Antigamente os idiotas calavam-se...


Contei-lhe então uma história de antigamente. Teria eu dezoito ou dezanove anos, e meu herói dezassete ou dezoito. Ele era o aluno repetente de uma escola qualquer, e eu seu "explicador" de matemática. Eu sentia a resistência tenaz que, dentro dele, se opunha às generalizações matemáticas. Ficava rubro, vexado e alagado de suor.
Recomeçava eu a explicar certo problema, quando ele, numa decisão brusca, me deteve e suplicou:
– Explica devagar, devagarzinho, porque eu sou burro.
Na outra ponta do fio [do telefone], o meu amigo de hoje explodiu:
– Que génio! QUE GÉNIO!
Era efectivamente genial aquele moço de antigamente. Não segui a sua trajectória e não sei se ele hoje amadureceu e desabrochou aquele botão de sabedoria em flor, ou se virou idiota e, portanto, intelectual. O que pude garantir ao meu amigo não-católico é que antigamente a atitude média dos idiotas era tímida, modesta e respeitosa. E isto que se observava nas ruas, nas aulas particulares, nos salões de bilhar e nos clubes de xadrez, observava-se também na Igreja. De repente, em certo ângulo da história, mercê de algum gás novo na atmosfera, ou de algum factor ainda não deslindado, os idiotas amanheceram novos e confiantes. Já ouvi e li muitas vezes o termo "mutação" surripiado das prateleiras da genética e aplicado à história, à Igreja, ao dogma e aos costumes. Dois ou três bispos franceses não sabem falar dez minutos sem usar o termo "um mundo em mutação".
Se mutação houve, estou inclinado a crer que foi naquele ponto a que atrás aludimos: os idiotas que antigamente se calavam estão hoje com a palavra, possuem hoje todos os meios de comunicação. O mundo é deles. Será genético o fenómeno e por conseguinte transmissível?

Gustavo Corção in jornal «O Globo», 22 de Agosto de 1970.

Direito Eterno, Natural, Divino e Humano


Direito Eterno é aquela soberana ideia que foi protótipo da criação do mundo, que Deus conserva e governa com Sua admirável Providência.
Direito Natural é aquela luz que, emanada da face de Deus, imprimiu no coração humano com invisíveis caracteres a lei da natureza.
Direito Divino é o que encerra em si a doutrina e o culto da Religião, promulgado pelos Patriarcas, por Moisés, por Jesus Cristo, pelos Apóstolos, e sucessivamente pelos Doutores da Igreja, Pregadores Evangélicos, etc.
Direito Humano é o que os homens inventaram e fundaram com autoridade de Legisladores; e este se subdivide em Direito Eclesiástico e Civil; neste último se compreende o Direito Imperial e Político.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo VIII, 1721.

O Imperador Teodósio


Teodósio, Imperador, o primeiro deste nome e em tudo primeiro. Foi Português, nascido em Cauca, Cidade antigamente situada na Província de Entre Douro e Minho, entre Braga e Valença. Renovou em seu tempo (sem mistura de vícios, nem infortúnios) as virtudes e felicidades dos Augustos, dos Nervas, dos Trajanos. Com a espada na mão, sempre vencedora, mereceu e conseguiu a Coroa Imperial, e manteve no mais alto ponto, o respeito e reputação do Império. Foi Príncipe dado por Deus (essa é a significação do seu nome) para aumento e glória da Igreja, defensor da Fé, coluna da Cristandade. Em seu tempo, acabou de apagar e extinguir as brasas, até então vivas, do gentilismo. Soube colocar, com repartição discretíssima, a seus pés os inimigos, no coração os Vassalos, sobre a cabeça os Santos. Grandes foram, a toda a luz, os que floresceram em seu tempo, um Jerónimo, um Ambrósio, um Agostinho, um Paulino, um Dâmaso, também Português. Grande glória de Portugal! Que saíssem dele, ao mesmo tempo, os dois Príncipes supremos do Orbe. Morreu o grande Teodósio na Cidade de Milão, ano de 395, neste dia [17 de Janeiro], coroado de acções tão gloriosas e enriquecido de tão esclarecidas virtudes, que não só o celebraram com grandes elogios os maiores Padres da Igreja, mas a Grega o pôs no Menológio dos seus Santos, venerando-o como a glorioso Confessor de Cristo.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Salazar sobre o plutocrata


O plutocrata não é, pois, nem o grande industrial nem o financeiro: é uma espécie hibrida, intermediária entre a economia e a finança; é a «flor do mal» do pior capitalismo. Na produção não lhe interessa a produção, mas a operação financeira a que pode dar lugar; na finança não lhe interessa a regular administração dos seus capitais, mas a sua multiplicação por jogos ousados contra os interesses alheios. O seu campo de acção está fora da produção organizada de qualquer riqueza e fora do giro normal dos capitais em moeda; não conhece os direitos do trabalho, as exigências da moral, as leis da humanidade. Se funda sociedades, é para lucrar apports e passá-las a outros; se obtêm uma concessão gratuita, é para a transferir já como um valor; se se apodera de uma empresa, é para que esta lhe tome os prejuízos que sofreu noutras. Para tanto o plutocrata age no meio económico e no meio político sempre pelo mesmo processo – corrompendo. Porque estes indivíduos, a quem alguns também chamam grandes homens de negócios, vivem precisamente de três condições dos nossos dias: a instabilidade das condições económicas; a falta de organização da economia nacional; a corrupção política. – Quem tenha os olhos abertos para o que se passou aqui e para o que se passa lá fora, não pode duvidar do que afirmei.

António de Oliveira Salazar in discurso «Problemas da Organização Corporativa», 13 de Janeiro de 1934.

Perseguição por falar verdade


Em 1990 a LICRA instaurou um processo judicial a Mons. Lefebvre por declarações deste sobre a ameaça islâmica em França. Em depoimento preliminar a tão absurdo julgamento, D. Marcel concluiu brilhantemente:
Condenar-me como racista porque procuro defender a minha Pátria ameaçada na sua existência e nas suas tradições cristãs, seria usar a justiça para realizar a injustiça, seria colocar a justiça ao serviço dos carrascos contra as vítimas, cujo único direito é morrer em silêncio. Seria o cúmulo da injustiça.

Écône, 12 de Maio de 1990
+ Mons. Marcel Lefebvre

Perseguição


Perseguição – É coisa indubitável que se os lobos pudessem e devessem falar, haviam de falar sem dúvida democrático, e sobretudo adoptariam este Vocábulo. Então sim se ouviriam as histórias mais lamentáveis, e os queixumes mais dolorosos sobre as injustas perseguições, que os pobres lobos tem sofrido dos cães e dos pastores, contra o imprescritível direito que a Natureza lhes deu, de procurar com que manter a vida. Pouco temos aqui que trabalhar, pois feita a aplicação está acabado o negócio. Porque, quando os Republicanos são os que fazem a perseguição, chama-se esta em idioma Democrático justiça. E pelo contrário, tudo que for atalhar, ou castigar suas iniquidades, chama-se perseguição.
Isto mesmo está acontecendo a nosso respeito: oito a dez milhões extorquidos à baioneta na Ilha de S. Miguel é um acto de justiça; mas um empréstimo de três milhões feito em Portugal pelo Senhor D. Miguel é uma perseguição; assim deve ser na sua língua; mas nós, que lha entendemos, mudamos-lhes as guardas, e fica tudo em seu lugar.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 6, 1832.

Vasco da Gama descobre o Rio dos Reis


No mesmo dia [6 de Janeiro], ano de 1498, descobriu Vasco da Gama o rio, a que, pela circunstância do mesmo dia, chamou dos Reis, o qual corta e fertiliza terras por extremo frescas e aprazíveis, cujos habitadores achou serem bem-apessoados, e de cor baça, e muito mais polidos que os do Cabo de Boa Esperança: Usavam de manilhas de cobre e traziam pedaços dele atados nos cabelos por galanteria, razão porque os Portugueses deram também ao mesmo rio o nome deste metal.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Decreto "Lamentabili sane exitu" (2ª Parte)



Sagrada Escritura

9. Os que crêem que Deus é verdadeiramente o autor da Sagrada Escritura manifestam simplicidade excessiva ou ignorância.
10. A inspiração divina não se estende a toda a Sagrada Escritura, de tal modo que preserve de todo o erro, a todas e cada uma de suas partes.
11. A inspiração dos livros do Antigo Testamento consistiu em que os escritores israelitas transmitiram doutrinas religiosas sob um aspecto pouco ou nada conhecido dos pagãos.
12. O exegeta, se quer dedicar-se utilmente aos estudos bíblicos, deve apartar, antes de tudo, qualquer opinião preconcebida sobre a origem sobrenatural das Sagradas Escrituras e interpretá-las do mesmo modo que os outros documentos meramente humanos.
13. As parábolas do Evangelho foram forjadas com arte pelos próprios Evangelistas e pelos Cristãos de segunda e terceira geração, com o fim de explicar os exíguos frutos da pregação de Cristo entre os judeus.
14. Em muitas narrações os Evangelistas não atenderam tanto à verdade das coisas como a consignar aquilo que julgaram mais proveitoso a seus leitores, embora contrário à realidade.
15. Os Evangelhos foram aumentados com adições e correcções até chegar a um cânon fixo e definitivamente constituído, e neles, portanto, não resta senão um vestígio ténue e incerto da doutrina de Cristo.
16. As narrações de São João não são propriamente história, mas uma contemplação mística do Evangelho, e os discursos contidos em seu Evangelho são meditações teológicas sobre o mistério da salvação, destituídas de verdade histórica.
17. O quarto Evangelho exagerou os milagres, não apenas para fazê-los parecer mais extraordinários, mas também para torná-los mais apropriados para declarar a obra e a glória do Verbo Encarnado.
18. João apropria-se, é verdade, da qualidade de testemunho de Cristo, mas na realidade é apenas uma testemunha exímia da vida cristã, ou da vida de Cristo na Igreja, no final do primeiro século.
19. Os exegetas heterodoxos interpretaram o verdadeiro sentido das Escrituras mais fielmente que os exegetas católicos.

Filosofia religiosa da nova escola

20. A Revelação não poderia ser outra coisa senão a consciência adquirida pelo homem na sua relação com Deus.
21. A Revelação, que constitui o objecto da Fé católica, não terminou com os Apóstolos.
22. Os dogmas que a Igreja apresenta como revelados não são verdades descidas do Céu, mas uma interpretação de factos religiosos que a inteligência humana elaborou com grande esforço.
23. Pode existir, e realmente existe, oposição entre os factos narrados na Sagrada Escritura e os dogmas da Igreja que neles se baseiam; de modo que o crítico pode rejeitar como falsos, factos que a Igreja crê como certíssimos.
24. Não é condenável o exegeta que estabelece premissas, das quais se segue que os dogmas são historicamente falsos ou duvidosos, desde que ele não negue directamente os mesmos dogmas.
25. O assentimento da Fé apoia-se, em última análise, num acumular de probabilidades.
26. Os dogmas da Fé devem ser considerados somente segundo o sentido prático, isto é, como norma de proceder e não como norma de crer.

(Continua...)

Afonso de Albuquerque manda executar um Rei Mouro


No tempo em que Afonso de Albuquerque conquistou a Cidade de Malaca, havia nas vizinhanças da mesma Cidade um Mouro, chamado Utimutiraja, tão rico e poderoso, que tinha, em foro de criados seus, seis mil homens casados e muito maior número de solteiros; A esta proporção era a pompa e o trato: Não tinha sobre ele jurisdição o Rei de Malaca; Era, enfim, um Rei pequeno: Introduziu-se com Afonso de Albuquerque e se lhe vendeu por mui fiel e se declarou vassalo de El-Rei de Portugal, e corria com os Portugueses, dando-lhe notícias e lhe fazia bons ofícios nas coisas que se ofereciam; Descobriu-se, porém, e provou-se, que ao mesmo tempo lhe armava perigosas traições com intento de lhe tirar a vida. Convencido destas culpas, foi por elas sentenciado a degolar, para exemplo e terror daqueles bárbaros; Sabendo sua mulher o que se passava, mandou oferecer pela vida do marido cem mil cruzados e entendia-se que daria muito mais; Mas Afonso de Albuquerque, com generosa resolução, respondeu: Que a justiça não tinha preço; E mandou executar a sentença neste dia [27 de Dezembro], ano de 1511.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Vasco da Gama descobre a terra de Natal


No mesmo dia [25 de Dezembro], ano de 1497, com mais de cinco meses da primeira viagem da Índia, descobriu Vasco da Gama na costa da Etiópia Oriental a terra, a que pela circunstância do mesmo dia, chamou do Natal. Para que a examinassem, deixou nela dois homens dos delinquentes, que levava de Lisboa para este efeito, e o informassem quando voltasse (se fossem vivos) da qualidade do País. Achou tanta satisfação dos habitantes que o seu Régulo bem acompanhado visitou a nossa frota; e com resgate de algum marfim e mantimentos, continuou Vasco da Gama a viagem em descobrimento da terra que buscava.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Casamento morganático


Morganático, a, adj. Casamento –; o de um príncipe ou nobre com esposa de inferior condição; também se chama casamento da mão esquerda, porque com essa é que se faz a cerimónia. Os filhos herdam os direitos de nobreza, mas não os estados do pai.

António de Morais da Silva in «Dicionário da Língua Portuguesa», Volume II, 1891 (póstumo).

[Nota: As mulheres também podem contrair matrimónio morganático.]

Holocausto


Holocausto. Deriva-se do Grego Holos (Todo) e caustos (queimado). Era um sacrifício em que consumia o fogo toda a vítima, que ofereciam os Hebreus. Nos seus holocaustos, ofereciam os particulares um boi, um cordeiro e um cabrito; os dois últimos não haviam de ter mais de um ano, podia o boi ser de mais anos. Depois de degolados, borrifavam os sacrificadores com o sangue destas vítimas o altar, lavavam-nas muito bem, e as faziam em postas, e as salpicavam com sal, e as punham sobre o altar, em que já estava aceso o fogo. Também lavavam os pés e as entranhas dos ditos animais, e lançavam tudo no fogo, excepto as peles que ficavam para os sacrificadores. Os Autores Eclesiásticos dizem Holocaustum, i. Neut. Tomando as brasas do Altar dos Holocaustos. Varela, Num. Vocal, pág. 525. Os sacerdotes sacrificam a Deus o diviníssimo Holocausto de Seu próprio Filho. Vieira, Tom. 9, pág. 245.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo IV, 1713.

Transladação dos Santos Mártires de Marrocos


No tempo que entraram em Marrocos os cinco Mártires, que da mesma Cidade tomaram o nome, assistia nela o Infante Dom Pedro, filho de El-Rei Dom Sancho I, por discórdias que teve com seu irmão El-Rei Dom Afonso II. Sabida por ele a morte e martírio dos Santos, fez esquisitas diligências por haver os seus sagrados corpos, e logrou o intento com grande felicidade: Alegre com tamanho tesouro, partiu com eles para Portugal, e por sua intercessão, o livrou Deus na jornada de muitos e evidentes perigos: Chegou ao Reino e entrou em Coimbra neste dia [10 de Dezembro], ano de 1219, e os sagrados corpos foram recebidos naquela ilustre Cidade (então Corte) com soleníssima pompa, e depositados no Real Convento de Santa Cruz, onde os inumeráveis prodígios que obram cada dia, são outras tantas provas dos grandes poderes que tem para com Deus a sua intercessão.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

D. João IV e a Imaculada Conceição


Dos sentimentos religiosos de D. João IV, ninguém duvida igualmente. Há, pelo País fora, inscrições votivas proclamadoras da Imaculada Conceição de Maria, e aqui, em Guimarães, ainda resta dessas lápides, no cunhal norte da esquerda da frontaria do edifício onde está instalado o Arquivo Municipal.
O Rei não só colocava o Reino sob a protecção da Virgem Nossa Senhora, mas afirmava também a sua crença naquilo que havia, três séculos depois, de ser definido como dogma, pelo Pontífice, nessa matéria, infalível.

Alfredo Pimenta in «A Fundação e a Restauração de Portugal», 1940.

Os Ciganos em Portugal no século XVII


Bem sei que a esmola, conforme nela foi o intento e caridade, terá seu merecimento. E quem a pudesse dar a todos por amor de Deus faria bem, quando isso não fosse ocasião de pecar, ou de não deixar o pecado, que o sol a todos alumia, porém quem não pode senão limitadamente, parece a deve antes de dar ao digno, que ao indigno, quais são quase todos estes ciganos, ladrões, salteadores, matadores, sem lei, nem temor dela: e elas ladras, feiticeiras, inquietadoras da honestidade das mulheres, e fazendo-as mal parir. Embaidoras que por dois vinténs, ou dois pães, não duvidarão trazer à vossa escrava ou criada a peçonha, e o mesmo solimão para matar seus senhores e enganar a simples donzela com nome de mezinha para o outro casar com ela. E ainda à casada, a título de o marido lhe querer bem, lhe dão com que os coitados vão ao outro mundo fazer a experiência da mezinha, ou ficam para nunca mais prestar. Então a descarga disto é que digam que o marido era um amancebado e andava toda a noite, e que disso morreu assim mal.
E sabe Deus, e suas próprias mulheres o como e azadas, a quantos isto cada dia acontece. E seja verdade que todos somos pecadores, estes o são por ofício e por carta, e dele se mantém. E os que introduziram em Portugal mil feitiçarias e males, que nele não se sabiam. Por onde eu aconselharia a todo o homem que evitasse o falar qualquer coisa sua com esta gente, nem ainda zombando ou com achaque de boa dita, muito mais cautelosamente e com mais rigor que com um ferido de peste, e falo de ciência certa. E é de notar que se um nosso Português vai ser morador em outro Reino, em poucos anos logo fala a língua desse Reino, e seus filhos já nela e em tudo o mais como naturais mesmo da terra. E esta gente com haver tantos centos de anos que Espanha os agasalhou, que quase eles mesmos não sabem de que nação ou reino procedem, porque sendo Gregos que se vieram fugindo dos Turcos, se fazem Egípcios ou Gitanos. E pelo contrário, e sendo Caldeus, como diz Jacobo Filipo Bergomate no seu livro, Supplementum chronicarum, que de certos povos chamados Zíngaros se saíram a encher toda a Europa; porém que nenhuns os consentem mais de três dias, pela subtileza de seus furtos, e que por essa causa os Venezianos, e os terem por suspeitos, os lançaram de todas as suas terras, e que nunca deixaram a sua língua Caldeia, que deve ser a que lhe ouvimos falar, e parece são estes de Portugal. Os quais dos Zíngaros se chamam Ciganos, que é o mesmo. E o não perderem nunca a sua língua, não foi por certo para nela se lerem e usarem dos livros católicos, ou de ciências e artes que trouxessem boas, senão para melhor inteligência de suas más artes, latrocínios, e embelecos, ou enganos, porque usando tudo isto com usam por ofício os não possamos entender. E nós tão cegos e descuidados, que ninguém atenta nisto: falo dos que governam, que o poderão remediar, e vendo-o e palpando-o cada dia e cada hora a nossas portas e dentro de nossas próprias casas passam por isso. E não sei como os conselheiros dos Reis e os que governam as Repúblicas desvelando-se tanto em novas pragmáticas sobre ninharias, não buscam remédio a coisa tão importante como fora não estar Portugal, e Espanha toda, criando em suas entranhas estas lombrigas, ou digo víboras que o estão roendo de contínuo por todas as partes de seu todo. Agasalhando-os Portugal, vindo perseguidos dos Turcos, usam tão mal desse agasalho e benefício.
E pudera isso ter muito bom remédio, embarcando-os divididos para o Brasil e Angola e outras nossas conquistas, e agora para a nova povoação do Maranhão poucos a poucos em cada navio que fosse, e se iriam acabando de sair do reino, ou deles estes mãos costumes: e quando isso não parecesse, fazendo-os viver dentro no meio das cidades repartidos pelo Reino, vedando-lhes o uso do trajo e da linguagem, e o sair fora das cidades e vilas. O que é muito importante e mais essencial é obrigando-os a ofícios com tenda sua, ou obreiros nas alheias. E que não fossem ferreiros, que só usam a fim de fazer gazuas e instrumentos de roubar. E a elas o mesmo a ofícios, ou vender em tendas, ou pelas ruas, e outros exercícios com o que, ou outros remédios, se lhes atalhasse o furtar e outros malefícios. E o pedir esmola que aos pobres se deve necessitados (que há muitos nossos naturais) e não a eles que podem bem com trabalhar remediar sua vida. Pois a verdadeira caridade deve começar por nós mesmos e pelos mais chegados nossos.

Miguel Leitão de Andrada in «Miscelânea», 1629.