19/02/2018

Da natureza da freguesia


FREGUESIA
DIREITO. Portugal. Agregado de famílias que, dentro do território municipal, desenvolve uma acção comum por intermédio de órgãos próprios. A freguesia é uma pessoa moral de direito público. Há freguesias urbanas e freguesias rurais. Os órgãos da administração paroquial são as famílias, representadas pelos seus chefes, e a junta de freguesia. Em cada freguesia há um regedor, que representa a autoridade municipal e depende directamente do presidente da câmara. São atribuições paroquiais a organização e revisão anual dos recenseamentos dos chefes de família e dos pobres e indigentes, e a administração dos cemitérios existentes fora da sede do concelho. Tem particular importância, nas atribuições paroquiais, a administração dos bens comuns – como baldios e águas públicas.
RELIGIÃO. Ou paróquia. Segundo o direito canónico, é cada uma das partes em que se divide o território de uma diocese e que possui uma igreja própria, com povo determinado, tendo à frente um pastor (pároco, cura, abade) devidamente comissionado (cânone 216).

Adaptado de «Focus: Enciclopédia Internacional», Volume II, 1965/1970.

16/02/2018

Conde D. Henrique


Destes Henrique, dizem que segundo
Filho de um Rei da Hungria experimentado
Portugal houve em sorte, que no mundo
Então não era ilustre nem prezado;
E, para mais sinal de amor profundo,
Quis o Rei Castelhano que casado
Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
E com ela das terras tomou posse.

Este, depois que contra os descendentes
Da escrava Agar, vitórias grandes teve,
Ganhando muitas terras adjacentes.
Fazendo o que a seu forte peito deve,
Em prémio destes feitos excelentes
Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
Um filho, que ilustrasse o nome ufano
Do belicoso Reino Lusitano.

Luís de Camões in «Os Lusíadas».

§

14/02/2018

Começa a Quaresma


Tende piedade de mim, ó Deus, pela Vossa misericórdia! Pela Vossa imensa piedade, apagai a minha iniquidade!
Lavai-me todo da minha culpa e limpai-me do meu pecado.
Eu reconheço a minha iniquidade e tenho sempre à vista o meu pecado!
Foi só contra Vós que eu pequei e fiz o mal que está à Vossa vista!
Por isso sois justo na Vossa sentença e recto no Vosso juízo.
Aqui estou eu nascido na culpa, e a quem minha mãe concebeu no pecado!
Aí estais Vós, que Vos agradais de um coração sincero, e que no meu íntimo me ensinais a sabedoria!
Aspergi-me com o hissope e ficarei limpo; lavai-me e ficarei mais branco do que a neve!
Fazei-me ouvir uma palavra de alegria e gozo, e que exultem estes ossos por Vós triturados!
Desviai o Vosso olhar dos meus pecados e apagai todas as minhas culpas.
Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei renascer em mim um espírito decidido.
Não me queirais repelir da Vossa face e não me retireis o Vosso santo Espírito.
Dai-me a alegria de por Vós ser salvo e consolidai-me com um espírito generoso!
Hei-de ensinar aos maus os Vossos caminhos, e os pecadores hão-de voltar-se para Vós!
Deus, ó Deus, meu Salvador, livrai-me dos castigos sanguinários e que a minha língua exulte com a Vossa justiça!
Vós, Senhor, descerrareis os meus lábios e a minha boca publicará os Vossos louvores!
Porque não é só no sacrifício que Vós Vos comprazeis; e o holocausto não o aceitaríeis, se eu Vo-lo oferecesse.
O meu sacrifício, ó Deus, é um espírito contrito; e Vós não desprezais, ó Deus, o coração contrito e humilhado!
Pela Vossa bondade, Senhor, sede propício para com Sião, reconstruindo os muros de Jerusalém.
Então aceitareis os sacrifícios legais, as oblações e os holocaustos; então serão oferecidos novilhos sobre o Vosso altar!

Salmo 50

10/02/2018

O Punhal dos Corcundas Nº 20 (III)

(continuação da Parte II)


Texto

O primeiro que teve a desgraça de ser Inquisidor Geral foi um irmão de El-Rei, foi o Cardeal Henrique.

Censura e comentário

Mente e comete um erro de palmatória... E são estes os que profundavam as matérias e levavam o recadinho estudado!!! O primeiro Inquisidor-geral foi D. Fr. Diogo da Silva, Bispo de Septa ou Ceuta, o confessor d'El-Rei, como se vê na bula de instituição, que vem na pág. 713 do tomo 2º das Provas da História Genealógica, e só passado bons três anos é que entrou para Inquisidor-geral o Cardeal Infante D. Henrique, por ter passado para Arcebispo de Braga o primeiro Inquisidor-mor, que assim lhe chamavam nesse tempo.

Texto

Era lícito a toda a pessoa, por mais perversa que fosse, ser denunciante ou acusador, e as acusações eram recebidas apesar da incoerência das testemunhas.

Censura e comentário

Já notei que o último Regimento do Tribunal é cheio de circunspecção e cautelas a este propósito, e como tal merece os forçados elogios da própria sabedoria do século. Não tenho à mão a celebérrima narrativa da perseguição, ou o quer que é, do Irmão Hipólito José da Costa, onde se lêem por inteiro os dois últimos Regimentos; só me foi possível examinar o que foi dado pelo Inquisidor-geral D. Pedro de Castilho, o que é tanto melhor para o meu intento, por ser o tachado na própria sessão de Código horrível, Código de sangue, etc. No capítulo 9º fol. 8 v. lemo o seguinte: "Por uma só testemunha se não procederá a prisão ordinariamente, salvo quando parecer aos Inquisidores que é caso para isso, e a testemunha é de crédito, e que fala verdade...". Já no capítulo 3º fol. 8 se tinha advertido que não se procedesse fogosa e precipitadamente; e no capítulo 5º se recomendava o seguinte: "Assim mesmo se olhará muito a qualidade do caso e da pessoa, e os Inquisidores farão diligência sobre o crédito que devem dar às testemunhas, antes que procedam à prisão, como em negócio de tanta importância se quer, e o mesmo farão em todas as mais testemunhas que perguntarem", etc.
Ora este Regimento foi impresso em 1613, e já nesse tempo era fácil destruir as objecções do homem do carro.

Texto

Jazia o preso num espaço menor que aquele onde se põem os mortos. (Aqui entraram de chusma as polés, cavaletes, ferros em brasa, etc., etc., etc.)

Censura e comentário

Já o apanhei onde o queria ver, para o zurzir à minha vontade. As prisões do Santo Ofício eram mais escuras que apertadas, e se havia lá segredos, calabouços e prisões subterrâneas, imitava nessa parte o que ainda não reprovaram os Tribunais civis quando se trata de crimes de traição ou lesa-Majestade humana... prisões mais estreitas que o jazigo dos mortos, ah! que bem cabiam neste rasgo de eloquência Cicerónica essas lágrimas de pura sensibilidade, com que outro ainda mais conspícuo arengador devia molhar daí a poucos minutos o sagrado recinto!!! Eu não tive a curiosidade de ver os cárceres do Santo Ofício de Coimbra, antes me escandalizei muito de que várias pessoas, e nomeadamente alguns Sacerdotes seculares e regulares, acudissem a uma revista ou exame, que era um dos principais triunfos da Pedreirada; mas sei de pessoas que examinaram os cárceres sem prevenção, e que os não viram pelo microscópio da libertinagem e da impiedade, que eles nem ao longe se parecem com o termo de comparação, que lhes assinou o valente orador que vou refutando... No que toca aos horrorosos tratos de polés e cavaletes, etc., etc., serei um pouco mais extenso... A moderação, e quase extinção de tortura, deveu-se em tempos mais antigos à em tudo benfazeja influência do Cristianismo, e o que se tem escrito de melhor neste assunto foi roubado das obras de Santo Agostinhos, sem que até agora tenham confessado a obrigação em que está o Género humano ao eruditíssimo autor dos livros imortais De Civitate Dei. Apesar disto, ficou pertencendo esta glória ao Marquês de Beccaria, apregoado em todos os cantos da Europa, e levado até às nuvens por ter feito acabar esses opróbrios da humanidade... Deu-me agora na vontade referir certas anedotas sobre o livro e o carácter do tal Marquês, para vermos a coerência com que procedem em tudo os Filósofos modernos...
Depois da condenação do réu Calas, que deu tamanho brado na França e na Europa, lembraram-se os Enciclopedistas que era uma boa ocasião de assoalhar alguns princípios que ainda se ensinavam às ocultas, e para este fim escreveram a um Frade Barnabita de Milão, que era Matemático e sócio da irmandade, pedindo-lhe que fizesse disparar a artilharia grossa Italiana sobre o rigor das penas, e sobre a tolerância, que em bom Português quer dizer guerra ao Trono, guerra ao Altar, e que os irmão de Paris teriam cuidado de sustentar o crédito da Obrinha, e fazê-la voar até aos últimos confins da terra... A carta era de Mr. Condorcet (Que herói!!!), e foi lida perante os sócios da Assembleia denominada do Café... id est. Loja – Fortaleza, Loja – Regeneração, ou como outras da mesma farinha. Todos encolheram os ombros, e ninguém aceitava a comissão filosófica, que estava em perigo de falhar, quando um Filósofo medíocre, o Marquês de Beccaria, com grande pasmo do auditório, que o reconhecia por incapaz de tamanha empresa, disse que a aceitava. Compôs o livro dos Delitos e penas, mandou-o à Confraria Parisiense, onde era esperado com ânsia... porém Mr. de Alembert enojou-se tanto de o ler, que o não pôde levar ao fim. Assentou-se que convinha refundi-lo e ataviá-lo à francesa, e foi o Abade Morellet quem se encarregou do novo trabalho, que apenas saiu a lume, foi comentado por Voltaire, premiado extraordinariamente pela Academia de Berne, chamado o Suplemento do Espírito das Leis, e a quinta-essência da Jurisprudência criminal, quando o melhor que ele contém foi apanhado da Utopia de Tomás Moro, e do próprio Montesquieu, que já fizera a mesma colheita nas obras de João Bodin. Disse pois o que basta e sobeja quanto ao livro; pintarei uma palavra no tocante ao Autor. Adoeceu-lhe a Marquesa sua mulher em Turano, nas terras do Conde Calderari, amigo do Marquês, que lhe mandou para a verem o Doutor Moscati, e o Médico D. Félix Mainoni, os quais, ao passarem no vale Marignano, foram investidos e saqueados por três salteadores, cujo capitão se chamava Sartorello... Requereram os tais Doutores ao Marquês uma indemnização desta perda, e conseguintemente o Marquês pôs toda a diligência para serem presos os criminosos, e com efeitos o capitão Sartorello caiu nas mãos da justiça, mas negava tudo a pé junto, e as testemunhas não estavam certas das feições dos salteadores, o que punha os Juízes em grande hesitação, sem atinarem o modo de satisfazerem o Marquês... Foi ele próprio que sugeriu o expediente para os desenredar daquela perplexidade. E qual seria? Nada menos que a tortura!!! O que é tanto mais para estranhar, quanto é certo que na Lombardia só em casos extraordinários a infligiam!! Segue-se pois de duas uma, ou Mr. Beccaria, Professor de direito humano, obrou mal quando impugnava a tortura, ou fez ainda pior quando a inculcou aos Juízes no sobredito caso. Enfim nada é tão ordinário nesta casta de gente, como vermos um Frederico II curando nos seus soldados a mania do suicídio pela assistência às leituras do Evangelho, um Voltaire tirando cartas de excomunhão do Cura da sua freguesia para empecer a destruição das árvores da sua mata de Ferney, e um Dufriche-Valazé (se bem me lembro) votando de morte na causa de Luís XVI, depois de ter defendido nas suas obras que a pena de morte era um atentado contra os direitos do homem, etc., etc., etc. A Inquisição, tornando agora ao ponto essencial, há muito que não usava de polés, nem cavaletes, que só existiam mais para incutirem susto do que para se usarem; e um dos tais Preopinantes, que podia falar com sobejo conhecimento de causa, não duvidou afirmar que a Inquisição se tinha amoldado às opiniões do século, e já não era tão rigorosa como dantes: logo para que era temer sevícias já inteiramente desusadas, para que era aborrecer uma instituição que nas matérias penais caminhava a par das luzes do século? Responda.

(a continuar)

07/02/2018

A Igreja e a Juventude (I)


Mudança na Igreja pós-Conciliar em relação à juventude. Delicadeza da obra educativa.

Outros aspectos da realidade humana também são contemplados com visão distinta pela Igreja após o Concílio. Da nova consideração sobre a juventude, existia já um sinal indirecto na deminutio capitis infligida à ancianidade na Ingravescentem aetatem de Paulo VI. Mas outros documentos expressam directamente este novo ponto de vista.
A filosofia, a moral, a arte e o senso-comum, ab antiquo até ao nosso tempo, consideraram a juventude como uma idade de imperfeição natural e de imperfeição moral. Santo Agostinho, que no sermão Ad iuvenes escreve flos aetatis, periculum tentationis (P.L. 39, 1796), insistindo depois na imperfeição moral chega a chamar estultícia e loucura ao desejo de repuerascere.
Devido à debilidade da sua razão, ainda não consolidada, o jovem é cereus in vitium flecti (Horácio, Ars poet., 163) e a sua menoridade reclama um tutor, um conselheiro e um mestre. Com efeito, faz-lhe falta luz para dar-se conta do destino moral da vida, assim como uma ajuda prática para transformar-se e moldar as inclinações naturais da pessoa sobre a ordem racional. Esta ideia foi colocada como fundamento da pedagogia católica por todos os grandes educadores, desde São Bento de Núrsia a Santo Inácio de Loiola, de São José de Calasanz até São João Baptista de La Salle ou São João Bosco.
O jovem é um sujeito na posse de livre-arbítrio e deve ser formado para exercê-lo de maneira que, escolhendo o cumprimento do dever (a religião não dá à vida outro propósito), se determine a si mesmo escolher esse unum, para o qual precisamente nos é dada a liberdade. A delicadeza da acção educativa deriva de ter como objecto um ser que é um sujeito, e como fim a perfeição deste. Em suma, é uma acção sobre a liberdade humana, que não a limita, mas que a produz. Sob este aspecto, a acção educativa é uma imitação da causalidade divina, a qual, segundo a doutrina tomista, produz a acção livre do homem precisamente enquanto livre.
A conduta da Igreja face à juventude não pode, por conseguinte, prescindir da oposição entre os seguintes elementos correlativos: quem é imperfeito ante quem é perfeito (relativamente, entenda-se), e quem não sabe, e portanto aprende, ante quem sabe (relativamente, entenda-se). Não pode deixar-se de lado a diferença entre as coisas e tratar os jovens como maduros, aos proficientes como perfeitos, aos menores como maiores, e, em última análise, ao dependente como independente.

Características da juventude. Crítica da vida como alegria.

Também em relação à juventude, a profunda doutrina tomista da potência e do acto serve de guia ao estudioso das realidades humanas, sustentando-a na busca das características essenciais desta idade da vida, e preservando-a do desvio que a conduzem as opiniões hoje dominantes.
Sendo a juventude uma vida incipiente, é necessário que compreenda e lhe seja explicado o todo da vida, isto é: o fim no qual a virtualidade do incipiente deve realizar-se, e a forma na qual a potência deve desenvolver-se. A vida é difícil, ou se quiser, séria. Em primeiro lugar, porque o homem é uma natureza débil, em combate com a sua finitude no meio da finitude de outros homens e da finitude das coisas (que tendem a invadir-se mutuamente).
Em segundo lugar (e isto é um dado de fé católica), o homem está corrompido e tende ao mal. E a causa das más inclinações, a condição da vida humana, atraída por motivos opostos, é uma condição de milícia, ou melhor, de guerra, ou melhor ainda, de cerco.
A vida é difícil, e as coisas difíceis são as coisas interessantes, porque o interessante está situado na essência (inter-est), dada como potência e que quer sair e explicitar-se.
O homem não deve realizar-se (como se costuma dizer), mas sim realizar os valores para os quais foi criado e que exigem a sua transformação. E é curioso que apesar da teologia pós-conciliar utilizar a palavra metanóia, que quer dizer transformação da mente, dê tanta ênfase à realização de si mesmo. Seguir as inclinações é suave; castigar o próprio Eu para o moldar, é duro. Tal dureza foi reconhecida na filosofia, na poesia gnómica, na política, no mito. Todo o bem é adquirido ou conquistado com fadiga. Os deuses, disse o sábio grego, interpuseram o suor entre nós e a virtude, e afirma Horácio: multa tulit fecitque puer, sudavit et alsit (Ars poet. 413). Que a vida humana é combate e fadiga era um lugar-comum da educação antiga e a letra épsilon converteu-se no símbolo disso, não a de dois braços igualmente inclinados, mas a pitagórica com um braço recto e outro inclinado. A antiguidade formou sobre ela a divulgadíssima fábula de Hércules na encruzilhada.
Hoje apresenta-se a vida aos jovens de um modo não realista, como alegria, substituindo a alegria da esperança que serena o ânimo in via, pela alegria plena que o apaga somente in termino. Nega-se ou dissimula-se a dureza do viver humano, descrita em tempos como vale de lágrimas nas orações mais frequentes. E depois, com essa mudança, apresenta-se a felicidade como o estado próprio do homem, constituindo assim algo que lhe é devido, o ideal consiste em preparar aos jovens uma senda livre de todo o obstáculo e sofrimento (Purg., XXXIII, 42).
Por isso, aos jovens, parece uma injustiça qualquer obstáculo que lhes surge, e não consideram as barreiras como uma prova, mas como um escândalo. Os adultos abandonaram o exercício da autoridade para deste modo agradar-lhes, porque crêem que não podem ser amados se não se comportam com suavidade e não lhes concedem os seus caprichos. A eles é dirigida a admoestação do Profeta: Vae quae consuunt pulvillos sub omni cubito manus et faciunt cervicalia sub capite universae aetatis ad capiendas animas (Ez. 13, 18).

(a continuar)

Romano Amerio in «Iota Unum», 1985.

§

Tradução das expressões latinas mais relevantes:
Deminutio capitis – Diminuição de capital.
Ab antiquo – Da antiguidade.
Ad iuvenes – Aos jovens.
Flos aetatis, periculum tentationis – Flor da idade, perigosas tentações.
Repuerascere – Rejuvenescimento.
Cereus in vitium flecti – Cera inclinada pelo vício.
Inter est – Entre o ser.
Multa tulit fecitque puer, sudavit et alsit – Suportou e fez muito quando menino, suou e passou frio.
Vae quae consuunt pulvillos sub omni cubito manus et faciunt cervicalia sub capite universae aetatis ad capiendas animas – Ai daquelas que cosem almofadas para todos os cotovelos e fazem travesseiros para as cabeças de pessoas de todas as idades, a fim de lhes apanharem as almas!

05/02/2018

Assim começa a "Imitação de Cristo"...


Imitação de Cristo pelo desprezo às vaidades do mundo.

Quem Me segue não anda em trevas. São palavras com que Jesus Cristo nos exorta à imitação da Sua vida e dos Seus costumes, se quisermos ser verdadeiramente esclarecidos e livres de toda a cegueira do coração. O nosso empenho deve, portanto, consistir em meditar profundamente a vida de Nosso Senhor.

A Sua doutrina excede as de todos os santos. Quem dela tiver o espírito, nela achará um maná escondido. Por falta desse espírito é que muitos, ainda que ouvindo frequentemente o Evangelho, estão pouco inclinados para Ele. Quem quiser, entretanto, entendê-Lo com perfeição, procure conformar a sua vida à vida do seu Autor.

De que te serve debater altas coisas sobre a Trindade, se pela tua soberba desagradas a essa mesma Trindade? Não é o saber sublime que torna o homem santo e justo, mas uma vida inocente o faz agradável a Deus.
Antes quero ter a compunção do que saber defini-la. Se soubesses de cor toda a Bíblia e fosses versado nas doutrinas de todos os filósofos, de que te aproveitaria tudo isto, sem o amor e a graça de Deus? Tudo o que não é amar e servir a Deus é vaidade das vaidades. A suprema sabedoria consiste em caminhar para o Céu pelo desprezo do mundo.


É, pois, vaidade procurar riquezas caducas e nelas pôr a esperança. É vaidade pretender honras e altas posições. É vaidade seguir os apetites da carne e desejar aquilo que se deve contrariar e castigar. É vaidade desejar vida larga e tratar pouco de que seja boa. É vaidade atender somente a vida presente e não prever a futura. É vaidade amar o que passa com tanta ligeireza e não aspirar a uma felicidade que sempre dure.

Lembra-te amiúde do que diz o Eclesiastes: «O olho não se cansa de ver nem o ouvido de ouvir». Procura, pois, desprender o teu coração das coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis, porque os que se entregam à sensualidade mancham a consciência e perdem a graça de Deus.

Tomás de Kempis in «Imitação de Cristo».

03/02/2018

Plutocracia

A dívida mundial supera em mais de 3X a riqueza produzida no mundo.

Suponhamos que sou um banqueiro e que empresto 1000 dólares a John Smith, com a garantia da sua fábrica. A seguir, retiro uma parte dos meus outros empréstimos, diminuindo assim o poder de compra na região onde John Smith montou o seu negócio. Em consequência dessa contracção do poder de compra, de "procura", os preços baixarão e John Smith deixará de ganhar dinheiro. Como tem que pagar-me os juros do empréstimo que lhe fiz, começa por reduzir no pessoal e a instalar maquinaria que poupe mão-de-obra. Mas eu continuo a reduzir os meus empréstimos. Os preços continuam a baixar e, no final, John Smith fica sem recursos. Diz-me que não pode continuar a pagar os juros. Então, hipoteco-lhe a fábrica e ponho-a à venda. Faço-lhe uma oferta de 800 dólares, quantia que servirá para pagar o empréstimo que lhe fiz. Um pouco mais tarde começo a emprestar de novo, e os preços voltam a subir. A fábrica de John Smith tem agora muito valor, uma vez que voltou a aumentar – proporcionando poder de compra – a chamada "procura" do que ele fabricava. De maneira que vendo-lhe agora a fábrica por 5000 dólares, metendo ao bolso, "com toda a legalidade", 4000 dólares.

Arthur Nelson Field in «The Truth about the Slump», 1931.

30/01/2018

O Punhal dos Corcundas Nº 20 (II)

(continuação da Parte I)

Lugar do Paço da Inquisição, hoje Teatro D. Maria II

Enfim tanto dá a água na pedra, que chega a consumi-la e gastá-la de todo, e outro tanto sucedeu neste Reino afrancesado, onde corriam livremente as mais furiosas diatribes contra o S. Ofício; e por isso a doutrina de ser indispensável a extinção do Tribunal da Fé se vulgarizou de tal maneira, que todo o Português medianamente sábio teria pejo de sustentar a contraria por mais bem fundada que lhe parecesse, que a tanto chega o Despotismo Filosófico dos nossos dias! Acrescia o ressentimento de vários adeptos, que em melhores tempos figurariam como partes essenciais nos autos-de-fé, mas que por especial indulgência do S. Ofício foram apenas exortados e repreendidos, para que não tardasse mais outra solene verificação de que poupar tais inimigos é condenar-se a morrer-lhes nas mãos...
Exultaram os Pedreiros deste como ensaio de mais claros triunfos; e por isso em Coimbra manifestaram o seu gozo, acudindo às portas do Tribunal extinto, e deitando foguetes no meio de espantosos alaridos em tempo que já dormiam os habitantes da cidade, porque os tais heróis folgam muito destas manobras feitas às escuras. Seguiu-se a estrondosa revista dos cárceres, onde se via tudo o que podia exaltar a imaginação, e acender o justo rancor de todos os Portugueses, menos as vítimas, que faltaram absolutamente!!! Forjaram-se calúnias, inventaram-se formas exóticas de castigar os réus, e a própria cal vermelha das paredes interiores foi denunciada como sangue das vítimas! Arrombaram-se os cartórios (medida constitucional), furtaram-se muitos processos inteiros, e foi pena que nunca saíssem da mão de seus descobridores, que talvez por filantropia não quisessem tocar nos defeitos graves do S. Ofício, quando por outra parte lhos assacavam a seu bel-prazer... 
Ainda não contente a fúria dos liberais, decretou a solene demolição dos cárceres (parece que lhe adivinhava o coração o perigo iminente de serem ainda os seus povoadores) e para a execução desta providência foi necessário que se gastassem avultadas somas, e, o que é ainda mais próprio deste século de extravagâncias, a sala principal do S. Ofício de Évora destinou-se, valha a verdade, para local de sociedades maçónicas... Tanto mudam os homens e as coisas!!! Nada mais fácil que tapar de uma vez a boca aos inimigos do S. ofício. Muito embora não penetrem os indiferentistas modernos a justíssima causa desse impenetrável e misterioso segredo, que até certo ponto se guarda nos processos. Quando os negócios da Fé eram os que mais doíam aos Portugueses, não se estranhava coisa alguma destas, e os bons Católicos perdoavam de boamente ao S. Ofício que ele ocultasse muito do que só poderia irritar e escandalizar os fiéis. Depois que começou a grassar (até nas próprias classes que deviam sobressair em zelo e actividade para tudo que fosse promover a glória do Cristianismo) essa maldita indiferença para tudo que é sobrenatural e Divino, começaram também de estranhar-se os rigores do S. Ofício, que teve de abrandá-los, e conformar-se nesta parte às opiniões do século... O grito de usurpação dos direitos Episcopais é agora o mais indiscreto e menos atendível. Já mostrou a experiência que os Excelentíssimos Ordinários carecem da maior parte da força que acompanhava todos os procedimentos do S. Ofício. Saíram impressos nas cidades episcopais alguns escritos obscenos, e ímpios, e não vi que saíssem Pastorais a desviarem o rebanho dos pastos venenosos; o que deve cortar pela raiz o ciúme de alguns Bispos que se lastimavam dessa pretendida usurpação, que era mais um favor, e um auxílio poderoso, que sustentava o ministério Episcopal, do que um atentado contra os seus inauferíveis direitos, nem os filósofos do tempo adularam os Bispos, e trataram de lhes agravar a ferida, senão com o doloso intuito de enervarem o poder do S. Ofício, que era o único de que mais se temiam, e que mais obstava aos progressos da Maçonaria. Era tão poderosa a ascendência do Tribunal sobre os malfadados vingadores de Adonirão, que assim mesmo debilitado, enfraquecido, e posto numa certa nulidade, tinha ainda forças de sobejo para lhes estorvar as suas reuniões, e impedir que se metessem a recrutar impunemente, e que fazendo gala do sambenito (o verdadeiro ficava-lhes a morrer!) preparassem, e adereçassem as lojas dos seus paninhos envernizados, de suas mitras, esquadrias, e mais insígnias e utensílios de lata, etc., etc., etc.

Doces despojos
Tão bem logrados
Enquanto Deus,
Enquanto os fados
O consentiam!

Ainda bem que na invenção e descoberta da Farraparia maçónica leu toda a cidade de Coimbra duas verdades muito importantes, e da maior consequência para o futuro. 1.ª A existência dos Pedreiros Livres, que era impugnada por certos heróis, aos quais ou faltava o senso comum, ou sobejava a malícia para encobrirem deste modo os seus caríssimos irmãos. 2.ª A urgente necessidade da imediata restituição do Tribunal do S. Ofício, o único que pode fazer uma guerra bem-sucedida ao Maçonismo, que só vigiado de perto, contrariado em seus planos, e ameaçado de jazer, ou jazendo de facto nos cárceres do S. Ofício, é que poderá tomar juízo. Entrementes para que o tal Sr. Maçonismo, tão presunçoso como depravado, não cuide que só contei histórias e disse algumas chalaças, e que ele esgotou a matéria, e fez um papel brilhantíssimo no Salão das Necessidades, farei um par de observações sobre a estrepitosa Sessão em que foi abolido o Tribunal da Fé, e caminharei, depois senão a uma apologia formal, que não é agora do meu intento, pelo menos a um ensaio de apologia, que não será de todo inútil para as crianças que a lerem, e poderá consolar os bons Portugueses, para os quais já tarda muito a desejada restituição de um Tribunal, a quem devemos o ser Católicos; pois que seria de nós se as heresias de Lutero e Calvino tivessem penetrado e lavrado impunemente neste Reino!!

Erros, contradições, e sandices dos tresloucados e furibundos Preopinantes, quando fizeram abolir o Tribunal da Fé...

Se ao tempo em que eu via sair de Coimbra no meio de Verdeais e homens de vara um carro atulhado de estudantes, ou vadios, ou facciosos, ou amadores de novidades prejudiciais à ordem pública, me dissesse algum dos circunstantes que aplaudiam esta rigorosa, mas indispensável medida do Vice-Reitor José Monteiro da Rocha: "Aquele de horrenda catadura que vês estendido na carreta em ar meditabundo, propriedade de ciência que faz objecto de seus estudos; e assim com a fisionomia de cabeça de motim, ou chefe de seita... esse mesmo há de governar ainda os Portugueses, há de ser ouvido pelos maiores sábios da Nação como oráculo, e para te dizer de uma vez até onde chegará a sua poderosa influência, há de extinguir o Tribunal do Santo Ofício, e ninguém abrirá bico diante dele para o impugnar ou contradizer... eu pedia a quem tal me dissesse que ninguém mais o ouvisse, temendo que o remetessem de envolta com os heróis do carro, mas para outro destino, a saber, Casa de Orates... A que chegámos no tempo constitucional!! Tudo isso vimos, e o vimos calados e tranquilos!!! Não quero agora trabalhar os nossos Ixiões, a quem as nuvens pareceram Deusas... Apareça em Cena o novo Fayel ou Hamlet, o pavoroso Diário de Cortes nº 42, que nos regalou as entranhas com os debates ou rebates falsos da sessão de 26 de Março de 1821, e vejamos como ele fica depois da esfrega Histórico-crítica, que lhe tenho preparado.

Texto

Esta bula (a da instituição do Tribunal da Fé) foi recebida por agrado pelo Rei D. João III, sem saber que recebia com ela a infâmia e a desgraça deste Reino.

Censura e comentário

Bem sei, meu Português à força (vai o C plicado, se o quiseres sem ela, farás o que te parecer melhor) que essa famigerada bula não poderia nunca ser ouvida com agrado nos Congressos de Satanás, Belzebu, Astaroth, Asmodeu, e outros que tais... porém um Rei Católico e verdadeiro Pai dos seus vassalos (não tenhas medo a este papão), e verdadeiro Pai dos seus vassalos, muito bem inteirado do que sucedera em Lisboa no tempo de seu Augusto Pai, e de quanto era inflamável o zelo dos Portugueses em tudo o que respeitava à santa Religião dos seus maiores; e vendo-se por outra parte ameaçado das heresias de Lutero e Calvino, que só lhe traziam a perdição eterna de seus vassalos, assentou que era melhor obstar aos males em seu princípio, que ter de chorar dentro em poucos anos outra matança e destruição de seus filhos, muito acima da que se perpetrara em Lisboa debaixo de pretextos de Judaísmo... Por isso alcançou, apesar de grandes obstáculos que lhe foram suscitados na Cúria Romana, a bula da instituição do Tribunal, que Santo Ofício já o havia nestes Reinos, e os erros e heresias costumavam declarar-se aos Inquisidores gerais, que foram tirados das Ordens de S. Francisco e de S. Domingos. Soube El-Rei perfeitamente o que recebia, e soube que afastava dos seus Reinos, quanto nele era, a infâmia de ser suspeito de heresia, e a desgraça de correr após as novidades do século e de perecer eternamente... Ora tudo isto é de uma verdade inquestionável; mas era tal o predomínio das opiniões filosóficas neste Reino, que a erecção do Tribunal do Santo Ofício costumava ser um grande apuro em que se viam os Pregadores nas exéquias deste Soberano, que é de tarifa celebrarem-se anualmente pela Universidade de Coimbra... Não o foi para mim, que em 1819 tirei desse mesmo princípio a maior glória do Restaurador da Academia, e de bom grado quis passar por intolerante e fanático, ou por insecto asqueroso, e imundo resto do Tribunal de sangue, como depois me chamou certo escritor liberalíssimo.

(continuação, Parte III)

28/01/2018

O Punhal dos Corcundas Nº 20 (I)


O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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N.º 20

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Ostendam gentibus nuditatem tuam.

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EXTINÇÃO DO TRIBUNAL DO SANTO OFÍCIO.

Com que autoridade e com que bulas se decidiu nas Cortes Pseudo-Lusitanas que fosse abolido o Tribunal do S. Ofício? Por autoridade do Príncipe dos Mações ou Satanás, fielmente representado pelos seus Lugar-Tenentes, que dominavam o Congresso; e pelas bulas que assistiam a esse reformadores intrusos para levarem adiante quanto fosse impiedade e sacrilégio.
Um Tribunal instituído por autoridade Apostólica de acordo com o Império civil, como se vê da bula do S. Padre Paulo III expedida em 1536, debaixo dos auspícios e rogativas do Senhor D. João III, é deitado por terra sem que fosse ouvida a Sé Apostólica, nem o mui alto e mui poderoso Rei o Senhor D. João VI Rei de Portugal!!! Ora viva a Jurisprudência moderna, que ensinou e habilitou os Juízes leigos para fazerem impunemente destas maravilhas!! E querem que o mundo seja feliz enquanto houver tais abortos de maldade? Não, não... ele caminhará desenfreadamente ao último precipício; mas ai mil vezes, ai de quem se deixa perder neste labirinto de opiniões modernas, e tem por coisa indiferente provocar a ira de Deus! Não cuideis miseráveis Teólogos e misérrimos Canonistas, ainda tão contentes do melzinho que vos passou pelos beiços, não cuideis que estremeço, como vos sucede milhares de vezes, que me tenham por homem abusado, supersticioso, e ignorante, pois ainda no século 19 me abalanço a sustentar a causa desse Tribunal de sangue, que vós tachais de afronta e opróbrio da humanidade! Bem sei que o vosso predilecto Montesquieu, citado triunfalmente na Enciclopédia, chega a dizer que a maior prova alegável nos séculos futuros, para se defender que o século 18 ainda foi século de ignorância, é o existir em alguns Reinos da Europa o Tribunal do S. Ofício... mas que se me dá a mim deste sinalado precursor dos maiores ímpios que tem desonrado o Universo e a espécie humana? O grande espírito das leis bem pequeno se mostra em vários assuntos religiosos, e as Cartas Persanas estão bem longe de serem oráculos para quem tiver o juízo no seu lugar. A vossa enfiada de campanudos autores, desde o Protestante ou Remonstrante Limborch até ao moderno e trânsfuga Lorente, não me mete medo, nem eu o terei nunca a essas avantesmas literárias, que, tirado certo verniz que os abrilhanta, são bem pouco ou nada, e só tem valor no conceito de papalvos, que por terem cursado um aula elementar ou lido quatro regras de livros pequenos mui asseados e mui douradinhos, tem para si que ficaram arvorados em preceptores do género humano!! Chegámos a um tempo em que a verdadeira apologia do Tribunal do S. Ofício roda sobre um eixo firme e indestrutível, qual é o mais que Vatiniano ódio que lhe tem os Pedreiros Livres. É agora ocioso ir buscar no grande no incomparável S. Agostinho as provas da necessidade de se usar muitas vezes de coacção com os hereges, ou remeter os leitores para as muitas passagens das obras deste Santo Doutor e verdadeiro luminar da Igreja, que se a princípio foi sobremaneira estudioso do espírito de mansidão, veio depois a conhecer pela mais funesta experiência que também o medo repara grandes males, e grangeia muitos bens. Nós igualmente avisados pela experiência, conhecemos que a Seita Maçónica se encaminha por todas as artes e meios a lançar mão dos governos, para assim destruir mais comodamente a Igreja do Redentor, e que toda humana e filantrópica, só para se fazer benquista dos povos e adormecer os Soberanos, tem feito, quando lhe chega a ocasião, mais estragos num só dia do que fizeram os autos da Fé em duzentos anos. Tanta compaixão, tantas lágrimas pelo bem merecido suplício de um Judeu relapso, dogmatizante, e perturbador do sossego público, e tanta indiferença por esses centenares de Sacerdotes que foram septembrizados em 1792!! Se a França tivesse uma Inquisição vigilante, e cuidadosa de proibir maus livros, nunca se teria divulgado a Enciclopédia, e morreriam nas trevas ou no borrador de seus ímpios autores as blasfémias vomitadas no século 18 contra a santidade e verdade do Cristianismo. E que seria melhor, terem vinte Filósofos a sorte do Cavalheiro de la Barre, ou perecerem por sua causa bons três milhões de vítimas inocentes? É o espírito revolucionário quem perturba os Estados, quem alaga de ruínas e de sangue as cidades e os campos, e no meio de tudo isto merece perdão, e nunca deverá ser arguido de obstar aos progressos do entendimento, e à felicidade dos Impérios!! Os mais intolerantes de todos os sectários que bramem, espumam de raiva, apenas sonharam alguma espécie de resistência, e que levados de meras suspeitas, vexam, maltratam e desterram sem dizerem porquê, nem darem lugar à mais justa defesa... são estes, bom Deus, são estes os queixosos do mistério que se guarda nos processos do S. Ofício, e os que se atrevem a pintar com vivas cores o estado de violência, e de terror a que se chega facilmente, quando uma simples denúncia, uma suspeita fazem as vezes de prova suficiente para ser um homem inquietado e punido!! Lembra-me ao pensar nestas coisas que por ventura o século 19 estará incumbido da gloriosa missão de esgotar as incoerências todas, em que pode cair o espírito humano! Ora aqueles inimigos do Tribunal do S. Ofício partem sempre do que não sabem, nem se atreveram jamais a provar; e nós, seguindo melhor caminho, partimos de sucessos públicos e notórios; e só algum estúpido ou malvado é que não verá eclipsadas e sumidas de todo as antigas sevícias do Tribunal da Fé ante os males incomensuráveis que produziu e vai produzindo a escola de filantropia, a niveladora das condições e das fortunas, a restauradora do século de ouro, a Revolução Francesa.
Só teme a Inquisição quem é suspeito na Fé. Os bons, longe de a temerem, desejam ardentemente que ela se instaure e reassuma os seus direitos. Invejamos de presente a barbaridade dos nossos maiores, e sosseguem as nações estranhas a nosso respeito, escusam de lastimar a nossa ignorância e o nosso atrasamento, que nós teremos ainda mais razão para lastimarmos a sua deplorável cegueira, que só por efeitos dela é que os negócios da Fé se consideram os últimos, e se põem de parte quando é necessário atentar pelos interesses deste mundo. Antes queremos ser pobres, mas Católicos, do que senhores do universo, mas ímpios e libertinos. Se os estrangeiros clamarem, pondo as mãos na cabeça, que perpetrámos um crime de Lesa-Filosofia, nós lhe apontaremos um sem número de crimes de Lesa-Majestade Divina e humana. Honra-nos aquele crime, e os nossos incompetentes juízes deveriam assuntar-se destes últimos, porque cedo ou tarde hão-de ouvir a sentença de um juiz, que não dará quartel nem aos direitos públicos, nem aos sonhados interesses das Nações.
Antes que me chamem declamador, tocarei algumas espécies relativas à Inquisição deste Reino: sabemos quanto foi contrariada em seus princípios, e que a mais atroz calúnia forcejou desde então para a denegrir e aviltar. Sonharam que o embusteiro Sávedra, tomando as vestes, e a equipagem de um Legado a later, fingira Letras Apostólicas, e chegando à corte de Lisboa, conseguira estabelecer o Tribunal do S. Ofício, e abusar da conhecida piedade d'El-Rei D. João III. Tacharam de manhosos e cruéis os muitos perdões, que de autoridade Apostólica foram concedidos aos Judeus deste Reino; e para vermos com que espírito, e boa lógica procedem os adversários da Inquisição, basta dizer que Filipe Limborch no mesmo capítulo em que trata da Inquisição em Portugal, zomba daquelas graças como inúteis e prejudiciais à gente de Nação, e lá para o fim queixa-se de que não se renovassem mais vezes estes perdões, nem fossem atendidas as súplicas endereçadas à Cúria Romana pelos Judeus Portugueses nos fins do século dezassete. Ora aproveitam a condenação do Padre Vieira, que podia ser um grande homem, e abusar dos textos da Sagrada Escritura, seguindo nessa parte o depravado gosto daqueles tempos, e fazendo-se fortes com ela, pensam ter mostrado que o S. Ofício era um perseguidor tão injusto como aleivoso. Ora empregam a mesma condenação, graduando-a de espécie de oráculo para vexar, e atormentar os Jesuítas; e assim costumam inverter os factos para lhes servirem de apoio aos seus intentos e doutrinas. Choram aquele mau tempo dos Índices expurgatórios, que nos obstruía os canais de erudição, e da sabença, e quase nos fazia viver como Africanos selvagens no meio da Europa civilizada; e eu choro ainda mais, porque depois que se limparam e desentupiram esses canais, ainda vi partos literários dessa gente pedreira, que nos indemnizassem das lamentáveis ruínas causadas pela introdução das luzes neste Reino!! (*)

(continuação, Parte II)

(*) Não repito agora o que já disse numa carta que debaixo do nome de = Académico religioso = saiu impressa no número quarto da Mnemosine Lusitana de 4 de Janeiro de 1821, onde mostrei evidentemente que a história verdadeira de Cornélia Bororquia, ou a Vítima da Inquisição, era uma fábula que nesse tempo se assoalhou neste Reino, para dispor os ânimos a fim de que não se estranhasse a extinção do S. Ofício.

26/01/2018

Lutero: herói da Alemanha Comunista


Celebra-se neste ano de 1983 os 500 anos do nascimento de Lutero. Ele nasceu em 10 de Novembro de 1483 e a sua influência é ainda considerável no nosso tempo. Na Alemanha, o Lutherjahr une as duas partes da nação alemã [ocidental e oriental] na comemoração da vida e obra do monge herege que professou na Ordem dos Agostinhos. Filmes, livros, cerimónias oficiais e iniciativas de índole religiosa, chamam a atenção do povo germânico para os remotos tempos do século XV.
No Ocidente, o presidente Karl Carstens inaugurou no Verão uma exposição em Nuremberga e declarou sintomaticamente: «Lutero tornou-se um símbolo de unidade para toda a Alemanha. Nós somos todos herdeiros de Lutero». Bustos, medalhas, colóquios e debates, fazem parte do bric-à-brac, que também inclui uma participação católica...
Na Alemanha de Leste, depois de o terem injuriado como um serventuário dos príncipes e um traidor à causa revolucionária, a elite política entendeu que ele é, a quinhentos anos de distância, um herói. É justamente o chefe do Partido Comunista, o presidente Erich Honecker, que chefia o quadro de honra das comemorações oficiais e foi ele que se lhe referiu como «o iniciador de um grande movimento revolucionário», descrevendo a Bíblia de Lutero como «uma das maiores realizações culturais da nossa história».
O governo do Leste, em cujo território se encontram a maior parte dos locais em que Lutero se movimentou, teve o cuidado de restaurar, à custa de milhões de dólares, as instalações primitivas: Eisleben, onde ele nasceu e morreu, Erfurt, onde se preparou para o sacerdócio católico, Wartburg, onde traduziu o Novo Testamento e, evidentemente, Wittenberg, o berço do Protestantismo. O famoso Lutherjahr da RDA tem uma comissão oficial com 104 membros, 6 membros do Politburo e uma larga equipa de especialistas e burocratas do governo. Honecker e o seu aparelho estão apostados na recuperação do «herói» germânico, o que ajudaria a forjar um mito fundacional e a demonstrar a genuína realidade de uma verdadeira Alemanha no Leste, herdeira e admiradora das suas belas tradições históricas.
Paradoxalmente, este interesse objectivo por Lutero por parte do Leste alemão depara-se com um grande problema. É que Lutero ajudou e incitou os príncipes a liquidar os camponeses revoltosos, que apenas desejavam pôr em prática as teorias de Lutero... Mas o facto é que o interesse alemão é demasiado para se prender a estes pormenores. O Partido Comunista da República Democrática Alemã (RDA) preparou-se antecipadamente e, em 1981, declarou Lutero «precursor da Revolução» e «objectivamente progressista», e contra isto não há nada que objectar. Assim, fica arrumado o monge falaz na galeria honrada dos heróis germânicos, de leste e oeste, penhor de uma revolta contra o Papado, contra o Vaticano, contra a Doutrina Tradicional e, enfim, contra a herança velha de séculos que a Igreja tem à sua guarda.

Adaptado de revista «Futuro Presente», 1984.

23/01/2018

Salmo 42


Fazei-me justiça, ó Deus, e tomai a defesa da minha causa contra gente não santa; do homem iníquo e fraudulento livrai-me, Senhor.
Pois Vós, ó Deus, sois a minha fortaleza, por que então me haveis repelido? Por que ando eu assim triste, oprimido pelo inimigo?
Enviai-me a vossa luz e a vossa verdade; que me guiem e me conduzam até à vossa montanha santa, até à vossa morada.
E eu vou-me aproximar do altar de Deus, do Deus que é a alegria da minha juventude.
Eu Vos louvarei ao som da cítara, Senhor, meu Deus. E tu, minha alma, por que hás-de estar triste e por que alvoroçar-te dentro de mim?
Espera em Deus, que uma vez mais O quero enaltecer, a Ele, salvação minha e meu Deus.

§

Nota: Este salmo é rezado do início de cada Missa Tradicional, sendo apenas omitido nas missas de defuntos e no Tempo da Paixão.

17/01/2018

Informação


Atendendo a um desafio lançado em caixa de comentários, faço saber que o VERITATIS pelos anos de 2011 e 2012 teve a colaboração de um amigo, desde então é apenas e só operado por uma única pessoa: eu próprio, o Reaccionário. Este é o único blogue que possuo.

15/01/2018

A falsidade da soberania do povo


Na sua luta contra a Monarquia que era chamada de tirânica, a Democracia disfarçada em Monarquia Constitucional ou Liberal, transferiu para o povo a soberania do Rei. Assim se abatiam os tronos e se davam aos descontentes motivos de exaltação, estabelecendo entre os reis e os povos, uma oposição que na Monarquia não pode existir.
De elemento obediente, o povo tornou-se autoritário e os reis foram declarados empregados públicos ou mandatários da Nação. De todas as mentiras democráticas, nenhuma mais irrisória do que a da soberania do povo. Da soberania advém a faculdade de declarar o interesse nacional e o poder de o defender; mas o povo nunca atinge o grau de consciência e a unidade de pensar que o exercício da soberania exige. Os únicos soberanos são os chefes políticos, manobrando à sombra de maiorias inconscientes e irresponsáveis. Uma consulta ao sufrágio do povo pode exprimir o seu agrado a estes ou àqueles homens, a uma ou a outra medida, mas nunca o que mais lhe convém, porque não tem capacidade para conhecer do interesse nacional. Só o Rei, com o conselho dos Estados, pode decidir no sentido da maior utilidade colectiva [bem-comum].

Adaptado de «Cartilha Monárquica», 1916.

14/01/2018

Coincidências...


Vale a pena lembrar que em 2008, há precisamente 10 anos, António Costa e Rui Rio participaram no Clube Bilderberg. Na altura, ambos eram autarcas de Lisboa e Porto, respectivamente. Hoje, um é primeiro-ministro, e o outro é líder do maior partido da oposição...

O Clube Bilderberg foi fundado por Józef Hieronim Retinger, judeu sionista e maçon nascido em Cracóvia. Retinger foi também fundador do Movimento Europeu, que está na génese da actual União Europeia.

10/01/2018

O Marxismo e a Ciência


A interpretação marxista é não só estranha à ciência, como também incompatível com ela, como se tem verificado sempre que os materialistas dialécticos, saindo do puro verbalismo teórico, se lançam a iluminar as vias da ciência experimental com a ajuda das suas concepções. Neste caso o desastre foi total. O próprio Engels foi levado a rejeitar, em nome da dialéctica marxista, uma das maiores descobertas do seu tempo: a Segunda Lei da Termodinâmica... E foi em virtude do mesmo princípio... que Lisenko acusava os geneticistas russos de sustentarem uma doutrina radicalmente incompatível com o materialismo dialéctico e, por consequência, necessariamente falsa. Apesar dos desmentidos dos geneticistas russos, Lisenko tinha razão: a teoria do gene como determinante hereditário invariante através de gerações, e mesmo hibridações, é com efeito absolutamente inconciliável com os princípios dialécticos. É por definição uma teoria idealista, dado que se apoia num postulado de invariância.

Jacques Monod, prémio Nobel da Fisiologia (Medicina) em 1965.

01/01/2018

A perda do sentido sobrenatural


Relato na biografia do meu marido, "The Soul of a Lion", que poucos anos após a sua conversão ao Catolicismo, nos Anos 20, ele começou a ensinar na Universidade de Munique.
Munique era uma cidade católica. A maioria dos católicos da época ia à Missa, mas ele sempre dizia que foi ali que começou a preocupar-se com a perda do sentido do sobrenatural entre os católicos. Um incidente, em especial, ofereceu-lhe a prova suficiente, e isso entristecia-o imensamente.
Quando passava por uma porta, o meu marido deixava sempre entrar primeiro os seus alunos, que eram sacerdotes. Um dia, um professor, colega dele, expressou a sua admiração e desagrado: Por que deixa os seus alunos entrar antes de si? Porque são sacerdotes, respondeu o meu marido. Mas eles não possuem Doutoramento. O meu marido ficou arrasado. Valorizar um Doutoramento é uma reacção natural; mas estar ciente da sublimidade do sacerdócio é uma reacção sobrenatural. A atitude daquele professor provava que a sua reacção para o sobrenatural havia erodido.
Isso foi muito antes do Vaticano II. Mas até ao Concílio, a beleza e a sacralidade da Liturgia Tridentina mascarava esse fenómeno.