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Dom Vasco da Gama parte segunda vez para a Índia


No mesmo dia [30 de Janeiro], ano de 1502, partiu segunda vez para o Oriente, com poderosa armada de vinte naus, o famosíssimo herói Dom Vasco da Gama, e no mesmo dia, na despedida, lhe deu El-Rei Dom Manuel, o ilustre e glorioso título de Almirante dos mares da Índia, Pérsia e Arábia, que hoje se conserva em seus nobilíssimos descendentes.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Profecia de S. Tomé sobre as Armas de Portugal


Muitas coisas profetizou S. Tomé na Índia, dos Portugueses, mas esta profecia foi o cumprimento de todas. Que havia de ser conquistada a infidelidade das gentes, em virtude das cinco Chagas de Cristo: que havia de ser conquistada a infidelidade das gentes, não pelas armas dos Portugueses, senão pelas Armas de Portugal. Deu-nos Cristo por Armas e por Brasão as sagradas Quinas, e essas Quinas foram as nossas Armas.

Pe. António Vieira in «Sermões», 1682.

Frei Pedro da Covilhã


Neste dia [7 de Julho], ano de 1498, padeceu pela Fé de Cristo, Frei Pedro da Covilhã, Português, Ministro do Convento da Santíssima Trindade de Lisboa, companheiro e Confessor de Vasco da Gama. Foi o primeiro, que depois do Apóstolo São Tomé, celebrou o Sacrifício da Missa, e prégou o Evangelho, e por ele derramou seu sangue na Índia Oriental.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

São João de Brito


O Venerável Padre João de Brito, natural de Lisboa, filho de Salvador de Brito Pereira, fidalgo da casa de Sua Majestade, e de sua mulher Dona Brites Pereira, foi perfeito Religioso da Companhia de Jesus, e um dos maiores imitadores de São Francisco Xavier nas santas fadigas e missões da Índia, nos trabalhos que suportou, no zelo e fervor da salvação de inumeráveis almas que baptizou, converteu e lucrou para Deus; por cujo amor padeceu o glorioso martírio de ser degolado em ódio de nossa Santa Fé, na Cidade de Urgur, ou mais propriamente Oreuy-ur, no Reino de Maravá da Província do Malabar, neste dia [4 de Fevereiro] de 1693, com quarenta e seis de idade, trinta e um da Companhia, e quase vinte de insigne Operário Evangélico. [Foi canonizado em 1947, por Pio XII].

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Raro prodígio em Meliapor, na Índia


Na Cidade de Meliapor, que também se chama de São Tomé, por haver padecido nela o glorioso Apóstolo deste nome, se achou, muitos séculos depois do seu martírio, uma antiga e misteriosa Cruz: É de meio relevo, esculpida com todo o primor em fino mármore branco, borrifada com algumas nódoas de cor de sangue, as pontas rematam em flores de Liz, e sobre a do meio se vê uma bem formada Pomba, que lhe faz como sombra com as azas; Foi descoberta no tempo que a famoso Dom João de Castro governava o Estado da Índia, por cuja ordem se colocou no Altar-mor da Igreja, que já ali havia, dedicada ao mesmo Apóstolo São Tomé; Sucedeu, pois, neste dia [18 de Dezembro], ano de 1558, que ao tempo que se celebrava a Missa maior, e que se cantava o Evangelho, começou a Cruz a mudar de cor, trocando a branca, que tinha de sua natureza, em amarela, logo em negra, e depois em azul celeste, e assim como ia fazendo estas mudanças, começaram aquelas nódoas vermelhas a destilar um humor sanguíneo, em tanta copia, que o Sacerdote banhou nele os Corporais, e a Cruz ficou mais lustrosa, que de antes, com um resplandor maravilhoso, que durou enquanto durou a Missa, e no fim dela se lhe restituiu a sua cor antiga e natural: Repetia-se este raro Prodígio todos os anos, no mesmo dia e na mesma hora em que a Missa se cantava, e se viu repetido em nossos tempos, no ano de 1695, em que o Arábio tomou a Ilha e Fortaleza de Mombaça.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Conquista e destruição de Repelim, na Índia


No mesmo dia [22 de Novembro], ano de 1536, havendo desembarcado Martim Afonso de Sousa com quase mil homens, os mais deles escolhidos, na Ilha de Repelim, não obstante a valerosa resistência que lhe fez o Rei da mesma Ilha, o desbaratou, e retirando-se para a Cidade, onde tinha seis mil homens de armas, foi entrada pelos nossos, posto o Rei em fugida com quantos a defendiam; Custou-nos esta vitória doze homens ordinários e dois Cavaleiros. A Cidade, depois de saqueada, foi reduzida a cinzas.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Descobre Pedro Álvares Cabral a Cidade de Cananor


Neste dia [15 de Janeiro], ano de 1501, descobriu Pedro Álvares Cabral a Cidade de Cananor, que então era muito populosa, e constava de muito nobres edifícios, e a sua comarca era sumamente abundante de frutos e drogas, que na Ásia são de maior estima. O Rei era gentio, e um dos três mais poderosos do Malabar, quais eram: os de Calecute, Coulão e este de Cananor. Ajustou ele paz com os Portugueses, e mandou seu Embaixador a El-Rei Dom Manuel, implorando a sua aliança e protecção.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Naufrágio lastimoso de duas Naus na barra de Lisboa


No mesmo dia [14 de Setembro], ano de 1606, padeceram lastimosíssimo naufrágio, nas penedias onde está fundada a Fortaleza de São Gião [Forte de São Julião da Barra], duas Naus da Índia, dentro em muito breve espaço, sem delas escapar coisa alguma. Foi muito para sentida esta perda, não só pelas muitas vidas e riquezas que comeu o mar, se não também pela deplorável circunstância de se perderem depois de tão larga navegação, já com os olhos em Lisboa. Pouco depois começaram a aparecer aquelas praias juncadas de corpos mortos, que renovaram justamente a dor e lástima de tão atroz calamidade.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Parte Vasco da Gama ao descobrimento da Índia


Neste dia [8 de Julho] em Sábado, ano de 1497, partiu Vasco da Gama da barra de Lisboa a descobrir, por mares nunca dantes navegados, a remotíssima região do Oriente; Empresa que os homens mais sábios reputavam impossível; Mas vence impossíveis um coração valeroso e destemido! Com três navios, de que eram Capitães o mesmo Vasco da Gama, seu irmão Paulo da Gama e Nicolau Coelho, e cento e setenta companheiros, se deu princípio àquela tão incerta, como perigosa navegação. Concorreu na despedida, às praias de Belém, grande número de nobreza e povo. Ali foram infinitas as lágrimas dos que iam e dos que ficavam, nascidas da saudade e do temor, e dos vários e tristes pensamentos, que naturalmente ocorriam em caso tão novo. Estremeceram-se os corações de uns e outros, ao tempo que os marinheiros, despregando as velas, deram a sua costumada salva de Boa Viagem; Os que ficavam em terra alongavam os olhos pelas ondas, em seguimento dos navegantes; Estes não os podiam apartar da amada Pátria, e uns e outros estavam como atónitos, em profunda e medrosa suspensão, até que a distância separou as vistas, não assim os corações.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Nossa Senhora da Assunção e o prodígio em Cananor


No mesmo dia [15 de Agosto], ano de 1507, estando sitiada a Fortaleza de Cananor, defendida pelos Portugueses, se viram estes reduzidos ao último aperto, pela falta também última e total de mantimentos: Recorreram ao patrocínio da Mãe de Deus, e neste dia com maior fervor, por ser dia tanto seu; Não tardou o mar em levantar-se, e batendo ao pé da Fortaleza com grande ímpeto, em cada onda lhe trazia e deixava uma grande quantidade de lagostas, mantimento naquelas partes, não só saboroso aos sãos, mas útil aos enfermos, como mostrou o efeito: Porque com ele cobraram saúde os enfermos que havia na Fortaleza, e eram em grande número, e todos os defensores cobraram novos alentos, à vista de tão rara maravilha; Durou este socorro do Céu os dias que restaram do sítio, até o último combate, e se faltara naquela tão precisa ocasião, sem dúvida se perdia a Fortaleza.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Profecia do descobrimento e comércio da Índia


Neste dia [9 de Agosto], ano de 1505, seis anos depois do descobrimento da Índia no Reinado d'el-Rei Dom Manuel, se acharam na Serra de Sintra, junto do mar, três colunas de pedra quadradas com letreiros Romanos, que em grande parte se não puderam ler, por estar a letra gastada do tempo; e em uma se leram com trabalho uns versos Latinos, cujo título dizia:

...Decretum
Sibil. Vaticinum Occidiis.

Os versos eram os seguintes:

Volventur saxa litteris, & Ordine rectis
Cum videas Oriens Occidentis Opes:
Ganges, Indus, Tagus (erit mirabile visu!)
Merces commutabit suas uterque sibi.

Os versos não estão mui certos e a causa é porque não se puderam ler melhor. A declaração é: Revolver-se-ão as pedras com as letras direitas e ordenadas, quando tu Oriente vires as riquezas do Ocidente; O Rio Ganges, Indo e Tejo (coisa maravilhosa!) trocarão entre si suas mercadorias. São muito célebres estes versos em Itália e só em Portugal se duvida da verdade deles; afirmando Pedro Apiano, insigne Matemático, no seu livro onde trata dos letreiros antigos da Europa, logo no princípio, que ele viu as colunas com seus olhos, e leu os sobreditos versos escritos em caracteres Romanos.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

São Tomé na Índia


As províncias que entre um e o outro rio
Vês, com várias nações, são infinitas
Um reino Maometa, outro Gentio,
A quem tem o Demónio leis escritas.
Olha que de Narsinga o senhorio
Tem as relíquias santas e benditas
Do corpo de Tomé, barão sagrado,
Que a Jesus Cristo teve a mão no lado.

Aqui a cidade foi, que se chamava
Meliapor, fermosa, grande e rica;
Os ídolos antigos adorava,
Como inda agora faz a gente inica.
Longe do mar naquele tempo estava,
Quando a Fé, que no mundo se pubrica,
Tomé vinha pregando, e já passara
Províncias mil do mundo, que ensinara.

Chegado aqui, pregando e junto dando
A doentes saúde, a mortos vida,
Acaso traz um dia o mar, vagando,
Um lenho de grandeza desmedida.
Deseja o Rei, que andava edificando,
Fazer dele madeira; e não duvida
Poder tirá-lo a terra, com possantes
Forças de homens, de engenhos, de alifantes.

Era tão grande o peso do madeiro,
Que, só pera abalar-se, nada abasta;
Mas o núncio de Cristo verdadeiro
Menos trabalho em tal negócio gasta:
Ata o cordão, que traz, por derradeiro,
No tronco, e facilmente o leva e arrasta
Pera onde faça um sumptuoso templo,
Que ficasse aos futuros por exemplo.

Sabia bem que, se com fé formada
Mandar a um monte surdo que se mova,
Que obedecerá logo à voz sagrada,
Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.
A gente ficou disto alvoraçada;
Os Brâmenes o têm por cousa nova;
Vendo os milagres, vendo a santidade,
Hão medo de perder autoridade.

São estes sacerdotes dos Gentios,
Em quem mais penetrado tinha enveja;
Buscam maneiras mil, buscam desvios,
Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.
O principal, que ao peito traz os fios,
Um caso horrendo faz, que o mundo veja
Que inimiga não há, tão dura e fera,
Como a virtude falsa, da sincera.

Um filho próprio mata, e logo acusa
De homicídio Tomé, que era inocente;
Dá falsas testemunhas, como se usa;
Condenaram-no a morte brevemente.
O Santo, que não vê melhor escusa
Que apelar pera o Padre omnipotente,
Quer, diante do Rei e dos senhores,
Que se faça um milagre dos maiores.

O corpo morto manda ser trazido,
Que ressuscite e seja perguntado
Quem foi seu matador, e será crido
Por testemunho, o seu, mais aprovado.
Viram todos o moço vivo, erguido,
Em nome de Jesus crucificado;
Dá graças a Tomé, que lhe deu vida,
E descobre seu pai ser homicida.

Este milagre fez tamanho espanto,
Que o Rei se banha logo na água santa,
E muitos após ele; um beija o manto,
Outro louvor do Deus de Tomé canta.
Os Brâmenes se encheram de ódio tanto,
Com seu veneno os morde enveja tanta,
Que, persuadindo a isso o povo rudo,
Determinam matá-lo, em fim de tudo.

Um dia que pregando ao povo estava, 
Fingiram entre a gente um arruído.
Já Cristo neste tempo lhe ordenava
Que, padecendo, fosse ao Céu subido.
A multidão das pedras, que voava,
No Santo dá, já a tudo oferecido;
Um dos maus, por fartar-se mais depressa,
Com crua lança o peito lhe atravessa.

Choraram-te, Tomé, o Ganges e o Indo;
Chorou-te toda a terra que pisaste;
Mais te choram as almas que vestindo
Se iam da santa Fé que lhe ensinaste;
Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,
Te recebem na Glória, que ganhaste.
Pedimos-te que a Deus ajuda peças,
Com que os teus Lusitanos favoreças.

Luís Vaz de Camões in «Os Lusíadas», 1572.