22/03/2019

Habitação


Seria possivelmente mais fácil resolver o problema da habitação no sentido vertical, no bloco imenso. Mas a casa pequena, independente, é o sossego, a tranquilidade, o amor, o sentimento justo da propriedade, a família. A colmeia é a promiscuidade, a revolução, o ódio, simultaneamente o indivíduo e a multidão.

António de Oliveira Salazar in «Homens e Multidões» de António Ferro, 1938.


Relembro: A família e o lar.

20/03/2019

Civilização


O Homem deve à Europa aquilo que mais contribuiu para lhe modelar a personalidade e para lhe indicar o caminho – uma Filosofia, um Direito e uma Teologia, e todos três orientados no sentido da criação de uma Ordem.

João Ameal in «Europa e os seus fantasmas», 1945.

17/03/2019

Párocos e Fregueses: obrigações do 4º Mandamento


P. Que obrigações têm os Fregueses a respeito dos seus Párocos?
R. Muitas; porque devem honrá-los, como tendo o lugar de Deus: devem ouvir com respeito as suas instruções e advertências; devem obedecer-lhes no que lhes pertence, como a Jesus Cristo; e devem contribuir ao seu sustento com o que for de costume.
P. E que obrigações têm os Párocos a respeito dos Fregueses?
R. Também são muitas.
P. Quais são?
R. Devem instruí-los; devem dar-lhes bom exemplo; devem socorrê-los nas suas necessidades, e devem orar a Deus por eles.
P. E se os Párocos não instruírem os seus Fregueses, porque chamando-os eles, os Fregueses não acodem às instruções, quem é que faz o pecado?
R. Os Fregueses, que devem buscar e aproveitar as instruções que os Párocos lhes oferecem.

Fonte: «Catecismo da Doutrina Cristã», 1791.


15/03/2019

700º aniversário da Ordem de Cristo


Em Março de 1319, por bula do Papa João XXII é fundada a Ordem Militar de Jesus Cristo, a qual viria a incorporar os bens e os privilégios da Ordem do Templo em Portugal, extinta em 1312 pelo Papa Clemente V.
Como os Templários, a Ordem de Cristo segue a regra de Cister e o hábito dos cavaleiros é branco com uma cruz vermelha. O seu primeiro Mestre foi D. Gil Martins da Ordem de São Bento de Avis.
A sede da Ordem foi no Castelo de Castro Marim até 1357, ano em que mudou em definitivo para o Castelo de Tomar.

14/03/2019

O saco de penas


Era uma vez um homem que, por inveja, caluniou gravemente um amigo seu, levando-o à ruína.
Anos depois, arrependido do mal que as suas calúnias fizeram ao seu amigo, procurou um velho sábio, perguntando-lhe: "Que posso eu fazer para corrigir todo o mal que fiz ao meu amigo?" O velho respondeu: "Pega num saco cheio de penas de ave e solta-as ao vento".
No dia seguinte, o homem voltou ao velho sábio: "Já fiz como me mandaste". Ao que o velho lhe respondeu: "Essa foi a parte mais fácil, agora volta a encher o saco com as mesmas penas que soltaste ao vento". Mas o homem entristeceu-se, pois sabia que a tarefa era impossível.
E o velho sábio acrescentou: "Assim como não consegues juntar todas as penas que espalhaste ao vento, também não consegues reparar todo o mal que se espalhou de boca em boca. Vai, sê humilde e caridoso, pedindo perdão ao teu amigo e falando bem dele".

Catecismo Maior de São Pio X:
Quem pecou contra o Oitavo Mandamento [não levantar falsos testemunhos], não basta que se confesse disso, mas é também obrigado a retractar tudo o que disse caluniando o próximo, e a reparar, do melhor modo que possa, os danos que lhe causou.

11/03/2019

A família e o lar


A família exige por si mesma duas outras instituições: a propriedade privada e a herança. Primeiro a propriedade – a propriedade dos bens que possa gozar e até a propriedade dos bens que possam render. A intimidade da vida familiar reclama aconchego, pede isolamento, numa palavra, exige a casa, a casa independente, a casa própria, a nossa casa. Há impossibilidade, haverá mesmo em muitos casos inconveniente em que o trabalhador possua os meios de produção e em deixar dividir a terra por minúsculas parcelas, dando-se a todos um pedaço para a cultura. Mas é utilíssimo que o instinto de propriedade que acompanha o homem possa exercer-se na posse da parte material do seu lar. É naturalmente mais económica, mais estável, mais bem constituída a família que se abriga sob tecto próprio. Eis porque nos não interessam os grandes falanstérios, as colossais construções para habitação operária, com seus restaurantes anexos e sua mesa comum. Tudo isso serve para os encontros casuais da vida, para as populações já seminómadas da alta civilização actual; para o nosso feitio independente e em benefício da nossa simplicidade morigerada, nós desejamos antes a casa pequena, independente, habitada em plena propriedade pela família.

António de Oliveira Salazar in discurso de 16 de Março de 1933.

08/03/2019

Feminismo


Certas mulheres têm teorias sobre como salvar o mundo, mas não são capazes de lavar uma chávena de café. Se lhes apontarmos isto mesmo, dir-nos-ão: "lavar chávenas de café não é importante". Infelizmente é. Sobretudo para um homem que empregou oito horas seguidas, mais duas extraordinárias, num torno-revólver. Começamos a salvar o mundo, salvando um homem de cada vez; tudo o mais é romantismo pomposo ou política.

Charles Bukowski in «Histórias de Loucura Normal», 1983.

06/03/2019

Meditação sobre o Inferno


Todo o Inferno está nestas palavras de Jesus Cristo: «Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno».

1º O Inferno é a separação, a perda de Deus. «Afasta-te de Mim, pecador». É assim que Deus repele para longe de Si a alma pecadora. É a perda de Deus, a perda da suma beleza, da suma bondade, do sumo bem. Enquanto a nossa alma estiver presa no cárcere da carne, não poderá nunca compreender a imensidade desta desgraça que, na frase dos santos, constitui o inferno dos infernos.

2º O Inferno é a maldição de Deus. «Afasta-te, pecador maldito». A maldição eficaz de um Deus todo-poderoso. Se é terrível a maldição de um pai, de uma mãe, que será a maldição de Deus? Pecador maldito, maldito no corpo, maldito na alma. Olhos, língua, mãos, pés, inteligência, coração, vontade, tudo é maldito, porque tudo serviu de instrumento ao pecado.

3º O Inferno é o fogo. «Afasta-te de Mim, pecador maldito, para o fogo». Quando os profetas falam do Inferno, logo se lhes apresenta à imaginação o mar, o mar sem limites e sem fundo, e os condenados, nadando e mergulhando neste abismo de fogo. O fogo os envolve, penetra-os, circula em suas veias, insinua-se até à medula dos ossos.

4º O Inferno é a eternidade. «Afasta-te, pecador maldito, para o fogo eterno». A eternidade... quem pode compreendê-la! É um tempo que não acaba. Mil anos, milhões de anos, mil milhões de anos. Contai as gotas de água do oceano, os grãos de areia das praias, as folhas das árvores... a eternidade tem mais anos, mais séculos. Sempre! Nunca! Sempre queimar, sempre sofrer! Nunca o menor alívio, a menor esperança!

Se os condenados que estão no Inferno pudessem voltar à Terra, que fariam? Procurariam outra vez a ocasião do pecado, as danças, os espectáculos, as tabernas, as casas de perdição? Não! Correriam para a igreja, ao pé do altar do Santíssimo Sacramento, de Nossa Senhora, ao pé do confessor principalmente, para alcançar o perdão dos seus pecados. O que os condenados não podem mais, vós o podeis. Não estais no Inferno, mas talvez estejais no caminho do Inferno. Quanto antes, voltai para trás; talvez amanhã seja tarde.

Pe. Guilherme Vaessen in «O Pequeno Missionário», 1953.

04/03/2019

Pecados contra o Espírito Santo

Santíssima Trindade

Quantos são os pecados contra o Espírito Santo?
Os pecados contra o Espírito Santo são seis:
1. Desesperação de Salvação;
2. Presunção de se salvar sem merecimentos;
3. Contradizer a Verdade conhecida como tal;
4. Ter inveja das mercês que Deus fez a outrem;
5. Obstinação no pecado;
6. Impenitência final.

Porque é que estes pecados se chamam particularmente: pecados contra o Espírito Santo?
Estes pecados chamam-se particularmente contra o Espírito Santo, porque se cometem por pura malícia, a qual é contrária à Bondade que se atribui ao Espírito Santo.

Fonte: «Catecismo Maior de São Pio X», 1908.

02/03/2019

Riqueza e cerejas

Apanha da cereja no Fundão

O mundo em que a riqueza era contada em cerejas, e como tais, era consumida, estava menos sujeito à falência e ao desespero, do que o mundo em que vivemos, que depende dos especialistas em finanças, comprando e vendendo plantações de cerejas que eles nunca viram e que provavelmente nem existem.

G. K. Chesterton in jornal «G. K.'s Weekly», 5 de Dezembro de 1931.

28/02/2019

Do amor à verdade


Quem ama a verdade detesta o erro. Isto está tão próximo da ingenuidade como do paradoxo. Mas essa detestação do erro é a pedra de toque à qual se reconhece o amor à verdade. Se você não ama a verdade, pode até certo ponto dizer que a ama e até mesmo fazer crer que sim: mas tenha a certeza de que nesse caso não terá horror pelo que é falso, e por esse sinal se reconhecerá que não ama a verdade.
Quando um homem, que amava a verdade, cessa de amá-la, não começa por declarar a sua defecção, começa por detestar menos o erro. É aqui que ele se trai.
As secretas complacências formam uma das partes mais ignoradas da história do mundo.
Quando um homem perde o amor pela doutrina, boa ou má, que professou, ele geralmente mantém o símbolo dessa doutrina: somente sente morrer em si toda a aversão pelas doutrinas contrárias.

Ernest Hello in «L'Homme», 1872.

26/02/2019

Falseando a origem do Poder

Santo Ambrósio e o Imperador Teodósio

Não menos que a família, sofre a ordem social e política, sobretudo pelas novas ideias que alteram o conceito do justo poder soberano, falseando-lhe a origem. Com efeito, desde que a autoridade soberana derive formalmente do consenso do povo e não de Deus, princípio supremo e eterno de todo o poder, perde o respeito dos que lhe são subordinados, privando-se de seu augusto carácter, e degenera em uma soberania artificial, baseada em fundamentos frágeis e movediços como a vontade do homem. E não se vê, porventura, o que daí resulta na própria legislação pública? Muito frequentemente representa ela, bem mais que o direito, a vontade predominante de um partido político. Deste modo animam-se os apetites licenciosos da multidão, larga-se o freio às paixões populares, embora perturbe a operosa tranquilidade civil, salvo em casos extremos, quando, então, se recorre às repressões violentas e sanguinárias.

Papa Leão XIII in «Parvenu à la vingt-cinquième année», 1902.


24/02/2019

Sermão da Sexagésima


As palavras que tomei por tema o dizem: Semen est Verbum Dei. Sabeis (cristãos) a causa por que se faz, hoje, tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus (como dizia) é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. Mas se as palavras dos pregadores não são palavras de Deus, que muito admira que não tenham a eficácia e os efeitos da palavra de Deus? Ventum seminabant, et turbinem colligent, diz o Espírito Santo: «Quem semeia ventos, colhe tempestades». Se os pregadores semeiam vento, se o que se prega é vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta em vez de colher fruto?

Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus: Qui habet sermonem meum, loquatur sermonem meum vere, disse Deus por Jeremias. As palavras de Deus, pregadas no sentido em que Deus as disse, são a palavra de Deus; mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavra de Deus, antes podem ser palavra do Demónio. Tentou o Demónio a Cristo a que fizesse das pedras pão. Respondeu-lhe o Senhor: Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo, quod procedit de ore Dei. Esta sentença era tirada do capítulo oitavo do Deuteronómio. Vendo o Demónio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura, leva-O ao Templo, e alegando o lugar do Salmo noventa, diz-lhe desta maneira: Mitte te deorsum; scriptum est enim, quia angelis suis Deus mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: «Deita-te daí abaixo, porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços, para que te não faças mal». De sorte que Cristo defendeu-Se do Diabo com a Escritura, e o Diabo tentou a Cristo com a Escritura. Todas as Escrituras são palavra de Deus; pois se Cristo toma a Escritura para se defender do Diabo, como toma o Diabo a Escritura para tentar a Cristo? A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o Diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido; e as mesmas palavras, que, tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus, tomadas em sentido alheio, são armas do Diabo. As mesmas palavras que, tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus as não disse, são tentação. Eis aqui a tentação com que então quis o Diabo derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do Templo. O pináculo do Templo é o púlpito, porque é o lugar mais alto dele. O Diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-O no monte, tentou-O no Templo: no deserto, tentou-O com a gula; no monte, tentou-O com a ambição; no Templo, tentou-O com as Escrituras mal interpretadas, e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, senão a Cristo, a sua Fé.

Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo, indignos verdadeiramente de tão sagrado nome), dizei-me: esses assuntos inúteis que tantas vezes levantais, essas empresas ao vosso parecer agudas, que prosseguis, achaste-las alguma vez nos Profetas do Testamento Velho, ou nos Apóstolos e Evangelistas do Testamento Novo, ou no autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Génesis até à última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras. Pois, se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus? Mais: nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendem os Padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não, por certo; porque muitas vezes as tomais pelo que toam, e não pelo que significam, e talvez nem pelo que toam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos de que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem?! E então ver cabecear o auditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante: se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos! Oh, que bem levantou o pregador! Assim é; mas que levantou? Um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se a alguém parecer demasiada a censura, oiça-me.

Estava Cristo acusado diante de Caifás, e diz o Evangelista S. Mateus que por fim vieram duas testemunhas falsas: Novissime venerunt duo falsi testes. Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que, se os Judeus destruíssem o Templo, Ele o tornaria a reedificar em três dias. Se lermos o Evangelista S. João, acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas. Pois, se Cristo tinha dito que havia de reedificar o templo dentro em três dias, e isto mesmo é o que referiram as testemunhas, como lhes chama o Evangelista testemunhas falsas: Duo falsi testes? O mesmo S. João deu a razão: Loquebatur de templo corporis sui. Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o Templo, falava o Senhor do templo místico de Seu Corpo, o qual os Judeus destruíram pela morte e o Senhor o reedificou pela ressurreição; e como Cristo falava do templo místico, e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém, ainda que as palavras eram verdadeiras, as testemunhas eram falsas. Eram falsas, porque Cristo as dissera em um sentido, e eles as referiram em outro; e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas, é levantar falso testemunho a Deus, é levantar falso testemunho às Escrituras. Ah! Senhor, quantos falsos testemunhos Vos levantam! Quantas vezes oiço dizer que dizeis o que nunca dissestes! Quantas vezes oiço dizer que são palavras Vossas, o que são imaginações minhas, que me não quero excluir deste número! Que muito admira logo que as nossas imaginações, e as nossas vaidades, e as nossas fábulas, não tenham a eficácia de palavra de Deus!

Miseráveis de nós, e miseráveis dos nossos tempos, pois neles se veio a cumprir a profecia de S. Paulo: Erit tempus, cum sanam doctrinam non sustinebunt: «Virá tempo», diz S. Paulo, «em que os homens não sofrerão a doutrina sã». Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes auribus: «Mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão, e sem escolha, os quais não façam mais que adular-lhes as orelhas». A veritate quidem auditum avertent, ad fabulas autem convertentur: «Fecharão os ouvidos à verdade, e abri-los-ão às fábulas».

Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento, e quer dizer comédia; e tudo são muitas pregações deste tempo. São fingimento, porque são subtilezas e pensamentos aéreos, sem fundamento de verdade; são comédia, porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia; e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes. Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente, era acabarem-se as comédias em Portugal; mas não foi assim. Não se acabaram, mudaram-se; passaram-se do teatro ao púlpito. Não cuideis que encareço em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam. Tomara ter aqui as comédias de Plauto, de Terêncio, de Séneca, e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros e muito mais sólidos, do que hoje se ouvem nos púlpitos. Grande miséria por certo, que se achem maiores documentos para a vida nos versos de um poeta profano e gentio, que nas pregações de um orador cristão, e muitas vezes, sobre cristão, religioso!

Pouco disse S. Paulo em lhes chamar comédia, porque muitos sermões há, que não são comédia, são farsa. Sobe talvez ao púlpito um pregador dos que professam ser mortos ao mundo, vestido ou amortalhado em um hábito de penitência (que todos, mais ou menos ásperos, são de penitência; e todos, desde o dia que os professámos, mortalhas), a vista é de horror, o nome de reverência, a matéria de compunção, a dignidade de oráculo, o lugar e a expectação de silêncio; e quando este se rompeu, que é o que se ouve?

Se neste auditório estivesse um estrangeiro que nos não conhecesse, e visse entrar este homem a falar em público naqueles trajos, e em tal lugar, cuidaria que havia de ouvir uma trombeta do Céu; que cada palavra sua havia de ser um raio para os corações, que havia de pregar com o zelo e com o fervor de um Elias, que com a voz, com o gesto, e com as acções, havia de fazer em pó e em cinza, os vícios.

Isto havia de cuidar o estrangeiro. E nós, que é o que vemos? Vemos sair da boca daquele homem, assim naqueles trajos, uma voz muito afectada e muito polida, e logo começar com muito desgarro, a quê? A motivar desvelos, a acreditar empenhos, a requintar finezas, a lisonjear precipícios, a brilhar auroras, a derreter cristais, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras, e outras mil indignidades destas.

Não é isto farsa a mais digna de riso, se não fora tanto para chorar? Na comédia, o rei veste como rei e fala como rei; o lacaio veste como lacaio e fala como lacaio; o rústico veste como rústico e fala como rústico; mas um pregador vestir como religioso e falar como... Não o quero dizer, por reverência do lugar.

Já que o púlpito é teatro, e o sermão comédia, sequer não faremos bem a figura? Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício? Assim pregava S. Paulo, assim pregavam aqueles patriarcas que se vestiram e nos vestiram destes hábitos? Não louvamos e não admiramos o seu pregar? Não nos prezamos de sermos seus filhos? Pois por que não os imitamos? Porque não pregamos como eles pregavam? Neste mesmo púlpito pregou S. Francisco Xavier, neste mesmo púlpito pregou S. Francisco de Borja; e eu, que tenho o mesmo hábito, porque não pregarei a sua doutrina, já que me falta o seu espírito?

Pe. António Vieira in «Sermão da Sexagésima», 1655.

20/02/2019

Jacinta Marto


Havia no nosso lugar uma mulher que nos insultava sempre que nos encontrava. Encontrámo-la, um dia, quando saía de uma taberna, e a pobre, como não estava em si, não se contentou, dessa vez, só com insultar-nos. Quando terminou o seu trabalho, a Jacinta diz-me:
– Temos que pedir a Nossa Senhora e oferecer-Lhe sacrifícios pela conversão desta mulher. Diz tantos pecados que, se não se confessa, vai para o Inferno.
Passados alguns dias, corríamos em frente da porta da casa desta mulher. De repente, a Jacinta pára no meio da sua carreira, e voltando-se para trás, pergunta:
– Olha, é amanhã que vamos ver aquela Senhora?
– É sim.
– Então não brinquemos mais. Fazemos este sacrifício pela conversão dos pecadores.
E sem pensar que alguém a podia ver, levanta as mãozinhas e os olhos ao Céu e faz o oferecimento. A mulherzinha espreitava por um postigo da casa e depois, dizia ela à minha mãe, que a tinha impressionado tanto aquela acção da Jacinta, que não necessitava doutra prova para crer na realidade dos factos. E daí para o futuro, não só não nos insultava, mas pedia-nos continuamente para pedirmos por ela a Nossa Senhora, que lhe perdoasse os seus pecados.

Irmã Lúcia in «Memórias da Irmã Lúcia», 1976.

16/02/2019

O homem mau e o homem perverso


A culpa segue-o sempre como a sombra. Chega a um ponto em que deixa de ser homem mau para se tornar homem perverso. O homem mau fará coisas erradas, tais como enganar, roubar, difamar, matar, violar; mas ainda assim, admitirá a existência da lei. Andará fora da estrada, mas não deitará fora o mapa que a representa. O homem perverso pode não fazer nenhuma destas coisas más, porque se interessa mais pelo abstracto em vez do concreto. O seu desejo é o de destruir completamente a bondade, a religião e a moralidade, com um fanatismo louco. Justificará na sua vida o falso desejo de Nietzsche: «Maldade, sê tu o meu bem». Procura fazer uma transmutação de valores em que a noite pareça dia e o dia pareça noite; o bem pareça o mal e o mal pareça o bem.

Mons. Fulton Sheen in «Aprendei a Amar», 1957.

13/02/2019

13 de Fevereiro: Cinco Chagas de Cristo


Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada,
Na qual vos deu por armas, e deixou
As que Ele para Si na Cruz tomou.
Camões

O culto das Cinco Chagas de Cristo remonta à fundação de Portugal e à visão milagrosa do Venerável D. Afonso Henriques antes da Batalha de Ourique, na qual Nosso Senhor deu ao Brasão de Portugal as Suas Cinco Chagas. Por este episódio, Portugal tem inegavelmente fundação divina.
No século XVIII, o Papa Bento XIV, que concedeu ao Rei de Portugal o título de Sua Majestade Fidelíssima, deu igualmente a festa particular das Cinco Chagas, fixada a 13 de Fevereiro.

Oração Colecta da Missa:
Ó Deus, que reparastes a natureza humana, arruinada pelo pecado, com a Paixão do Vosso Unigénito Filho e com o Seu Sangue derramado das Cinco Chagas, concedei-nos, Vos pedimos, que mereçamos alcançar no Céu o fruto preciosíssimo do Sangue d'Aquele cujas Chagas veneramos na Terra. Pelo mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que sendo Deus, con'Vosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo. Ámen.