Das obrigações morais de Amos e Criados


Das obrigações dos criados a respeito de seus amos.

P. Quais são as obrigações dos criados a respeito dos amos?
R. São quatro; porque lhes devem ter Amor, Respeito, Fidelidade, e Obediência.
P. Que casta de amor devem ter os criados a seus amos?
R. Amor, que os faça zelar os interesses da casa que lhes competem, e acudir por eles.
P. E em que consiste o respeito que lhes devem ter?
R. Consiste em lhes responder atenciosamente.
P. E qual é a fidelidade a que estão obrigados?
R. Consiste em não consentir que tenham seus amos prejuízo, nem nos bens que lhes entregam, nem nas pessoas que confiam à sua vigilância.
P. E em que estão obrigados os criados a obedecer a seus amos?
R. Em tudo o que pertence ao seu legítimo serviço, não sendo contra a Lei de Deus.

Das obrigações dos amos a respeito dos criados.

P. Que obrigações têm os amos a respeitos dos criados?
R. Devem-lhes seis coisas principais.
P. Quais são?
R. Devem-lhes o salário, o sustento, a instrução, a correcção, o bom exemplo, e a assistência.
P. Que obrigação é a do salário?
R. Eles devem pontualmente pagar-lhes o salário em que se ajustaram.
P. E será pecado retardar-lho se eles o pedem?
R. É um pecado que clama ao Céu.
P. E que casta de assistência devem os amos aos criados?
R. Devem curá-los nas suas enfermidades, e acudir-lhes com os remédios da alma e corpo, ou procurar quem os socorra.
P. E que instrução lhes devem dar?
R. A Doutrina Cristã e tudo o que é preciso que saibam para se salvarem.
P. E que correcção é a que lhes devem dar em consciência?
R. A correcção no que toca aos costumes.
P. Em que género lhes devem dar bom exemplo?
R. Não devem diante deles fazer acções más, nem dizer palavra que lhes possa ser prejudicial às suas almas.
P. E têm obrigação de fazer acções boas diante deles?
R. Devem mostrar-lhes que observam a Lei de Deus e da Igreja.

Fonte: «Catecismo da Doutrina Cristã, composto por mandado do Exmo. e Revmo. Senhor Cardeal de Mendonça, Patriarca de Lisboa», 1791.


Simão Gomes, o sapateiro santo


Simão Gomes, natural do lugar do Marmeleiro, termo da Vila de Tomar, chamado geralmente em Portugal o Sapateiro Santo, pela arte que exercitou, e pelas virtudes em que resplandeceu: Foi homem de vida inculpável, esmaltada com grandes realces de perfeição Evangélica: Os seus Mestres de espírito, sendo exemplares e sábios, achavam muito que aprender e que imitar nele: Predisse muitas coisas futuras, as quais depois confirmou o efeito: Bebia este alto conhecimento, e o dos Mistérios Divinos, e dos pontos mais dificultosos da Escritura Sagrada, na fonte da Oração, em que era contínuo, e nela recebia contínuos e soberanos favores; El-Rei Dom Sebastião, o Infante Dom Luís, o Cardeal Infante Dom Henrique, e todos os Grandes Senhores da Côrte, o tratavam com singulares estimações, a que ele fugia quanto lhe era possível: O mesmo Rei, indo ao Convento de São Roque em um dia de grande solenidade, o meteu consigo dentro da cortina, lugar que só compete aos filhos, ou irmãos dos Reis; Podendo mudar de fortuna e de estado, quis ficar sempre no da sua humildade e pobreza, julgando, e bem, que tanto melhor podia negociar com Deus, quanto mais despido estivesse das vaidades do Século; A esta vida tão santa respondeu uma preciosa morte, ilustrada de celestiais visões: Faleceu neste dia [18 de Outubro], ano de 1576. Jaz sepultado na Igreja de S. Roque [em Lisboa].

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

O Fascismo só existiu em Itália


Os autores marxistas, e toda uma gama de divulgadores pouco preocupados com o rigor classificativo, costumam incluir os regimes autoritários peninsulares dentro dos "fascismos", como variantes regionais do sistema, que nos anos vinte e trinta, se estabeleceu na Alemanha e na Itália, e deu lugar a experiências não europeias, como o Japão antes da guerra e o peronismo argentino. Por outro lado, o termo "fascista", utilizado como adjectivo, assumiu tal carga emocional, que em situações polémicas e de profundo confusionismo terminológico, se torna difícil a sua precisão. Como diz Maurice Bardèche «é-se sempre o fascista de alguém», para a direita ou para a esquerda. Estalinistas e eurocomunistas chamaram-se de fascistas, como de tal pecado se acusaram, sucessivamente, Adenauer, De Gaulle, Nixon, Kossiguine. No actual processo revolucionário português, poucos dirigentes ou grupos políticos, todos de reconhecido e comprovado passado antifascista, escaparam a tal classificação por parte dos seus adversários de momento. E souberam, generosamente, retribuir o epíteto.
Num sentido mais restrito, o qualificativo é dado a qualquer regime autoritário, ou às práticas autoritárias de qualquer regime; nesta acepção, fascista contrapõe-se a democrático. A acepção também não é muito feliz, pois a utilizá-la, descobrir-se-ia uma infinidade de regimes e práticas "fascistas", desde a União Soviética ao Portugal pós 25 de Abril, ao Brasil, a Cuba, e a quase todos os estados socialistas do chamado Terceiro Mundo. Em sentido técnico, o termo apenas se aplica à ideia ou realidade a que historicamente está associado: a experiência italiana entre 1922 e 1945.

António Marques Bessa e Jaime Nogueira Pinto in «Introdução à Política», 1977.

O processo de canonização


Ninguém, por santo que seja, mesmo fazendo milagres, pode ser canonizado durante a vida, porque, sujeitos às fraquezas humanas, aqueles que hoje estão de pé, podem cair amanhã. São Paulo avisa-nos com muita razão que aquele que julgar estar de pé, tome cuidado para não cair. (I Cor., X, 12).
É preciso, pois, morrer antes... porém, não é a morte que traz a santidade, mas sim a vida que deve dá-la...
É durante a vida que o homem deve praticar as virtudes que fazem os santos.
Morrendo uma pessoa, com reputação de virtude extraordinária, a Igreja, com uma prudência consumada, não permite que seja logo considerada, nem invocada como santa.
Ela exige que o santo demonstre, ele mesmo, do alto do Céu, a virtude da sua vida, fazendo milagres... ou melhor, a Igreja espera que Deus manifeste a santidade de uma pessoa, comunicando-lhe o DOM DE MILAGRES.
E fazendo milagres, uma pessoa é canonizada, santa?
Nada!... é apenas a entrada, é o primeiro passo.
Fora os casos excepcionais, nenhum santo é canonizado antes de 50 anos depois de morto; a Igreja quer provas, provas palpáveis e irrefutáveis.
E aqui começa o processo de canonização, processo longo, minucioso, rigoroso.
Primeiro, a Igreja ordena ao bispo do lugar que organize um Tribunal Diocesano.
Este tribunal recolhe todos os documentos deixados pelo finado, interroga os sobreviventes, examina os escritos, verifica os factos e os milagres, examina a heroicidade das virtudes praticadas, e, após anos de indagações e de investigações, recolhe todos os documentos pró e contra, e remete-os a Roma.
Uma comissão de cardeais e teólogos é nomeada pelo Soberano Pontífice para examinar os escritos, as virtudes e os milagres do servo de Deus.
Passam-se meses e anos.
Tudo é examinado e discutido.
Havendo factos sólidos e virtudes extraordinárias, a comissão nomeia o advogado ou defensor da causa e o seu contraditor.
Ambos fazem um estudo sobre os três pontos em questão: DOUTRINA, VIRTUDES, MILAGRES, porém, fazem-no num sentido oposto.
O DEFENSOR procura provar a ortodoxia da doutrina do servo de Deus, as suas virtudes e o valor dos milagres feitos por ele, depois da morte.
O CONTRADITOR, sempre apoiado sobre os documentos, procura rebater as asserções do primeiro e mostrar o lado fraco da doutrina, das virtudes e dos milagres aduzidos.
Após várias reuniões, em presença de teólogos e outros sábios, a questão é resolvida favorável ou desfavoravelmente.
Averiguando-se a absoluta ortodoxia da doutrina, a heroicidade das virtudes praticadas, o servo de Deus sai vencedor no primeiro exame.
Averiguando-se a certeza absoluta de um milagre, provado, autêntico, a Igreja proclama o servo de Deus: VENERÁVEL.
Depois disso, espera-se mais uns anos.
Havendo outros milagres, ficam submetidos ao exame e às discussões da comissão, e averiguado mais outro milagre, provado, autêntico, o venerável recebe o título de BEM-AVENTURADO [BEATO].
Novamente demora-se alguns anos...
Se o bem-aventurado continuar a fazer milagres, a comissão examina-os de novo, com o mais extremo rigor, e sendo o TERCEIRO MILAGRE provado autenticamente, o Soberano Pontífice lavra o decreto definitivo de canonização.
Usando de seu privilégio de infabilidade, pela assistência do Espírito Santo, ele proclama a absoluta rectidão de doutrina, a heroicidade das virtudes e a autenticidade pelo menos de três milagres, dando ao bem-aventurado o título glorioso de SANTO.
Eis como a Igreja canoniza os santos.

Pe. Júlio Maria de Lombaerde in «O Cristo, o Papa e a Igreja», 1940.

§

Algumas duras realidades que importa ter em mente e sem as quais caímos numa floresta de enganos:
1. Sem o cumprimento dos requisitos católicos obrigatórios num processo de canonização, não existe verdadeiramente uma canonização. O que significa que, pelo incumprimento dessa obrigatoriedade, as "canonizações" feitas desde o Papa Paulo VI foram uma mera aparência de canonização, não estando os novos "santos" realmente canonizados.
2. Pelo gradual avanço do estado de apostasia geral na Igreja Militante, a Santa Sé, desde o Papa Paulo VI, não está mais em condições de realizar um autêntico processo de canonização, uma vez que não está mais em condições de avaliar catolicamente questões de doutrina, de virtudes, e de milagres. Ninguém, por mais santo que seja, nas circunstâncias actuais, será realmente canonizado.
3. Estas supostas "canonizações" não entram no âmbito da infalibilidade papal, uma vez que, conforme foi definido dogmaticamente no Concílio Vaticano I, a assistência do Espírito Santo não foi prometida aos sucessores de São Pedro para que estes manifestem novas doutrinas (neste caso, novas doutrinas de santidade), mas sim para que guardem e defendam fielmente o mesmo depósito de fé que foi transmitido pelos Apóstolos (cf. Pastor Æternus, 18 de Julho de 1870).

Aos Portugueses


Os inimigos da ordem são inimigos de Deus; porque Deus é o autor e conservador de toda a ordem: A facção liberal ou maçónica foi produzida, segundo ela mesma declara, pelos Judeus, e propagada pelos obstinados que viram e não creram os milagres de Jesus Cristo! Esses desgraçados Judeus foram os instrumentos de que se serviu o espírito das trevas para pôr em dúvida os mistérios da Redenção; logo, a facção liberal é agente das maquinações de Lúcifer; e logo, é inimiga imediata das obras de Deus na Terra: portanto, pertence ao mesmo Deus destruí-la e não permitir que os homens defendam as suas obras, nem que as providências humanas cheguem a confundir os ímpios; porque essa permissão negariam os ateus, e tirariam dela argumentos para atribuir tudo às diligências dos homens, e declamarem da existência e poder de Deus. Pertence à Justiça Divina punir a obstinação dos materialistas, porque a obstinação dos materialistas é um crime directo contra a Divindade. Pertence ao mesmo Deus patentear o Seu poder, depois de não haver algum poder humano capaz de resistir à facção maçónica! Tremendíssimo será o castigo, porque os soberbos o provocam! Maravilhoso para os homens, e glorioso para Deus, será o fim dessa espantosa luta! Humilhem-se, prostrem por terra os bons Portugueses: Já que a Divina Providência, por mui assinalados factos, os tem favorecido com especialidade desta especial distinção da Providência: tratem de continuar a merecer a mesma graça: permaneçam fiéis aos seus deveres sociais: cumpram as obrigações de católicos e de vassalos: intimem continuadamente a seus filhos o amor a essas mesmas obrigações: transmitam-lhes este Opúsculo como infalível preservativo do infernal veneno revolucionário: abominem todos os dias os inimigos de suas instituições, porque esses inimigos todos os dias trabalham por subvertê-las: e Deus, que segundo o solene juramento do primeiro Rei de Portugal, foi o autor dessas sábias instituições, será também, como até agora tem sido, o seu adorável defensor. Deus, que por visíveis prodígios livrou a Monarquia Portuguesa de naufragar na revolução parcial, a livrará também por estupendas maravilhas de ser destruída na revolução geral! Deus fortalecerá os Portugueses, e permitirá que sejam aqueles poucos escolhidos para extirpar a malvada facção maçónica, que por ser produção indirecta, e agente directo do espírito das Trevas, é inimiga jurada de Deus, dos Reis e dos Povos.

Faustino José da Madre de Deus in «Os Povos e os Reis», 1825.

As origens judaicas do Pai da República "Portuguesa"


– E Afonso Costa também é judeu?
– Sim, e directo representante de judeus, e representante directo da República, e representante de Portugal lá fora! Afonso Costa, filho do Dr. Sebastião da Costa, ambos naturais da Vila de Seia. Averiguei, numa tarde que por lá passei, serem descendentes em linha recta do escrivão de almotaçaria em Seia, Pêro da Costa, cristão-novo, sentenciado na Inquisição de Coimbra à pena máxima, o relaxamento em pessoa, após alguns anos de prisão. Foi um dos falsos mártires do Judaísmo, um dos mais integérrimos. Ardeu em 1636 por herege, apóstata, negativo e pertinaz. O processo-crime jaz na Torre do Tombo, número 6633, Inquisição de Coimbra.
É interessante lembrar que a angústia desta espécie de Rabi da Vila de Seia teve princípio num dia 5 de Outubro e na mesma idade com que o Dr. Afonso Costa, símbolo da República, se encontrava a 5 de Outubro de 1910, vingando a afronta de trezentos anos de Inquisição.
«Coisas do destino», dizia-me ontem o Rabi Samuel Mucznik, «é notório cá entre nós israelitas, que naquela mesma noite que precedeu a Revolução de 5 de Outubro, Afonso Costa chegava a uma eminência de Lisboa e antes de soltar um sinal convencional, brandira no ar um facho vermelho e outros cabalísticos sinais em memória da Inquisição vencida!»

Mário Saa in «Portugal Cristão-Novo ou Os Judeus na República», 1921.

São Francisco de Assis em Portugal


O Seráfico Padre São Francisco, que neste dia [4 de Outubro] celebra a Igreja Católica, também pertence a este Diário Português, porque também Portugal foi teatro de suas maravilhas. Veio aquele grande Patriarca a este Reino no ano 1214. Entrou na Cidade da Guarda, passou à Vila de Guimarães, onde ressuscitou uma defunta, filha de um devoto que o recolheu, e prometeu mandar fundar Convento na mesma Vila. Nela falou à Rainha Dona Urraca, mulher d'el-Rei Dom Afonso II de Portugal. Passou a Braga e Ponte de Lima. Entrou na Galiza e visitou em Compostela o corpo do Apóstolo São Tiago. Depois tornou segunda vez a entrar em Portugal por Bragança, onde prégou, e à instância de seus moradores, fundou um Convento, para o qual deu o sítio a nobre família dos Morais.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

D. Afonso Henriques e a Ordem de S. Miguel da Ala


Feito isto, entendendo o bom Rei a dívida grande em que a Deus estava, pelo benefício presente, lhe deu as graças, e com demonstração particular, gratificou um favor extraordinário do Céu, que nesta ocasião experimentou; e foi este. Andando o valeroso Rei no mais fervoroso na batalha, se viu a seu lado um braço com asa, pelejando com espada, que se julgou assistência do glorioso Arcanjo São Miguel, a quem se encomendara, favorecendo-o e abrigando-o o Céu com este socorro, como outra vez o fizera a Judas Macabeu na perigosa batalha em que venceu a Timóteo. Reconhecido el-Rei Dom Afonso disto, dizem que instituiu uma cavalaria com a insígnia da asa, que é sinal com que pintam os Anjos, e daqui se intitulou a Cavalaria, ou Ordem da Ala, ou Asa: não permaneceu muito, porque nem todas as coisas bem ordenadas alcançam perpetuidade.

Frei António Brandão in «Terceira parte da Monarquia Lusitana: Que contém a História de Portugal desde o Conde Dom Henrique, até todo o reinado d'El-Rei Dom Afonso Henriques», 1632.

§

Relembro que, por Tradição, São Miguel Arcanjo é o Anjo Custódio do Reino de Portugal.

618º aniversário natalício do Infante Santo


Neste dia [29 de Setembro], ano de 1402, nasceu em Lisboa o Infante Dom Fernando, filho dos gloriosos Reis Dom João I e Dona Filipa. Havia padecido a Rainha uma grande doença, quando o trazia no ventre, e entendendo os Médicos que no parto perigaria a sua vida, intentaram o aborto do feto, posto que já então o supunham animado, mas a virtuosíssima Princesa o não consentiu, e resolveu constantemente que queria morrer, a troco de que a criatura que trazia nas entranhas conseguisse, por meio do baptismo, a eterna felicidade; Pagou-se o Céu tanto desta piedosa e valerosa resolução, que sem grave moléstia, pariu um belíssimo Infante; Feliz pela alteza do nascimento, e muito mais pelas prendas e virtudes, de que depois deu singulares provas na vida, e ainda mais singulares e mais ilustres na morte, como em outro lugar dizemos.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

28 de Setembro: São Venceslau da Boémia


Venceslau, duque da Boémia, praticou sempre no trono as mais belas virtudes cristãs. Cheio de caridade, socorria com as suas esmolas, os órfãos, as viúvas, e os pobres, libertava os cativos e visitava os prisioneiros. Durante toda a sua vida conservou intacto o tesouro da virgindade. Tinha para com os sacerdotes grande veneração, e, com as próprias mãos, semeava o trigo e espremia as uvas destinadas a servir no Santo Sacrifício da Missa. Entretanto, à instigação de sua mãe, o ímpio Boleslau, realizando o que anunciara Jesus «que o homem terá por inimigos os da sua própria casa», resolveu desfazer-se do duque, seu irmão. Depois de havê-lo recebido à sua mesa, foi com uns cúmplices matá-lo na igreja onde orava, esperando a morte que sabia estarem-lhe preparando. São Venceslau morreu em 938. A Hungria, a Polónia e a Boémia escolheram-no por padroeiro.

Fonte: «Missal Quotidiano e Vesperal», 1940.

O dever moral de regressar ao campo


Há 41 anos Monsenhor Lefebvre deixava-nos um sério aviso. Mas hoje as coisas estão piores:

E desejo que, nestes tempos conturbados, nesta atmosfera deletéria em que vivemos nas cidades, vós retorneis à terra assim que possível. A terra é saudável, a terra ensina a conhecer Deus, a terra reaproxima de Deus, ela equilibra os temperamentos, os caracteres, ela incentiva as crianças ao trabalho.
E se necessário, vós próprios fareis a escola dos vossos filhos. Se as escolas corrompem os vossos filhos, o que vão fazer? Entregá-los aos corruptores? Àqueles que ensinam práticas sexuais abomináveis na escola? Às escolas "católicas" de religiosos e religiosas onde o pecado é ensinado, sem mais nem menos? Na prática, ao ensinar isso às crianças, eles corrompem-nas desde cedo. E vós aceitais isso? É impossível! Melhor será que os vossos filhos sejam pobres, melhor será que os vossos filhos vivam longe de toda esta ciência aparente do mundo, mas que sejam bons filhos, filhos cristãos, filhos católicos, filhos que amem a sua santa religião, que amem rezar e que amem trabalhar, que amem a natureza que o bom Deus fez.

Mons. Marcel Lefebvre in «Sermão do Jubileu Sacerdotal», 23 de Setembro de 1979.

Falácia do falso dilema


Chama-se falso dilema à falácia lógica que impõe ao interlocutor a escolha de uma entre duas falsas alternativas. Esquema:

– Ou alternativa A, ou alternativa B.
– Se a alternativa A é falsa.
– Então, a alternativa B é verdadeira (ou vice-versa).

Também conhecida como falsa dicotomia, esta falácia distorce e enviesa a realidade, colocando a pessoa entre a espada e a parede, numa escolha obrigatória entre duas falsas opções.

De como eram ilegais os maus-tratos a escravos


Por morte do Bispo Dom Pedro Leitão, veio o Bispo Dom António Barreiros, que havia sido Dom Prior de Avis, a governar este Bispado do Brasil; era homem benigno, esmoler, e dotado de muitas virtudes; mas não era chegado de muitos dias, quando se ofereceu uma ocasião de diferenças, e desgostos, entre ele e o governador Luís de Brito; a ocasião foi esta:
Havia nesta terra um homem, aliás honrado e rico, chamado Sebastião da Ponte, mas cruel em alguns castigos, que dava a seus servos, fossem brancos ou negros; entre outros chegou a ferrar um homem branco em uma espádua com o ferro das vacas, depois de bem açoitado; sentido o homem disto, se embarcou e foi para Lisboa, onde esperando uma manhã a El-Rei, quando ia para a capela, deixou cair a capa, que só levava sobre os ombros, e lhe mostrou o ferrete, pedindo-lhe justiça com muitas lágrimas.
Informado El-Rei do caso, escreveu ao Governador que mandasse preso, e a bom recado ao Reino, o dito Sebastião da Ponte.
Teve ele notícia disto, e acolheu-se a uma ermida de Nossa Senhora da Escada, que está junto a Pirajá, onde o réu então morava: demais disto chamou-se às ordens, dizendo que tinha as menores, e andava com hábito e tonsura, porque não era casado, pelas quais razões deprecou o Bispo ao Governador não o prendesse, mas não lhe valeu, começou logo a proceder a censuras, e finalmente chegou o negócio a tanto, que houveram de vir às armas, correndo com elas o povo néscio e inconstante, já ao Bispo com o temor das censuras, já ao Governador com o temor da pena capital, que ao som da caixa se publicava, e o que mais era, que ainda depois de todos acostados ao Governador, seus próprios filhos, que estudavam para se ordenarem, com pedras nas mãos contra seus pais, se acostavam ao Bispo e a seus clérigos e familiares.
Porém, enfim, Jussio Regis urgebat, e se mandou o preso ao Reino, como El-Rei o mandava, onde foi metido na prisão do Limoeiro, e nela acabou como suas culpas mereciam.

Frei Vicente do Salvador in «História do Brasil», 1627.


14 de Setembro: Nossa Senhora da Nazaré


Dom Fuas Roupinho, celebrado herói Português, saindo neste dia [14 de Setembro] à caça, ano de 1182, junto à costa do mar, para a parte onde hoje se vê situada a Vila da Pederneira, se lhe representou diante um veado de disforme grandeza, que o sucesso mostrou que era Demónio; Arremessou logo o cavalo em seu alcance, e o foi seguindo a rédea solta: Era o dia de névoa e não se deixava bem ver o caminho; Eis que se acha de repente na última ponta de um rochedo de altura tão espantosa, que se despenha até ao mar por espaço de duzentas braças: Estava já o cavalo com as mãos no ar, dando princípio à fatal ruína; Neste transe (que até considerado causa horror) invocou Dom Fuas o auxílio da Mãe de Deus, e com assombrosa maravilha ficou o cavalo suspenso e detido um breve instante, e dando volta por impulso superior, se furtou ao precipício. Venerava-se ali, em pobre Ermida, uma Imagem da Senhora com o título de Nazaré, que El-Rei Dom Rodrigo [último Rei dos Visigodos], na perdição de Espanha, acompanhado de um Santo Monge chamado Romano, trouxeram para aquela solidão. O devoto e agradecido Cavaleiro lhe mandou logo edificar mais nobre casa, que depois, correndo os tempos, veio a ser um dos mais insignes Santuários da Cristandade.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Os maus que se atraem mutuamente


Direi apenas uma coisa sobre os maus rapazes, que pode parecer pouco provável, mas que acontece exactamente da maneira que vou descrever.
Digamos que entre os 500 alunos de uma escola, haja um que leva uma vida depravada. Um dia chega um novo aluno que também está viciado. Ambos provêm de diferentes regiões e províncias, e até têm diferente nacionalidade. Eles estão em diferentes classes e em diferentes lugares; eles nunca se viram e nem se conhecem.
Bem, independentemente de tudo o que disse, no segundo dia, ou talvez algumas horas após a sua chegada, vê-los-emos juntos durante o recreio. Parece que um espírito maligno permite descobrir o outro afectado pelo mesmo vício, como se um íman diabólico os tivesse atraído para estabelecer uma amizade íntima. O ditado «aves da mesma plumagem voam juntas» é uma maneira fácil de detectar ovelhas ronhosas antes que elas se convertam em lobos rapaces.

São João Bosco in «Biografia y Escritos de San Juan Bosco», 1955.

Reis de Espanha ou Reis de Leão e Castela?


Irei nomeando sempre a este Príncipe Rei de Castela; e não pareça que me abstenho de lhe dar título de Rei de Espanha sem fundamento; porque enquanto houve Reis nesta Coroa, nunca deram tal título aos Reis daquele Reino, intitulando no sobrescrito, até ao Imperador Carlos V, Rei de Castela somente: porque logo que Alexandre VI concedeu este título a el-Rei Dom Fernando, o Católico, se reclamou em Portugal: e ainda que confirmado depois por Leão X a Carlos V, não consentiram em tal coisa os Reis deste Reino, sentidos justamente do agravo que se lhes fazia em dar título de Reis de Espanha absolutamente a seus vizinhos, sendo que é Portugal uma parte tão principal de Espanha.
Mais, razão mostraram os Reis de Castela em contrariar aos Pontífices dar título de Rei de Toscana ao Duque de Florença, por serem eles senhores do lugar de Piombino naquele Estado, e por respeito deste lugar que ali possuem, contendem que a aquele Príncipe se não dê nome de Rei da Toscana, senão Rei na Toscana. Quanto é mais um Reino, e tal Reino como o de Portugal, que um lugar limitado, qual Piombino, tanto mais razão temos os Portugueses de não aprovar este capricho dos Reis de Castela, e não lhe conceder nunca o título de Reis de Espanha, maiormente em ocasião que se lhe desuniu a Coroa de Portugal e se restituiu a V. Majestade; e o Cristianíssimo Rei de França, Luís XIII, está jurado Conde de Barcelona, cabeça do Principado da Catalunha, outra porção de Espanha tão considerável. El-Rei de Leão e Castela Dom Afonso VI se fez chamar Imperador das Espanhas, porém o Conde de Barcelona Dom Ramon Berenguer, seu sogro, se intitulou Marquês das Espanhas para mostrar que, em Província aonde havia dois senhores independentes, não podia um deles presumir título em que ficasse incluído o Estado do outro: e quando um quisesse ampliar o título, ficava lugar ao vizinho para a mesma ampliação. Hoje é el-Rei Cristianíssimo Conde de Barcelona: quem impedirá dar-se título de Conde das Espanhas, vendo que el-Rei de Castela conserva o título de Rei de Espanha, sendo ele legítimo Senhor da Catalunha? Quem notará também a Vossa Majestade intitular-se Rei (se quiser) de Espanha, aonde o Reino de Portugal está situado. O Bispo de Palência, D. Rodrigo Sanches, trabalhou quanto pôde por persuadir que nos Reis de Leão e Castela andava direitamente o título de Reis de Espanha, mas foi com tão pouco fundamento, como o que teve António de Nebrissa para atribuir aos Castelhanos o nome de Espanhóis, que qualquer das outras nações de Espanha pode aplicar a si quando não queira usar do próprio e particular de cada Província. Costumou a nação Castelhana a introduzir-se tanto no alheio, que é razão, quando o desapossarmos dos Reinos, lhe não fique por restituir o título e apelido que lhe não é próprio; antes vai mostrando o tempo que lhe sucede a el-Rei de Castela o que a Suvatislão, Rei de Moscóvia, que sem causa quis ocupar a Grécia e foi a causa de ficar perdido, mandando-lhe o Príncipe Cures por esta letra: BUSCANDO O ALHEIO PERDEU O PRÓPRIO. Quarendo aliena propria amicit: em perder este Reino, que tinha usurpado, e dando lugar a V. Majestade ser restituído, nos ocasionou o primeiro dia de boa dita.

Frei Francisco Brandão in «Discurso gratulatório sobre o dia da feliz restituição e aclamação da Majestade d'el-Rei D. João IV N. S.», 1642.