20/02/2020

Centenário da morte da Pastorinha Jacinta


A Jacinta tomou tanto a peito os sacrifícios pela conversão dos pecadores, que não deixava escapar ocasião alguma. Havia umas crianças, filhos de duas famílias da Moita [Redonda], que andavam pelas portas a pedir. Encontrámo-las, um dia, quando íamos com o nosso rebanho. A Jacinta, ao vê-los, disse-nos:
– Damos a nossa merenda àqueles pobrezinhos, pela conversão dos pecadores?
E correu a levar-lha. Pela tarde, disse-me que tinha fome. Havia ali algumas azinheiras e carvalhos. A bolota estava ainda bastante verde, no entanto disse-lhe que podíamos comer dela. O Francisco subiu a uma azinheira para encher os bolsos, mas a Jacinta lembrou-se que podíamos comer da dos carvalhos, para fazer o sacrifício de comer a amarga. E lá saboreámos, aquela tarde, aquele delicioso manjar! A Jacinta tomou este por um dos seus sacrifícios habituais. Colhia as bolotas dos carvalhos ou a azeitona das oliveiras.
Disse-lhe um dia:
– Jacinta, não comas isso, que amarga muito.
– Pois é por amargar que o como, para converter os pecadores.
Não foram só estes os nossos jejuns. Combinámos, sempre que encontrássemos os tais pobrezinhos, dar-lhes a nossa merenda; e as pobres crianças, contentes com a nossa esmola, procuravam encontrar-nos e esperavam-nos pelo caminho. Logo que os víamos, a Jacinta corria e levar-lhes todo o nosso sustento desse dia, com tanta satisfação, como se não lhe fizesse falta. Era, então, o nosso sustento, nesses dias: pinhões, raízes de campainhas (é uma florzinha amarela que tem na raiz uma bolinha do tamanho de uma azeitona), amoras, cogumelos e umas coisas que colhíamos na raiz dos pinheiros, que não me lembro agora como se chamam; ou fruta, se a havia perto, em alguma propriedade pertencente a nossos pais.
A Jacinta parecia insaciável na prática do sacrifício. Um dia, um vizinho ofereceu a minha mãe uma boa pastagem para o nosso rebanho; mas era bastante longe e estávamos no pino do Verão. Minha mãe aceitou o oferecimento feito com tanta generosidade e mandou-me para lá. Como havia perto uma lagoa, onde o rebanho podia ir beber, disse-me que era melhor passarmos lá a sesta, à sombra das árvores. Pelo caminho, encontrámos os nossos queridos pobrezinhos e a Jacinta correu a levar-lhes a esmola. O dia estava lindo, mas o sol era ardente; e naquela pregueira árida e seca, parecia querer abrasar tudo. A sede fazia-se sentir e não havia pinga d'água para beber! A princípio, oferecíamos o sacrifício com generosidade, pela conversão dos pecadores; mas, passada a hora do meio-dia, não se resistia.
Propus, então, aos meus companheiros, ir a um lugar, que ficava cerca, pedir uma pouca de água. Aceitaram a proposta e lá fui bater à porta de uma velhinha que, ao dar-me uma infusa com água, me deu também um bocadinho de pão que aceitei com reconhecimento e corri a distribuir com os meus companheiros. Em seguida, dei a infusa ao Francisco e disse-lhe que bebesse.
– Não quero beber – respondeu.
– Por quê?
– Quero sofrer pela conversão dos pecadores.
– Bebe tu, Jacinta!
– Também quero oferecer o sacrifício pelos pecadores!
Deitei, então, a água numa cova de uma pedra, para que a bebessem as ovelhas e fui levar a infusa à sua dona. O calor tornava-se cada vez mais intenso. As cigarras e os grilos juntavam o seu cantar ao das rãs da lagoa vizinha e faziam uma grita insuportável.
A Jacinta, debilitada pela fraqueza e pela sede, disse-me, com aquela simplicidade que lhe era habitual:
– Diz aos grilos e às rãs que se calem! Dói-me tanto a minha cabeça!
Então, o Francisco perguntou-lhe:
– Não queres sofrer isto pelos pecadores?!
A pobre criança, apertando a cabeça entre as mãozinhas, respondeu:
– Sim, quero. Deixa-as cantar.

Irmã Lúcia in «Memórias da Irmã Lúcia», 1976.

18/02/2020

18 de Fevereiro: São Teotónio


Foi S. Teotónio o primeiro Prior do Real Convento de Santa Cruz [de Coimbra], varão de preclaras virtudes e esclarecidos milagres. De moço se criou em casa de Crescónio, Bispo da mesma cidade, tio seu, debaixo de cuja disciplina aprendeu as sagradas letras, nas quais em breve se tornou consumado. Confessor e privado do Rei D. Afonso Henriques, tinha sobre este Monarca enorme ascendente. Morreu com oitenta anos de idade, em 1162, e foi canonizado no ano seguinte.

Fonte: «Missal Romano Quotidiano», 1963.

15/02/2020

Juramento de Hipócrates


Texto original de Hipócrates, chamado Pai da Medicina, século V a.C.:

Juro por Apolo Médico, por Esculápio, por Higia, por Panaceia, e por todos os Deuses e Deusas, que acato este juramento, e que o procurarei cumprir com todas as minhas forças físicas e intelectuais.
Honrarei o professor que me ensinar esta arte como os meus próprios pais; partilharei com ele os alimentos e auxiliá-lo-ei nas suas carências.
Estimarei os filhos dele como irmãos e, se quiserem aprender esta arte, ensiná-la-ei sem contrato ou remuneração.
A partir de regras, lições e outros processos, ensinarei o conhecimento global da medicina, tanto aos meus filhos e aos daquele que me ensinar; como aos alunos abrangidos por contrato e por juramento médico, mas a mais ninguém.
A vida que professar será para benefício dos doentes e para o meu próprio bem, nunca para prejuízo deles ou com malévolos propósitos.
Mesmo instado, não darei droga mortífera nem a aconselharei; também não darei pessário abortivo às mulheres.
Guardarei castidade e santidade na minha vida e na minha profissão.
Operarei os que sofrem de cálculos, mas só em condições especiais; porém, permitirei que esta operação seja feita pelos praticantes nos cadáveres.
Em todas as casas em que entrar; fá-lo-ei apenas para benefício dos doentes, evitando todo o mal voluntário e a corrupção, especialmente a sedução das mulheres, dos homens, das crianças e dos servos.
Sobre aquilo que vir, ou ouvir, respeitante à vida dos doentes, no exercício da minha profissão ou fora dela, e que não convenha que seja divulgado, guardarei silêncio como um segredo religioso.
Se eu respeitar este juramento e não o violar; serei digno de gozar de reputação entre os homens em todos os tempos; se o transgredir, ou violar, que me aconteça o contrário.

Esta tradução, fiel ao original grego, foi jurada durante séculos pelos médicos, desde a Antiguidade até 1948, ano em que foi pela primeira vez "actualizada" pela Associação Médica Mundial. Seguiram-se outras modificações, em 1968, em 1983, e em 2017.

13/02/2020

13 de Fevereiro: Cinco Chagas de Cristo


O culto das Cinco Chagas remonta ao Milagre de Ourique, no qual Nosso Senhor apareceu a D. Afonso Henriques antes da batalha contra Cinco Reis Mouros, edificando sobre o Príncipe português um Reino para a Cristandade, e oferecendo as Suas Chagas como estandarte. Por este acontecimento, Portugal é inegavelmente de fundação divina.

No século XVIII, o Papa Bento XIV, que concedeu ao Rei de Portugal o título de Sua Majestade Fidelíssima, deu igualmente a festa particular das Cinco Chagas de Cristo, fixada a 13 de Fevereiro.

D. Afonso Henriques, Venerável da Santa Igreja, nunca chegou a ser beatificado por força da mesma oposição feita ao Beato Nuno Álvares Pereira.

11/02/2020

No aniversário do Tratado de Latrão


A obra de Mussolini em todos os domínios da vida colectiva italiana é vastíssima e profunda.
Dir-se-ia que Mussolini, empunhando arado gigantesco, lavrara de lés-a-lés a Campina romana, abrindo sulcos fundos como abismos, e largos como oceanos.
Não sei se erro. Mas penso que maior que a conquista da Etiópia e a secagem dos pântanos; maior do que os Códigos e a legislação dos trabalhadores; maior do que as reformas universitárias e as escavações – maior do que tudo o que deslumbra e fascina os olhos das massas, ou que contenta e satisfaz os corpos das turbas, maior do que tudo isso é a resolução da Questão Romana, espinho cravado no coração da Igreja e no coração da Itália.
Qualquer que seja a opinião que se tenha sobre a forma dessa resolução, ninguém pode negar que foi uma resolução que veio ao encontro de todo o mundo católico.
Os Acordos de Latrão são a pedra mais fulgida de toda a sua obra de Duce da Itália.
Ainda que não tivesse feito mais nada, nos vinte e um anos da sua vida política, os Acordos de Latrão seriam motivo bastante para que o seu nome ficasse para sempre esculpido na história da Igreja e da Itália.
Pois, como hei-de dizê-lo?
Quem ouve os homens de hoje, os que sobreviveram à derrota da Europa e à vitória das Democracias; quem, amanhã, daqui a anos ou a séculos, ler os homens de hoje, terá que ao formar juízos candentes como brasas, ou concluir esta coisa estupenda: Mussolini nunca existiu! Figura mais do que lendária, mais do que mitológica, porque as personagens da Lenda e da Mitologia ainda são descritas nos contos da carochinha ou nos poemas heróicos ou líricos da velha antiguidade; Mussolini porém não deixa rasto, não se menciona, e enterra-se a mil braças de profundidade, e some-se sob Himalaias de silêncio.
Desgraçadamente não exagero. Os factos são os factos, e contra eles não há considerações que valham.
O chamado Dissídio Romano é fenómeno complexo, ligado ao problema da legitimidade ou não legitimidade da existência do Estado temporal dos Papas. Abriu-o a Revolução Francesa. Enchem-no dezenas de incidentes, até que em 1870, com a ocupação de Roma pelas tropas italianas de Victor Manuel, e em 13 de Maio de 1871, com a votação da Lei das garantias, o governo italiano considerou, por sua parte, arrumada, morta, a questão.
O Papado tomou posição contrária, a adoptou o regime do non possumus. Não que pretendesse voltar ao passado. Mas exigia uma solução bilateral, e não aceitava a imposição de um Diktat.
Passam os tempos. Ao non possumus sucede o non expedit. E a certa altura, em 23 de Maio de 1887, Leão XIII manifesta claramente o seu desejo de ver a questão romana resolvida com justiça e dignidade. Mas o governo italiano, pela voz de Crispi, declarava que não lhe interessava o que se pensava no Vaticano, porque a Itália só reconhecia um chefe – o Rei.
E os anos passaram. O non expedit foi revogado (1919).
Em 21 de Junho de 1921, em Montecitorio, uma voz, a do deputado nacionalista Rocco, diz que não lhe parece impossível um acordo entre a Itália e o Vaticano.
Mas era necessário que «a nação italiana se pusesse de pé, e fossem dispersos os resíduos demo-maçónicos, que a Maçonaria fosse quebrada, e as forças católicas restauradas», para que o acordo encontrasse o seu momento próprio. Era indispensável ainda mais uma coisa. Era indispensável, para me servir da expressão eloquente do Pontífice Pio XI, que existisse «um homem como aquele que a Providência» pôs diante de si, «um homem sem as preocupações da escola liberal», para ele, Pontífice, poder «restituir Deus à Itália, e a Itália a Deus» (Alocução de 13 de Fevereiro de 1929).
Mas antes disso, Mussolini preparara o ambiente: cedera a biblioteca do Palácio Chigi à Biblioteca Vaticana; restituíra o convento de Assis, restaurara o culto de dezenas de igrejas; fizera voltar muitos conventos ao poder das ordens religiosas; reconhecera títulos pontifícios; restabelecera o ensino católico nas escolas primárias; reimplantara o crucifixo nas escolas, nas repartições públicas e no Parlamento; instituíra capelães militares, e a assistência católica na Juventude e na Mocidade... Et j'en passe... E finalmente, promovera a reforma da legislação eclesiástica vigente, com a colaboração de três prelados romanos.
Em 14 de Maio de 1926, o Ministro da Justiça podia aludir a «bases mais largas» de uma futura conversa entre o Vaticano e a Itália. Nesse mesmo dia, o Vaticano telefonava a Monsenhor Pucci, jornalista, para lhe pedir que lhe dissesse o significado das palavras do Ministro. No dia seguinte, o esclarecimento era dado: tratava-se de resolver a questão romana. E logo o Cardeal Gasparri avisa Monsenhor Pucci de que se é assim, que Mussolini encarregue alguém, por meio de carta, de se entender com o Vaticano, e este verá o que é possível fazer-se.
Não estou a escrever a história do grande acontecimento. Direi apenas que em 24 de Novembro de 1926 se fixava um ante-projecto assinado pelo jurisconsulto Barone, representante de Mussolini, e pelo advogado Pacelli, representante do Cardeal Gasparri.
Correram, vagarosas, as negociações e no maior dos segredos. Mas em 11 de Fevereiro de 1929, entre as onze da manhã e o meio-dia, no Palácio de Latrão, o Cardeal Gasparri e Mussolini assinavam três convenções que punham termo à Questão Romana.
Como é possível tentar-se arrancar isto da História? Como é possível pretender-se apagar isto da História? Como é possível defraudar-se a Verdade?
Dez anos depois, foi a guerra que as Democracias provocaram, procurando cercar, para as abafar, a Alemanha hitleriana e a Itália mussolínica.
Ao fim de cinco anos de luta, em que nem a Alemanha nem a Itália deram tudo quanto podiam dar, porque cedo começaram a sofrer as consequências da traição dos generais, na Alemanha, e da traição da Corte, na Itália, ao fim de cinco anos de luta, as Democracias venceram, morrendo Hitler sob os escombros da Chancelaria do Reich, morrendo Mussolini às mãos de agentes das Democracias.
Quatro anos depois, celebra-se em Roma, e no Vaticano, o vigésimo aniversário dos Acordos de Latrão.
Na manhã de 11 de Fevereiro de 1949, é recebido, no Vaticano, pelo Sumo Pontífice Pio XII, em audiência, «in Udienza solenne», o sr. De Gasperi, Presidente do Conselho da República italiana – liberal, democrática, maçónica e comunizante, que inscreveu na sua Constituição, por benevolência requintada dos comunistas, os Acordos de Latrão que tinham posto termo ao dissídio católico-italiano.
O sr. De Gasperi fez-se acompanhar de grande comitiva; e grande foi o cortejo que se formou, e atravessou os salões do Vaticano, até à Biblioteca particular de Sua Santidade em que o Presidente do Conselho italiano foi introduzido. A conversa entre o Chefe da Igreja e o Chefe do Governo durou mais de cinquenta minutos. Terminado o colóquio cordial, a comitiva do político italiano foi apresentada ao Pontífice. Este falou, então. E as suas palavras estão no Osservatore Romano. Disse o Santo Padre que a visita do Chefe do Governo italiano significava «um riconoscimento e una promessa». Reconhecimento da «grande obra de paz e conciliação que um Papa de largas vistas e de grande coração realizara com firmeza e coragem».
Permito-me observar duas coisas:
1.º - A obra de paz e conciliação de que em 11 de Fevereiro de 1949 se festejou o vigésimo aniversário foi uma obra unilateral, individual, ou foi obra bilateral, colectiva, de colaboração?
2.º - No primeiro caso, como se compreende que Pio XI não tivesse posto em execução o seu projecto de 24 de Novembro de 1926?
Na já citada Alocução de 13 de Fevereiro de 1929, o Papa Pio XI, depois de ter lembrado que, para resolver o grande dissídio, era preciso um Papa alpinista, para não temer as vertigens, e um Papa bibliotecário, para se documentar, acrescentou que devia dizer que «fora nobremente secundado também pela outra parte». Esta outra parte que colaborara nobremente na resolução do dissídio era precisamente aquele homem despido dos preconceitos da escola liberal que o ajudara a restituir Deus à Itália e a Itália a Deus, e se chamou, em vida, e se chamará na eternidade da História, Benito Mussolini.
Como é que o Papa Pio XII celebra, e com toda a justiça, o nome de um dos autores dos Pactos de Latrão, e não tem sombra de palavra piedosa, humana e caritativa, para o outro, o que foi ignobilmente massacrado em Dongo por aqueles que levaram ao Poder Sua Excelência De Gasperi, Chefe do Governo italiano, que Sua Santidade recebeu em audiência solene?
Sempre quis acreditar que o Papa, mesmo em matéria política, saberia manter-se superior a paixões mesquinhas, a injustiças arrepiantes, a tentações que degradam. Temeu, porventura, Sua Santidade, ofender os ouvidos castamente democráticos do sr. De Gasperi, e do seu aliado, o camarada Togliatti, e do seu cúmplice, o conde Sforza, pronunciando o nome do mártir do Dongo, que a Providência enviara a Pio XI, para que Deus voltasse à Itália, e a Itália voltasse a Deus? Receou, acaso, o Augusto Pontífice, irritar o herói democrático que caçou Mussolini e o executou cobardemente, miseravelmente?
Nem uma palavra, nem um pensamento! Nada. Mussolini nunca existiu! Os Acordos de Latrão foram única e exclusivamente obra de Pio XI. Ele os concebeu, ele os redigiu, ele os emendou, ele os promulgou, ele os impôs à Itália e à Catolicidade. Ele é o Pontífice de largas vistas e de coração magnânimo. Mussolini? Nunca existiu!
Nesse mesmo dia, em Roma, «nella chiesa di S. Ivo ala Sapienza», houve Missa Solene celebrada por Sua Eminência o Cardeal Pizzardo, para festejar o vigésimo aniversário da Conciliação.
Ao Evangelho, Sua Eminência falou aos assistentes, para lhes dizer que a Conciliação «é um dos maiores actos do grande Pontífice Pio XI que quis dar à sua queridíssima Pátria italiana a Paz de Cristo no Reino de Cristo». Para a alcançar, era necessária grande clareza de vistas e uma força de vontade verdadeiramente extraordinária. Ele conduziria «pessoalmente» as negociações, assumindo-lhes todas as responsabilidades. Não há nos Acordos de Latrão «uma linha, uma expressão, que não tenham sido objecto do seu estudo pessoal, da sua meditação, e principalmente das suas orações». Por fim, pediu aos presentes uma «oração pelo grande Pontífice, pelo Cardeal Gasparri, pelo advogado Pacelli, seus fiéis colaboradores».
Mussolini? Nunca existiu! E por isso nem um Padre-Nosso e uma Ave-Maria pelo descanso da sua alma! Mas quando Roosevelt, maçon, filho da heresia luterana, cheio de preconceitos da escola liberal, morreu de morte natural, a Igreja deu-lhe as honras de exéquias solenes na Notre-Dame de Paris – contra as prescrições formais do Código Canónico! Para o pobre Mussolini, nem um Padre-Nosso, Ave-Maria! É que sua Eminência o Cardeal Pizzardo nunca deu por ele, ao estudar a Conciliação!
No próprio dia 11 desse Fevereiro, o Osservatore Romano publicava extenso artigo sobre o acontecimento. Exposição histórica, na sua quase totalidade. Mas ao aproximar-se do fim, fala nos Acordos. Lembra o Pontífice Pio XI e... Francesco Pacelli.
Mussolini? Nunca existiu!
Mas em 15 de Março de 1929, o Sacro Colégio, indo felicitar o Santo Padre pela assinatura dos Acordos de Latrão, louvando as suas disposições tão generosas e tão santas, enaltecera também as «disposições da Providência que servindo-se da alta sabedoria do eminente Chefe do Governo italiano e das nobres intenções do Augusto Soberano da Itália», permitiram esses Acordos.
E o Santo Padre, em resposta, confessava que as suas disposições tinham sido bem escolhidas «pelo Augusto Soberano da Itália e pelo seu Primeiro-Ministro».
Então, Mussolini existia; Mussolini era gabado; Mussolini era lisonjeado. Então, Mussolini existia!
No primeiro telegrama expedido do Vaticano, depois de instituído o novo Estado, em 7 de Junho de 1929, dirigido a Victor Manuel, Pio XI não se esquecera de dizer que na bênção que lhe enviava, e à Rainha, à Família Real, à Itália e ao Mundo, envolvia o seu «Real Plenipotenziario».
Então, Mussolini existia...
Agora...
Dir-se-ia que se adoptou como mot d'ordre sagrado, aquilo de Togliati, ao aprovar que se inserissem na Constituição da Itália os Acordos de Latrão, quando preconizava a substituição da «assinatura infamante do Fascismo que está no final daqueles Acordos, pela assinatura da República italiana».
Dir-se-ia que se pretende obedecer a esse mot d'ordre sinistro, – talvez por valer mais Togliatti vivo, com os seus energúmenos, demagogos e bandidos, do que Mussolini morto, com a sua grandeza, o seu génio e a sua obra!
Não repugnou ao Osservatore Romano que se pudesse seguir a directriz de Togliatti – e por isso escreveu que a Conciliação de 1929 não fora «obra de um regime político, mas de um governo italiano – reconhecido como os que o precederam».
Os governos que o precederam? Eram, na opinião de Pio XI, «os governos sectários, ou submetidos, ou enfeudados, aos inimigos da Igreja, mesmo quando pessoalmente não eram talvez seus inimigos» (Alocução de 11 de Fevereiro de 1929).
Dar-se-á o caso de que a ingratidão dos Papas seja maior do que a ingratidão dos Reis?
Pensava e dizia Crispi que «o maior homem de Estado da Itália seria aquele que resolvesse a Questão Romana».
Mussolini resolveu-a. E resolveu-a tão bem, que ninguém teve a coragem de tocar na sua solução; antes a enxertaram na Constituição da República.
Mas Togliatti propõe que se apague do instrumento diplomático em que essa solução está exarada, a «assinatura infamante» de Mussolini. E no Vaticano, faz-se-lhe a vontade; e, ao solenizar-se o vigésimo aniversário da resolução do grande dissídio, fala-se em toda a gente, mas condena-se ao mais profundo silêncio o nome de Mussolini.
É sacrilégio.
Estas minhas palavras, sendo de respeitoso protesto contra este silêncio, e de indignada revolta contra a injustiça e a falta de caridade, são também de enternecida homenagem ao grande e esclarecido espírito que, durante vinte anos, governou a Itália – «domando a anarquia; restabelecendo a ordem; fazendo respeitar a Monarquia; restaurando a Religião; desenvolvendo o poder militar, naval e aéreo; estimulando e amplificando a colonização; fomentando todas as actividades do País; transformando pântanos em cidades; descobrindo minas; indo ao encontro de todas as acções pessoais, de todas as obras intelectuais, morais, educativas; cuidando da Juventude», para me servir da síntese de um escritor francês, e, acrescento eu, merecendo o título justo de o maior homem de Estado da Itália, por ter resolvido a Questão Romana.

Alfredo Pimenta in prefácio a «Testamento Político de Mussolini», 1949.

09/02/2020

Os danos do pecado


Ora, o primeiro dano trazido pelo pecado é a desordem mental, enquanto a mente se desvia do bem imutável, isto é, de Deus, e se converte para o pecado. O segundo dano é o homem ficar obrigado na restauração do pecado: como acima já foi demonstrado (cap. CXL), Deus, ordenador justíssimo, quer que para cada culpa se fique a dever uma pena. O terceiro dano é o enfraquecimento do bem natural, segundo o qual, tendo o homem pecado, torna-se inclinado para o pecado e lento para operar o bem.

São Tomás de Aquino in «Summa contra Gentiles», 1265.

08/02/2020

Portugueses: poucos quanto fortes


A vós, à geração de Luso, digo,
Que tão pequena parte sois no mundo;
Não digo inda no mundo, mas no amigo
Curral de Quem governa o Céu rotundo;
Vós, a quem não somente algum perigo
Estorva conquistar o povo imundo,
Mas nem cobiça ou pouca obediência
Da Madre que nos Céus está em essência:

Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,
Que o fraco poder vosso não pesais;
Vós, que, à custa de vossas várias mortes,
A Lei da vida eterna dilatais:
Assim do Céu deitadas são as sortes
Que vós, por muito pouco que sejais,
Muito façais na santa Cristandade,
Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!

Luís Vaz de Camões in «Os Lusíadas», 1572.

06/02/2020

Propriedade e Capitalismo

Jacob Rothschild e David Rockefeller

Tenho perfeita consciência de que, no nosso tempo, a palavra "propriedade" foi contaminada pela corrupção dos grandes capitalistas. Ouvindo as pessoas a falar, um homem até pode julgar que os Rothschilds e os Rockefellers estão do lado da propriedade. Mas é óbvio que eles são inimigos da propriedade; porque eles são inimigos dos seus próprios limites. Eles não querem as terras que são deles; querem as terras que são dos outros. Quando eles afastam os marcos das extremas dos vizinhos, também afastam os deles. Um homem que aprecia um pequeno campo triangular, aprecia-o por ser triangular; uma pessoa que lhe destrua esta forma, dando-lhe mais terras, é um ladrão que lhe roubou o triângulo. Um homem que disponha da verdadeira poesia da posse, deseja ver o muro onde o seu jardim confina com o jardim do vizinho; este homem não vê a forma da sua terra, senão quando vê também os contornos da terra do vizinho. É a negação da propriedade que o Duque de Sutherland seja dono de todas as terras da região; tal como seria a negação do casamento se ele tivesse todas as esposas de um harém.

G. K. Chesterton in «Disparates do Mundo», 1910.

04/02/2020

4 de Fevereiro: São João de Brito


S. João de Brito nasceu em Lisboa, a 1 de Março de 1647. Professo na Companhia de Jesus, pediu instantemente a Missão do Maduré [Índia], onde trabalhou com tal ardor, que mereceu o cognome de «Xavier Português». Vindo às mãos dos infiéis, sofreu o martírio em Urgur, a 4 de Fevereiro de 1693, e foi canonizado por Pio XII em 22 de Junho de 1947.

Fonte: «Missal Romano Quotidiano», 1963.

30/01/2020

O Rei e a Lei


Quando entramos bem no conhecimento da Filosofia da História, só pelos seus testemunhos e pela observação dos factos em suas páginas consignados, conhecemos que o Governo mais perfeito, e por isso mesmo o mais duradouro e consistente, é o Governo de um só, isto é, de um Rei não electivo, mas hereditário; e quanto mais se conservar uma Dinastia, mais segura se conservará a felicidade de uma Nação. As Leis, que a constituem, fogem da condição das coisas do Mundo, a quem a sua longa duração faz caducar: estas Leis, quanto mais remota é a Época da sua origem, mais seguras se tornam em sua existência.

Pe. José Agostinho de Macedo in «A Besta Esfolada», Nº 23, 1829.

25/01/2020

Democracia Cristã


A Democracia Cristã acredita no sufrágio universal que Pio IX chamava de «mentira universal», acredita que os incapazes de governar têm competência para escolher os que hão-de governar; a Democracia Cristã acredita na separação dos poderes que coloca o Estado numa situação absurda tirando-lhe toda e qualquer unidade de acção, a ele que deve ser o centro dirigente da vida nacional; a Democracia Cristã é republicana, desejando, pois, que o poder dependa do arbítrio da multidão ignara; a Democracia Cristã defende a existência dos partidos políticos, factores de dissolução nacional, que transformam os países em autênticos campos de guerra civil, guerra civil de que só vêm a aproveitar os arrivistas, os videirinhos de toda a espécie.
A Democracia Cristã tenta encarnar no nosso século os princípios da Revolução satânica que, pela voz de alguns dos seus corifeus, já ousa afirmar ser de raiz católica, embora desviada e transformada, tenta encarnar os princípios da destruição e da morte.
Partido dos tímidos e dos resignados, ao serviço de uma ideologia mortífera, envolvida em ténues véus de conservantismo e de moderação, é bem um resíduo vetusto do estúpido século destinado a desaparecer, quando renascerem «para ventura dos povos e tranquilidade do mundo» os princípios eternos da vitoriosa Contra-Revolução.

António José de Brito in «A Nação», nº 24, 3 de Agosto de 1946.

Nota de A.J.B. – Sempre que empregamos a expressão Democracia Cristã, não queremos de forma alguma referir-nos ao sentido que Leão XIII, por exemplo, lhe atribuía. Com efeito, o Pontífice ensinava que «seria injusto que o termo de Democracia Cristã fosse desvirtuado para um sentido político... só se deve empregá-lo tirando-lhe todo o sentido político e não lhe ligando outra significação a não ser uma acção beneficente e cristã para com o povo» (Encíclica Graves de communi). Ora nós, evidentemente, queremos apenas fazer menção aos partidos políticos que tomam tal designação.

23/01/2020

Hitler e Jesse Owens


Rezam as crónicas que, nos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936, Adolf Hitler, furioso com o facto de o lendário atleta americano Jesse Owens, um negro, ter ganho a medalha de ouro nos 100 metros, abandonou a tribuna de honra sem lhe apertar a mão, ou sem sequer o saudar. Mas afinal, as crónicas estavam erradas. Propositadamente erradas. Siegfried Mischner, um veterano jornalista desportivo alemão de 83 anos, disse há dias que não só Hitler apertou a mão a Owens, como este andou durante muito tempo na carteira com uma fotografia que documentava o momento, e que o próprio campeão americano lhe chegou a mostrar.
Segundo o diário inglês Daily Mail, Mischner revelou que a foto de Hitler a cumprimentar Owens foi tirada por trás da tribuna de honra. "Mas eu vi tudo, vi Owens apertar a mão de Hitler." O jornalista acrescentou que outros colegas estavam com ele nessa altura, mas "ninguém queria dar uma boa imagem do monstro Hitler", por isso o acontecimento foi omitido. "A opinião predominante na Alemanha do pós-guerra era de que Hitler tinha ignorado Owens ostensivamente. E o consenso foi de que era preciso continuar a mostrar Hitler sob uma luz negativa em relação a Owens. Mas agora todos os meus colegas já morreram, Owens já morreu. Pensei que esta seria a última oportunidade para corrigir os registos. Não tenho a menor ideia onde estará a fotografia, ou se ainda existe sequer", esclareceu ainda Siegfried Mischner.
É sabido que Jesse Owens nunca viu com bons olhos o facto de a imprensa sempre ter insistido que Hitler não o tinha saudado após a sua memorável vitória nos 100 metros, e a conquista da sua primeira de quatro medalhas de ouro nas Olimpíadas de Berlim, nesse distante dia 3 de Agosto de 1936. Ainda segundo Mischner, Owens sempre "insistiu que não tinha sido ignorado por Hitler, mas sem fazer referência a tê-lo encontrado e a terem apertado as mãos. Provavelmente fizeram-no engolir o mito, tal como a nós". E para a posteridade, em vez da verdade límpida, vingou o mito odioso.
Ironicamente, Jesse Owens nem sequer foi cumprimentado pelos seus feitos olímpicos pelo presidente dos EUA, o muito liberal Roosevelt, que nem se dignou convidá-lo para a Casa Branca. "Não foi Hitler que me ignorou – quem o fez foi Franklin Delano Roosevelt. O presidente nem sequer me mandou um telegrama", disse mais tarde Owens a Jeremy Schaap, autor do livro Triumph, sobre os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936. E Harry Truman, sucessor de Roosevelt, não fez nada para corrigir a omissão deste.
Jesse Owens teve direito a uma parada de vitória em Nova Iorque, mas, devido às leis de segregação racial então vigentes nos EUA, foi impedido de ir no elevador dos hóspedes à recepção dada em sua honra no Hotel Waldord-Astoria. E teve que apanhar o elevador dos fornecedores para estar no cocktail em que era celebrado. Os berlinenses nunca o esqueceram, e em 1984 foi inaugurada a Rua Jesse Owens, perto do Estádio Olímpico de Berlim. Muitos anos antes de qualquer homenagem semelhante nos EUA.

Fonte: «Diário de Notícias», 29 de Agosto de 2009.

20/01/2020

O homem estético


Quem é o homem estético, é o libertino ou farrista, de que fala Aristóteles? Esse claro que sim; mas acima dele há outros em escala ascendente: são todos os que centram a sua vida sobre algo exterior, que são eles mesmos livremente abraçados com a sua personalidade essencial. São todos os que dizem «há que gozar a vida» ou «eu quero viver a minha vida». Centrar a vida na boa saúde, um; centrar a vida no poder ou nas honras, dois; centrar a vida na arte ou na poesia, três; centrar a vida no talento, quatro; tudo coisas externas. Mas há outro estético pior: aquele que se desencantou com todas as coisas terrenas e não foi para as eternas.

Pe. Leonardo Castellani in «De Kierkegaard a Tomás de Aquino», 1973.

19/01/2020

19 de Janeiro: São Gonçalo de Amarante


De nobre família, S. Gonçalo nasceu em Tagilde, perto de Guimarães, e foi educado no mosteiro beneditino de Pombeiro, onde floresceu na prática das virtudes e da piedade cristã. É sem fundamento que se afirma ter professado na Ordem beneditina, ou na dominicana, sendo certo apenas que, de regresso de uma peregrinação a Roma e à Terra Santa, tomou assento nas ribas do Tâmega e aí fez vida eremítica. Notável em santidade, morreu em meados do século XIII, e foi beatificado por Pio IV, a instâncias de D. Sebastião.

Fonte: «Missal Romano Quotidiano», 1963.


17/01/2020

Próprio dos Santos de Portugal


8 de Dezembro – Imaculada Conceição da Santíssima Virgem.
16 de Janeiro – Santos Berardo, Pedro, Acúrsio, Adjuto e Otão.
19 de Janeiro – São Gonçalo de Amarante.
4 de Fevereiro – São João de Brito.
13 de Fevereiro – As cinco Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.
18 de Fevereiro – São Teotónio.
12 de Maio – Beata Joana, Princesa de Portugal.
10 de Junho – Santo Anjo Custódio de Portugal.
13 de Junho – Santo António de Lisboa.
20 de Junho – Beatas Sancha, Mafalda e Teresa.
15 de Julho – Beatos Inácio de Azevedo e Companheiros.
16 de Julho – Nossa Senhora do Carmo.
27 de Outubro – Beato Gonçalo de Lagos.
6 de Novembro – Beato Nuno de Santa Maria.

Fonte: «Missal Romano Quotidiano», 1963.

16/01/2020

16 de Janeiro: Santos Mártires de Marrocos


Os Santos Mártires de Marrocos, Berardo, Pedro, Acúrsio, Adjuto e Otão eram franciscanos, e foram mandados a pregar em África pelo próprio S. Francisco de Assis. Detidos pelos mouros, e conduzidos à presença do Miramolim, este, em ódio à fé de Cristo, por suas próprias mãos lhes deu a morte. Depois de andarem por muito tempo errantes, os corpos dos Santos Mártires foram depositados no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde ainda hoje se conservam com sumo respeito e veneração.

Fonte: «Missal Romano Quotidiano», 1963.