não se opõe a que possamos observar certos momentos de entendimento ou colaboração, como durante a última guerra de Espanha, ou como na hora que passa. Esses momentos são filhos de tendências pessoais deste ou daquele governante: não reflectem sentimentos colectivos. Tivemos desses momentos, depois de 1128 – o que não impediu 1385; voltamos a tê-los posteriormente, e nem por isso escapamos a 1580. É que acima das atitudes pessoais deste ou daquele homem de Estado – estão as condições psicológicas e as tradições históricas dos Povos, que nos impõem a verificação permanente das realidades, e nos defendem dos perigos das ilusões ocasionais.

Alfredo Pimenta in «A Fundação e a Restauração de Portugal», 1940.

19/05/2017

Um ensino laico?


Foi dito que o aperfeiçoamento da instrução, tornando mais culto e esclarecido o povo, tê-lo-ia prevenido suficientemente contra as más tendências e o conservado nos limites da honestidade e da rectidão. Entretanto, a dura realidade torna evidentes os resultados da instrução destituída de uma sólida educação religiosa e moral. As inteligências jovens, na sua inexperiência e no arrebatamento das paixões, deixam-se fascinar pelas máximas perversas, particularmente pelas que o jornalismo indisciplinado não hesita em semear com largueza, e que, pervertendo a mente e a vontade, alimentam o espírito de orgulho e insubordinação, que perturba frequentemente a paz da família e da sociedade.

Papa Leão XIII in «Parvenu à la vingt-cinquième année», 1902.

Relembro ainda: Mente sã em corpo são.

13/05/2017

Nossa Senhora de Fátima - 100 anos


A treze de Maio
Na Cova da Iria,
Apareceu brilhando
A Virgem Maria.

Avé, Avé, Avé Maria!
Avé, Avé, Avé Maria!

A Virgem Maria
Cercada de luz,
Nossa Mãe bendita
E Mãe de Jesus.

(Refrão)

Com os males da guerra
O mundo sofria;
Portugal, ferido,
Sangrava e gemia.

(Refrão)

Foi aos Pastorinhos,
Que a Virgem falou,
Desde então nas almas,
Nova luz brilhou.

(Refrão)

Com doces palavras,
Mandou-nos rezar,
A Virgem Maria,
Para nos salvar.

(Refrão)

Achou logo a Pátria
Remédio ao seu mal,
E a Virgem bendita
Salvou Portugal.

(Refrão)

Mas jamais esqueçam,
Nossos corações,
Que nos fez a Virgem,
Determinações.

(Refrão)

Falou contra o luxo,
Contra o impudor,
De imodestas modas,
De uso pecador.

(Refrão)

Disse que a pureza,
Agrada a Jesus,
Disse que a luxúria,
Ao fogo conduz.

(Refrão)

A treze de Outubro,
Foi o seu adeus,
E a Virgem Maria,
Voltou para os Céus.

(Refrão)

À Pátria que é vossa,
Senhora dos Céus,
Dai honra, alegria
E a graça de Deus.

(Refrão)

À Virgem bendita,
Cante seu louvor,
Toda a nossa terra,
Um hino de amor.

(Refrão)

Todo o mundo A louve,
Para se salvar,
Desde o vale ao monte,
Desde o monte ao mar.

(Refrão)

Já por todo o mundo,
Se ama o nome Seu,
Portugal a Cristo,
Tantas almas deu.

(Refrão)

Oh! Demos-Lhe graças,
Por nos dar seu bem,
À Virgem Maria,
Nossa querida Mãe!

(Refrão)

E para pagarmos,
Tal graça e favor,
Tenham nossas almas,
Só bondade e amor.

(Refrão)

Avé, Virgem Santa,
Estrela que nos guia,
Avé, Mãe Pátria.
Oh! Virgem Maria!

(Refrão)

Este é o hino Avé de Fátima, escrito pelo poeta Afonso Lopes de Vieira em 1929, e musicado pelo maestro Ruy Coelho em 1931. Actualmente, algumas destas estrofes são omitidas do cântico.

10/05/2017

A República Universal


De facto amadureceu nos desejos e nas expectativas de todos os revoltosos o advento de uma certa república universal, a qual seria fundada sobre a igualdade absoluta dos homens e sobre a comunhão dos bens, e na qual não haveria distinção alguma de nacionalidade, nem se reconheceria a autoridade do pai sobre os filhos, nem do poder público sobre os cidadãos, nem de Deus sobre os homens reunidos em sociedade civil. Coisas que, se forem implementadas, dariam lugar a tremendas convulsões sociais, como aquela que agora está a devastar uma grande parte da Europa.

Papa Bento XV in «Bonum Sane», 1920.

08/05/2017

Basílica da Estrela - Lisboa


A Basílica e o Convento da Estrela (ou Real Basílica e Convento do Santíssimo Coração de Jesus) foram construídos por ordem da Rainha Dona Maria, a Pia, em cumprimento de uma promessa ao Sagrado Coração de Jesus, por lhe ter sido concedida descendência.

A Basílica foi sagrada em 1789 (ano da Revolução Francesa) e é a primeira igreja do mundo dedicada ao Sagrado Coração de Jesus. No seu interior podemos também encontrar o túmulo da Rainha Dona Maria, a única da Dinastia de Bragança que não está sepultada no Mosteiro de São Vicente de Fora.


Na fotografia: à esquerda, o altar-mor; ao centro, o órgão de tubos; e à direita, o túmulo da Rainha Dona Maria. É importante que se note, contudo, que o órgão e o túmulo estão num lugar indevido. O seu lugar apropriado é a capela-mor.

06/05/2017

A monarquia é o regime mais natural


O mais bem ordenado é o natural; pois, em cada coisa, opera a natureza o melhor. E todo o regime natural é de um só. Assim, na multidão dos membros, há um primeiro que move, isto é, o coração; e nas partes da alma, preside uma faculdade principal, que é a razão. Têm as abelhas um só rei [rainha], e em todo o universo há um só Deus, criador e governador de tudo. E isto é razoável. De facto, toda a multidão deriva de um só. Por onde, se as coisas de arte imitam as da natureza, e tanto melhor é a obra de arte quanto mais busca a semelhança do que é da natureza, importa seja o melhor, na multidão humana, o governar-se por um só.

São Tomás de Aquino in «Do Reino ou Do Governo dos Príncipes ao Rei do Chipre».

03/05/2017

A falsa liberdade


Ouvimos já exaltar os benefícios da liberdade e engrandecê-la como meio soberano e instrumento incomparável de paz operosa e de prosperidade. Mas os factos demonstraram a sua ineficácia para esse fim. Pois como todos podem testemunhar, a liberdade, tal como hoje a entendem, aceitando simultaneamente o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, não faz mais que rebaixar o que já de nobre, de santo e generoso, abrindo caminho ao crime, ao suicídio e às paixões vulgares.

Papa Leão XIII in «Parvenu à la vingt-cinquième année», 1902.

27/04/2017

A Páscoa na União Soviética

Propaganda ateia soviética.

Na noite de Sábado para Domingo de Páscoa, antes do início da missa, os templos cristãos em Moscovo eram cercados por polícias e drujiniki (uma espécie de milícias populares) que identificavam as pessoas antes de as deixarem entrar. No caso de estudantes da Universidade de Moscovo (Lomonossov), onde eu estudei, a ida a uma dessas cerimónias poderia significar a expulsão da escola superior... Além disso, a fim de afastar os cidadãos soviéticos das igrejas, principalmente jovens, a televisão transmitia programas musicais em que participavam cantores nacionais e estrangeiros que só muito raramente podiam ser vistos nos ecrãs.

José Milhazes in «A Mensagem de Fátima na Rússia», 2016.

Relembro ainda: Comunismo e pornografia.

24/04/2017

Defensor de "causas perdidas"


Já citei aquele pensamento salutar: não se é obrigado a vencer; mas toda a gente é obrigada a lutar.
Neste, como noutros campos, lutarei, sozinho, sem esperanças de ser ouvido; já estou habituado ao silêncio – ou a minha doença me não tivesse ensinado a conformar-me com o silêncio...
Lutarei, pois, sozinho, sem esperanças de ver os meus esforços serem secundados.
Já um dia me chamaram, com envenenada má-fé, «defensor de causas perdidas».
Admirável coisa esta de defender causas vencidas, homens vencidos, sobre que as vagas alterosas da Vitória passam, altaneiras e invencíveis! Com essa defesa, não se colhem bens, nem louros; colhem-se antes desgostos e lágrimas. Mas fica-nos a consciência tão límpida como a água que brota de rocha virgem...

Alfredo Pimenta in «Três Verdades Vencidas: Deus, Pátria, Rei», 1949.

19/04/2017

O Erro não tem direitos


O nada não tem direito nenhum, visto que não existe. É impossível, aquilo que não existe, ter direitos. Atribuir direitos ao nada é portanto uma injustiça. Ora, o que se faz quando se atribui direito ao erro? Atribui-se direito ao nada. Basta tomar consciência do que são a verdade e o erro para entender. A verdade encontra-se na inteligência, na medida em que a inteligência reproduz exactamente uma realidade existente. Quando a inteligência produz intelectualmente uma coisa que não é, então há erro. Ora, o que acontece em caso similar? Tenho na minha mente a ideia de uma coisa como se fosse. Atribuo-lhe o direito de ser na minha mente como se existisse. Na realidade não é. Visto que não é, ela é uma criação do meu próprio espírito, sem fundamento nenhum. Como posso dar como base à minha vida, à minha actividade, uma realidade que não existe? O que deve resultar de uma tal aberração? O que resulta necessariamente em todo o prédio que se constrói sem fundamento. Dou como base à minha vida e à minha actividade uma ideia a que não corresponde nada de objectivo e de real, necessariamente todo o edifício intelectual e social, que se ergue assente nesta ideia, está destinado a ruir. Para uma vida e uma acção não pode haver outro fundamento senão uma realidade verdadeira. E por isso, só a verdade tem, na ordem individual e social, o direito à existência. Sob nenhum ponto de vista, o erro pode reivindicar este direito. Quando o erro se instala numa inteligência, ou nas multidões, usurpa os direitos que não lhe pertencem; é injusto.

Pe. Philippe C.SS.R. in «Catecismo dos Direitos Divinos na Ordem Social».

14/04/2017

Anima Christi


Alma de Cristo, santificai-me.
Corpo de Cristo, salvai-me.
Sangue de Cristo, inebriai-me.
Água do lado de Cristo, lavai-me.
Paixão de Cristo, confortai-me.
Ó bom Jesus, ouvi-me.
Dentro das Vossas Chagas, escondei-me.
Não permitais que de Vós me separe.
Do espírito maligno, defendei-me.
Na hora da minha morte, chamai-me.
E mandai-me ir para Vós,
para que Vos louve com os Vossos Santos,
por todos os séculos dos séculos.
Ámen.

Santo Inácio de Loyola

09/04/2017

Jesus Cristo e o sentido da História


Qual é pois o verdadeiro sentido da História? Há por acaso um sentido da História? Toda a História tem por centro uma pessoa: Nosso Senhor Jesus Cristo, porque como diz São Paulo: "Nele foram fundadas todas as coisas, as dos céus e as que estão sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, dominações, principados ou potestades. Tudo foi criado por Ele e n'Ele, e Ele é antes de todas as coisas e n'Ele todas subsistem. Ele é a cabeça do corpo da Igreja, sendo Ele mesmo o princípio (...) para que em tudo tenha o primeiro lugar. Deus quis que toda a plenitude habitasse n'Ele, e por meio d'Ele reconciliar todas as coisas tanto as da Terra como as do Céu, trazendo a Paz mediante o sangue de Sua Cruz".

Jesus Cristo é portanto o pólo da História. A História tem somente uma lei: "É necessário que Ele reine" (I Coríntios 15, 25). Se Ele reina, reinam também o verdadeiro progresso e a prosperidade, que são bens muito mais espirituais do que materiais. Se Ele não reina, vem a decadência, a caducidade, a escravidão em todas as formas, o reino do mal. É o que profetiza a Sagrada Escritura: "Porque a nação e o reino que não Te servem perecerão, estas nações serão completamente destruídas" (Isaías 60, 12). Há excelentes livros sobre a filosofia da História, mas que me deixam surpreso e impaciente ao comprovar que omitem este princípio absolutamente capital, ou não o põe no lugar que lhe é devido. Trata-se do princípio da filosofia da História, sendo também uma verdade de Fé, verdadeiro dogma revelado e confirmado centenas de vezes pelos factos!

Eis a resposta à pergunta: Qual é o sentido da História? A História não tem um sentido, uma direcção imanente. Não existe o sentido da História. O que há é um fim da História, um fim transcendente: a "recapitulação de todas as coisas em Cristo"; é a submissão de toda ordem temporal à Sua obra redentora; é o domínio da Igreja militante sobre a cidade temporal que se prepara para o reino eterno da Igreja triunfante no Céu. A Fé afirma e os factos o demonstram que a História tem um primeiro pólo: a Encarnação, a Cruz, Pentecostes; ela teve o seu completo desenvolvimento na cidade católica, quer seja em Carlos Magno ou em Garcia Moreno; e terminará, chegará ao seu pólo final quando o número dos eleitos se completar, depois do tempo da grande apostasia (II Tessalonicenses 2, 3); não estamos vivendo este tempo?

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar», 1987.

06/04/2017

História dos Milagres do Rosário (VII)

(continuação da parte VI)

Declara-se o fundamento da história e diálogo que é uma peregrinação, que três Teólogos pregadores do Colégio Real da Purificação da Universidade de Évora fizeram a Nossa Senhora de Guadalupe.

Entre outras muito magníficas e reais obras, que o Sereníssimo Rei Dom Henrique, de gloriosa memória, fez sendo Cardeal e Arcebispo de Évora, depois de haver fundado o Colégio da Companhia de Jesus e sua Universidade, com largueza e magnificência que convinha a sua pessoa Real, e zelo que tinha do acrescentamento da religião Cristã foi levantar de novo Colégio para Colegiais Teólogos, que chegassem a número de cento, e este com tanta grandeza e formosura de edifício, que bem parece obra digna de tal Rei. Nele se recebem os Colegiais por oposição e concurso, como se costuma em todas as outras Universidades, e recebidos se criam todos em letras e virtude, como convém ao fim para que são recebidos. E porque o que pretendeu seu fundador foi ajudar as almas de todo este Alentejo, e Reino de Portugal, sua ocupação (depois da que tem nas letras) e de exercícios muito acomodados à perfeição do Sacerdócio e pregação Evangélica a que todos vão encaminhados, sendo em tudo ajudados do Reitor do Colégio e Universidade da Companhia, a que está em tudo sujeito este da Purificação.

Introduzimos pois (imitando muitos e graves autores) o que realmente muitas vezes aconteceu em semelhantes colégios, três Colegiais sacerdotes e pregadores, todos de muitas letras e exemplo de virtudes, entre os quais havia particular amizade espiritual, todos muito zelosos da honra de Deus, e de aproveitar as almas, com pregar e confessar, o que muitas vezes tinham feito e por tempo. Um deles se chamava Anselmo, homem já de idade e que por muitos anos se tinha ocupado em pregar em diversas partes deste Reino. Marcelo era também pregador e muito inclinado a ouvir confissões, com que tinha feito grande fruto: e Eusébio era Diácono, que tinha acabado seus estudos de Teologia e dava esperanças de que havia de ser um grande sujeito e instrumento, de que os prelados se ajudassem de seu talento.

Depois que entraram naquele Colégio, se assinalaram em letras e virtude, e como tinham os mesmos intentos para os levar adiante, tratavam todos três muito particular amizade, ocupando-se sempre em santos exercícios, de modo que quem os via dizia que não lhes faltava nada para ser religiosos senão a profissão e hábito. Atava esta amizade uma particular propriedade que todos três tinham, a qual era serem muito devotos de Nossa Senhora, e muitas vezes quando se ajuntavam falavam dela e tratavam de suas devoções, e do modo com que fariam devoto a todo o mundo. Chegado o tempo das férias, que começa o primeiro de Agosto e acaba o último de Setembro, estando todos três em boa conversação, disse Anselmo: Temos chegado às férias, nas quais são muito diferentes as ocupações e exercícios, que os estudantes nelas tomam para suas recreações, eu desejo alguma que fosse de proveito para nossas almas e para as dos próximos. Certo, respondeu Marcelo, não se pode cuidar melhor coisa que ela, nem empregar o tempo em outra. Alegrou-se muito Eusébio e disse: Este mesmo pensamento tive esta manhã, desejando de não passar ocioso estes dois meses de férias, mas não me ocorreu até agora exercício em que os pudesse bem gastar, e aquela que apontou o senhor Anselmo, que seja proveitosa para nossas almas e para as dos próximos, me contenta sobre todas: mas ainda até agora não dou no particular dela. Muitas pode haver, acudiu Anselmo, muito próprias de sacerdotes e pregadores, como todos somos, e a mim se me oferece uma que cuido todos devem de aprovar, e é, que façamos todos três uma peregrinação a Nossa Senhora de Guadalupe, pregando no caminho a todos e em todos os lugares, vilas, e a imitação de Cristo, a devoção do santíssimo Rosário, e da Coroa e de seus milagres, e outras devoções, e com isto confessaremos a todos os que se quiserem confessar, e ensinaremos a doutrina aos que a quiserem ouvir. Ficaram estranhamente contentes Marcelo e Eusébio com o alvitre de tão boa e santa ocupação, e confirmou Marcelo o intento de Anselmo, com dizer assim se costumava antigamente, e que de Roma os Papas mandavam sacerdotes pregadores por toda a Itália, para que pregassem e confessassem, e o mesmo faziam os prelados que tinham zelo de aproveitar as suas ovelhas, e que havia poucos anos que o Cardeal Bartolomeu Arcebispo de Milão viera a pé, em forma de peregrino com alguns seus clérigos a Sabóia adorar o Santo Sudário, e naquela peregrinação fizeram tão grande fruto, assim com a doutrina, como com o exemplo: e se os Cardeais isto faziam em Itália, que também seria de muita edificação fazerem-no os sacerdotes em Portugal, e em Évora. Estando todos neste acordo, foram dar conta ao Reitor da Universidade deste seu conselho e peregrinação, o qual como homem muito espiritual e zeloso da honra de Deus, se alegrou grandemente de ver seus santos desejos, e abraçando-os a todos com muito amor, lhe deu sua bênção e os animou com muitos santos conselhos, louvando a boa obra em que se ocupavam, e que teria muito cuidado de os mandar encomendar a Deus, para que fosse muito servido nesta peregrinação. Eles despedidos de todos os Colegiais, se partiram caminho direito de Nossa Senhora de Guadalupe, no qual lhe aconteceram as coisas que a história nos irá descobrindo.

(continuação parte VIII)

01/04/2017

Dia das mentiras?


Que é a mentira?
A mentira é um pecado que consiste em afirmar como verdadeiro ou como falso, por meio de palavras ou de acções, o que se sabe não ser assim.

De quantas espécies é a mentira?
A mentira é de três espécies: jocosa, oficiosa e danosa.

Que é a mentira jocosa?
Mentira jocosa é aquela pela qual se mente por gracejo e sem prejuízo para ninguém.

Que é a mentira oficiosa?
Mentira oficiosa é a afirmação de uma falsidade para utilidade própria ou alheia, sem prejuízo para ninguém.

Que é a mentira danosa?
Mentira danosa é a afirmação de uma falsidade com prejuízo do próximo.

É lícito alguma vez mentir?
Nunca é lícito mentir, nem por gracejo, nem para proveito próprio ou alheio, porque é coisa má por si mesma.

Que pecado é a mentira?
A mentira, quando é jocosa ou oficiosa, é pecado venial; mas, quando é danosa, é pecado mortal, se o prejuízo que causa é grave.

Retirado do «Catecismo Maior de São Pio X» (que é uma simplificação por meio de perguntas e respostas do Catecismo Romano de 1566, o catecismo católico propriamente dito).

30/03/2017

História dos Milagres do Rosário (IV)

(continuação da parte III)

Quanto crédito se deve dar aos milagres do Rosário, que aqui se escrevem.

Quanto a autoridade que tem estes milagres do Santo Rosário para se lhes haver de dar crédito, e outros que se escrevem dos santos, tratámos muito largamente no livro da vida e coroa de Nossa Senhora, o que por não ser largo, não repito aqui, somente avisamos ao leitor, que entre todos os milagres a que convém todas as condições para serem tidos por verdadeiros e certos, e a que se deve dar crédito, são estes do Santo Rosário que aqui se escrevem, e não haverá algum por mais porfiado que seja, que contra eles possa trazer algo aparente rezam, porque todos são de matérias aprovadas pela Sagrada Escritura, e autoridade da Igreja, nenhum deles é contra a divina Escritura, nem a doutrina da Igreja, nem dos santos. Todos são de matérias com que Deus ordinariamente mostra o Seu divino poder, havendo feito outros semelhantes. Pois a autoridade dos que o escreveram é também grande, que padres muito religiosos da ordem de S. Domingos, muitos deles escritos por seus companheiros e outros que depois aconteceram, pelos que naquele tempo viviam, outros vão autenticados com a autoridade do ordinário, de modo que não tem o leitor em que duvidar, mas sem tropeçar pode livre e seguramente correr na lição deles, debaixo de todo o grau que se pode imaginar de probabilidade uma há, como no discurso de verá.

(continuação, parte V)

29/03/2017

Livro de divulgação do Rosário


É com grande apreço e satisfação que recebo o convite do blogue ASCENDENS para colaborar na iniciativa lançada pelo FIDELISSIMUS, à qual também já se juntou o SANTO ZELO. Nada mais oportuno neste ano do centenário das Aparições de Fátima, do que a promoção da oração diária do Terço, assim como das graças por ele alcançadas. Muitas conversões e muitas vitórias se devem ao Rosário. Relembro as palavras de Nossa Senhora de Fátima: "Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o Inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas". Lancemos então mãos à obra!

24/03/2017

Os castigos sociais


Os indivíduos que cometeram faltas podem expiá-las neste mundo. Se não as expiarem neste mundo, expiá-las-ão no outro. Os indivíduos serão portanto castigados em proporção dos pecados cometidos, quer no Purgatório, expiando-os, quer no Inferno, sofrendo os suplícios eternamente. As sociedades, como tal, não entram na eternidade. Se se tornarem culpadas, apenas podem ser castigadas neste mundo. Ora, o seu crime é um pecado contra a Justiça, que exige reparação. Então, os países que abandonaram Nosso Senhor devem expiar e reparar neste mundo, e compete à Sabedoria de Deus infligir aos povos os castigos conforme os Seus desígnios eternos.
(...)
Por castigo social, Deus quer tocar as almas e atraí-las até Ele. É por isso que não é fácil sondar os desígnios eternos nos castigos com que Deus fere os países. O que devemos considerar é que Deus pode castigar, que castiga efectivamente, e que para evitar estes castigos, é necessário que toda a ordem social se submeta a Ele.
(...)
Todas as calamidades que podem levar os povos à reflexão servem os desígnios de Deus. As guerras, as doenças, as catástrofes de toda a espécie, e acima de tudo as calamidades de ordem intelectual e moral podem atingi-los e levá-los a corrigir-se.
Nosso Senhor fala-nos de todos estes flagelos, fala sobretudo da grande desventura da cegueira. Dirigindo-se aos judeus: "Este povo não entenderá, porque não pode compreender, e não pode compreender, porque não quer compreender". É no sentido de um castigo social que é necessário entender estas palavras. Nada de mais terrível que ser para si mesmo a causa da sua própria infelicidade em consequência de incompreensão. (...) Assim é também nas sociedades modernas de hoje. Para salvar a ordem social e os povos, estes devem começar por entender que só Jesus Cristo é a salvação. Ora, não querem entender que assim seja. Deus então conforma-se à sua vontade obstinada. Não compreendem, não vêem, e já não podem ver em Jesus Cristo unicamente a sua salvação: é o seu castigo.
A este ponto de vista geral, juntam-se muitos outros de ordem mais especial. Não compreendem que é necessário suprimir da ordem social os princípios do direito moderno, as grandes liberdades modernas. Não querem entender que é preciso recusar a cada um a sua liberdade de opinião. Não compreendem que é mister, apesar de tudo, opor-se à invasão dos princípios perversos e que é preciso favorecer a única verdade católica. Há uma quantidade de coisas que não entendem. Tudo isso leva o carácter e a marca do castigo que fere os países e os leva à ruína.

Pe. Philippe C.SS.R. in «Catecismo dos Direitos Divinos na Ordem Social».

21/03/2017

Fado: Cantiga da Boa Gente


Três palmos de terra, com uma casa à beira,
E o Manel mais eu para a vida inteira!
Ele e quatro filhos são tudo o que eu gosto,
Gente mais feliz não há neste mundo, aposto!

Vamos para o trabalho, logo ao clarear,
E de sol a sol, vá de moirejar,
Tenho a vida cheia, tenho a vida boa,
Que Deus sempre ajuda a quem é boa pessoa!

Quando chega a tarde, tarde tardezinha,
Já o jantar fumega na lareira da cozinha.
Os filhos sorriem, o Manel também,
Não há melhor vida que aquela que a gente tem!

Os sinos ao longe dão Ave-Marias,
Reza-se a oração de todos os dias.
Menino Jesus, meu botão de rosa,
Faz que a minha gente não seja má nem vaidosa!
Menino Jesus, boquinha de riso,
Faz que a minha gente seja gente de juízo!

Acabada a reza, vai-se para o jantar,
Se alguém bate à porta, também tem lugar,
Come do que há, tarde tardezinha,
Mesmo ali à beira da lareira da cozinha.
Os filhos sorriem, o Manel também,
Não há melhor vida que aquela que a gente tem!

Não invejo nada, nem quem tem dinheiro,
Pois para trabalhar tem-se o mundo inteiro.
Basta só fazer o que se é capaz.
Que a felicidade está naquilo que se faz.

E assim vou andando, na graça de Deus,
Em paz e amor com todos os meus,
Trabalho não falta, todo santo dia,
Mas o coração chega à noite, é uma alegria!

Quando chega a tarde, tarde tardezinha,
Já o jantar fumega na lareira da cozinha.
Os filhos sorriem, o Manel também,
Não há melhor vida que aquela que a gente tem!

Os sinos ao longe dão Ave-Marias,
Reza-se a oração de todos os dias.
Menino Jesus, meu botão de rosa,
Faz que a minha gente não seja má nem vaidosa!
Menino Jesus, boquinha de riso,
Faz que a minha gente seja gente de juízo!

Acabada a reza, vai-se para o jantar,
Se alguém bate à porta, também tem lugar,
Come do que há, tarde tardezinha,
Mesmo ali à beira da lareira da cozinha.
Os filhos sorriem, o Manel também,
Não há melhor vida que aquela que a gente tem!

17/03/2017

Da proibição do véu islâmico

Portuguesa

Alguns direitistas rejubilam quando em França se proíbe o uso do véu islâmico. Julgam eles que essa é uma medida em prol das nacionalidades e da Civilização europeia. Enganam-se. A República que proíbe o uso do véu islâmico é a mesma República que proíbe o uso de crucifixos. Por isso, tais medidas anti-véu não são feitas em favor das pátrias e da Europa. São feitas em favor da república, do laicismo, da maçonaria, e visam neutralizar o "extremismo" para favorecer um "moderantismo" bastardo e aglutinador.
Lembrem-se, direitistas, que o uso de véu ou de lenço na cabeça, não é algo anti-europeu. Pelo contrário, se observarem como se vestiam os nossos antepassados, concluirão que as modas modernas é que são anti-europeias.

16/03/2017

As "Luzes" que escureceram


Respeito tanto as luzes do século no que toca aos conhecimentos físicos, quanto as abomino pelo que pertence à Religião e ao Governo. Neste sentido são elas mesmas a própria revolução pura, e sem máscara, que na sua marcha, umas vezes rápida, outras vezes lenta, mas sempre progressiva, vai destruindo tudo o que encontra. O grande número dos chefes é funesto, dizia Ulisses aos Gregos na Ilíada, não tenhamos senão um chefe, senão um Rei, aquele a quem o prudente filho de Saturno confia o ceptro, e as leis para nos governar a todos. Esta máxima, que se lê no mais antigo dos livros profanos bem conhecidos, ao menos cá dos da Europa, é a mesma dos Provérbios de Salomão: Por mim governam os Reis. Vede como já era conhecida naqueles tempos primitivos, e como a respeito dela estavam de acordo os Escritores sagrados e os profanos: hoje é perseguida, porque as luzes do século a condenam; mas onde irão parar os homens com estas luzes do século, que tanto os tem feito retrogradar nas ideias religiosas e políticas.

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos», 1822.

08/03/2017

A mulher, o trabalho e a família


Quem diz família diz lar; quem diz lar diz atmosfera moral e economia própria – economia mista de consumo e de produção. O trabalho da mulher fora do lar desagrega este, separa os membros da família, torna-os estranhos uns aos outros. Desaparece a vida em comum, sofre a obra educativa das crianças, diminui o número destas; e com o mau ou impossível funcionamento da economia doméstica, no arranjo da casa, no preparo da alimentação e do vestuário, verifica-se uma perda importante, raro materialmente compensada pelo salário recebido. Por vezes perde-se de vista a importância dos factores morais no rendimento do trabalho. O excesso da mecânica que aproveita o braço leva a desinteressar-se da disposição interior. Em todo o caso continua exacto ainda hoje, na maior parte da produção, que a alegria, a boa disposição, a felicidade de viver, constituem energias que elevam a qualidade e a quantidade do trabalho produzido. A família é a mais pura fonte dos factores morais da produção.

António de Oliveira Salazar, discurso de 16 de Março de 1933.

07/03/2017

Verdades que o cristão deve recordar diariamente


VERDADES DE QUE O CRISTÃO SE DEVE RECORDAR TODAS AS MANHÃS

Cristão, lembra-te que tens hoje:
Deus a glorificar,
Jesus a imitar,
A Santíssima Virgem a invocar,
Os Santos a imitar,
Os Santos Anjos a honrar,
Uma alma a salvar,
Um corpo a mortificar,
Virtudes a pedir e praticar,
Pecados a expiar,
Um paraíso a ganhar,
Um inferno a evitar,
Uma eternidade a meditar,
Tempo a aproveitar,
Próximo a edificar,
Um mundo a temer,
Demónios a combater,
Paixões a subjugar,
Talvez a morte a sofrer,
E o juízo a suportar!

OH! ETERNIDADE!

Retirado de «Manual de Orações», aprovado pelo Arcebispo de Porto Alegre, 10 de Novembro de 1926.

04/03/2017

O esquerdismo e a paranóia


Tal como existe um complexo de culpa na Nova Esquerda, também existe uma frequência de delírios paranóicos. Este tipo de comportamento, muito comum entre os chamados "activistas sociais", tende à criação de males imaginários e agressões imaginárias.

PARANÓIA – substantivo feminino (do grego paranóia, loucura). 1. Psicose crónica caracterizada pela organização lógica de temas delirantes. 2. Comportamento de pessoa, ou grupo, com tendência a crer-se perseguida ou agredida. Enciclopédia. A personalidade paranóide é uma anomalia psíquica que se traduz por comportamentos delirantes e compreende a supervalorização de si próprio, a desconfiança sistemática, a rigidez mental, o raciocínio correcto mas baseado num ponto de partida falso. O delírio paranóide (ou psicose paranóide, ou paranóia) surge num doente que tinha anteriormente personalidade paranóide. O delírio é uma ideia falsa, anormal e obsessiva que arrasta consigo a convicção do paciente e que este não é capaz de criticar (visão acrítica). O indivíduo interpreta erradamente as informações ou tem intuições falsas, o que leva a acreditar-se perseguido. Pode também experimentar uma paixão devoradora ou reivindicar de modo exagerado (fanatismo, processos judiciais).
Adaptado de «Nova Enciclopédia Larousse».

Recentemente, o fadista João Braga foi alvo do delírio paranóide de activistas "anti-racistas" e "anti-homofóbicos". Porém, olhando objectivamente, o que o fadista disse não constitui insulto a ninguém. João Braga apenas fez um comentário banal acerca da hegemonia do marxismo cultural em Hollywood, que premeia os filmes, não pela sua qualidade, mas pelo seu carácter propagandístico. Ora, esta crítica só incomoda, ou quem está comprometido, ou quem está intelectualmente formatado e fanatizado pelo sistema educativo e mediático.
Por outro lado, os ataques de que o fadista foi vítima, e que eu testemunhei pessoalmente, são espelho daquela opinião de Louis Veuillot: Não há ninguém mais sectário do que um liberal. De facto, o paradoxo dos "tolerantes" é que eles só toleram as suas próprias opiniões e ideias. Quem pensa diferente é ameaçado, ofendido e socialmente ostracizado. Ou em linguagem "tolerante": é vítima de bullying. Ser "tolerante" torna-se assim também sinónimo de ser hipócrita.

01/03/2017

Quarta-feira de Cinzas


Lembra-te ó homem que és pó, e que em pó te hás-de tornar. (Génesis 3, 19)

É certíssimo que todos devemos morrer, mas não sabemos quando. "Nada há mais certo do que a morte – diz Idiota – porém nada mais incerto do que a hora da morte".
Meu irmão, estão fixados ano, mês, dia, hora e momento em que terás que deixar este mundo e entrar na eternidade; porém nós o ignoramos. Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de estarmos sempre bem preparados, disse que a morte virá como um ladrão, oculto e de noite (I Tessalonicenses 5, 2). Outras vezes exortou a que estejamos vigilantes, porque, quando menos esperarmos, virá Ele a julgar-nos (Lucas 12, 40). Disse São Gregório que Deus nos oculta, para nosso bem, a hora da morte, a fim de que estejamos sempre preparados para morrer. Disse São Bernardo: A morte pode levar-nos em qualquer momento e em qualquer lugar; por isso, se queremos morrer bem e salvar-nos, é preciso que a estejamos à espera em qualquer tempo ou lugar.
Ninguém ignora que deve morrer; mas o mal está em que muitos vêem a morte a tamanha distância que a perdem de vista. Mesmo os anciãos mais decrépitos e as pessoas mais enfermas não deixam de alimentar a ilusão de que hão-de viver mais três ou quatro anos. Eu, porém, digo o contrário: Devemos considerar quantas mortes repentinas vemos em nossos dias. Uns morrem caminhando, outros sentados, outros dormindo em seu leito. É certo que nenhum deles julgava morrer tão subitamente, no dia em que morreu. Afirmo, ademais, que de quantos no decorrer deste ano morreram na sua própria cama, e não de repente, nenhum deles imaginava que devia acabar sua vida neste ano. São poucas as mortes que não chegam inesperadas.
Assim, pois, cristão, quando o demónio te provoca a pecar, sob o pretexto de que amanhã te confessarás, diz-lhe: Quem sabe se não será hoje o último dia da minha vida? Se esta hora, se este momento, em que me apartasse de Deus, fosse o último para mim, de modo que já não restasse tempo para reparar a falta, que seria de mim na eternidade? Quantos pobres pecadores tiveram a infelicidade de ser surpreendidos pela morte ao recrearem-se com manjares intoxicados e foram precipitados no inferno? "Assim como os peixes caem no anzol, assim são colhidos os homens pela morte num momento mau" (Eclesiastes 9, 12). O momento mau é exactamente aquele em que o pecador ofende a Deus.
Diz o demónio que tal desgraça não nos há-de suceder; mas é preciso responder-lhe: E se suceder, que será de mim por toda a eternidade?

Santo Afonso Maria de Ligório in «Preparação para a Morte».

E se o justo a custo se salva, o que virá a ser do ímpio e do pecador? (I Pedro 4,18)