Rei de Portugal, Rei do Ceilão


No mesmo dia [29 de Maio], ano de 1597, se ajuntaram na Cidade de Colombo, por ordem do Capitão General Dom Jerónimo de Azevedo, todos os Fidalgos Portugueses que andavam na mesma Ilha, e os principais Senhores, naturais da terra, e todos juraram solenemente Rei de Ceilão a El-Rei de Portugal, por força do testamento do último Rei [de Ceilão], chamado Dom João Parêa Pandar, o qual morrendo sem sucessão, deixou ao nosso Rei por seu universal herdeiro. Celebrou-se a função com grandes demonstrações de alegria e vivas do povo.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Viva o 28 de Maio! Abaixo a República!


A Revolução de 28 de Maio não abriu um novo capítulo na conturbada história da República, deu origem a um outro regime, bem diferente daquele que os revoltosos da Rotunda impuseram pela força ao nosso País.
Aconteceu que, constitucionalmente, o regime salazarista conservou o nome de república, herdado da situação anterior: mas isso não quer dizer nada porque a palavra em si não tem significado especial, o que importa realmente é o qualificativo que acompanha a referida expressão. A República Corporativa, como estabelece a Constituição Política do Estado, perdeu a maior parte dos vícios inerentes ao sistema demo-liberal e preservou a essência monárquica do Poder, afastando da plebe a escolha dos governantes. Neste sentido, a república corporativa é muito mais autoritária e monárquica do que certos reinos minados pelo cancro democrático.

Luís Fernandes in jornal «Agora», 26 de Outubro de 1968.

Novo milagre de Nossa Senhora da Piedade


No mesmo dia [27 de Maio], ano de 1663, estando na Ermida de N. Senhora da Piedade de Santarém as mesmas pessoas que no dia precedente ali se acharam, e outras muitas que concorreram de novo, rogando todas a Deus, por intercessão de sua Santíssima Mãe, para que se apiedasse deste Reino e lhe desse vitória de seus inimigos, tendo todas os olhos nas Soberanas Imagens da mesma Senhora e de seu Filho morto, se viu patentemente que a deste Senhor levantava o rosto para cima, e juntamente o corpo, em forma que ficou muito mais levantado do que estava nos braços da Senhora, ficando os rostos de ambos tão chegados um ao outro, que dificultosamente havia lugar de caber pelo meio deles um dedo, sendo que dantes estavam desviados em forma que cabia bem uma mão-travessa. E outrossim se viu o sangue da mesma Sacrossanta Imagem de cor muito viva e fresca, estando dantes denegrido e encoberto.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Milagre de Nossa Senhora da Piedade de Santarém


Venerava-se de tempos antigos em uma pobre Ermida na Vila de Santarém, uma Imagem da Senhora da Piedade, com o Senhor morto nos braços, caído, ou inclinado o rosto do mesmo Senhor, em forma que ficava mais de uma mão-travessa apartado do rosto da Senhora. É uma e outra Imagem de barro, e ambas muito devotas. Achava-se no ano de 1663 este Reino em grande aperto pela invasão dos Castelhanos, os quais com poderoso Exército, haviam conquistado a Cidade de Évora, e prometiam, não sem grandes fundamentos, muito maiores operações. Concorriam àquela Ermida algumas pessoas devotas a invocar a protecção da Mãe de Deus sobre as calamidades e perigos em que o Reino se achava, e à vista daquele Sagrado Corpo defunto e cinco chagas, que nele se representavam, eram, sem dúvida, um poderoso motivo para se pedir e esperar, com grande fervor e confiança, a liberdade de um Reino que tem as mesmas chagas por brasão. Eis que neste dia [26 de Maio], em Sábado, das seis para as sete horas da tarde, do ano referido, estando presentes muitas pessoas, foi visto o rosto da Senhora muito mais encarnado e resplandecente, e o do Senhor muito mais enfiado e pálido, e ambos muito diferentes do que dantes eram. Admirados os presentes, e atónitos à vista daquela maravilha, não se atreveram a publicá-la, persistindo perplexos e duvidosos na averiguação do mesmo que estavam vendo, por se julgarem indignos de tão soberano favor. Maior prodígio se viu no dia seguinte, como nele diremos.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

A República Universal


De facto, amadureceu nos desejos e nas expectativas de todos os revoltosos, o advento de uma certa república universal, a qual seria fundada sobre a igualdade absoluta dos homens e sobre a comunhão dos bens, e na qual não haveria distinção alguma de nacionalidade, nem se reconheceria a autoridade do pai sobre os filhos, nem do poder público sobre os cidadãos, nem de Deus sobre os homens reunidos em sociedade civil. Coisas que, se forem implementadas, dariam lugar a tremendas convulsões sociais, como aquela que agora está a devastar uma grande parte da Europa.

Papa Bento XV in motu proprio «Bonum Sane», 25 de Julho de 1920.

São Manços, primeiro Bispo de Évora


São Mâncio, ou Manços, um dos setenta e dois Discípulos de Cristo, e aquele que pediu ao Senhor que quisesse declarar o modo com que os homens deviam orar a Deus, a que o mesmo Senhor respondeu, ensinando a Oração do Padre-nosso. Assistiu aos últimos e principais mistérios da Vida, Morte, Ressurreição e Ascensão de seu Divino Mestre. Recebeu no Cenáculo, juntamente com os Sagrados Apóstolos, o fogo do Espírito Santo, e logo começou a discorrer por várias terras, prégando a Lei Evangélica, até que entrou em Portugal [então Lusitânia] e fez assento na Cidade de Évora, onde foi o primeiro Bispo. Ali converteu inumeráveis Gentios à Fé, e o mesmo fez em toda aquela Província, plantando nela uma numerosa e florentíssima Cristandade. Chegaram estas notícias a Validio, Presidente Romano, o qual o mandou prender num imundo e tenebroso cárcere: Logo passou à prova de atrozes e esquisitos tormentos. Todos sofreu o Santo Mártir com invicta paciência e com alegria imponderável, até que entregou o espírito nos amorosos braços daquele Senhor a quem acompanhara na vida e imitara na morte, a qual sucedeu neste dia [21 de Maio] pelos anos de 98. Foi seu corpo sepultado não longe de Évora, donde os Cristãos, no tempo da invasão dos Mouros, o levaram para Castela-a-Velha, à terra a que chamam de Campos. Ali se conserva no nobre Mosteiro de Sagum da Ordem de São Bento na Capela-mor, em precioso cofre de prata, rodeado de cristais que facilitam a vista e alegram a devoção da gente, que concorre em grande número a venerar aquelas sagradas relíquias. Delas alcançou um braço Dom Teotónio de Bragança, Arcebispo de Évora, e o colocou na sua Sé, onde se venera muito religiosamente. Escreveu a vida deste Santo Bispo o famoso Ângelo Pacense, Português, e as de outros Santos antigos, a que ajuntou alguns Concílios e muitas memórias de coisas pertencentes a este Reino.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Dois sistemas envenenados


Os dois sistemas falharam inchando de exageros, de petições de princípio, de preconceitos camuflados, e – vendo bem de perto – de erros em muitos detalhes. E no entanto, encarados no seu conjunto, estes sistemas têm o efeito irresistível das mudanças de clima. Quando lanço um olhar aos dezoitos volumes das obras completas de Freud, nas prateleiras da minha biblioteca, lembro-me, por vezes, do aviso de Rembrandt aos visitantes do seu atelier, convidando-os a olhar para as suas telas de longe. – «Não metam o nariz nos meus quadros, o cheiro da pintura envenenar-vos-ia».
Poder-se-ia perguntar em que momento esse cheiro a pintura fresca se transformaria em veneno – em que momento Marx se torna "marxista" e Freud "freudiano". Seria satisfatório desculpar o mestre e atribuir todas as culpas aos alunos. Marx não teria provavelmente aprovado os métodos de Estaline e Freud ter-se-ia dificilmente responsabilizado pelos pesadelos iluminados de uma Mélanie Klein. Mas as sementes de tudo isto estavam já presentes no próprio mestre, na sua tendência fatal de saltar do pressentimento e da hipótese para a asserção dogmática, de brincar com os símbolos como um malabarista, de propagar uma mitologia pessoal na qual mistura o Museu Grévin e o Panteão Grego.

Arthur Koestler in prefácio a «La Scolastique Freudienne» de Pierre Debray-Ritzen, 1972.

A imprensa


Se a imprensa reflectisse as verdadeiras aspirações e os interesses da Nação, seria uma das suas maiores forças educativas e construtoras. Mas a imprensa caiu sob o poder das forças ocultas e tornou-se uma das formas da sua acção aparente. Por isso, mente, estabelece a confusão, faz a crítica desmoralizante de homens e instituições, eleva as mediocridades, dissolve os princípios morais e corrompe o meio social à medida da sua própria corrupção.
Chega ao ponto de se tornar tanto mais espalhafatosa em títulos e letreiros, quanto mais pobre de virtude e competência.

Gustavo Barroso in «Espírito do Século XX», 1936.

Mendo Afonso


Mendo Afonso, Cavaleiro Templário, homem de insigne piedade, e como tal chamado naquele tempo, Pai dos órfãos, amparo das viúvas, socorro e abrigo dos peregrinos, singular defensor da Fé. Estes títulos lhe gravaram os antigos na sua sepultura, o que é prova evidente de que mereceu muito mais do que eles dizem. Faleceu ditosamente neste dia [11 de Maio], ano de 1236. Jaz em Santarém, na Igreja Colegiada de Santa Maria da Alcáçova.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Senhor roubado em Odivelas


Neste dia [10 de Maio], ano de 1671, que caiu na Dominga infra-oitava da Ascensão, sucedeu o desacato do Senhor Sacramentado na Igreja Paroquial de Odivelas do termo de Lisboa, pelo qual se fizeram grandes e devidas demonstrações de sentimento em todo o Reino. Por conta da Nobreza da Corte de Portugal, corre ainda o desagravo que todos os anos se faz ao mesmo Senhor neste dia, com grandes cultos e adorações.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Há males maiores que a guerra


Cremos que a guerra é um mal, mesmo quando é uma necessidade, mas sabemos que há para os povos outros males maiores, porque os há que excedem a morte e a miséria – são a sua desonra e aniquilamento.

António de Oliveira Salazar in discurso «Dever Militar», 28 de Maio de 1940.

Da Revolução Haitiana


Tornando às colónias Francesas, nada é tão espantoso como a revolução da de S. Domingos: drama trágico em dois actos, que custou 80 000 vidas dentro de uma ilha. No primeiro acto figuravam brancos e negros da América contra brancos da Europa; no segundo somente negros contra brancos, e os negros ficaram de cima, compreendendo nesta denominação os mulatos. Enchei-vos de horror à vista dos seguintes extractos de uma proclamação, com que o chefe negro Dessalines excitou os seus à matança dos brancos: «Meu braço suspendido sobre as suas cabeças tem demorado por muito tempo descarregar o golpe... sede cruéis e sem misericórdia, semelhantes a uma torrente furiosa que tem rompido os seus diques, e que arrasta tudo o que tenta opor-se às suas ondas. Vossa fúria vingadora destruiu, e levou tudo no seu curso impetuoso... Onde está o vil habitante do Haiti, tão indigno da regeneração, que não julgue ter cumprido os Decretos do Eterno exterminando estes tigres sequiosos de sangue? Se há algum, fuja: A nação indignada o expulsa do seu seio; vá ocultar a sua vergonha longe de nós. O ar puro, que nós respiramos, não é feito para os seus órgãos grosseiros; é o ar puro da liberdade augusta e triunfante... Eu tenho salvado a minha pátria; eu tenho vingado a América. Esta confissão, que eu faço à face da terra e do Céu, faz o meu orgulho e a minha glória. Guerra de morte aos tiranos! eis a minha divisa. Liberdade e Independência! eis o grito da nossa reunião.»

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos sobre diferentes objectos de utilidade geral e individual», Carta XII, 1823.

A propaganda e a vinculação pelo medo


A propaganda reforça as solidariedades de diferentes modos. Já se analisou o mecanismo da vinculação pelo medo e viu-se que um indivíduo aterrorizado procura o contacto com os seus congéneres. Ora, sempre que há dificuldades internas, crises, conflitos insanáveis, o poder constituído recorre em regra a este mecanismo instintivo. Cria-se, então, o inimigo externo, exibe-se o perigo da perda da independência, explica-se que esse inimigo é vicioso e deseja a aniquilação total. Inventam-se internamente os traidores, as maquinações, as quintas-colunas. A ameaça, que a propaganda torna verosímil, vincula os cidadãos pelo medo, estimula as solidariedades de combate, canaliza a agressão colectiva para o exterior ou contra o bode expiatório que entretanto se descobriu dentro do País. Os judeus, os fascistas, os capitalistas, os estrangeiros, os americanos, os brancos, têm desempenhado frequentemente este papel, bem como os bolcheviques, os sovietes, os russos. Mas se nuns casos a ameaça é possível, noutros não passa de mera construção propagandística ao serviço da classe política instalada.

António Marques Bessa e Jaime Nogueira Pinto in «Introdução à Política», 1977.

Antipapa Gregório VIII


Maurício, Arcebispo de Braga, é memorável nas histórias para confusão dos ambiciosos; Foi Francês de Nação e Monge da Ordem de São Bento: Passou a Portugal e foi eleito Arcebispo de Braga por morte de São Giraldo: Várias pretensões o levaram duas vezes a Roma; A primeira pelos anos de 1112, e então assistiu, com grande reputação da sua pessoa, no Concílio Lateranense, que por aquele tempo se celebrava. A segunda achou aquela Corte flutuando entre grandes perturbações pelas discórdias que havia entre o Papa Pascoal II e o Imperador Henrique V. Este, usando da força e violência, colocou na primeira Cadeira a Maurício, o qual, cego de ambição, aceitou a dignidade e se fez chamar Gregório VIII. Depois, por vários casos, veio a ser deposto e preso no cárcere de um Convento da sua Ordem, onde faleceu neste dia [21 de Abril], com grandes demonstrações de verdadeiro arrependimento, no ano de 1122.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Ódio


Ódio é a aversão ou repugnância que sentimos em presença do mal, real ou suposto. O ódio nem sempre é uma paixão má; se o seu objecto é o mal, o ódio é uma paixão boa; odiar o pecado é ter um amor entranhado à virtude. Mas o ódio chega a causar grandes perturbações na vida moral; por isso é preciso obstar a que tal paixão se radique em nós, visto que tanto pode ter por objecto o mal, como o bem que apreende como sendo um mal. O melhor meio de conseguir dominar a paixão do ódio é praticar com perseverança todas as virtudes.

Pe. José Lourenço in «Dicionário da Doutrina Católica», 1945.

Pascoela de 1506: tumulto fatal em Lisboa


No mesmo dia [19 de Abril], em que então caiu o Domingo da Pascoela, ano de 1506, sucedeu em Lisboa um dos mais horríveis casos que contam as Histórias. Celebrava-se na Igreja de São Domingos certa festa, a que assistia grande multidão de povo, e sucedendo representar-se um como reflexo de luz na Imagem do Santo Crucifixo, que na mesma Igreja se venera, se dividiram os circunstantes em pareceres diversos: Uns afirmaram que era milagre, outros o duvidavam, e destes um era notoriamente conhecido por Cristão-novo, circunstância que bastou a levantar no povo tanto rumor e indignação, que pegando dele pelos cabelos, o levaram ao meio da praça do Rossio e o mataram e queimaram, com tão excessiva presteza como impiedade. A este desatino acresceu outro, não menor, qual foi, saírem dois Religiosos à mesma praça com um Crucifixo, clamando sobre os inimigos da Fé; Como se esta se achasse naquele caso ofendida, ou se ainda na suposição da ofensa, se pudesse proceder ao castigo por meios tão injustos e violentos, sem serem ouvidos, nem convencidos, os que reputavam Réus. Com aquelas vozes cresceu a multidão, cresceu a ousadia, e junto já um corpo de quinhentos homens do mais vil da Cidade, em que entravam muitos Holandeses, que nela se achavam, gente, naqueles tempos, tão inculta e abatida, como depois industriosa e soberba, começaram a fazer uma cruel carniçaria em todo o género de Cristãos-novos, sem distinção de sexo ou de idade. Homens e mulheres, velhos e moços, todos eram improvisamente feitos em pedaços e queimados em grandes fogueiras, que a esse fim levantaram nas praças da Ribeira e Rossio. Aos que se fechavam nas casas, lhe rompiam as portas, e das Igrejas, onde os levava o temor da morte, tiravam a muitos, arrancando-os dos Sacrários e das Imagens sagradas com que estavam abraçados. A muitos meninos de peito, dividindo-lhe tão forte, como inumanamente as pernas, abriam pelo meio: A outros esmagavam nas paredes. Eram levadas famílias inteiras e sem distinção lançadas no fogo promiscuamente, uns vivos, outros já mortos. Na volta dos Cristãos-novos, entraram muitos que o não eram: Porque bastava que algum dos que andavam no tumulto lhe desse aquele nome, para que, sem mais exame, fossem logo mortos e queimados. Entre tantas crueldades não se esqueciam de meter a saco as casas dos miseráveis pacientes, roubando quanto achavam, principalmente os estrangeiros, que nesta ocasião satisfizeram não menos a cobiça que a fereza. Durou o tumulto três dias, crescendo a mais de mil e quinhentos o número dos agressores, e o dos mortos a mil e novecentos, sem haver quem pudesse parar esta impetuosa e arrebatada corrente. Havia peste em Lisboa, e estavam fora dela, não só as pessoas Reais, se não também em grande parte os Fidalgos e Ministros, e os poucos que nela ficaram, trataram mais de fugir que de conter aquele furor, parto, sem dúvida, das fúrias infernais. Deram esta triste nova a El-Rei Dom Manuel, indo de Abrantes para Beja visitar sua mãe, a Infante Dona Brites, e logo rompeu em grandes demonstrações de sentimento e não menores de indignação. Mandou que fossem presos e condenados à morte todos os que se achassem culpados, o que se executou em grande número, principalmente dos naturais: Porque os estrangeiros quase todos souberam prevenir o castigo com a fugida, e cheios de roubos, navegaram para as suas terras. Aos dois Frades, que foram o principal incentivo daquela diabólica comoção, degradaram das Ordens e foram queimados em praça pública; Privou El-Rei a Cidade de Lisboa de seus privilégios e isenções, queixoso justamente dos que entraram no tumulto e também dos que, podendo reprimir e rebater os primeiros ímpetos do povo, se houveram com tanta frieza, que mais pareceu afectação do que temor.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.