O Rei e o Tirano


Bastante se disse já sobre o que separa um Rei de um Tirano. É Rei o que obedece à inspiração divina, segue os ditames da recta razão, promove a justiça, reprime os crimes e as fraudes, observando em tudo a devida ordem e medida.
É Rei o que consegue impor-se a toda a Nação pelos merecimentos de suas virtudes; o que todos os perigos afronta para salvar a pátria; o que, aspirando à posse da eterna glória, chega a desprezar a morte para alcançar a imortalidade.
Será, pelo contrário, Tirano, aquele que não atender a Deus, enjeitar os ditames da razão, der guarida à impureza e ao prazer; o que violar as leis divinas e humanas, e recorrer ao dolo e à simulação.
Será Tirano quem trocar a verdadeira dignidade por uma falsa aparência de decoro; o que julgar ter-se desempenhado cabalmente da sua função quando, dominando pela força, tiver aterrado e pilhado todo o povo para aumentar seus cabedais, recorrendo a violências e fraudes. Portanto: como o protege Deus com a sua graça, como alicia os corações de todos com o fulgor das suas virtudes impolutas, o Rei assisado na sua administração, intrépido em repelir o inimigo, moderado em seu governo, constante em manter justa a lei, e feliz em seus empreendimentos. Sentindo-se ele próprio feliz, torna florescente e prendada a pátria inteira.
O Tirano torna-se odiado pela sua malvadez, pelas suas torpezas e embustes. Já nele não confiam os homens, que lhe são todos hostis. Tudo faz entre raivoso e ousado, entre indeciso e cobarde; já não o ajuda Deus com seu auxílio.
Donde, por força há-de ele corromper-se a si e aos que lhe são sujeitos, não se ficando que os não desgrace a todos.
Bem é de ver agora que tais males – todos quantos desfiámos – não os promove o verdadeiro Rei, mas o que falsamente o nome de Rei se arroga. Cumpre ele a sua missão mais à maneira de Tirano do que de beneficente e legítimo Rei.

D. Jerónimo Osório in «Da Instituição Real e sua Disciplina», 1571.

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