Portugal e o pós-Segunda Guerra Mundial


Há um coro de clamores trágicos, de gritos aflitivos, de ralhos tempestuosos, de acusações coléricas, e despeitadas, que enchem o mundo de lés-a-lés, como oceano em hora de marés vivas.
No meio desse coro de raivas e angústias, eu sou um dos que podem erguer com autoridade, a voz. E aos que gritam, e ralham, e acusam e se desesperam, assustados, inquietos, aterrados, não sabendo já para onde fugir, é perguntar-lhes: Então?! Quem tinha razão?!
As sereias que cantavam as árias trémulas da conversão da Rússia, da urbanização do Comunismo, do aburguesamento dos Sovietes, da bondade de Estaline, da dissolução do Comintern, ou eu, e os que como eu, defendiam a unidade da Europa diante da catástrofe que víamos formar-se e aproximar-se?
Quem tinha razão? Os que, como eu, preconizavam a concentração das forças de toda a Europa – desde Portugal à Grécia, desde a Grã-Bretanha à Suécia, desde a Bélgica à Itália, desde a Finlândia à Bulgária, contra a invasão moscovita, ou os que arregimentavam todas as forças do mundo, temporais e espirituais, desde o Capitalismo judaico à Maçonaria internacional, desde os bas-fonds das Urbes até os sectores políticos obedientes a Maritain, Mauriac, e à clique da Aube e do Temps Présent, para que se defendesse e salvasse a Rússia?
Quem tinha razão? Os que, como eu, lastimaram a vitória russa de Estalinegrado, ou os que embandeiraram em arco e deitaram morteiros, em saudação a ela?
Quem tinha razão? Os que como eu, proclamavam a unidade espiritual da Europa, pela conjugação da Águia germânica e da Loba romana, diante da Barbárie soviética, ou os que iam, em romagem votiva, a Moscovo, depositar nas mãos de Estaline espadas de honra?
Quem tinha razão? Os que, como eu, defendiam a tese de que devia levantar-se nas fronteiras russas a floresta de ferro que contivesse a onda apocalíptica, e salvasse a Europa do seu alastramento, ou os que acusavam a Espanha de não ser amiga, por ter na frente russa a Divisão Azul, e trouxeram a Rússia até ao meio da Europa, e a deixaram instalar-se, sendo manifesto que sovietizara tudo quanto ocupasse?
Quem tinha razão? Ó Povo Português, que te deixaste embalar pelo canto das sereias democráticas, e acreditaste que a paz que elas te prometiam era a aurora, anunciadora do Sol da Vida?
A Ventura? Aí tens uma Europa faminta, a pedir esmola, a esperar que lhe deitem a côdea que a ajude a morrer mais depressa.
O Sol da Vida? Aí o tens, feito do sangue de milhões de vítimas, desde os fuzilados, os enforcados e assassinados, até os que sucumbem de inanição e horror.
Desceu sobre a maior parte da Europa, a pedra fria do túmulo. E a pequena parte que ainda vive, oásis escasso em cemitério sem limites, essa... está de oratório!
A Paz! A Paz que a Vitória forjou e fez tocar os sinos, e estralejar girândolas de foguetes, reduziu o mundo a uma espessa e intérmina legião de escravos, guardada por dois molossos que se odeiam: no Ocidente, um, de bomba atómica na mão; no Oriente, o outro, cínico, com o veto a funcionar ininterruptamente.
Foi esta a Paz que a Vitória nos trouxe. A Europa, quase toda em ruínas, morre de fome. E a Paz, ciranda de conferência em conferência, de Londres para Washington, de Moscovo para Paris, as malas pejadas de planos, muitos planos, extensos planos, inconcebíveis planos, e, rodeada de comissões, muitas comissões, incansáveis comissões, que elaboram planos, comparam planos, destroem planos – para se descobrir, afinal, oh! maravilha das maravilhas! que para matar a fome à Europa, para enriquecer a Europa, a melhor forma ainda é desmantelar-lhe centenas de fábricas!
Só de uma assentada, e na última fornada, a Paz decretou o desmantelamento de setecentas e cinquenta fábricas!
Se a hora não fora de tragédia tenebrosa, seria caso de se morrer de tédio ou de mofa, ante o espectáculo que nos oferece a máquina geradora da Paz que está a trabalhar a toda a força, na América, e é essa chafarica da ONU, sucessora correcta e aumentada daqueloutra chafarica de Genebra, que Deus tenha e mantenha nas profundas dos infernos.
Tudo aquilo, nessa máquina geradora da Paz, é comédia mais ou menos gangsteriana, ou vampismo holywoodesco, que está a pedir, isso sim, em dia de sessão plenária, bomba atómica certeira.
Autêntica assembleia democrática, em que se juntou o mais admirável escol das nulidades! Pior do que isso, só a imbecilidade genial do Sr. Einstein, fiando a salvação do mundo, de um parlamento universal, eleito directamente pelas massas!
Pois foi esta a Paz que a Vitória nos trouxe.
Quem tinha razão, Povo Português? Os que, como eu, te diziam que te acautelasses das serenatas do D. Juan democrático, e do fado do Hilário da Liberdade, ou os que te aconselhavam que te deixasses cair nos braços postiços das Vénus de Milo trabalhadas em Moscovo, em Ialta, em Teerão, ou a bordo do Potomac?
Quem tinha razão?
«Mas você enganou-se», dir-se-á, e já mo disseram – «você enganou-se, quando previa a queda fulminante da situação portuguesa, arrastada pela Vitória».
Enganei-me? Ainda bem que me enganei! Não me tivesse eu enganado, não estaríamos nós, hoje, aqui...
Mas francamente, aqui para nós que ninguém nos ouve – na verdade, na verdade, enganei-me tanto como parece?
Comícios anti-comunistas do Campo Pequeno, onde estais vós?
Campanhas anti-comunistas do Rádio Clube Português, onde estais vós?
Mocidade Portuguesa masculina, onde estão as tuas manifestações viris e audazes, braço erguido, na saudação que primitivamente te ensinaram?
Legião Portuguesa, onde estão as tuas paradas sensacionais, face aos teus chefes a acolher-te, braço estendido, em saudação que todos conhecíamos e entendíamos?
Isto me basta para fundamentar a minha pergunta: na verdade, enganei-me de todo?
O Homem é o mesmo? Graças a Deus, é. E que Deus o conserve e no-lo conserve. Mas o ar nacional é o mesmo? O rumo nacional é o mesmo? A tranquilidade nacional é a mesma?
Desçamos mais fundo: o Homem, sendo o mesmo, é a mesma a sua posição?
Exigem direitos de cidade, a MUD senil e a MUD juvenil. Exigiu-os, tê-los-ia exigido qualquer delas, antes de 1945? Frutos da Vitória...
O panorama internacional é confuso, cada vez mais confuso, e ameaçador. Todos falam, e ninguém os entende ou acredita!
A tentar impedir que essa confusão nos atinja, afogue e nos subverta – Salazar!

Alfredo Pimenta in «Em Defesa da Portugalidade», 1947.

Sem comentários: