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28 de Março: São João de Capistrano


S. João, nascido em Capistrano (Abruzos) a 24 de Junho de 1385, entrou na Ordem de S. Francisco, na idade de 39 anos. Foi escolhido por Deus para libertar a Europa do Islão que ameaçava invadi-la, no século XV. Maomé II apoderava-se de Constantinopla, capital do Império do Oriente e marchava contra Belgrado. O Papa Calisto III decretou a Cruzada. S. João pregou-a na Panónia e noutras províncias. Ajudado pelo nobre húngaro João Hunyadi, alistou setenta mil cristãos. Esses soldados improvisados, só tinham, para combater, forquilhas e flagelos. João, de quem «o Senhor era a força», «obteve com eles a vitória depois de rude combate», assegurando assim o triunfo da Cruz sobre o Crescente. Nessa mesma tarde, 120.000 turcos jaziam sobre o solo, ou haviam fugido, ao passo que Maomé II, ferido, renunciava aos seus projectos contra a Europa cristã. Morreu em 1456. Recorramos à sua protecção e à penitência para repelir os ataques do espírito maligno.

Fonte: «Missal Quotidiano e Vesperal», 1940.

Tomada de Beja aos Mouros


Havia posto El-Rei Dom Afonso Henriques à sua obediência a antiga Cidade de Beja; Porém os Mouros, que só guardam fé enquanto a não podem violar, logo que puderam, sacudiram o jugo Português. Fernão Gonçalves, Cavaleiro valeroso daqueles tempos, tratou com grande segredo, que foi admiravelmente guardado, com outros Capitães de a tomar aos Mouros, como fizeram por assalto na noite deste dia [30 de Novembro], ano de 1162, com copioso sangue e horrível confusão dos defensores, que de nada menos se temiam naquela hora.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Milagre na reconquista de Alcácer do Sal


Haviam os Mouros recuperado a Vila de Alcácer do Sal, depois de conquistada por El-Rei Dom Afonso Henriques, e a fortificaram de modo que parecia ficar insuperável a todos os meios de expugnação que havia naqueles tempos; Mas Dom Sueiro, Bispo de Lisboa, Prelado de igual virtude e valor, aproveitando-se da ocasião de haver chegado ao porto da mesma Cidade uma poderosa Armada do Norte; Ajustando-se com os Capitães dela, partiu à Conquista daquela Praça, e os Estrangeiros navegaram ao porto de Setúbal, e daí pelo Rio acima, em embarcações ligeiras, se foram incorporar com os Portugueses; seguindo uns e outros o mesmo fim, por diferente caminho. Tiveram os inimigos notícia antecipada, e reforçando novamente os reparos, se preveniram à defesa, implorando ao mesmo tempo os socorros dos Reis de Badajoz, de Jaén, de Córdova, e de Sevilha; os quais, com um Exército de quinze mil Cavalos e oitenta mil Infantes, vieram em demanda dos Cristãos; E atacando-se a batalha neste dia [10 de Setembro], ano de 1217, foram estes vencidos e derrotados com grande perda. Dividiu-os a noite e o sucesso os encheu, a uns de alegria e alvoroço, e a outros de dor e confusão: Choravam os Católicos o fracasso, temiam outros maiores, e levados da aflição, a que na Terra não achavam fácil remédio, puseram os olhos no Céu: Eis que de repente, se lhes representou no ar, a pouca distância, o salutífero sinal da Cruz, mais luminoso e claro que o mesmo Sol: Foi visto e adorado de todos os soldados do Exército, naturais e estrangeiros, e todos conceberam firme esperança, de que no dia seguinte haviam de vencer e derrotar aos inimigos da mesma Cruz, que agora se lhes oferecia aos olhos, como sinal e penhor de uma felicíssima vitória.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

D. João I parte à conquista de Ceuta


No mesmo dia [25 de Julho], ano de 1415, partiu da barra de Lisboa El-Rei Dom João I, na mais poderosa Armada que até então havia cortado o Oceano. Constava de duzentas e doze velas, de que eram trinta e três Naus de grande força, cinquenta e nove Galés, e cento e vinte navios menores. A esta proporção era a gente e munições. Embarcou-se nela aquele esclarecido Príncipe, com quase sessenta anos de idade e poucos meses de fadigas e trabalhos, e sem que o retardasse o peso dos anos, nem o perigo do mar, nem a contingência do sucesso, nem a chaga, ainda fresca, da morte da Rainha sua mulher, que sucedera poucos dias antes, nem a peste que havia no Reino, nem outras considerações e dependências políticas de grande importância; cortou por tudo em demanda de novas conquistas e novas glórias. Havia triunfado muitas vezes em Espanha, mas sempre com dor, por serem Católicos os vencidos: Agora quis ir provar a mão nos infiéis, e foi o primeiro Rei, que de Espanha passou a África a fazer-lhe guerra. Partiu, enfim, aquela Cidade nadante, largando as velas ao vento, tremolando infinitas bandeiras, e flâmulas de várias e vistosas cores, e, repetindo ao som marcial e alegre de trombetas e charamelas, a costumada salva de Boa Viagem, se alongou e finalmente desapareceu dos olhos dos que ficavam. Dos que ficavam, digo, flutuando em outro mar de saudades e temores, por verem, que se lhe ausentavam o seu Rei, os seus Príncipes, e a flor de Portugal, sem saber a quê, nem para onde.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Os Portugueses vão em socorro do Imperador da Etiópia


No ano de 1541 se achava Dom Estevão da Gama, Governador da Índia, com uma poderosa Armada no Estreito do Mar Roxo [Vermelho], no porto de Maçuá, que pertence aos Estados do Imperador da Etiópia, chamado vulgarmente o Preste João: Ali lhe chegaram Embaixadores do mesmo Imperador, que então era chamado Athanâ Sagad; o qual lhe pedia socorro com grande instância, em razão de se achar quase de todo despojado do seu Império, por El-Rei de Zeilá, que havia sido Vassalo seu, e agora, ligado com o Grã Turco, lhe fazia dura guerra: Julgou Dom Estevão, que convinha à reputação das suas Armas e ao crédito da Nação Portuguesa, socorrer a um Príncipe Cristão, perseguido, e amigo dos Reis Portugueses; e em consequência deste acertado discurso, lhe mandou logo quatrocentos Portugueses escolhidos à ordem de seu irmão, Dom Cristóvão da Gama, com oito peças de artilharia e bom número de armas e munições: Partiu Dom Cristóvão daquele porto neste dia [6 de Julho] ano de 1541, oferecendo-se de boamente, ele e os companheiros, sacrificando-se a uma tão dificultosa e perigosa empresa, sem outro fim, ou utilidade, mais que a defesa da Fé e o crédito do nome Português; Fazemos memória dos princípios desta expedição, porque a eles se seguiram notáveis progressos, que diremos nos dias a que pertencem.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Parte de Lisboa uma Esquadra naval contra os Turcos


O socorro naval que o Papa Clemente XI pediu a El-Rei Dom João V, nosso senhor, contra os Turcos, que sitiavam a Ilha de Corfu, partiu do porto de Lisboa neste dia [5 de Julho] do ano de 1716 e se compunha de nove navios; seis de guerra, de cinquenta até oitenta peças, um de fogo, outro para servir de hospital e uma Tartana armada em guerra para as expedições, que se oferecessem, com duas mil setecentas cinquenta e uma praças. Foi por Comandante General desta esquadra, o Almirante da Armada Real, Conde do Rio, por Almirante o Conde de S. Vicente, por Fiscal o Coronel Pedro de Sousa de Castelo Branco. Por dar gosto a El-Rei, se embarcaram nesta esquadra muitos Cavaleiros e títulos, e muitos oficiais reformados. Antes de partir esta esquadra, a foram ver, e entraram em algumas naus, Suas Majestades e Altezas, o Cardeal da Cunha, muitos Cavaleiros, Monsenhor Bichi e Monsenhor Firrau, Núncios, Ordinário e Extraordinário, de Sua Santidade, depois Cardeais da S.I.R., e todos ficaram satisfeitos da boa qualidade delas e da gente que as guarnecia, que toda foi escolhida das tropas Reais. Com a chegada desta esquadra e das outras auxiliares, a incorporar-se com a Armada Veneziana, levantaram os Turcos o sítio da Praça de Corfu, em que tinham perdido mais de vinte e cinco mil homens, e se fizeram à vela em 24 de Agosto com a sua Armada, sem que a dos Cristãos a pudesse alcançar, por mais que o pretenderam para pelejarem com ela e a destruírem, como fizeram no ano seguinte e diremos em outra parte.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Sai de Lisboa uma Armada em socorro de Veneza


No mesmo dia [15 de Junho], ano de 1500, saiu de Lisboa uma Armada de trinta poderosas naus, em que iam três mil e quinhentos homens de guerra escolhidos, além da gente de mar e de serviço: Era General Dom João de Menezes, Conde de Tarouca, filho de Dom Duarte de Menezes, o famoso. Navegava esta Armada em socorro dos Venezianos, que estes haviam pedido com grandes instâncias a El-Rei Dom Manuel, mas recolhida pelo mesmo tempo outra Armada dos Turcos, de que os Venezianos se temiam, se retirou também a nossa, sem outro efeito memorável, mais que as patentes provas, que os Portugueses deram, das ânsias em que ardiam de virem às mãos com os Infiéis.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

19 de Julho de 1717: Batalha do Cabo Matapão


No ano de 1717, partiu de Lisboa a 28 de Abril para a Ilha de Corfu segunda vez a esquadra naval Portuguesa, que no ano antecedente tinha ido à mesma Ilha, contra os Turcos que a sitiavam com uma grande armada, como em outra parte dizemos. Foram por Cabos desta segunda expedição os mesmos que o foram da primeira, o Conde do Rio Grande, o Conde de São Vicente, o Coronel Pedro de Sousa de Castelo Branco. Constava de catorze navios bem equipados, e guarnecidos de muita e grossa artilharia, de muita e luzida gente. No mar Adriático a estava esperando a Armanda ligeira de Veneza, de que era General André Pizani, com algumas pequenas esquadras auxiliares; e com a chegada da nossa, não duvidaram fazer logo viagem, como com efeito fizeram para o Arquipélago a unir-se com a Armada grande da mesma República de Veneza, que à ordem do Comandante extraordinário Flangini se tinha adiantado para os Dardanelos. Porém, antes que lá chegassem, encontraram nos mares de Matapão a Armada dos Turcos, neste dia do ano referido, e a investiu a nossa esquadra com grande valor, livrando a Armada de Veneza de sua total ruína, como os mesmos Venezianos, e também os Turcos, confessaram. Durou o combate nove horas com incessante fogo de ambas as partes. Foram os Turcos os primeiros que se retiraram do combate, sem embargo de terem sempre o barlavento; e até deveram a uma borrasca que se levantou, o não serem seguidos dos nossos, e poderem retirar-se, e recolher-se no seu porto de Trapano, em muito mau estado, com sete Sultanas inteiramente desmastreadas, e a sua Capitania incapaz de servir mais, com morte de mais de cinco mil Turcos, em que entrou o seu Comandante Baxá, que no mesmo combate foi morto com uma bala de mosquete, não se perdendo da nossa esquadra mais que cento e noventa e oito pessoas, em que entrou o Capitão-de-mar-e-guerra Manuel André dos Santos. O Sumo Pontífice Clemente XI celebrou muito esta vitória com grandes elogios da Nação Portuguesa, e com as lágrimas nos olhos, chamou a El-Rei Dom João V, nosso Senhor, verdadeiro Rei Católico e verdadeiro filho da Igreja. Com estas paternais e amorosas expressões escreveu a El-Rei agradecendo-lhe tão grande benefício; e ao General Conde do Rio mandou um Breve, em que lhe agradecia o zelo e valor com que a sua Armada triunfara da inimiga. Não deixou de confessar a sua obrigação a República de Veneza, como fez por seu Embaixador extraordinário, o Cavaleiro João Mocenigo, que mandou ao nosso Soberano, expressando em nome da mesma República o seu maior agradecimento, com a confissão de dever-se à nossa esquadra a vitória que se alcançara dos Turcos. A seis de Novembro do mesmo ano, chegou a Lisboa a nossa vitoriosa esquadra, com todos os navios de que se compunha, e foram os seus Cabos muito bem recebidos e premiados da nossa Côrte.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

São Francisco de Assis e o Sultão do Egipto


Há exactamente oito séculos, em 1219, São Francisco de Assis reunia-se com o Sultão do Egipto na cidade de Damieta. Desse encontro, recordo este singular episódio:

O Sultão apresentou também outra questão: «Vosso Senhor ensina no Evangelho que vós não podeis retribuir o mal com o mal, e que não podeis recusar o manto a quem vos quiser tirar a túnica, etc. Então, vós cristãos não podeis invadir as nossas terras, etc.».
Respondeu São Francisco: «Parece-me que não haveis lido todo o Evangelho. Noutra parte, de facto, é dito: Se o teu olho é para ti ocasião de escândalo, arranca-o e lança-o para longe. E com isto, Ele quer-nos ensinar que, mesmo que um homem seja amigo ou parente, ou até tão caro quanto a pupila dos olhos, devemos estar dispostos a separá-lo, a removê-lo, a arrancá-lo de nós, se ele nos tentar afastar da fé e do amor de Nosso Senhor. E precisamente por este motivo, os cristãos agem conforme a justiça quando invadem as vossas terras e vos combatem, porque vós blasfemais o nome de Cristo e trabalhais para afastar o maior número possível de homens da Sua Religião. Mas se em vez disso, vós quisésseis conhecer, confessar e adorar o Criador e Redentor do mundo, então eles vos amariam como a si mesmos».
Todos os que assistiam ficaram admirados com as suas respostas.

Fonte: «Fonti Francescane», 2011.

700º aniversário da Ordem de Cristo


Em Março de 1319, por bula do Papa João XXII é fundada a Ordem Militar de Jesus Cristo, a qual viria a incorporar os bens e os privilégios da Ordem do Templo em Portugal, extinta em 1312 pelo Papa Clemente V.
Como os Templários, a Ordem de Cristo segue a regra de Cister e o hábito dos cavaleiros é branco com uma cruz vermelha. O seu primeiro Mestre foi D. Gil Martins da Ordem de São Bento de Avis.
A sede da Ordem foi no Castelo de Castro Marim até 1357, ano em que mudou em definitivo para o Castelo de Tomar.

Reconquista de Lisboa


A 25 de Outubro de 1147, e depois de três meses de cerco a Lisboa, os invasores mouros rendem-se, e D. Afonso Henriques entra triunfal na cidade, agora reconquistada para a Cristandade.
A vitória é atribuída a São Jorge, pela promessa e devoção de D. Afonso Henriques, que rebaptizou o Castelo com o nome do mártir, que é também patrono de Portugal e das Cruzadas.

Sermão da Primeira Cruzada


Povo dos Francos, povo de além Alpes, povo – como reluz em muitas de vossas acções – eleito e amado por Deus, distinguido entre todas as nações pela posição do vosso país, pela observância da fé católica e pela honra que presta à Santa Igreja, a vós se dirige o nosso discurso e a nossa exortação.
Queremos que vós saibais do lúgubre motivo que nos conduziu até às vossas terras; da necessidade – para vós e para todos os fiéis – de conhecerem o motivo que nos impeliu até aqui.
Desde Jerusalém e desde Constantinopla chegou até nós, mais de uma vez, uma dolorosa notícia: os turcos, povo muito diverso do nosso, povo de facto afastado de Deus, estirpe de coração inconstante e cujo espírito não foi fiel ao Senhor, invadiu as terras daqueles cristãos, as devastou com o ferro, a rapina e o fogo.
Levou parte dos habitantes como prisioneiros até ao seu país, outra parte matou com infames estragos, e as igrejas de Deus, ou as destruiu até aos fundamentos, ou as entregou ao culto da religião deles.
Derrubam os altares após profaná-los imundamente, circuncidam os cristãos e espalham o sangue da circuncisão sobre os altares ou jogam-no nas pias baptismais; e àqueles que querem condenar a uma morte vergonhosa, perfuram o umbigo, arrancam os genitais, os amarram a um pau e, chicoteando-os, levam-nos pelas ruas, para que com as vísceras de fora, acabem caindo mortos prostrados por terra.
Outros se servem deles como alvo de flechas após amarrá-los a um pelourinho; a outros, após obrigá-los a dobrar a cabeça, atacam-nos com espadas e tentam decapitá-los de um só golpe.
O que dizer da violência nefanda praticada com as mulheres, sobre a qual é pior falar do que calar?
O reino dos gregos já foi atingido tão gravemente por eles e tão perturbado na sua vida diária, que não pode ser atravessado sequer numa viagem de dois meses.
A quem, pois, cabe o ónus de vingá-lo e de reconquistá-lo se não a vós a quem Deus, mais de que aos outros povos, concedeu a insigne glória das armas, grandeza de alma, agilidade de corpo, força para humilhar a fundo aqueles que a vós resistem?
Que a gesta dos vossos antepassados vos mova, que excite as vossas almas a actos dignos dela, a probidade e a grandeza do vosso rei Carlos Magno e de Luís, seu filho, e de outros soberanos vossos que destruíram o reino dos pagãos e até eles estenderam os confins da Igreja.
Sobretudo que vos incite o Santo Sepulcro do Senhor, nosso Salvador, que está nas mãos de gentes imundas, e os lugares santos, que agora estão por eles vergonhosamente possuídos e irreverentemente profanados com a sua imundície.
Ó soldados fortíssimos, filhos de pais invictos, não vos mostreis decadentes, mas lembrai-vos da coragem dos vossos predecessores; e se vos segura o doce afecto dos filhos, dos pais e das consortes, atentai para o que diz o Senhor no Evangelho: "Quem ama o pai ou a mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Todo aquele que deixar seu pai ou sua mãe, ou a mulher ou os filhos ou as terras por amor de Meu Nome receberá o cêntuplo nesta terra e terá a vida eterna".
Não vos detenha o pensamento de alguma propriedade, nenhuma preocupação pelas coisas domésticas, pois esta terra que vós habitais, circundada por todo lado pelo mar ou pelas montanhas, ficou estreita para a vossa multidão, não é exuberante de riquezas e apenas fornece do que viver a quem a cultiva.
Por isso vós vos ofendeis e vos hostilizais reciprocamente, vós vos fazeis guerra e com frequência vos matais entre vós mesmos.
Cessem, pois os ódios intestinos, apaguem-se os contenciosos, aplaquem-se as guerras e sossegue toda a discórdia e inimizade.
Empreendei o caminho do Santo Sepulcro, arrancai aquela terra àquele povo celerado e submetei-la a vós: ela foi dada por Deus em propriedade aos filhos de Israel [=cristãos]; como diz a Escritura, nela correm rios de leite e de mel.
Jerusalém é o centro do mundo, terra feraz por cima de qualquer outra quase como um paraíso de delícias; o Redentor do género humano a tornou ilustre com a Sua vinda, a honrou com a Sua passagem, a consagrou com a Sua Paixão, a redimiu com a Sua morte, e a tornou insigne com a Sua sepultura.
Exactamente esta cidade real posta no centro do mundo, agora é tida em sujeição pelos próprios inimigos e pelos infiéis, feita serva do rito pagão.
Ela eleva a sua lamentação e deseja ser libertada, e não cessa de implorar que vós andeis no seu socorro.
De vós mais do que qualquer outro povo ela exige ajuda, pois vos tem sido concedida por Deus, por sobre todas as estirpes, a glória das armas.
Empreendei, pois, este caminho em remissão dos vossos pecados, certos da imarcescível glória do reino dos Céus.
Ó irmãos amadíssimos, hoje em nós manifestou-se o que o Senhor diz no Evangelho: "Onde dois ou três estarão reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles".
Se o Senhor Deus não tivesse inspirado os vossos pensamentos, a vossa voz não teria sido unânime; e ainda que tenha ressoado com timbres diversos, foi única, entretanto a sua origem: foi Deus que a suscitou, foi Deus que a inspirou em vossos corações.
Seja, pois, esta vossa voz, o vosso grito de guerra, posto que ele vem de Deus.
Quando fores ao ataque dos bélicos inimigos, seja este o grito unânime de todos os soldados de Deus: "Deus o quer! Deus o quer!"
Nós não convidamos a empreender este caminho aos velhos ou àqueles que não são aptos para portar armas, nem às mulheres; que as mulheres não partam sem os seus maridos, ou sem irmãos, ou sem representantes legítimos: todos estes são mais um impedimento do que uma ajuda, mais um peso do que uma vantagem.
Que os ricos sustentem os pobres e levem a seu custo homens prestes para combater.
Aos sacerdotes e clérigos de qualquer ordem não seja lícito partir sem licença do seu bispo, porque esta viagem lhes seria inútil sem esse assentimento; e nem sequer aos leigos seja permitido partir sem a bênção do seu sacerdote.
Todo aquele que queira cumprir esta santa peregrinação e que faça promessa a Deus e a Ele se tenha consagrado como vítima viva, santa e aceitável, leve sobre o seu peito o sinal da Cruz do Senhor.
Aquele que, após ter cumprido o seu voto, queira retornar, dê meia-volta.
Cumprirão assim o preceito que o Senhor dá no Evangelho: "Quem não carrega sua cruz e não vem detrás de Mim, não é digno de Mim".

Beato Papa Urbano II, 27 de Novembro de 1095.

As Cruzadas não foram agressivas, mas defensivas


O crítico das Cruzadas fala como se elas tivessem atacado uma tribo inofensiva ou um templo no interior do Tibete, que desconhecia antes de a invadir. Parecem esquecer que antes de os cruzados sonharem em ir a Jerusalém, os muçulmanos quase chegaram a Paris. Parecem esquecer que se os cruzados quase conquistaram a Palestina, isso apenas foi uma reacção aos muçulmanos que quase conquistaram a Europa.

G. K. Chesterton in «The New Jerusalem», 1920.

Astúrias: Cristianismo e Reconquista


A Crónica de Afonso III mostra-nos o sentido que na corte ásturo-leonesa se dava à obra da Reconquista; nela, o reino ásture reivindicava o seu carácter de sucessor do reino visigodo de Toledo, cuja queda se justificava pelo estado de pecado em que se encontravam os reis e sacerdotes daquele reino nos seus últimos tempos. Assim, o reino ásture iniciava a Reconquista sob o signo do Cristianismo. Já na Crónica de Albelda, os Ástures aparecem claramente identificados com os cristãos e a expansão do reino ásture com a da Igreja.

Adaptado de «História Universal», Volume II, Publicações Alfa, 1985.

Batalha de Poitiers


Neste mês de Outubro, há 1282 anos, as tropas francas de Carlos Martelo travavam o exército sarraceno do Califado de Córdoba, em Poitiers. Era o fim da expansão mourisca na Europa e o início da Reconquista. Pelo enorme feito, Carlos Martelo recebeu do Papa Gregório III o título de Herói da Cristandade.