06/12/2019

6 de Dezembro: Venerável D. Afonso Henriques

D. Afonso Henriques funda a Igreja da Alcáçova, Santarém.

Tendo-se sempre desejado neste Reino a Canonização do seu primeiro Rei, o Senhor D. Afonso Henriques, na consideração das suas muitas e relevantes virtudes, se têm feito para isso várias diligências. No Reinado do Senhor Rei D. João III se fez o costumado processo sobre suas virtudes [D. Afonso Henriques foi declarado Venerável]. Nas Cortes, que se celebraram em Lisboa em 1641, pediram os Povos ao Senhor Rei D. João IV mandasse tratar deste negócio na Cúria Romana. José Pinto Pereira, Doutor em Teologia e em Direito Canónico, estando expedicionário Régio em Roma, aí escreveu Apparatus Historicus decem continens argumenta, sive non obscura sanctitatis indicia Religiosissimi Principis D. Alfonsi Henrici, Primi Portugaliae Regis, impresso em Roma em 1728, um Tomo de quarto; é dedicado ao Papa Benedito XIII, e juntamente ao Senhor Rei D. João V; o seu assunto é mostrar em Discursos a Santidade do Senhor D. Afonso Henriques, primeiro Rei deste Reino. A prova do primeiro Discurso é a aparição de Cristo Nosso Senhor ao dito Soberano, e declarar-lhe a vitória, que havia de obter dos Mouros, e o desígnio da Fundação de um Império nele para Si. A prova do segundo é ser impetrado, por meio de votos e orações, depois de uma longa enfermidade de seus Pais. A prova do terceiro é a maravilha da sanidade dos defeitos, com que nascera, das pernas pegadas uma por detrás da outra, obtida pela protecção da Virgem Mãe de Deus. A do quarto, a aparição também da mesma Senhora, e dos Anjos, prestando-lhe auxílio em diversas Batalhas. A do quinto, o grande zelo que tinha pela Fé. A do sexto, o objecto da instituição das duas Ordens Militares, de Avis e da Ala, ou Asa. A do sétimo, a piedosa fundação de cento e cinquenta Conventos, ou mais, além de vários Mosteiros, para culto e honra de Deus. A do oitavo, a oferta generosa que de si, e do Reino, fez ao Apóstolo S. Pedro e a Santa Maria do Claraval. A do nono, a grande piedade e reverência com que tratava os Vigários de Cristo, e a pia afeição com que ouvia os Varões justos e Santos. A do décimo, as virtudes que em sua vida praticou; os benefícios que nela lhe fez Deus; os prodígios que obrou depois da sua morte; a inteireza e fragrância do corpo; e a fama póstuma de Santo. Além de tudo isto, mandou o Senhor Rei D. José I principiar outro Processo para a sua canonização, cujas Ordens, Procurações e outros papéis conducentes ao mesmo respeito, foram lidos no Real Mosteiro de Santa Cruz, junto ao sepulcro do mesmo Rei, na presença de toda a sua numerosa Comunidade, no dia 6 de Junho, em que o mesmo Senhor cumpria os seus anos, e se apresentaram ao Bispo Conde, que logo destinou o dia 11 de Julho, oitava da Festa da Gloriosa Rainha Santa Isabel, para se fazer a primeira Sessão, como efectivamente se fez, com assistência das Comunidades Religiosas, Lentes e Doutores da Universidade, e de toda a Nobreza de Coimbra, com universal contentamento de todos. Repicaram-se os sinos da Catedral, da Universidade, e de todos os Conventos, Colégios e Freguesias: com a mesma solenidade se fizeram as mais seguintes Sessões. Tais têm sido os desejos e diligências dos Portugueses, com o fim de verem colocado sobre os Sagrados Altares, um Príncipe, que pelo seu valor e zelo da Fé, livrou grande parte deste Reino do jugo Maometano, e deixou estabelecido o Trono para os seus gloriosos descendentes.

Fr. Cláudio da Conceição in «Gabinete Histórico», Tomo XII, 1828.

04/12/2019

O que é a Natureza?


Natureza, considerada genericamente, significa o princípio universal espalhado por todas as coisas, que opera em todos os corpos, que os move, que lhes dá certas propriedades, tudo por virtude do seu Agente eterno, que é Deus. Ou, é o princípio intrínseco e essencial do que se faz e do que se recebe. No homem, a natureza é simultaneamente o corpo e a alma, porque o corpo e a alma são os princípios intrínsecos de tudo o que o homem faz ou recebe.

Pe. José Lourenço in «Dicionário da Doutrina Católica», 1945.

03/12/2019

O caso Climategate


Transcrição: O caso já foi apelidado de Climategate. Em causa estão e-mails trocados entre dois cientistas de renome internacional que foram parar à Internet. Nas conversas entre Phil Jones, director da universidade de investigação climática de East Anglia, na Inglaterra, e o climatologista norte-americano Michael Mann, é possível traduzir a manobra de tentar ocultar do relatório de 2007 do IPCC da ONU, artigos que contrariam a tese do aquecimento global. Esse documento pedia a redução da emissão de gases com efeito de estufa até 85% até ao ano de 2050. Os investigadores tentaram mesmo que fossem eliminadas quaisquer referências de cientistas cépticos sobre os motivos do aquecimento global e dos que assumem que o aumento da temperatura, ou o arrefecimento do Planeta, é um acontecimento cíclico e não exclusivamente relacionado com a poluição. De resto ficou também exposta a tentativa de eliminar as referências ao facto da temperatura estar mesmo a diminuir desde o fim dos anos 90. Um caso que foi omitido até pela própria imprensa, mas que está agora a ser investigado pela ONU e que levou já à suspensão de funções de Phil Jones, o cientista que dirige a prestigiada universidade de investigação do clima, em East Anglia, no Reino Unido.

01/12/2019

Viva a Restauração de 1640!



Na Era de 1639, um ano antes da Aclamação deste Reino, teve esta visão a Venerável Serva de Deus Leonor Rodrigues, na qual viu o Duque de Bragança sentado num Trono Real, e a Santa Teresa [de Ávila] que com a mão esquerda lhe metia um ceptro na mão; e deu-se a entender a esta Serva de Deus, que dali a um ano teriam os Portugueses Rei natural, por intercessão da Santa, e por estar a sua mão esquerda em Portugal; por isso com esta mão lhe punha o ceptro, e não com a direita. Assim se cumpriu no ano seguinte de 1640.

27/11/2019

Da essência do Comunismo


O comunismo é, na sua essência transcendente, uma solicitação demoníaca, operando por dois processos aparentemente antagónicos, o da vingança de injustiças seculares e o da promessa definitiva de plena satisfação dos desejos humanos.

Leonardo Coimbra in «A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre», 1935.


23/11/2019

Sobre a educação dos filhos


Amar é querer algum bem à pessoa amada. Os pais que repreendem e castigam a seus filhos, que lhes apertam o freio em seus apetites, que lhes quebram as suas próprias vontades, que velam sobre as companhias em que andam, exercícios em que se ocupam, e que fazem os mais ofícios de uma boa e solícita educação, o que com isto pretendem para seus filhos é, quanto ao temporal, que logrem vida, saúde e honra, e boa opinião, e tenham préstimo para os ofícios públicos e honrosos, etc.; e quanto ao espiritual, o que pretendem é que tenham virtude e a graça de Deus, e ultimamente consigam o morgado da felicidade eterna.
Pelo contrário, os pais que se descuidam desta boa educação, o que podem pretender, quanto ao temporal, é que os filhos vivam a seu gosto, sem coisa que os contriste ou penalize, que comam, e bebam, e galem, e engordem, e passem, e se façam temidos, ou célebres, ou invejados por algumas prendas naturais, ou pelas riquezas. Quanto ao espiritual nada pretendem; descuidando-se disso totalmente, e deixando-o à comum Providência de Deus; e o que a experiência quotidiana mostra resultar daqui, são muitas desgraças do corpo e da alma, brigas, encontros, mortes, amizades torpes, gastos excessivos, prisões, doenças, desterros, parcialidades, glutonarias, casamentos infelizes e indecorosos, até que amontoando-se pecados sobre pecados, se vem a incorrer na perdição eterna.
Pois perguntara eu agora, qual destes pais ama verdadeiramente a seu filho? De tal sorte formou Deus o nosso entendimento, que proposta ante seus olhos a luz da razão, não possa deixar de reconhecê-la. Claro está que aquele primeiro pai tem amor verdadeiro a seu filho; e que este segundo lhe tem amor falso, com os mesmos efeitos, que se fora ódio fino: Qui parcit virgae, odit filium suum; qui autem diligit illum, instanter erudit illum. O primeiro livra-lhe a sua alma do inferno, ao mesmo tempo que o castiga: Tu virga percuties eum, et animam ejus de inferno liberabis. O segundo ao mesmo tempo que o anima, o vai precipitando no inferno, como cavalo a quem se solta a rédea: Equus indomitus evadit durus, et filius remissus evadet praeceps.

Pe. Manuel Bernardes in «Discurso sobre a Educação», século XVII.

19/11/2019

19 de Novembro: Santa Isabel da Hungria


Viera esta Princesa à igreja ouvir missa, grinalda de ouro na cabeça estrelada de diamantes, grande fausto, grande cortejo de criados e senhores. Ajoelha diante de um Crucifixo, levanta os olhos, vê uma coroa de espinhos, e em si uma de pedraria; vê um corpo nu e chagado, e o seu bem vestido e tratado; vê o Senhor do Céu cercado de dor, angústia e desamparo, e a si de honra, estimação e glória. Cai em terra com um desmaio, como morta. Todos se assustam; levam-na em braços para o palácio; torna a si; muda de vida e começa a ser o que depois foi Santa Isabel, a amantíssima da Cruz e sempre sequiosa de padecer.

Pe. Manuel Bernardes in «Sermões e Práticas», 1711.

18/11/2019

Paganismo


Paganismo é o estado religioso em que vivem os povos que não conhecem o verdadeiro Deus. Adoram falsas divindades e seguem uma moral de harmonia com os erros grosseiros que às suas paixões agradam. Os homens tiveram sempre a ideia de um Deus; como não O conheciam, prestavam culto ao que eles julgavam ser Deus. Antes de Jesus Cristo, só os Israelitas adoravam o verdadeiro Deus, porque só a eles Deus se tinha revelado. Os povos que não conhecem Jesus Cristo continuam a viver no paganismo.

Pe. José Lourenço in «Dicionário da Doutrina Católica», 1945.

15/11/2019

O traidor


Um povo pode sobreviver aos seus tolos e até mesmo aos ambiciosos. Mas não pode sobreviver à traição a partir de dentro. Um inimigo às portas é menos formidável, porque é conhecido e carrega o seu estandarte abertamente. Mas o traidor move-se livremente entre aqueles dentro de portas, os seus sussurros maliciosos percorrem todas as ruas e são ouvidos até nos corredores do próprio governo. Pois o traidor não parece um traidor; ele fala num tom familiar às suas vítimas e usa a sua face e os seus argumentos, ele apela à baixeza que jaz nas profundezas dos corações dos homens. Ele apodrece a alma de uma nação, ele trabalha secretamente e a coberto da noite para minar os pilares da cidade, ele infecta o corpo político para que este não possa mais resistir. Um assassino é menos de temer.

Cícero em discurso ao Senado Romano, 58 a.C.

14/11/2019

São Josafat: um santo entre os cismáticos orientais


Originário de Volodymyr, na Volhynia, oriundo de família nobre, Josafat Kuncewicz abraçou, aos vinte anos, a vida monástica entre os religiosos da Ordem de São Basílio. Conservou sempre em sua frescura a flor da castidade que havia, desde a sua adolescência, consagrado a Maria. Encarregado, não obstante a sua pouca idade, do governo do mosteiro de Byten, foi feito logo depois Arquimandrita de Vilna e, finalmente, mau grado seu, Arcebispo de Polotsk. O zelo apostólico do jovem Arcebispo excitou contra ele o ódio do inferno. Atacado pelos cismáticos em Vitebsk, pereceu de cruelíssima morte em 1623 e obteve de Deus a conversão de seus assassinos.

Fonte: «Missal Quotidiano e Vesperal», 1940.

11/11/2019

São Francisco de Assis e o Sultão do Egipto


Há exactamente oito séculos, em 1219, São Francisco de Assis reunia-se com o Sultão do Egipto na cidade de Damieta. Desse encontro, recordo este singular episódio:

O Sultão apresentou também outra questão: «Vosso Senhor ensina no Evangelho que vós não podeis retribuir o mal com o mal, e que não podeis recusar o manto a quem vos quiser tirar a túnica, etc. Então, vós cristãos não podeis invadir as nossas terras, etc.».
Respondeu São Francisco: «Parece-me que não haveis lido todo o Evangelho. Noutra parte, de facto, é dito: Se o teu olho é para ti ocasião de escândalo, arranca-o e lança-o para longe. E com isto, Ele quer-nos ensinar que, mesmo que um homem seja amigo ou parente, ou até tão caro quanto a pupila dos olhos, devemos estar dispostos a separá-lo, a removê-lo, a arrancá-lo de nós, se ele nos tentar afastar da fé e do amor de Nosso Senhor. E precisamente por este motivo, os cristãos agem conforme a justiça quando invadem as vossas terras e vos combatem, porque vós blasfemais o nome de Cristo e trabalhais para afastar o maior número possível de homens da Sua Religião. Mas se em vez disso, vós quisésseis conhecer, confessar e adorar o Criador e Redentor do mundo, então eles vos amariam como a si mesmos».
Todos os que assistiam ficaram admirados com as suas respostas.

Fonte: «Fonti Francescane», 2011.

08/11/2019

Patriotismo ou Nacionalismo?

A Apoteose de Luís XVI

É fundamental que nos movamos com conceitos claros com os quais todos estejamos de acordo. Um deles é o Patriotismo que tem que ver essencialmente com a ideia de Tradição. A «pátria» é a «terra dos pais», liga com um passado que se quer projectar para o futuro. A Nação [o Estado-Nação], ao contrário, é outra coisa: é um conceito essencialmente moderno, não anterior à Revolução Francesa e que substitui o de Reino. (...) Dito de outra forma, a origem do Nacionalismo é fundamentalmente liberal e burguesa, referindo-se a uma ordem de ideias que tem que ver com os valores inerentes às revoluções liberais do século XIX.
(...) No entanto, é importante recordar que as palavras estão carregadas e podem ser perigosas: todo o pensamento deve ser orgânico e ter uma ordem de ideias perfeitamente encadeadas. Se aceitamos que a Nação aparece onde a guilhotina corta a cabeça dos reis, temos que aceitar que uma coisa é a Ordem Liberal e outra é a Ordem Tradicional. E que a primeira tem como valores a Nação [o Estado-Nação], o mercado livre, a burguesia e o republicanismo, enquanto a Ordem Tradicional tem como valores a Pátria, a economia corporativa, a monarquia, etc. É muito perigoso inserir em cada elo da cadeia um elemento que pertence a outra, por isso prefiro referir-me ao Patriotismo em vez de ao Nacionalismo.

Ernesto Milà, entrevista ao jornal «O Diabo», 8 de Outubro de 2013.

06/11/2019

6 de Novembro: Santo Condestável


Herói e Santo, D. Nuno imortal,
Valei à terra de Portugal!

Dom Nuno Álvares Pereira
Nosso encanto e nossa glória,
Retomai vossa Bandeira
E levai-nos à vitória.

Em vosso peito de crente
E robusto lutador
Ardem continuamente
Chamas de fé e amor

Carmelita e Cavaleiro,
Abraçando a Cruz da Espada,
Mostraste ao mundo inteiro
O valor da Pátria Amada.

Ébria de sonho e de aurosa,
Voss'alma fremente e bela,
Brilhou nas eras de outrora
Mais alto do que uma estrela.


Hino do Beato Nuno de Santa Maria

05/11/2019

Justiça às avessas


De facto, o mundo moderno conservou todas as partes do trabalho policial que são realmente opressivas e ignominiosas: a perseguição dos pobres, a espionagem dos infortunados. E abandonou a sua obra mais digna: o castigo de poderosos traidores contra o Estado e de poderosos heresiarcas contra a Igreja. Os modernos dizem que não podemos punir os heréticos. A minha única dúvida é se teremos o direito de punir mais alguém.

G. K. Chesterton in «O homem que era Quinta-Feira», 1908.

31/10/2019

Somos todos iguais?


Que todos os homens são iguais é uma proposição à qual, em tempos normais, nenhum ser humano sensato deu, alguma vez, o seu assentimento. Um homem que tem de se submeter a uma operação perigosa não age sob a presunção de que tão bom é um médico como outro qualquer. Os editores não imprimem todas as obras que lhes chegam às mãos. E quando são precisos funcionários públicos, até os governos mais democráticos fazem uma selecção cuidadosa entre os seus súbditos teoricamente iguais.
Em tempos normais, portanto, estamos perfeitamente certos de que os Homens não são iguais. Mas quando, num regime democrático, pensamos ou agimos politicamente, não estamos menos certos de que os homens são iguais. Ou, pelo menos – o que na prática vem ser a mesma coisa – procedemos como se estivéssemos certos da igualdade dos Homens.

Aldous Huxley in «Proper Studies», 1927.

27/10/2019

Último Domingo de Outubro: Dia de Cristo-Rei


Na sua Encíclica de 11 de Dezembro de 1925, Pio XI declara que o laicismo é directamente oposto aos direitos de Deus e de Cristo, sobre as pessoas e os povos, porque esta heresia moderna recusa reconhecer a autoridade suprema do Ser divino e de Jesus sobre eles, organizando a vida individual e social como se Ele não existisse. O Papa mostra como, por consequência desastrosa, mas infelizmente de longa data, o próprio laicismo é a perda da sociedade que arruína. Esta apostasia geral produz, com efeito, frutos amargos de orgulho e egoísmo a substituírem o amor de Deus e do próximo. Gera o ciúme entre os indivíduos, o ódio entre as classes e a rivalidade entre as nações. E esses vícios, desenvolvendo-se, produzem as dilacerações fraternais, discórdias civis e guerras homicidas.
O laicismo, eis o inimigo: depois de haver produzido esses males, impede os indivíduos e as sociedades de se livrarem dele, pondo-os em rebelião contra Deus e Cristo, os únicos que lhe podem assegurar a paz e livrá-los de piores catástrofes.
Entre os meios de vencer esse adversário temível, Pio XI julga ser a liturgia o mais eficaz, porque é uma afirmação pública, social e oficial dos direitos divinos de Jesus sobre os homens. Por isso, instituiu no Ciclo uma nova festa em honra de Cristo-Rei. O mundo renega a Jesus porque ignora as Suas prerrogativas reais como Deus e como Homem, como Verbo encarnado e Redentor. É preciso instrui-lo a respeito e «uma solenidade anual terá mais eficácia para realizá-lo do que todos os documentos, mesmo os mais graves do magistério eclesiástico» (Encíclica). A festa de Cristo-Rei faz conhecer, de modo que se adapta perfeitamente à psicologia humana individual e social, os direitos reais de Deus e de Cristo; e ao mesmo tempo os faz reconhecer pelos homens e sociedades, por meio dos actos mais distintos do culto.
Entre esses actos devemos nomear, antes de tudo, a Santa Missa. Nela a Santa Igreja concentrará o ensinamento que nos quer dar sobre a realeza de Jesus e por ela prestará a este divino Rei as suas supremas homenagens, pois o Santo Sacrifício tem por fim o reconhecimento em Deus da mais alta soberania e em nós da mais profunda dependência.
E este acto realiza-se, não somente no Calvário, mas também no sacerdócio real que Jesus não cessa de exercer no Seu Reino que é o Céu. A grande realidade do Cristianismo não é um cadáver suspenso na cruz, mas sim o Cristo ressuscitado, reinando em todo o esplendor da Sua vitória, entre os Seus eleitos, conquista Sua. Eis porque a Missa começa por uma das mais belas visões do Apocalipse, onde o Cordeiro de Deus é aclamado pelos Anjos e os Santos.
O Santo Padre quis que esta festa fosse celebrada no fim do Ciclo litúrgico, no último Domingo de Outubro, como coroação de todos os mistérios pelos quais Jesus estabeleceu plenamente os seus poderes reais, e na véspera de Todos-os-Santos, em que os realiza já em parte, sendo «o Rei dos reis e a coroa de todos os Santos» enquanto espera ser também o de todos os que ainda estão nesta terra, e que salva, graças sobretudo à Santa Missa. Com efeito, é principalmente pela Eucaristia, Sacrifício e Sacramento, ao mesmo tempo, que Cristo, na glória, assegura os resultados do sacrifício conquistador do Calvário, tornando-se senhor das almas, pela aplicação que Ele próprio lhes faz dos méritos da Sua Paixão, e unindo-os a Si como membros à cabeça. O fim da Eucaristia, diz o Catecismo do Concilio de Trento, é «formar um só corpo místico de todos os fiéis» a fim de levá-los ao culto que Cristo, Rei adorador, como sacerdote e vítima, prestou de modo sangrento sobre a Cruz, e ainda o presta de modo incruento sobre o altar de pedra de nossas igrejas, e sobre o altar de ouro do Céu, a Cristo, Rei adorado como Filho de Deus, e a Seu Pai, ao qual oferece essas almas.

Fonte: «Missal Quotidiano e Vesperal», 1940.