20/10/2018

A Verdade e a "verdade" do Partido


Perguntaram a um missionário na China: «O que é a verdade?». Depois de a explicar, o juiz comunista respondeu: «Não! A verdade é o que diz o Partido!». Daqui, o que hoje dizemos, ser "verdadeiro" para hoje. O que dissermos amanhã, embora seja ao contrário do que se disse ontem, será o "verdadeiro" da altura. A táctica segue a situação histórica de dado período. Como disse Lenine: «Para conseguirmos a revolução no mundo devemos empregar todos os estratagemas, manobras, métodos ilegais, mentiras e subterfúgios».

Mons. Fulton Sheen in «Aprendei a Amar», 1957.

16/10/2018

O mal menor


O princípio moral de que é lícito escolher um mal menor só vale em determinados casos, por exemplo o da legítima defesa, servato moderamine inculpatae tutelae, como dizem. Não vale sempre. (...)
No caso do erro, não se pode escolher o "erro menor". Qual é o erro menor? Porventura o erro misturado com verdades? Esses geralmente são os mais perniciosos... O liberalismo é um erro. Posso escolher o liberalismo para afastar o comunismo? Não. Devo rejeitar ambos. O erro é o maior mal do homem. O liberalismo é pecado, escreveu Sardá y Salvany, um livrinho muito útil (...).
Se há uma discussão entre sete homens, um dos quais diz que dois mais dois são quatro, outros três dizem que dois mais dois são cinco, e os três restantes que dois mais dois são quatrocentos, deverá o primeiro pôr-se a favor dos que afirmam cinco porque é um erro menor?

Pe. Leonardo Castellani in «El mal menor», 1958.

08/10/2018

Satanás no mundo


Abordemos o problema mais de perto. Em que reconhecemos, sobretudo, a presença de Satanás? É ao Evangelho, fonte de toda a clareza, que convém perguntar.
Jesus Cristo disse sobre Satanás uma certa quantidade de coisas que devemos reunir e meditar.
Falando aos fariseus, que não cessavam de acusá-Lo, disse um dia: "Vós tendes por pai o demónio, e quereis satisfazer os desejos do vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não permaneceu na verdade; porque a verdade não está nele. Quando ele diz a mentira, fala do que é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira." (João, VIII, 44).
Acaso isto não está suficientemente claro?
Se queremos saber como se manifesta a presença de Satanás entre nós, no próprio dia em que nos encontramos, tratemos de discernir as grandes mentiras destes tempos, por um lado, e os progressos alcançados na arte de matar os homens, por outro.
Quanto mais uma época está embebida em mentiras, quanto mais seja tida em menor consideração e seja esmagada a vida dos homens sob a ameaça da morte, mais estará aí Satanás!
Podemos duvidar destes dois pontos? A mentira e o homicídio são os dois sinais da presença de Satanás. Não corremos, pois, o risco de nos enganarmos ao afirmar esta presença no coração das principais mentiras e das principais ameaças de morte que comprovamos neste momento.
(...)
A negação de Deus é o primeiro e mais grave dos embustes do nosso mundo actual. Mas não é o único. Estamos submersos na mentira, ao ponto de respirá-la sem quase darmos conta.
E o sinal desta mentira é a contradição.
(...)
Mentira e contradição, tal é o primeiro sintoma da presença de Satanás no mundo moderno.

Mons. Léon Cristiani in «Presencia de Satán en el Mundo Moderno», 1959.

01/10/2018

70º aniversário da morte do "Santinho" Padre Cruz


Perto das nove horas da manhã do dia 1 de Outubro, primeira sexta-feira do mês consagrado à devoção do Santo Rosário, desprendeu-se dos laços da terra, inesperadamente, o grande homem de Deus e grande apóstolo de Portugal, o venerando Dr. Francisco Rodrigues da Cruz, o popularíssimo Padre Cruz.
Completara, em Julho, 89 anos de idade e tinha enchido Portugal inteiro com a fama dos seus milagres e o esplendor das suas virtudes durante mais de meio século.
Bons e maus, crentes e descrentes, todos o veneravam. Corriam para ele a toda a hora e de toda a parte os que sofriam do corpo ou da alma, e também muitos que pretendiam favores avantajados de ordem sobrenatural.
A sua bênção era ambicionada e recebida como penhor seguro de graças. Ele a ninguém a recusava, para a cura e bom despacho ou para resignação e conformidade com a vontade de Deus.
Pediam-lha até os que governavam na Igreja ou no Estado. Tal era o prestígio da sua virtude e o crédito da eficácia da sua oração!
Quando morreu, choraram-no as lágrimas de muitos e a saudade de todos. Mas ele é imortal.
Como os santos – únicos no gozo deste privilégio – nem a memória da sua santidade se extinguirá da lembrança dos vivos até ao fim dos séculos, nem há-de desaparecer jamais a sensação viva da sua presença, no meio de nós, pela comunicação incessante e perpétua dos favores que sempre lhe iremos pedindo em súplicas de necessitado, e que ele, ainda mais agora no Céu do que anteriormente na Terra, será pronto em alcançar para todos.
Desde a hora em que o seu corpo entrou no jazigo do Cemitério de Benfica, nunca mais cessou a peregrinação dos que vão pedir-lhe graças, ofertar-lhe flores e tocar objectos nas tábuas do seu ataúde. Sacerdotes e leigos ajoelham diariamente diante daquele caixão de morto, quando voltam de acompanhar outros à sepultura.
Fala-se já de grandes curas operadas por sua intercessão. Parece certa a de uma senhora francesa, residente em Lisboa, e curada instantaneamente de tuberculose óssea na espinha dorsal. A ciência e a Igreja ajuizarão do carácter miraculoso deste e de outros casos.
O Secretariado do Monumento de Cristo Rei, dedicando boa parte deste número de «O Monumento» à memória da pessoa e benemerências do Padre Cruz, cumpre um dever de gratidão para com ele, que tão grande amigo e intercessor era deste empreendimento da glorificação monumental de Cristo Rei.

Simão de Xavier in jornal «O Monumento», 24 de Dezembro de 1948.

28/09/2018

O banqueiro anarquista


– Realmente, disse eu, você é anarquista. Em todo o caso, dá vontade de rir, mesmo depois de o ter ouvido, comparar o que você é com o que são os anarquistas que pr'aí há...
– Meu amigo, eu já lho disse, já lho provei, e agora repito-lho... A diferença é só esta: eles são anarquistas só teóricos, eu sou teórico e prático; eles são anarquistas místicos, e eu científico; eles são anarquistas que se agacham, eu sou um anarquista que combate e liberta… Em uma palavra: eles são pseudo-anarquistas, e eu sou anarquista.
E levantámo-nos da mesa.

Fernando Pessoa in «O Banqueiro Anarquista», 1922.

24/09/2018

Os graus do farisaísmo


– O farisaísmo vem a ser como... os fariseus são "religiosos profissionais"... como o profissionalismo da religião – disse –, recordando uma frase de Gustave Thibon.
– Esse é somente o primeiro grau do farisaísmo, em todo o caso – reflectiu o velho. A ver se conseguimos descrevê-lo pelos seus graus:
O primeiro: A religião torna-se meramente exterior...
O segundo: A religião torna-se profissão, negócio, ganha-pão.
O terceiro: A religião torna-se instrumento de ganância, de honras, poder ou dinheiro.
– É como um esclerosamento do religioso, um endurecimento ou decaimento progressivo! – ressaltou o teólogo.
– E depois uma falsificação, hipocrisia, dureza até à crueldade... – disse eu.
– Jesus Cristo no Evangelho condenou os fariseus – disse o Frei Florecita – e com isso basta.
O judeu havia ficado como que absorto. Depois prosseguiu com uma voz cavernosa e rouca...
– Eu tremo de dizer o que ouso apenas pensar... O meu coração treme diante de Deus como uma folha na árvore, ao pensar no mistério do farisaísmo. Eu não posso indignar-me como o Divino Mestre; eu, verme miserável, tenho-Lhe medo – e de facto todo o seu corpo se estremeceu bruscamente, e duas lágrimas assomaram aos seus olhos.
– Os outros graus – prosseguiu – são já diabólicos. O coração do fariseu, primeiro, torna-se cortiça, depois pedra, depois se esvazia por dentro, e depois é ocupado pelo demónio. "E o demónio entrou nele", disse João sobre Judas.
O quarto: A religião torna-se passivamente dura; insensível, desencarnada.
O quinto: A religião torna-se hipocrisia: o "santo" hipócrita começa a desprezar e a odiar os que têm religião verdadeira.
O sexto: O coração de pedra torna-se cruel, activamente duro.
O sétimo: O falso crente persegue de morte os verdadeiros crentes, com fúria cega, com fanatismo implacável... e não se acalma, nem ante a cruz, nem depois da cruz... "Este impostor disse que ao terceiro dia iria ressuscitar"; de modo que, oh Excelso Procurador da Judeia... Guardas para o sepulcro.

Pe. Leonardo Castellani in «Los Papeles de Benjamin Benavides», 1953.

21/09/2018

Inscrição tumular do Beato D. Nuno

Pórtico da Igreja do Santo Condestável, Lisboa.

Evocando mais uma vez o centenário da sua beatificação, recordo a antiga inscrição tumular do Santo Condestável, na Igreja do Convento do Carmo em Lisboa:

Aqui jaz o famoso Nuno, o Condestável, Fundador da Casa de Bragança, excelente general, beato monge, que durante a sua vida na Terra tão ardentemente desejou o Reino dos Céus depois da morte, e mereceu a eterna companhia dos santos. As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande príncipe, mas fez-se humilde monge. Fundou, construiu e dedicou esta igreja onde descansa o seu corpo.

19/09/2018

Aldeia de Monsanto

Comemorando o 80º aniversário da eleição de Monsanto como a aldeia mais portuguesa de Portugal, publico algumas belíssimas pinturas da autoria do artista José Manuel Soares.

14/09/2018

Vestígios da religião primitiva de Adão (Parte II)



O Ser Supremo, entre quase todas as tribos pertencentes à cultura primitiva, é o supremo legislador e juiz moral das acções humanas, se bem que certas tribos deduzam disto conclusões bastante curiosas, como esta: Todos os velhos são bons; de contrário, Deus já os teria punido, tirando-lhes a vida.
A crença de que Deus pune e premeia as acções dos homens nesta terra não se opõe à de uma remuneração mais perfeita, na outra vida. Mas em que consiste esta outra vida, nem todos sabem explicar (G. SCHMIDT, 1938). Por isso algumas tribos, como os Yámanas, mostram grande tristeza quando morrem os seus parentes.
Alguns primitivos admitem uma vida celeste, outros, uma vida semelhante à terrena, mas mais feliz para os bons e mais triste para os maus.
Segundo os Maidu, o caminho para o Céu é representado pela Via Láctea, e onde esta se divide, separar-se-ão os bons e os maus. Para outros, por exemplo os Andamaneses, o arco-íris serve de ponte para o Céu.
Mas o atributo, direi, mais radicado, é o da bondade de Deus. O Ser Supremo é exclusivamente, essencialmente bom. D'Ele não pode vir senão bem e felicidade. Por isto, alguns povos, para explicar o mal físico e moral do mundo, recorrem a outro ser, que se rebelou contra o Grande Manitu e que, por ódio a Este, espalha o mal.
Os modos mais comuns de honrarem o Ser Supremo são a oração e o sacrifício.
A oração não é sempre oral; entre alguns povos é muda, isto é, só do coração e da mente, acompanhada quanto muito por algum gesto. Por isso, certos exploradores acreditaram de princípio que não tinham oração.
O sacrifício é menos frequente que a oração, mas também bastante difundido e praticado com todo o seu profundo significado, qual atestação da total submissão da natureza humana ao Ser Supremo, ou, então, como expiação dos próprios pecados (W. SCHMIDT, 1935).
Geralmente, oferecem as primícias da caça ou das colheitas, uma porção de alimento antes de o terem provado (O. MENGHIN, 1931). Outras vezes, oferecem o crânio e os ossos compridos dos animais caçados (ursos, renas) contendo ainda as partes mais apreciadas: os miolos e a medula, como é costume entre algumas tribos primitivas do círculo árctico (A. GAHS e W. SCHMIDT, 1928).

Quanto à moral, existem laços rigorosos nas relações sexuais, e o sentimento do pudor é geralmente muito vivo. Os vestidos nos adultos são claramente sugeridos pelo pudor. O Pe. Shebesta teve a felicidade de assistir entre os Semang à repreensão, dada por um adulto a um rapazote, que tinha pronunciado, na presença dos companheiros, frases lúbricas. «Lawaid Karei!», disse em tom ameaçador o velho voltado para o jovem, o que queria dizer: isto é pecado contra o Ser Supremo Karei, e o jovem calou-se imediatamente (G. SCHMIDT, 1931).
Os Negritos das ilhas Filipinas e os Coriacos da Kamchatka exigem a castidade pré-conjugal, nas raparigas. As eventuais transgressões são punidas com penas severas. A monogamia, por preceito ou de facto, é a forma de matrimónio absolutamente dominante (G. WUNDT, 1929; O. MENGHIN, 1931).
A indissolubilidade do vínculo matrimonial não é, de igual modo, observada entre todos os primitivos, sendo menos rigorosa entre os primitivos do Norte. Merece menção o facto de entre algumas tribos (Pigmeus de África, Bosquímanos) não ser possível a dissolução do matrimónio, desde que nasce um filho. Entre estas tribos é muito rara a infidelidade conjugal, sendo punida severamente e até com a morte (L. LIVI, 1937; G. SCHMIDT, 1931).
Não existem entre estas antiquíssimas fases de cultura, nem promiscuidade, nem troca de mulheres. Não se vêem crimes de infanticídio ou outros que se encontram em tribos de ciclo cultural superior. Numa palavra, e etnologia moderna chegou à conclusão à qual tinha chegado, um século atrás, o famoso etnólogo jesuíta Pe. Lafitau, fundador da moderna etnologia: «Os povos primitivos – escrevia ele – na maior parte dos casos, não são produtos de degeneração, de decadência de civilizações elevadas; mas, antes, conservam até aos nossos dias as fases primordiais do desenvolvimento da humanidade» (PE. LAFITAU, Moeurs des Sauvages Amériquains, Comparées aux Moeurs des Premiers Temps, 1724).
Os homens primitivos têm um conceito bastante elevado da moral e de Deus, que honram com sacrifícios; praticam a monogamia, como afirma a Sagrada Escritura a respeito dos primeiros homens. Logo, as afirmações da Sagrada Escritura são verdadeiras e é falso o evolucionismo religioso.

Pe. Victor Marcozzi in «Deus e a Ciência», 1957.

12/09/2018

Vestígios da religião primitiva de Adão (Parte I)


O estudo objectivo da religião destes povos primitivos levou às seguintes conclusões: «Em todos os grupos étnicos de cultura primitiva existe a crença num Ser Supremo, senão entre todos com a mesma forma e força, certamente em toda a parte com a força suficiente para excluir toda a dúvida acerca da sua acção predominante» (G. SCHMIDT, Manual de História Comparada das Religiões, 1938).
A crença num Ser Supremo é claríssima em todas as tribos de pigmeus da África e da Ásia (H. BAUMANN, 1936). Até há pouco tempo, o que sabíamos da maior parte dos pigmeus da África era quase nada e tinha um conceito diverso das suas crenças religiosas; mas investigações recentes de Trilles no Gabão, de Schumacher no Ruanda, de Schebesta no Congo, puseram em evidência, com toda a clareza, a crença deles no Ser Supremo. O mesmo se pode dizer de algumas tribos africanas, como os Ajongos, Vátuas, Bagellos, Bambutos e outros; de povos primitivos do Sul, como os Bosquímanos, os habitantes da Terra do Fogo e os australianos de cultura primitiva; no círculo polar árctico, como os Samoiedos, os Coriacos e os Ainu, e numerosas tribos da América do Norte. Mas aquilo que mais surpreende, ainda, é que a ideia deste Ser Supremo é tanto mais pura, isto é, menos ofuscada de ideias de outros deuses menores, quanto mais a tribo apresenta caracteres primitivos.
Alguns primitivos, como os Fueguinos, Negritos, Bátuas, Andamaneses, afirmam que o Ser Supremo é imperceptível aos sentidos, inaferível como o vento.
Outros dão-lhe um aspecto humano, venerando, com longa barba, mas dotado de caracteres superiores ao homem; umas vezes, é resplandecente como o fogo; outras, circundado por uma auréola solar. O arco-íris, entre algumas tribos, é a fímbria do manto do Ser Supremo. Significativo é o facto de que mesmo as tribos que representam o Ser Supremo com feições humanas, quase nunca lhe atribuem mulher e filhos, achando irreverente até a pergunta se o Ser Supremo é casado.
Múltiplos e expressivos são os nomes pelos quais é designado o Ser Supremo, sempre pronunciados com respeito e em raras ocasiões; mas nunca, sem necessidade. Em muitos casos recorrem a circunlóquios ou sinais. Por exemplo: um aceno para o céu, como fazem os Juin com Daramulum e os Kulin com Bundyil.
Três grupos de nomes são mais frequentes, e precisamente os que exprimem paternidade, ou a obra criadora e a morada no céu. Os pigmeus do Ituri, os Bosquímanos e muitos outros chamavam-lhe simplesmente: pai. Os Samoiedos usavam esta invocação: meu pai Nun, meu pai celeste. Os Ainu chamavam-lhe: o Divino Construtor dos mundos. Muitas tribos norte-americanas chamavam-lhe simplesmente: o Criador, o Artífice, o Criador da Terra. Os Samoiedos: o Criador da vida.
Encontram-se outras expressões que indicam, ou a morada de Deus, como esta: Aquele que habita no alto, ou outros atributos: o Antiquíssimo, o Suporte do universo, o Grande Manitu, isto é, o Grande Espírito (Algonquinos), Gawa, o Invisível (Bosquímanos), o Omnipotente, o Vigilante, o Eterno, etc.
Já por estes nomes, que acabamos de enumerar, se revela o conceito, como se vê, altíssimo, que tinham estes povos do Ser Supremo, bastante semelhante àquele que tinham os Patriarcas do Génesis.
Mas, mesmo quando não existe um nome para exprimir os atributos de Deus, existe sempre o conceito, que exprimem recorrendo a circunlóquios. A eternidade do Ser Supremo é conhecida por quase todos os povos primitivos. A omnisciência está em estreitíssima relação com a vigilância que o Ser Supremo exerce sobre as acções morais dos homens. As tribos da Austrália sul-oriental avisam disto os jovens, tanto no rito da iniciação, como noutras ocasiões, com a advertência que o Omnisciente sabe também punir (F. GRAEBNER, 1926). Os Bátuas do Ruanda dizem claramente: nada existe mais que Imana, o Ser Supremo. Ele sabe tudo. Conhece até os pecados secretos do pensamento.


Pe. Victor Marcozzi in «Deus e a Ciência», 1957.

06/09/2018

O Catolicismo e a vida rural


A vida rural tem muito a ver com a vida religiosa dos lavradores. A Igreja cuidou que as principais festas do ano litúrgico coincidissem sempre que possível com o ciclo das estações e as fainas do campo correspondentes, realizando-se assim uma interessantíssima comunhão entre a vida espiritual e o acontecer cósmico. O sino da paróquia, ou do convento, conferia à existência camponesa um ritmo não só cronológico, mas também sacral. Pouco antes da aurora tocava a laudes e encerrava a jornada na hora das vésperas. Deste modo, a oração matutina e a prece vespertina marcavam o trabalho, conferindo-lhe uma significação transcendente. Os dias de festa eram numerosos, muito mais do que no nosso tempo. Tanto aos domingos como nos dias festivos os camponeses assistiam à Santa Missa e com frequência aos ofícios das Horas canónicas. Participavam também nas procissões, presenciavam nos átrios representações teatrais dos mistérios sagrados, ouviam sermões e homilias, aprendiam o Catecismo. Tudo isso somado às visitas domiciliares dos sacerdotes, constituía uma espécie de cátedra ininterrupta para sua educação nos princípios da fé e da moral. Toda a existência do camponês pulsava ao ritmo estabelecido pela Igreja. Desde o nascimento até à morte, passando pelo matrimónio e as enfermidades, os momentos fundamentais da sua vida eram sublimados pelo alento sobrenatural da liturgia.

Pe. Alfredo Sáenz in «La Cristiandad y su Cosmovisión», 1992.

05/09/2018

Pelos frutos se conhece a árvore


Guardai-vos dos falsos profetas, que vêem a vós com vestidos de ovelhas, e por dentro são lobos rapaces. Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinhos, ou figos dos abrolhos? Assim toda a árvore boa dá bons frutos, e a árvore má dá maus frutos. Não pode uma árvore boa dar maus frutos, nem uma árvore má dar bons frutos. Toda a árvore, que não dá bom fruto, será cortada e lançada no fogo. Vós os conhecereis, pois, pelos seus frutos.
Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus; mas o que faz a vontade de meu Pai, que está nos Céus, esse entrará no Reino dos Céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em Teu nome, e em Teu nome expelimos os demónios, e em Teu nome fizemos muitos milagres? E então eu lhes direi bem alto: Nunca vos conheci; apartai-vos de Mim, vós que obrais a iniquidade.

Evangelho segundo São Mateus, VII, 15-23.

31/08/2018

Usurocracia


A Banca, que alcançou um poder determinante no século XIX, chegou, na actualidade, ao domínio absoluto da vida económica, tanto no Ocidente do mercado livre, como no Leste comunista. Hoje em dia, quando se apresenta a ocasião de fazer funcionar uma nova empresa, tenha ou não finalidade lucrativa, a primeira coisa a ponderar é a atitude provável da Banca – local ou nacional, segundo a índole das suas actividades – relativamente à empresa em questão. Na época presente já quase nada se pode fazer e, praticamente, nada consegue perdurar sem o apoio dos bancos. De simples executivos de um serviço que devia facilitar o intercâmbio de mercadorias, os banqueiros passaram a ser, sucessivamente, os reguladores, depois os controladores e, por fim, os donos de toda a riqueza mundial. E, apoiando-se nesta, donos também, como é óbvio, do poder político.
Shylock [d'O Mercador de Veneza] e os seus correligionários da Idade Média eram inocentes meninos de coro comparados com os magos da moderna Finança. Ao fim e ao cabo, os agiotas daquela época cobram "apenas" uns 30 ou 40% de juros mensais... Também não devemos esquecer que esse juro exorbitante, por abusivo que fosse, era cobrado sobre dinheiro existente, real, tangível, pertencente ao usurário, que, além disso, corria riscos pessoais materializados, com muita frequência, em penas de prisão, quando não em pogrom, expropriações e expulsões. Pelo contrário, os modernos banqueiros praticam, grosso modo, a operação seguinte: tomam emprestado dinheiro, o dos seus depositantes, pelo qual pagam um juro de 2%. Esse dinheiro é emprestado, por sua vez, a um juro de 12%, o que representa logo um benefício de 2000%, benefício este que não deu, nem dará nunca, lugar a negócio nenhum. É espantoso comprovar como nenhum Estado, nenhum juiz, nenhuma comissão (ao estilo da Fiscalização de Taxas que já existiu em Espanha) tomam a mais pequena medida contra esses benefícios abusivos, contra esses comerciantes do dinheiro – e comerciantes monopolistas, não se esqueça... – quando por uns "miseráveis" 30% se fecharam empresas estabelecidas e se meteram na prisão os seus proprietários. Mas não termina aqui o abuso bancário: os bancos não ganham "só" 2000%, mas sim, como vimos já, ao multiplicarem por 9 os seus empréstimos, criando moeda escriturada – moeda falsa, não nos cansaremos de o repetir – os seus benefícios, ao ficar consumado esse delito – autêntico delito – contra o Código Penal e contra a humanidade, têm que ser multiplicados outra vez por 10. Por cada 100 denários recebidos dos seus clientes, o banco paga a estes um juro anual de 2 denários e cobra, ao "emprestar" 900 denários, um juro de 12%, ou seja, 108 denários, o que equivale a um juro de 21600%!
E os céus não trovejam!... Entretanto, os frios monstros estatais assanham-se continuamente contra o pequeno e médio empresário que dissimula os seus benefícios para poder sobreviver...

Joaquín Bochaca in «A Finança e o Poder», 1973.

26/08/2018

O paradoxo da tolerância

Um tolerante intolerante.

Ocupemo-nos a seguir da tolerância.
Esta consiste em admitir todas as doutrinas e na recusa de qualquer fundamentalismo ideológico.
Por vezes, quando se fala em tolerância alude-se à liberdade religiosa. Lembremos, por exemplo, as célebres Cartas sobre a Tolerância de Locke em que se discute fundamentalmente a liberdade dos vários cultos (excluídos, desde logo, o católico e o islâmico).
Em todo o caso, a tolerância, tomada na sua mais estrita acepção, embora abranja a liberdade religiosa, ultrapassa-a patentemente.
Conforme dissemos, a tolerância envolve não só as concepções religiosas mas todas as concepções em geral – filosóficas, políticas, etc.
Ora se devem tolerar todas as concepções também se deve tolerar a intolerância com o que, consoante nota Marcuse, a tolerância se destrói a si mesma.
Para obviar a isso só há um processo: não tolerar qualquer espécie de intolerância. Em semelhante circunstância a tolerância transforma-se numa ideia oficial, num credo que tem de ser acatado por todos. Eis que a tolerância se torna intolerância. O paradoxo é patente porque das malhas desta tenaz não há que escapar.

António José de Brito in «Alguns paradoxos das doutrinas sobre os direitos dos homens».