06/06/2020

Sejamos como o bom ladrão


Quanto pior um homem se vai tornando, menos irá compreendendo a sua maldade, exactamente como sucede a um doente, cuja febre vai subindo até o fazer delirar, e que menos e menos compreende que está doente, quanto mais febre tem e mais delira, – a ponto de poder julgar-se tão perfeitamente são, que quer erguer-se do leito para ir trabalhar. Todas as pessoas banalmente más se julgam boas. Só quando acordamos é que sabemos que estivemos a dormir, tal qual só reconhecemos que éramos pecadores, quando libertos do pecado e restituídos à graça de Deus.
Só quando estamos doentes é que pedimos um médico, e só quando nos confessamos pecadores é que imploramos o perdão do Redentor. Assim o disse Nosso Senhor: «Os que têm saúde não precisam de médico, mas sim os que estão doentes» (S. Mateus, IX, 12).
Quando, pois, chegarmos ao ponto de começarmos a sentir-nos e a dizer-nos maus, – então, e só então, estaremos no caminho que levou para o Paraíso o bom ladrão. O reconhecimento da culpa é a condição da conversão, assim como o reconhecimento da doença é a condição do seu tratamento. Enquanto nos julgarmos bons, nunca encontraremos Deus.
Se na nossa petulante vaidade julgamos que sabemos tudo, como poderemos admitir, ou conceber sequer, que Deus nos pode ensinar seja o que for que não saibamos já?
Condescendemos às vezes em reconhecer que temos mau génio, ou que somos um tanto imoderados nos prazeres, sejam da mesa, sejam outros, – mas haverá alguém que leve a condescendência até ao ponto de reconhecer que é vaidoso ou sequer apenas pretensioso? Se não há ninguém que não censure os outros por serem vaidosos, como haverá quem reconheça em si próprio esse pecado? Quanto mais pretensioso cada um for, mais abominará a pretensão dos outros. Quanto mais cada um disser: «Vaidoso é que eu não sou!», mais demonstrará que o é, – como aquele seminarista ingenuamente vaidoso, que depois de ouvir na aula de moral uma lição sobre os males da vaidade e as virtudes da humildade, exclamou entusiasmado para o padre professor: «Eu, senhor padre, a respeito de humildade cristã, estou primeiro que ninguém!»
A vaidade e o orgulho faz com que vejamos toda a restante humanidade lá muito em baixo, – de maneira que nunca poderemos erguer os olhos para ver Deus lá muito em cima. E realmente, se o nosso orgulho não nos deixa reconhecer e admitir outra lei e outra autoridade que não sejam a nossa própria, está claro que é um orgulho essencialmente contrário à lei e à autoridade de Deus.
Todos os mais pecados que possamos cometer, tais como avareza, luxúria, cólera, gula, todos podem provir de nós apenas, – mas o pecado do orgulho, esse provém directamente de Satanás.
Foi esse o pecado que o precipitou, e aos anjos seus sequazes, do alto dos Céus no abismo do Inferno, e é um pecado que elimina até mesmo a possibilidade da conversão.
Se, portanto, formos capazes de nos humilharmos, como se humilhou o ladrão crucificado à direita de Nosso Senhor; se chegarmos como ele a confessar que pecamos, então o nosso brado de arrependimento erguer-se-á até Deus, a implorar-Lhe que Se lembre de nós na desventura em que caímos! No mesmo instante em que deixarmos de nos envaidecer e em que começarmos a ver-nos como realmente somos, então na nossa humildade e penitência seremos erguidos pela graça de Deus até ao Seu perdão.
Façamos, portanto, o nosso exame de consciência: perguntemos a nós próprios, com total e inteira franqueza, não se sabemos muitas coisas, mas sim quais as muitíssimas coisas que não sabemos; não se somos muito bons e virtuosos, mas se somos muito maus e muito pecadores. Julguemo-nos a nós mesmos, não à luz do nosso amor-próprio, mas à luz da nossa recta consciência; não à vista da nossa cultura, mas à vista dos nossos actos; não perante a nossa educação, mas perante o nosso coração. Não tardaremos, se bem verdadeira, leal e profundamente nos examinarmos, em sentir nas nossas almas um grande vácuo, em reconhecer que só estavam cheias da negação que se chama pecado, em experimentar a sede da água límpida da Divina Graça, em bradar como o bom ladrão – e como depois dele, todos os tementes a Deus, quando se vão ajoelhar no Tribunal da Penitência: «Padre, absolva-me, porque pequei e sou agora um pecador arrependido!». É assim que principia para cada um de nós a salvação.
O bom ladrão, com ser bom, foi ladrão até na morte, porque conseguiu com ela ser ladrão do Paraíso, que em vida não merecera e só à hora da morte conquistou.
Pois também cada um de nós, se conquistar o Paraíso, será ladrão como ele foi, porque teremos conquistado o que também em vida não merecemos: o eterno descanso na perpétua luz e na suprema paz do Reino de Deus!

Mons. Fulton Sheen in «As Sete Palavras da Cruz», 1953.

02/06/2020

Quando a "Portugalidade" degenera em "Lusofonia"


Fernando Pessoa, num dos seus heterónimos, demonstrou bem essa degeneração pseudo-patriótica:

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. A minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente.

Bernardo Soares in «Livro do Desassossego», 1982.

31/05/2020

31 de Maio: Nossa Senhora da Conceição da Rocha


Estes três dias foram três solenes triunfos para a Religião. Se até aqui se tem descrito o entusiasmo com que todo o Povo afluía a venerar a Santa Imagem; se entre este Povo se notam algumas Pessoas da alta Côrte; vamos agora narrar o testemunho autêntico da devoção que os nossos próprios Soberanos e Real Família tomaram com a Senhora da Conceição da Rocha; para prova de que em Portugal, desde os mais humildes Vassalos até às Pessoas Reais, reconhecem todos o valimento poderoso, com que a Divina Mãe do Salvador, milagrosamente os protege nas suas rogativas e circunstâncias aflitivas.
Restituídos os Direitos do Trono e do Altar, pela feliz Restauração dos Atributos da Realeza nos fins de Maio de 1823, Suas Majestades Fidelíssimas, o Sr. D. João VI e a Sra. D. Carlota Joaquina, assim como Suas Altezas as Senhoras Infantas procuraram em particular render Graças à Santíssima Virgem.
No dia 5 de Junho, em que S. M. El-Rei Nosso Senhor voltou triunfante a entrar de Vila Franca na Capital, diz a Gazeta de 7 o seguinte:
«Ao entrar na Igreja, tomaram as varas do Pálio os Sacerdotes paramentados; e tendo-se dado a Água benta a Sua Majestade, segundo o cerimonial do costume, foi colocar-se com o Sereníssimo Senhor Infante debaixo do rico docel que lhe estava preparado, assim como subiram as Senhoras Princesas para a Tribuna, onde assistiram ao solene Te Deum; no fim do qual fez Sua Majestade Oração a Nossa Senhora da Rocha».
No dia 23 do referido mês em que S. M. a Rainha voltou pela primeira vez de Queluz a Lisboa, diz o seguinte a Gazeta de 25:
«Chegado o Cortejo à Sé, foram S.S. M.M. e A.A. recebidos no átrio com as cerimónias que o Ritual prescreve em tais ocasiões; e dirigindo-se ao Altar-mor, ali fizeram fervorosa e demorada oração; cantou-se um solene Te Deum; e concluído ele, passaram as Reais Pessoas ao Altar da Senhora a Grande, ou Santa Maria Maior, ao pé de cuja respeitável Imagem está exposta à veneração dos fiéis a da Senhora da Conceição da Rocha. Com que piedade e devoção não admirou ali o imenso concurso a Augusta Rainha de joelhos com seu Real Esposo e seus Augustos Filhos, implorando sobre este Reino as bênçãos celestiais; agradecendo à Virgem Santíssima tantos benefícios por sua intersecção alcançados, e o grande triunfo que tivera o Altar, o Trono Português, e este Povo, que desde a aparição d'aquela devota Imagem, com tanto zelo e com tanta fé lhe suplicava remédio a tantos males, com a queda do Governo usurpador! Quase vinte minutos durou a Oração neste Altar, e saíram depois S.S. M.M. e A.A.»

Fonte: «Narração da descoberta da Imagem de N. Sra. da Conceição da Rocha em o dia 31 de Maio de 1822».

El-Rei D. Miguel

28/05/2020

Muitas opiniões, mas poucas verdadeiras


Hoje, pelo contrário, o homem médio tem as "ideias" mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audição. Para quê ouvir, se já tem dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir, mas, pelo contrário, de julgar, de sentenciar, de decidir. Não há questão da vida pública em que não intervenha, cego e surdo como é, impondo a sua "opinião".
Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham "ideias", quer dizer, que sejam cultas? De maneira nenhuma. As "ideias" deste homem médio não são autenticamente ideias, nem a sua posse é cultura. A "ideia" é um xeque-mate à verdade. Quem queira ter ideias necessita antes de dispor-se a querer a verdade, e aceitar as regras do jogo que ela imponha. Não vale falar de ideias, ou opiniões, onde não se admite uma instância que as regula, uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. Estas normas são os princípios da cultura.

José Ortega y Gasset in «A Rebelião das Massas», 1929.

25/05/2020

Sangue Português


Sangue de Portugal... Devemos honrá-lo, mas sem cair no mito do sangue e sem pretender divinizá-lo, como querem alguns por cá e fazem outros por lá. O Sangue Português deixaria de o ser, quando deixasse de ser cristão.
Não consigo nunca ler as Crónicas dos nossos reis, as Relações dos nossos descobridores, missionários e colonizadores, que não sinta em mim uns frémitos de entusiasmo, e ao mesmo tempo de admiração e de respeito. Verdadeiramente, não há palmo da terra que pisamos, não há onda em todos os mares, nem areia em todas as praias, nem floresta virgem em qualquer canto do mundo, nem montanha escalvada ou deserto sem água, que não tenha visto correr o sangue português!
Mas para quê tanto martírio, tanta dor, tanta canseira?... Sangue Português?... Fica aos que sobrevivem o dever de substituírem os que caem. Para que Portugal viva, é preciso que viva o sangue de Portugal; para que viva o sangue de Portugal – é preciso não o matar, não o envenenar. Mata-se ou envenena-se o sangue de Portugal, profanando-o, dispersando-lhe a vitalidade em prazeres de puro egoísmo, comprometendo assim as energias da raça e a sua fecundidade. Para transmitir aos vindouros seiva robusta, é preciso ser forte e não ter enxovalhado, nem ter posto em almoeda, o corpo ou o coração.
Sangue de mortos... Sangue de vivos...

Pe. Raúl Plus in «Diante da Vida», 1947.

23/05/2020

A tripa virada


Para governar os homens é preciso conhecer como os homens são, e não como em teorias filosóficas eles podiam ser. Tudo o que se não derivar deste princípio será um erro que acabará em desgraças. As leis com que por tantos séculos se governaram os Povos, foram feitas com a prévia observação até de suas mesmas inerentes imperfeições, a elas se acomodavam, e delas mesmas se prevaleciam para buscarem, e conseguirem a felicidade geral e particular dos mesmos Povos. Não se pode entender a ideia sociedade, que se não entenda um corpo moral que supõe logo governantes e governados: como se não pode considerar o corpo humano orgânico e perfeito, sem membros e cabeça, e sem se pressuporem leis físicas pelas quais se harmonizem e se governem. Estas leis são conformes, não à ideia abstracta de uma perfeição hipotética, mas ao estado real do mesmo composto humano; na mesma proporção devemos considerar o composto moral que se chama sociedade, por isso as Leis devem ser conformes ao estado actual e não ao hipotético. Este conhecimento prático tiveram todos os Legisladores do Mundo, excepto os Pedreiros-livres e a sua infernal reforma, os Carbonários. Há quase dois séculos que o inglês Hobbes concebeu o projecto do melhoramento das humanas sociedades com uma nova Constituição: este projecto foi concebido com boa-fé; tratado e expendido depois por outros Filósofos que seguiram seus passos, abraçando e explicando mais a sua doutrina, e em França, e pela Europa toda a estendeu e assoalhou João Jacques, e também, como eu suponho, de boa-fé. Os Pedreiros-livres, e após eles os bons Primos Carbonários, acharam aqui um caminho e um poderoso instrumento para diabólicas vistas de ambição e de domínio, pois o primário intento e fito da Veneranda, é escravizar a Terra, roubar sem cerimónia nenhuma todos os bens deste Mundo, e reduzir a cinzas os Tronos e os Altares. Para o conseguirem (e isto está demonstrado com evidência no livro que se chama o Espectador) arbitraram Constituições, ou complexos de princípios Legislativos refalsados; e capciosos, que lisonjeassem e beliscassem a paixão mais natural aos homens, a inata vaidade que se fomenta pela fantástica ideia de grandeza, de dignidade, de Soberania, e de Liberdade, tudo isto querem os homens, e contentando-se só com as palavras, sem lhe sondarem e analisarem o sentido, se deixam cair nas peãs e nos laços que os deixam depois escravos sem Liberdade e sem camisa, e prometendo-lhes grandes bens, não vem a sentir por fim mais que grandes males e grandes desgraças, e os Pedreiros-livres que os lograram dando pasto à sua ambição, vem a sentir grandes venturas e grandes opulências, porque o fundamento da sua apurada moral é este: «Nada importam os meios, contanto que se consigam os fins». A escravidão, a pobreza, o extermínio, a miséria, o sangue, a morte, o transtorno, a desolação, as masmorras, os cadafalsos, as lágrimas, a orfandade, a viuvez, o luto, a tristeza, a confusão, a anarquia, tudo isso são bagatelas contanto que a Veneranda venha a dominar e a roubar todo o género humano.

Pe. José Agostinho de Macedo in «A Tripa Virada», Nº 3, 1823.

22/05/2020

Um milagre chamado Portugal


Como é possível que vós, embora sendo poucos, tenham feito tanto na santa cristandade? Onde Portugal encontrou forças para acolher tantos territórios da África e da Ásia sob o seu domínio, e estendê-lo até às mais distantes terras americanas? Onde, senão naquela ardente fé do povo português, cantada pelo seu maior poeta, e na sabedoria cristã dos seus governantes, que fizeram de Portugal um dócil e precioso instrumento nas mãos da Providência, para a realização de obras tão grandiosas e benéficas?

Papa Pio XII in encíclica «Saeculo Exeunte Octavo», 1940.

19/05/2020

Da síntese capitalismo-comunismo


O capitalismo visa estender a sua clientela até ao limite da população; assim, para ele, a clientela é o sufrágio universal que deve ser alcançado. E isso vai ainda mais longe, a sua visão já não é apenas democrática, ela tornou-se comunista: o capitalismo pretende comunizar o consumo, ou seja, torná-lo igualitário; a ideia de standard não quer dizer outra coisa. Para que o capitalismo actual realize o seu desígnio, todo o mundo deve comprar e possuir os mesmos bens: o mesmo carro, a mesma roupa, o mesmo apartamento, o mesmo livro.

Pierre Drieu la Rochelle in «Genève ou Moscou», 1928.

18/05/2020

Contra vãs ilusões restauracionistas


Artigo escrito a 25 de Fevereiro de 1945:

Meus amigos, enquanto houver algo para salvar; com calma, com paz, com prudência, com reflexão, com firmeza, implorando a luz divina, há que fazer o necessário para salvá-lo. Quando já não há nada para salvar, sempre e ainda há que salvar a própria alma.
É bem possível que sob pressão das pragas que estão a cair sobre o mundo, e dessa nova falsificação do catolicismo que aludi acima, a estrutura da cristandade ocidental continue a se desfazer de tal forma que, em breve, não haverá nada que fazer, para um verdadeiro cristão, na ordem da coisa pública.
Agora a palavra de ordem é ater-se à mensagem essencial do cristianismo: fugir do mundo, crer em Cristo, fazer todo o bem possível, desapegar-se das coisas criadas, guardar-se dos falsos profetas, lembrar da morte. Numa palavra, dar com a vida testemunho da Verdade e desejar a vinda de Cristo.
No meio deste alvoroço, temos que tratar cuidadosamente da nossa salvação, tal como o artista faz a sua obra com os materiais à sua disposição, primeiro dentro de si mesmo. Não há nada que não se possa usar, se alguém puder pisá-lo, para subir até Deus. (...)
Os primeiros cristãos não sonhavam em reformar o sistema judicial do Império Romano, mas sim, com todas as suas forças, em ser capazes de enfrentar as feras; e em contemplar com horror, no imperador Nero, o monstruoso poder do diabo sobre o homem.

Pe. Leonardo Castellani in «Decíamos ayer...», 1968.

14/05/2020

Inovações tomadas por Tradição


O que mais nos escandaliza de tudo quanto lemos no epílogo do tal Ensaio é o que se encontra na mesma página, coluna 2ª, lin. 24. Diz assim: «A perfeita união das duas Câmaras com o Governo, e a religiosa obediência e fidelidade dos súbditos, bem depressa conseguirão tornar florescente, rica e estimada uma Nação, que nos tempos em que a regiam Instituições semelhantes, encheu o Mundo de admiração por seus altos feitos». Ora, falando com sinceridade, e deixando de parte toda a arma do ridículo e da invectiva, se isto não é uma alucinação, ou um lapsus pennae do Senhor Franzini, não sabemos que lhe pertença outro nome senão o de Fanatismo Carteiro ou de blasfémia histórica. E na verdade, diga-nos o Senhor Franzini quando, ou em que época, houve em Portugal duas Câmaras? Nós desafiamos a todo o Mundo, que nos mostre na nossa História essa forma de Governo, e até sustentamos que a palavra Câmaras, na acepção em que a toma o Senhor Franzini, é inteiramente peregrina nos Dicionários antigos da língua. Câmaras Municipais, sim Senhor; mas Câmaras deliberantes, isso nunca se ouviu da boca de um Portugal Velho. Os três Braços da Nação, Clero, Nobreza, e Povo, reunidos em Côrtes, e consultados para darem o seu Parecer, juntando muitas vezes submissamente alguma Petição sobre objectos interessantes ao bem do Estado, isso se viu algumas vezes em Coimbra, em Montemor-o-Novo, em Lisboa, etc.; mas Câmaras Legislativas, Extraordinárias e Ordinárias, Alta e Baixa, isso nunca: engana-se, por não dizer que mente o Senhor Franzini; e ainda mais se engana, quando assevera, que no tempo dessas Instituições é que Portugal encheu o Mundo de admiração por seus altos feitos. Se nunca as houve, como é que no tempo delas é que se praticaram os grandes feitos Portugueses?! Nós ainda avançamos mais, que nem mesmo as Côrtes antigas, que os Senhores Reis costumavam chamar em certos casos, foram nunca as que dirigiram esses grandes feitos que assombraram o Mundo. Por ventura chamou a Côrtes o Senhor D. João I, quando depois de ter triunfado dos Leões de Castela nos Campos de Aljubarrota, quis combater as Meias Luas nos Litorais d'África e intentou a Conquista de Ceuta?! Não, sem dúvida. Leia-se a sua Crónica, Part. 2ª, Cap. 113, e aí se achará que ele mandou reunir toda a Frota na Baía de Lagos, e depois de estar toda a gente embarcada e prestes a dar à vela, sem que ninguém soubesse até ali o seu intento, disse ao seu Confessor, que era um Franciscano, e se chamava Fr. João de Xira, o único de quem tinha confiado o segredo, que prégasse àquela gente, e que lhe manifestasse a sua derrota: assim o fez o bom do Frade, e com tanta unção e energia, que foram aqueles os Portugueses primeiros, que nas muralhas de Ceuta, fizeram tremolar as Quinas d'Afonso Henriques, e ele o primeiro Prégador, que na Mesquita de Ceuta, já purificada, fez soar a voz do Evangelho. Eis aqui as Câmaras, que convocou este grande Monarca.

D. Fr. Fortunato de S. Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático», 1831.

11/05/2020

Fátima e a perseguição republicana (hoje)


O Santuário de Fátima está a ser fortemente vigiado por milhares de militares da GNR, que garantem que nenhum peregrino possa entrar no recinto de oração. A notícia é avançada pela edição em papel do CM deste Sábado, que dá conta que a operação de segurança, montada pela GNR, tem como objectivo o não acesso àquele local sem uma justificação plausível por parte de quem entra e com a devida autorização por parte dos responsáveis da Igreja.

A operação vai decorrer em duas fases, até terça-feira. Os militares vão impedir o acesso ao Santuário, parques de estacionamento, entre outras áreas envolventes. Já na estrada, a operação começa nas entradas da Cova da Iria, onde vai decorrer uma operação de sensibilização aos peregrinos e o aconselhamento a voltarem para casa.

Nesta operação está envolvida toda a logística da GNR, que tem no terreno 3500 militares. Os dias mais complicados vão ser a 12 e 13 de Maio, onde a GNR terá no terreno uma força visível para que possa proibir qualquer acesso ao recinto de orações, entre militares apeados, a cavalo, com cães e elementos da unidade de intervenção. Fátima vai ser um autêntico forte a proteger, não de vândalos, mas sim de peregrinos que ficam privados às celebrações de Fátima.

Na prática todos os caminhos de acesso ao Santuário vão estar vedados, mas outros locais também estão na mira das autoridades, como a aldeia de Aljustrel, onde nasceram os três pastorinhos (Lúcia, Francisco e Jacinta), os Valinhos, local da Aparição de Agosto, e a própria Via-Sacra.

Fonte: «Diário do Distrito», 9 de Maio de 2020.

§

Antes, a perseguição das forças maçónico-republicanas era aberta e declarada, feita em nome do ateísmo e contra a vontade das autoridades eclesiásticas. Agora, a perseguição das forças maçónico-republicanas é velada e ardilosa, feita em nome da "saúde pública" e com a cumplicidade das autoridades eclesiásticas.
Como bem ensinou Santo Agostinho: Tal como aos nossos pais era necessária a paciência no combate contra o leão, assim também nós precisamos de vigilância contra o dragão. No entanto, a perseguição, seja do leão, seja do dragão, nunca cessa para a Igreja; e é mais temível quando engana, do que quando se enfurece. Naquele tempo queria forçar os cristãos a negarem a Cristo; agora ensina os cristãos a negarem a Cristo. Então coagia, agora ensina. Então era violenta, agora é insidiosa. Então era furiosa, agora é cativante e sem aparência de erro.

10/05/2020

Fátima e a perseguição republicana (ontem)

Capelinha das Aparições: ataque bombista de 6 de Março de 1922

Parte do relatório do Administrador do Concelho de Ourém, o maçon republicano Artur de Oliveira Santos, ao Governador Civil do Distrito de Santarém:
Fátima é hoje, no País, uma etapa da Reacção, que procura ponto de apoio para base da sua resistência. O facto de se não ter impedido eficazmente a peregrinação deveu-se simplesmente a terem as forças armadas chegado tarde. É certo que foram postas à minha disposição forças das unidades mais próximas porque aquelas que chegaram no dia 12, à tarde, eram insuficientíssimas, mas, requisitando mais, tinha dois caminhos que trariam para o Regime inconvenientes novos.
As forças que eu requisitasse das unidades mais próximas, só aqui chegariam no dia 13. Ora no dia 12, já estavam em Fátima, seguramente, 25 000 pessoas. Com o auxílio de novas forças poderia eu ter ido a Fátima dispersar 50 000 a 60 000 pessoas? O sangue que fatalmente correria não seria uma arma terrível contra o Governo e contra o Regime? Por outro lado, não me utilizando a força, cairia, pelo menos, no ridículo, e não querendo, por princípio algum, desobedecer a V. Ex.ª, preferi não requisitar mais a tropa e mandar a pequena força para onde fora requisitada, fora do local da Cova de Iria, tanto mais que a mesma força seria suficiente para impedir a saída da procissão de Fátima, caso teimassem em realizá-la, o que, todavia, não era preciso, pois que eu já tinha conseguido impedir a sua realização por outros meios mais suasórios, embora não deixassem de causar receio ao pároco da freguesia e a outras pessoas.
Às 22 horas da noite de 12, veio o Dr. Andrade e Silva (a pedido da Sr.ª D.ª Madalena Serrão Machado, que tem feito a perigosa propaganda da cura do cancro pelas águas pluviais da Cova de Iria) pedir a realização da procissão. Neguei-lhe terminantemente permissão para esta e fiz-lhe saber que no dia 13, prenderia o pároco da freguesia. Pediu-me então aquele cidadão que tal não fizesse, tão convencido estava o Dr. Andrade e Silva de que eu tinha esse intuito.
Na comunicação enviada a V. Ex.ª, julgo que em 10 do corrente mês, frisava eu que havia duas maneiras de intervir: 1ª) O Governo mobilizaria os meios de transporte em diversos distritos; 2ª) ou, então, a Guarda Republicana impediria que se realizassem actos de culto externo. Embora, como V. Ex.ª sabe, me prejudique materialmente continuar por muito tempo neste lugar, que V. Ex.ª se dignou confiar-me, eu não terei essa dúvida, se assim for preciso, de nele me conservar, porque nunca hesitei no cumprimento dos deveres de republicano, que me prezo de ser, desde há longos anos.
A Reacção vai triunfando, hipocritamente, e a Liberdade perde terreno, fazendo-lhe concessões. Aquela está fora da lei, e é necessário metê-la na ordem. Julgo que há maneira de jugular a Reacção da Cova de Iria. Quando o Governo não possa, ou, para melhor dizer, não queira mobilizar os meios de transporte em diversos distritos, tomar-se-iam, a pouca distância da Cova de Iria, as embocaduras das estradas que conduzem a Fátima, anunciando-se devidamente o caso com certa antecedência. Fazendo isto, durante meses consecutivos estou certo que a Reacção sofreria um grande golpe, deixando a pretensão de ter um Estado dentro do Estado.
Junto vários documentos.
Saúde e fraternidade!
Vila Nova de Ourém, 31 de Outubro de 1924.
O Delegado do Governo encarregado do inquérito,
Artur de Oliveira Santos

08/05/2020

Do humanitarismo ou filantropismo


Se o objectivo principal do filantropo, a sua justificação para viver, é ajudar os outros, então o seu bem último exige que os outros estejam sempre em falta. A sua felicidade é o inverso da miséria alheia. Se ele deseja ajudar a "humanidade", toda a humanidade deve estar em necessidade. O humanitário deseja ser o motor principal na vida dos outros. Ele não pode admitir, nem a ordem divina, nem a ordem natural, pela qual os homens têm o poder de se ajudar a si mesmos. O humanitário coloca-se no lugar de Deus.

Isabel Paterson in «The God of the Machine», 1943.


05/05/2020

O mal do seguidismo

Cegos guiando cegos

Torno à ideia que lhe queria dar da Lógica.
Digo, pois, que o método de filosofar não se deve seguir, porque o diz este, ou aquele autor: mas porque a razão e experiência mostram que se deve abraçar. Isto é o que eu não posso meter na cabeça a muita gente: porque a maior parte do mundo não examina os princípios das coisas; mas vão uns detrás dos outros como carneiros; sem mais eleição que o costume: e antes querem errar, por cabeça alheia, que acertar pela própria. Persuadem-se que os autores não podem ensinar coisa alguma má: e recebem os tais ditames com a possível veneração. Nenhum toma o trabalho de examinar, se a opinião é boa, ou má: uma vez que a disseram os antigos mestres, é o que basta.

Pe. Luís António Verney in «Verdadeiro método de estudar para ser útil à República e à Igreja: proporcionado ao estilo e necessidade de Portugal», 1746.

03/05/2020

Dos últimos tempos


Agora direi algumas palavras sobre a situação internacional. Parece-me que temos que reflectir e tirar uma conclusão ante os acontecimentos que vivemos actualmente, que têm bastante de apocalípticos.
São algo surpreendentes esses movimentos, que nem sempre compreendemos bem; essas coisas extraordinárias, que sucedem atrás, e agora através, da cortina de ferro.
Não devemos esquecer, por ocasião destes acontecimentos, as previsões feitas pelas seitas maçónicas e que foram publicadas pelo Papa Pio IX. Elas aludem a um governo mundial e à submissão de Roma aos ideais maçónicos; isto faz já mais de cem anos.
Também não devemos esquecer as profecias da Santíssima Virgem. Ela advertiu-nos. Se a Rússia não se converte, se o mundo não se converte, se não rezar nem fizer penitência, o comunismo invadirá o mundo.
O que significa isto? Sabemos muito bem que o objectivo das seitas maçónicas é a criação de um governo mundial com ideais maçónicos, ou seja, os direitos humanos, a igualdade, a fraternidade e a liberdade, compreendidas num sentido anticristão, contra Nosso Senhor.
Esses ideais seriam defendidos por um governo mundial que estabeleceria uma espécie de socialismo para uso em todos os países, e, depois, um congresso das religiões, que abarcaria a todas, incluindo a católica, e que estaria ao serviço do governo mundial, como os ortodoxos russos estão ao serviço do governo soviético.
Haveria dois congressos: o político universal, que dirigiria o mundo; e o congresso das religiões, que iria em auxílio deste governo mundial, e que estaria, evidentemente, a soldo deste governo.
Corremos o risco de ver chegar estas coisas. Devemos estar sempre preparados para elas.

D. Marcel Lefebvre in «Sermão do 60º Aniversário de Sacerdócio», 19 de Novembro de 1989.

01/05/2020

Do Trabalho


Trabalho é o exercício da actividade humana ordenada, tendo em vista um fim útil. Não é trabalho o exercício físico que é simples movimento, ou que tem por fim apenas o passatempo e o prazer. O trabalho é necessário à humanidade, porque a natureza não satisfaz a todas as suas necessidades.
Há várias espécies de trabalho: a) Trabalho corporal, o que interessa principalmente ao corpo; b) intelectual, o que interessa principalmente ao espírito; c) lucrativo, o que se executa com remuneração; d) desinteressado, o que se executa sem remuneração; e) individual, o que aproveita directamente ao indivíduo; f) social, o que aproveita directamente à sociedade.
O trabalho é ordenado: à alimentação, a evitar o ócio, a combater concupiscência, e à esmola. É útil contra o furto, contra a cobiça, contra os negócios torpes.

Pe. José Lourenço in «Dicionário da Doutrina Católica», 1945.