Os inimigos mais perigosos da sociedade são, sem dúvida, os socialistas, porque tendem à destruição da mesma sociedade. Rebuçados no manto hipócrita do amor popular, passam a vida prégando igualdade, fraternidade e democracia, acirrando os ânimos do povo contra toda a propriedade, que apelidam roubo. E o povo, ao ouvir adular suas paixões, acredita na mentirosa sinceridade de seus oradores, prorrompendo muitas vezes em aplausos e aclamações, sem se lembrar que o que ele aplaude é o egoísmo e a ambição de poucos, que debaixo de belas aparências, ocultam os seus interesses e vergonhosos instintos.
É prova disto o célebre propagador do socialismo científico, Frederico Engels, falecido este ano em Londres. Discípulo de Carlos Marx, e continuador de suas obras, repetia sem cessar as fogosas palavras de seu mestre: «O capital vem ao mundo jorrando sangue e lodo por todos os poros, desde os pés até à cabeça».
Ninguém acreditaria que este campeão da democracia tinha bolsa própria, quando ainda só o nome de próprio o arrebatava em cóleras e iras.
O capital, eis o inimigo, que a todos apontava e contra o qual todo se desfazia em invectivas baptizando-o com os apelidos de roubo da sociedade, suor do pobre, sangue do operário, e mais epítetos que não falecem no vocabulário socialista. Mas a hipocrisia foi desvendada, porque ao abrir-se o testamento do célebre socialista, verificou-se que possuía uma fortuna em bens móveis de 623.875 francos e em bens imóveis 620.975, isto é, 1.244.840 francos (cerca de 224.073$000 reis).
Eis aí um dos chefes mais conspícuos, um dos partidários mais entusiastas, um dos mais incansáveis apóstolos do socialismo, que deixa ao morrer mais de 224 contos de reis! Não era o amor do pobre que o fazia invectivar o capital, mas o baixo e ruim vício do egoísmo, da ambição e mil outros lhe acendiam o ânimo contra a legítima propriedade.
Amigos destes tem muitos também o nosso povo português, os quais não cessam de lhe falar em liberdade, igualdade e fraternidade para melhor o enganar e iludir.
Fonte: «Voz de S. António: Revista Mensal Ilustrada», 1º Ano, Nº 12, Dezembro de 1895.

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