22/05/2019

Sílabo do Papa Pio IX (I)


Sílabo – Contendo os principais erros da nossa época, notados nas alocuções consistoriais, encíclicas e outras cartas apostólicas do nosso Santíssimo Padre, o Papa Pio IX.

§ I

Panteísmo, Naturalismo e Racionalismo Absoluto.

1º Não existe Divindade alguma suprema e sapientíssima e providentíssima, distinta desta universalidade das coisas, e Deus é o mesmo que a natureza das coisas, portanto, sujeito a mudanças, e Deus, na realidade, forma-se no homem e no mundo, e todas as coisas são Deus e têm a mesma substância de Deus; Deus é uma e a mesma coisa que o mundo, e, portanto, o espírito é o mesmo que a matéria, a necessidade que a liberdade, a verdade que a falsidade, o bem que o mal, e a justiça que a injustiça.

2º Deve negar-se toda a acção de Deus sobre os homens e sobre o mundo.

3º A razão humana, considerada sem relação alguma a Deus, é o único árbitro do verdadeiro e do falso, do bem e do mal, é a sua própria lei e, pelas suas forças naturais, suficiente para alcançar o bem dos homens e dos povos.

4º Todas as verdades da religião derivam da força natural da razão humana, e por isso, a mesma razão é a principal norma pela qual o homem pode e deve chegar ao conhecimento de todas as verdades de qualquer género que sejam.

5º A revelação divina é imperfeita e, portanto, sujeita ao progresso contínuo e indefinido que corresponde ao progresso da razão humana.

6º A Fé de Cristo repugna à razão humana, e a revelação divina não só não é útil, mas é contrária à perfeição do homem.

7º As profecias e milagres expostos e narrados nas Sagradas Escrituras são comentários de poetas; os mistérios da Fé Cristã, uma recompilação de investigações filosóficas; tanto o Velho como o Novo Testamento contêm invenções fabulosas, e o mesmo Jesus Cristo é uma ficção mítica.

§ II

Racionalismo Moderado.

8º Como a razão humana se deve equiparar à religião, por isso as disciplinas teológicas se devem tratar do mesmo modo que as filosóficas.

9º Todos os dogmas da religião cristã, indiscriminadamente, são objecto da ciência natural ou filosófica; e a razão humana, com o estudo, unicamente, da História, pode, pelos seus princípios e forças naturais, chegar ao verdadeiro conhecimento de todos os dogmas, mesmo os mais recônditos, com tanto que estes dogmas sejam propostos como objecto à mesma razão.

10º Como o filósofo é diverso da Filosofia, aquele tem direito de se submeter à autoridade que ele mesmo prova que é a verdadeira; mas a Filosofia não pode, nem deve, sujeitar-se a autoridade alguma.

11º A Igreja não só não deve repreender em coisa alguma a Filosofia, mas tolerar os erros da mesma e deixar que ela se corrija dos mesmos.

12º Os decretos da Sé Apostólica e das Congregações Romanas impedem o progresso livre da ciência.

13º O método e os princípios por que os antigos Doutores escolásticos ensinaram a Teologia, não convêm às necessidades da nossa época e ao progresso das ciências.

14º A Filosofia deve ser tratada sem nenhuma relação com a revelação sobrenatural.

§ III

Indiferentismo, Latitudinarismo.

15º É livre a qualquer um abraçar e professar aquela religião que ele, guiado pela luz da razão, julgar verdadeira.

16º No culto de qualquer religião podem os homens achar o caminho da salvação eterna e alcançar a mesma eterna salvação.

17º Pelo menos deve-se esperar bem da salvação eterna daqueles que não vivem na verdadeira Igreja de Cristo.

18º O protestantismo não é senão outra forma da verdadeira religião cristã, na qual se pode agradar a Deus do mesmo modo que na Igreja Católica.

(Continua...)

18/05/2019

Cartas de um diabo ao seu aprendiz


É muito recomendável o inapreciável trabalho de C. S. Lewis, professor de filosofia da Universidade de Oxford, Cartas de Broca, que tirou vinte e cinco edições em cinco anos. É uma série hipotética de cartas entre um tio velho, diabo, no Inferno, cujo nome é Broca, e um sobrinho, diabo, na Terra, que dá pelo nome de Réptil. Este esforça-se por ganhar a alma de um estudante seu colega e está em constante comunicação com o seu tio Broca sobre a melhor maneira de arruinar o rapaz. Por vezes Broca fala do «Inimigo» que é Deus. O contexto do livro é diabólico, e portanto o inverso da verdade; mas está apresentado de tal maneira, que se principia logo a ver a falácia do método demoníaco. Ao leitor, em vez de lhe ensinar o que é bom, ensinam-se-lhe os caminhos que conduzem firmemente à ruína. Entre outras sugestões encontram-se estas: Broca diz ao Réptil que deve deixar de argumentar com o colega sobre se as coisas são verdadeiras ou falsas, o que, di-lo ele, é o caminho do «Inimigo». Há poucos séculos, afirma ele, as pessoas estavam mais interessadas em saber se uma coisa se podia provar ou não. E diz-lhe mais: «Não percas tempo a fazer-lhe pensar – ao jovem – que o materialismo é verdadeiro. Mas diz-lhe antes que é a filosofia do futuro, ou que é progressivo, e que deve evitar tornar-se um reaccionário ou um medievalista». Broca também recomenda que o homem crédulo, sentimental, seja alimentado com poetas menores e com novelistas de quinto plano, até acreditar que o amor é irresistível, que toda a repressão é um erro, e que a bênção nupcial é uma ofensa.

Mons. Fulton Sheen in «Aprendei a Amar», 1957.

15/05/2019

Côrtes tradicionais e Côrtes liberais


Quanto às funções de umas Côrtes, ou de outras, a oposição é manifesta. As antigas Côrtes Gerais tinham funções apenas consultivas, embora os Reis tivessem o seu voto em grande conta, porque elas eram de facto a representação dos corpos da Nação [Clero, Nobreza e Povo]. As Côrtes liberais tinham funções legislativas, o seu principal papel era fazer leis (Art. 5.º § 6). Isto é, em monarquia constitucional, temos umas Côrtes que não representam a Nação, exercendo uma função para a qual não têem competência; a função suprema de legislar e governar. É o germe da anarquia. É a república mascarada de manto e coroa.

Caetano Beirão in revista «Acção Realista», 15 de Janeiro de 1926.


14/05/2019

Chafariz d'El-Rei e as sãs desigualdades naturais


Em 1551 fez o Senado a seguinte Postura:
«Constando ao Senado que há homens brancos, negros e mouros que se vão pôr às Bicas do Chafariz d'El-Rei a vender a água a quem a vai buscar, de que se seguem brigas, ferimentos e mortes, faz a sua postura para a repartição das ditas Bicas pela maneira seguinte.
Na primeira Bica indo da Ribeira para ela, encherão pretos forros e cativos, e assim mulatos índios, e todos os mais cativos, que forem homens.
Logo na segunda seguinte, poderão encher os mouros das Galés somente a água que for necessária para suas aguadas, e tendo cheios seus barris, ficará a dita Bica para os negros e mulatos conforme a declaração a traz.
Na terceira e quarta, que são as duas do meio, encherão nelas os homens e moços brancos, – e na quinta seguinte, logo encherão as mulheres pretas, mulatas, índias forras e cativas, – e na derradeira Bica da banda de Alfama encherão as mulheres e moças brancas, conforme a declaração das Bicas, sob pena de quem o contrário fizer do que está dito, sendo pessoa branca e forra, assim homem como mulher, pagará 2$000 réis de pena e estará na Cadeia três dias sem remissão; de que haverá metade da pena do dinheiro quem o acusar e a outra metade para a Cidade. Da mesma pena terão os ditos brancos, mulatos, índios e pretos forros, que encherem por dinheiro, ou achando-se que encham em qualquer outra Bica das que se lhe nomeiam, posto que corra a dita água no chão, e não poderão encher nas declaradas, e os negros, e cativos, e os mais escravos e escravas, como foram pessoas cativas, que o contrário fizerem do que está dito, serão publicamente açoitados com baraço e pregão de redor do dito Chafariz, sem remissão conforme a Provisão d'El-Rei Nosso Senhor novamente passada, as quais penas se executarão três dias depois da publicação desta postura, que se lhe dão para vir primeiro à notícia dos moradores desta Cidade.»

José Sérgio Veloso d'Andrade in «Memória sobre chafarizes, bicas, fontes e poços públicos de Lisboa, Belém e muitos lugares do termo», 1851.

10/05/2019

Do modernismo


– O que é a "abominação da desolação"? Parece-me que os Santos Padres entendem por essa expressão semítica a idolatria...
– A pior idolatria. Pois no fundo do modernismo está latente a mais execrável idolatria, a apostasia perfeita, a adoração do homem no lugar de Deus; e isso sob formas cristãs e até talvez mantendo a estrutura exterior da Igreja. Já leu The Soul of Spain do psicólogo inglês Havelock Ellis?
– Não. O que diz?
– É um livro de viagens por Espanha. Leia o capitulo intitulado Uma missa cantada em Barcelona e verá o que quero dizer quando falo de modernismo.
– Ridiculariza a missa cantada?
– Quê?! Pelo contrário! Cobre-a de flores, enche-a de elogios... estéticos. Diz que é um espectáculo imponente, uma criação artística, e que não se pode deixar cair essa nobre conquista de "património cultural" da humanidade, mas procurar preservá-la e aperfeiçoá-la... podada da pequena superstição que a informa, ou seja, a presença real de Cristo no Sacramento... Anulada essa pequena superstição, tudo mais...

Pe. Leonardo Castellani in «Los Papeles de Benjamin Benavides», 1953.

08/05/2019

Nikola Tesla sobre a teoria da relatividade


Tesla descreveu a teoria da relatividade como «uma massa de erros e ideias enganosas, violentamente opostas aos ensinamentos dos grandes homens de ciência do passado e até mesmo ao senso comum».
«A teoria», disse ele, «envolve todos esses erros e falácias, e veste-os em magníficos trajes matemáticos que fascinam, deslumbram, e deixam as pessoas cegas aos erros subjacentes. A teoria é como um mendigo vestido de púrpura a quem pessoas ignorantes tomam por um rei. Os seus expoentes são homens brilhantes, mas são mais metafísicos do que cientistas. Nem uma única das proposições da relatividade foi provada».

Fonte: Jornal «The New York Times», 11 de Julho de 1935.

04/05/2019

Nacionalismo não é Patriotismo


Existe a tendência de confundir patriotismo com nacionalismo. Historicamente, o nacionalismo aparece com a "Nação" e esta constitui-se numa etapa recente da História (o último quartel do século XVIII com a Revolução Americana e a Revolução Francesa). A transformação dos Reinos em Estados-Nação e a substituição do vínculo de fidelidade para com o Rei, pela doutrina dos Direitos do Homem e do Cidadão, implicou incorporar no conceito de Nação, e do seu derivado Nacionalismo, uma carga ideológica que dependia precisamente do marco intelectual no qual se produziu a transformação dos Reinos em Estados-Nação: a ideologia liberal.
O nacionalismo está intimamente ligado a uma série de fenómenos históricos concretos: o advento da burguesia como classe hegemónica, a revolta do burguês e do comerciante contra as aristocracias guerreiras [Nobreza], a democracia como forma política, o capitalismo como sua tradução económica, e o individualismo como forma de conceber o mundo. Não há outro nacionalismo que o vinculado a todas estas tendências que aparecem num momento recente da História, perfeitamente identificável (a partir da Revolução Francesa, na Europa).

Ernesto Milá in «Identidade, Patriotismo e Enraizamento», 2011.

03/05/2019

Rousseau: apóstolo da Revolução


No quadro do livre-pensamento, devemos considerar isoladamente um escritor original, elegante, comovente, atraente, colorido e romanesco, que sempre mereceu lugar de destaque entre os autores de seu século: Jean-Jacques Rousseau. Com ele, chegamos ao centro do naturalismo. Glorifica a natureza, proclama-a pura e boa em si mesma, em suas origens. Não será ele, é claro, que admitirá o pecado original. Com Rousseau chegamos aos antípodas do luteranismo, do calvinismo, do jansenismo. Quem estragou o homem foi a sociedade. As artes e a ciência só agravam a corrupção humana. Partindo desse paradoxo – perguntamos como o homem fundamentalmente bom, pode se corromper em comum! – Rousseau funda uma espécie de religião nova que, em literatura, tomará a forma de romantismo, mas que é o fundo da actual religião do progresso, da ciência, da técnica. Em Rousseau, essa religião é a adoração da natureza, de seus instintos, sentimentos, impulsos passionais, numa palavra, adoração do coração humano mais do que da razão humana. As Confissões (surgidas em 1781), a Nova Heloísa (1761), Emílio (1762), o Contrato Social – que será uma espécie de Evangelho da Revolução – exerceram enorme influência. Podemos dizer que Rousseau é o pai do misticismo democrático que inspirou os Marat, os Robespierre e mais tarde um Edgar Quinet e os neo-jacobinos do combismo, – pai do misticismo socialista e comunista que, através de Saint-Simon, Fourier, Proudhon, Karl Marx, levou a Jaurès, Léon Blum, por um lado, e a Lenine e Estaline, por outro. Finalmente, Rousseau é o pai do misticismo passional e estético, no qual se inspiraram a literatura contemporânea e a religião da música, ou da arte pela arte.

Mons. Léon Cristiani in «Bréve Histoire des Hérésies», 1956.

01/05/2019

Duas faces da mesma moeda


Se na teoria progressista a fase marxista surge como um estádio superior à fase «burguesa», uma vez que tenta dar nova lógica e reformular problemas concretos que não encontram solução nos quadros mentais e materiais do capitalismo, o certo é que, na prática, a ideologia marxista não passa de uma tentativa de complementar a ideologia demoliberal, divergindo apenas nos meios que consagra para a obtenção dos fins últimos. Na realidade, o marxismo defende os mesmos objectivos que o liberalismo político: a felicidade material do indivíduo na terra, equitativamente distribuída por todos os homens até à igualdade universal. É precisamente na instrumentação da igualdade real dos homens que as doutrinas racionalistas divergem.

António Marques Bessa in «Ensaio sobre o fim da nossa Idade», 1978.

30/04/2019

A escola e a imprensa: subverter sem violência


A escola e a imprensa são os dois pontos de partida a partir dos quais o mundo se pode renovar e refinar sem sangue ou violência. A escola alimenta ou envenena a alma da criança, a imprensa alimenta ou envenena a alma do adulto.

Richard Coudenhove-Kalergi in «Praktischer Idealismus», 1925.


Relembro: Sociedade Fabiana.

28/04/2019

130º aniversário de nascimento de Salazar


Algumas citações do último grande Estadista português:

«Não tem que agradecer-me ter aceitado o encargo, porque representa para mim tão grande sacrifício que por favor ou amabilidade o não faria a ninguém. Faço-o ao meu País como dever de consciência, friamente, serenamente cumprido.
Não tomaria, apesar de tudo, sobre mim esta pesada tarefa, se não tivesse a certeza de que ao menos poderia ser útil a minha acção, e de que estavam asseguradas as condições de um trabalho eficiente.» [27 de Abril de 1928]

«Advoguei sempre a política do simples bom senso contra a dos grandiosos planos, tão grandiosos e tão vastos que toda a energia se gastava em admirá-los, faltando-nos as forças para a sua execução.
Advoguei sempre uma política de administração, tão clara e tão simples como a pode fazer qualquer boa dona de casa – política comezinha e modesta que consiste em se gastar bem o que se possui e não se despender mais do que os próprios recursos.» [9 de Junho de 1928]

«Num sistema de administração em que predomina a falta de sinceridade e de luz, afirmei, desde a primeira hora, que se impunha uma política de verdade. Num sistema de vida social em que só direitos competiam, sem contrapartidas de deveres, em que comodismos e facilidades se apresentavam como a melhor regra de vida, anunciei, como condição necessária de salvamento, uma política de sacrifício. Num Estado que nós dividimos, ou deixámos dividir, em irredutibilidades e em grupos, ameaçando o sentido e a força da unidade da Nação, tenho defendido, sobre os destroços e os perigos que dali derivaram, a necessidade de uma política nacional[21 de Outubro de 1929]

«Temos de olhar com calma, mas com firmeza, para a desorientação do momento, e pôr na defesa do interesse de toda a colectividade, pelo menos a energia e a decisão com que outros pretendem impor-nos o interesse do seu grupo, do seu partido, da sua classe, ou simplesmente os triunfos das suas ideologias desvairadas.» [30 de Dezembro de 1930]

«Esforcei-me, tanto quanto pude, para eliminar da vida nacional as preocupações mesquinhas, as coisas insignificantes, sem valor real, e dar-lhe horizontes amplos, dignidade, elevação, nobreza. Lutei para substituir a tristeza da decadência e o espírito das lutas internas, pelo amor pela terra e pelos homens, com a alegria da vida saudável, com o vigor português, com a grandeza da Nação.» [29 de Julho de 1933]

«Professor estrangeirado na política, fiz do Governo zelo de magistério, fazendo sempre apelo, sobretudo e apesar de tudo, à força e à nobreza do espírito.» [28 de Janeiro de 1934]

«Um moralista deixou escrito: Deus nos dê o sábio para nos ilustrar, o santo para nos edificar, o homem prudente para nos governar. O autor encontrara no seu bom senso a verdade política que a experiência humana tem inteiramente consagrado.» [10 de Fevereiro de 1935]

«A garantia suprema da estabilidade da obra realizada está precisamente na reforma moral, intelectual e política, sem a qual as melhorias materiais, o equilíbrio financeiro e a ordem administrativa, ou não se podem realizar, ou não podem durar.» [27 de Abril de 1935]

«Às almas dilaceradas pela dúvida e o negativismo do século, procurámos restituir o conforto das grandes certezas. Não discutimos Deus e a Virtude; não discutimos a Pátria e a sua história; não discutimos a Autoridade e o seu prestígio; não discutimos a Família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever. Assim se assentaram os grandes pilares do Edifício, e se construiu a paz, a ordem, a união dos portugueses, o Estado forte, a autoridade prestigiada, a administração honesta, o revigoramento da economia, o sentimento patriótico, a organização corporativa e o império colonial.» [28 de Maio de 1936]

«Temos passado anos a pregar, pela palavra e pelo exemplo, persistentemente, teimosamente, que todos não somos demais para continuar Portugal. Com o alto nível da nossa tradição histórica e as exigências de uma herança de pesados deveres para com a nossa gente e para com os outros povos, seria louca tentativa – louca e vã – construir sobre lutas de partidos, ódios de classes, antagonismos de fortuna ou profissão, divisões em nós mesmos. Nós o havemos compreendido e, sem abdicar do sentido da hierarquia necessária à vida social, revelamo-nos como membros solidários de uma comunidade que se funda no mesmo sangue, se alimenta dos mesmos frutos do trabalho e vive do mesmo espírito. No trabalho ou nos sacrifícios, no sofrimento ou na caridade, nas alegrias ou nas preocupações da vida individual e colectiva, fomos guiados – e salvos – pelo amor pátrio a reencontrar o elo de solidariedade que devia prender-nos como as pedras de um edifício – a sermos finalmente perante o Mundo todos como um só.
É por um lado nesta já agora indestrutível unidade nacional, e por outro no valor dos princípios informadores da nossa vida material e moral, e na consciência desse valor, que deve repousar a nossa maior confiança.» [28 de Abril de 1941]

22/04/2019

Cauchy: matemático e católico convicto


Eu sou cristão, isto é, creio na divindade de Jesus Cristo, como Tycho Brahe, Copérnico, Descartes, Newton, Fermat, Leibniz, Pascal, Grimaldi, Euler, Guldin, Boscovich, Gerdil, como todos os grandes astrónomos, todos os grandes físicos, todos os grandes geómetras dos séculos passados. Eu sou católico como a maioria deles; e se me perguntassem a razão, eu responderia de bom grado. E veríamos que as minhas convicções são o resultado, não de preconceitos de nascimento, mas de um exame aprofundado. Veríamos como estão gravadas na minha mente e no meu coração, verdades mais incontestáveis do que o quadrado da hipotenusa ou o teorema de Maclaurin.

Augustin Louis Cauchy in «Considérations Sur Les Ordres Religieux», 1844.

21/04/2019

Aleluia! Aleluia! Aleluia!


Estando já avançada a noite do Sábado, ao amanhecer o primeiro dia da semana, foi Maria Madalena e a outra Maria visitar o sepulcro.
E eis que se deu um grande terremoto. Porque um anjo do Senhor desceu do Céu, e, aproximando-se, revolveu a pedra do sepulcro, e estava sentado sobre ela; e o seu aspecto era como um relâmpago; e o seu vestido branco como a neve. E pelo temor que tiveram dele, aterraram-se os guardas e ficaram como mortos.
Mas o anjo, tomando a palavra, disse às mulheres: Vós não temais, porque sei que procurais a Jesus, que foi crucificado; Ele já aqui não está, porque ressuscitou, como tinha dito; vinde e vede o lugar, onde o Senhor estava depositado. Ide já dizer aos Seus discípulos que Ele ressuscitou; e eis que vai adiante de vós para a Galileia; lá O vereis; eis que eu vo-lo disse antes.
Saíram logo do sepulcro com medo e grande gáudio, e foram correndo dar a nova aos discípulos.
E eis que Jesus lhes saiu ao encontro, dizendo: Deus vos salve. E elas aproximaram-se d'Ele e abraçaram os Seus pés, e O adoraram. Então disse-lhes Jesus: Não temais; ide, avisai meus irmãos, para que vão à Galileia, lá me verão.
Tendo elas partido, eis que foram à cidade alguns dos guardas, e noticiaram aos príncipes dos sacerdotes tudo o que tinha sucedido. E, tendo-se congregado com os anciãos, depois de tomarem conselho, deram uma grande soma de dinheiro aos soldados, dizendo-lhes: Dizei: Os Seus discípulos vieram de noite, e, enquanto nós estávamos dormindo, O roubaram. E, se chegar isto aos ouvidos do governador, nós o aplacaremos e estareis seguros. E eles, recebido o dinheiro, fizeram como lhes tinha sido ensinado. E esta voz divulgou-se entre os Judeus e dura até ao dia de hoje.

Evangelho segundo S. Mateus, XXVIII, 1-15

19/04/2019

A Cristo Crucificado


Divinas mãos e pés, peito rasgado,
Chagas em brandas carnes imprimidas...
Meu Deus! que por salvar almas perdidas,
Por elas quereis ser crucificado.

Outra fé, outro amor, outro cuidado,
Outras dores às Vossas são devidas;
Outros corações limpos, outras vidas,
Outro querer, no Vosso transformado.

Em Vós se encerrou toda a piedade,
Ficou no mundo só toda a crueza;
Por isso cada um deu do que tinha...

Claros sinais de amor, ah saudade!
Minha consolação, minha firmeza,
Chagas do meu Senhor, redenção minha!

Frei Agostinho da Cruz (1540-1619)