El-Rei Dom João I conquista a Praça de Ceuta


Na volta da famosa Cidade de Ceuta navegava o invictíssimo Rei de Portugal Dom João I com poderosa Armada, e sobre vinte e sete dias de viagem, e depois de vários acidentes que a inconstância do mar costuma trazer consigo, chegou finalmente à vista da mesma Cidade, e ao sair do Sol deste ditoso dia [21 de Agosto], ano de 1415, saiu também El-Rei (bizarro Sol Português) da Galé Capitania, e metido em um bergantim, discorreu pela Armada velozmente, influindo com a sua presença tão briosos espíritos nos Capitães e soldados, que já todos esperavam o sinal das trombetas, com impaciente ardor; Feriram elas os ares e ao mesmo tempo cortaram os Portugueses as ondas na volta da terra. Foram dos primeiros, os Infantes Dom Duarte e Dom Henrique, ansiosos de conseguirem naquela facção a imortalidade da fama, que se deve, não aos altos nascimentos, senão aos feitos ilustres; Saltaram do primeiro ímpeto seis Portugueses na praia, onde competia com o número das áreas o dos bárbaros: Logo cresceram os nossos a cento e cinquenta, e estes feitos em um corpo, carregaram aos inimigos com tão vigorosa impressão, que os fizeram ceder e retroceder um bom espaço; Entretanto foi concorrendo a nossa soldadesca, e sendo já trezentos (tudo gente nobre e escolhida) renovando o conflito, foram levando os Mouros às lançadas até uma porta da Cidade, e vendo desordem e confusão com que entravam nela, resolveram os Infantes entrar com eles de volta a todo o risco, e apelidando São Jorge e vitória, se travou um batalha horrível: Pelejavam os Mouros em defesa da pátria, da lei, da liberdade, da fazenda, da vida, das mulheres e dos filhos, e não duvidavam de oferecer-se à morte por motivos tão grandes: Os Portugueses traziam diante dos olhos o nome e reputação do seu Rei, a glória da Nação, tantas vezes vencedora dos infiéis, o triunfo da Fé, o aplauso da Cristandade toda, que toda estava absorta na expectação dos efeitos que nasciam de um tão estrondoso aparato; À medida destas considerações, era obstinadíssima, de uma e outra parte a contenda: Nos Portugueses excedia o valor, nos Mouros a multidão: Pelejavam estes cobertos dos muros e do alto deles choviam pedras e outras armas de arremesso sobre os nossos: Os mais valerosos acudiam a defender a porta, como posto onde consistia a suma facção; sobre os corpos despedaçados de uns, se ofereciam outros de boamente aos mesmos perigos; O aperto da gente era infinito, os brados e os golpes enchiam o ar de horror, a terra de mortandade; Mas posto que os defensores fizeram quanto deviam ao valor e ainda à desesperação, não puderam fechar a porta, nem impedir a entrada dos Portugueses na Cidade; Entrados em número de quinhentos e postos em um teso, esperavam o grosso do Exército para darem glorioso fim a princípios tão felizes; Então foi quando o Infante Dom Henrique, acompanhado de poucos, se entranhou sobejamente pelas ruas da Cidade, e encontrado com um esquadrão inimigo, se viu em pontos de perder a liberdade ou a vida, e com efeito se divulgou que era morto, notícia que El-Rei ouviu com ânimo constante: Ou porque era menor para sentir aquela perda, quando se achava com as armas nas mãos para vingá-la: Ou porque aquela morte em serviço da Fé e do seu Rei, mais era para invejada que sentida; Por outra parte Vasco Fernandes de Ataíde, Cavaleiro nobilíssimo, não contente de seguir aos mais, investiu com poucos companheiros outra porta, e sobre duríssima resistência a rompeu e entrou na Cidade, a qual acometida já por duas partes quase ao mesmo tempo e logo inundada pelos esquadrões que seguiam a pessoa d'el-Rei, se rendeu inteiramente dentro em poucas horas, e nas mais altas torres dela, se viram tremolando as vitoriosas Quinas de Portugal, as quais batidas dos ventos, apregoavam juntamente e aplaudiam triunfo tão glorioso. Logo El-Rei mandou purificar a Mesquita e consagrada ao culto do Senhor dos Exércitos lhe deu nela as devidas graças por favor tão singular: Armou Cavaleiros aos Infantes Dom Duarte e Dom Henrique e a outros Capitães e Soldados ilustres. Entre todos tiveram maior parte na glória desta empresa os mesmos Infantes e seu irmão o Senhor Dom Afonso; Mas singularmente sobressaiu nas provas do valor e dos perigos o Infante Dom Henrique, e com o sangue (que lhe corria de muitas feridas) esmaltou e enobreceu a fama e reputação do seu nome. É também digno de imortal memória o já nomeado Vasco Fernandes de Ataíde, que morreu pelejando com extremadíssimo valor. Morreram mais seis Portugueses, e se teve por evidente maravilha, que entre tantos perigos, perigassem tão poucos. É Ceuta uma das mais antigas Cidades (outros dizem a mais antiga) de toda a África: Desde os seus princípios foi célebre pela fortaleza do sítio e opulência do comércio; Foi Cabeça da Mauritânia em tempo dos Romanos; Depois na declinação destes a dominaram os Godos; E na destruição de Espanha [Península Ibérica] em tempo d'el-Rei Dom Rodrigo, ficaram os Mouros senhores dela; Até que sobre mais de setecentos anos de posse, lha arrancaram das mãos os Portugueses, neste dia, em quarta-feira, do ano referido. Soou por todo o Orbe a fama dos Portugueses que os levantava sobre as estrelas e El-Rei foi cumprimentado de todos os Príncipes da Cristandade, e por toda ela se ouviam repetidos os aplausos e os vivas ao seu valor e fortuna.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

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