O multiculturalismo destrói a diversidade


A concepção babélica da Humanidade, sem diferenciação de raças e de nações, é absurda e contra a natureza. A harmonia nunca resultou da uniformidade ou da monotonia, mas do ritmo e da variedade. Não se pode fazer música com uma só nota ou um quadro com uma só cor. A Natureza tem verdadeiro horror à monotonia. A Humanidade constituída sob a forma de uma cosmopolis ou babel de povos e raças confundidos numa multidão incaracterística e uniforme, seria uma coisa tão insuportável como ouvir uma orquestra ferindo sempre a mesma nota ou ver todo o nosso horizonte debaixo de uma só cor. Seria o caos informe e insuportável.

J. Andrade Saraiva in «Perigos que Ameaçam a Europa e a Raça Branca», 1932.

§

Atenção: Este autor e esta obra não são inteiramente recomendáveis. A passagem aqui citada é divulgada apenas pela informação verídica que contêm.

Liberdade ilimitada, náusea ilimitada


Quando os homens só cuidam de si próprios, acabam por a si próprios se odiarem. Quando os homens fazem tudo quanto querem, acabam por odiar o que fazem. Não tendo quem se lhe atravesse no caminho, atravessam-se eles próprios no seu caminho e acabam por não saber que caminho levam. Incapazes de serem deles próprios companhia amiga, de ninguém o podem ser e nenhuma outra companhia são capazes de suportar.
Não é por mero acaso que estes modernos tempos que são os nossos, à força de acreditarem e proclamarem a liberdade ilimitada de cada homem, acabaram por proporcionar a cada um a desilusão ilimitada e a náusea ilimitada.

Mons. Fulton Sheen in «As Sete Palavras da Cruz».

Lenine e São Francisco de Assis

 

Lenine, por exemplo, foi uma antítese de São Francisco de Assis, tal qual São Francisco de Assis havia sido uma antítese de Lenine. Foi a ideia de violência o ponto de partida e o critério de ambos, com a diferença de que Lenine acreditava e desejava a reforma social mediante o uso da violência contra uma classe, e São Francisco de Assis acreditou e ambicionava a reforma social mediante o uso da violência contra ele próprio e de cada homem contra si próprio.
Tinham ambos razão quanto ao ponto de partida: a violência. «O Reino dos Céus conquista-se pela força, e alcançam-no os que empregam a força» (Evangelho de São Mateus, 11, 12). A diferença, porém, entre Lenine e São Francisco de Assis estava na direcção em que essa violência se devia empregar.
O amor e o ódio provêm da mesma paixão, assim como a alegria e a dor da mesma fonte de lágrimas: a diferença também provém do motivo e do objecto do amor ou do ódio, do riso ou da tristeza.

Mons. Fulton Sheen in «As Sete Palavras da Cruz».

Uma confissão do pai do Marxismo Cultural


Lutar contra os católicos integristas numa frente orgânica, é muito mais difícil do que lutar contra os modernistas.

Antonio Gramsci in «Note sul Machiavelli, sulla Politica e sullo Stato Moderno».

O mal absoluto não existe, mas...


É claro que todo o erro tem lados verdadeiros, positivos; não há erro em estado puro, assim como o mal absoluto não existe. O mal é a corrupção de um bem; o erro é a corrupção da verdade, mesmo sendo evidente que a pessoa má ou errada conserva a sua natureza, as suas qualidades naturais, algumas verdades. Mas há grande perigo em tomar este resto de verdade não atingido pelo erro como base. O que deveríamos pensar de um médico que, chamado para assistir um doente grave chegasse dizendo: "Ainda há muita saúde neste doente, isso é que conta." Você poderia objectar: "Mas é melhor examinar a doença antes que ele morra!" E o médico a insistir: "Ah! Mas ele não está tão doente. Além disso o meu método de trabalho consiste em não prestar atenção à doença dos meus pacientes: isso é negativo. Eu volto-me para a saúde que lhes resta." Então, diria eu, deixemos que morram os doentes! O resultado é que à força de se dizer aos não-católicos ou aos não-cristãos: "Afinal vocês têm uma consciência recta, vocês têm meios de salvação", eles acabam acreditando que não estão doentes. E depois, como os converter?

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar».

Livro: O Grande Culpado


Sinopse
Estaline planeava atacar a Alemanha e provocar a Segunda Guerra Mundial em Agosto de 1941. Nessa data, imaginava ele, todo o esforço soviético a fim de formar o exército mais moderno da História estaria concluído. O serviço de espionagem da Alemanha informou Hitler sobre esses planos. Estaline fez todo o possível para conseguir o seu intento antes que o governo nazi pudesse reagir, inclusive fingiu aliar-se ao inimigo. Os esforços foram em vão. Em 22 de Junho de 1941 o exército alemão invadiu a União Soviética.
Solucionar enigmas é uma das paixões de Viktor Suvorov. Essa paixão, aliada ao conhecimento e prática inerente à sua formação militar, levaram-no a questionar o modo como a União Soviética agiu antes e durante a Segunda Guerra Mundial e o papel de Joseph Estaline em toda a trama. Levaram-no também a estudar e a descobrir todas as facetas do ditador com perfil de um génio maquiavélico, um líder obcecado pela revolução comunista internacional a qualquer preço.
Viktor Suvorov baseia-se em documentos até então secretos dos arquivos da ex-URSS para trazer à tona os bastidores do conflito, apontando as contradições nas narrativas históricas mais célebres sobre o período da Segunda Guerra Mundial.

Adeus Acção Integral, Olá VERITATIS


Agora que se cumprem 5 anos de actividade do blogue Acção Integral, decidi após reflexão, dar uma nova roupagem ao espaço que vos acolhe. Uma das razões mais substanciais, é a constante colagem que alguns fizeram do blogue a certos movimentos históricos do passado.
Este melhoramento advém de uma feliz evolução natural, o que é bom sinal, e traduz-se numa maior concordância do conteúdo com o título. Sempre VERITATIS...
Eia, avante!

Céu e Inferno


Dois frades descalços, às seis da manhã, em pleno Inverno e nevando copiosamente, saíam de uma igreja de Paris. Tinham estado a noite inteira em adoração ao Santíssimo Sacramento. Descalços, em pleno Inverno, nevando... E eis que, naquele mesmo momento, de um cabaret situado na rua da frente, saíam dois jovens pervertidos, que tinham passado ali uma noite de crápula e luxúria. Saíam meio mortos de sono, vestidos com os seus magníficos casacões, e ao cruzar-se com os dois frades descalços que saíam da igreja, encarando um dos jovens com um deles, disse-lhe em tom irónico: "Irmãozinho, que grande choque vais ter se resulta que não há Céu". E o frade, que tinha grande agilidade mental, respondeu-lhe de imediato: "E tu que grande choque vais ter se resulta que há Inferno".

Pe. Antonio Royo Marín in «El Misterio del Más Allá», 1957.

A Igreja de Arroios e o apostolado pós-Conciliar


Há documentos antigos, onde se lê que a paróquia de Arroios foi uma das primeiras [de Lisboa], mas que andou transferida por igrejas e capelas até ao último quartel do século XVIII. Nessa época foi adquirido um terreno no Largo de Arroios para se construir uma igreja paroquial, só inaugurada em 1829.
(...)
Em 1969 a igreja não satisfazia e a urbanização da cidade fê-la demolir por não comportar um mínimo necessário ao apostolado moderno; e foi então que principiou um movimento de pessoas de boa vontade para a sua reconstrução. Os paroquianos de Arroios queriam ter a sua igreja e conseguiram-no. A primeira pedra foi colocada no dia 8 de Dezembro de 1970 pelo Patriarca, que nessa época era o Cardeal Cerejeira.
No decorrer do tempo os trabalhos prosseguiram com fé e força de vontade, e assim se construiu um bonito templo de linhas modernas, funcional e com capacidade para dois mil fiéis.

Extraído de «Olisipo: Boletim do Grupo Amigos de Lisboa», nº 136, Janeiro/Dezembro 1973.


Mais fotos da monstruosidade aqui.

Crítica de Alfredo Pimenta a António Sardinha (Parte 2)


IV

Juntaram-se estes trinta e seis cavalheiros, para aquilo que o leitor viu.
Nenhum deles teve a coragem de vir sozinho, e vá de juntarem-se em magote, os trinta e seis.
Nenhum deles se sentia com autoridade bastante para se fazer ouvir ou acreditar; e vá de se juntarem em turba, os trinta e seis.
Mas a Quantidade não cria a Qualidade; o Número não é fonte de valor – e serve apenas para se diluírem responsabilidades. E assim, se a cada um dos trinta e seis lhe escasseava o ânimo para o insulto, não ficaram mais animosos os trinta e seis, por virem em manada; porque o que lhes parece que seja ânimo não passa de manifesta fraqueza. E se nenhum deles se sentia com autoridade para a Declaração, não é por virem em ramilhete que a possuem.
Depois do que fizeram, dessa vergonha sem-nome de se reunirem em hoste ou mesnada, para assaltarem um homem isolado, vocês perderam qualquer sombra de autoridade moral seja para o que for.
Um homem desonra-se pelos seus actos, pelas suas palavras, pelas suas atitudes. Não é porque um fulano ou trinta e seis fulanos o proclamam pecador, que esse homem peca.
Pode um de vocês, ou podem vocês todos proclamar criminoso um homem, que se ele estiver inocente, inocente ficará.
E vice-versa. E pode um de vocês e podem vocês todos proclamar o António Sardinha intangível e tabu, divino e taumaturgo, que se ele for de barro e fanado, fanado e de barro continuará a ser.
Mas, em qualquer hipótese, poderem, vocês, julgar-me? Terem, vocês, autoridade moral para me julgar?!
Vocês!
Primeiro, juntarem-se trinta e seis para enxovalhar um homem sozinho, é uma coisa miserável, de que, graças a Deus, não há exemplo.
Depois, entrarem na onda nove pessoas com quem estava de relações cortadas é escândalo maior ainda. Onde se viu que alguém que está de relações cortadas com outrem se bandeie com terceiros para lhe apedrejar as vidraças ou a honra?
Pois, aqui, não houve uma dessa força: houve nove!
Ao que se desceu!
Ora saiba-se isto.
Um desses nove, o arauto da tropa fandanga, e redactor da prosa repugnante, aqui há anos, esteve preso por amor daquele que Sardinha acusara de gastar a seu talante, dinheiro que não lhe pertencia. Pelo mesmo motivo, fora preso igualmente um querido amigo meu.
Quando soou a circunstância única de ser imediatamente eficiente o meu esforço para restituir este meu amigo à sua vida livre, não a deixei escapar, e empenhei-me a fundo. Reparei, então, em que também estava preso o outro com quem havia anos já eu cortara as relações.
Não hesitei. O meu trabalho abrangeu os dois; eram dois escritores; pedi pelos dois, e os dois vieram, ao mesmo tempo, para a rua.
Compare-se o meu procedimento com o desse tipo; eu, de relações cortadas com ele, intervenho a seu favor, ou se se prefere, não o excluo da minha intervenção; ele, de relações cortadas comigo, não treme, ao redigir a prosa indigna, o esguicho nauseabundo, a injúria reles que pretende atingir-me!
Mas, francamente, vocês, ó trinta e seis heróis da Declaração, vocês tomaram-se a sério? Vocês supõem que me fizeram algum mal, me causaram arrelia, ou me tiraram o sono, ou me desviaram do meu trabalho, quando lhes li a sentença?
Vocês estão matias de todo!
O vosso António Sardinha – e era o vosso António Sardinha! – acusou a Senhora Infanta D. Aldegundes de ter atraiçoado os monárquicos portugueses. E vocês acreditaram?
Acreditassem ou não – o que é certo é que Sua Alteza Real não ficou diminuída perante o conceito de ninguém, e a calúnia não passou do caluniador.
O vosso António Sardinha – e era o vosso António Sardinha! – acusou Paiva Couceiro de gastar, como lhe apeteceu, dinheiro que não lhe pertencia. Isto é horrível.
Mas vocês ligaram tanto crédito à acusação, como eu. Vocês e toda a gente. E a calúnia ficou com o caluniador.
Dar-se-á o caso de vocês se considerarem superiores ao Sardinha, ou mais dignos de crédito do que ele, ou mais limpos em juízos do que ele, querendo convencer-nos de que as suas apreciações são moeda falsa, e só as vossas têm a liga leal?
Deixem-se disso!
A vossa Declaração ninguém a toma a sério. Poderá, amanhã, ser invocada, no fragor de polémicas, ou com intuitos de propaganda. Nenhum homem de honra e de boa-fé a subscreverá.
Ninguém a toma a sério. Nem vocês!
Julgarem-me, vocês, a mim!
Vocês, entre os quais há um que ainda ontem me procurava para se queixar de que caminhávamos para uma Monarquia de Banksters que nos desonraria a todos, e no dia seguinte, vi de braço dado com quem ele acusava de o levar a tão fúnebre prognóstico?
Vocês, entre os quais há um que ainda ontem me procurava para comentar, com palavras de fel e de vitríolo, certas circunstâncias adstritas ao colar da Torre e Espada que cai sobre o peito do Lugar Tenente do Rei?
Vocês, que ainda ontem promoviam golpes de estado contra os supremos organismos dirigentes da Causa Monárquica e, posto o jogo a descoberto, se ficavam, mudos e quedos, como se nada se tivesse passado?
Vocês entre os quais há um que ainda ontem, diante dum artigo de serviço ao Rei, escrito por mim, me gritava ao telefone: «este jornal não é dos monárquicos, nem da Causa Monárquica, mas unicamente meu; e eu não sou o meu Pai...; porque não preciso da Causa Monárquica para nada!», e, no dia seguinte, corria a aceitar, na mesma Causa, o lugar de anódino para que, por sugestão exclusivamente minha, era convidado?
Vocês, entre os quais há um que ainda ontem me procurava, quando me supunha em transe de hostilidade, para me revelar que, sob pseudónimo cauteloso, tinha tentado ajustar à figura de Miguel de Vasconcelos – para, no dia seguinte, se fingir cooperador duma política de apoio leal e sincero ao mesmo Chefe do Governo?
Vocês, entre os quais há um que ainda ontem comentava as últimas determinações régias, chamando-lhes doutorescamente «certidão de óbito da Monarquia»?
Vocês, entre os quais há um que açambarca múltiplas posições rendosas, sem tempo nem vagar para honradamente as desempenhar e ontem era alvo de chacotas acerbas por amor disso, por parte de alguns íntegros, e hoje se encontra entre os seus chacoteadores, enquadrado no grupo dos trinta e seis?
Vocês, entre os quais há um que ainda ontem, chamando-me seu «querido amigo», me agradecia os meus dois opúsculos sobre o António Sardinha e Paiva Couceiro, embora não gostasse deles, do primeiro, por «excessivo e injusto», pedindo-me que desculpasse «esta franqueza», mas «a amizade a isso obriga», e, dizendo-se meu amigo e admirador, muito obrigado» – meia dúzia de dias depois se mancomuna com torpes inimigos meus, e assina a Declaração ignóbil?!
Vocês, entre os quais há um que, encontrando-se no estrangeiro, quando Sardinha morreu, teve um comentário tão grave, que eu nem sequer me atrevo a deixar perceber qual ele tivesse sido? Está aí vivo quem lho ouviu.
Vocês, que ainda ontem alfinetavam, e combatiam aqueles a quem chamavam «catolaicos» – os políticos do sector católico que tem por órgão as Novidades, e hoje me aparecem entendidos com os mesmos catolaicos?
Vocês, que ainda ontem filiavam a orientação ou a atitude da política do Estado actual, que ferozmente e odientamente contrariam, no espírito do Centro Católico, e hoje fraternizam às mil-maravilhas com o pior que há dos restos do mesmo Centro?
Vocês, julgarem-me?! Vocês, com todo esse cadastro de baixezas, mentiras, hipocrisias, tartufices – julgarem-me, a sério, a mim?
Vocês estão matias de todo! Quem vos convenceu dessa patranha?
Alguns de vocês arrancaram a máscara que lhes serviu de gazua para poderem entrar em minha casa, na intimidade do meu lar, na discreta confiança do meu coração. E aos trinta e seis eu vejo-os agora igualados, irmanados, confundidos, revelando-me a mesma face repelente do Ódio impotente e selvagem que não reconhece escrúpulos, e se afunda no lodo com que sonhou poder manchar o meu nome.
Não! Vocês são hediondos e ridículos. Destituíram um Rei, caluniando-o, tentando desonrá-lo; ameaçaram de passar por cima do actual3; a mim, agora, endereçam-me a Declaração famosa – que distribuem, ao domicílio, e vendem, nas lojas, a tostão!
O Rei continuou a ser o Rei; eu continuarei a ser quem sou.
Esses atestados que vocês tão facilmente passam não têm cotação; denotam a carência moral de quem os assina; e confirmam a integridade das vítimas.
Fiquem-se, vocês – que eu sigo o meu caminho.
Vocês são do Sardinha, não são do Rei; e querem fazer da Causa Monárquica, uma Causa que não seja a do Rei, mas do Sardinha, e dos amigos do Sardinha.
Para ser monárquico, e servir o Rei e os Princípios da Realeza, não preciso de placet dos trinta e seis, nem de licença da Causa do... António Sardinha.
Há mais de dez anos que exerço, quase sozinho, a minha actividade política. Os raros que estavam comigo porventura comigo continuarão.
A despeito de repetidos e insistentes convites, nunca quis entrar para o Integralismo. Nestes últimos dez anos, a vocês só vos encontrei, para me contrariarem.
Quando em 1941, pronunciei na Sala de Salazar, na Universidade do Porto, a conferência das Palavras à Juventude4, essencialmente, manifestamente portuguesa e monárquica, vocês que nunca foram, e jamais serão capazes de atitude idêntica, como a acolheram? Com silêncio, ou pessimismo, ou hostilidade.
Quando fiz a campanha a favor da presença da Família Real nas Festas dos Centenários, que me chegou de vocês? Ou silêncio, ou dificuldades, ou desdéns, ou hostilidade.
A Família Real veio; mas não foi a vossa política torta e imbecil que a trouxe: foi a minha política honesta, e feita à luz do dia.
Há meses, fui convidado para entrar no chamado Supremo Conselho Cultural da Causa Monárquica. Acedi, com repugnância. Assisti ao acto de posse, e nem sequer «obrigado» disse. Presente à primeira reunião, quando vi que vocês estavam lá todos, fiz considerações que claramente demonstraram que não me sentia disposto a aturá-los. As minhas palavras de essa tarde devem ter sido como chicotadas firmes que vocês sentiram – grotescamente ouriçados.
A Causa Monárquica, a pretexto de uma reunião obscena, trazia-vos para o seu seio, e entregava-se ao domínio dos vossos caprichos, das vossas ambições, dos vossos rancores. Era de prever o resto. Ao sair dessa reunião, declarei a um amigo: «não volto a pôr os pés, aqui!»
A minha crítica a António Sardinha operou instantaneamente o milagre de esclarecer tudo – depois de alinhar os meus inimigos.
Vocês não estão na Causa Monárquica, como soldados do Rei, ou para servir o Rei: estão, sim, como homens da Junta Central do Integralismo Lusitano, como sócios da sua sucursal comercial, A Gama, e para servir os interesses fechados desse grupo funesto ontem, funesto hoje, sempre funesto.
Então, hoje, vocês, ao que parece, senhores da Causa Monárquica: à política do Rei, opõem, vocês, a política sinistra da Revolução mestiça – a que o Rei chama «obter a Restauração monárquica pela Conquista».
A política sensata, inteligente e lealíssima do Rei, chamam vocês, «a certidão de óbito da Monarquia», e opõem-lhe a política sinistra em que podem colaborar a Maçonaria, o Judaísmo, a Democracia e o Bolchevismo – porque vocês sustentam que o perigo comunista é uma... lenda, e recebem lições de carácter dos representantes dessas seitas.
Entre a vossa política e a política do Rei há um fosso: a política de El-Rei é a política nacional; a vossa é a política do mais mesquinho clientelismo e do mais rancoroso maquiavelismo.
Estão, vocês, agora, ao que parece, senhores da Causa Monárquica que se vos entregou imbecilmente. Pois bem.
Fiquem-se, vocês, a receber as tais lições de carácter dos inimigos mais teimosos da Realeza – por ódio ao Chefe do Governo. Não é verdade, João da Neiva? Pois bem.
Se encontrarem Rei adequado – porque o actual tem outras intenções políticas, façam a Monarquia – pela Conquista, vocês a dizerem que a Causa Monárquica arrasta pela lama a bandeira da Monarquia, e a Causa a agradecer-lhes o elogio...
Mas que comédia tudo isto é! Vocês, patrões da Causa Monárquica!?
Vocês dizem-se monárquicos – mas romperam a obediência que deviam ao Senhor D. Manuel, unicamente porque Ele se não prestou a servir de estribo às vossas ambições. Dizem-se monárquicos – mas não respeitam os princípios fundamentais da Realeza, pretendendo que esta não seja terreno aberto aos vossos ódios e disparates. Dizem-se monárquicos – mas não acreditam no Rei, a Quem desprestigiam, porque Lhe desobedecem. Dizem-se monárquicos – mas não crêem na doutrina monárquica, nem na sua virtude. Dizem-se monárquicos – mas recebem lições de carácter, dos inimigos mais assanhados da Monarquia!
Dentro da Causa Monárquica, vocês são o elemento essencialmente dissolvente e corruptor. Senhores da Causa Monárquica, vocês têm que seguir as instruções régias que repudiam, e que defender a política do Rei que combatem, e alinhar o vosso passo pelo passo do Rei que desacreditam.
Que comédia!
Dentro da Causa Monárquica – estão a atraí-la para um campo equívoco, em que nada se salvará, nem a honra, pois não tardará muito que o país deseje saber qual é, afinal, o pensamento que orienta essa Causa: – o pensamento do Rei, claro, rectilíneo e nobre, ou o vosso pensamento, equívoco, ziguezagueado e desleal? Desejará saber, o País, qual é a verdadeira atitude da Causa Monárquica diante da realidade do Poder; a que o Rei, com inteligência e grandeza, sempre tem declarado, ou a que vocês desde sempre adoptaram, e os tem levado a conchavar-se com os piores inimigos do Rei e do Poder?
Que tenebrosa comédia!
Façam, vocês, e a Causa de António Sardinha, a Monarquia – pela Conquista.
A Monarquia que vocês fizerem, se tiverem Rei que os acompanhe, não será, porventura, a Monarquia de Banksters que, ontem, compungidamente, um de vocês me anunciava; mas feita por vocês, inspirada por vocês, informada por vocês, dirigida por vocês, será, indiscutivelmente, tal Monarquia, uma verdadeira Monarquia de Gangsters!
Façam-na, e sejam felizes...

Sexta-feira Santa, 1944.

Alfredo Pimenta.

1 – E não se percebe, ou percebe-se demais o escrúpulo com que tais expressões foram reproduzidas pelos editores, ao subtraírem ao conhecimento do público, por exemplo, o artigo que se intitula A Apologia da Guerra, e ocupa dez páginas do nº 5 da Nação Portuguesa. Que conteve o labor dos editores para os levar a esconder estas dez páginas, eles tão meticulosos, ao reproduzirem injúrias?
2 – Chamo a atenção para o prefácio-dedicatória do livro do Professor da Universidade de Salamanca, Francisco Tejada, Las Doctrinas Políticas en Portugal: Sardinha agasalha sob «el manto egregio de su nombre a todos cuantos añoramos la vuelta de aquella edad dorada» que «el mayor de todos los hispanos Filipe el calumniado», representa, quando, «reune en su mano los cestros de todos y cada uno de los reyes peninsulares» (págs. 8 e 10).
3 – Dizia António Sardinha: «...se ele (o Senhor D. Duarte) não quiser... outro Rei que as assembleias escolham». Que monárquico!
4 – Ver publicação Cadernos Culturais.

Crítica de Alfredo Pimenta a António Sardinha (Parte 1)


António Sardinha e o Grupo Recreativo dos Trinta e Seis

I

Quando escrevi o meu trabalho crítico sobre António Sardinha, demais sabia eu o que estava a fazer. Ele seria como o bisturi implacável que rasga furúnculo fundo – porque era o camartelo que reduzia a estilhas o ídolo com que se andava a mistificar um Povo, e o gesto forte que fendia o véu sob que se ocultava um sistema de mentecaptices.
Ninguém lhe conheceu o texto antes de ser publicado. Apenas em roda de amigos, porque me perguntassem em que me ocupava agora, respondi que compunha dois trabalhos explosivos.
Quando o opúsculo apareceu, logo me chegou aos ouvidos o rumor de que no seio vasto da Madre-Gama, era grande a rabiosidade das crias dos gamos, e de que pessoas sensatas e criteriosas procuravam contê-la, por certificadas de que sairia disparate.
Tomei o meu lugar, para assistir à fita.
Passaram três semanas. Ouvira dizer que os irrequietos gamos andavam a colher assinaturas para um Protesto muito violento, – pois os convocara para capítulo, o seu Chefe, Mentor ou Dono, não sei bem.
Na terça-feira, à noite, chamaram-me ao telefone, para me felicitarem. Como fosse, esse dia, aniversário de uma filha, supus que se tratasse do aniversário festivo, e corri ao telefone.
Então que há?
Quero dar-lhe os parabéns pela torpeza dos seus inimigos!
Efectivamente...
No dia seguinte, recebi pelo correio, com dizeres que revelavam reacção espontânea e simpática, um papel desprezível, onde se lêem estas palavras que aqui reproduzo, para possível escarmento e vergonha dos seus signatários, se é que algum deles, depois do que fez, é capaz de vergonha, ou sensível ao escarmento:

«Publicou-se recentemente em Lisboa um desprezível panfleto em que se pretende deprimir o valor das obras de António Sardinha e ultrajar a alta dignidade da sua memória.
Os abaixo assinados, amigos, companheiros ou admiradores do Poeta e Mestre do pensamento político português, não podem atribuir àquele mórbido intento qualquer alcance ofensivo por que deva responsabilizar-se um profissional do escândalo.
Mas por atenção a leitores ainda desprevenidos, e pelo respeito à verdade, são levados a manifestar publicamente a sua comiseração por uma triste anormalidade que subtrai o autor a qualquer domínio do senso moral.
Lisboa, Março de 1944.»

Assinam esta prosa de Limoeiro – se se não ofendem os desgraçados que lá penam seus infortúnios – assinam esta prosa de Limoeiro, trinta e seis sujeitos: nove com quem já estava de relações cortadas; e doze a quem nem de vista conheço; dos quinze restantes: treze tinham comigo relações de cortesia, mais ou menos seguidas; dois considerava-os em verdade, meus amigos, um, principalmente, Alberto de Monsaraz. É este o único que sinceramente lastimo ver metido nesta cegada maltrapilha.
São trinta e seis, os heróis da façanha!
Eh! pá! Trinta e seis, para um homem só é coisa assinalada. Ou são frágeis como palhiço de centeio seco, ou a minha pena é de calibre tão potente que só em coorte cerrada se atrevem a investir com ela.
Trinta e seis para um homem só que não dispõe de mais nada, senão do vigor do seu espírito e da inflexibilidade da sua coragem! Trinta e seis para um homem só chega a ser a máxima das cobardias.
Nunca, nem para repelir injúrias, ou para discutir ideias, precisei de recorrer a tribos. Solus, totus et unus – é assim que tenho aparecido e apareço, assumindo, sozinho, a responsabilidade das minhas palavras, das minhas sentenças, dos meus juízos, das minhas atitudes, ou defrontando multidões exacerbadas e incontidas, como em Setúbal, no Barreiro, em Coimbra, ou indiferente às possíveis reacções dos gamos – sejam trinta e seis, ou trinta e seis mil...
Enlamearia a minha cara, por contrição ou pudor, se, algum dia, me passasse pela cabeça angariar assinaturas para praticar, cobrir ou proteger qualquer agressão que tivesse em mente, fosse contra quem fosse, quanto mais contra um só!
Andavam os gamos no vasto seio da Madre-Gama que lhes dá o nome, quando saíu o meu livro sobre o António Sardinha.
O Guia, o Mentor, o Mestre, o Dono, ou lá o que é, correu, esbaforido, e gritou-lhes: «Então que silêncio é esse?! Então não defendem a memória do grande morto? Têm quarenta e oito horas de prazo...»
Habituado a que lhe obedeçam, dentro de quarenta e oito horas de prazo, o Guia, o Mentor, o Mestre, o Dono ou lá o que é, foi-se à vida; e os gamos tocados pelo ultimatum do Chefe, Mentor, Mestre, Guia, Dono ou lá o que é, reuniram-se, conciliabularam, contaram-se, e, uma vez que se viram trinta e seis bem juntos, bem unidos, bem presos, arrancaram por aí fora, e, separando-se em duas colunas guerreiras, quando perceberam a minha sombra, estacaram, criaram ânimo e... zás! despejaram para cima da minha sombra aquele vómito cerebral.
Mas eu já ia longe, indiferente à arremetida dos gamos, e nem um salpico só do seu vómito atingiu sequer a minha sombra...
E para conceber, gerar e dar á luz aquilo, se reuniram, em coito danado, aqueles trinta e seis sujeitos!
Fenómeno único, na história literária do meu país!
Dão-se as mãos, em maçonaria de Entrudo, trinta e seis criaturas – não para discutir, não para argumentar, não para esclarecer, não para rebater, mas para injuriar, para insultar, para sujar quem está só, quem é só, quem, sozinho, se apresenta a desafiar as cóleras e as injúrias das manadas, dos bandos, das capelinhas, dos grupelhos, das chafaricas, tendo sobre todos eles a superioridade manifesta, visível, indiscutível, de uma coragem e de uma lealdade que nenhuma dessas púrrias de esgoto sabe o que seja!
Trinta e seis sujeitos ligados pelo cabresto da Impotência para um homem só que não dispõe nem de Poder, nem de Imprensa, nem de Partidos, nem de Fortuna – mas apenas da sinceridade dos seus juízos, e da consciência plena dos seus deveres, havemos de convir em que é singular!

II

Impressionar-me-ia mais aquela Declaração, se a assinasse um apenas dos trinta e seis – assina que o mais medíocre, ou o mais abjecto.
Assinado por trinta e seis figurões de cegada do Entrudo, constitui a mais estrondosa vitória que eu podia desejar, para a minha crítica à obra e à pessoa de António Sardinha, e, simultaneamente, o mais escandaloso, o mais retumbante e insólito desserviço que à pessoa e à obra do criticado, se poderia prestar.
Em primeiro lugar, se, em Lisboa, não há amigos do Sardinha, com a nobreza bastante para se não agruparem para insultar um homem sozinho, e com a inteligência e a cultura suficientes para tentarem rebater as afirmações da minha crítica, deploremos todos nós a situação do malogrado escritor, que só tem a seu lado, aqueles trinta e seis signatários da Declaração. E estes não valem um caracol apodrecido.
Em segundo lugar, críticas desfazem-se com críticas.
Quem às críticas responde com insultos, murros ou bengalada, confessa a sua inaptidão, a sua incompetência, a sua ignorância, ou a sua indignidade. Pode ser excelente agente provocador, exímio boxista ou óptimo esgrimista de pau. Escritor é que não é.
Ao António Sardinha que inventaram, opus o António Sardinha real, humano, como foi na sua vida e nos seus escritos.
Menti? Prove-se que menti.
Enganei-me? Prove-se que me enganei.
Deformei? Prove-se que deformei.
Feita a prova – ou me retrato, arrependido, e sou homem de bem; ou sustento as falsidades, teimosamente, e sou indigno de viver entre homens honrados.
Nas cinquenta páginas da minha crítica, apontei factos, textos, realidades.
Por isso das esferas universitárias descem até mim vozes de simpatia pela obra «de há muito necessária»...
Para os amigos sinceros de António Sardinha (não falo dos seus exploradores comerciais que transmudaram o seu nome em moeda que corre no balcão, nem é claro, dos trinta e seis patuscos da Declaração) para os amigos sinceros de António Sardinha, – que os deve ter! – só uma de duas atitudes é digna: rebater as posições da Crítica; ou o silêncio.
Insultar por insultar, como fizeram os trinta e seis famigerados heróis, é de regateiros, não é de homens de letras. Mas se lhes puxava a língua para o insulto soez, para a injúria canalha, começassem por tentar desfazer a crítica, e, depois, espinoteassem à vontade para gáudio da galeria, porque, nessas condições, o pinote é livre.
Se, juntando-se trinta e seis em grupo, e arremetendo em duas colunas contra um homem sozinho, não tiveram a mais leve sombra de nobreza, tomando a atitude que tomaram, afastando a Crítica para enxovalharem o crítico, faltaram ao mais leve respeito devido à Inteligência. E, ao mesmo tempo, desampararam, deixaram inteiramente a descoberto, a figura de António Sardinha.
Porque o público que já assiste interessado a este prélio, raciocina assim: «se aqueles trinta e seis, onde há de tudo, se escapam pela tangente da injúria e da difamação, é porque a Crítica foi certa, e nada há a responder-lhe».
Desgraçadamente, a Crítica é inexpugnável. Desgraçadamente para Sardinha, para os seus amigos sinceros, e até para mim que fui violentado a sanear a atmosfera.
Os trinta e seis heróis, com a sua Declaração, pretendem desviar as atenções da Crítica, e concentrá-las no crítico. O processo é pré-adâmico. E eu não sou criança.

III

Intimo os trinta e seis signatários da Declaração, em conjunto ou individualmente, a responder a estas perguntas, pelo menos:
1.º) É ou não verdade que, há anos para cá, são reproduzidas contra mim, e pelos meus inimigos, as expressões injuriosas de Sardinha, sem que ninguém as desautorize ou desabone?1
2.º) É ou não verdade que tais expressões injuriosas foram escritas unicamente por eu não ter acompanhado Sardinha, na sua atitude de rebeldia impertinente para com o Senhor D. Manuel?
3.º) É ou não verdade que Sardinha tendo, em 1918, escrito palavras de louvor em minha honra, em 1921, procurara torcer-lhes o significado, e diminuir-lhes o alcance?
4.º) É ou não verdade que Sardinha cooperou na greve de 1907, e mais tarde, diante do sacrifício, faltou à sua palavra, furando a greve?
5.º) É ou não verdade que Sardinha confirmou as palavras que lhe foram atribuídas, como comentário ao Regicídio?
6.º) É ou não verdade que Sardinha acusou Sua Alteza Real a Senhora Infanta D. Aldegundes de ter traído os monárquicos portugueses?
7.º) É ou não verdade que Sardinha acusou Paiva Couceiro de dispor «a seu talante, de dinheiro que não lhe pertencia»?
8.º) É ou não verdade que Sardinha acusou o Senhor D. Manuel de cumplicidade com os que «venderam ignobilmente, como marchantes, o sangue dos seus compatriotas», e de conceder títulos «como o Banco de Portugal fabrica notas»?
9.º) É ou não verdade Sardinha me pediu que o autorizasse a subscrever comigo o projecto de revogação do Divórcio, que apresentei à Câmara dos Deputados, em 1919?
10.º) É ou não verdade que a sua revisão histórica de D. João VI e de D. Carlota Joaquina é decalcada sobre os trabalhos de Oliveira Lima e [Julian Maria] Rubio?
11.º) É ou não verdade que o seu Prefácio à 2.ª edição das Memórias para a História e Teoria das Côrtes Gerais, do Visconde de Santarém, é uma coisa absurda, visto a todas as luzes?
12.º) É ou não verdade que Sardinha não fez História, limitando-se a trabalhar sobre a história feita, e que não utilizou, nem folheou, nem conheceu Documentos de Arquivos ou Cartulários impressos?
13.º) É ou não verdade que não foi antropólogo ou arqueólogo – mas escreveu o Valor da Raça?
14.º) É ou não verdade que Sardinha caluniou Gomes Freire, afirmando que ele se batera em Argel «com destemperado arrôjo», quando Gomes Freire nunca esteve em Argel?
15.º) É ou não verdade que proclamou, contra a evidência dos textos, que os Reis de Portugal, D. Afonso I e D. Sancho I se intitulavam «reis dos portugueses» em posição oposta à dos Reis de Castela e Leão que se intitulavam «reis de Castela» ou «reis de Leão», e esboçou sobre essa falsidade – uma doutrina disparatada?
16.º) É ou não verdade que Sardinha escreveu a Aliança Peninsular, sobre a qual, um dos trinta e seis signatários da Declaração formulou os juízos que transcrevi no meu livro?
17.º) É ou não verdade que a tese defendida nessa obra maléfica2 pertence a Oliveira Martins e Moniz Barreto?
18.º) É ou não verdade que Sardinha falava de S. Tomás, sem o ter lido directamente?
19.º) É ou não verdade que proclamou Teófilo Braga «prelector da mística nacional», para, volvidos poucos tempos, se penitenciar de ter lido e admirado o mesmíssimo Teófilo?
20.º) É ou não verdade que um dos trinta e seis signatários da Declaração me narrou a tarde de Madrid, com a visão do coche de gala, e tudo o mais?
21.º) É ou não verdade que no conjunto da obra de Sardinha se proclama:
a) Primado do Político;
b) O exclusivismo da solução monárquica;
c) A ligação indissolúvel da Causa da Igreja e da Causa da Monarquia;
d) A sua antipatia pela França;
e) A sua hostilidade à Aliança Inglesa;
f) A sua predilecção pela Aliança Peninsular;
g) O seu amor ao Brasil;
h) O seu racismo anti-semita?
22.º) É ou não verdade que Sardinha viveu na Quinta do Bispo – desde 1914, a qual constituía, «pelo seu casamento a base principal dos seus interesses»?
23.º) É ou não verdade que na Acção de 25 de Março de 1943, o Sr. Azinhal Abelho reproduziu, sem contestação de ninguém, e portanto transitou em julgado, a afirmação feita por António Torres de Carvalho, de que Sardinha morrera a tempo, porque de outra forma, «a fortuna da mulher ter-se-ia sumido, e esta ficaria na miséria»?
Porque nenhum dos trinta e seis signatários da Declaração se enxofrou, então, e protestou?
24.º) São ou não verdadeiras, autênticas, irrecusáveis, as quatro cartas que Sardinha me dirigiu, e eu publiquei?
25.º) É ou não verdade que nos últimos tempos da sua vida, Sardinha abandonara a tese do primado do Político, embarcara na chafarica dos Homens livres, e incensara Proença e Sérgio, e proclamara que a República e Monarquia eram mitos que nada exprimiam?
26.º) É ou não verdade que Sardinha nunca foi historiador, nem erudito, nem pensador, mas apenas um colector de impressões, glosando-as através da viveza do seu espírito, e do brilho ardente da sua palavra?
É isto que se discute, Srs. trinta e seis signatários da Declaração! É isto que convém apurar! É isto que as gentes moças que estavam a ser ludibriadas, esperam e desejam que se esclareça. É isto que vocês têm que sujeitar à análise do Saber, se o possuem, ou da Dialéctica, se está ao vosso alcance.
É isto que os emprazo, é poeira, é evasiva, é chantage, é carnaval pelintra!
Vá, discutam, respondam, esclareçam – arrumem devidamente os assuntos dessas vinte e seis perguntas, e, depois, insultem.
Recorram aos sistemas fluídicos, ou aos futurismos malabáricos, ou à dialéctica retorcida – mas discutam, contestem, destruam os vinte e seis items do Libelo.
Isso é o que interessa. Para isso é o que os emprazo; a isso é que os intimo.
O resto, repito, é fumo, poeira, evasiva, chantage – Carnaval.
Respondam, e não se façam lorpas, e não digam como por aí dizem, que António Sardinha está acima das discussões. Porque acima das discussões – só Deus, ou o Papa, quando define, ex-cathedra, doutrina.
E o António Sardinha ainda não é Deus, nem Papa, em funções de vice-Deus; pertence à História profana, e à Crítica humanas.
Vamos: respondam!

Para compreender o Liberalismo

Farto de ver tantas pessoas falar sobre o Liberalismo sem saber nada do assunto, achei por bem divulgar um capítulo inteiro duma obra de Monsenhor Marcel Lefebvre, no qual fica bem patente em que consiste o erro do Liberalismo.




Soberania divida é soberania perdida

Estandarte do século XIX.

Não sei que raiva é esta contra os Reis, que é o mesmo que dizer contra a unidade e concentração de todos os poderes em um sujeito; ao mesmo passo que as lições da experiência e da história depõem altamente contra esta pretensão maçónica de fazer ou retalhar em diferentes quinhões o Poder Soberano!
Como se fundaria a Monarquia Portuguesa, se os das Cortes de Lamego fossem todos Soberanos, e só deferissem o poder supremo a El-Rei D. Afonso Henriques nos lances de apertos, para lho tirarem, apenas se restabelecesse a boa ordem e a segurança pública? Qual dos Reis desta Monarquia terá sido um verdadeiro tirano? Ainda que o fossem; estou pelo dito judicioso do grande Padre Vieira: antes sofrer um ladrão, do que um cento deles; porém a verdade histórica nos afiança que nenhum dos nossos Príncipes se inclinou para a tirania.

Frei Fortunato de São Boaventura in «O Mastigoforo», 1824.

§

As palavras de Dom Frei Fortunato – Lente de Coimbra e Arcebispo de Évora – valem não apenas como autor e homem culto do Clero, mas sobretudo como testemunho presente de todos os acontecimentos que levaram à derrocada material da Monarquia Portuguesa. Dom Frei Fortunato não só conheceu a verdadeira Monarquia Tradicional, como foi contemporâneo do surgimento da Maçonaria em Portugal (1802), da Revolução Liberal do Porto (1820), da primeira Constituição escrita (1822) e da Guerra Liberal (1828-1834), mas sobretudo conheceu em primeira mão a demagogia das ideias liberais. No entanto, aparecem agora auto-proclamados "monárquicos tradicionalistas", com associação já montada e tudo, a difundir ideias bastante parecidas com as dos liberais do século XIX. Curioso, não?! Quase até parece uma vingança do liberalismo maçónico: para abafar o tradicionalismo autêntico e evitar que verdadeiros tradicionalistas se levantem, criaram um falso tradicionalismo monárquico.

Carta de Alexandrina de Balazar a Oliveira Salazar


Excelentíssimo Senhor, digníssimo Presidente do Conselho.

Muito cheia de vergonha e de confusão, venho escrever a Vossa Excelência para cumprir um dever de consciência. Se não fosse esta a vontade de Nosso Senhor, preferiria não o fazer, pois sou uma simples rapariga de campo e confesso-me indigna de escrever a Vossa Excelência. Sofro desde quando tinha 14 anos e por isso faz 22 anos que não sei o que seja viver sem dor. Desde há 15 anos e meio que estou de cama sem jamais poder levantar-me. Nosso Senhor não olhou à minha indignidade, nem à minha grande miséria. Escolheu-me como vítima. Tenho vivido e ainda vivo, graças a Deus, muito desconhecida, fazendo conhecer a minha vida só ao meu Director Espiritual; e não a qualquer outro; a isto obriga-me a necessidade, pois eu não tenho forças para escrever, como desejava: dito apenas e com grande sacrifício. Ora Nosso Senhor veio pedir-me mais este sacrifício. Por amor a Ele aceitei-o com a confiança de que será de muito proveito para as almas. É esta a razão por que me dirijo deste modo a Vossa Excelência, Senhor Doutor Oliveira Salazar. Foi no dia 2 do corrente mês que Nosso Senhor me disse, entre outras coisas, isto:
«– Vai depressa como uma mendiga pedir a esmola para Jesus. Vai a pôr termo depressa, muito depressa à desmoralização das praias. Escreve a Salazar. É ele, só ele, mais que todos os sacerdotes, a pôr termo a tanto pecado. Pede-lhe com insistência que faça mais isto pela Causa de Jesus e por Portugal. Prometo-lhe auxílio e conforto em todos os perigos e necessidades. Prometo-lhe o Céu. Ele, com a autoridade, também pode pôr termo ao pecado da carne, proibindo e castigando».
A mim cabe-me só dizer os desejos de Nosso Senhor. Vossa Excelência fará agora o que desejar, o que achar melhor. Nas minhas pobres orações e sofrimentos não me esqueço de Vossa Excelência, implorando as bênçãos e as graças do Céu, assim como a luz do divino Espírito Santo para que possa continuar a ser a luz e a salvação do nosso caro Portugal; para isto não recuso a Nosso Senhor nenhum sacrifício nem sofrimento. Peço a grande caridade de manter absoluto segredo, como se fosse uma coisa revelada em confissão: pelo amor de Jesus e de Maria, que o meu nome seja esquecido, como se dele nunca tivesse ouvido falar. Sei que é esta a vontade de Nosso Senhor, e portanto também a minha: viver desconhecida aos olhos do mundo. Com a máxima consideração e respeito assino:

A pobre Alexandrina Maria da Costa.

§

É curioso notar que a 7 de Setembro de 1940, dois dias após esta carta, no jornal poveiro Ideia Nova, se anunciam providências governamentais com vista à moralização das praias.
A 12 Outubro, o mesmo jornal aborda de novo a questão, escrevendo: «Todos os excessos e abusos que contrariam a linha moral de um povo, embora importados, devem ser reprimidos com inteligência e energia, para defesa daquelas tradições de honestidade e carácter que são dos elementos que melhor dignificam e definem um povo».

O triunfo dos porcos



Hoje não há uma só blasfémia ou imoralidade que seja proibida... Uma obra moderna pode consistir numa dança desenfreada de todos os demónios e de todos os porcos. Pode incluir qualquer coisa e qualquer pessoa, excepto alguém capaz de exorcizar os demónios e espantar os porcos.

G. K. Chesterton in «On Lying in Bed and Others Essays».