Bancocracia: Um episódio sintomático


Em Dezembro de 2004, cinco meses após ter dado posse ao Governo liderado por Pedro Santana Lopes, o então Presidente da República, Jorge Sampaio, demitiu o mesmo Governo e convocou eleições antecipadas. Um estranho caso explicado pelo próprio Santana Lopes em entrevista à Rádio Renascença, a 16 de Março de 2017:

Como é que em 13 anos nunca houve o "porquê"? Disse que nunca teve essa resposta, mas também nunca a procurou.
Não, não a procurei. Porque nunca tive dúvidas de que aquilo foi uma decisão política deliberada. Atenção, Jorge Sampaio era o Presidente da República. Mas o que tem que ser explicado é quem apoiou Jorge Sampaio nessa decisão. E porquê! Jorge Sampaio tomou essa decisão na noite da COTEC [associação empresarial constituída por iniciativa de Jorge Sampaio], grupo empresarial que se reúne de quando em vez. E foi dito e redito por pressão de alguns empresários e banqueiros.
Se havia uma coisa que o Governo fazia nessa altura era "cair em cima" da banca. Tenho muito respeito pelo sector financeiro, por todo o trabalho que realizam, mas sempre tive a ideia de que é o poder político que manda no económico e não o contrário. Uma semana antes, recebi os banqueiros todos em São Bento, com o ministro das Finanças, quando foram protestar contra as decisões do meu Governo de aumentar os impostos sobre a banca e de exigir mais elementos na contabilidade da banca para prestação de contas.

A banca forçou este desfecho?
Alguma banca, algum sector financeiro e alguns empresários. Aliás, julgo que isso também está referido no livro. Isto não foi o povo. Vêm depois dizer que o povo veio dar razão a Jorge Sampaio? Ouça lá, na véspera da dissolução – eu já trabalhei com muitos primeiros-ministros, para além de mim próprio, como diria o outro – e nunca vi, digo-o sem presunção, uma recepção a um primeiro-ministro como tive no domingo anterior à dissolução em Trás-os-Montes. Nunca vi. Portanto, não foi o povo que exigiu a dissolução! O povo não estava nas ruas, não havia protestos, não havia ruptura social. Isto foi uma conspiração de "corte" em Lisboa. Porque já sabiam que eu não aceitava ordens, nem sou comprável!

O Estado Novo não era republicano


A Revolução de 28 de Maio não abriu um novo capítulo na conturbada história da República, deu origem a um outro regime, bem diferente daquele que os revoltosos da Rotunda impuseram pela força ao nosso País.
Aconteceu que, constitucionalmente, o regime salazarista conservou o nome de república, herdado da situação anterior: mas isso não quer dizer nada porque a palavra em si não tem significado especial, o que importa realmente é o qualificativo que acompanha a referida expressão. A República Corporativa, como estabelece a Constituição Política do Estado, perdeu a maior parte dos vícios inerentes ao sistema demo-liberal e preservou a essência monárquica do Poder, afastando da plebe a escolha dos governantes. Neste sentido, a república corporativa é muito mais autoritária e monárquica do que certos reinos minados pelo cancro democrático.

Luís Fernandes in jornal «Agora», 26 de Outubro de 1968.


Nota: Parece-me imprópria a designação "Revolução de 28 de Maio". Mais correcto seria chamar Contra-Revolução, pois foi um restabelecimento da ordem social e política, contra os erros liberais e republicanos.

Da natureza da Freguesia


FREGUESIA
DIR. Portugal. Agregado de famílias que, dentro do território municipal, desenvolve uma acção comum por intermédio de órgãos próprios. A freguesia é uma pessoa moral de direito público. Há freguesias urbanas e freguesias rurais. Os órgãos da administração paroquial são as famílias, representadas pelos seus chefes, e a junta de freguesia. Em cada freguesia há um regedor, que representa a autoridade municipal e depende directamente do presidente da câmara. São atribuições paroquiais a organização e revisão anual dos recenseamentos dos chefes de família e dos pobres e indigentes, e a administração dos cemitérios existentes fora da sede do concelho. Tem particular importância, nas atribuições paroquiais, a administração dos bens comuns – como baldios e águas públicas.
REL. Ou paróquia. Segundo o direito canónico, é cada uma das partes em que se divide o território de uma diocese e que possui uma igreja própria, com povo determinado, tendo à frente um pastor (pároco, cura, abade) devidamente comissionado (cânone 216).

Fonte: «Focus: Enciclopédia Internacional», Volume II, 1965/1970.

Conde D. Henrique


Destes Henrique, dizem que segundo
Filho de um Rei da Hungria experimentado
Portugal houve em sorte, que no mundo
Então não era ilustre nem prezado;
E, para mais sinal de amor profundo,
Quis o Rei Castelhano que casado
Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
E com ela das terras tomou posse.

Este, depois que contra os descendentes
Da escrava Agar, vitórias grandes teve,
Ganhando muitas terras adjacentes.
Fazendo o que a seu forte peito deve,
Em prémio destes feitos excelentes
Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
Um filho, que ilustrasse o nome ufano
Do belicoso Reino Lusitano.

Luís de Camões in «Os Lusíadas», 1572.

§

Começa a Quaresma


Tende piedade de mim, ó Deus, pela Vossa misericórdia! Pela Vossa imensa piedade, apagai a minha iniquidade!
Lavai-me todo da minha culpa e limpai-me do meu pecado.
Eu reconheço a minha iniquidade e tenho sempre à vista o meu pecado!
Foi só contra Vós que eu pequei e fiz o mal que está à Vossa vista!
Por isso sois justo na Vossa sentença e recto no Vosso juízo.
Aqui estou eu nascido na culpa, e a quem minha mãe concebeu no pecado!
Aí estais Vós, que Vos agradais de um coração sincero, e que no meu íntimo me ensinais a sabedoria!
Aspergi-me com o hissope e ficarei limpo; lavai-me e ficarei mais branco do que a neve!
Fazei-me ouvir uma palavra de alegria e gozo, e que exultem estes ossos por Vós triturados!
Desviai o Vosso olhar dos meus pecados e apagai todas as minhas culpas.
Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei renascer em mim um espírito decidido.
Não me queirais repelir da Vossa face e não me retireis o Vosso santo Espírito.
Dai-me a alegria de por Vós ser salvo e consolidai-me com um espírito generoso!
Hei-de ensinar aos maus os Vossos caminhos, e os pecadores hão-de voltar-se para Vós!
Deus, ó Deus, meu Salvador, livrai-me dos castigos sanguinários e que a minha língua exulte com a Vossa justiça!
Vós, Senhor, descerrareis os meus lábios e a minha boca publicará os Vossos louvores!
Porque não é só no sacrifício que Vós Vos comprazeis; e o holocausto não o aceitaríeis, se eu Vo-lo oferecesse.
O meu sacrifício, ó Deus, é um espírito contrito; e Vós não desprezais, ó Deus, o coração contrito e humilhado!
Pela Vossa bondade, Senhor, sede propício para com Sião, reconstruindo os muros de Jerusalém.
Então aceitareis os sacrifícios legais, as oblações e os holocaustos; então serão oferecidos novilhos sobre o Vosso altar!

Salmo 50

O Punhal dos Corcundas Nº 20 (III)

(continuação da Parte II)


Texto

O primeiro que teve a desgraça de ser Inquisidor Geral foi um irmão de El-Rei, foi o Cardeal Henrique.

Censura e comentário

Mente e comete um erro de palmatória... E são estes os que profundavam as matérias e levavam o recadinho estudado!!! O primeiro Inquisidor-geral foi D. Fr. Diogo da Silva, Bispo de Septa ou Ceuta, o confessor d'El-Rei, como se vê na bula de instituição, que vem na pág. 713 do tomo 2º das Provas da História Genealógica, e só passado bons três anos é que entrou para Inquisidor-geral o Cardeal Infante D. Henrique, por ter passado para Arcebispo de Braga o primeiro Inquisidor-mor, que assim lhe chamavam nesse tempo.

Texto

Era lícito a toda a pessoa, por mais perversa que fosse, ser denunciante ou acusador, e as acusações eram recebidas apesar da incoerência das testemunhas.

Censura e comentário

Já notei que o último Regimento do Tribunal é cheio de circunspecção e cautelas a este propósito, e como tal merece os forçados elogios da própria sabedoria do século. Não tenho à mão a celebérrima narrativa da perseguição, ou o quer que é, do Irmão Hipólito José da Costa, onde se lêem por inteiro os dois últimos Regimentos; só me foi possível examinar o que foi dado pelo Inquisidor-geral D. Pedro de Castilho, o que é tanto melhor para o meu intento, por ser o tachado na própria sessão de Código horrível, Código de sangue, etc. No capítulo 9º fol. 8 v. lemo o seguinte: "Por uma só testemunha se não procederá a prisão ordinariamente, salvo quando parecer aos Inquisidores que é caso para isso, e a testemunha é de crédito, e que fala verdade...". Já no capítulo 3º fol. 8 se tinha advertido que não se procedesse fogosa e precipitadamente; e no capítulo 5º se recomendava o seguinte: "Assim mesmo se olhará muito a qualidade do caso e da pessoa, e os Inquisidores farão diligência sobre o crédito que devem dar às testemunhas, antes que procedam à prisão, como em negócio de tanta importância se quer, e o mesmo farão em todas as mais testemunhas que perguntarem", etc.
Ora este Regimento foi impresso em 1613, e já nesse tempo era fácil destruir as objecções do homem do carro.

Texto

Jazia o preso num espaço menor que aquele onde se põem os mortos. (Aqui entraram de chusma as polés, cavaletes, ferros em brasa, etc., etc., etc.)

Censura e comentário

Já o apanhei onde o queria ver, para o zurzir à minha vontade. As prisões do Santo Ofício eram mais escuras que apertadas, e se havia lá segredos, calabouços e prisões subterrâneas, imitava nessa parte o que ainda não reprovaram os Tribunais civis quando se trata de crimes de traição ou lesa-Majestade humana... prisões mais estreitas que o jazigo dos mortos, ah! que bem cabiam neste rasgo de eloquência Cicerónica essas lágrimas de pura sensibilidade, com que outro ainda mais conspícuo arengador devia molhar daí a poucos minutos o sagrado recinto!!! Eu não tive a curiosidade de ver os cárceres do Santo Ofício de Coimbra, antes me escandalizei muito de que várias pessoas, e nomeadamente alguns Sacerdotes seculares e regulares, acudissem a uma revista ou exame, que era um dos principais triunfos da Pedreirada; mas sei de pessoas que examinaram os cárceres sem prevenção, e que os não viram pelo microscópio da libertinagem e da impiedade, que eles nem ao longe se parecem com o termo de comparação, que lhes assinou o valente orador que vou refutando... No que toca aos horrorosos tratos de polés e cavaletes, etc., etc., serei um pouco mais extenso... A moderação, e quase extinção de tortura, deveu-se em tempos mais antigos à em tudo benfazeja influência do Cristianismo, e o que se tem escrito de melhor neste assunto foi roubado das obras de Santo Agostinhos, sem que até agora tenham confessado a obrigação em que está o Género humano ao eruditíssimo autor dos livros imortais De Civitate Dei. Apesar disto, ficou pertencendo esta glória ao Marquês de Beccaria, apregoado em todos os cantos da Europa, e levado até às nuvens por ter feito acabar esses opróbrios da humanidade... Deu-me agora na vontade referir certas anedotas sobre o livro e o carácter do tal Marquês, para vermos a coerência com que procedem em tudo os Filósofos modernos...
Depois da condenação do réu Calas, que deu tamanho brado na França e na Europa, lembraram-se os Enciclopedistas que era uma boa ocasião de assoalhar alguns princípios que ainda se ensinavam às ocultas, e para este fim escreveram a um Frade Barnabita de Milão, que era Matemático e sócio da irmandade, pedindo-lhe que fizesse disparar a artilharia grossa Italiana sobre o rigor das penas, e sobre a tolerância, que em bom Português quer dizer guerra ao Trono, guerra ao Altar, e que os irmão de Paris teriam cuidado de sustentar o crédito da Obrinha, e fazê-la voar até aos últimos confins da terra... A carta era de Mr. Condorcet (Que herói!!!), e foi lida perante os sócios da Assembleia denominada do Café... id est. Loja – Fortaleza, Loja – Regeneração, ou como outras da mesma farinha. Todos encolheram os ombros, e ninguém aceitava a comissão filosófica, que estava em perigo de falhar, quando um Filósofo medíocre, o Marquês de Beccaria, com grande pasmo do auditório, que o reconhecia por incapaz de tamanha empresa, disse que a aceitava. Compôs o livro dos Delitos e penas, mandou-o à Confraria Parisiense, onde era esperado com ânsia... porém Mr. de Alembert enojou-se tanto de o ler, que o não pôde levar ao fim. Assentou-se que convinha refundi-lo e ataviá-lo à francesa, e foi o Abade Morellet quem se encarregou do novo trabalho, que apenas saiu a lume, foi comentado por Voltaire, premiado extraordinariamente pela Academia de Berne, chamado o Suplemento do Espírito das Leis, e a quinta-essência da Jurisprudência criminal, quando o melhor que ele contém foi apanhado da Utopia de Tomás Moro, e do próprio Montesquieu, que já fizera a mesma colheita nas obras de João Bodin. Disse pois o que basta e sobeja quanto ao livro; pintarei uma palavra no tocante ao Autor. Adoeceu-lhe a Marquesa sua mulher em Turano, nas terras do Conde Calderari, amigo do Marquês, que lhe mandou para a verem o Doutor Moscati, e o Médico D. Félix Mainoni, os quais, ao passarem no vale Marignano, foram investidos e saqueados por três salteadores, cujo capitão se chamava Sartorello... Requereram os tais Doutores ao Marquês uma indemnização desta perda, e conseguintemente o Marquês pôs toda a diligência para serem presos os criminosos, e com efeitos o capitão Sartorello caiu nas mãos da justiça, mas negava tudo a pé junto, e as testemunhas não estavam certas das feições dos salteadores, o que punha os Juízes em grande hesitação, sem atinarem o modo de satisfazerem o Marquês... Foi ele próprio que sugeriu o expediente para os desenredar daquela perplexidade. E qual seria? Nada menos que a tortura!!! O que é tanto mais para estranhar, quanto é certo que na Lombardia só em casos extraordinários a infligiam!! Segue-se pois de duas uma, ou Mr. Beccaria, Professor de direito humano, obrou mal quando impugnava a tortura, ou fez ainda pior quando a inculcou aos Juízes no sobredito caso. Enfim nada é tão ordinário nesta casta de gente, como vermos um Frederico II curando nos seus soldados a mania do suicídio pela assistência às leituras do Evangelho, um Voltaire tirando cartas de excomunhão do Cura da sua freguesia para empecer a destruição das árvores da sua mata de Ferney, e um Dufriche-Valazé (se bem me lembro) votando de morte na causa de Luís XVI, depois de ter defendido nas suas obras que a pena de morte era um atentado contra os direitos do homem, etc., etc., etc. A Inquisição, tornando agora ao ponto essencial, há muito que não usava de polés, nem cavaletes, que só existiam mais para incutirem susto do que para se usarem; e um dos tais Preopinantes, que podia falar com sobejo conhecimento de causa, não duvidou afirmar que a Inquisição se tinha amoldado às opiniões do século, e já não era tão rigorosa como dantes: logo para que era temer sevícias já inteiramente desusadas, para que era aborrecer uma instituição que nas matérias penais caminhava a par das luzes do século? Responda.

(continuação, Parte IV)

A Igreja e a Juventude (I)


Mudança na Igreja pós-Conciliar em relação à juventude. Delicadeza da obra educativa.

Outros aspectos da realidade humana também são contemplados com visão distinta pela Igreja após o Concílio. Da nova consideração sobre a juventude, existia já um sinal indirecto na deminutio capitis infligida à ancianidade na Ingravescentem aetatem de Paulo VI. Mas outros documentos expressam directamente este novo ponto de vista.
A filosofia, a moral, a arte e o senso-comum, ab antiquo até ao nosso tempo, consideraram a juventude como uma idade de imperfeição natural e de imperfeição moral. Santo Agostinho, que no sermão Ad iuvenes escreve flos aetatis, periculum tentationis (P.L. 39, 1796), insistindo depois na imperfeição moral chega a chamar estultícia e loucura ao desejo de repuerascere.
Devido à debilidade da sua razão, ainda não consolidada, o jovem é cereus in vitium flecti (Horácio, Ars poet., 163) e a sua menoridade reclama um tutor, um conselheiro e um mestre. Com efeito, faz-lhe falta luz para dar-se conta do destino moral da vida, assim como uma ajuda prática para transformar-se e moldar as inclinações naturais da pessoa sobre a ordem racional. Esta ideia foi colocada como fundamento da pedagogia católica por todos os grandes educadores, desde São Bento de Núrsia a Santo Inácio de Loiola, de São José de Calasanz até São João Baptista de La Salle ou São João Bosco.
O jovem é um sujeito na posse de livre-arbítrio e deve ser formado para exercê-lo de maneira que, escolhendo o cumprimento do dever (a religião não dá à vida outro propósito), se determine a si mesmo escolher esse unum, para o qual precisamente nos é dada a liberdade. A delicadeza da acção educativa deriva de ter como objecto um ser que é um sujeito, e como fim a perfeição deste. Em suma, é uma acção sobre a liberdade humana, que não a limita, mas que a produz. Sob este aspecto, a acção educativa é uma imitação da causalidade divina, a qual, segundo a doutrina tomista, produz a acção livre do homem precisamente enquanto livre.
A conduta da Igreja face à juventude não pode, por conseguinte, prescindir da oposição entre os seguintes elementos correlativos: quem é imperfeito ante quem é perfeito (relativamente, entenda-se), e quem não sabe, e portanto aprende, ante quem sabe (relativamente, entenda-se). Não pode deixar-se de lado a diferença entre as coisas e tratar os jovens como maduros, aos proficientes como perfeitos, aos menores como maiores, e, em última análise, ao dependente como independente.

Características da juventude. Crítica da vida como alegria.

Também em relação à juventude, a profunda doutrina tomista da potência e do acto serve de guia ao estudioso das realidades humanas, sustentando-a na busca das características essenciais desta idade da vida, e preservando-a do desvio que a conduzem as opiniões hoje dominantes.
Sendo a juventude uma vida incipiente, é necessário que compreenda e lhe seja explicado o todo da vida, isto é: o fim no qual a virtualidade do incipiente deve realizar-se, e a forma na qual a potência deve desenvolver-se. A vida é difícil, ou se quiser, séria. Em primeiro lugar, porque o homem é uma natureza débil, em combate com a sua finitude no meio da finitude de outros homens e da finitude das coisas (que tendem a invadir-se mutuamente).
Em segundo lugar (e isto é um dado de fé católica), o homem está corrompido e tende ao mal. E a causa das más inclinações, a condição da vida humana, atraída por motivos opostos, é uma condição de milícia, ou melhor, de guerra, ou melhor ainda, de cerco.
A vida é difícil, e as coisas difíceis são as coisas interessantes, porque o interessante está situado na essência (inter-est), dada como potência e que quer sair e explicitar-se.
O homem não deve realizar-se (como se costuma dizer), mas sim realizar os valores para os quais foi criado e que exigem a sua transformação. E é curioso que apesar da teologia pós-conciliar utilizar a palavra metanóia, que quer dizer transformação da mente, dê tanta ênfase à realização de si mesmo. Seguir as inclinações é suave; castigar o próprio Eu para o moldar, é duro. Tal dureza foi reconhecida na filosofia, na poesia gnómica, na política, no mito. Todo o bem é adquirido ou conquistado com fadiga. Os deuses, disse o sábio grego, interpuseram o suor entre nós e a virtude, e afirma Horácio: multa tulit fecitque puer, sudavit et alsit (Ars poet. 413). Que a vida humana é combate e fadiga era um lugar-comum da educação antiga e a letra épsilon converteu-se no símbolo disso, não a de dois braços igualmente inclinados, mas a pitagórica com um braço recto e outro inclinado. A antiguidade formou sobre ela a divulgadíssima fábula de Hércules na encruzilhada.
Hoje apresenta-se a vida aos jovens de um modo não realista, como alegria, substituindo a alegria da esperança que serena o ânimo in via, pela alegria plena que o apaga somente in termino. Nega-se ou dissimula-se a dureza do viver humano, descrita em tempos como vale de lágrimas nas orações mais frequentes. E depois, com essa mudança, apresenta-se a felicidade como o estado próprio do homem, constituindo assim algo que lhe é devido, o ideal consiste em preparar aos jovens uma senda livre de todo o obstáculo e sofrimento (Purg., XXXIII, 42).
Por isso, aos jovens, parece uma injustiça qualquer obstáculo que lhes surge, e não consideram as barreiras como uma prova, mas como um escândalo. Os adultos abandonaram o exercício da autoridade para deste modo agradar-lhes, porque crêem que não podem ser amados se não se comportam com suavidade e não lhes concedem os seus caprichos. A eles é dirigida a admoestação do Profeta: Vae quae consuunt pulvillos sub omni cubito manus et faciunt cervicalia sub capite universae aetatis ad capiendas animas (Ez. 13, 18).


Romano Amerio in «Iota Unum», 1985.

§

Tradução das expressões latinas mais relevantes:
Deminutio capitis – Diminuição de capital.
Ab antiquo – Da antiguidade.
Ad iuvenes – Aos jovens.
Flos aetatis, periculum tentationis – Flor da idade, perigosas tentações.
Repuerascere – Rejuvenescimento.
Cereus in vitium flecti – Cera inclinada pelo vício.
Inter est – Entre o ser.
Multa tulit fecitque puer, sudavit et alsit – Suportou e fez muito quando menino, suou e passou frio.
Vae quae consuunt pulvillos sub omni cubito manus et faciunt cervicalia sub capite universae aetatis ad capiendas animas – Ai daquelas que cosem almofadas para todos os cotovelos e fazem travesseiros para as cabeças de pessoas de todas as idades, a fim de lhes apanharem as almas!

Assim começa a "Imitação de Cristo"...


Capítulo I – Da Imitação de Cristo pelo desprezo de todas as vaidades do mundo

Quem Me segue não anda em trevas. São palavras com que Jesus Cristo nos exorta à imitação da Sua vida e dos Seus costumes, se quisermos ser verdadeiramente esclarecidos e livres de toda a cegueira do coração. O nosso empenho deve, portanto, consistir em meditar profundamente a vida de Nosso Senhor.

A Sua doutrina excede as de todos os santos. Quem dela tiver o espírito, nela achará um maná escondido. Por falta desse espírito é que muitos, ainda que ouvindo frequentemente o Evangelho, estão pouco inclinados para Ele. Quem quiser, entretanto, entendê-Lo com perfeição, procure conformar a sua vida à vida do seu Autor.

De que te serve debater altas coisas sobre a Trindade, se pela tua soberba desagradas a essa mesma Trindade? Não é o saber sublime que torna o homem santo e justo, mas uma vida inocente o faz agradável a Deus.
Antes quero ter a compunção do que saber defini-la. Se soubesses de cor toda a Bíblia e fosses versado nas doutrinas de todos os filósofos, de que te aproveitaria tudo isto, sem o amor e a graça de Deus? Tudo o que não é amar e servir a Deus é vaidade das vaidades. A suprema sabedoria consiste em caminhar para o Céu pelo desprezo do mundo.

É, pois, vaidade procurar riquezas caducas e nelas pôr a esperança. É vaidade pretender honras e altas posições. É vaidade seguir os apetites da carne e desejar aquilo que se deve contrariar e castigar. É vaidade desejar vida larga e tratar pouco de que seja boa. É vaidade atender somente a vida presente e não prever a futura. É vaidade amar o que passa com tanta ligeireza e não aspirar a uma felicidade que sempre dure.

Lembra-te amiúde do que diz o Eclesiastes: «O olho não se cansa de ver nem o ouvido de ouvir». Procura, pois, desprender o teu coração das coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis, porque os que se entregam à sensualidade mancham a consciência e perdem a graça de Deus.

Fr. Tomás de Kempis in «Imitação de Cristo», Livro I, 1441.

Plutocracia

A dívida mundial supera em mais de 3X a riqueza produzida no mundo.

Suponhamos que sou um banqueiro e que empresto 1000 dólares a John Smith, com a garantia da sua fábrica. A seguir, retiro uma parte dos meus outros empréstimos, diminuindo assim o poder de compra na região onde John Smith montou o seu negócio. Em consequência dessa contracção do poder de compra, de "procura", os preços baixarão e John Smith deixará de ganhar dinheiro. Como tem que pagar-me os juros do empréstimo que lhe fiz, começa por reduzir no pessoal e a instalar maquinaria que poupe mão-de-obra. Mas eu continuo a reduzir os meus empréstimos. Os preços continuam a baixar e, no final, John Smith fica sem recursos. Diz-me que não pode continuar a pagar os juros. Então, hipoteco-lhe a fábrica e ponho-a à venda. Faço-lhe uma oferta de 800 dólares, quantia que servirá para pagar o empréstimo que lhe fiz. Um pouco mais tarde começo a emprestar de novo, e os preços voltam a subir. A fábrica de John Smith tem agora muito valor, uma vez que voltou a aumentar – proporcionando poder de compra – a chamada "procura" do que ele fabricava. De maneira que vendo-lhe agora a fábrica por 5000 dólares, metendo ao bolso, "com toda a legalidade", 4000 dólares.

Arthur Nelson Field in «The Truth about the Slump», 1931.