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A herança do "colonialismo"


Conta-se que, depois do 25 de Abril, um diplomata do Leste europeu visitou Lourenço Marques. Acompanhou-o ali um dos dirigentes da FRELIMO e apontou indignado para as palhotas:
– Isto é uma herança do colonialismo!
O diplomata do Leste sorriu e comentou:
– Isto aqui é África. A herança do colonialismo está ali.
E apontava para os altos prédios que se erguiam imponentes a umas centenas de metros...

Barradas de Oliveira in «Quando os Cravos Murcham», Volume II – A Vergonhosa Descolonização, 1984.


Relembro:

Portugal não é devedor a povos "colonizados"


Portugal é um Reino Católico por definição e essência, fundado por Deus em Ourique. A República não é Portugal, nem representa Portugal, é ilegítima e usurpadora. Daí que não são vinculativas, nem válidas, as declarações proferidas pelo Presidente dos Republicanos em Portugal acerca das "reparações históricas". São afirmações abusivas e vãs de legitimidade.

Contudo, aproveitando-se das criminosas declarações do Presidente dos Republicanos, o (des)governo da ilegítima República Democrática de São Tomé e Príncipe vem exigir compensações pelo chamado "colonialismo". Uma exigência tão infundada quanto injusta, não só porque não há nenhum mal para compensar, como a ilegítima República Democrática de São Tomé e Príncipe, que se diz independente há 50 anos, recebe inúmeras ajudas monetárias provindas dos excessivos impostos cobrados pelos (des)governos republicanos em Portugal:


Por outro lado, quando navegadores portugueses a serviço d'El-Rei Dom Afonso V descobriram o arquipélago de São Tomé e Príncipe, em 1470, este estava desabitado. Só em 1493 é que se iniciou o povoamento das ilhas, para onde afluíram alguns portugueses, mas sobretudo negros provenientes do continente africano; sucedendo-se várias vagas de colonização africana ao longo dos séculos. Os actuais habitantes de São Tomé e Príncipe são os descendentes desses colonizadores africanos que vieram a povoar ilhas desabitadas. Ora, se a ilegítima República Democrática de São Tomé e Príncipe pretende que se "repare a colonização", então, em coerência, deveria proceder à desocupação populacional das ilhas, regressando os seus habitantes ao continente africano, dando conclusão à "descolonização exemplar" iniciada em 1974/1975.


Na verdade, as ilhas de São Tomé e Príncipe são por legítimo direito, reconhecido em bulas papais, um domínio da Coroa Portuguesa. E mesmo que os republicanos tenham usurpado esses domínios reais, eles não têm qualquer direito para desapossar um bem que não lhes pertence. A chamada "independência" de São Tomé e Príncipe foi um crime de lesa-pátria e lesa-majestade, cuja pena tradicionalmente aplicada seria a morte.

Mas quando Portugal foi traído e espoliado dos seus territórios ultramarinos, a ilegítima República Democrática de São Tomé e Príncipe herdou um arquipélago fertilíssimo e de águas abundantes, que chegou a ser o maior produtor mundial de cacau e cana-de-açúcar, assim como toda uma estrutura moral e civilizacional, onde as escolas, as igrejas, as estradas e os hospitais são disso expressão material. E não há ouro no mundo que pague a obra civilizadora, a Fé e os bons costumes legados.

A emigração portuguesa em 1898


Damos começo a esta crónica relatando o que está sucedendo a muitos irmãos nossos, que tendo-se deixado levar de promessas falazes emigraram para o Brasil nos meses passados. E fazemo-lo propositadamente para que os nossos leitores vejam o que lá se passa, e não venham a ser também do número dos iludidos.
Muitos portugueses do Continente e Açores, que esperavam enriquecer nas províncias brasileiras, não têm trabalho, nem encontram colocação, e por isso ocupam-se a cavar o cacau e o café, debaixo d'um sol ardentíssimo, e isto pelo módico salário de 400 reis diários.
Outros exercem os mais vis misteres, e são tratados como a gente mais desprezível.
Um grande número anda mendigando os meios de regressar à pátria.
Por outra parte os factos comprovam que a emigração para as nossas possessões africanas é a felicidade de um sem número de famílias.

Fonte: «Voz de S. António: Revista Mensal Ilustrada», 4º Ano, Nº 14, Fevereiro de 1898.

50 anos de (in)dependência da Guiné


Quando Portugal foi traído e escorraçado do Ultramar por sinistras forças internacionais, a Guiné tinha tudo o que era de materialmente necessário a uma vida digna e civilizada. Deixámos lá escolas, igrejas, hospitais, estradas, pontes, portos, etc. Mas mais do que meros objectos materiais, deixámos a Fé e a Civilização, que Portugal levou àquelas gentes de África, que até então viviam nas trevas da superstição e da ignorância.
Hoje, cinquenta anos depois da "descolonização exemplar", a Guiné é um Estado falhado e falido, mergulhado em intermináveis guerras e golpes de Estado, não tendo sequer luz eléctrica própria, regredindo a tempos pré-coloniais, estando totalmente dependente de um barco privado turco para fornecer electricidade à capital guineense. Eis os frutos das maçónicas revoluções, que quanto mais proclamam a libertação dos Povos, mais os agrilhoam na realidade.


Lembremos para o efeito as já aqui citadas palavras de José Acúrsio das Neves, dirigidas aos revolucionários liberais:
Pintáveis a nação reduzida à última miséria, para melhor a subjugardes com promessas de grandes felicidades. Ora comparai o estado em que ela se achava, quando fazíeis essas declamações, com aquele em que a deixastes, quando vo-la arrancaram das mãos, morrendo de fome, esgotadas todas as fontes de prosperidade, a dívida pública elevada ao duplo ou triplo, sem comércio, sem indústria, dividida em partidos, perdidas quase todas as possessões ultramarinas, oprimida, e praguejando-vos em altos gritos. Eis a vossa regeneração! Eis o fruto das vossas luzes do século: luzes do inferno, em que as fúrias acendem as suas tochas, para abrasarem o mundo!

Gloriosa facção em África


No mesmo dia [1 de Julho], ano de 1541, saiu Dom Rodrigo de Castro da praça de Safim [em Marrocos] com cento e oitenta lanças, e proporcionado número de infantes, e deu improvisadamente sobre mais de cinquenta aduares [acampamentos] de Mouros, e depois de uma leve resistência, os pôs em temerosa confusão e precipitada fugida. Rebanhou quinze mil cabeças de gado menor, mil camelos, duzentos bois e oitenta pessoas, e com este despojo se fez na volta de Safim; Recobrados, porém, os Mouros à vista do nosso pouco poder e unidos brevemente em grande número, nos começaram a cercar por todas as partes, com fúria tão desesperada, que a troco de matar, não receavam morrer; Por todos os lados era vanguarda para a nossa gente, a qual com repetidas cargas e vigorosas voltas da cavalaria, foi rebatendo a cada passo novas e furiosas sortidas, e assim ia ganhando terra aos palmos, sem alguma turbação ou desordem; Caminharam em combate sucessivo cinco léguas (não era menor a distância) sempre com firmeza inexpugnável e sem outra perda mais que a de dois soldados e poucos feridos, ficando mortos dos Mouros mais de oitenta; Entraram finalmente gloriosos e triunfantes com toda a presa pelas portas de Safim; Foi este um dos mais galhardos sucessos que em África lograram nossas armas: Porque em marcha tão dilatada, se conservou acometido de imensa multidão de Mouros o nosso pequeno esquadrão, como se fora uma torre portátil, tão forte nos peitos dos defensores, como outras em parapeitos e muralhas.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Angola


Angola. Cidade e Reino na praia meridional de África, entre os rios Danda e Cuanza. O próprio nome deste Reino é Dongo; antigamente foi chamado Ambundo. Angola é o nome do primeiro fundador deste Reino, que com ele se levantou contra o Rei do Congo, do qual era tributário. Pela parte Norte confina o Reino de Angola com o do Congo, e pela parte do Sul com o de Matamba; a Este tem o Reino de Malemba, e a Oeste o Oceano. Haverá alguns cento e sessenta anos, que um dos Sobas do Congo, chamado Angola, e confederado com os Portugueses, venceu os Príncipes seus vizinhos: erigiu em Reino as suas conquistas e tomou o título de Inene. Seu filho, Dambi Angola, que lhe sucedeu, foi inimigo mortal dos Portugueses, mas o filho e sucessor deste, chamado Guilonge Angola, renovou amizade e união com os Portugueses. O primeiro governador de Angola foi Paulo Dias de Novais, que se apoderou de várias Cidades e Províncias. Na sua Descrição da África, pág. 368, escreve Dapper, que no ano de 1584, quinhentos Portugueses desbarataram 1 200 000 Negros de Angola. Foram os Holandeses algum tempo senhores de Angola, mas Salvador Correia de Sá a recuperou.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo I, 1712.

O famoso Lopo Barriga


O Nobre Cavaleiro e famoso Adail Lopo Barriga militou em África com merecido aplauso. O seu nome era o terror dos infiéis; Com ele amedrentavam as mães aos filhos. Achou-se na defesa de muitas Praças e na expugnação de outras, sempre com assinalado valor; Repetia as entradas com tão impetuosas e não esperadas invasões, que não deixava aos Mouros, nem tempo, nem lugar livre de sobressalto. De uma vez chegou a pregar o seu punhal nas portas de Marrocos [=Marraquexe]; Acção, posto que inútil, gloriosa. A sua ousadia, bem-sucedida tantas vezes, de uma o levou ao cativeiro. Vinham muitos Mouros nobres de terras mui distantes a ver este milagre do valor; Sucedeu que um, por desprezo, lhe pegou da barba, mas pagou o atrevimento, porque pegando Lopo Barriga (ainda que carregado de ferros) de um pau, que ali achou, lhe deu tamanha pancada na cabeça, que logo lhe caiu morto aos pés. Foi por esta causa tão cruelmente açoitado, que a camisa lhe ficou moída dos golpes e despedaçada: Assim a mandou a El-Rei Dom João II, o qual logo procurou e conseguiu o seu resgate. Vindo pouco depois a Lisboa, sucedeu perguntar um vez o mesmo Rei a certos Fidalgos que lhe assistiam: Se Lopo Barriga fora ferido muitas vezes? Respondeu um com mais inveja que juízo: Senhor, Lopo Barriga é muito mofino, sempre o ferem. Poucos dias depois, indo El-Rei ao campo e correndo um cavalo, caiu; E falando-se à noite na queda, estando presente Lopo Barriga, disse para El-Rei: Senhor, quem corre cai, e quem peleja ferem-no; E feriu com estas palavras, não pouco, ao Fidalgo que se achava presente, e que em tom de graça, o quisera desluzir, e se honrou e acreditou a si mesmo: Porque só quem peleja valeroso e constante, recebe feridas, e estas, recebidas na guerra, são a verdadeira prova do valor e o mais ilustre timbre da nobreza. Voltou outra vez a África, e seguindo sempre com o mesmo esforço aquela guerra, faleceu neste dia [17 de Fevereiro], deixando imortal nome de valeroso e destemido.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Vasco da Gama descobre o Rio dos Reis


No mesmo dia [6 de Janeiro], ano de 1498, descobriu Vasco da Gama o rio, a que, pela circunstância do mesmo dia, chamou dos Reis, o qual corta e fertiliza terras por extremo frescas e aprazíveis, cujos habitadores achou serem bem-apessoados, e de cor baça, e muito mais polidos que os do Cabo de Boa Esperança: Usavam de manilhas de cobre e traziam pedaços dele atados nos cabelos por galanteria, razão porque os Portugueses deram também ao mesmo rio o nome deste metal.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Vasco da Gama descobre a terra de Natal


No mesmo dia [25 de Dezembro], ano de 1497, com mais de cinco meses da primeira viagem da Índia, descobriu Vasco da Gama na costa da Etiópia Oriental a terra, a que pela circunstância do mesmo dia, chamou do Natal. Para que a examinassem, deixou nela dois homens dos delinquentes, que levava de Lisboa para este efeito, e o informassem quando voltasse (se fossem vivos) da qualidade do País. Achou tanta satisfação dos habitantes que o seu Régulo bem acompanhado visitou a nossa frota; e com resgate de algum marfim e mantimentos, continuou Vasco da Gama a viagem em descobrimento da terra que buscava.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Vasco da Gama descobre a Baía de Santa Helena


Neste dia [4 de Novembro], ano de 1497, descobriu o famoso argonauta Vasco da Gama uma formosa Angra, ou Baía, a que chamou de Santa Helena, onde desembarcou e foi ferido pelos Negros da terra, e este foi o primeiro sangue que se derramou nas jornadas e empresas do Oriente, em que depois se derramaram dilúvios, mas com grande glória da Nação Portuguesa, por serem despendidos por ela em obséquio da Fé e serviço dos seus Reis.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Rei de Quíloa torna-se tributário do Rei de Portugal


No mesmo dia [12 de Julho], ano de 1502, chegou Dom Vasco da Gama (na segunda jornada que fez ao Oriente) à Cidade de Quíloa, e porque o Rei Mouro dela havia tratado com pouca fidelidade aos Portugueses da Armada de Pedro Álvares Cabral, e agora usava de novos enganos e artifícios, Dom Vasco o fez tributário a El-Rei de Portugal em dois mil meticais de ouro cada ano, e foi este o primeiro Rei daquela costa da Etiópia Oriental, que pagou tributo à Coroa Portuguesa.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

A Rainha Ginga


Governando o Reino de Angola, Fernão de Sousa, Senhor de Gouveia, tiveram os Portugueses guerra com o Rei daquele Reino, e o venceram e mataram, aprisionando-lhe três filhas, as quais, instruídas nos Mistérios da Fé, receberam o primeiro dos Sacramentos, que lhe administrou o Bispo, sendo Padrinho o Governador, e assistindo os Ministros da República e Cabos de Guerra, que então se achavam na Cidade de S. Paulo de Luanda. Foi aquele dia sumamente festivo para todos os moradores da mesma Cidade e das terras circunvizinhas, por verem três Princesas prostradas aos pés de Cristo, à imitação dos três Reis do Oriente, prostrados também em outro dia aos mesmos sagrados pés; verificando-se assim, que as Majestades da Terra, desde o nascimento do Sol até ao seu Ocaso, lhe renderam, e rendem, adorações. Chamou-se a primeira Dona Ana, a segunda Dona Graça, a terceira Dona Bárbara, e o Governador, em memória daquele acto sucedido no seu tempo, deu o seu apelido à primeira, e se chamou Dona Ana de Sousa. Foram, porém, muito vários os sucessos das três; A Dona Graça foi morta pelos Portugueses, por ser convencida em crime de traição contra o Estado: A Dona Bárbara, passando diferentes fortunas, já prósperas, já adversas, morreu Rainha de Matamba, com mostras de verdadeira Cristã e em boa correspondência com os Portugueses.
Dona Ana foi mulher de tão raro e tão extravagante génio, e de tanto juízo e valor, que a viver em tempos mais antigos, não seria menos celebrada do que o foram as Semíramis, as Cleópatras, as Zenóbias. Saiu furtivamente da Cidade de S. Paulo, e metida pelo Sertão, se armou contra os Portugueses, dizia ela, que em vingança da morte de seu pai. Largou o nome e sobrenome do Baptismo, e chamou-se como de antes Ginga Amena: Abraçou outra vez os ritos daquela bárbara Gentilidade e se fez dogmatista de outros novos, que lhe conciliaram tanta reputação, que era tida entre os Gentios por coisa celestial e superior: Vestiu-se em trajes de homem e não queria que lhe chamassem Rainha, senão Rei; Sustentava-se de carne humana e gostava muito das reções do peito, porque nelas entravam os corações: Qualquer leve descuido bastava para cortar as cabeças aos seus mais íntimos criados e aos que lhe eram mais chegados em sangue, e dizia, muito senhora de si: Que os Reis não tinham parentes. Vestia ricas galas e ornava-se com preciosas jóias: Recebia os Embaixadores dos Reis e Príncipes daquelas vastíssimas Regiões, com excessiva pompa, sentada em um majestoso Trono, em uma sala coberta de ricas alcatifas e ornada de vistosas armações, e só dava assento alto, em um banquinho de palha, ao Embaixador de El-Rei do Congo, a quem só reconhecia igual: Os Embaixadores de outro qualquer Rei sentavam-se no chão. Era tal para com a sua pessoa a veneração e tanto o respeito dos Negros (ou fossem amigos ou inimigos, ou a encontrassem vencida ou vencedora) que nenhum se atrevia a pôr nela os olhos, e a grande espaço do lugar, onde sabiam que ela estava, se lançavam por terra de bruços e não se levantavam sem ordem sua, e antes se deixariam matar do que fazerem o contrário; Servia-se de trezentos moços e de outras tantas moças de dezoito até vinte e cinco anos, eles em trajes de mulheres e elas de homens, e viviam divididos por seis estâncias, e em cada uma destas, cinquenta de um sexo e cinquenta do outro; Mas com pena inviolável de morte se alguns se desmandavam no vício sensual; ordenando ao mesmo tempo a união e mostrando abominar os efeitos que ela geralmente causa, procurando por este modo (que era o verdadeiro fim daquela extravagância) ter mais repetidas ocasiões de cortar cabeças. Fora das estâncias não tinha proibição alguma o vício da carne, mas com tal lei, que a nenhuma mulher se consentia parir dentro do arraial sob pena de morte, e quando lhe davam as dores, saiam aos campos e as seguiam uns cachorros, que já trazia costumados a este efeito, que logo despedaçavam e comiam as crianças, e as mães, lavando-se nos rios, tornavam para o arraial: Trazia nos braços duas argolas de latão, e nelas, dizem, que dois familiares com quem falava e consultava as suas coisas e sucessos; Tinha também uma arca de prata, cheia de ossos de defuntos e de outros trastes semelhantes, de que também usava para os seus malefícios; Isto, quanto ao estilo da sua vida na Côrte e na paz. Na campanha e na guerra, trouxe aos princípios um esquadrão volante, e a modo de salteadora, invadia as povoações dos seus mesmos naturais, sustentando-se, e aos seus, da carne dos velhos e inúteis que matava, incorporando no seu Esquadrão os moços para a guerra, e as moças para a multiplicação; Aos Portugueses fazia maiores danos, acometendo-os com tanta velocidade, que em nenhum lugar, nem tempo, se davam por seguros. Aparecia e desaparecia como relâmpago, mas sempre fulminando raios de ira e de vingança; Depois ajuntou numerosos exércitos e nos apresentou muitas batalhas campais, e em muitas ficou vencedora e em outras vencida, e em uma e outra fortuna, mostrava sempre igual valor e igual semblante; Quando os Portugueses a imaginavam sem forças e sem armas, então lhe aparecia mais poderosa e formidável: Sabia escolher os sítios, dispor os quartéis, formar os esquadrões, armar as ciladas, e todos os outros modos e artifícios de guerra, como o mais perito e experimentado Capitão; Com a entrada dos Holandeses em Angola, e fomentada por eles, cobrou novos brios e nos começou a invadir de novo e quase nos teve lançado fora daquelas terras; Mas com a expulsão dos mesmos [Holandeses] executada por Salvador Correia de Sá e Benevides, vendo-se já velha e cortada dos contínuos trabalhos, mandou pedir pazes aos Portugueses, e dali por diante viveu com eles em boa correspondência; Admitiu no seu Reino aos Religiosos Missionários e se deixou persuadir tão fortemente das suas admoestações, que se desfez de tudo o que lhe servia às suas más artes, abraçou os ritos Católicos, e começou a viver como verdadeira Cristã. Edificou na sua Côrte de Matamba um sumptuoso Templo dedicado à Mãe de Deus, e as mais das tardes ia a ele com as suas Damas rezar o Terço; Procurou com toda a eficácia que lhe foi possível, a conversão de todos os seus vassalos, o que em grande parte conseguiu: Morreu catolicamente, com todos os Sacramentos, e muitos Sinais de predestinada.

Fonte: «Notícia memorável da vida e acções da Rainha Ginga Amena, natural do Reino de Angola», 1749.

Vasco da Gama dobra o Cabo da Boa Esperança


No mesmo dia [20 de Novembro], ano de 1497, dobrou Vasco da Gama o Cabo da Boa Esperança; e esta foi a primeira vez que se viu domado o furor e pisada a soberba daquele Cabo, vulgarmente chamado Tormentoso, que o insigne Camões pintou na figura de um horrendo Gigante de medonha catadura: É terra habitada de gente baça, de cabelo revoltoso e de pequena estatura e rosto feio; Quando falam parece que soluçam, andam vestidos de peles, vivem em casas de barro cobertas de colmo, e faltos de Religião e de todo o trato político e civil, mais parecem brutos do que homens.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.