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É essencial ter os conceitos certos e bem definidos


Se atrasados ou adiantados em relação aos conceitos actuais, o tempo o dirá. O que ambicionamos é ser autênticos na nossa modéstia: nada se há-de prometer que não se cumpra; nada se há-de afirmar que não corresponda ao conceito exacto que formamos dos problemas. A nossa época está cheia de palavras sem sentido e infelizmente é com essas palavras que se pretende conduzir do nosso lado os negócios do mundo. Por isso somos batidos, tendo razão, e nos arriscamos a perder, estando a justiça por nós.

António de Oliveira Salazar em entrevista ao jornal «Corriere della Sera», 30 de Março de 1960.

Ter os princípios correctos para pensar correctamente


Uma das observações desta Lógica criteriosa, de facto, é que a maior parte dos erros dos homens advém menos de raciocinarem mal a partir de princípios verdadeiros, do que de raciocinarem bem a partir de juízos imprecisos ou de princípios falsos. O duque de Chevreuse, tal como o vemos através de Saint-Simon, como na sua correspondência com Fénelon, apresenta-se-nos precisamente como um desses casos de homens que raciocinam maravilhosamente, que raciocinam muito bem, que raciocinam sobre tudo e até onde a vista alcança: só que o princípio de que partem é falso ou questionável.

Charles-Augustin Sainte-Beuve in «Causeries du lundi», Tomo X, 1854.

Os Nominais


Nominais. É o nome de uns Filósofos, que, seguindo a opinião de Guilherme de Occam, Religioso de S. Francisco, de nação Inglês, e discípulo de Escoto, querem provar que não há ciência das coisas [= entes, seres] em geral, mas só dos nomes comuns das ditas coisas; por isso lhes chamam Nominais. Pretendem que o que os Lógicos chamam Universais, sejam meros conceitos dos homens, sem que realmente exista no mundo natureza [= essência] alguma comum a muitos; por esta razão se diz deles que são escassos de coisas e pródigos de palavras. Santo Anselmo da Cantuária [Doutor da Igreja] lhes chama Hereges da Dialéctica.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo V, 1716.

A dialéctica como método de subversão revolucionária


A dialéctica hegeliana é o método filosófico revolucionário por excelência, segundo o qual a Verdade não é fixa e definida, mas em constante renovação e aperfeiçoamento, enquanto síntese de ideias contrárias.
Segundo o método dialéctico hegeliano a ideia/posição original é chamada de tese, à qual se contrapõe uma ideia/posição radical chamada de antítese. Como solução entre esses dois "extremos" procura-se um consenso, um meio-termo entre as duas posições opostas, que é chamada de síntese. Com o tempo esta síntese converte-se numa nova tese, a qual é confrontada com uma nova antítese, de onde surge uma nova síntese, etc. E assim, dialecticamente, de síntese em síntese, ou de consenso em consenso, vai avançando a Revolução ou subversão ideológica na Ordem moral, social, política e religiosa.
A Revolução, ou implementação do Reino Social do Anti-Cristo, tem-se desenvolvido gradualmente desde o Iluminismo nas inteligências e nas sociedades, demolindo e corrompendo, fazendo uso de processos dialécticos. Um exemplo clássico e bem evidente de subversão dialéctica foi a criação das chamadas Monarquias constitucionais e parlamentares, como síntese entre Monarquia e República.

Princípios e consequências do Liberalismo


Explicaremos agora em poucas palavras o Liberalismo, cujo exemplo histórico típico é o Protestantismo. O Liberalismo pretende libertar o homem de todos os constrangimentos não desejados ou aceites por si próprio.
Primeira libertação: aquela que liberta a inteligência de toda a verdade objectiva imposta. A Verdade deve ser aceite de forma diferente de acordo com os indivíduos ou grupos de indivíduos, ela é, portanto, necessariamente compartilhada. A Verdade é criada e procurada incessantemente. Ninguém pode alegar tê-la exclusiva e integralmente. Não é difícil adivinhar o quanto isso é contrário a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Sua Igreja.
Segunda libertação: a da fé que nos impõe dogmas formulados de forma definitiva e à qual se deve submeter a inteligência e a vontade. Os dogmas, segundo o liberal, devem ser submetidos ao crivo da razão e da ciência, e isso de uma maneira constante, conforme o progresso científico. Portanto, é impossível admitir uma verdade revelada definida para sempre. Note-se a oposição deste princípio à Revelação de Nosso Senhor e à Sua autoridade divina.
Finalmente, a terceira libertação, a da lei. A lei, segundo o liberal, limita a liberdade e impõe-lhe um constrangimento, primeiro moral e depois físico. A lei e as suas restrições vão contra a dignidade e a consciência humana. A consciência é a lei suprema. O liberal confunde liberdade com licença. Nosso Senhor Jesus Cristo é a Lei viva, sendo o Verbo de Deus; mas ainda veremos o quão profunda é a oposição do liberal a Nosso Senhor.
Os princípios liberais têm como consequência a destruição da filosofia do ser [=ontologia] e a recusa de toda a definição de seres, para se fechar no nominalismo ou no existencialismo e no evolucionismo. Tudo está sujeito a mutações, a alterações.
Uma segunda consequência igualmente grave, senão mais, é a negação do sobrenatural, portanto do pecado original, da justificação pela graça, do verdadeiro motivo da Encarnação, do sacrifício da Cruz, da Igreja, do sacerdócio. Tudo é distorcido na obra realizada por Nosso Senhor; e isso traduz-se numa visão protestante da liturgia, do Sacrifício da Missa e dos Sacramentos, que não têm mais por objecto a aplicação da Redenção nas almas, a cada alma, a fim de lhe comunicar a graça da vida divina e prepará-la para a vida eterna, pela pertença ao corpo místico de Nosso Senhor, mas que doravante tem por centro e motivo a pertença a uma comunidade humana de carácter religioso. Toda a reforma litúrgica [de Paulo VI] reflecte esta orientação.
Outra consequência: a negação de toda a autoridade pessoal, participada na autoridade de Deus. A dignidade humana exige que o homem seja submetido apenas ao que ele consente. Uma vez que a autoridade é indispensável para a vida em sociedade, ela só aceitará a autoridade aprovada pela maioria, porque representa a delegação da autoridade do maior número de indivíduos a uma pessoa ou a um grupo designado, esta autoridade é sempre apenas delegada.
Ora, estes princípios e as suas consequências, que exigem a liberdade de pensamento, a liberdade de ensino, a liberdade de consciência, a liberdade de escolher a própria religião, essas falsas liberdades que supõem a laicidade do Estado, a separação da Igreja e do Estado, têm sido, desde o Concílio de Trento, incessantemente condenadas pelos sucessores de Pedro e, em primeiro lugar, pelo próprio Concílio de Trento.

D. Marcel Lefebvre in «Carta aos Amigos e Benfeitores» de 3 de Setembro de 1975.

O Activismo na base do Marxismo


Doutrina Católica
De acordo com a doutrina católica, o fundamental a tudo é o ser. Do ser provém a natureza da coisa, da natureza provém a acção: «agere sequitur esse», «a acção segue o ser». Daí se deduz que é importante o conhecimento da natureza das coisas. Quem conhece a natureza das coisas sabe agir. Eis a razão por que nós meditamos. Pela meditação conhecemos a verdade. Do conhecimento da verdade nasce a acção.

Teoria Marxista
Ao marxista não interessa o conhecimento teórico da essência das coisas, pois que as coisas não têm ser fixo. Não lhe interessa o valor do ser e da verdade, e sim o valor da eficiência e acção.
Este ponto é fundamental para compreender o marxismo. O marxismo não procura organizar uma sociedade conforme a natureza humana. Ele não admite a natureza humana como algo de fixo, que sirva de norma absoluta, que tenha que ser assim e não de outro modo. Como o homem pode ser modificado na sua essência pelo trabalho, pela acção, o papel que na sociologia e na teologia tem o ser, a natureza, é abandonado definitivamente. Para a concepção marxista o factor decisivo é a acção. Para o católico, a experiencia e a acção devem realizar aquilo que a inteligência conhece como verdadeiro e bom. A vontade segue a inteligência, a consciência. No marxismo dá-se o contrário.
Ouvi o que diz Lenine: «A concepção da prática da vida é que deve determinar a concepção fundamental da teoria do conhecimento» («Matérialisme et empiriocriticisme», Edit. Sociales, Paris, p. 123).
Para o católico a palavra de ordem é: «Vive como pensas!». Para o marxista é: «Pensa como vives!».
«Uma das particularidades do materialismo dialéctico é o seu carácter prático, sublinhando-se o facto de que a teoria depende da prática, o facto de que o fundamento da teoria é a prática, e que, por sua vez, a teoria é a prática... O critério da verdade não pode ser senão a prática social. O ponto de vista da prática é o ponto de vista primordial, fundamental da teoria marxista dialéctica do conhecimento» (Mao Tsé-Tung, «Oeuvres Choisies», Edit. Sociales, Paris, tomo I, pp. 349-350).
Não há, portanto, «doutrina» propriamente dita.
«Resulta pois que no marxismo não existe a filosofia, e sim a acção, que a filosofia se confunde com a acção mesma, uma vez que ela só afirma o que a acção a obriga a afirmar, de tal sorte que não há filosofia sem acção marxista, que a acção revolucionaria é da própria essência da filosofia, porque a missão da filosofia é realizar a mais eficaz acção material. Para um comunista consciente do seu marxismo, o comunismo não é uma verdade... o marxismo é uma acção» (Jean Daujat, «Connaître le Communisme», p. 25).
A prática é a única regra da prática, a acção é a única regra de acção. O ideal absoluto é obter a acção material levada ao máximo, ao paroxismo de eficiência e vigor.

D. Geraldo de Proença Sigaud in «Carta Pastoral sobre a seita comunista, seus erros, sua acção revolucionária e os deveres dos católicos na hora presente», 1963.

Os três estádios de vida do Homem


Para Aristóteles, as três vidas típicas do Homem são: a vida pueril, a vida política e a vida especulativa. A primeira é a que tem por fim o prazer; a segunda a honra e a glória; e a terceira a contemplação. É como se disséssemos: a vida do divertido; a vida do homem de acção; e a vida do sábio.
Com o Cristianismo, temos que a vida estética é dominada pelo prazer; a vida ética está sob o signo da luta e da vitória; e a vida religiosa é regida pelo sofrimento.

O Estádio Estético
A vida estética é a dos que vivem na superfície das coisas; é a vida dominada pelo prazer, ainda que seja o prazer estético. É a vida no plano das sensações, das imagens, do sentimentalismo, da vida tangueira. Não é que não tenham razão e raciocínio, mas a razão está num nível rebaixado.
É de realçar que se pode ser muito religioso, muito devoto, e também muito moral, muito correcto, e viver no plano estético. O plano estético não designa somente o libertino vulgar, o simples estouvado ou o farrista trivial: é uma categoria filosófica que tem valor universal.
O viver no plano estético leva a estabelecer-se nas aparências, na exterioridade; a imprudência, a estupidez, a irresponsabilidade, a amoralidade, a imundice, a estultícia, o sentimentalismo, a grosseria... Para curá-las, há que subir ao plano moral, através de um salto.

O Estádio Ético
A vida ética é a que está dirigida à luta e à vitória, à glória, como diz Aristóteles.
O homem ético é aquele que está possuído pelo sentimento de justiça e de ordem: o homem aderido à moral.
Para Aristóteles, o grande estadista é o tipo desta vida; que por isso a chama de "vida política"; é uma grande vida, mas não é a superior.
O grande estadista é o homem da paixão ética, da luta, da vitória no campo da moral, quer dizer, no campo da alma dos homens, das multidões e das nações.
É um homem de costumes estritos ou correctos, de ideias conservadoras, de sentimentos moderados; não propenso ao êxtase, mas propenso à solenidade. É o homem irrepreensível, pelo menos ninguém conseguiu manchá-lo; nem ele permitirá que ninguém o manche; tem o sentimento e o cuidado da sua honra; justamente por isso Aristóteles põe a glória como o fim desta classe de vida. Para o homem ético, as palavras vício e virtude têm um valor terrível; a honra não é uma palavra vã.
A honra: chegará um momento difícil na sua vida (que ele fará todo o possível para que não chegue, mas que pode chegar) em que ele abandonará o seu posto para não manchar a sua honra.
Este tipo é o que constitui – ou deveria constituir – a média da vida humana, o tecido geral da sociedade, ou em último caso, o que chamam de classes dirigentes.
Em suma, os que devem dirigir necessitam da moral.

O Estádio Religioso
É, para Aristóteles, a vida contemplativa e está sob o signo da contemplação; Kierkegaard disse, severamente, que está sob o signo do sofrimento.
Se Kierkegaard disse que o religioso está sob o signo do sofrimento, não disse como o pérfido apóstata, Renan, que "a verdade é triste", nem a tristeza de Kierkegaard é a desesperação de Lutero.
Se a religião está sob o signo do sofrimento, quer dizer que o homem que está no plano religioso, é o homem que viu, de uma vez para sempre, a vida cara a cara – e também a morte –; e tendo aceitado a vida, e tendo aceitado a morte, colocou-se de imediato no centro da realidade e em relação directa com o divino.
Ao homem religioso, este mundo aparece-lhe como um espectáculo – tal como ao homem estético.
A vida aparece-lhe como uma luta – tal como ao homem ético.
Mas aparece-lhe como uma luta sem vitória – quer dizer, como um sofrimento, e isso o diferencia dos outros dois homens.
Além disso, ele sente-se débil, enquanto os outros se sentem sólidos e seguros; eles sentem-se num mundo sólido, em terra firme; ele está em equilibro instável. Às duas por três, cai num abismo, do qual sai bracejando arduamente; mas quando chega à superfície, dá-se conta que as ondas em que vive são a realidade da vida; e que a terra firme dos outros dois é pura aparência.
Por isso, pode contemplar esses dois mundos dos outros – o mundo do sensível e o mundo da moral – com um pouco de "humor".
E isto, e nada mais, é a "tristeza cristã". Ele, que está em relação directa com Deus, está em relação directa com uma coisa maior do que o homem: uma coisa tremenda.

Pe. Juan Carlos Ceriani in «Sermão de Domingo de Sexagésima», 7 de Fevereiro de 2021.

Pensador


Pensador – Entre os Republicanos ninguém merece este nome, senão aquele que, à força de pensar, tem arrojado de seu pensamento a Deus, a Religião, a imortalidade da alma, e tudo quanto há e pode haver de bom. Aristóteles, Platão, Cícero, etc. foram tidos até agora loucamente por sublimes pensadores; das primeiras noções naturais tiraram eles o verdadeiro resultado, e seguindo o fio do raciocínio, chegaram a dar com a existência de Deus, com a essência de Sua natureza, com a moral e a imortalidade da alma, etc. Porém que estúpido modo de pensar! Para chegar ao mais alto e sublime grau de pensadores tomaram os Filósofos modernos o caminho bem ao contrário. Começam por Deus; porém para anular a Sua existência, ou admiti-lo por mera cerimónia. Desce-se logo depois com a maior ligeireza até anular tudo, e assim vai a pique a Religião, a Moral, etc. E quando se há chegado a transtornar o juízo, de modo que chegue a crer que os homens, depois de uma vida ocupada toda em comer, beber, e zurrar como os burros, merecem com o livre-arbítrio e com a razão, o mesmo que eles, que não têm nem uma, nem outra coisa; e que depois da vida presente nada há a esperar, e que todos morremos como asnos, então sim, é quando filosoficamente se merece o sublime epíteto de pensador, de filósofo, e de iluminado. E haverá todavia homens, que depois disto, não queiram confessar que o género humano deve viver sumamente reconhecido às brilhantes luzes da Filosofia moderna, e a seu modo sublime de pensar?!

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 4, 1831.

25 de Novembro: Santa Catarina de Alexandria


«A ilustre Virgem Catarina», diz o breviário romano, «nasceu em Alexandria». Tendo juntado, desde a juventude, o estudo das artes liberais ao ardor da fé, elevou-se, em pouco tempo, à grande perfeição de doutrina e santidade, de modo que, aos dezoito anos de idade, excedia os mais eruditos sábios. Tendo repreendido o Imperador Maximiano, porque atormentava os cristãos, este, cheio de admiração pela ciência de Catarina, reuniu, de toda a parte, os homens mais doutos, a fim de fazê-la passar, com plena convicção, da fé em Jesus ao culto dos ídolos. Aconteceu o contrário, pois, diversos deles se converteram ao Cristianismo, pela força de seus raciocínios. Maximiano mandou açoitar Catarina com varas e chicotes guarnecidos de chumbo, e, em seguida, atá-la a rodas cercadas de gládios agudos. Mas rompeu-se máquina e o tirano ordenou que fosse decapitada a virgem. Morreu cerca do ano 305. Acha-se numerada entre os 14 santos auxiliares. O Monte Sinai, para onde o corpo de Santa Catarina foi transportado pelos Anjos, é o mesmo lugar em que Deus deu a Sua Lei a Moisés.

Fonte: «Missal Quotidiano e Vesperal», 1940.

O mal do seguidismo

Cegos guiando cegos

Torno à ideia que lhe queria dar da Lógica. Digo, pois, que o método de filosofar não se deve seguir, porque o diz este, ou aquele autor: mas porque a razão e experiência mostram que se deve abraçar. Isto é o que eu não posso meter na cabeça a muita gente: porque a maior parte do mundo não examina os princípios das coisas; mas vão uns detrás dos outros como carneiros; sem mais eleição que o costume: e antes querem errar, por cabeça alheia, que acertar pela própria. Persuadem-se que os autores não podem ensinar coisa alguma má: e recebem os tais ditames com a possível veneração. Nenhum toma o trabalho de examinar, se a opinião é boa, ou má: uma vez que a disseram os antigos mestres, é o que basta.

Pe. Luís António Verney in «Verdadeiro método de estudar para ser útil à República e à Igreja: proporcionado ao estilo e necessidade de Portugal», 1746.

O homem estético


Quem é o homem estético, é o libertino ou farrista, de que fala Aristóteles? Esse claro que sim; mas acima dele há outros em escala ascendente: são todos os que centram a sua vida sobre algo exterior, que são eles mesmos livremente abraçados com a sua personalidade essencial. São todos os que dizem «há que gozar a vida» ou «eu quero viver a minha vida». Centrar a vida na boa saúde, um; centrar a vida no poder ou nas honras, dois; centrar a vida na arte ou na poesia, três; centrar a vida no talento, quatro; tudo coisas externas. Mas há outro estético pior: aquele que se desencantou com todas as coisas terrenas e não foi para as eternas.

Pe. Leonardo Castellani in «De Kierkegaard a Tomás de Aquino», 1973.

Filosofia


Toda a filosofia canta a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo, que criou todas as coisas deste mundo. A filosofia não é mais que a descoberta das maravilhas que Deus fez neste mundo, no mundo material, no mundo espiritual e no mundo celestial, porque o cume da filosofia é a teodiceia, ou seja, o estudo de Deus e de todos os Seus maravilhosos atributos. A teodiceia faz-nos conhecer o Criador, Aquele que é por Si mesmo, enquanto nós não somos nada a não ser por Ele. As verdades da filosofia devem ser estudadas e meditadas à luz da fé, porque algumas verdades, inclusive naturais, são objecto de fé. As primeiras palavras do Credo são, de facto, palavras que afirmam verdades da filosofia, e por isso, da razão natural: "Creio em Deus, Criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis". Aí está, em definitivo, toda a teodiceia.

D. Marcel Lefebvre in «A Santidade Sacerdotal».


Relembro: Sã Filosofia.

A tolerância e o círculo quadrado


JORGE GUILHERME – A tolerância não é o respeito de todas as convicções, crenças, etc.?
JOÃO TIAGO – Por certo.
JORGE GUILHERME – Então, a tolerância tem de ser tolerância da intolerância, das convicções e crenças intolerantes. Se não o for, a tolerância repele certas crenças e convicções, logo, a tolerância transforma-se em intolerância. E uma tolerância intolerante é um paradoxo grotesco. Mas se a tolerância for a tolerância da intolerância, é a aceitação do que a nega, o que é axiologicamente uma auto-contradição.
JOÃO TIAGO – Não é certo, porém, que julgas indigno que a tolerância elimine os intolerantes que a negam, embora seja perfeitamente correcto para ti que os intolerantes neguem a tolerância em nome dos nossos princípios. Posição cómoda, na verdade, mas racionalmente insustentável.
JORGE GUILHERME – Estou muito satisfeito por abordares um problema que desejava tratar com certa largueza. É certo que o argumento que usas é velho. Já foi brandido contra Veuillot. Só que acontece que a idade respeitável não lhe dá verdade nenhuma.
JOÃO TIAGO – E porque não é verdadeiro?
JORGE GUILHERME – Porque não reclamamos tolerância em nome dos vossos princípios. Decerto pretendemos que as nossas doutrinas tenham livre difusão e expansão; simplesmente nunca em nome de uma regra geral de tolerância, antes em nome da verdade intrínseca que as caracteriza. Isto em nada contende com o não reconhecimento de iguais direitos para as doutrinas opostas, precisamente porque nelas vemos o erro.

António José de Brito in «Diálogos de Doutrina Anti-Democrática», 1975.

Sã Filosofia


Para combater o subjectivismo e o racionalismo, que são a base dos erros liberais, não farei alusão às filosofias modernas infectadas precisamente de subjectivismo e racionalismo. Não é nem o sujeito, nem os seus conhecimentos e os seus anseios que a filosofia de sempre, e em particular a metafísica, toma por objecto, é o ser mesmo das coisas, é aquilo que é. Com efeito, é o ser com as suas leis e princípios, o que nosso conhecimento mais espontâneo descobre. E no seu ápice a sabedoria natural (que é essa filosofia) chega pela teodiceia ou teologia natural ao Ser por excelência, ao Ser subsistente por si mesmo. É este Ser primeiro que o senso comum, apoiado, sustentado e elevado pelas verdades da fé, sugere que seja colocado no topo do real, conforme a Sua definição revelada: Ego sum qui sum (Ex 3, 14): Eu sou aquele que sou. Bem sabeis que quando Moisés perguntou o Seu nome, Deus respondeu: Eu sou o que sou, o que significa: Eu sou Aquele que é por si mesmo, possuo o Ser por mim mesmo. É o ens a se: o ser por si mesmo, em oposição a todos os outros seres que são ens ab alio: ser por outro ser, pelo dom que Deus lhes fez da existência! Este é um princípio tão admirável, que se pode meditar sobre ele durante horas. Ter o ser por si, é viver na eternidade, é ser eterno. Aquele que tem o ser por si mesmo sempre teve que tê-lo, o ser nunca poderia havê-lo abandonado. É sempre, foi sempre, será sempre. Pelo contrário, aquele que é ens ab alio, ser por outro ser, recebeu de outro, portanto começou a ser em algum momento, portanto começou!

Como esta consideração nos deve manter humildes! Compenetrarmo-nos do nada que somos diante de Deus! "Eu sou aquele que é, e tu és aquele que não é", dizia Nosso Senhor a uma santa alma. Como é verdadeiro! Quanto mais o homem absorver este princípio da mais elementar filosofia, melhor saberá o seu verdadeiro lugar diante de Deus.

Somente o facto de dizer: eu sou ab alio, Deus é ens a se; eu comecei a ser, Deus é sempre. Que contraste admirável! Que abismo! É por acaso este pequeno ab alio, que recebe o seu ser de Deus, que teria o poder de limitar a Glória de Deus? Teria o direito de dizer a Deus: tens direito a isto, mas mais nada? "Reina nos corações, nas sacristias, nas capelas, sim; mas na rua e na cidade não!" Que insolência! Igualmente seria este ab alio quem teria o poder de reformar os planos de Deus, de fazer com que as coisas sejam de outra maneira, diferentes de como Deus as fez? E as leis que Deus, em Sua sabedoria e omnipotência criou para todos os seres e especialmente para o homem e para a sociedade, teria o desprezível ab alio o poder de rechaçá-las a seu capricho, dizendo: "Eu sou livre!" Que pretensão! Que absurda esta rebelião do Liberalismo! Vede como é importante possuir uma sã filosofia e ter assim um conhecimento profundo da ordem natural, individual, social e política. Para isto o ensinamento de Santo Tomás de Aquino é insubstituível. Leão XIII o citou na sua encíclica Aeterni Patris de 4 de Agosto de 1879:
«Some-se a isto que o Doutor Angélico procurou as conclusões filosóficas na razão e princípio das coisas, princípios estes que se estendem amplamente e encerram em seu interior as sementes de inúmeras verdades que dariam abundantes frutos com os mestres posteriores. Tendo empregado este método de filosofia, conseguiu vencer os erros dos tempos passados e fornecer armas invencíveis para refutar os erros que sempre haviam de se renovar nos séculos futuros.»

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar», 1987.

Da Verdade


1. Noção. – Comumente atribuímos o predicado de "verdadeiro" às coisas, aos conhecimentos e às palavras; e dizemos que uma coisa é verdadeira, quando possui a sua própria natureza: ouro verdadeiro é aquele que tem realmente a essência do ouro; um conhecimento é verdadeiro, quando representa o objecto como realmente é, quando diz do objecto o que ele é, e não o que ele não é; as palavras são verdadeiras, quando manifestam o que realmente pensamos.

2. A verdade das coisas, chamada verdade ontológica, depende da conformidade das coisas com a Inteligência divina que as concebeu e criou.
A verdade do conhecimento, chamada verdade lógica ou formal, depende da conformidade da nossa inteligência com as coisas. De facto, todo o nosso esforço ao procurar conhecer uma coisa consiste em nos "adequar " à coisa, à realidade. Quando, por ex., olhando pela janela, não distinguimos se chove ou não, abstemo-nos de julgar. Quando porém nos certificamos de ter atingido a realidade, afirmamos ou negamos; e se vemos que está a chover, a impossibilidade de negá-lo não é uma impossibilidade puramente subjectiva de pensar o contrário, mas uma impossibilidade imposta pela realidade e independente de nós, pois não é a nossa inteligência que faz com que as coisas (naturais, não-artificiais) sejam, e sejam o que são. Donde para conhecer uma coisa e falar dela com verdade é necessário que a nossa inteligência se conforme com aquilo que a coisa é. – E isso vale também para as afirmações de ordem universal, como: o homem é animal racional, o todo é maior do que uma de suas partes.
Mesmo quando erramos, o esforço feito foi de nos adequar à realidade, e a nossa afirmação provém ainda da persuasão (precipitada no caso, como veremos) de nos estar conformando com o que é.
Reconhecer que o nosso esforço no conhecer é para saber e dizer o que é, e não o que não é, é reconhecer que as nossas faculdades cognoscitivas são feitas para conhecer o que é, a realidade; que a natureza delas é de tender para a realidade: a verdade; que são aptas para atingir a realidade, a verdade. Senão, não se poderia dizer de quem afirma, por ex., 2 + 2 = 5, que usa mal das suas faculdades.
A verdade das palavras consiste na conformidade das palavras com o que a inteligência pensa e julga.

3. Estas três espécies de verdades supõem sempre como elemento comum uma conformidade, uma adequação entre estes dois termos: inteligência e realidade. Donde a definição da verdade: "adaequatio intellectus et rei".
Quem se conforma dá o nome à verdade:
Conformidade da realidade da coisa com a Inteligência divina = verdade da coisa. É verdade essencial (provém da sua essência) transcendental (compete a todas as coisas, porque todas têm entidade e precisamente aquela que Deus pensou e quis, pois nunca Deus se engana no realizar das suas ideias). – Todas as coisas, enquanto – pelo facto de terem alguma entidade – são aptas para serem conhecidas pela inteligência humana cujo objecto é o ser, possuem também uma verdade transcendental acidental: é a inteligibilidade da realidade;
Conformidade da inteligência humana com a realidade, com as coisas = verdade da inteligência, isto é, verdade do conhecimento, verdade lógica e formal;
Conformidade das palavras com o conhecimento da inteligência = verdade das palavras, chamada veracidade, que se opõe à mentira e de que trata a Ética.

Pe. Pedro Cerruti in «A Caminho da Verdade Suprema», 1956.

Paradoxos dos "Direitos do Homem"


Afastando estes tópicos, perguntemos porque é que o homem possui direitos inalienáveis enquanto homem, unicamente por ser homem?
A resposta assemelha-se simples. Exactamente porque o homem é um sujeito com consciência de si e, sobretudo, com uma natureza racional.
Simplesmente, uma dificuldade surge aqui. Se por natureza se entende essência, como o faz S. Tomás de Aquino [cf. Suma Teológica], torna-se patente que a essência do homem não é a racionalidade. Porventura será o homem só razão? Se assim fosse, o homem não poderia enganar-se, nem praticar o mal. Tudo quanto o homem fizesse seria verdadeiro e, então, seria verdade que o homem não tem dignidade nenhuma e meritório tratá-lo como um desvalor sem direitos.
Mas, observar-se-á, o homem não será só razão, por certo. No entanto, para além de Deus e dos anjos, é o único ente dotado de razão. E isso não bastará para lhe dar dignidade e direitos intrínsecos? Obviamente não, porque a razão é apenas um atributo do homem entre outros, existindo, ao lado dela, a capacidade de errar, de se abandonar ao que é vil e extremamente mesquinho, de agir irracionalmente, em suma. Onde estarão, nessa altura, a sua dignidade e direitos intrínsecos?
Sublinhar-se-á, a seguir, que é ele o único ente (além dos anjos e Deus) que pode praticar o Bem, coisa que não está na alçada dos gatinhos ou das pedras. Mas em contrapartida, também pode praticar infâmias, o que não acontece com os gatinhos ou as pedras.
Sem dúvida o homem, ontologicamente, é diferente dos animais e dos minerais; todavia, tal situação não equivale a ter dignidade e direitos enquanto homem, porque dignidade e direitos são categorias éticas, que não se confundem tout court com as categorias ontológicas.
Anotar-se-á que os homens, e apenas os homens, podem conseguir a Salvação e atingir a beatitude? Bem! Já que estamos, agora, numa perspectiva teológica, replicar-se-á que os homens também podem ir para o Inferno, que é o contrário da beatitude.
De resto, se há homens perfeita e cabalmente indignos, como nos dizem e repetem, em especial a propósito da guerra de 1939-1945, de que forma sustentar que o homem tem uma dignidade e direitos intrínsecos só por ser homem?
E examinemos outro problema. Qual o limite dos direitos inalienáveis de cada homem, uma vez que, tratando-se de elementos de uma multiplicidade, – cada homem – não se concebe como ilimitado?
Se utilizarmos um critério objectivo, superior ao próprio homem, para fixação daquele limite, estamos perante uma ambiguidade patente. Os direitos do homem serão delimitados por algo de extrínseco ao homem que, porventura, praticamente os reduzirá a nada.
Os direitos do homem, portanto, só poderão ser fixados pelos próprios homens. Mas isso não levantará conflitos entre estes? Talvez se responda que não, porque os homens, sendo finitos por definição, têm limites que não ultrapassam.
Simplesmente, até onde vão esses limites? A sua simples existência não impede eventuais conflitos. Um ente finito pode, indiscutivelmente, visar a eliminação de outro ente finito sem perder a sua finitude.
É preciso encontrar um critério de delimitação recíproca dos direitos do homem que não seja função de nada de exterior ao próprio homem. O problema parece difícil de resolver, mas em realidade não o é.
Basta considerar que cada um estabelecerá os direitos que lhe aprouver, desde que não viole os iguais direitos dos outros.
A fórmula, aliás, é antiga. Encontra-se no artigo IV da Déclaration des droits de l'homme et du citoyen, de 1789. "L'exercice des droits naturels de chaque homme n'a de bornes que celles qui assurent aux autres membres de la société la jouissance de ces mêmes droits".
À primeira vista, isto parece o mais claro possível. Os direitos do homem põem-se a si mesmos, juntamente com os seus próprios limites. Cada homem tem todos os direitos concebíveis, só não deve ir além do ponto em que se situam os direitos dos restantes.
Estamos perante uma concepção que representa a mais sólida razoabilidade e que, sem recorrer a nada de extrínseco, consegue pôr as barreiras necessárias aos direitos de cada um.
Contudo de Cila passamos a Caríbdis.
Com efeito, se o direito de A só é limitado pelo direito de B e o direito de B só é limitado pelo direito de A, para conhecermos até onde vai o direito de A – isto é, para conhecermos o direito de A – temos de conhecer, previamente, até onde vai o direito de B – isto é, temos de conhecer o direito de B. Mas, em contrapartida, para conhecermos o direito de B, temos de conhecer já o direito de A, que vimos depender do conhecimento do direito de B e assim sucessivamente.
Estamos num círculo vicioso ou dialelo nítido.
A fim de se saber até onde pode ir a vontade de A, é preciso saber até onde pode ir a vontade de B, e para saber até onde pode ir a vontade de B, é preciso saber até onde pode ir a vontade de A.
Anotar-se-á que isso é plenamente descabido. Basta esclarecer, inicialmente, o direito de A e de B, cada um de per si.
Todavia, estabelecer o direito de A é defini-lo, e definir, consoante a palavra indica, é marcar os fins, os contornos, logo, os limites. Não é possível uma definição anterior à delimitação, acontecendo que, neste caso, a única regra que se apresenta para a delimitação é uma devolução recíproca.
Não tem, pois, consistência a observação que nos fizeram e o círculo vicioso mantém-se.

António José de Brito in «Alguns paradoxos das doutrinas sobre os direitos dos homens», 2002.

Os erros do Comunismo


Partindo de fontes soviéticas, o sacerdote jesuíta Pe. Baldomero Ortoneda analisou 15 mil afirmações ideológicas comunistas do ponto de vista das ciências naturais, da matemática e da filosofia. Como resultado, descobriu 400 erros científicos, 600 de raciocínio e 200 filosóficos, que o comunismo expressa através das suas três "leis" dialécticas: unidade e antagonismo dos contrários; negação da negação; e transição da quantidade em qualidade.
O trabalho foi publicado no livro Principios Fundamentales del Marxismo-Leninismo, em 1974.