13/05/2016

Sobre a oração de Fátima


Quanto à oração ensinada por Nossa Senhora aos pastorinhos, a 13 de Julho, é referida, pela primeira vez, no dia 8 de Setembro de 1917, pelo Dr. Carlos de Azevedo Mendes, numa carta à sua futura esposa, Maria dos Prazeres Courinha: "A oração que dizem a Senhora lhes ensinou é simples; é a seguinte: 'Ó meu Jesus perdoai-me. Livrai-me do fogo do inferno. Levai as alminhas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem'. Queres maior simplicidade? Achei interessante que a Senhora a tivesse ensinado, mas não lhes recomendasse que a rezassem" (DCF I, Doc. 55, de 8 de Setembro de 1917, p. 392). É estranha esta afirmação do Dr. Mendes, porque, poucos dias depois, a 27 de Setembro, no seu primeiro interrogatório, o Dr. Formigão perguntou se Nossa Senhora tinha ensinado alguma oração e Lúcia responde: "Ensinou, e quer que a recitemos, depois de cada mistério do rosário": 'Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem' (DCF I, Doc. 7, de 27 de Setembro de 1917, p. 61). O Dr. Formigão escreveu-a também num papelinho, exactamente na mesma forma, excepto: 'e aquelas que mais precisarem' (DCF 1, Doc. 8, de 27 de Setembro de 1917, p. 69). No dia 5 de Janeiro de 1922, Lúcia, já no Instituto de Van Zeller (Asilo de Vilar), no Porto, fez o seu primeiro escrito sobre as aparições. Sobre a aparição de Julho de 1917, há poucas novidades, relativamente ao que ela tinha dito em 1917, e sobre o segredo, escreveu: "Em seguida, confiou-nos algumas palavrinhas, dizendo-nos: Não digam isto a ninguém, só o podem dizer ao Francisco" (DCF III, 3, Doc. 685 de 5 de Janeiro de 1922).

Sob o pseudónimo de Visconde de Montelo, o Dr. Formigão escreveu, em 1918 e 1919, no jornal "A Guarda", uma série de artigos que intitulou "Os episódios de Fátima". Não chegou a publicar, nessa altura, a oração recolhida por ele, em Setembro de 1917. Mas, em Junho de 1921, escreveu um opúsculo, com o título, Os episódios maravilhosos de Fátima. Na página 12, colocou esta nota: "Reproduzo este interrogatório dos videntes, sem alteração de uma vírgula, exactamente como o redigi, no dia 29 de Setembro de 1917, em face das notas tomadas". Apesar desta afirmação, modificou a segunda parte da oração, com sentido diferente: "Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno e aliviai as almas do Purgatório, principalmente as mais abandonadas". Por este opúsculo e sobretudo pela obra, As grandes maravilhas de Fátima (1927), a fórmula modificada foi substituindo a primitiva, que era pouco conhecida. Deve-se ao escritor Antero de Figueiredo a reposição da fórmula primitiva, depois de interrogar a Irmã Lúcia e ter contactado com D. José Alves Correia e com o próprio Dr. Formigão, na sua obra, Fátima: Graças, Segredos, Mistérios, editada em Novembro de 1936: "Esta é a verdadeira oração ensinada pela Virgem Santíssima à Lúcia. A que anda impressa foi alterada por quem a editou, com certeza no bom intuito de a tornar mais acessível e mais conforme às fórmulas teológicas das preces em sufrágio das almas do Purgatório" (Ob. cit., nota 1, p. 369). A 18 de maio de 1941, a Ir. Lúcia explicava ao Pe. José Bernardo Gonçalves, seu confessor em Espanha, que a jaculatória tinha sido modificada, "fazendo a última súplica pelas almas do Purgatório, porque diziam não entender o sentido das últimas palavras; mas eu creio que Nossa Senhora se referia às almas que se encontram em maior perigo de condenação; foi esta a impressão que me ficou, e talvez que a V. Revª lhe pareça o mesmo, depois de ter lido a parte que escrevi do segredo e sabendo que no-la ensinou a seguir, em a 3ª [aparição], Julho" (Memórias e cartas da Irmã Lúcia, introdução, notas e tradução inglesa pelo Pe. Dr. António Maria Martins, S. J., Porto, L. E., 1973, p. 442 (fac-simile) e 443 (transcrição em português). E na Terceira Memória, redigida a 31 de Agosto de 1941, explica ao Senhor Bispo de Leiria a sua interpretação sobre a jaculatória, na sua forma primitiva: "Agora, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, compreenderá porque a mim me ficou a impressão de que as últimas palavras desta oração se referiam às almas que se encontram em maior perigo ou mais iminente de condenação" (Memórias, III, 3). Na Quarta Memória, a Irmã Lúcia transcreve duas vezes a oração, segundo a fórmula primitiva, com pequeníssimas variantes (Memórias, IV, I, 16 e II, 5). A 23 de Junho de 1944, D. José, Bispo de Leiria, autorizava a publicação e indulgenciava duas "orações que podem ser intercaladas nos mistérios do rosário". A decisão de publicar as duas versões, praticamente ao mesmo nível de valor, embora com o esclarecimento de que a primeira "foi ensinada por Nossa Senhora à Ir. Lúcia, vidente de Fátima" ("Voz da Fátima", 22 (262), 13 Jul. 1944, p. 4, col. 4), não ajudou a impor, como fórmula única, aquela que era mais aceitável, em razão da sua origem. Durante algum tempo, verificou-se uma certa hesitação, mas, a pouco e pouco, foi-se deixando de usar a fórmula que refere "as almas do Purgatório".

Cónego Luciano Cristino in «A terceira Aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria em 13 de Julho de 1917».

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