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Martim Moniz na reconquista de Lisboa aos Mouros


Durou o combate seis horas contínuas, em que se pelejou com fúria desusada. Morreu Martim Moniz à entrada da porta que conserva o seu nome, parte mais arriscada por onde os Portugueses acometeram. Uns dizem que tendo os nossos entrado na Cidade e sendo rebatidos dos Mouros que pretendiam fechar outra vez aquela porta, pelejou com tanto valor o esforçado Capitão, até que perdendo a vida, fez de seu corpo ponte para os nossos passarem, e impediu aos Mouros seu intento. Outros querem que sendo ferido na entrada desta porta de um golpe mortal, foi milagrosamente seguindo e ferindo os Mouros com a cabeça meia cortada até cair morto na outra parte do Castelo, para onde fica a Igreja do Apóstolo Santiago. De qualquer modo, se teve sua morte por notável, e em um nicho sobre a mesma porta se mandou pôr uma cabeça de pedra, que ainda hoje se conserva em memória sua. Honrosa lembrança e justa remuneração devida a quem com tanta glória ofereceu a vida pela Fé e honra da Pátria, na entrada da maior Cidade, no lugar de maior dificuldade.

Frei António Brandão in «Terceira parte da Monarquia Lusitana: Que contém a História de Portugal desde o Conde Dom Henrique, até todo o reinado d'el-Rei Dom Afonso Henriques», 1632.

Transladação do Mártir São Vicente


Neste dia [15 de Setembro] se viu a Metrópole da Monarquia Portuguesa ditosamente enriquecida com um tesouro de mais alto preço, que quantos (correndo os tempos) tributou o Indo ao Tejo. Entrou neste dia pela barra de Lisboa, em uma só Nau, uma riquíssima frota, porque trazia aquela só Nau (que Lisboa então tomou por Armas) o sagrado cadáver do invictíssimo e gloriosíssimo Mártir São Vicente, foi achado e conduzido no ano de 1173, a diligências do primeiro Rei de Portugal, e colocado na Capela-mor da Catedral de Lisboa, em majestoso túmulo; A mesma Cidade, com discreta e venturosa eleição, o elegeu e experimentou sempre singular advogado e beneficentíssimo Protector.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Frei João da Barroca


Frei João da Barroca tomou o sobrenome de uma concavidade, que mandou abrir junto ao Convento de São Francisco de Lisboa, e nela se fez entaipar, deixando só uma pequena fresta para a luz e para a respiração, e na mesma, sem mais sair dela, perseverou até à morte no longo espaço de dezasseis anos, renovando, por seu modo, a memória do famosíssimo Estelita. Ali era buscado como Oráculo do Céu: Ele foi o que animou ao Mestre de Avis à dificultosa empresa da defesa do Reino, e lhe vaticinou a vitória e a coroa. Passou neste dia [6 de Janeiro] a gozar o prémio que não tem fim, ano de 1400.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Chega a Lisboa o Senhor dos Passos resgatado em Argel


Neste dia [25 de Setembro] do ano de 1726, desembarcou no porto de Lisboa, em triunfo, a Sagrada imagem do Senhor dos Passos, que resgatou em Argel e doou aos Religiosos da Santíssima Trindade, Silvestre Xavier; os quais a colocaram na Igreja do seu Convento de Lisboa, e nela se venera hoje na Capela Colateral da parte do Evangelho.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Naufrágio lastimoso de duas Naus na barra de Lisboa


No mesmo dia [14 de Setembro], ano de 1606, padeceram lastimosíssimo naufrágio, nas penedias onde está fundada a Fortaleza de São Gião [Forte de São Julião da Barra], duas Naus da Índia, dentro em muito breve espaço, sem delas escapar coisa alguma. Foi muito para sentida esta perda, não só pelas muitas vidas e riquezas que comeu o mar, se não também pela deplorável circunstância de se perderem depois de tão larga navegação, já com os olhos em Lisboa. Pouco depois começaram a aparecer aquelas praias juncadas de corpos mortos, que renovaram justamente a dor e lástima de tão atroz calamidade.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Funda-se a Congregação do Oratório de Lisboa


A Sagrada Congregação do Oratório de Lisboa teve o seu princípio na Capela Real, pelo seu Fundador, o Venerável Padre Bartolomeu de Quental, Capelão, Confessor e Prégador da mesma Capela, onde com outros Sacerdotes seculares começaram os seus exercícios de Oração mental pública com práticas espirituais nos Domingos e dias Santos, em que preservaram no mesmo lugar catorze anos, até que no de 1668, neste dia [16 de Julho], dedicado a Nossa Senhora do Carmo, se congregaram em Comunidade no sítio das fangas da farinha da Rua Nova do Almada, com estatutos especiais, que lhe fez o Venerável Fundador, e confirmou a Santidade do Papa Clemente X, e por ser apertado aquele sítio para o número dos Congregados e das pessoas que acudiam aos seus exercícios, se mudaram para a Igreja do Espírito Santo da mesma rua, que lhe ofereceu a Irmandade dos homens de negócio, como diremos no seu dia.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

A Porta de Martim Moniz


A Porta de Martim Moniz é a que fica no postigo de fronte de N. Senhora da Graça, por detrás do Castelo de Lisboa. Ficou-lhe este apelido do insigne Capitão Martim Moniz, que foi morto pelos Mouros na tomada de Lisboa, o qual, abrindo-se a porta, se lançou no meio dela, para que, ficando o corpo atravessado, não pudessem os Mouros fechá-la, e ali o mataram, ficando aquela porta sempre aberta ao eterno triunfo da sua fama.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo VI, 1720.

Fundação do Hospital Real de todos os Santos


O sumptuosíssimo Hospital de Lisboa, com o nome de todos os Santos, foi invento da piedade d'El-Rei Dom João II. Havia naquela grande Cidade muitos Hospitais, em diferentes sítios e para enfermidades diferentes. Mas pela maior parte se desencaminhavam as rendas, por andarem por muitas mãos, e não era fácil meter a caminho tanto número de administradores, costumados a tratarem mais de si que da pobreza. Alcançou El-Rei Breve para reduzir a um só todos os outros, e lhe escolheu lugar junto à famosa Praça, chamada do Rossio, e neste dia [15 de Maio], ano de 1472, se lhe pôs a primeira pedra, e El-Rei de sua mão lançou muitas moedas de ouro e prata nos alicerces. Consta aquela insigne fábrica de um amplíssimo Templo com um pórtico para a Praça do Rossio, que é obra tão maravilhosa em si, quão pouco advertida dos que cada dia a estão vendo. Tem um adro de vinte e um degraus de mármore com três faces, também coisa singular e majestosa. Serve-se a Igreja com bom número de Capelães e moços do Coro, e nela se celebram os Ofícios Divinos com grande pompa e perfeição. O corpo do Hospital consta de enfermarias para todo o género de enfermidades, onde os pobres são assistidos com tudo quanto lhe é necessário para suas curas, sem reparo algum a trabalho ou dispêndio. Tem este Hospital hoje de renda em dinheiro e em frutos mais de cem mil cruzados.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

A grande tempestade de 1731


Em Lisboa principiou neste dia [7 de Fevereiro], do ano de 1731, e continuou nos três seguintes, uma grande tempestade que inundou o terreiro do Paço, a Ribeira, a casa da Alfândega e do tabaco, com perda notável de muitas fazendas e de alguns navios. Foi geral por todo o Reino, e em muitas Cidades, Vilas e Portos causou grandes perdas e fez muitas ruínas.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Praga de gafanhotos em Lisboa


No mesmo dia [8 de Novembro], ano de 1639, em terça-feira, apareceu sobre a Cidade de Lisboa uma medonha praga de Gafanhotos, que cobriam o ar: Corriam do Poente para o Oriente, eram muito grandes e de cor que tirava a vermelha, com seis pés e quatro asas: Viram-se entre eles, desde as dez horas da manhã, até as quatro da tarde, duas grandes aves de asas negra e peitos pardos, que saíam e voltavam, como condutores daquele volátil numeroso exército, o qual gastou em passar, não menos de onze dias.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

A terrível peste de 1569


No mesmo dia [7 de Junho], ano de 1569, se começou a sentir em Lisboa um terrível contágio, que logo se dilatou por todas as Províncias de Portugal, e durou quatro para cinco meses, mas em Lisboa foi muito maior o estrago: Morriam cada dia quinhentas, seiscentas, setecentas pessoas, e no fim se achou que por todas passaram de cinquenta mil. Cresceram as ervas pelas ruas a grande altura; não cabiam os mortos nas Igrejas, e foi preciso fazer-lhe covas pelos campos, e em cada uma sepultavam a cinquenta e a mais. Talvez estavam os corpos amortalhados às portas das casas dois e três dias, sem haver quem os levasse à sepultura. De um instante para outro caiam mortos os que estavam em pé, e amanheciam sem vida os que se deitaram sãos: Andavam os homens atónitos e com gestos de defuntos, tropeçando a cada passo com imagens da morte, e com ela mesma. Por falta da comunicação com as terras circunvizinhas, começaram a faltar os mantimentos, sendo objecto lastimoso ver os homens e mulheres, velhos, moços, meninos, desfazendo-se em lágrimas, e perecendo à fome; não cessou este horrível açoite, senão nos fins do mês de Outubro do mesmo ano.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Quando D. João II mandou queimar uma casa de jogo


No mesmo dia [1 de Junho], ano de 1490, sabendo El-Rei Dom João Segundo de Portugal, que na Praça da Palha da Cidade de Lisboa, vivia um Cavalheiro que dava casa de jogo, a qual era escandalosa pelas juras e blasfémias que nela diziam os jogadores, mandou a pregão de justiça pôr-lhe o fogo, e não ficou dela outro sinal mais que umas poucas cinzas. Abrasem-se as casas de jogo, já que o jogo tem abrasado muitas casas!

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Pascoela de 1506: tumulto fatal em Lisboa


No mesmo dia [19 de Abril], em que então caiu o Domingo da Pascoela, ano de 1506, sucedeu em Lisboa um dos mais horríveis casos que contam as Histórias. Celebrava-se na Igreja de São Domingos certa festa, a que assistia grande multidão de povo, e sucedendo representar-se um como reflexo de luz na Imagem do Santo Crucifixo, que na mesma Igreja se venera, se dividiram os circunstantes em pareceres diversos: Uns afirmaram que era milagre, outros o duvidavam, e destes um era notoriamente conhecido por Cristão-novo, circunstância que bastou a levantar no povo tanto rumor e indignação, que pegando dele pelos cabelos, o levaram ao meio da praça do Rossio e o mataram e queimaram, com tão excessiva presteza como impiedade. A este desatino acresceu outro, não menor, qual foi, saírem dois Religiosos à mesma praça com um Crucifixo, clamando sobre os inimigos da Fé; Como se esta se achasse naquele caso ofendida, ou se ainda na suposição da ofensa, se pudesse proceder ao castigo por meios tão injustos e violentos, sem serem ouvidos, nem convencidos, os que reputavam Réus. Com aquelas vozes cresceu a multidão, cresceu a ousadia, e junto já um corpo de quinhentos homens do mais vil da Cidade, em que entravam muitos Holandeses, que nela se achavam, gente, naqueles tempos, tão inculta e abatida, como depois industriosa e soberba, começaram a fazer uma cruel carniçaria em todo o género de Cristãos-novos, sem distinção de sexo ou de idade. Homens e mulheres, velhos e moços, todos eram improvisamente feitos em pedaços e queimados em grandes fogueiras, que a esse fim levantaram nas praças da Ribeira e Rossio. Aos que se fechavam nas casas, lhe rompiam as portas, e das Igrejas, onde os levava o temor da morte, tiravam a muitos, arrancando-os dos Sacrários e das Imagens sagradas com que estavam abraçados. A muitos meninos de peito, dividindo-lhe tão forte, como inumanamente as pernas, abriam pelo meio: A outros esmagavam nas paredes. Eram levadas famílias inteiras e sem distinção lançadas no fogo promiscuamente, uns vivos, outros já mortos. Na volta dos Cristãos-novos, entraram muitos que o não eram: Porque bastava que algum dos que andavam no tumulto lhe desse aquele nome, para que, sem mais exame, fossem logo mortos e queimados. Entre tantas crueldades não se esqueciam de meter a saco as casas dos miseráveis pacientes, roubando quanto achavam, principalmente os estrangeiros, que nesta ocasião satisfizeram não menos a cobiça que a fereza. Durou o tumulto três dias, crescendo a mais de mil e quinhentos o número dos agressores, e o dos mortos a mil e novecentos, sem haver quem pudesse parar esta impetuosa e arrebatada corrente. Havia peste em Lisboa, e estavam fora dela, não só as pessoas Reais, se não também em grande parte os Fidalgos e Ministros, e os poucos que nela ficaram, trataram mais de fugir que de conter aquele furor, parto, sem dúvida, das fúrias infernais. Deram esta triste nova a El-Rei Dom Manuel, indo de Abrantes para Beja visitar sua mãe, a Infante Dona Brites, e logo rompeu em grandes demonstrações de sentimento e não menores de indignação. Mandou que fossem presos e condenados à morte todos os que se achassem culpados, o que se executou em grande número, principalmente dos naturais: Porque os estrangeiros quase todos souberam prevenir o castigo com a fugida, e cheios de roubos, navegaram para as suas terras. Aos dois Frades, que foram o principal incentivo daquela diabólica comoção, degradaram das Ordens e foram queimados em praça pública; Privou El-Rei a Cidade de Lisboa de seus privilégios e isenções, queixoso justamente dos que entraram no tumulto e também dos que, podendo reprimir e rebater os primeiros ímpetos do povo, se houveram com tanta frieza, que mais pareceu afectação do que temor.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Terramoto de Lisboa de 1531


Neste dia [26 de Janeiro], em quinta-feira, ano de 1531, sucedeu um tão horrível terramoto em Lisboa, que se fez sentir em distância de mais de sessenta léguas, e assolou lugares inteiros em circuito, e na Cidade pôs por terra mil e quinhentas casas, fazendo-as sepulturas dos mesmos que nelas viviam: Arruinaram-se muitos Templos, submergiram-se no mar muitos navios. Durou alguns dias e a maior parte dos moradores se retirou ao campo: Os Reis se retiraram também, temendo todos que a Cidade se subvertia.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

D. João V e o fim de uma epidemia em Lisboa


Neste dia [23 de Janeiro] e nos dois seguintes, do ano de 1724, recitou o Padre Dom Rafael Bluteau, Clérigo Regular da Divina Providência, três Orações gratulatórias na Igreja da sua Casa de Lisboa, a que assistiu El-Rei Dom João V, nosso Senhor, com grande concurso de nobreza e povo, pela mercê que Deus, nosso Senhor, fez a Lisboa em suspender o flagelo de uma epidemia, que havia principiado na quadra do Outono do ano antecedente; e sem dúvida se ateara muito se El-Rei, nosso Senhor, saísse de Lisboa com toda a Casa Real, como muito o persuadiam; a que resistiu com ânimo de coração verdadeiramente Real e paterno, dizendo que antes queria morrer com seus Vassalos naturais, do que desempará-los e deixar de lhes acudir; como fez com a maior caridade, liberalidade e grandeza, que se podem considerar, mandando distribuir pelos Párocos grandes somas de dinheiro, pelas Freguesias, Médicos e Cirurgiões, e pelas casas de todos os necessitados, enfermeiros e enfermeiras, e tudo o de que podiam necessitar de víveres, de comodidades, de mantimentos, de remédios e regalos. Feliz Reinado, em que o Rei governa como Rei, como pai e como homem!

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Elevação do Patriarcado de Lisboa


No mesmo dia [10 de Dezembro], ano de 1716, chegou a Lisboa a notícia de haver o Papa Clemente XI concedido a El-Rei Dom João V, Nosso Senhor, a erecção da sua Capela Real em Igreja Patriarcal, dividindo o grande Arcebispado de Lisboa, com os nomes de Oriental e Ocidental; a qual notícia se fez pública com os repiques dos sinos de todas as Igrejas e Conventos, e se festejou com luminárias. No dia seguinte, toda a Nobreza, Ministros, Prelados e Tribunais beijaram a mão a Sua Majestade pela exaltação da sua Capela Real; e no mesmo dia nomeou a mesma Majestade em Patriarca e Arcebispo Metropolitano da nova Igreja Patriarcal ao Ilustríssimo Senhor D. Tomás de Almeida, dos Condes de Avintes, Bispo e Governador das Armas e Justiças do Porto; O que foi festejado nas três noites seguintes com repiques e luminárias na Capela Real e em toda a Cidade.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

25 de Agosto de 1536: Sínodo na Sé de Lisboa


No mesmo dia, ano 1536, se celebrou Sínodo na Sé de Lisboa, sendo seu Arcebispo o Infante Cardeal Dom Afonso, filho d'el-Rei Dom Manuel e de sua segunda mulher, a Rainha Dona Maria. Na sétima constituição deste Sínodo se ordenou a primeira vez que nas Paróquias houvesse livros em que se fizessem assentos dos baptismos, casamentos e óbitos; coisa tão útil e importante ao governo Eclesiástico e secular, que a Igreja Universal, à imitação e exemplo da de Lisboa, estabeleceu a mesma Constituição no Concílio Tridentino.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

No centenário da Amália Rodrigues



Não namores os franceses
Menina, Lisboa,
Portugal é meigo às vezes
Mas certas coisas não perdoa
Vê-te bem no espelho
Desse honrado velho
Que o seu belo exemplo atrai
Vai, segue o seu leal conselho
Não dês desgostos ao teu pai

Lisboa, não sejas francesa
Com toda a certeza
Não vais ser feliz
Lisboa, que ideia daninha
Vaidosa, alfacinha,
Casar com Paris
Lisboa, tens cá namorados
Que dizem, coitados,
Com as almas na voz
Lisboa, não sejas francesa
Tu és portuguesa
Tu és só p'ra nós

Tens amor às lindas fardas
Menina, Lisboa,
Vê lá bem p'ra quem te guardas
Donzela sem recato, enjoa
Tens aí tenentes,
Bravos e valentes,
Nados e criados cá,
Vá, tenha modos mais decentes
Menina caprichosa e má

Lisboa, não sejas francesa
Com toda a certeza
Não vais ser feliz
Lisboa, que ideia daninha
Vaidosa, alfacinha,
Casar com Paris
Lisboa, tens cá namorados
Que dizem, coitados,
Com as almas na voz
Lisboa, não sejas francesa
Tu és portuguesa
Tu és só p'ra nós

São Lourenço de Brindes


S. Lourenço de Brindes, Franciscano da austera reforma dos Capuchinhos, que entre nós se chamavam Barbadinhos, foi figura proeminente da Igreja Católica em princípios do século XVII.
Na sua Ordem ocupou lugares de relevo, Comissário na Alemanha, Provincial em várias regiões da Itália, na Áustria e na Suíça, Geral, isto é, superior supremo de todos os seus frades, de 1602 a 1605, anos em que percorreu a Itália, a França, a Suíça e a Espanha, a visitar os numerosos conventos dos seus religiosos.
Prégador de nomeada, as cidades de Itália ouviram-lhe a voz, impregnada de zelo apostólico e repassada de um profundo conhecimento da Sagrada Escritura. Este zelo de apóstolo e este conhecimento profundo da Bíblia levaram-no, quando o ensejo lho proporcionou, a notabilizar-se em controvérsias com Judeus, na Itália, e com Protestantes, nos diversos estados do Sacro Germano Império, isto é, na Áustria, na Alemanha e na Checoslováquia.
Os seus sermões, as controvérsias que teve, os comentários que fez às Escrituras, só nos nossos dias se começam a publicar e já apareceram dezassete grossos volumes, cientificamente editados. Isto fez com que nos últimos anos muito se tenha escrito para que S. Lourenço de Brindes seja proclamado Doutor da Igreja, como há tempos aconteceu com o nosso Santo António.
Além desta extraordinária actividade religiosa, o Santo Barbadinho desenvolveu notável acção diplomática. No Império Austríaco, onde várias vezes se encontrou, nos diversos Estados da Itália de então, na Espanha de Filipe III, aonde veio três vezes, tratou de assuntos referentes à exaltação do Catolicismo e ao bem-estar dos povos, com imperadores, reis, príncipes e governadores.
Precisamente, uma destas missões diplomáticas trouxe-o a Lisboa em 1619 para falar com Filipe III, que visitava oficialmente Portugal. Ao Santo sobreveio-lhe a morte quando se encontrava entre nós, e por isso, desde a sua beatificação que teve lugar em 1783, as igrejas de Lisboa, por privilégio da Santa Sé, comemoram-no e os sacerdotes do Patriarcado celebram-lhe a missa em 22 de Julho, aniversário do seu falecimento.
Se desde a sua morte a devoção popular dos Lisboetas o tivesse acarinhado, se o seu corpo tivesse aqui ficado e, à volta do sepulcro, lhe tivessem erguido uma igreja que fosse centro de peregrinações, talvez hoje, com os protestos dos Italianos, tivéssemos um S. Lourenço de Lisboa em vez de S. Lourenço de Brindes, como aconteceu com Santo António, que apesar dos nossos protestos, no estrangeiro é apenas conhecido como Santo António de Pádua.
O facto de S. Lourenço de Brindes ter morrido em Lisboa e o que em tempos idos esta cidade fez para o honrar, são acontecimentos esquecidos. Muito grato, portanto, é lembrá-los, para melhor conhecimento da história e das glórias olisiponenses.
(...)
S. Lourenço de Brindes continua a ser um desconhecido em Lisboa, a cujas muitas glórias em certo modo pertence, pois aqui morreu. Oxalá a sua memória se avive para que seja conhecida uma ilustre personagem, um santo de excelsas virtudes, que honrou a nossa linda cidade.

Fr. Francisco Leite de Faria in boletim «Olisipo», nº 77, Janeiro de 1957.

13 de Junho: Santo António de Lisboa


Sto. António nasceu em Lisboa a 15 de Agosto de 1195. Cónego regular, depois franciscano, prégou por toda a parte, primeiro em Portugal, depois em Itália, numa linguagem toda alimentada da doutrina das Sagradas Escrituras. Pio XII, que elevou Sto. António à honra de doutor da Igreja, deu-lhe o título de doutor evangélico, de tal modo gostava de apoiar todas as suas afirmações em citações do Evangelho. Simultaneamente professor de teologia e prégador das grandes multidões, combateu a heresia com extremo vigor e com uma força de convicção excepcional.
Sto. António morreu em Pádua a 13 de Junho de 1231, com a idade de 35 anos, aureolado por uma reputação de grande santidade. Logo após a sua morte, inumeráveis milagres levaram os fiéis a invocá-lo como taumaturgo de uma incansável condescendência.

Fonte: «Missal Romano Quotidiano», 1963.