21/04/2018

Sobre quem manda nos E.U.A.


A Constituição dos Estados Unidos tinha posto nas mãos do Congresso o direito de criar e controlar a moeda do país. Mas, a 23 de Dezembro de 1913, com a maioria dos membros do Congresso a passar férias de Natal em casa, foi votada, de maneira quase sub-reptícia, uma lei conhecida com o nome de Federal Reserve Act. Esta lei autorizava, grosso modo, a constituição de uma entidade com o nome de Federal Reserve Corporation e um conselho de directores (Federal Reserve Board). Tal lei arrebatava ao Congresso o direito de criação e controlo do dinheiro e concedia-o à Federal Reserve Corporation. O pretexto dado para a aprovação desta lei insólita foi de «separar a Política do Dinheiro». A realidade foi que – nesta grande democracia que costuma apresentar-se como o protótipo ideal dessa forma de governo – o poder de criar e controlar o dinheiro foi arrebatado aos chamados «representantes do povo» e concedido a uma empresa privada. E cremos não incorrer no pecado de juízo temerário se dissermos que uma empresa privada tenderá, por definição, a obter proveito próprio, coincida ou não este com o interesse geral da Nação.
O mais grave, juridicamente falando, desta Federal Reserve Act de 1913 é que o acordo se arranjou com uma minoria de deputados que, segundo tudo indica, foram pressionados e subornados; não existia o quórum necessário... de modo que, mesmo do ponto de vista mais estritamente democrático, era de todo impossível justificar aquela lei. O caso, porém, é que foi aprovada, e desde então, é uma empresa privada que emite o dinheiro do país mais democrático – e poderoso – do planeta. Desde aquele Natal de 1913, um número comparativamente pequeno de pessoas – cerca de 8000 – passou a controlar, emitir, criar e destruir, segundo a sua própria conveniência, o dinheiro de um país que se supõe ser o estandarte do Ocidente. Essas pessoas, na sua imensa maioria, nem sequer são americanas de origem. O deus ex machina desta nefasta Federal Reserve Act foi um banqueiro de Hamburgo chamado Paul Warburg.
O Federal Reserve Board emite o dinheiro do país e empresta-o, onerado com juros, ao governo «legal» dos Estados Unidos. Se, por exemplo, o governo de Washington necessitar de 1000 milhões de dólares para financiar obras públicas, renovar armamento, ou o que quer que seja, deve dirigir-se ao Board e pedir-lhe esse dinheiro. Então, o omnipotente Board dá o seu acordo, na condição do governo lhe pagar juros. Logo que o Congresso dá a sua autorização, o Departamento do Tesouro imprime 1000 milhões de dólares em bónus que são entregues ao Federal Reserve Board. Este paga os gastos de impressão (que rondam os 500 dólares), retira os juros e faz o câmbio. Então, o governo já pode dispor do dinheiro para cobrir as suas necessidades.
Quais são os resultados desta inverosímil transacção? Pois, muito simplesmente, que o governo dos Estados Unidos pôs os seus cidadãos em dívida para com o Federal Reserve Board numa quantia de 1000 milhões de dólares, mais juros, até que sejam pagos. O resultado desta demencial política financeira é que, em menos de 60 anos – de 1913 até hoje [1971] – o povo dos Estados Unidos deve aos banqueiros do Federal Reserve Board um total de 350 biliões de dólares, tendo que pagar um juro de 1,5 biliões mensais, sem nenhuma esperança de poder pagar, nem a dívida propriamente dita, nem sequer os juros, pois ambos aumentam continuamente. 195 milhões de americanos estão irremissivelmente endividados relativamente a 8000 indivíduos mais ou menos americanizados; o montante dessa dívida é superior ao valor total de todas as riquezas do país.
Mas há mais: com este sistema de «dinheiro-dívida», os bónus a que mais acima nos referimos, são convertidos em valores bancários, com o apoio dos quais os bancos podem fazer empréstimos a clientes privados. Como as leis bancárias dos Estados Unidos exigem somente uma reserva de 20%, os bancos do Federal Reserve Board podem fazer empréstimos até um total de cinco vezes o valor do bónus que possuem. Ou seja, voltando à transacção de 1000 milhões de dólares que tomámos como exemplo, o Federal Reserve Board pode emprestar 5000 milhões ao juro «legal». Isto dá-lhe direito aos juros de 6000 milhões... por um custo original de 500 dólares em despesas de impressão! E como o Congresso abdicou – em tão excelsa democracia – do direito de emitir dinheiro, a única saída que resta aos industriais, exploradores agrícolas e comerciantes dos Estados Unidos, quando necessitam de dinheiro para desenvolver as riquezas do país, é pedi-lo emprestado ao consórcio do Federal Reserve Board... entregando-se de mãos atadas.

Joaquín Bochaca in «A Finança e o Poder».

20/04/2018

A Igreja e a Juventude (II)



Os discursos de Paulo VI aos jovens

Todas as razões desta juvenilização do mundo contemporâneo, compartilhada pela Igreja, encontram-se no discurso de Abril de 1971 a um grupo de hippies reunidos em Roma para se manifestar pela paz. O Papa assinala com louvores os valores secretos que procuram os jovens, e enumera-os.
Em primeiro lugar a espontaneidade, que ao Papa não parece estar em contradição com a intenção de pretendê-la, pese ao facto de que se se procura a espontaneidade esta deixa de ser espontânea. Não lhe parece estar em contradição, nem sequer com a moralidade, embora esta, por ser uma intencionalidade consciente, se sobreponha à espontaneidade e possa contradizê-la.
O segundo valor da juventude é a libertação de certos vínculos formais e convencionais. O Papa não diz quais são. Além disso, as formas são a aparência da substância: são a própria substância em manifestação, a sua presença no mundo. E o convencional é o concordado, isto é, o que se acorda, e é bom, se é um acordo sobre coisas boas.
O terceiro é a necessidade de serem eles mesmos. Mas não se esclarece qual é o "Eu" que o jovem deve realizar e no qual deve reconhecer-se: de facto, numa natureza livre existe uma pluralidade de "Eus", modificável em todas as formas possíveis. O "Eu" verdadeiro não exige que o jovem se realize de qualquer maneira, mas que se transforme e se converta em algo além de si mesmo. Além disso, as palavras do Evangelho não admitem interpretação: abneget semetipsum (renuncie-se a si mesmo) (Lucas 9, 23). O próprio Papa no dia anterior havia exortado à metanóia. Em que ficamos, então? Realizar-se ou transformar-se?
O quarto é o impulso a viver e interpretar a sua própria época. No entanto, o Papa não dá aos jovens a chave para interpretar o seu tempo; nem assinala que, segundo a religião, na brevidade do seu próprio tempo o homem não deve procurar o efémero, mas o fim último que permanece através de todo o efémero.
Tendo desenvolvido o discurso sem nenhuma explicação religiosa, Paulo VI conclui de forma surpreendente: Nós pensamos que, nesta vossa busca interior, vós percebeis a necessidade de Deus. Na verdade, o Papa fala aqui opinativamente e não magisterialmente.
A semiologia da juventude feita pelo Papa no discurso de 3 de Janeiro de 1972 é ainda mais claramente antitética à tradicional católica. Descrevem-se como qualidades positivas o natural desinteresse pelo passado, a crítica fácil, a previsão intuitiva. Estas características não convêm à verdadeira psicologia da juventude, e não são positivas.
Separar-se do passado é uma impossibilidade moral, histórica e religiosa: basta dizer que para o cristão toda a sua vida e todo o seu compromisso na vida depende do baptismo, que é um antecedente; e o baptismo, por sua vez, da família, outro antecedente; e a família, finalmente, da Igreja, que constitui o antecedente último.
Que a juventude tenha sentido crítico (ou seja, juízo de discernimento) é difícil de sustentar se se reconhece a evolução na formação do homem, se se distingue o momento de imaturidade face ao maduro, e se se admite que inicialmente o sujeito se encontra numa situação na qual deve converter-se no que ainda não é.
Finalmente, a previsão é coisa novíssima na psicologia, que sempre reconheceu ao jovem um tardus previsor (Horácio, Ars poet. 164): alguém que vê tardiamente não apenas os acontecimentos do mundo, mas também a sua própria utilidade. Na realidade, temeritas est florentis aetatis, prudentia senescentis [mocidade temerária, prudência na velhice] (Cícero, De senectute, VI, 20).
Mas o entusiasmo por Hebe leva o Pontífice a proclamar que vós podeis estar na vanguarda profética da causa conjunta da justiça e da paz porque vós, antes e mais do que os demais, tendes o sentido da justiça, e todos (os não-jovens) estão a vosso favor: estes como triários, os jovens como vanguardistas.
Não é difícil descobrir no discurso juvenilizante de Paulo VI à Boys Town uma singular inversão das naturezas, pela qual quem deve guiar é guiado, e o imaturo é exemplo para o maduro. A atribuição à juventude de um sentido inato da justiça não tem fundamento em nenhuma semiologia católica. Certamente a comoção do seu ânimo (contagiado pelo temperamento juvenil) inclinou o Papa para uma doxologia da juventude. Esta mesma inclinação ao entusiasmo efébico, conduziu-o noutra ocasião a mudar a letra do texto sagrado, lendo os jovens onde está escrito as crianças (Mateus 21, 15), em apoio à afirmação segundo a qual foi a juventude quem intuiu a divindade de Cristo (OR, 12 de Abril de 1976).

Mais sobre a juvenilização da Igreja. Os bispos suíços.

Para demonstrar que o culto de Hebe não é apenas algo próprio do Papa, mas que está difundido em todas as ordens da Igreja, não citarei as quase infinitas obras de clérigos e leigos, mas um documento da Conferência Episcopal Suíça para a festa nacional de 1969. Nele é dito que o protesto juvenil leva consigo valores de autenticidade, de disponibilidade, de respeito pelo homem, de rejeição da mediocridade, de denúncia da opressão: valores que, bem vistos, se encontram no Evangelho.
É fácil constatar como os bispos suíços pecam por indeterminação lógica.
A autenticidade, no sentido católico, não consiste em apresentar-se como naturalmente se é, mas em fazer-se como se deve ser: ou seja, em última instância, consiste na humildade.
A disponibilidade é em si mesma indiferente e será classificada como boa somente em função do bem face ao qual o homem se encontra disponível.
O respeito pelo homem exclui o desprezo pelo passado do homem e o repúdio da Igreja histórica.
A rejeição da mediocridade, à parte de pecar por indeterminação (mediocridade em quê?), opõe-se à sabedoria antiga, à virtude de resignação e à pobreza de espírito.
E que estamos na presença de novas metas humana e religiosas é uma afirmação que privilegia o novo enquanto novo, e esquece que não há outra criatura nova à parte da refundada pelo Homem-Deus, nem outras metas diferentes às prescritas por Ele.
Depois, os bispos chegam até a apontar os jovens como um sinal dos tempos e como a própria voz de Deus ante toda a cristandade contemporânea, mas esse composto de palavras revela-se um absurdo pela adulação desmesurada, e ainda mais absurdo do que o vox populi vox Dei, porque faz de um movimento em grande parte irreflexivo, um órgão da vontade divina e quase um texto da divina Revelação.
Também vai contra o princípio católico da humildade e da obediência louvar que os jovens queiram ser protagonistas, já que a Igreja não é só dos jovens, e nem todos podem vir a prevalecer: este protagonismo desconhece os direitos dos demais. Reconhecer aos demais é o princípio da religião, à parte do princípio da justiça.
Concluindo esta análise da nova conduta do mundo e da Igreja face à juventude, notaremos que também aqui foi realizada uma alteração semântica, convertendo-se os termos paternal e paternalista em termos pejorativos: como se a educação do pai (enquanto pai) não fosse um exercício excelente de sabedoria e de amor, e como se não fosse paternal toda a pedagogia com a qual Deus educou o género humano no caminho da salvação.
Como não ver que num sistema onde o valor é baseado na autenticidade e na rejeição de toda imitação, a primeira rejeição será à dependência paterna? Apesar dos eufemismos de clérigos e laicos, o certo é que a juventude é um estado de virtualidade e de imperfeição, e não pode ser considerada como um estado ideal nem tomada como modelo.
Além disso, o valor da juventude existe enquanto é futuro e esperança do futuro, de tal modo que diminui e desaparece quando o futuro se realiza.
A fábula de Hebe converte-se na fábula de Psique. Se se diviniza a juventude, conduz-se ao pessimismo, porque se obriga a desejar uma perpetuação impossível. A juventude é um projecto de não-juventude, e a idade madura não deve ser modelada por ela, mas sim pela sabedoria da maturidade.
Nenhuma idade da vida têm como modelo o seu próprio devir para outra idade. Na realidade o modelo para cada uma é dado pela essência deontológica do homem, que deve ser procurada e vivida, e é idêntica para todas as idades da vida. Também aqui o espírito de vertigem impulsiona o dependente para a independência e ao insuficiente para a auto-suficiência.

Romano Amerio in «Iota Unum», 1985.

15/04/2018

Terceira Guerra Mundial?


Quando ouvirdes falar de guerras e de rumores de guerras, não temais; porque importa que estas coisas aconteçam; mas não será ainda o fim. Levantar-se-á nação contra nação, e reino contra reino; haverá terramotos em diversas partes, e fomes. Estas coisas serão o princípio das dores.

Evangelho segundo São Marcos XIII, 7-8

11/04/2018

Fado: Uma Casa Portuguesa


Numa casa portuguesa fica bem
Pão e vinho sobre a mesa.
E se à porta humildemente bate alguém,
Senta-se à mesa co'a gente.
Fica bem esta franqueza, fica bem,
Que o povo nunca desmente.
A alegria da pobreza
Está nesta grande riqueza
De dar, e ficar contente.

Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho a alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejos
Mais o sol da primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
Há fartura de carinho.
E a cortina da janela e o luar,
Mais o sol que bate nela...
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar
Uma existência singela...
É só amor, pão e vinho
E um caldo verde, verdinho
A fumegar na tijela.

Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho a alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejos
Mais o sol da primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

07/04/2018

Dos mass media


Se a imprensa reflectisse as verdadeiras aspirações e os interesses da Nação [Pátria], seria uma das suas maiores forças educativas e construtoras. Mas a imprensa caiu sob o poder das forças ocultas e tornou-se uma das formas da sua acção aparente. Por isso, mente, estabelece a confusão, faz a crítica desmoralizante de homens e instituições, eleva as mediocridades, dissolve os princípios morais e corrompe o meio social à medida da sua própria corrupção.

Gustavo Barroso in «Espírito do Século XX», 1936.

06/04/2018

Da tirania bancária


O carácter mais sinistro e anti-social do dinheiro escriturado é a sua não existência. Os bancos devem ao público uma quantia total de dinheiro que não existe. Comprando e vendendo por meio de cheques, só se produz uma troca no particular a quem o dinheiro é devido pelo banco. Enquanto a conta de um cliente é debitada, a de outro cliente é creditada, e os bancos podem continuar a dever indefinidamente essa quantia.
Só o capital do grande negócio bancário, tal como existe hoje, beneficia com a emissão de dinheiro. Graças a uma artimanha, tendo começado sem nada próprio, os banqueiros puseram o mundo inteiro a dever-lhes dinheiro. Esse dinheiro nasce cada vez que os bancos "emprestam" e desaparece cada vez que o empréstimo é devolvido. De maneira que, se a indústria pagar tudo, o dinheiro da nação desaparece. É isto que torna a prosperidade tão "perigosa", já que destrói o dinheiro justamente quando é mais necessário, precipitando a crise.
Não nos resta mais nada, a não ser afundar cada vez mais em dívidas ao sistema bancário, de forma a fornecer as quantidades crescentes de dinheiro que a nação requer para a sua expansão e crescimento. Um sistema monetário honesto é a única alternativa.

Frederick Soddy in «Wealth, Virtual Wealth and Debt», 1926.

01/04/2018

30/03/2018

Sexta-feira Santa


Se sois Riqueza, como estais despido?
Se Omnipotente, como desprezado?
Se Rei, como de espinhos coroado?
Se Forte, como estais enfraquecido?

Se Luz, como a luz tendes perdida?
Se Sol Divino, como eclipsado?
Se Verbo, como é que estais calado?
Se Vida, como estais amortecido?

Se Deus, como estais como homem nessa Cruz?
Se Homem, como dais a um ladrão,
Com tão grande poder, posse dos Céus?

Ah, que sois Deus e Homem, bom Jesus!
Morrendo por Adão enquanto Adão,
E redimindo Adão enquanto Deus.

Frei António das Chagas (século XVII)

28/03/2018

A fuga... à Verdade


A bondade, o patriotismo, a honestidade e a lealdade estão a perder as suas batalhas, não por conflito, mas por desistência. Muitos daqueles que são chamados a ser os defensores do que é certo, não são feridos em batalha, eles fogem.

Mons. Fulton Sheen in jornal «The Lewiston Daily Sun», 14 de Julho de 1973.

25/03/2018

O «vale de lágrimas» e a nostalgia do Céu

São Francisco de Assis e a morte

Recordemos outra vez a lição que nos dão os santos; para eles, a verdadeira vida era a vida eterna e a vida presente não era mais que uma sombra. Para eles, a vida eterna era um livro imenso, de que a presente vida era o prefácio, a introdução.
Para eles a vida eterna era a pátria verdadeira, e a vida na terra, um «vale de lágrimas».
Alegravam-se também eles com os raios do sol; escutavam e deliciavam-se com o trinado das avezinhas; lutavam para cumprir o seu dever. Para o cumprirem tão heroicamente como o faziam, tiravam forças do pensamento da vida eterna, tinham nostalgia do Céu. A nostalgia do Céu compele a praticarmos verdadeiros heroísmos. Esta nostalgia faz-nos esquecer as lágrimas e juntar as mãos na oração, para vencermos os ímpetos da cólera, perdoando aos inimigos. Só assim podemos nós sorrir no meio dos sofrimentos; sabemos que todas as nossas lágrimas caem nas mãos de Deus.
Estejamos certos que, por maiores que sejam as tribulações, por mais sombrio que se nos mostre o céu, a luz da vida eterna penetra através da mais escura cerração.

Mons. Tihamér Tóth in «Jesus Cristo Rei», 1956.

23/03/2018

O assalto à cultura pelos marxistas culturais


Ora, o que Gramsci faz é inovar no leninismo, ao introduzir a possibilidade de controlar o Estado a partir da cultura. No reducionismo marxista, cultura é uma superestrutura gerada pela infra‑estrutura económica. As relações de produção, de exploração, isto é, o sistema económico, determinam um super-sistema de justificação, que está ao serviço do explorador e serve para dominar intelectualmente o explorado. A esse sistema, integrado pela religião, educação, arte, meios de comunicação, etc., chamam os marxistas de cultura.
Na tradição leninista derrubava‑se o Estado a partir da Economia, e assim se punha fim à Cultura, que não passava de um gigantesco sistema de justificação ideológica. Com Gramsci altera‑se o esquema revolucionário. Para ele é fundamental dominar primeiro a "cultura burguesa" e substituí-la progressivamente por uma "cultura proletária". As transformações e substituições operadas, assim, na "cultura burguesa", irão influenciar a infra‑estrutura económica, as relações de produção, o sistema social, mudando a mentalidade dos cidadãos. Só depois desta operação é que se deve conquistar politicamente o Estado, visto que este se encontra desarmado. A resistência, sempre baseada nas estruturas culturais de valores, nos conceitos internos da cultura, sem esse suporte, nem sequer poderia existir. Daqui que o caminho para o poder nos Estados burgueses, desde há muito, seja este: assalto à cultura, abastardamento de todas as características positivas do carácter e imagem nacionais, substituição de padrões nacionais por elementos culturais importados, enfraquecimento e eliminação da resistência dos intelectuais patriotas e, finalmente, domínio das principais alavancas da cultura: meios de comunicação, universidades, institutos e instituições, editoras, escolas, arte, etc.

António Marques Bessa in «A Cultura na Luta Política».

17/03/2018

Liberalismo e Nacionalismo


A ideia essencial dos doutrinadores da Revolução Francesa era a de que o indivíduo estava liberto de toda e qualquer ligação com o passado, que a sociedade era fruto de um contracto e que o homem podia modificá-lo à vontade, sempre que julgasse ter encontrado a ordem política ideal.
A Pátria cessa, pois, de ser território ocupado por homens da mesma etnia, unidos por tradições e interesses comuns, para identificar-se com uma ética.
A Pátria já não é o que somos, mas o que pensamos.
E como as ideias não têm fronteiras, a pátria revolucionária também não as tem, e os autores da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão declararam que querem «fazer uma declaração para todos os homens, para todos os tempos, para todos os países e que sirva de exemplo ao mundo».
Mas desde que fosse proposta aos indivíduos uma noção abstracta da pátria, cada cidadão podia forjar, por si, uma ideia particular dela. Nesse sentido, o Comunismo também nasce directamente das ideias de 1789. A pátria ideológica substituiu a pátria terrestre e do sangue.
Enquanto existiu a Monarquia tradicional, nunca se verificou a necessidade de definir a Nação. A nação não se definia; existia como uma família mais vasta do que a família de cada indivíduo. O pai era o Rei. Os súbditos só tinham que preocupar-se em executar o seu trabalho diário no quadro da sua profissão [e estado]. Nem se lhes pedia sequer que defendessem a Pátria. Bastavam os voluntários.
Quando os progressos da Revolução aboliram a Monarquia tradicional e entregaram o poder nas mãos dos povos, estes tiverem que definir os seus limites e as suas concepções políticas. Assim nasceram o princípio das nacionalidades [nacionalismo] e os partidos políticos.
O princípio das nacionalidades procurava definir os contornos da Nação herdeira da Coroa; os partidos procuravam definir a organização política que substituíra o poder Real.
A evolução era lógica. Constitui a história do século XIX.

Jacques Ploncard d'Assac in jornal «A Voz», 19 de Outubro de 1953.

§

Nota: Muitas vezes o termo "nacionalismo" é confundido com "patriotismo" e usado no sentido de "amar, honrar e defender a Pátria". Contudo, o sentido próprio de nacionalismo é aquele que advém do Liberalismo no século XIX – soberania nacional (popular), ou independência da Nação (Povo) em relação ao seu Soberano.

14/03/2018

Das assembleias deliberativas


Um parlamento nunca pode exprimir o interesse nacional [bem comum], revela apenas a força dos partidos em que a influência eleitoral se divide. Derivando da eleição por sufrágio directo, ele é o resultado de uma burla, porque a massa eleitoral é e será sempre incompetente para realizar uma escolha conscienciosa, pronunciando-se sobre merecimentos que não pode avaliar, em indivíduos que não conhece ou só viu nas arengas da praça pública ou dos centros onde cada um vai apregoar qualidades boas que julga ter. É pela maioria de votos assim obtida que na Democracia se regula a confiança para a administração, como se um preconceito numérico pudesse corresponder à capacidade de governo. Para nada faltar à ficção eleitoral, os candidatos propostos pelos diversos círculos, até deixam de os representar para se dizerem deputados da Nação, mal acabam de se contar os votos. Pela tirania da maioria, o chefe político que conseguiu ganhá-la, maneja por detrás dela e fica irresponsável, bem como os seus cúmplices, em todos os desvarios de que são portadoras as leis votadas. É uma ditadura tortuosa, mais cara e menos nobre do que o mais abusivo poder pessoal. Na sua inconsciência e irresponsabilidade, cada um dos parlamentares se julga competente para versar e discutir todos os assuntos. Daí, o espectáculo permanente de miséria mental e moral dos parlamentos, o seu descrédito inevitável e morte próxima.

Adaptado de «Cartilha Monárquica», 1916.

03/03/2018

Veritas liberabit vos


Prefácio à reedição do livro «Catecismo dos Direitos Divinos na Ordem Social: Jesus Cristo, Mestre e Rei» do Padre Philippe C.SS.R.:

Nestes tempos de grande e universal apostasia, bem-aventurados são aqueles que se interessam em conhecer a sua fonte envenenada para viver só da Fé em Nosso Senhor Jesus Cristo e para reencontrar n'Ele todos os efeitos da Redenção e da Sua graça para a santificação das pessoas, das famílias e das sociedades.
O veneno de todas as perversões do espírito moderno é o Liberalismo, tantas vezes apontado pelos Papas, tantas vezes condenado por eles nos mais vigorosos termos.
Aqueles que desejam expurgar o seu espírito e preservar-se deste ambiente, deveriam ler atentamente obras boas, como esta em que se respira o ar salutar do Cristianismo.
Deveriam também ler as encíclicas dos Papas dos séculos XIX e XX até João XXIII exclusivamente – e os livros que se inspiram neste ensinamento, bem como aqueles livros recomendados na bibliografia do livro do Padre Roussel intitulado «Liberalismo e Catolicismo», e especialmente:
Louis Veuillot: «A Ilusão Liberal».
Padre Barbier: «História do Catolicismo Liberal».
Monsenhor Delassus.
Monsenhor Sarda y Salvany: «O Liberalismo é Pecado».
Cardeal Billot: De Ecclesia, IIª parte.
Padre Roussel: «Liberalismo e Catolicismo».
Padre Raoul: «A Igreja Católica e o Direito Comum».
E este «Catecismo dos Direitos Divinos na Ordem Social» do Padre Philippe.
Todos estes deveriam ser conservados preciosamente nas bibliotecas e difundidos largamente, uma vez reeditados.
Apenas posso encorajar neste propósito a leitura dos livros das edições de Chiré-en-Montreuil do Sr. Auguy.
A inconcebível situação da Igreja, ocorrida na altura do Vaticano II e depois do Vaticano II, não se pode entender sem termos o conhecimento dos ensinamentos da Igreja sobre o Liberalismo antes do Vaticano II.
Veritas liberabit vos – "A Verdade vos proporcionará a Liberdade". Há entre as duas noções uma relação transcendental. Separá-las é arruinar ambas.

Marcel Lefebvre
Libreville, 3 de Março de 1986.

02/03/2018

Esparsa de Camões


Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado.

Luís Vaz de Camões