17/02/2017

Salazar devia ter restaurado a Monarquia?

Enquanto visitava um grupo pseudo-tradicionalista no Facebook, deparei-me com a seguinte imagem:


Este tipo de crítica a Salazar é muito típica de monárquicos liberais, amantes de um monarquismo meramente de fachada. No entanto, a resposta à crítica já foi dada em 1949. Vejamos:

Consequentemente, a Realeza a restaurar não é a Realeza liberal, constitucional, democrática, parlamentar, que aí tivemos a abrir a catástrofe de 1910 – mas a outra, a Realeza que vem de 1128 a 1820, a quem se deve a formação, a consolidação, o prestígio de Portugal; a quem se devem os fundamentos sobre que repousa a Nacionalidade; a quem se devem as fronteiras portuguesas, no continente europeu e no Ultramar. A Realeza postiça de 1834 a 1910, devemos a República, que foi a consequência lógica das lutas partidárias que a Realeza de então não podia evitar, porque ela própria saíra duma luta partidária vitoriosa; que ela não podia condenar, porque era da sua essência reconhecê-las; que ela não podia dominar, porque fôra ela quem as desencadeara. Já não sei se há monárquicos em Portugal capazes de um movimento transcendente, como este que preconizo – tão afastado vivo de todos e de tudo – desde o Rei até à mais rudimentar organização da chamada Causa Monárquica. Fiel aos princípios, cada vez mais integrado neles, vivo distante dos homens que têm a fama de os representar, por incompreensão mútua: nem eles me entendem, nem eu os entendo a eles. A hora é dos videirinhos e dos trafulhas, e eu limito-me a assistir, de longe, como de longe das roletas do Estoril ou das celas do Limoeiro, à acção e ao triunfo admirável de uns e de outros. Eu sou o irrequieto, porque não me conformo com que se ponham no mesmo plano, homens honestos e homens desonrados, aventureiros e homens sérios; eu sou o conflituoso, porque digo que um gato é um gato, e um coelho é um coelho; eu sou réprobo, porque me caracterizam estas duas qualidades, que pelos vistos são defeitos, e se traduzem pela expressão adoptada por um alto espírito português: a independência dos meus juízos, e a firmeza das minhas convicções. Por tudo isto, vivo distante, em isolamento que progride, porque não dou um passo, nem esboço um gesto para conter ou limitar. E assim não sei se há monárquicos em Portugal capazes de dar à doutrina monárquica a forma que ela requer, e a força que ela solicita, para poder emergir dos escombros em que a Vitória das Democracias a sepultou. Monárquicos, é claro, que não tragam à frente, como o judeu das tâmaras, o balcão dos negócios; monárquicos que não sejam comerciantes e traficantes, e não façam da doutrina monárquica moeda de compra e venda.
Se os há, bom seria que alguém os juntasse, e os animasse à obra que tudo indica como indispensável.
Se os não há... Nem por isso me demitirei de dizer o que é necessário realizar.

Alfredo Pimenta in «Três Verdades Vencidas: Deus, Pátria, Rei», 1949.

4 comentários:

muja disse...

Disparates.

Quer dizer, nem a Constituição conseguiram fazer respeitar durante dez anos depois do Prof. Salazar abandonar a presidência do Conselho, e queriam que ele fosse ainda mais longe. Foi o maior erro dele... que ele não cometeu.

Se se dedicassem a estudar o que ele disse e fez, em vez daquilo que não fez, podia ser que aprendessem alguma coisa.

Hoje, como na altura, necessitamos de todos os patriotas dispostos a colaborar larga e profundamente no sentido do interesse nacional, sejam eles de que matiz forem.

Hoje, como na altura, é preciso dissolver os partidos e a mentalidade que lhes vem associada de maneira que se possam começar a resolver eficazmente os problemas mais agudos. E são tantos!

E há problemas novos, para o quais não podemos contar com experiências do passado.

A guerra de África é um assunto mal-resolvido, varrido para debaixo do tapete histórico que, enquanto assim for, envenenará para sempre as nossas relações com esses povos e essas gentes. A verdade tem de ser contada e defendida publicamente.

A saída da União Europeia vai ser outra tempestade fortíssima que vamos enfrentar.

Enfim, tanto que fazer e em que pensar...

Reaccionário disse...

"Se se dedicassem a estudar o que ele disse e fez, em vez daquilo que não fez, podia ser que aprendessem alguma coisa."

Esta frase diz tudo! Bem-haja!

†Senhorita Helga disse...

Então depois de Dom Miguel a coisa só piorou?

Reaccionário disse...

As coisas foram piorando gradualmente, tal como no resto do mundo... Tivemos contudo um período de alívio: Ditadura Militar (1926-1933) e o Estado Novo (1933-1974).