«O povo é soberano – dizem – a sua vontade é a suprema lei, os seus direitos a mais sagrada de todas as coisas sagradas, a sua realeza a mais legítima e justificada, a sua autoridade o centro de toda a acção política, o seu poder o princípio de onde todos os outros derivam».
O povo é soberano... Mas o certo é que, quando o povo se levanta em Paris, em Barcelona, em Turim, é bombardeado e metralhado impiedosamente.
O povo é soberano; mas esmagam-no com tributos, contribuições, exigências de toda a sorte.
O povo é soberano; mas o egoísmo e ambição das nações arranca-lhe dos braços os filhos estremecidos, privando o lar doméstico dos mais doces de seus sorrisos, e a agricultura dos mais robustos e activos trabalhadores, para imolá-los desapiedada e inutilmente na carnificina feroz de um campo de batalha.
O povo é soberano; mas deixam-no vegetar idiota na inconsciência da estupidez e da ignorância religiosa e moral.
O povo é soberano; mas escasseiam-lhe os géneros de primeira necessidade; os que pode haver à mão, só lhe são fornecidos por preços exorbitantes e irrazoáveis, e esses mesmos são adulterados, falsificados, corrompidos, nocivos à saúde.
O povo é soberano; mas soberano desmoralizado, que pôs a consciência em almoeda, vendendo-se, a troco do mais pequeno favor, ao primeiro aventureiro que se apresente à boca da urna eleitoral.
Dantes o povo não era soberano; mas pagava menos tributos, não era comido com pesadas contribuições, tinha o direito – que hoje lhe contestam, ou de que não o deixam fruir em paz – de viver pobre mas honradamente do fruto de seu trabalho; não era soberano, mas não morria à míngua, pois nas portarias dos conventos achou sempre socorro pronto à miséria, nem lhe escasseava o pão do espírito, porque os frades lhe abriam escolas gratuitas, e lhe patenteavam os tesouros riquíssimos de suas opulentíssimas bibliotecas; não era soberano, mas era assistido cuidadosa e desveladamente de todos os socorros da religião, tinha a consoladora fé numa vida futura, alentava-a a esperança do Céu.
Hoje... fizeram-no soberano, mas tudo isso lhe roubaram!
Um dia, o bom Jesus foi entregue, por um discípulo ingrato, aos mais encarniçados de seus inimigos; estes arrancaram-lhe ignominiosamente os seus vestidos, vergastaram-no desapiedados, retalharam-lhe as carnes a pungentes açoites, deram-lhe bofetadas, cuspiram-lhe no rosto, vendaram-lhe a face divina; e depois puseram-lhe aos ombros – à guisa de manto real – um farrapo de púrpura velha e gasta, por diadema de realeza enterraram-lhe na cabeça uma coroa tecida de espinhos, e deram-lhe por ceptro uma cana. E, passando ante ele, ajoelhavam e diziam: Salve, Rei dos Judeus!
Se fosse lícito o paralelo, eu não duvidaria afirmar que a cena dolorosa do Pretório é reproduzida em nossos dias pelos modernos liberais revolucionários e demagogos, que proclamam a soberania do povo do mesmo modo que os fariseus de então proclamavam a do Filho de Deus. Tiram-lhe o pão, tiram-lhe os haveres, tiram-lhe a paz, tiram-lhe a consciência, tiram-lhe a crença em Deus, tiram-lhe a fé numa vida futura, tiram-lhe a esperança do Céu, e depois bradam-lhe:
– Levanta-te, povo, que és rei!...
Ironia pungente! Supremo escárnio! Impudência e desvergonha inauditas!...
Fonte: «Voz de S. António: Revista Mensal Ilustrada», 6º Ano, Nº 15, Março de 1900.















