28/01/2018

O Punhal dos Corcundas Nº 20 (I)


O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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N.º 20

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Ostendam gentibus nuditatem tuam.

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EXTINÇÃO DO TRIBUNAL DO SANTO OFÍCIO.

Com que autoridade e com que bulas se decidiu nas Cortes Pseudo-Lusitanas que fosse abolido o Tribunal do S. Ofício? Por autoridade do Príncipe dos Mações ou Satanás, fielmente representado pelos seus Lugar-Tenentes, que dominavam o Congresso; e pelas bulas que assistiam a esse reformadores intrusos para levarem adiante quanto fosse impiedade e sacrilégio.
Um Tribunal instituído por autoridade Apostólica de acordo com o Império civil, como se vê da bula do S. Padre Paulo III expedida em 1536, debaixo dos auspícios e rogativas do Senhor D. João III, é deitado por terra sem que fosse ouvida a Sé Apostólica, nem o mui alto e mui poderoso Rei o Senhor D. João VI Rei de Portugal!!! Ora viva a Jurisprudência moderna, que ensinou e habilitou os Juízes leigos para fazerem impunemente destas maravilhas!! E querem que o mundo seja feliz enquanto houver tais abortos de maldade? Não, não... ele caminhará desenfreadamente ao último precipício; mas ai mil vezes, ai de quem se deixa perder neste labirinto de opiniões modernas, e tem por coisa indiferente provocar a ira de Deus! Não cuideis miseráveis Teólogos e misérrimos Canonistas, ainda tão contentes do melzinho que vos passou pelos beiços, não cuideis que estremeço, como vos sucede milhares de vezes, que me tenham por homem abusado, supersticioso, e ignorante, pois ainda no século 19 me abalanço a sustentar a causa desse Tribunal de sangue, que vós tachais de afronta e opróbrio da humanidade! Bem sei que o vosso predilecto Montesquieu, citado triunfalmente na Enciclopédia, chega a dizer que a maior prova alegável nos séculos futuros, para se defender que o século 18 ainda foi século de ignorância, é o existir em alguns Reinos da Europa o Tribunal do S. Ofício... mas que se me dá a mim deste sinalado precursor dos maiores ímpios que tem desonrado o Universo e a espécie humana? O grande espírito das leis bem pequeno se mostra em vários assuntos religiosos, e as Cartas Persanas estão bem longe de serem oráculos para quem tiver o juízo no seu lugar. A vossa enfiada de campanudos autores, desde o Protestante ou Remonstrante Limborch até ao moderno e trânsfuga Lorente, não me mete medo, nem eu o terei nunca a essas avantesmas literárias, que, tirado certo verniz que os abrilhanta, são bem pouco ou nada, e só tem valor no conceito de papalvos, que por terem cursado um aula elementar ou lido quatro regras de livros pequenos mui asseados e mui douradinhos, tem para si que ficaram arvorados em preceptores do género humano!! Chegámos a um tempo em que a verdadeira apologia do Tribunal do S. Ofício roda sobre um eixo firme e indestrutível, qual é o mais que Vatiniano ódio que lhe tem os Pedreiros Livres. É agora ocioso ir buscar no grande no incomparável S. Agostinho as provas da necessidade de se usar muitas vezes de coacção com os hereges, ou remeter os leitores para as muitas passagens das obras deste Santo Doutor e verdadeiro luminar da Igreja, que se a princípio foi sobremaneira estudioso do espírito de mansidão, veio depois a conhecer pela mais funesta experiência que também o medo repara grandes males, e grangeia muitos bens. Nós igualmente avisados pela experiência, conhecemos que a Seita Maçónica se encaminha por todas as artes e meios a lançar mão dos governos, para assim destruir mais comodamente a Igreja do Redentor, e que toda humana e filantrópica, só para se fazer benquista dos povos e adormecer os Soberanos, tem feito, quando lhe chega a ocasião, mais estragos num só dia do que fizeram os autos da Fé em duzentos anos. Tanta compaixão, tantas lágrimas pelo bem merecido suplício de um Judeu relapso, dogmatizante, e perturbador do sossego público, e tanta indiferença por esses centenares de Sacerdotes que foram septembrizados em 1792!! Se a França tivesse uma Inquisição vigilante, e cuidadosa de proibir maus livros, nunca se teria divulgado a Enciclopédia, e morreriam nas trevas ou no borrador de seus ímpios autores as blasfémias vomitadas no século 18 contra a santidade e verdade do Cristianismo. E que seria melhor, terem vinte Filósofos a sorte do Cavalheiro de la Barre, ou perecerem por sua causa bons três milhões de vítimas inocentes? É o espírito revolucionário quem perturba os Estados, quem alaga de ruínas e de sangue as cidades e os campos, e no meio de tudo isto merece perdão, e nunca deverá ser arguido de obstar aos progressos do entendimento, e à felicidade dos Impérios!! Os mais intolerantes de todos os sectários que bramem, espumam de raiva, apenas sonharam alguma espécie de resistência, e que levados de meras suspeitas, vexam, maltratam e desterram sem dizerem porquê, nem darem lugar à mais justa defesa... são estes, bom Deus, são estes os queixosos do mistério que se guarda nos processos do S. Ofício, e os que se atrevem a pintar com vivas cores o estado de violência, e de terror a que se chega facilmente, quando uma simples denúncia, uma suspeita fazem as vezes de prova suficiente para ser um homem inquietado e punido!! Lembra-me ao pensar nestas coisas que por ventura o século 19 estará incumbido da gloriosa missão de esgotar as incoerências todas, em que pode cair o espírito humano! Ora aqueles inimigos do Tribunal do S. Ofício partem sempre do que não sabem, nem se atreveram jamais a provar; e nós, seguindo melhor caminho, partimos de sucessos públicos e notórios; e só algum estúpido ou malvado é que não verá eclipsadas e sumidas de todo as antigas sevícias do Tribunal da Fé ante os males incomensuráveis que produziu e vai produzindo a escola de filantropia, a niveladora das condições e das fortunas, a restauradora do século de ouro, a Revolução Francesa.
Só teme a Inquisição quem é suspeito na Fé. Os bons, longe de a temerem, desejam ardentemente que ela se instaure e reassuma os seus direitos. Invejamos de presente a barbaridade dos nossos maiores, e sosseguem as nações estranhas a nosso respeito, escusam de lastimar a nossa ignorância e o nosso atrasamento, que nós teremos ainda mais razão para lastimarmos a sua deplorável cegueira, que só por efeitos dela é que os negócios da Fé se consideram os últimos, e se põem de parte quando é necessário atentar pelos interesses deste mundo. Antes queremos ser pobres, mas Católicos, do que senhores do universo, mas ímpios e libertinos. Se os estrangeiros clamarem, pondo as mãos na cabeça, que perpetrámos um crime de Lesa-Filosofia, nós lhe apontaremos um sem número de crimes de Lesa-Majestade Divina e humana. Honra-nos aquele crime, e os nossos incompetentes juízes deveriam assuntar-se destes últimos, porque cedo ou tarde hão-de ouvir a sentença de um juiz, que não dará quartel nem aos direitos públicos, nem aos sonhados interesses das Nações.
Antes que me chamem declamador, tocarei algumas espécies relativas à Inquisição deste Reino: sabemos quanto foi contrariada em seus princípios, e que a mais atroz calúnia forcejou desde então para a denegrir e aviltar. Sonharam que o embusteiro Sávedra, tomando as vestes, e a equipagem de um Legado a later, fingira Letras Apostólicas, e chegando à corte de Lisboa, conseguira estabelecer o Tribunal do S. Ofício, e abusar da conhecida piedade d'El-Rei D. João III. Tacharam de manhosos e cruéis os muitos perdões, que de autoridade Apostólica foram concedidos aos Judeus deste Reino; e para vermos com que espírito, e boa lógica procedem os adversários da Inquisição, basta dizer que Filipe Limborch no mesmo capítulo em que trata da Inquisição em Portugal, zomba daquelas graças como inúteis e prejudiciais à gente de Nação, e lá para o fim queixa-se de que não se renovassem mais vezes estes perdões, nem fossem atendidas as súplicas endereçadas à Cúria Romana pelos Judeus Portugueses nos fins do século dezassete. Ora aproveitam a condenação do Padre Vieira, que podia ser um grande homem, e abusar dos textos da Sagrada Escritura, seguindo nessa parte o depravado gosto daqueles tempos, e fazendo-se fortes com ela, pensam ter mostrado que o S. Ofício era um perseguidor tão injusto como aleivoso. Ora empregam a mesma condenação, graduando-a de espécie de oráculo para vexar, e atormentar os Jesuítas; e assim costumam inverter os factos para lhes servirem de apoio aos seus intentos e doutrinas. Choram aquele mau tempo dos Índices expurgatórios, que nos obstruía os canais de erudição, e da sabença, e quase nos fazia viver como Africanos selvagens no meio da Europa civilizada; e eu choro ainda mais, porque depois que se limparam e desentupiram esses canais, ainda vi partos literários dessa gente pedreira, que nos indemnizassem das lamentáveis ruínas causadas pela introdução das luzes neste Reino!! (*)

(continuação, Parte II)

(*) Não repito agora o que já disse numa carta que debaixo do nome de = Académico religioso = saiu impressa no número quarto da Mnemosine Lusitana de 4 de Janeiro de 1821, onde mostrei evidentemente que a história verdadeira de Cornélia Bororquia, ou a Vítima da Inquisição, era uma fábula que nesse tempo se assoalhou neste Reino, para dispor os ânimos a fim de que não se estranhasse a extinção do S. Ofício.

1 comentário:

Pedro Oliveira disse...

Ora bem "Com que autoridade e com que bulas se decidiu nas Cortes Pseudo-Lusitanas que fosse abolido o Tribunal do S. Ofício? "

E os tradicionalistas brasileiros a seguirem a versão do demónão D. Pedro I, o qual tinha dado estas Côrtes como legítimas.... por aqui se viu quem eram os amigos que o andavam a "informar". Caros amigos tradicionalistas do Brasil.... essas "Côrtes" foram uma invenção da aventalada, o mesmo as de Cadis na Espanha.