Em algumas memórias antigas e particularmente no livro das Armas composto por António Soares de Albergaria, se acha que as Armas antigas do Reino de Portugal eram uma Cidade branca em campo azul, sobre ondas verdes e douradas, em memória do Porto de Gale que lhe deu princípio, junto da foz do Rio Douro. Cessaram estas Armas tanto quando o Conde D. Henrique entrou no Senhorio de Portugal, porque este Príncipe usou algum tempo de um escudo branco somente, sem figura nem divisa alguma. Depois assentou no escudo uma Cruz azul, daquele feitio a que na frase de Armaria chamam Potetea. Destas mesmas Armas usou seu filho el-Rei D. Afonso Henriques, até que Cristo Senhor nosso, querendo fundar no Reino de Portugal uma Monarquia singularmente Sua, no ano de mil cento e trinta e nove do Seu Nascimento, estando o dito Príncipe recolhido na sua tenda, na noite antecedente à batalha em que venceu cinco Reis Mouros e lhes tomou cinco bandeiras e cinco escudos, lhe apareceu cercado de resplendores, e depois de lhe prometer grandes vitórias contra os infiéis, lhe deu com o título de Rei suas cinco Chagas por Armas, e os trinta dinheiros porque foi vendido aos Judeus. Seguiu-se ao outro dia a vitória e foi aclamado Rei de Portugal o Príncipe D. Afonso Henriques, não só pelo exército, mas pelos povos nas Cortes que logo celebrou em Lamego; e fazendo solene juramento em Coimbra deste sucesso a vinte e nove de Outubro, ano de mil cento cinquenta e dois, mandou a seus descendentes que trouxessem por Armas cinco escudos postos em Cruz, e em cada um deles os trinta dinheiros; Timbre a Serpente de Moisés, por ser figura de Cristo. Por diferentes modos organizaram este escudo das Armas os Reis antigos de Portugal, até que ultimamente el-Rei D. João II o formou pela ordem com que hoje o vemos, e em campo de prata cinco escudos azuis postos em Cruz; e em cada escudo cinco dinheiros de prata em aspa. Representam os cinco escudos as cinco Chagas, e estes contados segunda vez com os vinte e cinco dinheiros, fazem trinta, porque foi vendido Cristo aos Judeus. El-Rei D. Afonso III lhe acrescentou por orla sete castelos de prata em campo de sangue, que são as Armas do Reino do Algarve.
Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo VII, 1720.

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