20/06/2018

Portugal: um exemplo sem igual


Em todas as regiões do mundo por onde passei, sempre que via uma ponte perguntava quem a construíra e sempre me respondiam: os portugueses. Diante de uma estrada e ao fazer semelhante pergunta, a resposta era idêntica: os portugueses. E quando se tratava de uma igreja ou de uma fortaleza, sempre a mesma resposta: os portugueses, os portugueses, os portugueses.
O meu desejo seria que, se Marrocos se tornasse algum dia esquimó ou chinês, os nossos sucessores lá encontrassem tantas reminiscências francesas como portuguesas nós temos achado.

Marechal Hubert Lyautey, General-Residente de França em Marrocos (1912-1925).

11/06/2018

O intendente Pina Manique


Diogo Inácio de Pina Manique (1733-1805). Era formado em Leis pela Universidade de Coimbra, tendo demonstrado sempre muito zelo no desempenho de elevados cargos e delicadas missões. Ganhou por isso a confiança do Marquês de Pombal, que o encarregou de variados serviços. Criou os serviços aduaneiros e fez o censo da população portuguesa em 1776. Após a queda do Marquês de Pombal (1777), foi nomeado Intendente-Geral da Polícia, cargo que acumulou com outros de grande importância, podendo dizer-se ter sido uma das figuras políticas de maior relevo durante a «Viradeira», no reinado de D. Maria I. Desenvolveu dura repressão contra as ideias liberais, criando um corpo de polícia especial para combater a espionagem e a literatura revolucionária, o que obrigou ao exílio de alguns intelectuais e artistas. Em Lisboa, mandou construir o Teatro de São Carlos e instalar a iluminação pública. Fundou a Casa Pia, que começou a funcionar em 1781, no Castelo de São Jorge, como recolhimento de pobres mendigos. Foi demitido em 1803 pelo regente D. João, por pressão diplomática de Napoleão Bonaparte. Faleceu dois anos depois.

Fonte: «Focus: Enciclopédia Internacional», Volume III, 1965/1970.

08/06/2018

Portugal e o Sagrado Coração de Jesus


Apesar de desatendida em França desde 1689, a Providência não desistia do Seu propósito de valer ao mundo e às nações pela aceitação oficial do reinado de Amor do SS. Coração de Jesus. E, sem novas mensagens, sem conhecimento mesmo, ao que parece, da mensagem [de S. Margarida Maria Alacoque] a Luís XIV, surge na Igreja, setenta anos mais tarde, uma nobilíssima Rainha a cumprir à letra, por inspiração da sua terníssima piedade, quase tudo o que o Divino Coração tinha pedido e o Eterno Pai queria. Foi a Senhora D. Maria I, Rainha de Portugal.
Os portugueses do seu tempo proclamaram-na «Mãe da Pátria» e deram-lhe o cognome de «Piedosa» porque à sua piedade e ao seu compassivo coração de Mãe deveram o termo de indizíveis sofrimentos e horrorosas crueldades de vinte anos do reinado precedente, assim como a restauração da concórdia, da confiança e da paz com que o Reino voltou a ser a «Casa de Família» de todos os portugueses.
Mas o seu glorioso título à gratidão nacional está no que a nossa excelsa Rainha fez pela exaltação da realeza do SS. Coração de Jesus, atraindo com isso para Portugal singulares bênçãos de predilecção do Senhor, e alcançando para si e para a sua Pátria um lugar de altíssimo destaque na História da Igreja, com admiração e simpatia das outras nações católicas.
Vejamos, por agora só em resumo, o que foi a obra da Senhora D. Maria I, deixando para os números seguintes de O Monumento a descrição pormenorizada de tão formosos sucessos.
1.º Em 1777, ano em que subiu ao trono, alcança do Papa Pio VI, Ofício e Missa do Coração de Jesus, com rito duplex maior. É a 1ª vez que em Portugal se reza e se faz a festa do Divino Coração. No Patriarcado foi dia santo de guarda decretado em Pastoral de 22 de Maio do mesmo ano. A festa ao Sagrado Coração só depois de 1856 foi decretada para toda a Igreja.
2.º Em 5 de Agosto de 1778, a instâncias da Rainha, Pio VI dá o maior relevo à festa do Coração de Jesus, concedendo novo Ofício e Missa, elevando-a ao rito de 1ª classe, decretando que seja dia santo de guarda e tenha vigília com jejum em Portugal e seus domínios, isto é, nas cinco partes do mundo. Nenhuma nação pedira isto ainda, e assim se fez em Portugal até à reforma do Direito Canónico em 1918.
3.º Em Fevereiro de 1778 começaram as obras de construção do Convento, e em Outubro de 1779, as da Basílica do SS. Coração de Jesus, na Estrela, em Lisboa, para cumprimento do voto feito pela Rainha em 1760 se tivesse sucessor para o trono. E em 15 de Novembro de 1789, precisamente um século depois da mensagem a Luís XIV e no mesmo ano em que a Revolução Francesa começava a fazer aluir os alicerces do trono e da própria França, era sagrada solenissimamente e aberta ao culto com participação activa de toda a Casa Real, da côrte, do exército e do povo, a nova Basílica, a primeira que em todo o mundo foi erguida e consagrada ao Divino Coração.
4.º A Rainha, em Junho de 1789 e como preparação para a consagração da Basílica, restaurou e arvorou em Cavalaria do Divino Rei, as três Ordens Militares, de Cristo, S. Bento de Avis e S. Tiago da Espada, ordenando que os grã-cruzes e comendadores tivessem nas suas insígnias o Coração de Jesus; que, estando em Lisboa, assistissem todos os anos com a Família Real, à festa do Sagrado Coração naquela Basílica e que o dia da festa fosse de gala nacional. E assim se cumpriu fielmente quase até à queda da monarquia em 1910 este preito da vassalagem de Portugal representado pelo seu Rei, família real, governo, exército, todo o elemento oficial da nação.
Também nisto, Portugal foi sem exemplo.

Simão de Xavier in jornal «O Monumento», 1 de Dezembro de 1938.

06/06/2018

Do fim para que somos criados


O homem é criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus nosso Senhor e, mediante isso, salvar a sua alma; e as outras coisas sobre a face da Terra são criadas para o homem, para que o ajudem na prossecução do fim para que é criado. Donde se segue que o homem tanto há-de usar delas quanto o ajudem para o seu fim, e tanto deve afastar-se delas quanto para isso o impedem. Pelo que é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre-arbítrio, e não lhe está proibido; de tal maneira que não queiramos da nossa parte mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida curta, e consequentemente em tudo o mais; mas somente desejando e elegendo o que mais nos conduz ao fim para que somos criados.

Santo Inácio de Loyola in «Exercícios Espirituais», 1548.

04/06/2018

Maurras, mentor do Patriotismo português?


A verdade, que eu pretendo fazer ressaltar destas páginas, e das que lhes hão-de seguir, é que o nosso nacionalismo [patriotismo] não precisa socorrer-se dos mestres franceses da Contra-Revolução, porquanto, graças a Deus, os tem em casa, muito seus, os quais nada devem aos estranhos, como facilmente poderá averiguá-lo quem queira dar-se a esse trabalho, antes de fulminar o nosso apostolado, com críticas, talvez muito espirituosas, mas sem nenhuma consistência.
No século passado, ainda a Action Française estava na massa dos impossíveis, já nós possuíamos os nossos doutrinadores da Contra-Revolução, em cujos escritos de modo algum se reflectia a influência dos contra-revolucionários franceses dessa época, alguns dos quais surgiram até posteriormente, e revelando-se, nas suas obras, de uma forma incompleta, o que não sucedia aos nossos Gamas e Macedos, que eram declarada e integralmente reaccionários.
Nós podemo-nos orgulhar de ter mestres, e dos melhores, como nos temos esforçado por demonstrar em mais de doze anos de bom combate, e os quais só aguardam ser conhecidos e meditados, para que a sua superioridade se imponha a quantos de boa-fé queiram formar a sua cultura nacionalista [patriótica]. «Nós temos tudo feito», como ainda há tempos me dizia o Sr. Dr. Hipólito Raposo, ao percorrermos em comum algumas páginas da Dissertação a Favor da Monarquia.
De resto, o que certos pedagogos se obstinam em recusar ao Pensamento nacionalista [patriótico] português, não o recusam a estranhos. O próprio Charles Maurras, que esses críticos de escada abaixo têm querido arvorar em nosso mentor, é o primeiro a reconhecer a base tradicional do nosso doutrinarismo, como tive ensejo de o verificar, quando um dia me recebeu no seu gabinete da Action Française, e lhe dei a ler alguns passos de O Novo Príncipe do doutor José da Gama e Castro, um dos quais Maurras classificou de «luminoso», acrescentando, ao inquirir da sua data, que aquilo se escrevera quando ele ainda nem era nascido.

Fernando Campos in «A Genealogia do Pensamento Nacionalista», 1931.

§

Nota: Admite-se aqui o uso da palavra "nacionalismo" no sentido impróprio do termo, como sinónimo de "patriotismo". Pois como é sabido, o Nacionalismo é uma concepção napoleónica que nasceu do dogma liberal da independência – independência do Povo (Nação) face ao seu Soberano. O que só demonstra que os autores do século XX ficaram muito aquém dos mestres do século XIX.

31/05/2018

A Santa Comunhão


O que é a Comunhão?
É a recepção do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo sob as espécies sacramentais do pão e do vinho. A palavra comunhão quer dizer união com, união de Jesus Cristo e da alma que a recebe. E, com efeito, não há união mais íntima, já que comemos a Carne e bebemos o Sangue de Jesus. Nosso Senhor instituiu a Comunhão quando instituiu o sacrifício da Missa, dizendo: «Tomai, isto é o Meu Corpo; bebei, este é o Meu Sangue».

Três espécies de Comunhão: a sacrílega, a tíbia, e a fervorosa
1. A comunhão sacrílega. A própria palavra faz horror. Comungar em estado de pecado mortal, receber o Deus de toda a santidade e pureza numa alma cheia de lama do pecado, encerrar num mesmo coração a Deus e a Satanás, enfim, como diz São Paulo, calcar aos pés o Corpo e Sangue de Jesus. Que profanação! Que crime! Mas também que castigos! Muitas vezes doenças terríveis, morte desgraçada, condenação eterna. «Quem comunga indignamente, come e bebe a sua própria condenação», diz o mesmo Apóstolo. Se outrora tivéssemos tido a infelicidade de fazer comunhões sacrílegas, não obstante a enormidade do pecado, deveríamos ter a confiança na misericórdia de Jesus. Após uma sincera confissão, procuremos reparar com comunhões fervorosas as comunhões indignas do passado.
2. A comunhão tíbia. É a comunhão feita por rotina, sem fruto, sem preparação nem acção de graças que valham. Há pessoas que comungam quase todos os dias e não se emendam dos seus defeitos, nem fazem progresso na virtude. De manhã, na mesa da comunhão; à noite, no espectáculo, no baile; de manhã, recolhidas; todo o resto do dia dissipadas; de manhã, derretidas em devoção; de tarde, de mau humor; de manhã, na igreja em oração; o dia inteiro, em maledicência, disputas, leituras frívolas, exibição de vaidade. Cuidado! São Paulo compara estas almas com a terra que frequentemente recebe a chuva do céu e nada produz, senão espinhos e abrolhos. Neste caso será melhor afastar-se da mesa da comunhão? Não! Seria imitar o homem que está fraco e não se alimenta. O que se deve fazer é, por meio da mortificação e da oração, sacudir fora essa frieza e continuar a comungar.
3. A comunhão fervorosa. É a comunhão feita com boa vontade, com proveito, precedida de uma séria preparação e seguida de uma fervorosa acção de graças.

Pe. Guilherme Vaessen in «O Pequeno Missionário», 1953.

28/05/2018

Viva o 28 de Maio! Abaixo a República!


Ora nós quisemos dar ao País, assolado pelas devastações da sua anarquia, um regime novo; mas muitos dos nossos homens públicos, educados na filosofia política do século XIX, têm-nos considerado sempre um governo à espera de eleições «livres» para uma «assembleia constituinte» que vote «nova Constituição» e com ela garanta ao povo «todas as felicidades». De modo que se verifica o seguinte: abolidas neste País as instituições tradicionais, não se encontra de 1820 a 1926, através das Constituições, Carta Constitucional e Actos Adicionais à Carta, entre revoluções, golpes de Estado, ditaduras ou vida constitucional, não se encontra regime, dizia, de que possa afirmar-se ter vivido ao menos os quarenta anos que para o ano perfaremos. Ao mesmo tempo, nenhum foi tão estável, tão pacífico e eficiente como o actual. E daí provir o absurdo de o provisório ser mais duradouro que o definitivo e o temporário mais estável que o consagrado para a eternidade.

António de Oliveira Salazar in discurso de 18 de Fevereiro de 1965.

21/05/2018

Partidos políticos


Para a Democracia, a Pátria não existe organicamente: só há os partidos políticos, agrupamentos numéricos de indivíduos-eleitores, lutando em nome do interesse público para utilidade dos associados. Desconhece-se, ou logicamente se renega, a Tradição, para que tudo comece no dia em que a Democracia começou. Os partidos, em geral dois, três ou mais, nas sociedades em decomposição, representam, um, tendências conservadoras, outro, tendências avançadas ou radicais, como fórmulas de equilíbrio e correcção. Teoricamente, o princípio é uma falsidade, porque não há princípios conservadores, nem avançados: há ideias que matam e ideias que salvam; mentiras políticas e verdades políticas; ideologias e realidades.
A alimentar a corrupção dos partidos, há ainda a considerar as influências internacionais da Maçonaria, que combate a ideia de Pátria, e a pressão dos interesses das plutocracias, por meio da venalidade de políticos sem escrúpulos nem convicções, que formulam programas e fazem promessas que antecipadamente sabem não poder cumprir.

Adaptado de «Cartilha Monárquica», 1916.

14/05/2018

Bento XV sobre a situação na Palestina


Certamente recordam-se todos que aqui mesmo, em 10 de Março de 1919, Nós nos mostrámos muito preocupados com o desenrolar dos acontecimentos, depois da guerra, na Palestina; numa terra tão cara a Nós e a todo coração cristão, porque tornada sagrada pelo próprio Redentor Divino na sua vida mortal. Além de que, longe de diminuir, aquela Nossa apreensão vai, infelizmente, a cada dia se agravando.

De facto, se Nós naquela época nos lamentávamos pela obra nefasta ali desenvolvida por seitas não-católicas, que querem simplesmente vangloriar-se do nome de cristãs, também agora devemos lamentar-nos ao ver que estas seitas, munidas que são abundantemente de meios, mantêm a sua obra sempre cada vez mais activa, aproveitando-se da imensa miséria em que os seus habitantes estão mergulhados depois desta guerra monstruosa. De Nossa parte, conquanto não tenhamos deixado de socorrer as debilitadas populações palestinas, impulsionando ou dando vida a várias instituições de beneficência (o que continuaremos a fazer enquanto tivermos força), não podemos, todavia, prover um socorro adequado àquelas necessidades, especialmente porque com os recursos colocados à Nossa disposição pela Divina Providência devemos atender aos gritos de dor que chegam de toda parte, pedindo ajuda à Sede Apostólica. Consequentemente, somos obrigados a assistir com grande pena à progressiva ruína espiritual de almas tão caras a Nós e por cuja salvação trabalharam tantos homens de zelo apostólico, antes de mais os filhos do seráfico Patriarca de Assis.

Quando os cristãos, através das tropas aliadas, retomaram a posse dos Lugares Santos, Nós de coração nos unimos à alegria geral dos bons; mas aquela Nossa alegria não era separada do temor expresso na referida Alocução Consistorial, ou seja, que a tão magnífico e feliz acontecimento, os israelitas viessem, em seguida, encontrar-se na Palestina numa posição de preponderância e de privilégio. A realidade actual comprova que aquele temor era justificado. De facto, na Terra Santa a condição dos cristãos não só não melhorou, mas, ao contrário, piorou logo depois das novas leis e dos ordenamentos ali estabelecidos, os quais visam – não digamos que por vontade dos legisladores, mas certamente de facto – a expulsar a Cristandade das posições que tem ocupado até agora, para substituí-la pelos israelitas. Não podemos, também, não deplorar o trabalho intenso que muitos fazem para retirar o carácter sagrado dos Lugares Santos, transformando-os em ponto de encontro com todos os atractivos da mundanidade: o que, se já é de todo reprovável, muito mais o é onde encontram-se a cada passo as mais augustas memórias da Religião.

Tendo em conta que a condição da Palestina não foi ainda definitivamente regulada, Nós, a partir de agora, devemos levantar a nossa voz a fim de que, quando chegar o tempo de dar a ela um ordenamento regular, sejam assegurados à Igreja Católica e a todos os cristãos os seus direitos inalienáveis. Nós não queremos certamente que sejam reduzidos os direitos do mundo hebraico; entendemos, porém, que esses não devam de modo algum se sobrepor aos sacrossantos direitos dos cristãos. E, para tanto, exortamos firmemente todos os governos das Nações cristãs, inclusive as não-católicas, a que insistam e mantenham-se vigilantes junto à Liga das Nações, que, como foi anunciado, deverá submeter a exame o regulamento do mandato inglês na Palestina.

Papa Bento XV in discurso «Sobre a situação do Catolicismo na Palestina», 13 de Junho de 1921.

13/05/2018

Oração a Nossa Senhora de Fátima


Senhora do Rosário de Fátima, que por meio de uns humildes pastorinhos nos viestes recomendar o amor à oração com a reza do Terço e o amor à penitência pelo arrependimento e confissão de nossos pecados, como os meios mais seguros da nossa salvação, fazei que todos os portugueses, dóceis a vossos maternos conselhos, vivamos assim no caminho do Céu e a nossa Pátria volte aos dias da sua antiga prosperidade sob o manto da vossa real protecção. Ámen.

3 Ave Marias (200 dias de indulgências)

+ Teodósio, Cardeal-Arcebispo de Lourenço Marques
8 de Setembro de 1948

11/05/2018

Da Verdade


1. Noção. – Comumente atribuímos o predicado de "verdadeiro" às coisas, aos conhecimentos e às palavras; e dizemos que uma coisa é verdadeira, quando possui a sua própria natureza: ouro verdadeiro é aquele que tem realmente a essência do ouro; um conhecimento é verdadeiro, quando representa o objecto como realmente é, quando diz do objecto o que ele é, e não o que ele não é; as palavras são verdadeiras, quando manifestam o que realmente pensamos.

2. A verdade das coisas, chamada verdade ontológica, depende da conformidade das coisas com a Inteligência divina que as concebeu e criou.
A verdade do conhecimento, chamada verdade lógica ou formal, depende da conformidade da nossa inteligência com as coisas. De facto, todo o nosso esforço ao procurar conhecer uma coisa consiste em nos "adequar " à coisa, à realidade. Quando, por ex., olhando pela janela, não distinguimos se chove ou não, abstemo-nos de julgar. Quando porém nos certificamos de ter atingido a realidade, afirmamos ou negamos; e se vemos que está a chover, a impossibilidade de negá-lo não é uma impossibilidade puramente subjectiva de pensar o contrário, mas uma impossibilidade imposta pela realidade e independente de nós, pois não é a nossa inteligência que faz com que as coisas (naturais, não-artificiais) sejam, e sejam o que são. Donde para conhecer uma coisa e falar dela com verdade é necessário que a nossa inteligência se conforme com aquilo que a coisa é. – E isso vale também para as afirmações de ordem universal, como: o homem é animal racional, o todo é maior do que uma de suas partes.
Mesmo quando erramos, o esforço feito foi de nos adequar à realidade, e a nossa afirmação provém ainda da persuasão (precipitada no caso, como veremos) de nos estar conformando com o que é.
Reconhecer que o nosso esforço no conhecer é para saber e dizer o que é, e não o que não é, é reconhecer que as nossas faculdades cognoscitivas são feitas para conhecer o que é, a realidade; que a natureza delas é de tender para a realidade: a verdade; que são aptas para atingir a realidade, a verdade. Senão, não se poderia dizer de quem afirma, por ex., 2 + 2 = 5, que usa mal das suas faculdades.
A verdade das palavras consiste na conformidade das palavras com o que a inteligência pensa e julga.

3. Estas três espécies de verdades supõem sempre como elemento comum uma conformidade, uma adequação entre estes dois termos: inteligência e realidade. Donde a definição da verdade: "adaequatio intellectus et rei".
Quem se conforma dá o nome à verdade:
Conformidade da realidade da coisa com a Inteligência divina = verdade da coisa. É verdade essencial (provém da sua essência) transcendental (compete a todas as coisas, porque todas têm entidade e precisamente aquela que Deus pensou e quis, pois nunca Deus se engana no realizar das suas ideias). – Todas as coisas, enquanto – pelo facto de terem alguma entidade – são aptas para serem conhecidas pela inteligência humana cujo objecto é o ser, possuem também uma verdade transcendental acidental: é a inteligibilidade da realidade;
Conformidade da inteligência humana com a realidade, com as coisas = verdade da inteligência, isto é, verdade do conhecimento, verdade lógica e formal;
Conformidade das palavras com o conhecimento da inteligência = verdade das palavras, chamada veracidade, que se opõe à mentira e de que trata a Ética.

Pe. Pedro Cerruti in «A Caminho da Verdade Suprema», 1956.

05/05/2018

O Comunismo morreu?


Há umas semanas, um tradicionalista dizia-me que o Comunismo já não representa uma grande ameaça porque está praticamente morto, acabado... Aparentemente sim, o Muro de Berlim caiu e os partidos comunistas estão a perder peso e apoio. Contudo, nunca o mundo foi tão comunista como hoje. Actualmente o Comunismo não se limita a um grupo político definido, está amplamente difundido nas inteligências, nas mentalidades, na cultura, nas ciências e na moral. Na verdade o Comunismo não morreu, apenas se simplificou e vulgarizou. O Marxismo-Leninismo deu lugar ao Marxismo Cultural.

Analogamente, relembro a opinião do maçon e ocultista Oswald Wirth (1912):
«A Franco-Maçonaria pode tornar-se uma vastíssima associação, sobretudo se ela se espiritualiza, divulgando os seus princípios, sem exigir aos que os aceitam que venham tomar parte nos mistérios das lojas. Os mações sem avental são muitas vezes os melhores. Por que não favorecer a sua auto-formação?»

04/05/2018

O Punhal dos Corcundas Nº 20 (IV)

(continuação da Parte III)


Texto

Ainda depois do reinado de El-Rei D. José muitos homens sábios foram vítimas dele. Ainda em nossos tempos vimos sofrer muitos beneméritos deste país, antes da famosa septembrizada. (Do texto se conclui que temiam ver excitados novamente os que eles chamavam antigos furores do Tribunal, e por isso o queriam abolido a ponto de que, sendo possível, queimassem os próprios edifícios, e deitassem as cinzas e ruínas ao mar).

Censura e comentário

Eis que chego ao mais fino da questão; e serei mais claro do que nunca. Perseguiu a Inquisição o Lente José Anastácio no Reinado da Senhora D. Maria I... assim foi... mas vejamos se o Tribunal procedeu justa ou injustamente. Ninguém provará que a Inquisição entendesse com aquele Professor em assuntos de Faculdade de Matemática, e debalde quererão os adeptos fazer deste homem perseguido um novo Galileu (*). Podia ele se quisesse, e os seus talentos e forças alcançassem tanto, não só igualar, mas exceder o famoso Pedro Nunes, sem que lhe pusessem o menor impedimento; José Anastácio porém excedeu-se em matérias de que não era sabedor, e nas quais não podia ser juiz; dogmatizou contra os principais mistérios da nossa Fé, e para ser mais eficaz o veneno, temperou-o com todas as graças da Poesia, e como enfeitou de lábios dourados a taça em que propinava a mortal bebida aos incautos mancebos que o atendiam. Que devia fazer nestes lances o Tribunal do S. Ofício quando reinava uma Princesa verdadeiramente religiosa, e que não cedia em piedade, e zelo de manter a pureza do Cristianismo ao próprio Soberano que fez erigir o Tribunal da Fé? Muito embora chorassem as musas, as letras, e as ciências; mas foi de absoluta necessidade reprimir os males na sua origem, e só estranhará os aliás pequenos sofrimentos de José Anastácio quem desejar segui-lo na temeridade de escrever contra a fé e bons costumes. Oxalá que o S. Ofício já bastante agrilhoado nessas, e outras semelhantes causas, pudesse então bracejar e desenvolver-se na forma que tanto convinha aos interesses da Monarquia!!! Apenas conseguiu represar nas mãos de infames depositários as virulentas, ímpias, e blasfemas cartas de um Português, que em poucas páginas recolheu todo o veneno das Cartas Persanas, Índias, Cabalísticas, etc., etc., etc. Logo porém que o dia 24 de Agosto fez soltar os ventos, e as tempestades de envolta com o Dragão Infernal que estivera sopeado mais de seiscentos anos, foram impressas neste Reino!!! As cartas de José Anastácio, venderam-se descaradamente no Porto e em Coimbra, que em Lisboa já seriam velhas, e correram como se fossem novos catecismos da mocidade Portuguesa!! Em vão protestei na Gazeta Universal contra a aparição de mais este fenómeno de impiedade; uma voz fraca, e desconhecida mal se ouvia, quando os próprios que eram obrigados a falar em voz alta, pareciam estátuas!
No que pertence aos beneméritos que compareceram no Tribunal do S. Oficio, já toda a Nação conhece admiravelmente de que laia são estes beneméritos, e acompanha-me toda no sentimento de que, assim como levaram meigas e suaves repreensões, não ficassem aí detidos e clausurados! Pois que perdíamos com isso? Teríamos vivido em paz, e não teríamos visto as proezas maçónicas. Já agora que tenho adiantado este certame, convém leva-lo ao fim, propondo, e desfazendo as objecções dos adversários do S. Ofício.

Texto

Quem será tão desumano, que não se comova dos gritos de mil e quatrocentas vítimas que foram queimadas, e de mais de vinte mil que foram infamadas neste Reino por esse Tribunal povoado de canibais e antropófagos? Somente na Bélgica foram condenadas à morte oitenta mil pessoas, quando o feroz Duque de Alba dirigia as operações do Tribunal exterminador, e quem tomar o pincel vagaroso, mas seguro, de Domenichino, e o molhar no sangue que fez derramar em Espanha esse infame Torquemada (**) fará por certo o quadro mais espantoso e abominável.

Censura e comentário

Qual é o Tribunal humano, que não tenha abusado de seus poderes? Que não tenha excedido os limites de sua competência e de jurisdição? Se fora este um motivo suficiente de sua extinção, quantos deveriam ficar em pé? Tomando porém a coisa por outro lado, quantos ladrões e homicidas terão há duzentos anos a esta parte subido à forca nas duas cidades de Lisboa e Porto? Quem folheasse os registos das sentenças capitais deste Reino acharia mais de mil e quatrocentos, e será este um argumento, por que se devam extinguir desde já os Tribunais que impuseram a pena última? Ora esses mil e quatrocentos, número este que por ventura será exagerado, foram homens relapsos, dogmatizantes, e perturbadores da ordem pública, e por isso a autoridade civil deu as mãos à eclesiástica, para que do rebanho de Jesus Cristo fossem cortadas de uma vez essas ovelhas contagiadas, que o poderiam infeccionar todo, se lhe não acudissem a tempo. Os filósofos de hoje estão muito discordantes da sabedoria cristã, e por isso nem pode haver ajuste de princípios, nem as disputas acabam felizmente. Para eles tudo é políticos e temporal, e os negócios de Fé são os últimos... Concedem facilmente que uma desatenção, uma palavra injuriosa que se diga ao Rei da terra, é punível, e de bom grado subscreverão a pena de morte, se houver esperanças de mercê, de comenda, ou de título... porque enfim querem viver só para este mundo, e talvez não admitam, nem esperem outro... mas tratando-se de injúrias públicas e atrozes feitas ao Rei dos Céus e da Terra, humanizam-se, mudam de tom, e parecem-lhe delírios de cabeças estouvadas, que não contemplam nem sabem dar desconto ao fanatismo dos seus concidadãos; e muito embora se altere o sossego público, se corrompa a mocidade, pereçam almas aos centos, e milhares delas se precipitem no Inferno, basta para esses crimes um simples aviso correccional. Não é agora do meu intento defender a severidade das medidas que tomou o Duque de Alba, nem fazer encurtar o número das vítimas que se imputam ao Cardeal Torquemada; devo porém fazer uma advertência mui essencial neste ponto. Quando os Ateus e Pedreiros Livres governam, tudo é santo e justo; façam embora centos de pavorosas cenas como a decantada S. Barthélemy, assim era necessário para o bem da sociedade, que usou dos seus direitos, cortando ou expulsando de si os membros podres que a corrompiam e danificavam; quando porém governa Carlos IX de França ou Filipe II de Espanha, muito embora os Belgas e os Huguenotes sejam notoriamente uns vassalos rebeldes, uns aleivosos conspiradores, que levantando um Estado dentro do Estado queiram e possuam lugares de segurança e praças-fortes, donde renovem a seu salvo, quando houver mais forças, a guerra civil; tudo isto são jogos de crianças a que os Reis devem mostrar uma cara de riso, e subirem com ela ao patíbulo, que lhes anuncia já sem rebuço, e lhes prepara no silêncio das trevas a orgulhosa sabedoria moderna, empunhando a trolha, cingindo a cabeça de mitra, e rodeada de esquadrias, de triângulos, e outros emblemas de suas altíssimas concepções.

(a continuar)

(*) Já que vem a talho de foice, ou corte de punhal que vem a ser o mesmo, direi que este facto da perseguição de Galileu é um dos que andam mais desfigurados na História moderna; e se alguém me saísse ao caminho, que eu levo, então lhe mostraria por documentos de irrefragável crédito que nem a Inquisição de Roma foi cruel, nem o Astrónomo foi tão inocente como se diz vulgarmente, sem exame, e sem averiguação alguma. Tenho armado uns poucos de alçapões aos sábios destas eras, mas infelizmente não saem a campo, o que não admira, porque no seu S. Martinho, no seu bom tempo constitucional, não souberam responder a quem lhes argumentava na forma senão insultando, prendendo, e desterrando.
(**) Diário de Cortes – 1º ano – nº 42 pág. 356.

30/04/2018

O vazio intelectual



Fora do arco ideológico autorizado, definido pelo território do velho humanismo igualitário e pelos dogmas da filosofia dos direitos humanos, nenhuma teoria política ou económica atrai a atenção dos meios de comunicação. Os mais brilhantes espíritos vêem-se obrigados a mutilar o seu pensamento para agradar, não à "opinião pública" que não existe, mas sim aos censores da ideologia ocidental oficial.

Guillaume Faye in «El Vacío Intelectual».