Escândalo


Escândalo é o que se diz, se faz, ou se omite menos rectamente, embora licitamente, dando a outrem ocasião de cair em pecado, ou causando-lhe alguma ruína espiritual. O escândalo pode ser dado directamente, se há intenção de levar outrem ao pecado; ou indirectamente, se somente se prevê que outrem cairá em pecado.
É severamente condenado por Jesus Cristo, quando diz: «Aquele que escandalizar um destes pequeninos que crêem em Mim, melhor é que se lhe pendure ao pescoço uma mó de atafona e seja lançado ao fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos» (Ev. S. Mat. XVIII, 6).
Quem escandaliza fica obrigado a reparar o escândalo dado, umas vezes por caridade, outras vezes por motivo de justiça. Devemos, pois, abster-nos de toda a palavra, acção ou omissão de que possa resultar escândalo para alguém.

Pe. José Lourenço in «Dicionário da Doutrina Católica», 1945.

A Moral tem de preceder a Política


A imoralidade frustrou esta regeneração, e se Deus não prometesse que nunca mais afogaria os homens, seriam tantos os dilúvios, como as tempestades; porque a Liberdade de que tanto se vangloria o ser humano, só lhe serve de pasto e de estímulo para aniquilar-se.

É portanto muito dificultosa uma regeneração política, não sendo precedida de uma regeneração moral, sustentada pela força, que é o que significa o auxílio de braço secular prometido à Igreja: não se ofende a liberdade quando se obriga o homem a fazer o que deve: este direito é o de Pai de famílias no estado primitivo, e bem se sabe que os sacrifícios eram os mesmos enquanto ao objecto, ou fossem bons, ou fossem maus os sacrificadores, donde se infere o poder paterno na direcção do culto ao Autor da Natureza.

Pe. José Agostinho de Macedo in jornal «O Escudo», Nº 1, 1823.

As Amazonas


Segundo a mitologia grega, as Amazonas eram uma tribo de mulheres guerreiras que viviam nas margens do Mar Negro, governadas por uma rainha. Montavam a cavalo e combatiam com arco e flecha. Só permitiam que os homens se aproximassem delas uma vez por ano, para fins reprodutivos. Matavam os seus filhos varões à nascença e queimavam o seio direito das filhas, para que estas tivessem mais agilidade e força no tiro ao arco.
No Brasil, a existência de Amazonas foi registada pelos primeiros cronistas. Frei Gaspar de Carvajal declara tê-las encontrado, a 24 de Junho de 1541, na foz do rio Jamundá. Francisco de Orellana terá abatido sete ou oito dessas mulheres, que viviam sem maridos, na selva amazónica, e que se dedicavam à guerra, atacando as tribos vizinhas, matando os homens e as crianças do sexo masculino.

Da Pobreza


Pobreza. Ser pobre, segundo o senso cristão, não é uma desgraça, não é uma infelicidade; é não ter o espírito apegado aos bens do mundo e não ter a ambição de os possuir.
«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus», disse Jesus Cristo (Ev. S. Mat. V, 3). Pobres em espírito, são aqueles que, não possuindo bens, não os ambicionam, e também aqueles que, possuindo-os, só fazem bom uso da sua riqueza e distribuem o supérfluo pelos que não possuem. O pobre em espírito não tem afecto aos bens que possui ou que são do seu uso, nem se entristece por nada possuir, nem apetece o que não é necessário à sua sustentação, nem desperdiça o que é aproveitável, nem gasta do que é supérfluo, nem se deleita do que lhe é dado, nem se desgosta do que lhe é negado. Espera, porém, que a pobreza, sofrida neste mundo, seja substituída pela bem-aventurança que Jesus lhe prometeu que gozaria no Céu.

Pe. José Lourenço in «Dicionário da Doutrina Católica», 1945.

Traços do carácter português


Aquelas qualidades que se revelaram, e fixaram, e fazem de nós o que somos e não outros; aquela doçura de sentimentos, aquela modéstia, aquele espírito de humanidade, tão raro hoje no mundo; aquela parte de espiritualidade que, mau grado tudo que a combate, inspira ainda a vida portuguesa; o ânimo sofredor; a valentia sem alardes; a facilidade de adaptação e ao mesmo tempo a capacidade de imprimir no meio exterior os traços do modo de ser próprio; o apreço dos valores morais; a fé no direito, na justiça...; tudo isso, que não é material nem lucrativo, constitui traços do carácter nacional.

António de Oliveira Salazar, discurso de 27 de Abril de 1943.

Máximas de um Rei católico


Num memorial de sua letra, que fez antes de tomar o governo do Reino, El-Rei D. Sebastião escreveu as máximas que devia observar, e são as seguintes:

– Terei a Deus por fim de todas as minhas obras, e em todas elas me lembrarei d'Ele.
– Em me deitando, e levantando, conto com Ele muito particular. – Cuidar à noite, em que falei naquele dia.
– Trabalharei muito por dilatar a Fé. – Favorecerei muito as coisas da Igreja. – Armar todo o Reino. – Defender alfaias e delícias. – Fazer mercê a bons, castigar a maus. – Não crer levemente, e ouvir sempre ambas as partes. – Fazer justiça ao grande, e ao pequeno, sem excepção de pessoa. – Tirar as onzenas. – Conquistar e povoar a Índia, Brasil, Angola e Mina. – Todo o que me falar desonestidades, castigá-lo rijamente.
– Quando houver de fazer alguma coisa, comunicá-la primeiro com Deus. – Reformar os costumes, começando por mim no vestir e comer. – Em negócios, ter primeiro conta com o bem comum, e depois com os particulares. – Tirar alguns tributos e buscar modo com que Lisboa seja abastada. – As leis que fizer, mostrá-las primeiro a homens de virtude e letras, para que me apontem os inconvenientes que tiverem.
– Levar os súbditos por amor, enquanto puder. – Ser inteiro aos grandes, humano aos pequenos.
– As comendas sirvam em África.
– Não ter junto de mim senão homens tementes a Deus.
– Devassar dos ofícios de justiça, e fazenda, cada ano.
– Escrever a todos os Prelados que façam dizer Missas e Orações por mim, e pedir jubileu ao Papa.
– Terei nos postos do mar homens de confiança, e os que entram, que não sejam suspeitos na Fé.
– As coisas que não entender bem, comunicá-las primeiro com quem me possa dar parecer desenganado.
– Não dar, nem prometer nada, sem saber se é injustiça ou mal feita. – Mostrar bom rosto e agasalhado a todos. – Prover os cargos e ofícios em quem faz para isso, e não por outros respeitos. – Não desmaiar nas dificuldades, antes ter maior fé e confiança em Deus. – Tirar a cobiça. – Mostrar sempre ânimo liberal e não acanhado. – Gabar os homens, e cavaleiros, que tiverem bons procedimentos, diante de gente, e os que tiverem préstimo para a República, e mostrar aborrecimento às coisas a ela prejudiciais. – Não dizer palavras que escandalizem, mormente quando estiver agastado. – Os meus Embaixadores andarão sempre vestidos à portuguesa.
– Em todas as coisas que fizer, terei primeiro conta com a honra de Deus. – Serei pai dos pobres e de quem não tem quem faça por eles.

14 de Agosto


14 de Agosto – Vigília da Assunção da Virgem Maria.



14 de Agosto de 1385 – Batalha de Aljubarrota.



14 de Agosto de 1433 – Morte de D. João I (vencedor em Aljubarrota).

Espada de Justiça


Nosso Senhor Jesus Cristo abençoa os que têm fome e sede de justiça; o Apóstolo das Nações designa os Príncipes como vingadores do crime, porque de outra sorte era inútil o cingirem uma espada, e até no Céu as ditosas almas dos Santos Mártires pedem com instância ao Senhor, que lhes vingue as suas injúrias, e nomeadamente o sangue que derramaram pela palavra Divina.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «O Mastigóforo, prospecto de um dicionário das palavras e frases maçónicas», 1824.

Nagasaki


Descoberta pelos Portugueses em 1542, Nagasaki (ou Nagasáqui) foi a primeira cidade japonesa a ser visitada por europeus. Administrada pelo Rei de Portugal sob os direitos do Padroado Português do Oriente, foi durante séculos o grande centro de expansão do Catolicismo no Japão. Entre 1640 e 1859 era o único local do Japão a poder ser visitado por estrangeiros. A 9 de Agosto de 1945, Nagasaki foi alvo da segunda bomba atómica lançada pelos EUA, incinerando a cidade, e por conseguinte, dois terços da população católica do Japão.

Governo da Barbárie


Esta Assembleia [a Convenção Nacional] depois de ter abolido a Realeza, o melhor de todos os governos, transferira toda a autoridade pública para as mãos do Povo, incapaz de seguir qualquer plano de conduta sábio e razoável, sem critério para julgar as coisas, regulando a maior parte das suas decisões, não pelo que é verdadeiro, mas pelo que se crê; sem princípios fixos, fácil de desviar e de sofrer as impressões mais erróneas, pouco susceptível de gratidão, presunçoso e cruel, que se delicia a ver correr o sangue dos homens, o espectáculo dos cadafalsos e o sofrimento das vítimas na agonia, como antigamente, percorria com os olhos, banqueteando-se, o Anfiteatro.

Papa Pio VI in Alocução no Consistório de 17 de Junho de 1793.

Portugal é sem exemplo


A História de Portugal está cheia de "impossíveis". Eis um testemunho insuspeito:

Que homens seriam, então, os Portugueses, e que esforços extraordinários teria feito este povo de heróis? Tinha-se visto, porventura, até então, uma nação de tão limitado poderio desenvolver uma acção tão ampla? Os Portugueses em armas não eram mais de quarenta mil. Todavia, faziam tremer o império de Marrocos e todos os bárbaros de África, os Mamelucos, os Árabes e todo o Oriente, desde a ilha de Ormuz até à China.

Guillaume-Thomas Raynal in «Histoire des deux Indes», 1770.


Todo-o-Mundo e Ninguém


Estão em cena dois diabos, Belzebu e Dinato, este preparado para escrever o que o companheiro observar.
Entra Todo-o-Mundo, homem como rico mercador, e faz que anda buscando alguma coisa que se lhe perdeu; e logo após ele um homem, vestido como pobre. Este se chama Ninguém.

Ninguém:
Que andas tu aí buscando?

Todo-o-Mundo:
Mil coisas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando,
por quão bom é porfiar.

Ninguém:
Como hás nome, cavalheiro?

Todo-o-Mundo:
Eu hei nome Todo-o-Mundo,
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisto me fundo.

Ninguém:
Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.

Belzebu:
Esta é boa experiência!
Dinato, escreve isto bem.

Dinato:
Que escreverei, companheiro?

Belzebu:
Que Ninguém busca consciência,
e Todo-o-Mundo dinheiro.

Ninguém:
E agora que buscas lá?

Todo-o-Mundo:
Busco honra muito grande.

Ninguém:
E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.

Belzebu:
Outra adição nos acode:
escreve logo aí a fundo
que busca honra Todo-o-Mundo
e Ninguém busca virtude.

Ninguém:
Buscas outro mor bem que esse?

Todo-o-Mundo:
Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fizesse.

Ninguém:
E eu quem me repreendesse
em cada coisa que errasse.

Belzebu:
Escreve mais.

Dinato:
Que tens sabido?

Belzebu:
Que quer em extremo grado
Todo-o-Mundo ser louvado,
e Ninguém ser repreendido.

Ninguém:
Buscas mais, amigo meu?

Todo-o-Mundo:
Busco a vida e quem ma dê.

Ninguém:
A vida não sei que é,
a morte conheço eu.

Belzebu:
Escreve lá outra sorte.

Dinato:
Que sorte?

Belzebu:
Muito garrida:
Todo-o-Mundo busca a vida,
e Ninguém conhece a morte.

Todo-o-Mundo:
E mais queria o paraíso,
sem mo ninguém estorvar.

Ninguém:
E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.

Belzebu:
Escreve com muito aviso.

Dinato:
Que escreverei?

Belzebu:
Escreve
que Todo-o-Mundo quer paraíso
e Ninguém paga o que deve.

Todo-o-Mundo:
Folgo muito de enganar,
e mentir nasceu comigo.

Ninguém:
Eu sempre verdade digo,
sem nunca me desviar.

Belzebu:
Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso!

Dinato:
Quê?

Belzebu:
Que Todo-o-Mundo é mentiroso,
e Ninguém diz a verdade.

Ninguém:
Que mais buscas?

Todo-o-Mundo:
Lisonjear.

Ninguém:
Eu sou todo desengano.

Belzebu:
Escreve, ande la mano!

Dinato:
Que me mandas assentar?

Belzebu:
Põe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo-o-Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.


Gil Vicente in «Auto da Lusitânia», 1532.