16/07/2018

Do valor da terra


Eu sou um rural e, embora em situação diferente, vivi duas guerras, uma em que interviemos activamente nos quadros de uma aliança, outra em que não batalhámos mas houvemos de organizar a defesa nos quatro cantos do mundo. Daí vem compreender o campo e conhecer as necessidades vitais que o campo de satisfazer. Independentemente do que se possa chamar poesia campestre, que atrai os sorrisos um tanto desdenhosos da economia industrial, por mim, e se tivesse de haver competição, continuaria a preferia a agricultura à indústria; mas se quereis ser ricos não chegareis lá pela agricultura, ainda que progressiva e industrializada, neste País de solos pobres e climas vários. A terra é humilde, tanto que se deixa a cada momento pisar; o trabalho da terra é humilde, porque o homem a cultiva, humildemente debruçado sobre as leivas; o fruto do trabalho na terra é pobre porque está no início do ciclo das operações comerciais ou industriais destinadas a valorizá-lo ou a enriquecê-lo. Assim a faina agrícola, sujeita à torreira do sol ou à impertinência das chuvas, é acima de tudo uma vocação de pobreza; mas o seu orgulho de que só ela alimenta o homem e lhe permite viver. Quando se governa um país, e se nos deparam os mercados difíceis, os mares impraticáveis, as bocas famintas sem saber de onde há-de vir um bocado de pão, a terra pobre, a terra humilde sobe então à culminância dos heroísmos desconhecidos e dos valores inestimáveis.

António de Oliveira Salazar in discurso de 18 de Fevereiro de 1965.

15/07/2018

O primeiro triunfo naval português

Testemunho de Gratidão a D. Fuas Roupinho

A 15 de Julho de 1180, D. Fuas Roupinho, cavaleiro templário da Corte de D. Afonso Henriques, parte de Lisboa com nove galés, em perseguição a uma esquadra mourisca que vinha de São Martinho do Porto em direcção a Sesimbra. D. Fuas Roupinho encontra o inimigo ao largo do Cabo Espichel e toma os seus navios um a um. A esquadra portuguesa, embora em menor número, acaba por sair vitoriosa do confronto. Triunfante, D. Fuas Roupinho regressa a Lisboa com os navios e as guarnições capturadas. Pelo grandioso feito, D. Afonso Henriques atribui-lhe o título de Almirante, o primeiro da Real Marinha Portuguesa.

Cabo Espichel

13/07/2018

URSS: feminismo, aborto, divórcio, amor livre


Adaptado da revista brasileira «Época», 16 de Maio de 2014:

Em 1920, a União Soviética tornou-se o primeiro país do mundo a garantir às mulheres o direito ao aborto legal. Dois anos antes, em 1918, o Código da Família, promulgado pelos bolcheviques, havia instituído o casamento civil em substituição do casamento religioso e estabelecido o divórcio a pedido de qualquer um dos cônjuges. O governo que emergiu da Revolução Comunista de 1917 também incentivou a educação feminina e encorajou as mulheres a assumirem os mesmos postos de trabalho que os homens pelos mesmos salários.

A ambição dos bolcheviques ia além de garantir às mulheres os mesmos direitos dos homens. Os revolucionários acreditavam que, na sociedade socialista, seria possível libertar a mulher das tarefas domésticas que, segundo Lenine, embruteciam a mulher e a impediam de participar da vida social e política.

Segundo a historiadora americana e professora da Carnegie Mellon University, Wendy Goldman, os ideais de emancipação da mulher e o amor livre que inspiraram o movimento feminista ocidental nos anos 60 e 70 já eram debatidos nos primeiros anos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), na década de 1920. Em «Mulher, Estado e Revolução: política familiar e vida social soviética entre 1917 e 1936», escrito em 1993, mas publicado agora no Brasil, Goldman reconta a história do "verão do amor" soviético.

As leis que garantiam os direitos das mulheres soviéticas eram tão avançadas que, segundo Goldman, até hoje algumas delas ainda não foram adoptadas por países ocidentais. A legislação soviética previa a igualdade entre homens e mulheres. «As legislações de muitos países não dizem que homens e mulheres serão tratados igualmente. Nos Estados Unidos, nos anos 70, nós tentamos aprovar uma emenda constitucional que afirmasse que a igualdade entre homens e mulheres, mas ela não foi aprovada», diz.

Para libertar as mulheres, foi proposta a socialização do trabalho doméstico. As tarefas realizadas em casa – e de graça – pelas mulheres passariam a ser feitas por profissionais assalariadas em creches, restaurantes comunitários e lavandarias públicas. O fim do trabalho doméstico era apenas um passo, o objectivo dos bolcheviques era o fim da família, pelo menos como figura jurídica. «Os revolucionários marxistas viam a família como uma organização que mudava com o passar do tempo. As famílias dos tempos das cavernas eram diferentes das famílias que viviam sob o feudalismo, que eram diferentes das famílias do capitalismo», afirma. Os bolcheviques acreditam que as condições do socialismo possibilitariam o desaparecimento da família como ela existe no capitalismo. «O que não significa que as pessoas deixariam de se amar, de se relacionar umas com as outras e de se relacionar com seus filhos. Mas a família baseada na dependência financeira e na coacção desapareceria.»

Na década de 1920, as mulheres soviéticas começaram a ocupar mais e mais postos de trabalho nas indústrias e creches e os restaurantes estatais se encarregavam das tarefas antes consideradas domésticas. As novas condições materiais somadas à facilidade para se casar e se divorciar e o acesso ao aborto permitiram o surgimento de novos arranjos familiares, baseados no amor livre, e não na dependência económica.

No entanto, «a experiência de liberdade foi muito dolorosa para as mulheres», afirma Goldman. A facilidade para divorciar levou muitos homens soviéticos a terem relacionamentos breves com mulheres, engravidá-las e abandoná-las. A irresponsabilidade masculina tornou as mulheres mais conservadoras. Elas passaram a exigir o fortalecimento da família e que os homens fossem obrigados a pagar pensão alimentícia, já que o Estado soviético não tinha recursos para cuidar de todos os filhos do amor livre.

Em 1936, o governo de Josef Estaline decretou um conjunto de leis cujo objectivo era valorizar a família, dificultar o divórcio e proibir o aborto. A proibição, que só vigorou até 1955, não resultou na diminuição do número de abortos. «Em 1938, o número de abortos era tão alto quanto em 1935, quando ainda era legal», afirma Goldman.

11/07/2018

O ateísmo e a superstição


Há dois erros semelhantes e opostos em que podemos cair a respeito dos demónios. Um é não acreditar na sua existência. O outro é acreditar, e ter um interesse excessivo e doentio por eles. Os próprios demónios ficam igualmente agradados com ambos os erros, e saúdam o materialista ou o bruxo com a mesma satisfação.

C. S. Lewis in «Cartas de um Diabo ao seu Aprendiz».

03/07/2018

Democracia e Tirania


– Vamos lá! De que maneira, meu caro companheiro, se origina a tirania? Pois é quase evidente que provém de uma alteração da democracia.
– É evidente.
– Acaso não é mais ou menos do mesmo modo que a democracia se forma a partir da oligarquia, que a tirania surge da democracia?
– Como?
– O bem que propunham, e pelo qual se estabelecia a oligarquia, era a riqueza. Ou não?
– Era.
– Ora foi a cobiça da riqueza e a negligência do resto, para conseguir dinheiro, que a deitou a perder.
– É verdade.
– Porventura não é a ambição daquilo que a democracia assinala como o bem supremo a causa da sua dissolução?
– Quem bem é esse que dizes?
– A liberdade. É o que ouvirás proclamar num Estado democrático como sendo a coisa mais bela que possui, e que, por isso, quem é livre de nascimento só nesse deve morar.
– Realmente ouve-se muito amiúde essa palavra.
– Ora pois, como eu ia dizendo há pouco, a ambição desse bem e a negligência do resto é que faz mudar esta forma de governo e abre caminho à tirania.
– Como?
– Quando, ao que me parece, num Estado democrático, com sede de liberdade, se deparam maus escanções no governo e quando se embriaga com esse vinho sem mistura para além do que convém, então põe-se a castigar os chefes, a não ser que sejam extremamente dóceis e lhe proporcionem grande liberdade, acusando-os de miseráveis e oligarcas.
– É isso que fazem, realmente.
– Aqueles que são submissos aos magistrados, insultam-nos como homens servis que de nada valem; ao passo que louvam e honram em particular e em público os governantes que parecem governados, e os governados que parecem governantes. Pois acaso não é forçoso que, num Estado destes, o espírito de liberdade chegue a tudo?
– Como não havia de sê-lo?
– E que se infiltre, meu amigo, nas casas particulares e que a anarquia acabe por grassar até entre os animais?
– Como havemos de dizer tal?
– É que o pai habitua-se a ser tanto como o filho e a temer os filhos, e o filho a ser tanto como o pai, e a não ter respeito nem receio dos pais, a fim de ser livre; o meteco equipara-se ao cidadão, e o cidadão ao meteco, e do mesmo modo o estrangeiro.
– É assim que acontece.
– Ainda há estes pequenos inconvenientes: num Estado assim, o professor teme e lisonjeia os discípulos, e estes têm os mestres em pouca conta; outro tanto se passa com os preceptores. No conjunto, os jovens imitam os mais velhos, e competem com eles em palavras e acções; ao passo que os anciãos condescendem com os novos, enchem-se de vivacidade e espírito, a imitar os jovens, a fim de não parecerem aborrecidos e autoritários.
– Exactamente.
– Mas o extremo excesso de liberdade, meu amigo, que aparece num Estado desses, é quando homens e mulheres comprados não são em nada menos livres do que os compradores. Mas por pouco me esquecia de dizer até que ponto vai a igualdade e liberdade nas relações das mulheres com os homens e destes com aquelas.
– Então vamos, como Ésquilo, "dizer o que nos acudiu agora mesmo aos lábios"?
– Absolutamente. Eu por mim vou falar dessa maneira. Efectivamente até que ponto os animais submetidos ao homem são mais livres aqui do que em qualquer outro sítio, é coisa que ninguém acreditaria sem o experimentar. É que as cadelas, conforme o provérbio, são como as donas e também os cavalos e burros andam pelas ruas, acostumados a uma liberdade completa e altiva, embatendo sempre contra quem vier em sentido contrário, a menos que saiam do caminho; e tudo o mais é assim repleto de liberdade.
– É o meu sonho que estás a contar. Pois é isso mesmo o que eu experimento com frequência, quando vou a caminho do campo. O resultado de todos estes males acumulados, bem compreendes como dá em tornar a alma dos cidadãos tão melindrosa que, se alguém lhes impõe um mínimo de submissão, se agastam e não o suportam; acabam por não se importar nada com leis escritas ou não-escritas, como sabes, a fim de que de modo algum tenham quem seja senhor deles.
– Sei, e muito bem.
– Ora aqui está, portanto, amigo, o belo e soberbo começo de onde nasce a tirania, tal como me parece.

Platão in «Politeia», século IV a.C.

29/06/2018

A Colónia do Sacramento


Por ordem de el-Rei D. Pedro II, a 1 de Janeiro de 1680 foi fundada por D. Manuel Lobo a Colónia do Santíssimo Sacramento, no estuário do Rio da Prata, a cidade mais antiga do Uruguai.

Contudo, sete meses depois de ter sido fundada, a Colónia do Sacramento foi sitiada e ocupada pelos Espanhóis, que só a devolveram em 1683.


Em 1706 foi novamente capturada por Espanha, que a restituiu em 1715, em virtude do Tratado de Paz de Utrecht, assinado por D. João V e por D. Filipe V de Espanha.

Excerto do Tratado de Utrecht:

Sua Majestade Católica não somente restituirá o Território e Colónia do Sacramento, sita na margem setentrional do Rio da Prata, a sua Majestade Portuguesa; mas cederá assim em seu nome, como de todos os seus Descendentes, Sucessores e Herdeiros de toda a Acção e Direito, que pretendia ter ao dito Território e Colónia, fazendo a Desistência pelos termos mais fortes e mais autênticos, e com todas as Cláusulas que se requerem, como se elas aqui fossem declaradas, para que o dito Território e Colónia fiquem compreendidos nos Domínios da Coroa de Portugal, e pertencendo a sua Majestade Portuguesa, seus Descendentes, Sucessores e Herdeiros como parte dos seus Estados, com todos os direitos de Soberania, Poder absoluto e inteiro Domínio, sem que sua Majestade Católica, seus Descendentes, Sucessores e Herdeiros intentem jamais perturbar a dita posse a sua Majestade Portuguesa, seus Descendentes, Sucessores e Herdeiros: E em virtude desta Sessão ficará sem efeito ou vigor o Tratado Provisional, que se celebrou entre as duas Coroas aos sete dias do mês de Maio de mil e seiscentos e oitenta e um; mas sua Majestade Portuguesa se obriga a não consentir que alguma Nação da Europa, que não seja a Portuguesa, se possa estabelecer ou comerciar na dita Colónia directa nem indirectamente, por qualquer pretexto que for, e muito menos dar mão e ajuda a qualquer Nação Estrangeira, para que possa introduzir Comércio algum nos domínios que pertencem à Coroa de Espanha, o que também está proibido aos mesmos Vassalos de sua Majestade Portuguesa.


Apesar do Tratado de Paz de Utrecht, o território foi novamente atacado por Espanha e a Colónia do Sacramento esteve cercada entre 1735 e 1737.

Em 1750 é assinado o Tratado de Madrid, no qual Portugal cede o território à Espanha. Mas o tratado nunca chega a cumprir efeito e acaba anulado por vontade de ambos os Reinos.

A Colónia do Sacramento foi mais uma vez assaltada pelos Espanhóis em 1763, sendo devolvida nesse mesmo ano.

Em 1777 o território é novamente ocupado por Espanha. E o Tratado de Santo Ildefonso, do mesmo ano, assegura a ocupação espanhola.

A cidade só voltou à posse de Portugal a 20 de Janeiro de 1817, com a reconquista da Cisplatina, empreendida por D. João VI.

Mas com a independência do Brasil em 1822, a Colónia do Santíssimo Sacramento ficou definitivamente desvinculada de Portugal.

26/06/2018

Não se pode servir a dois senhores


Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou há-de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.

Evangelho segundo São Mateus VI, 24

25/06/2018

Verdade e Realismo


A verdade consiste no acordo do pensamento com a realidade. E por isso, na sua obra A Metafísica, Aristóteles identifica a verdade com o ser e a falsidade com o não-ser. Com efeito, escreve: «Uma coisa tem tanto de ser como de verdade». E acrescenta: «Ser e não-ser são, no sentido mais estrito, verdade e falsidade». Significa isto que é o ser e o não-ser que determinam a verdade e a falsidade dos juízos de existência e não-existência. E exemplifica: «Não é pelo facto de pensarmos com verdade que és branco, que tu és branco, mas é porque tu és branco que, ao afirmá-lo, dizemos a verdade».

Em oposição a isto, temos o Subjectivismo.

20/06/2018

Portugal: um exemplo sem igual


Em todas as regiões do mundo por onde passei, sempre que via uma ponte perguntava quem a construíra e sempre me respondiam: os portugueses. Diante de uma estrada e ao fazer semelhante pergunta, a resposta era idêntica: os portugueses. E quando se tratava de uma igreja ou de uma fortaleza, sempre a mesma resposta: os portugueses, os portugueses, os portugueses.
O meu desejo seria que, se Marrocos se tornasse algum dia esquimó ou chinês, os nossos sucessores lá encontrassem tantas reminiscências francesas como portuguesas nós temos achado.

Marechal Hubert Lyautey, General-Residente de França em Marrocos (1912-1925).

11/06/2018

O intendente Pina Manique


Diogo Inácio de Pina Manique (1733-1805). Era formado em Leis pela Universidade de Coimbra, tendo demonstrado sempre muito zelo no desempenho de elevados cargos e delicadas missões. Ganhou por isso a confiança do Marquês de Pombal, que o encarregou de variados serviços. Criou os serviços aduaneiros e fez o censo da população portuguesa em 1776. Após a queda do Marquês de Pombal (1777), foi nomeado Intendente-Geral da Polícia, cargo que acumulou com outros de grande importância, podendo dizer-se ter sido uma das figuras políticas de maior relevo durante a «Viradeira», no reinado de D. Maria I. Desenvolveu dura repressão contra as ideias liberais, criando um corpo de polícia especial para combater a espionagem e a literatura revolucionária, o que obrigou ao exílio de alguns intelectuais e artistas. Em Lisboa, mandou construir o Teatro de São Carlos e instalar a iluminação pública. Fundou a Casa Pia, que começou a funcionar em 1781, no Castelo de São Jorge, como recolhimento de pobres mendigos. Foi demitido em 1803 pelo regente D. João, por pressão diplomática de Napoleão Bonaparte. Faleceu dois anos depois.

Fonte: «Focus: Enciclopédia Internacional», Volume III, 1965/1970.

08/06/2018

Portugal e o Sagrado Coração de Jesus


Apesar de desatendida em França desde 1689, a Providência não desistia do Seu propósito de valer ao mundo e às nações pela aceitação oficial do reinado de Amor do SS. Coração de Jesus. E, sem novas mensagens, sem conhecimento mesmo, ao que parece, da mensagem [de S. Margarida Maria Alacoque] a Luís XIV, surge na Igreja, setenta anos mais tarde, uma nobilíssima Rainha a cumprir à letra, por inspiração da sua terníssima piedade, quase tudo o que o Divino Coração tinha pedido e o Eterno Pai queria. Foi a Senhora D. Maria I, Rainha de Portugal.
Os portugueses do seu tempo proclamaram-na «Mãe da Pátria» e deram-lhe o cognome de «Piedosa» porque à sua piedade e ao seu compassivo coração de Mãe deveram o termo de indizíveis sofrimentos e horrorosas crueldades de vinte anos do reinado precedente, assim como a restauração da concórdia, da confiança e da paz com que o Reino voltou a ser a «Casa de Família» de todos os portugueses.
Mas o seu glorioso título à gratidão nacional está no que a nossa excelsa Rainha fez pela exaltação da realeza do SS. Coração de Jesus, atraindo com isso para Portugal singulares bênçãos de predilecção do Senhor, e alcançando para si e para a sua Pátria um lugar de altíssimo destaque na História da Igreja, com admiração e simpatia das outras nações católicas.
Vejamos, por agora só em resumo, o que foi a obra da Senhora D. Maria I, deixando para os números seguintes de O Monumento a descrição pormenorizada de tão formosos sucessos.
1.º Em 1777, ano em que subiu ao trono, alcança do Papa Pio VI, Ofício e Missa do Coração de Jesus, com rito duplex maior. É a 1ª vez que em Portugal se reza e se faz a festa do Divino Coração. No Patriarcado foi dia santo de guarda decretado em Pastoral de 22 de Maio do mesmo ano. A festa ao Sagrado Coração só depois de 1856 foi decretada para toda a Igreja.
2.º Em 5 de Agosto de 1778, a instâncias da Rainha, Pio VI dá o maior relevo à festa do Coração de Jesus, concedendo novo Ofício e Missa, elevando-a ao rito de 1ª classe, decretando que seja dia santo de guarda e tenha vigília com jejum em Portugal e seus domínios, isto é, nas cinco partes do mundo. Nenhuma nação pedira isto ainda, e assim se fez em Portugal até à reforma do Direito Canónico em 1918.
3.º Em Fevereiro de 1778 começaram as obras de construção do Convento, e em Outubro de 1779, as da Basílica do SS. Coração de Jesus, na Estrela, em Lisboa, para cumprimento do voto feito pela Rainha em 1760 se tivesse sucessor para o trono. E em 15 de Novembro de 1789, precisamente um século depois da mensagem a Luís XIV e no mesmo ano em que a Revolução Francesa começava a fazer aluir os alicerces do trono e da própria França, era sagrada solenissimamente e aberta ao culto com participação activa de toda a Casa Real, da côrte, do exército e do povo, a nova Basílica, a primeira que em todo o mundo foi erguida e consagrada ao Divino Coração.
4.º A Rainha, em Junho de 1789 e como preparação para a consagração da Basílica, restaurou e arvorou em Cavalaria do Divino Rei, as três Ordens Militares, de Cristo, S. Bento de Avis e S. Tiago da Espada, ordenando que os grã-cruzes e comendadores tivessem nas suas insígnias o Coração de Jesus; que, estando em Lisboa, assistissem todos os anos com a Família Real, à festa do Sagrado Coração naquela Basílica e que o dia da festa fosse de gala nacional. E assim se cumpriu fielmente quase até à queda da monarquia em 1910 este preito da vassalagem de Portugal representado pelo seu Rei, família real, governo, exército, todo o elemento oficial da nação.
Também nisto, Portugal foi sem exemplo.

Simão de Xavier in jornal «O Monumento», 1 de Dezembro de 1938.

06/06/2018

Do fim para que somos criados


O homem é criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus nosso Senhor e, mediante isso, salvar a sua alma; e as outras coisas sobre a face da Terra são criadas para o homem, para que o ajudem na prossecução do fim para que é criado. Donde se segue que o homem tanto há-de usar delas quanto o ajudem para o seu fim, e tanto deve afastar-se delas quanto para isso o impedem. Pelo que é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre-arbítrio, e não lhe está proibido; de tal maneira que não queiramos da nossa parte mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida curta, e consequentemente em tudo o mais; mas somente desejando e elegendo o que mais nos conduz ao fim para que somos criados.

Santo Inácio de Loyola in «Exercícios Espirituais», 1548.

04/06/2018

Maurras, mentor do Patriotismo português?


A verdade, que eu pretendo fazer ressaltar destas páginas, e das que lhes hão-de seguir, é que o nosso nacionalismo [patriotismo] não precisa socorrer-se dos mestres franceses da Contra-Revolução, porquanto, graças a Deus, os tem em casa, muito seus, os quais nada devem aos estranhos, como facilmente poderá averiguá-lo quem queira dar-se a esse trabalho, antes de fulminar o nosso apostolado, com críticas, talvez muito espirituosas, mas sem nenhuma consistência.
No século passado, ainda a Action Française estava na massa dos impossíveis, já nós possuíamos os nossos doutrinadores da Contra-Revolução, em cujos escritos de modo algum se reflectia a influência dos contra-revolucionários franceses dessa época, alguns dos quais surgiram até posteriormente, e revelando-se, nas suas obras, de uma forma incompleta, o que não sucedia aos nossos Gamas e Macedos, que eram declarada e integralmente reaccionários.
Nós podemo-nos orgulhar de ter mestres, e dos melhores, como nos temos esforçado por demonstrar em mais de doze anos de bom combate, e os quais só aguardam ser conhecidos e meditados, para que a sua superioridade se imponha a quantos de boa-fé queiram formar a sua cultura nacionalista [patriótica]. «Nós temos tudo feito», como ainda há tempos me dizia o Sr. Dr. Hipólito Raposo, ao percorrermos em comum algumas páginas da Dissertação a Favor da Monarquia.
De resto, o que certos pedagogos se obstinam em recusar ao Pensamento nacionalista [patriótico] português, não o recusam a estranhos. O próprio Charles Maurras, que esses críticos de escada abaixo têm querido arvorar em nosso mentor, é o primeiro a reconhecer a base tradicional do nosso doutrinarismo, como tive ensejo de o verificar, quando um dia me recebeu no seu gabinete da Action Française, e lhe dei a ler alguns passos de O Novo Príncipe do doutor José da Gama e Castro, um dos quais Maurras classificou de «luminoso», acrescentando, ao inquirir da sua data, que aquilo se escrevera quando ele ainda nem era nascido.

Fernando Campos in «A Genealogia do Pensamento Nacionalista», 1931.

§

Nota: Admite-se aqui o uso da palavra "nacionalismo" no sentido impróprio do termo, como sinónimo de "patriotismo". Pois como é sabido, o Nacionalismo é uma concepção napoleónica que nasceu do dogma liberal da independência – independência do Povo (Nação) face ao seu Soberano. O que só demonstra que os autores do século XX ficaram muito aquém dos mestres do século XIX.

31/05/2018

A Santa Comunhão


O que é a Comunhão?
É a recepção do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo sob as espécies sacramentais do pão e do vinho. A palavra comunhão quer dizer união com, união de Jesus Cristo e da alma que a recebe. E, com efeito, não há união mais íntima, já que comemos a Carne e bebemos o Sangue de Jesus. Nosso Senhor instituiu a Comunhão quando instituiu o sacrifício da Missa, dizendo: «Tomai, isto é o Meu Corpo; bebei, este é o Meu Sangue».

Três espécies de Comunhão: a sacrílega, a tíbia, e a fervorosa
1. A comunhão sacrílega. A própria palavra faz horror. Comungar em estado de pecado mortal, receber o Deus de toda a santidade e pureza numa alma cheia de lama do pecado, encerrar num mesmo coração a Deus e a Satanás, enfim, como diz São Paulo, calcar aos pés o Corpo e Sangue de Jesus. Que profanação! Que crime! Mas também que castigos! Muitas vezes doenças terríveis, morte desgraçada, condenação eterna. «Quem comunga indignamente, come e bebe a sua própria condenação», diz o mesmo Apóstolo. Se outrora tivéssemos tido a infelicidade de fazer comunhões sacrílegas, não obstante a enormidade do pecado, deveríamos ter a confiança na misericórdia de Jesus. Após uma sincera confissão, procuremos reparar com comunhões fervorosas as comunhões indignas do passado.
2. A comunhão tíbia. É a comunhão feita por rotina, sem fruto, sem preparação nem acção de graças que valham. Há pessoas que comungam quase todos os dias e não se emendam dos seus defeitos, nem fazem progresso na virtude. De manhã, na mesa da comunhão; à noite, no espectáculo, no baile; de manhã, recolhidas; todo o resto do dia dissipadas; de manhã, derretidas em devoção; de tarde, de mau humor; de manhã, na igreja em oração; o dia inteiro, em maledicência, disputas, leituras frívolas, exibição de vaidade. Cuidado! São Paulo compara estas almas com a terra que frequentemente recebe a chuva do céu e nada produz, senão espinhos e abrolhos. Neste caso será melhor afastar-se da mesa da comunhão? Não! Seria imitar o homem que está fraco e não se alimenta. O que se deve fazer é, por meio da mortificação e da oração, sacudir fora essa frieza e continuar a comungar.
3. A comunhão fervorosa. É a comunhão feita com boa vontade, com proveito, precedida de uma séria preparação e seguida de uma fervorosa acção de graças.

Pe. Guilherme Vaessen in «O Pequeno Missionário», 1953.

28/05/2018

Viva o 28 de Maio! Abaixo a República!


Ora nós quisemos dar ao País, assolado pelas devastações da sua anarquia, um regime novo; mas muitos dos nossos homens públicos, educados na filosofia política do século XIX, têm-nos considerado sempre um governo à espera de eleições «livres» para uma «assembleia constituinte» que vote «nova Constituição» e com ela garanta ao povo «todas as felicidades». De modo que se verifica o seguinte: abolidas neste País as instituições tradicionais, não se encontra de 1820 a 1926, através das Constituições, Carta Constitucional e Actos Adicionais à Carta, entre revoluções, golpes de Estado, ditaduras ou vida constitucional, não se encontra regime, dizia, de que possa afirmar-se ter vivido ao menos os quarenta anos que para o ano perfaremos. Ao mesmo tempo, nenhum foi tão estável, tão pacífico e eficiente como o actual. E daí provir o absurdo de o provisório ser mais duradouro que o definitivo e o temporário mais estável que o consagrado para a eternidade.

António de Oliveira Salazar in discurso de 18 de Fevereiro de 1965.