10/01/2017

O anão e o gigante

No dia em que foi a enterrar com honras de Estado um vil e reles traidor, combatente "anti-fascista", inimigo de Deus, da Pátria e do Rei, ponhamos os olhos na campa rasa e simples de António de Oliveira Salazar. Eis um homem modesto, do povo autêntico da Beira, que nunca desonrou os seus antepassados lusos, e nunca quis parecer mais do aquilo que era.


Devo à Providência a graça de ser pobre: sem bens que valham, por muito pouco estou preso à roda da fortuna nem falta me fizeram nunca lugares rendosos, riquezas, ostentações. E para ganhar, na modéstia a que me habituei e em que posso viver, o pão de cada dia, não tenho de enredar-me na trama dos negócios ou em comprometedoras solidariedades. Sou um homem independente.
Nunca tive os olhos postos em clientelas políticas nem procurei formar partido que me apoiasse mas em paga do seu apoio me definisse a orientação e os limites da acção governativa. Nunca lisonjeei os homens ou as massas, diante de quem tantos se curvam no Mundo de hoje, em subserviências que são uma hipocrisia ou uma abjecção. Se lhes defendo tenazmente os interesses, se me ocupo das reivindicações dos humildes, é pelo mérito próprio e imposição da minha consciência de governante, não por ligações partidárias ou compromissos eleitorais que me estorvem. Sou, tanto quanto se pode ser, um homem livre.
Jamais empreguei o insulto ou a agressão de modo que homens dignos se considerassem impossibilitados de colaborar. No exame dos tristes períodos que nos antecederam esforcei-me sempre por demonstrar como de pouco valiam as qualidades dos homens contra a força implacável dos erros que se viam obrigados a servir. E não é minha a culpa se, passados vinte anos de uma experiência luminosa, eles próprios continuam a apresentar-se como inteiramente responsáveis do anterior descalabro, visto teimarem em proclamar a bondade dos princípios e a sua correcta aplicação à Nação Portuguesa. Fui humano.
Penso ter ganho, graças a um trabalho sério, os meus graus académicos e o direito a desempenhar as minhas funções universitárias. Obrigado a perder o contacto com as ciências que cultivava, mas não com os métodos de trabalho, posso dizer que as reencontrei sob o ângulo da sua aplicação prática; e, folheando menos os livros, esforcei-me em anos de estudo, de meditação, de acção intensa, por compreender melhor os homens e a vida. Pude esclarecer-me.
Não tenho ambições. Não desejo subir mais alto e entendo que no momento oportuno deve outrem vir ocupar o meu lugar, para oferecer ao serviço da Nação maior capacidade de trabalho, rasgar novos horizontes e experimentar novas ideias ou métodos. Não posso envaidecer-me, pois que não realizei tudo o que desejava; mas realizei o suficiente para não se poder dizer que falhei na minha missão. Não sinto por isso a amargura dos que merecida ou imerecidamente não viram coroados os seus esforços e maldizem dos homens e da sorte. Nem sequer me lembro de ter recebido ofensas que em desagravo me induzam a ser menos justo ou imparcial. Pelo contrário: neste país, onde tão ligeiramente se apreciam e depreciam os homens públicos, gozo do raro privilégio do respeito geral. Pude servir.
Conheci Chefes de Estado e Príncipes e Reis e ouvi discretear homens eminentes de muitas nações, ideologias e feições diversas sobre as preocupações de governo, os problemas do Mundo ou as dificuldades dos negócios. Pude comparar.
E assim, sem ambições, sem ódios, sem parcialidades, na pura serenidade do espírito que procura a verdade e da consciência que busca o caminho da justiça, eu entendo que posso trazer ao debate um depoimento.

António de Oliveira Salazar in «Discursos e Notas Políticas».

5 comentários:

Anónimo disse...

Esse "pobre" hoje pode ser mal entendido, e também no estrangeiro. Pobre naquele tempo significava em maior parte de Portugal: ter casa própria, ter terreno próprio de onde viesse o sustento, etc.. Já os não pobres do povo tinham certa abundância que lhes permitia certas vantagens sobre os restantes, quer quanto aos alimentos (não têm de andar a comer broa nem centeio, costumam comer trigo, por exemplo - varia também conforme as regiões). O que hoje costumamos entender por "pobre" é mais o que se chamava então de "pobrezinho".

Cláudia Arruda disse...

Salve Maria.

Muito bem percebido "Anónimo"! Quando li, fiquei na dúvida, mas seu comentário veio a calhar.

Obrigada.



Reaccionário disse...

Agradeço o esclarecimento. De facto, no Portugal rural, pobreza sempre significou simplicidade e modéstia, mas não miséria. Praticamente todas as famílias do interior tinham uma casa com horta e animais de criação, vivendo de forma austera, sem luxos. Eis a nossa santa pobreza.

Anónimo disse...

Antes do 25 de abril o Estado era rico, e existiam algumas famílias ricas. Agora o estado é muito pobre. a maior parte das famílias são pobres e os políticos ou quem está ligado a eles é muito rico.

Miguel Lima disse...

Parabéns..., efectivamente o Homem da Santa Comba Dão foi um gigante..., mas em terra de anões,de invejosos, tem que ser rebaixado.
Ao invés, o anão, ainda por cima egocêntrico e invejoso, que gostava de diamantes e marfim vindo da Jamba, do amigo Savimbi, em terra de gente medíocre tem que ser elevado..., em virtude da sua pequenez!
Portugal actualmente, é a imagem desse anão!