D. João V e o fim de uma epidemia em Lisboa


Neste dia [23 de Janeiro] e nos dois seguintes, do ano de 1724, recitou o Padre Dom Rafael Bluteau, Clérigo Regular da Divina Providência, três Orações gratulatórias na Igreja da sua Casa de Lisboa, a que assistiu El-Rei Dom João V, nosso Senhor, com grande concurso de nobreza e povo, pela mercê que Deus, nosso Senhor, fez a Lisboa em suspender o flagelo de uma epidemia, que havia principiado na quadra do Outono do ano antecedente; e sem dúvida se ateara muito se El-Rei, nosso Senhor, saísse de Lisboa com toda a Casa Real, como muito o persuadiam; a que resistiu com ânimo de coração verdadeiramente Real e paterno, dizendo que antes queria morrer com seus Vassalos naturais, do que desempará-los e deixar de lhes acudir; como fez com a maior caridade, liberalidade e grandeza, que se podem considerar, mandando distribuir pelos Párocos grandes somas de dinheiro, pelas Freguesias, Médicos e Cirurgiões, e pelas casas de todos os necessitados, enfermeiros e enfermeiras, e tudo o de que podiam necessitar de víveres, de comodidades, de mantimentos, de remédios e regalos. Feliz Reinado, em que o Rei governa como Rei, como pai e como homem!

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Descoberta de São Vicente no Brasil


No mesmo dia [22 de Janeiro], descobriu Martim Afonso de Sousa aquela parte da nova Lusitânia, chamada de São Vicente, por causa do Santo, que no mesmo dia se festeja. El-Rei Dom João III a deu ao mesmo Martim Afonso, e hoje anda na casa dos Marqueses de Cascais. Está situada quase debaixo do Trópico Austral, com porto acomodado para navios grandes, e quatro importantes povoações, São Paulo, Nossa Senhora da Conceição, Santos, e São Vicente, da qual toma o nome toda a Província. Só esta, entre as mais, goza do mesmo clima de Espanha [Península Ibérica], sem outra diferença mais, que mudar-se o Verão para o tempo do Inverno. É abundante de searas de trigo, vinhas, pomares e flores, além dos outros frutos do Brasil, que produz com a mesma perfeição que as outras, e delas se pode chamar com muita propriedade, o celeiro e despensa universal. Aqui se achou o modo de fazer o açúcar, e aqui se acharam primeiro as canas, planta que inundou utilissimamente por todo o Brasil; Aqui finalmente se descobriram as minas de ouro, que também inunda em uma e outra Lusitânia.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Pior do que ver maçons em todo o lado...


Mais grave erro do que «ver franco-mações em toda a parte», é não os ver em parte nenhuma. Se a acção oculta da Maçonaria não explica toda a História, desde há quase dois séculos, todavia não é desde então explicável a História, sem o prévio conhecimento da Maçonaria e da sua actividade oculta.

Jacques Ploncard d'Assac in prefácio a «Três Estudos Políticos», 1956.

Vitória de Duarte Pacheco Pereira contra os Franceses


Pelos anos de 1509 infestava um Corsário Francês, chamado Mondragon, as costas deste Reino, com quatro Fragatas, e havia feito graves danos. Mandou El-Rei Dom Manuel, com outras tantas velas, a Duarte Pacheco Pereira (cuja pessoa e nome, ainda então eram o emprego da fama, como, pouco depois, foram o despojo da inveja) em busca do Corsário, e encontrando-se com ele, na altura do Cabo, chamado de Finis terrae, se travaram furiosamente, e depois de um bem disputado combate, metida no fundo uma das Fragatas inimigas, rendidas as três, e prisioneiro o mesmo Mondragon, entrou Duarte Pacheco vitorioso em Lisboa logrando os aplausos, que merecia por acção tão ilustre, a qual sucedeu neste dia [18 de Janeiro], no ano acima referido.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

André de Albuquerque


Foi André de Albuquerque um dos Varões mais excelentes deste apelido, e um dos Capitães mais valerosos de seu tempo. Desde a primeira idade militou na América, depois na Europa, e dos postos inferiores subiu aos mais altos, pelos degraus do valor, não da valia. O largo exercício da guerra o fez insigne na disciplina militar, sabia melhor que todos mandar com acerto, e obedecer com prontidão. Alternava extremos de afável e severo, de modesto e altivo, regulando os afectos à proporção dos casos e das pessoas. Amava com extremo aos soldados valerosos, não sofria aos fracos. Em todas as facções em que se achou, deu singulares provas de valor. Na batalha referida das Linhas de Elvas, se excedeu a si mesmo. No maior fervor dela, vendo que um dos nossos esquadrões, que havia atacado um forte, começava a vacilar, se lançou diante, e tocando com a bengala nas estacas, advertiu aos soldados o modo de arrancá-las; Então lhe acertou uma bala pelos peitos, de que caiu morto, mas será imortal nos Anais Portugueses a glória do seu nome.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Breve discurso contra a herética perfídia do Judaísmo


INDEX DOS CAPÍTULOS QUE CONTÉM ESTE DISCURSO.
Capítulo I. Da definição da santa Fé Católica e de como Jesus Cristo, Salvador nosso, é o verdadeiro Messias vindo ao mundo.
Capítulo II. De como Deus, nosso Senhor, é pai verdadeiro dos Católicos Cristãos e a Igreja Santa, Sua Esposa, Mãe pelo conseguinte somente dos fiéis.
Capítulo III. Da grande e antiga nobreza da geração Hebreia e dos três nomes que tiveram, Hebreus, Israelitas e Judeus.
Capítulo IV. Da razão porque os Judeus estão em desgraça de Deus e de como a observância da Lei de Moisés Lhe não é agradável agora.
Capítulo V. De alguns dos castigos com que o Senhor tratou de reduzir os Israelitas, a saída do Egipto, vida e morte de Moisés.
Capítulo VI. Dos governos principais que teve o povo Hebreu, os cativeiros de Babilónia e algumas outras coisas sucedidas aqueles dias.
Capítulo VII. Da vinda de nosso Salvador ao mundo, da conveniência de Seu santíssimo nome e de Sua morte em Jerusalém pelos Judeus.
Capítulo VIII. Do gravíssimo pecado que os Judeus cometeram na morte de Jesus Cristo e de como por ele têm todas as presentes misérias.
Capítulo IX. De alguns dos trabalhos que os Judeus padeceram depois da morte de Jesus Cristo, com os sucessos maiores da destruição de Jerusalém por Tito.
Capítulo X. Do grandíssimo ódio que os Judeus têm a nosso Salvador Jesus Cristo, a Suas imagens e a todos os Cristãos geralmente, e em particular ao Tribunal do Santo Ofício e a seus ministros, e de alguns graves insultos feitos em prova desta verdade.
Capítulo XI. De como os Judeus foram lançados de quase todos os Reinos Cristãos por gravíssimas culpas que cometeram neles.
Capítulo XII. De como os Judeus entraram em Portugal e dos concertos com os Reis dele sobre sua saída.
Capítulo XIII. Do primeiro tribunal do Santo Ofício que houve nos Reinos de Castela e de como teve princípio neste de Portugal.
Capítulo XIV. Da razão porque os baptizados Hebreus se chamam Cristãos-novos e se penitenciam com sambenitos os que apostatam da Fé.
Capítulo XV. De como os Hebreus não têm de presente honra ou nobreza alguma, e a grande que tinham, perderam na morte de Jesus Cristo.
Capítulo XVI. De como os Judeus são também idólatras e Sodomitas.
Capítulo XVII. De como quase todos os pecados são originários nos Judeus e os herdaram em seus maiores.
Capítulo XVIII. De como os Judeus são defeituosos e assinalados em muitas coisas, em castigo de sua perfídia.
Capítulo XIX. De como as primeiras e principais perseguições da Igreja, assim corporais como espirituais, foram pelos Judeus e por eles o há-de ser também a última do Anticristo.
Capítulo XX. De algumas das muitas coisas guardadas entre o Judaísmo deste Reino, em ordem a sua conservação.
Capítulo XXI. De como convém a este Reino a expulsão dos delinquentes Hebreus em nossa santa Fé, e dos que, se não estão convencidos, têm contudo provas bastantes para desterro, com suas mulheres e filhos, para outros fora dos de sua Majestade.
Capítulo XXII. Em que se trata com convém e é necessário para o bem temporal deste Reino a expulsão dele dos Hebreus Judaizantes.
Capítulo XXIII. De como convém e é necessário fazer esta expulsão e para que partes e Reinos.
Capítulo XXIV. De como convém, é útil, proveitoso e necessário desterrar com os pais apostatas os filhos e mulheres, e os que não estando claramente convencidos têm contudo prova bastante para desterro.
Capítulo XXV. Como se suposto que tudo o dito convém, é útil e necessário, se se poderá fazer com justiça.
Capítulo XXVI. De como convém a este Reino a sobredita expulsão dos apostatas Judeus por prudência de estado.
Capítulo XXVII. De como por razão de estado convém a expulsão dos Hebreus judaizantes dos Reinos de Portugal.

Descobre-se uma conjuração contra o Mestre de Avis


No mesmo dia [8 de Janeiro], ano de 1385, se descobriu uma conjuração que se havia urdido entre grandes personagens contra o Mestre de Avis, Dom João, depois Rei. O Reino o elegera defensor, e dos Fidalgos, que concorreram para a mesma eleição, houve alguns que depois se deixaram vencer da inveja ou da cobiça. Não podiam sofrer a felicidade com que as coisas caminhavam para exaltação do Mestre de Avis ao Trono Real: Nem tinham resolução para rejeitarem as grandes promessas que lhe fazia El-Rei de Castela; a uma e outra bateria se renderam o Conde Dom Gonçalo Telles, irmão da Rainha Dona Leonor: Dom Martinho, filho do mesmo Conde: Dom Pedro, Conde de Trastâmara: Dom Pedro de Castro: João Afonso Beça: Ayres Gonçalves: Garcia Gonçalves Valdez, e começaram a dispor por vários modos a traição; mas sendo descoberta neste dia, no mesmo foram uns presos, outros fugiram, e o último dos que acabamos de nomear (em quem devia ser maior a culpa e mais provada) foi condenado à morte e queimado em praça pública. Assim preservou o Céu de tão evidente perigo a vida daquele Católico e excelente Príncipe; o qual (sendo já Rei) mandou pôr em liberdade os Fidalgos que estavam presos pelo mesmo delito: Porque não era decoro à Majestade vingar El-Rei de Portugal as ofensas feitas ao Mestre de Avis.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Os três Reis Magos


Os Magos deram presentes ao Senhor. O primeiro terá sido Melchior, homem velho, de cabelo grisalho e barba comprida... ofereceu ouro ao Senhor como a um Rei. O segundo, de nome Gaspar, jovem imberbe e de pele rosada... honrou a Sua divindade pela oferta de incenso, uma oblação digna de Deus. O terceiro, de pele escura e barba espessa, chamado Baltazar... ofereceu mirra, reconhecendo que o Filho do Homem haveria de morrer.

São Beda in «Excerpta et Collectanea», 1563 (póstumo).

O irrealismo profundo dos "intelectuais"


Por essas e por outras é que sempre aconselho aos jovens intelectuais a prática de trabalhos manuais. Aprendam a consertar torneiras, a descobrir curto-circuitos e assim terão um exercício de docilidade ao real. Não é só com a cabeça que o homem pensa, é também com as mãos. É preciso nunca ter mudado um fusível, ou nunca ter pregado um botão nas calças, para chegar ao irrealismo profundo dos "intelectuais" que trazem os seus brilhantes talentos para pronunciamentos que deveriam versar sobre coisas simples, como o pão e a água, e por excesso de categorias mentais, deixam de ver o elefante, o piano e outras coisas mais volumosas.

Gustavo Corção in jornal «O Globo», 29 de Agosto de 1970.

Os Sebastianistas


Todos os homens de siso se agastam e enjoam até de ouvir falar em Sebastianistas, e têm razão. Na História universal da Demência humana, ainda não apareceu, nem aparecerá, um delírio semelhante. Custa a compreender como se haja podido arraigar e dilatar esta pueril credulidade, que se pode ter alguma desculpa nos anos próximos à morte e fatal desventura do Augustíssimo Senhor Rei D. Sebastião, que santa glória haja, é impossível que a encontre agora diante do Tribunal da Razão. Esta importuna Seita reverdeceu na entrada dos nossos pérfidos Opressores [Invasões Francesas]; e com um furor estúpido, de que me parecia não eram capazes os Portugueses, começou a apropriar certas trovas cediças, importunas, baixas, a El-Rei D. Sebastião e a Bonaparte, objecto novo e nunca encontrado, ou designado nos anais Sebásticos. Por mais que o tempo, os sucessos e a boa razão desmintam a Seita, se multiplica com uma teima tal, que obrigou a lançar por escrito as seguintes reflexões. Tudo o que pertence às trovas, seus autores e aplicadores, se acha com exuberância na douta Obra – Dedução Cronológica e Analítica – Os livros que os Sebastianistas citam, como Profecias do Bandarra, Restauração de Portugal prodigiosa, Vida do Sapateiro Santo Simão Gomes, se acham condenados e proscritos pela Real Mesa Censória. O rectíssimo Tribunal do Santo Ofício condenou muitos dos fautores e assoalhadores das supostas Profecias, como Réus que atentaram contra a majestade e santidade da Religião. Por estes motivos, e pela obrigação de bom Patriota, o que tenho feito conhecer por escritos, e de viva voz em sagrados discursos ao Povo, e o atestarei com a vida, sendo preciso para conservação e defesa da nossa Pátria, da nossa Religião, e do nosso Monarca, julguei conveniente desabusar esta Seita de crédulos, que na verdade são prejudiciais à pública segurança, e defesa do Reino, enquanto fiados nas ridículas Profecias permanecem indolentes para tudo: declarando que não é meu intento ofender e ultrajar pessoa alguma em particular, não só por motivo da caridade Cristã; mas porque quem escreve, só deve – Parcere personis, loqui de vitiis.

Pe. José Agostinho de Macedo in prefácio a «Os Sebastianistas», 1810.

§

O messianismo político do Judeu levou à degeneração da antiga religião Mosaica em Farisaísmo, e mais tarde à criação de novas formas de messianismo redentor temporal, como é o caso do Sionismo e do Comunismo. Pela sua essência messiânica terrenal, parece-nos que o Sebastianismo e o mito do 5º Império, são também excrescências judaicas típicas de cristãos-novos portugueses, que, apesar de convertidos, conservaram certos elementos mentais judaicos. Fernando Pessoa deve ser o melhor exemplo de cristão-novo sebastianista.

Natal


Todo o lar cristão deveria ter o seu presépio, em torno do qual fossem recitadas nesses dias as orações da manhã e da noite. As crianças compreenderiam assim (nessa época de alegria, tão apropriada à infância) que devem associar-se a esses pequenos pastores e a esses magos, para adorar o pequeno Jesus, o Deus-Menino, deitado sobre a palha, e honrar a Sua Mãe e o Seu Pai adoptivo, que o contemplam de joelhos.
Os alegres cânticos de Natal a nos recordarem a cândida alegria dos pastores na noite santa, a árvore de Natal, onde o indigente, representando o Cristo que nasceu pobre no presépio, pode aproveitar de uma generosa distribuição de objectos úteis, o bolo dos Reis, no qual tem ele também a sua parte – a parte de Deus – e onde o Rei da fava honra, pela sua realeza de um momento, a realeza dos Magos, ou a ainda maior do Menino-Deus, todos esses usos cristãos deveriam ser conservados.
Eco familiar das solenidades religiosas em que tomamos parte, eles mostram até que ponto a vida da Igreja, que é a de Jesus, penetra e santifica a nossa. É por todos esses meios que a fé na Encarnação do Verbo se aviva cada ano mais em nossas almas.

Fonte: «Missal Quotidiano e Vesperal», 1940.

Do Direito talmúdico e do Direito católico


Esta declaração dos «Protocolos», de que o direito reside na força, está de acordo com o Talmude, que, segundo as palavras do professor Cohen, em Abril de 1833, citadas nas páginas 62 e 63 do «Lichtstrahlen aus dem Talmud» (Raios de Luz do Talmude), de Dinter, «deve ser considerado, ainda hoje, como a única fonte da moral judaica» e como «a fonte judaica das leis judaicas». O escritor judeu Kadmi-Cohen, com efeito, no seu livro «Nomades», págs. 52-53, diz que «o direito talmúdico nega o facto e exalta a vontade». Cita o próprio texto talmúdico que completa o conceito de residir o direito na força: Ein davar haomed bifnei haratzon, o que quer dizer: Nada pode resistir à tua vontade. Em contraposição, o direito romano-cristão baseia-se em três preceitos morais: honeste vivere, viver honestamente; neminem laedere, não lesar ninguém; e suum cuique tribuere, dar o seu a seu dono. A diferença é substancial.

Gustavo Barroso in comentário a «Os Protocolos dos Sábios de Sião», 1936.

Da monstruosa Aliança Peninsular


O livro em que isto se encontra é muito gabado – por quem não reflecte no que lê, e é propenso a deixar-se ir na corrente doce do ribeiro. Refiro-me à Aliança Peninsular em que Sardinha desenvolve e glosa a tese esboçada por Moniz Barreto, e vincada por Oliveira Martins em artigos de jornal.
A tese é má, por perigosa, e partir de premissas falsas. Sardinha mói e remói, pisa e repisa os argumentos, num tecido pastoso de sofismas, erros, digressões, juízos tendenciosos e quimeras absurdas.
Hipólito Raposo, um dos seus amigos íntimos, confessa que o autor, pouco tempo depois do aparecimento da Aliança Peninsular já «se sentia desgostoso e magoado com pessoas e instituições de além-fronteiras por certas razões e circunstâncias» que não deseja revelar.
Pois é pena que o não revele, porque essas razões poderiam em muito evitar contágios indesejáveis.
E Hipólito Raposo continua: «Depois da morte dele, ao meu conhecimento vieram, e por mim passaram alguns dados dos quais seguramente deduzi que não eram compreendidos e aceites em toda a pureza da sua sinceridade, em todo o escrúpulo do seu patriotismo, os esforços do nosso querido companheiro» (in Vanguarda, de Coimbra, de 17 de Março de 1928).
Esse livro não afecta o carácter de Sardinha ou o seu amor à Pátria; mas afecta a sua inteligência e a sua cultura, e serve – ai de nós! – desígnios hostis ao interesse nacional.
Importa pouco que esses desígnios ultrapassem o objectivo do escritor, ou se manifestem à margem dele. Mas importa muito que utilizem o livro como seu instrumento.
Esse livro é uma triste monstruosidade. E o depoimento insuspeitíssimo do Sr. Hipólito Raposo é a sua condenação irrevogável.
A História objectiva ensina precisamente o contrário do que António Sardinha pretende convencer os seus leitores.
Só um português cego pela paixão mais doentia, ou por demência calamitosa, pode aceitar a unidade hispânica, como a concebeu Sardinha: «a unidade hispânica exige que os dois povos se mantenham livres no seu governo interno, embora ligados militar e diplomaticamente para a defesa comum, porque comum, pensando bem, é o património que a ambos pertence» (págs. 63 e 64).
Esta tese está visceralmente, substancialmente errada. Não posso evidentemente desenvolver aqui a minha oposição a ela, porque os meus argumentos emanam dos factos, e eu não posso discutir ou comentar os factos.
Mas a inteligência do leitor esclarecido e independente facilmente suprirá o meu silêncio.
A tese vincara-a Oliveira Martins, quando dizia que «devemos outra vez aliar as nossas forças no propósito de uma defesa comum», depois de ter proclamado: «união de pensamento e acção; independência de governo» (Dispersos, II, págs. 216 e 219).
Espero que as gerações futuras, ainda não tocadas da mitomania que por aí vai, e porventura dela afastadas pelos esforços do meu espírito e de outros como eu, sepulte para sempre esse livro nefasto e essa tese demoníaca, no silêncio e no desprezo.
Que as circunstâncias de um momento possam conduzir-nos a uma cooperação ocasional, compreendo; mas transformar essa precaridade, essa momentaneidade, em perenidade e sistema, em princípio e norma de vida, só pode pretende-lo quem desconheça por completo a História de oito séculos de Portugal, ou a conheça mal, – que é ainda pior.
Tenho permanentemente diante de mim, os juízos e desejos dos altos espíritos, como Juan de Valera ou Menendez y Pelayo que valem mais, para mim, na sinceridade do seu pensamento puro, desinteressado e livre de preconceitos políticos ou respeitos e conveniências, do que todos os argumentos de António Sardinha ou de Oliveira Martins.
Entre a hostilidade, que formalmente condeno, e a tese que António Sardinha foi buscar a Oliveira Martins, de uma política militar e diplomática comum, que decididamente rejeito, há lugar para a única posição sensata que a História justifica: a da simpatia fundada na compreensão recíproca da independência plena dos nossos respectivos interesses, – o que não exclui, é óbvio, qualquer entendimento eventual que as circunstâncias aconselhem, como em 1936.
Tanto Oliveira Martins como Sardinha, seu eco, falam muito na política da Dinastia de Avis, chamando-lhe política de cooperação.
Mas isto é uma escandalosa falsificação da História, contra que protestam todos os textos!
Nunca, até ao advento do Liberalismo ou da Revolução, a política portuguesa se orientou no sentido de comunidade militar ou diplomática. Parece incrível que se diga o contrário.
Se António Sardinha tivesse sido historiador e erudito, nunca teria escrito as páginas infelizes da Aliança Peninsular, que, no seu conjunto, não passa de simples romance.
Tinha, indiscutivelmente, apreciável cultura literária, que lhe forneceram principalmente escritores franceses, castelhanos ou brasileiros do nosso tempo. Os seus livros estão recheados com transcrições de um número limitado de autores das três literaturas, e são estes que lhe ministram, em segunda mão, os conhecimentos, informações ou sugestões de que a sua inteligência se alimenta, para o desenvolvimento das suas teses.

Alfredo Pimenta in «A propósito de António Sardinha», 1944.

Não precisamos de pragmáticos


Surgiu no nosso tempo uma moda muito peculiar: a ideia de que, quando as coisas estão a correr muito mal, do que nós precisamos é de um homem pragmático. Ora, é bastante mais correcto afirmar que, quando as coisas estão a correr muito mal, do que nós precisamos é de um homem que não seja pragmático; precisamos, pelo menos, de um teórico. Um homem pragmático é um homem que só conhece a prática do dia-a-dia, o modo como as coisas habitualmente funcionam. Quando as coisas não funcionam, temos que recorrer ao pensador, ao homem que tem algum conhecimento da razão pela qual elas funcionam. É má ideia tocar harpa enquanto Roma está a arder; mas é uma excelente ideia estudar hidráulica enquanto Roma está a arder.

G. K. Chesterton in «What's Wrong with the World», 1910.

Princípios e consequências do Liberalismo


Explicaremos agora em poucas palavras o Liberalismo, cujo exemplo histórico típico é o Protestantismo. O Liberalismo pretende libertar o homem de todos os constrangimentos não desejados ou aceites por si próprio.
Primeira libertação: aquela que liberta a inteligência de toda a verdade objectiva imposta. A Verdade deve ser aceite de forma diferente de acordo com os indivíduos ou grupos de indivíduos, ela é, portanto, necessariamente compartilhada. A Verdade é criada e procurada incessantemente. Ninguém pode alegar tê-la exclusiva e integralmente. Não é difícil adivinhar o quanto isso é contrário a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Sua Igreja.
Segunda libertação: a da fé que nos impõe dogmas formulados de forma definitiva e à qual se deve submeter a inteligência e a vontade. Os dogmas, segundo o liberal, devem ser submetidos ao crivo da razão e da ciência, e isso de uma maneira constante, conforme o progresso científico. Portanto, é impossível admitir uma verdade revelada definida para sempre. Note-se a oposição deste princípio à Revelação de Nosso Senhor e à Sua autoridade divina.
Finalmente, a terceira libertação, a da lei. A lei, segundo o liberal, limita a liberdade e impõe-lhe um constrangimento, primeiro moral e depois físico. A lei e as suas restrições vão contra a dignidade e a consciência humana. A consciência é a lei suprema. O liberal confunde liberdade com licença. Nosso Senhor Jesus Cristo é a Lei viva, sendo o Verbo de Deus; mas ainda veremos o quão profunda é a oposição do liberal a Nosso Senhor.
Os princípios liberais têm como consequência a destruição da filosofia do ser [ontologia] e a recusa de toda a definição de seres, para se fechar no nominalismo ou no existencialismo e no evolucionismo. Tudo está sujeito a mutações, a alterações.
Uma segunda consequência igualmente grave, senão mais, é a negação do sobrenatural, portanto do pecado original, da justificação pela graça, do verdadeiro motivo da Encarnação, do sacrifício da Cruz, da Igreja, do sacerdócio. Tudo é distorcido na obra realizada por Nosso Senhor; e isso traduz-se numa visão protestante da liturgia, do Sacrifício da Missa e dos Sacramentos, que não têm mais por objecto a aplicação da Redenção nas almas, a cada alma, a fim de lhe comunicar a graça da vida divina e prepará-la para a vida eterna, pela pertença ao corpo místico de Nosso Senhor, mas que doravante tem por centro e motivo a pertença a uma comunidade humana de carácter religioso. Toda a reforma litúrgica [de Paulo VI] reflecte esta orientação.
Outra consequência: a negação de toda a autoridade pessoal, participada na autoridade de Deus. A dignidade humana exige que o homem seja submetido apenas ao que ele consente. Uma vez que a autoridade é indispensável para a vida em sociedade, ela só aceitará a autoridade aprovada pela maioria, porque representa a delegação da autoridade do maior número de indivíduos a uma pessoa ou a um grupo designado, esta autoridade é sempre apenas delegada.
Ora, estes princípios e as suas consequências, que exigem a liberdade de pensamento, a liberdade de ensino, a liberdade de consciência, a liberdade de escolher a própria religião, essas falsas liberdades que supõem a laicidade do Estado, a separação da Igreja e do Estado, têm sido, desde o Concílio de Trento, incessantemente condenadas pelos sucessores de Pedro e, em primeiro lugar, pelo próprio Concílio de Trento.

D. Marcel Lefebvre in «Carta aos Amigos e Benfeitores» de 3 de Setembro de 1975.

Elevação do Patriarcado de Lisboa


No mesmo dia [10 de Dezembro], ano de 1716, chegou a Lisboa a notícia de haver o Papa Clemente XI concedido a El-Rei Dom João V, Nosso Senhor, a erecção da sua Capela Real em Igreja Patriarcal, dividindo o grande Arcebispado de Lisboa, com os nomes de Oriental e Ocidental; a qual notícia se fez pública com os repiques dos sinos de todas as Igrejas e Conventos, e se festejou com luminárias. No dia seguinte, toda a Nobreza, Ministros, Prelados e Tribunais beijaram a mão a Sua Majestade pela exaltação da sua Capela Real; e no mesmo dia nomeou a mesma Majestade em Patriarca e Arcebispo Metropolitano da nova Igreja Patriarcal ao Ilustríssimo Senhor D. Tomás de Almeida, dos Condes de Avintes, Bispo e Governador das Armas e Justiças do Porto; O que foi festejado nas três noites seguintes com repiques e luminárias na Capela Real e em toda a Cidade.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.