Chegada da Peste Negra a Portugal


No mesmo dia [29 de Setembro], ano de 1348, se começou a sentir neste Reino a peste, a que chamaram: A mortandade grande: Pareceu mais castigo especial da mão de Deus, do que efeito natural; Dizem que nasceu na Cítia, onde à força e veemência de espantosos terremotos abriu a terra um boqueirão horrendo, o qual lançou tão peçonhento vapor, que corrompeu o ar, e levado dos ventos, se ateou brevemente por toda a terra, levando a maior parte das gentes: Desde os seus princípios durou três anos: Em Portugal três meses, com espantoso estrago.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

O jornalismo enquanto instrumento de discórdia


O jornal exerce hoje todas as funções malignas do defunto Satanás, de quem herdou a ubiquidade; e é não só o Pai da Mentira, mas o Pai da Discórdia. É ele que por um lado inflama as exigências mais vorazes – e por outro fornece pedra e cal às resistências mais iniquas. Vê tu quando se alastra uma greve, ou quando entre duas nações bruscamente se chocam interesses, ou quando, na ordem espiritual, dois credos se confrontam em hostilidade: o instinto primeiro dos homens, que o abuso da Civilização material tem amolecido e desmarcializado, é murmurar paz! juízo! e estenderem as mãos uns para os outros, naquele gesto hereditário que funda os pactos. Mas surge logo o jornal, irritado como a Fúria antiga, que os separa, e lhes sopra na alma a intransigência, e os empurra à batalha, e enche o ar de tumulto e de pó.

Eça de Queirós in «A correspondência de Fradique Mendes», 1900 (póstumo).

Buscai primeiro o Reino de Deus...


Não faltará, quiçá, quem pergunte: mas por que nos deixa Deus por vezes expostos à privação das coisas necessárias à vida?
Deus faz isto por uma das seguintes razões:

– 1ª) Para nos castigar por nossas faltas;
– 2ª) Para nos fazer expiar o abuso dos bens temporais;
– 3ª) Para castigar o nosso amor ao supérfluo;
– 4ª) Para reprimir a nossa avareza ou cobiça;
– 5ª) Para corrigir a nossa ingratidão;
– 6ª) Para que pratiquemos a paciência;
– 7ª) Para nos fazer entender que os bens temporais não são nossos e não nos são devidos.

A conclusão que Nosso Senhor tira de todo o Seu discurso é admirável e resume-lo perfeitamente: Buscai, pois, primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo.
São João Crisóstomo comenta deste modo: Buscai os bens vindouros, e recebereis os perecíveis; não cobiceis os temporais, e os possuireis.

Pe. Juan Carlos Ceriani in «Sermão do 14º Domingo depois de Pentecostes», 11 de Setembro de 2022.

Vamba é ungido Rei dos Godos


Neste dia [19 de Setembro], ano de 672, foi ungido Rei da Monarquia dos Godos em Espanha [Península Ibérica] o ínclito e Santo Português Vamba. Celebrou-se esta função em Toledo com soleníssimas demonstrações de alegria e grandeza, e foi o primeiro Rei de Espanha em quem se fez aquela notável cerimónia.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Das judiarias e mourarias


De certos considerandos de capítulos de Côrtes antigas, deduzo uma coisa: tinha-se, me parece, relaxado um pouco a sequestração absoluta do elemento mouro; tinha insensivelmente havido mistura gradual de mouros e judeus com a colmeia cristã; por isso as Côrtes de Elvas, em 1361 (Era 1399), representavam a El-Rei D. Pedro que disso provinham algumas coisas desordenadas, de que os cristãos recebem escândalo e nojo; ao que ele respondeu determinando que essas raças infectas morassem em lugar apartado, como as antigas leis lhes impunham.

Júlio de Castilho in «Lisboa Antiga», volume III, 1885.

Milagre no cerco castelhano de Tavira


No ano de 1337 veio El-Rei Dom Afonso XI de Castela com mão armada sobre a Cidade de Tavira do Algarve, e posto seu arraial para a combater, neste dia [15 de Setembro] de manhã, em Sábado, olhando acaso para o telhado da Igreja de Santa Maria, viu nele a sete Cavaleiros de grande estatura, vestidos de branco, com Cruzes de Santiago nos peitos, brandindo as lanças; Perguntou El-Rei aos seus que lhe assistiam, se viam aqueles Cavaleiros, e como lhe respondessem que não, mandou chamar ao Guardião de São Francisco; Outros dizem que a um velho Ermitão de boa vida; para que lhe interpretasse aquela visão, como fez deste modo: Senhor, aquele telhado é da Igreja de Santa Maria, onde foram sepultados os sete Mártires que ajudaram a conquistar e tirar do poder dos Mouros esta Cidade, morrendo pela Fé de JESUS Cristo, como esforçadas Cavaleiros e verdadeiros Cristãos, quiçá serão eles que virão agora a defendê-la. Vendo o prudente Rei tão grande maravilha, levantou o seu arraial e voltou para Castela, dizendo: Que ele não pelejava com os Santos do Céu, mas com os homens da terra. Divulgado o sucesso, renderam os Tavirenses as devidas graças a Deus e aos Santos Mártires; e ficaram estes dali em diante mais conhecidos e venerados. Falamos deles em outra parte.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Milagre na reconquista de Alcácer do Sal


Haviam os Mouros recuperado a Vila de Alcácer do Sal, depois de conquistada por El-Rei Dom Afonso Henriques, e a fortificaram de modo que parecia ficar insuperável a todos os meios de expugnação que havia naqueles tempos; Mas Dom Sueiro, Bispo de Lisboa, Prelado de igual virtude e valor, aproveitando-se da ocasião de haver chegado ao porto da mesma Cidade uma poderosa Armada do Norte; Ajustando-se com os Capitães dela, partiu à Conquista daquela Praça, e os Estrangeiros navegaram ao porto de Setúbal, e daí pelo Rio acima, em embarcações ligeiras, se foram incorporar com os Portugueses; seguindo uns e outros o mesmo fim, por diferente caminho. Tiveram os inimigos notícia antecipada, e reforçando novamente os reparos, se preveniram à defesa, implorando ao mesmo tempo os socorros dos Reis de Badajoz, de Jaén, de Córdova, e de Sevilha; os quais, com um Exército de quinze mil Cavalos e oitenta mil Infantes, vieram em demanda dos Cristãos; E atacando-se a batalha neste dia [10 de Setembro], ano de 1217, foram estes vencidos e derrotados com grande perda. Dividiu-os a noite e o sucesso os encheu, a uns de alegria e alvoroço, e a outros de dor e confusão: Choravam os Católicos o fracasso, temiam outros maiores, e levados da aflição, a que na Terra não achavam fácil remédio, puseram os olhos no Céu: Eis que de repente, se lhes representou no ar, a pouca distância, o salutífero sinal da Cruz, mais luminoso e claro que o mesmo Sol: Foi visto e adorado de todos os soldados do Exército, naturais e estrangeiros, e todos conceberam firme esperança, de que no dia seguinte haviam de vencer e derrotar aos inimigos da mesma Cruz, que agora se lhes oferecia aos olhos, como sinal e penhor de uma felicíssima vitória.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

O desmembramento da Monarquia (I)


Si regnum in se dividatur, non potest regnum illud stare.
S. Marcos

Um triste acontecimento que deve trazer consequências, as mais funestas para a Nação, se a Sabedoria de S. Majestade, e de seus Ministros, as não poder prevenir, vem interromper o fio das reflexões que comecei na carta precedente e continuarei nas seguintes; porém a matéria é análoga. À perda da Baía de Todos-os-Santos e do Maranhão, seguiu-se rapidamente a do Grão-Pará. De todas aquelas vastas regiões, que se estendem desde o Equador até à embocadura do Rio da Prata, as quais os nossos antepassados descobriram, povoaram e cultivaram, e de cuja união à Mãe Pátria resultava o esplendor do Trono, a riqueza e a grandeza da Nação, já não possuímos nem um palmo de terra. Novo mimo da nossa regeneração política!
O que sabemos das nossas possessões da Ásia e da África oriental, é que ficavam convulsas. Terão elas seguido a sorte do Brasil? Que mágoa, que dor penetrante para o Digno Herdeiro do Trono do Venturoso, Manuel, e daquela abençoada série de Reis, que levaram o nome e as armas Portuguesas mais longe que os Assírios, que os Persas, que Alexandre, que os Romanos e que os Árabes as suas! Que mágoa, que dor penetrante para os descendentes dos ilustres guerreiros, que à custa do seu sangue fundaram e defenderam este império gigantesco, que agora vemos despedaçado!
Tal é o efeito do veneno, que os nossos chamados Regeneradores introduziram nas entranhas da Pátria, para fazerem cair em dissolução todos os seus membros. Adeus, senhor Brasil, dizia um deles com insultante e bárbara enfâse, quando viu que o Brasil nos ia escapando: fazia um objecto dos seus gracejos a perda da mais vasta e rica porção do Reino unido. Outros pretendiam consolar-nos deste desastre com a ilusão das futuras vantagens, que poderíamos tirar dos nossos actualmente miseráveis estabelecimentos da África ocidental. Não nos enganemos com quimeras. Os dias da nossa glória são passados, desapareceram as nossas riquezas, acabou a nossa grandeza, a não vir algum novo Gama, que nos conduza ao Oriente por novos caminhos desconhecidos; algum novo Cabral, que nos descubra outro Brasil.
Este golpe devia prever-se, porque outras não podiam ser as consequências do nosso S. Bartolomeu de 1820, na verdade menos sanguinoso que o de França, em 1571; porém mais transcendente nos seus resultados. A Monarquia Francesa, depois das mortandades e das guerras civis que acompanharam e seguiram aquela catástrofe, ressurgiu nos brilhantes dias de Henrique IV, mais robusta e florescente do que antes fora: o Império Português está destruído e desmembrado talvez para sempre. E poderão os povos ver com bons olhos os autores de tantos males, os seus cooperadores e adeptos, ou coisa que a eles se assemelhe? Poderão os povos pôr neles alguma confiança, esperar que lhes venha por eles algum bem, ou deixar de odiar qualquer obra, que haja de sair das suas mãos?
Revolucionou-se a França e perdeu todas as suas colónias: revolucionou-se a Espanha e perdeu também as suas. E porque seria Portugal isento desta lei, que é a lei das revoluções filiais, que se dirigem pelo espírito da Revolução Francesa, mãe e mestra de todas as que depois vieram? Nápoles e Sardenha não perderam colónias, porque as não tinham: haviam de perdê-las se as tivessem, e se mãos poderosas não acudissem a apagar o incêndio logo no seu princípio. É o carácter de todas as revoluções de cunho moderno.
Apenas rompeu a revolução em França, partiram emissários, que levaram o espírito de desorganização a todas as colónias Francesas. Apenas rompeu em Portugal, todas as possessões Portuguesas foram convidadas à revolta; e não foi necessário que partissem emissários, porque os apóstolos da revolução já por lá andavam em numerosa quantidade, e mesmo tinham já feito alguns ensaios. Filhos Primogénitos, diziam os povos do ultramar pela boca de um dos chamados representantes da Nação (ou antes os insinuava este para que eles o dissessem) em um discurso de estilo teatral proferido na sessão das Cortes de 30 de Janeiro de 1821: Filhos primogénitos da grande família, a que temos a honra de pertencer; por espaço de mais de trezentos anos, só nos vieram da Europa as rajadas do despotismo; porque nos quereis privar agora da viração prestadia da liberdade constitucional? Mas este convite foi muito tardio: em consequência dos que o tinham precedido, já nesse tempo lavrava o fogo por todos nossos estabelecimentos, e não ficou um só que se não revolucionasse.
Tornando às colónias Francesas, nada é tão espantoso como a revolução da de S. Domingos: drama trágico em dois actos, que custou 80 000 vidas dentro de uma ilha. No primeiro acto figuravam brancos e negros da América contra brancos da Europa; no segundo somente negros contra brancos, e os negros ficaram de cima, compreendendo nesta denominação os mulatos. Enchei-vos de horror à vista dos seguintes extractos de uma proclamação, com que o chefe negro Dessalines excitou os seus à matança dos brancos: «Meu braço suspendido sobre as suas cabeças tem demorado por muito tempo descarregar o golpe... sede cruéis e sem misericórdia, semelhantes a uma torrente furiosa que tem rompido os seus diques, e que arrasta tudo o que tenta opor-se às suas ondas. Vossa fúria vingadora destruiu, e levou tudo no seu curso impetuoso... Onde está o vil habitante do Haiti, tão indigno da regeneração, que não julgue ter cumprido os Decretos do Eterno exterminando estes tigres sequiosos de sangue? Se há algum, fuja: A nação indignada o expulsa do seu seio; vá ocultar a sua vergonha longe de nós. O ar puro, que nós respiramos, não é feito para os seus órgãos grosseiros; é o ar puro da liberdade augusta e triunfante... Eu tenho salvado a minha pátria; eu tenho vingado a América. Esta confissão, que eu faço à face da terra e do Céu, faz o meu orgulho e a minha glória. Guerra de morte aos tiranos! eis a minha divisa. Liberdade e Independência! eis o grito da nossa reunião.»
E não achais vós que as rajadas do despotismo e a viração prestadia da liberdade, do nosso Deputado em Cortes, tem uma tendência particular para influir na América Portuguesa alguma coisa semelhante às atrocidades do negro Dessalines! A revolução do Brasil tem sido semelhante ao primeiro acto da de S. Domingos. A Divina Providencia salve o Brasil dos horrores do segundo acto daquele tremendo drama.

(Continua...)

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos sobre diferentes objectos de utilidade geral e individual», Carta XII, 1822.

O assalto de Espanha à fortaleza da Mina


Celebra-se hoje o 543º aniversário do Tratado de Alcáçovas, no qual Portugal e Espanha acordaram a divisão do mundo em duas zonas de exploração: atribuindo a Portugal as terras que viessem a ser descobertas a sul do paralelo que passava no Cabo Bojador, enquanto Espanha ficaria com as terras a norte do mesmo paralelo. Infelizmente, o Tratado apenas vigorou durante 15 anos (até à assinatura do Tratado de Tordesilhas), uma vez que Espanha violava de forma recorrente as disposições acordadas em Alcáçovas e confirmadas em Toledo. Uma dessas transgressões foi particularmente grave, com os Reis Católicos (Fernando de Aragão e Isabel de Castela) a ordenarem o assalto à fortaleza portuguesa de São Jorge da Mina, na costa africana, que então se encontrava protegida por Bula Papal. Tal crime ocorreu pouco depois da assinatura do Tratado de Alcáçovas, conforme o relato de Damião de Góis:

Neste ano [1480] mandaram El-Rei Dom Afonso e o Príncipe [Dom João], Jorge Correia, Comendador do Pinheiro, e Mem Palha, bons e esforçados Cavaleiros, correr à costa da Guiné, cada um em sua Capitania, os quais juntos na paragem da Mina desbarataram trinta e cinco naus e navios de Castela, de que era capitão Pedro de Covides, que do tempo da guerra lá andava resgatando por mandado de El-Rei Dom Fernando e da Rainha Dona Isabel, e trouxeram todas estas naus e gente a este Reino, com muito ouro que já tinham resgatado, mas por respeito das capitulações das pazes [de Alcáçovas] foram logo soltos, e as naus e navios entregues, da maior parte do qual ouro fez o Príncipe mercê aos Embaixadores de Castela e a outros Senhores que então andavam na Corte.

Damião de Góis in «Crónica do Príncipe Dom João, Rei que foi destes Reinos, segundo do nome, etc.», 1567.

Hoje a maioria é maçónica sem o saber


Eis a confissão de um grão-mestre maçon:

A Franco-Maçonaria pode tornar-se uma vastíssima associação, sobretudo se ela se espiritualiza, divulgando os seus princípios, sem exigir aos que os aceitam que venham tomar parte nos mistérios das lojas. Os mações sem avental são muitas vezes os melhores. Por que não favorecer a sua autoformação?

Oswald Wirth in revista «Le Symbolisme», Outubro de 1912.

O primeiro tributo do Oriente a Portugal


Neste dia [1 de Setembro], ano de 1503, desembarcou Vasco da Gama em Lisboa, voltando da segunda jornada que fizera à Índia, com treze Naus carregadas de riquezas, e logo caminhou a Palácio, acompanhado de muitos Senhores e de infinito povo, que o haviam ido esperar: Levava diante um Pajem com uma bandeja de prata nas mãos, e nela o primeiro tributo, que pagou a Portugal um dos Reis do Oriente, que eram dois mil meticais de ouro: Recebeu-os El-Rei com grande contentamento, e logo, com maior devoção, ordenou se lavrasse deles uma Custódia para o Santíssimo Sacramento, guarnecida de pedras preciosas, e ainda mais preciosa pela obra que pela matéria, e a deu ao Real Convento de Belém, onde hoje se vê e se admira o seu valor e perfeição.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Da estratégia de Gramsci


Deste modo, a principal estratégia revolucionária, além da guerrilha em países subdesenvolvidos, é a descoberta por António Gramsci e hoje em dia aplicada pelos partidos comunistas. Trata-se de conquistar o poder por meio do domínio da Cultura, das instituições tradicionais, do desarmamento ideológico. O objectivo não é ganhar eleições e ter votos: é eliminar a influência da Igreja, conquistar a Universidade e a Escola, controlar o Exército, possuir os meios de comunicação, bombardear a população com novos conceitos, fazendo as pessoas mudar a sua mundivisão. Em resumo: é a conquista ideológica do Estado, que uma vez efectuada, é seguida pela tomada do poder.
É neste sentido que os esforços se encaminham e não há dúvida que esta estratégia revolucionária parece ser a mais adequada às sociedades modernas, tão vulneráveis e com tantos pontos-chave. Na rota para este objectivo, de pouca relevância será o resultado das votações, porque não é aí que assenta a manobra. Muito mais importante se revelará o domínio de um jornal, a conquista de uma empresa, o controle de um bispo ou de um general, a publicação de uma revista pornográfica, a criação de um grupo de intelectuais afectos às directivas do partido.

António Marques Bessa e Jaime Nogueira Pinto in «Introdução à Política», 1977.

Portugal reconhece Urbano VI como verdadeiro Papa


Flutuava a Barca de São Pedro na direcção de dois Pilotos, arrogando cada um deles a si o governo dela: Eram estes Urbano VI e Clemente VII. E a Cristandade se achava dividida no séquito de um e outro: Os Portugueses se conservavam neutrais, posto que pela maior parte se inclinavam para Clemente. Porém, como então se achava a nossa Corte cheia de Príncipes Ingleses; cujo Rei seguia as partes de Urbano, persuadiram estes a El-Rei de Portugal que tratasse de tomar resolução em um ponto de tanta importância, para o bem e sossego das consciências dos seus Vassalos. Disputou-se logo a controvérsia com grande ardor, e finalmente assentaram os Prelados e homens mais doutos do Reino que Urbano era (como era sem dúvida) o verdadeiro Pontífice; Em consequência desta resolução, El-Rei D. Fernando e toda a Corte, neste dia [29 de Agosto], ano de 1381, lhe prometeram e juraram solenemente obediência na Catedral de Lisboa, pondo as mãos sobre uma Hóstia consagrada, estilo com que se prometiam e juravam naquele tempo as coisas de maior consideração; E logo todo o restante do Reino seguiu o exemplo de El-Rei e da Corte.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Vitória naval contra piratas turcos no Algarve


No ano de 1554 infestava a costa do Algarve um famoso Corsário, chamado Xaramet, Turco de nação, com oito Galés bem providas de chusma e soldados; Era pelo mesmo tempo General da Armada Portuguesa, que defendia as costas de Portugal, Dom Pedro da Cunha, ilustre e valeroso Cavaleiro; Saiu em demanda de Xaramet com quatro Galés e cinco velas de pouco porte, mas a fortuna do General e o valor dos soldados, supria a desigualdade do poder; Recolheu-se em um porto do Algarve, a saber notícias do inimigo, e constando-lhe do lugar onde estava, mandou despregar as velas com tanta pressa, que alguns soldados que haviam saído a terra, ficaram nela; Porém dois irmãos (que o eram no sangue e na resolução) não achando naquele flagrante, outro remédio de se poderem embarcar, se lançaram às ondas, e a nado alcançaram as Galés; Avistaram-se neste dia [27 de Agosto] as duas Armadas, em uma enseada, que chamam a carvoeira, e como a falta do vento não desse lugar a que as outras velas nossas pelejassem, se reduziu a contenda às quatro Galés Portuguesas e às oito inimigas; Puseram as proas umas nas outras, e pelas bocas dos Canhões começaram a vomitar dilúvios de fogo e ferro; Logo passaram a combater-se com armas curtas, peito a peito, como em campanha rasa: De uma e outra parte era grande a constância e o esforço: Os inimigos excediam no número, os nossos no valor; Por vezes entraram aqueles a nossa Capitania, mas outras tantas os sacudimos dela, à custa de muito sangue e mortes. Corriam a mesma fortuna e perigo as outras três Galés, pelejando cada uma com duas dos contrários. Durou o conflito muitas horas com o mesmo tesão e porfia de parte a parte; Até que se declarou a vitória pelos Portugueses, que renderam a Capitania inimiga e duas Galés mais: Uma foi metida no fundo, e todos os que vinham nela pereceram afogados; As outras quatro fugiram cobertas com a noite e alastradas de corpos mortos; Dos nossos morreram quarenta e foi muito maior o número dos feridos; Na Capitania ficou cativo o General Xaramet, e foi trazido a Lisboa, e as três Galés rendidas, cuja vista alegrou a Corte, e logo a notícia a todo o Reino; Foi recebido Dom Pedro da Cunha, e seus valerosos companheiros, com extraordinárias honras das Pessoas Reais, e singulares parabéns e aplauso da nobreza e povo, como merecia uma acção tão bizarra e tão famosa.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

São Mamede


São Mamede floresceu em tempo dos Godos, fazendo vida eremítica junto da Cidade de Tui, que naquele tempo pertencia à nossa Lusitânia: Aquela Cidade lhe tem muito singular devoção, e na Diocese se acham dez Igrejas dedicadas ao seu nome.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Prometer, Promessa


Prometer, Promessa – Correspondem exactamente a Enganar, Engano. A razão é patente ainda ao entendimento mais rude. Um ateu, que promete proteger a Religião, um ladrão, que promete a segurança das propriedades, um tirano, que promete liberdade, um orgulhoso, que assegura que todos serão iguais, é necessário inquestionavelmente ser um simplório, para não conhecer que o que ele quer é enganar.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 5, 1832.