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Decreto "Lamentabili sane exitu" (4ª Parte)



Nova teoria sobre a Igreja

52. Não estava no pensamento de Cristo constituir a Igreja em sociedade para durante uma longa série de séculos; muito ao contrário, no pensamento de Cristo, o Reino do Céu devia chegar com o fim iminente do mundo.
53. A constituição orgânica da Igreja não é imutável; mas, ao contrário, a sociedade cristã está sujeita, como a sociedade humana, a uma perpétua evolução.
54. Os dogmas, os sacramentos, a hierarquia, tanto na sua concepção como na realidade, não são mais do que interpretações do pensamento cristão e evoluções que aumentaram e aperfeiçoaram por desenvolvimentos externos o pequeno gérmen oculto no Evangelho.
55. Simão Pedro nem sequer suspeitou que lhe tivesse sido conferida a primazia na Igreja por Cristo.
56. A Igreja romana tornou-se a primeira de todas as Igrejas, não por uma disposição divina, mas por circunstâncias puramente políticas.

Evolucionismo absoluto e ilimitado

57. A Igreja mostra-se inimiga dos progressos das ciências naturais e teológicas.
58. A verdade não é mais imutável do que o homem, com o qual e pelo qual muda continuamente.
59. Cristo não ensinou um corpo de doutrina determinado, aplicável a todos os tempos e a todos os homens, mas provocou antes um movimento religioso adaptado ou podendo adaptar-se aos diversos tempos e lugares.
60. A doutrina cristã foi no começo judaica, depois, por evoluções sucessivas, tornou-se paulina, depois joanica, depois helénica e universal.
61. Pode dizer-se sem paradoxo que nenhum livro da Escritura, desde o primeiro do Génesis até ao último do Apocalipse, contém um doutrina absolutamente idêntica à que a Igreja professa sobre os mesmos assuntos, e, por consequência, que nenhuma parte da Escritura tem o mesmo sentido para o crítico e para o teólogo.
62. Os principais artigos do Símbolo dos Apóstolos não tinham, para os cristãos primitivos, a mesma significação que têm para os cristãos actuais.
63. A Igreja mostra-se incapaz de defender a moral evangélica, porque se mantém obstinadamente ligada a doutrinas imutáveis, incompatíveis com os progressos modernos.
64. O progresso das ciências exige a reforma da concepção da doutrina cristã acerca de Deus, da Criação, da Revelação, da Pessoa do Verbo e da Redenção.
65. O catolicismo actual não pode adaptar-se à verdadeira ciência, a não ser que se transforme em cristianismo não dogmático, isto é, em protestantismo largo e liberal.

No dia seguinte, quinta-feira, 4 do mesmo mês e ano, tendo sido feito a Sua Santidade Pio X um relatório geral fiel, Sua Santidade aprovou e confirmou o decreto dos Eminentíssimos Padres e ordenou que todas e cada uma das proposições, acima mencionadas, fossem consideradas por todos como reprovadas e proscritas.

A face esquerda e a face direita da Revolução


Todo o mundo moderno se dividiu em conservadores e progressistas. A função dos progressistas é cometer erros continuamente. A função dos conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos. Mesmo quando um revolucionário se arrepende da sua própria revolução, o falso tradicionalista já a defende como parte da sua "tradição". Assim, temos dois tipos de pessoas: o avançado, que nos leva à ruína, e o retrospectivo, que admira as ruínas. Cada novo erro do progressista, ou pedante, torna-se instantaneamente numa lenda de imemorial antiguidade para o snob. E isto é chamado de equilíbrio, ou controlo mútuo, na nossa Constituição.

G. K. Chesterton in revista «The Illustrated London News», 19 de Abril de 1924.


Os Nominais


Nominais. É o nome de uns Filósofos, que, seguindo a opinião de Guilherme de Occam, Religioso de S. Francisco, de nação Inglês, e discípulo de Escoto, querem provar que não há ciência das coisas [= entes, seres] em geral, mas só dos nomes comuns das ditas coisas; por isso lhes chamam Nominais. Pretendem que o que os Lógicos chamam Universais, sejam meros conceitos dos homens, sem que realmente exista no mundo natureza [= essência] alguma comum a muitos; por esta razão se diz deles que são escassos de coisas e pródigos de palavras. Santo Anselmo da Cantuária [Doutor da Igreja] lhes chama Hereges da Dialéctica.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo V, 1716.

A dialéctica como método de subversão revolucionária


A dialéctica hegeliana é o método filosófico revolucionário por excelência, segundo o qual a Verdade não é fixa e definida, mas em constante renovação e aperfeiçoamento, enquanto síntese de ideias contrárias.
Segundo o método dialéctico hegeliano a ideia/posição original é chamada de tese, à qual se contrapõe uma ideia/posição radical chamada de antítese. Como solução entre esses dois "extremos" procura-se um consenso, um meio-termo entre as duas posições opostas, que é chamada de síntese. Com o tempo esta síntese converte-se numa nova tese, a qual é confrontada com uma nova antítese, de onde surge uma nova síntese, etc. E assim, dialecticamente, de síntese em síntese, ou de consenso em consenso, vai avançando a Revolução ou subversão ideológica na Ordem moral, social, política e religiosa.
A Revolução, ou implementação do Reino Social do Anti-Cristo, tem-se desenvolvido gradualmente desde o Iluminismo nas inteligências e nas sociedades, demolindo e corrompendo, fazendo uso de processos dialécticos. Um exemplo clássico e bem evidente de subversão dialéctica foi a criação das chamadas Monarquias constitucionais e parlamentares, como síntese entre Monarquia e República.

Decreto "Lamentabili sane exitu" (3ª Parte)



Cristologia de Loisy

27. A divindade de Jesus Cristo não se prova com os Evangelhos; é sim um dogma deduzido da noção de Messias pela consciência cristã.
28. Quando exercia o seu ministério, Jesus não falava com o intuito de ensinar que Ele era o Messias, nem seus milagres tinham o propósito de demostrá-lo.
29. Pode conceder-se que Cristo, tal como é apresentado na História, é muito inferior ao Cristo que é objecto da fé.
30. Em todos os testemunhos evangélicos o nome de Filho de Deus equivale somente ao nome de Messias; de modo algum significa que Cristo seja o Filho verdadeiro e natural de Deus.
31. A doutrina sobre Cristo que nos ensina S. Paulo, S. João e os Concílios de Nicéia, de Éfeso e de Calcedónia, não é a que Jesus ensinou, mas a que a consciência cristã idealizou a respeito de Jesus.
32. O sentido natural dos textos evangélicos é inconciliável com o ensinamento dos nossos teólogos, no que diz respeito à consciência de Jesus e à sua ciência infalível.
33. É evidente para quem se não deixa levar por opiniões preconcebidas que, ou Jesus professou o erro sobre o próximo advento do Messias, ou que a maior parte da sua doutrina contida nos Evangelhos Sinópticos carece de autenticidade.
34. O crítico não pode atribuir a Cristo uma ciência ilimitada, senão numa hipótese que é historicamente inconcebível e que repugna ao senso moral, ou seja: que Cristo, como homem, tinha ciência divina, e no entanto, não quis comunicar a seus discípulos e à posteridade o conhecimento que possuía de tantas coisas.
35. Nem sempre Cristo teve consciência de sua dignidade messiânica.
36. A Ressurreição do Salvador não é propriamente um facto de ordem histórica, mas um facto de ordem meramente sobrenatural que não foi demostrado, nem é demonstrável, e que a consciência cristã deduziu gradualmente de outros factos.
37. A princípio a fé na Ressurreição de Cristo consistia, não tanto no facto da ressurreição em si, mas sobre a vida imortal de Cristo junto de Deus.
38. A doutrina da morte expiatória de Cristo não é evangélica, mas data apenas de São Paulo.

Erros sobre a origem dos Sacramentos

39. As opiniões de que se achavam imbuídos os Padres do Concílio de Trento sobre a origem dos sacramentos, e que sem dúvida influenciaram seus cânones dogmáticos, estão muito distantes das que hoje sustentam com razão os investigadores históricos do cristianismo.
40. Os sacramentos tiveram a sua origem na interpretação que os apóstolos e seus sucessores, movidos e instruídos pelas circunstâncias e acontecimentos, deram a um certo esboço e vaga intenção de Cristo.
41. Os sacramentos não têm outro fim senão evocar no espírito do homem a presença sempre benéfica do Criador.
42. A comunidade cristã introduziu a necessidade do baptismo, adoptando-o como um rito necessário e vinculando-lhe as obrigações da profissão cristã.
43. O costume de administrar o baptismo às crianças foi uma evolução disciplinar, e este foi uma das causas para que o sacramento se desdobrasse em dois, a saber: Baptismo e Penitência.
44. Não há nada que prove que o rito do sacramento da Confirmação tivesse sido usado pelos Apóstolos; pelo contrário, a distinção formal dos dois sacramentos, Baptismo e Confirmação, não tem nenhuma relação com a história do cristianismo primitivo.
45. Nem tudo o que S. Paulo narra sobre a instituição da Eucaristia (1ª Epístola aos Coríntios, XI, 23-25), pode ser aceite historicamente.
46. Na Igreja primitiva não existia a ideia do cristão pecador reconciliado em virtude da autoridade da Igreja, mas só muito lentamente ela se foi habituando a este conceito. Além disso, mesmo depois que a Penitência foi reconhecida como uma instituição da Igreja, não era chamada de sacramento, por ser tida como infame.
47. As palavras do Senhor: "Recebei o Espírito Santo; Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (S. João, XX, 22-23), de modo nenhum se referem ao sacramento da Penitência, por mais que assim fosse do agrado dos Padres do Concílio de Trento.
48. S. Tiago, na sua epístola (V, 14-15), não pretendeu promulgar nenhum sacramento de Cristo, mas recomendar um pio costume; e se nesse costume ele talvez veja algum meio de obter graça, não o toma com o mesmo rigor com que o tomaram os teólogos que determinaram a noção e o número dos sacramentos.
49. À medida que a Ceia Cristã foi assumindo gradualmente a índole de cerimónia litúrgica, aqueles que tinham por costume presidi-la adquiriram o carácter sacerdotal.
50. Os anciãos, que nas assembleias cristãs exerciam o ofício da vigilância, foram instituídos pelos Apóstolos como presbíteros ou bispos para atender à organização necessária nas comunidades crescentes, mas não propriamente para perpetuar a missão e a potestade apostólica.
51. O matrimónio só pôde tornar-se sacramento na Igreja muito mais tarde; pois, para que o matrimónio fosse considerado sacramento, era necessário que primeiro se desse o completo desenvolvimento teológico sobre a doutrina da graça e dos sacramentos.

Decreto "Lamentabili sane exitu" (2ª Parte)



Erros sobre a Sagrada Escritura

9. Os que crêem que Deus é verdadeiramente o autor da Sagrada Escritura manifestam simplicidade excessiva ou ignorância.
10. A inspiração divina não se estende a toda a Sagrada Escritura, de tal modo que preserve de todo o erro, a todas e cada uma de suas partes.
11. A inspiração dos livros do Antigo Testamento consistiu em que os escritores israelitas transmitiram doutrinas religiosas sob um aspecto pouco ou nada conhecido dos pagãos.
12. O exegeta, se quer dedicar-se utilmente aos estudos bíblicos, deve apartar, antes de tudo, qualquer opinião preconcebida sobre a origem sobrenatural das Sagradas Escrituras e interpretá-las do mesmo modo que os outros documentos meramente humanos.
13. As parábolas do Evangelho foram forjadas com arte pelos próprios Evangelistas e pelos Cristãos de segunda e terceira geração, com o fim de explicar os exíguos frutos da pregação de Cristo entre os judeus.
14. Em muitas narrações os Evangelistas não atenderam tanto à verdade das coisas como a consignar aquilo que julgaram mais proveitoso a seus leitores, embora contrário à realidade.
15. Os Evangelhos foram aumentados com adições e correcções até chegar a um cânon fixo e definitivamente constituído, e neles, portanto, não resta senão um vestígio ténue e incerto da doutrina de Cristo.
16. As narrações de São João não são propriamente história, mas uma contemplação mística do Evangelho, e os discursos contidos em seu Evangelho são meditações teológicas sobre o mistério da salvação, destituídas de verdade histórica.
17. O quarto Evangelho exagerou os milagres, não apenas para fazê-los parecer mais extraordinários, mas também para torná-los mais apropriados para declarar a obra e a glória do Verbo Encarnado.
18. João apropria-se, é verdade, da qualidade de testemunho de Cristo, mas na realidade é apenas uma testemunha exímia da vida cristã, ou da vida de Cristo na Igreja, no final do primeiro século.
19. Os exegetas heterodoxos interpretaram o verdadeiro sentido das Escrituras mais fielmente que os exegetas católicos.

Filosofia religiosa da nova escola

20. A Revelação não poderia ser outra coisa senão a consciência adquirida pelo homem na sua relação com Deus.
21. A Revelação, que constitui o objecto da Fé católica, não terminou com os Apóstolos.
22. Os dogmas que a Igreja apresenta como revelados não são verdades descidas do Céu, mas uma interpretação de factos religiosos que a inteligência humana elaborou com grande esforço.
23. Pode existir, e realmente existe, oposição entre os factos narrados na Sagrada Escritura e os dogmas da Igreja que neles se baseiam; de modo que o crítico pode rejeitar como falsos, factos que a Igreja crê como certíssimos.
24. Não é condenável o exegeta que estabelece premissas, das quais se segue que os dogmas são historicamente falsos ou duvidosos, desde que ele não negue directamente os mesmos dogmas.
25. O assentimento da Fé apoia-se, em última análise, num acumular de probabilidades.
26. Os dogmas da Fé devem ser considerados somente segundo o sentido prático, isto é, como norma de proceder e não como norma de crer.

O erro do Historicismo


Existe igualmente um falso historicismo, que se atém somente aos acontecimentos da vida humana, e, tanto no campo da filosofia como no dos dogmas cristãos, destrói os fundamentos de toda a verdade e lei absoluta.

Papa Pio XII in encíclica «Humani Generis», 12 de Agosto de 1950.

Decreto "Lamentabili sane exitu" (1ª Parte)


Das proposições dos modernistas condenadas pela Igreja
3 de Julho de 1907

Com êxitos verdadeiramente lamentáveis, a nossa época, inimiga de todo o freio, de tal modo segue não poucas vezes as novidades na investigação das supremas razões das coisas, que, deixando o que poderíamos chamar de herança da linhagem humana, incorre em gravíssimos erros. Os quais são muitíssimo mais perniciosos quando se trata de ensinamentos sagrados, da interpretação da Sagrada Escritura e dos principais mistérios da Fé. Sobretudo, é deplorável encontrar, até entre os católicos, não poucos escritores que, ultrapassando os limites estabelecidos pelos Santos Padres e pela própria Igreja, se dedicam, sob o pretexto de alta crítica e sob o título de razão histórica, a procurar um suposto progresso de dogma, que não é, na verdade, mais do que a sua deformação.
Mas a fim de que semelhantes erros, que se espalham todos os dias entre os fiéis, não se arreiguem no seu espírito e não alterem a pureza da sua fé, pareceu bem a Sua Santidade Pio X, Papa pela divina Providência, fazer notar e reprovar os principais de entre eles, por meio deste tribunal da Santa, Romana e Universal Inquisição.
Em consequência, após um exame diligentíssimo e com o prévio parecer dos reverendos consultores, os Excelentíssimos e Reverendíssimos Cardeais, inquisidores-gerais em matéria de Fé e de Moral, julgaram que devem ser reprovadas e proscritas as seguintes proposições, como são reprovadas e proscritas pelo presente decreto-geral.

Erros sobre a autoridade das decisões doutrinais da Igreja

1. A lei eclesiástica, que manda submeter à censura prévia os livros que se referem às divinas Escrituras, não se estende aos cultivadores da crítica ou exegese científica dos livros do Antigo e Novo Testamento.
2. A interpretação dos livros sagrados feita pela Igreja, não é certamente de desprezar, mas está submetida ao juízo mais apurado e à correcção dos exegetas.
3. Pelos juízos e censuras eclesiásticas contra a livre e mais elevada exegese, pode concluir-se que a fé proposta pela Igreja está em contradição com a História, e que os dogmas católicos não se conciliam realmente com as verdadeiras origens da religião cristã.
4. O magistério da Igreja não pode determinar o sentido genuíno das Sagradas Escrituras, nem mesmo por meio de definições dogmáticas.
5. Contendo-se no depósito da fé somente as verdades reveladas, sob nenhuma condição compete à Igreja julgar as asserções das ciências humanas.
6. Na definição das verdades, de tal modo colaboram a Igreja discente e docente, que nada mais resta à Igreja docente senão sancionar as opiniões comuns da discente.
7. A Igreja, ao proscrever erros, não pode exigir que os fiéis adiram com consenso interno aos juízos por ela proferidos.
8. Devem ser considerados imunes de toda culpa os que não atenderem às condenações proferidas pela Sagrada Congregação do Índex, ou por outras Sagradas Congregações Romanas.

Nos primórdios do Modernismo


Por outro lado, é digno de lágrimas até onde vão parar os desvarios da razão humana, assim que alguém se apega às novidades, e se empenha, contra a advertência do Apóstolo, em gostar delas mais do que convém, e, confiando demasiado em si próprio, pensa em procurar a verdade fora da Igreja Católica, dentro da qual ela se encontra limpa, até do mais pequeno pó de erro, e que por isso mesmo é chamada, e é, a coluna e o fundamento da verdade! Bem entendeis, Veneráveis Irmãos, que também falamos aqui daquele falacioso sistema filosófico, inteiramente repreensível e não introduzido ao princípio como tal, no qual, pelo vil e desenfreado desejo de novidades, a verdade não se procura onde certamente está, e menosprezando as santas e apostólicas tradições, se aprendem outras doutrinas vazias, fúteis, incertas e não aprovadas pela Igreja, nas quais homens vaníssimos pensam falsamente que se apoia e sustenta a verdade.

Papa Gregório XVI in encíclica «Singulari Nos», 24 de Junho de 1834.

O Activismo na base do Marxismo


Doutrina Católica
De acordo com a doutrina católica, o fundamental a tudo é o ser. Do ser provém a natureza da coisa, da natureza provém a acção: «agere sequitur esse», «a acção segue o ser». Daí se deduz que é importante o conhecimento da natureza das coisas. Quem conhece a natureza das coisas sabe agir. Eis a razão por que nós meditamos. Pela meditação conhecemos a verdade. Do conhecimento da verdade nasce a acção.

Teoria Marxista
Ao marxista não interessa o conhecimento teórico da essência das coisas, pois que as coisas não têm ser fixo. Não lhe interessa o valor do ser e da verdade, e sim o valor da eficiência e acção.
Este ponto é fundamental para compreender o marxismo. O marxismo não procura organizar uma sociedade conforme a natureza humana. Ele não admite a natureza humana como algo de fixo, que sirva de norma absoluta, que tenha que ser assim e não de outro modo. Como o homem pode ser modificado na sua essência pelo trabalho, pela acção, o papel que na sociologia e na teologia tem o ser, a natureza, é abandonado definitivamente. Para a concepção marxista o factor decisivo é a acção. Para o católico, a experiencia e a acção devem realizar aquilo que a inteligência conhece como verdadeiro e bom. A vontade segue a inteligência, a consciência. No marxismo dá-se o contrário.
Ouvi o que diz Lenine: «A concepção da prática da vida é que deve determinar a concepção fundamental da teoria do conhecimento» («Matérialisme et empiriocriticisme», Edit. Sociales, Paris, p. 123).
Para o católico a palavra de ordem é: «Vive como pensas!». Para o marxista é: «Pensa como vives!».
«Uma das particularidades do materialismo dialéctico é o seu carácter prático, sublinhando-se o facto de que a teoria depende da prática, o facto de que o fundamento da teoria é a prática, e que, por sua vez, a teoria é a prática... O critério da verdade não pode ser senão a prática social. O ponto de vista da prática é o ponto de vista primordial, fundamental da teoria marxista dialéctica do conhecimento» (Mao Tsé-Tung, «Oeuvres Choisies», Edit. Sociales, Paris, tomo I, pp. 349-350).
Não há, portanto, «doutrina» propriamente dita.
«Resulta pois que no marxismo não existe a filosofia, e sim a acção, que a filosofia se confunde com a acção mesma, uma vez que ela só afirma o que a acção a obriga a afirmar, de tal sorte que não há filosofia sem acção marxista, que a acção revolucionaria é da própria essência da filosofia, porque a missão da filosofia é realizar a mais eficaz acção material. Para um comunista consciente do seu marxismo, o comunismo não é uma verdade... o marxismo é uma acção» (Jean Daujat, «Connaître le Communisme», p. 25).
A prática é a única regra da prática, a acção é a única regra de acção. O ideal absoluto é obter a acção material levada ao máximo, ao paroxismo de eficiência e vigor.

D. Geraldo de Proença Sigaud in «Carta Pastoral sobre a seita comunista, seus erros, sua acção revolucionária e os deveres dos católicos na hora presente», 1963.

Do Modernismo


– O que é a "abominação da desolação"? Parece-me que os Santos Padres entendem por essa expressão semítica a idolatria...
– A pior idolatria. Pois no fundo do modernismo está latente a mais execrável idolatria, a apostasia perfeita, a adoração do homem no lugar de Deus; e isso sob formas cristãs e até talvez mantendo a estrutura exterior da Igreja. Já leu The Soul of Spain do psicólogo inglês Havelock Ellis?
– Não. O que diz?
– É um livro de viagens por Espanha. Leia o capítulo intitulado Uma missa cantada em Barcelona e verá o que quero dizer quando falo de modernismo.
– Ridiculariza a missa cantada?
– Quê?! Pelo contrário! Cobre-a de flores, enche-a de elogios... estéticos. Diz que é um espectáculo imponente, uma criação artística, e que não se pode deixar cair essa nobre conquista de "património cultural" da humanidade, mas procurar preservá-la e aperfeiçoá-la... podada da pequena superstição que a informa, ou seja, a presença real de Cristo no Sacramento... Anulada essa pequena superstição, tudo mais...

Pe. Leonardo Castellani in «Los Papeles de Benjamin Benavides», 1953.

As causas do Modernismo


Não há que duvidar que a causa próxima e imediata é a aberração do entendimento. As remotas, reconhecemo-las duas: o amor por novidades e o orgulho. O amor por novidades basta por si só para explicar toda a sorte de erros. Por esta razão o Nosso sábio predecessor Gregório XVI, com toda a verdade escreveu (Encíclica Singulari Nos, 07-07-1834): «Muito lamentável é ver até onde se atiram os delírios da razão humana, quando o homem corre atrás de novidades e, contra as admoestações de São Paulo, se empenha em saber mais do que convém, e, confiando demasiado em si, pensa que deve procurar a verdade fora da Igreja Católica, onde ela se acha sem a menor sombra de erro». Contudo, o orgulho tem muito maior força para arrastar ao erro os entendimentos; e é o orgulho que, estando na doutrina modernista como em sua própria casa, aí acha à larga de que se cevar e com que ostentar as suas manifestações.

Papa São Pio X in encíclica «Pascendi Dominici Gregis», 1907.


Relembro: Do modernismo

Do modernismo


– O que é a "abominação da desolação"? Parece-me que os Santos Padres entendem por essa expressão semítica a idolatria...
– A pior idolatria. Pois no fundo do modernismo está latente a mais execrável idolatria, a apostasia perfeita, a adoração do homem no lugar de Deus; e isso sob formas cristãs e até talvez mantendo a estrutura exterior da Igreja. Já leu The Soul of Spain do psicólogo inglês Havelock Ellis?
– Não. O que diz?
– É um livro de viagens por Espanha. Leia o capítulo intitulado Uma missa cantada em Barcelona e verá o que quero dizer quando falo de modernismo.
– Ridiculariza a missa cantada?
– Quê?! Pelo contrário! Cobre-a de flores, enche-a de elogios... estéticos. Diz que é um espectáculo imponente, uma criação artística, e que não se pode deixar cair essa nobre conquista de "património cultural" da humanidade, mas procurar preservá-la e aperfeiçoá-la... podada da pequena superstição que a informa, ou seja, a presença real de Cristo no Sacramento... Anulada essa pequena superstição, tudo mais...

Pe. Leonardo Castellani in «Los Papeles de Benjamin Benavides», 1953.

Do amor à verdade


Quem ama a verdade detesta o erro. Isto está tão próximo da ingenuidade como do paradoxo. Mas essa detestação do erro é a pedra de toque à qual se reconhece o amor à verdade. Se você não ama a verdade, pode até certo ponto dizer que a ama e até mesmo fazer crer que sim: mas tenha a certeza de que nesse caso não terá horror pelo que é falso, e por esse sinal se reconhecerá que não ama a verdade.
Quando um homem, que amava a verdade, cessa de amá-la, não começa por declarar a sua defecção, começa por detestar menos o erro. É aqui que ele se trai.
As secretas complacências formam uma das partes mais ignoradas da história do mundo.
Quando um homem perde o amor pela doutrina, boa ou má, que professou, ele geralmente mantém o símbolo dessa doutrina: somente sente morrer em si toda a aversão pelas doutrinas contrárias.

Ernest Hello in «L'Homme», 1872.

Os graus do farisaísmo


– O farisaísmo vem a ser como... os fariseus são "religiosos profissionais"... como o profissionalismo da religião – disse –, recordando uma frase de Gustave Thibon.
– Esse é somente o primeiro grau do farisaísmo, em todo o caso – reflectiu o velho. A ver se conseguimos descrevê-lo pelos seus graus:
O primeiro: A religião torna-se meramente exterior...
O segundo: A religião torna-se profissão, negócio, ganha-pão.
O terceiro: A religião torna-se instrumento de ganância, de honras, poder ou dinheiro.
– É como um esclerosamento do religioso, um endurecimento ou decaimento progressivo! – ressaltou o teólogo.
– E depois uma falsificação, hipocrisia, dureza até à crueldade... – disse eu.
– Jesus Cristo no Evangelho condenou os fariseus – disse o Frei Florecita – e com isso basta.
O judeu havia ficado como que absorto. Depois prosseguiu com uma voz cavernosa e rouca...
– Eu tremo de dizer o que ouso apenas pensar... O meu coração treme diante de Deus como uma folha na árvore, ao pensar no mistério do farisaísmo. Eu não posso indignar-me como o Divino Mestre; eu, verme miserável, tenho-Lhe medo – e de facto todo o seu corpo se estremeceu bruscamente, e duas lágrimas assomaram aos seus olhos.
– Os outros graus – prosseguiu – são já diabólicos. O coração do fariseu, primeiro, torna-se cortiça, depois pedra, depois se esvazia por dentro, e depois é ocupado pelo demónio. "E o demónio entrou nele", disse João sobre Judas.
O quarto: A religião torna-se passivamente dura; insensível, desencarnada.
O quinto: A religião torna-se hipocrisia: o "santo" hipócrita começa a desprezar e a odiar os que têm religião verdadeira.
O sexto: O coração de pedra torna-se cruel, activamente duro.
O sétimo: O falso crente persegue de morte os verdadeiros crentes, com fúria cega, com fanatismo implacável... e não se acalma, nem ante a cruz, nem depois da cruz... "Este impostor disse que ao terceiro dia iria ressuscitar"; de modo que, oh Excelso Procurador da Judeia... Guardas para o sepulcro.

Pe. Leonardo Castellani in «Los Papeles de Benjamin Benavides», 1953.

A Fé e a "fé"


Segundo a doutrina católica, a Fé é uma anuência, uma submissão da inteligência à autoridade de Deus que revela, sob o impulso da vontade livre movida pela Graça. Por um lado o acto de Fé deve ser livre, ou seja, deve escapar a toda a coacção exterior que tivesse por objecto ou por efeito directo obtê-lo contra a vontade da pessoa. Por outro lado, sendo o acto de Fé uma submissão à autoridade divina, nenhum poder ou terceira pessoa tem o direito de se opor à influência da Verdade primeira, que tem o direito inalienável de iluminar a inteligência do fiel. Disto se segue que o fiel tem direito à liberdade religiosa; ninguém tem o direito de o coagir, e ninguém tem o direito de impedi-lo de abraçar a Revelação divina ou de realizar com prudência os actos exteriores de culto.

Entretanto os liberais, esquecidos do carácter objectivo, completamente divino e sobrenatural do acto de Fé, e os modernistas que correm no seu rastro, fazem da Fé uma expressão da convicção subjectiva do sujeito no fim da sua procura pessoal, ao tentar responder às grandes interrogações que lhe apresenta o universo. A Igreja, que propõe o facto da Revelação divina exterior, dá lugar à invenção criadora do sujeito, ou pelo menos o sujeito deve esforçar-se para ir de encontro à fonte... Sendo assim, então a Fé divina é rebaixada ao nível das convicções religiosas dos não-cristãos, que pensam ter uma fé divina, quando não têm mais do que uma persuasão humana, pois o motivo para aderir à sua crença não é a autoridade divina, mas o livre julgamento do seu espírito. Aí está a sua inconsequência fundamental: os liberais pretendem manter para este acto de persuasão completamente humano, o carácter de inviolabilidade e isenção de toda a coacção que não pertence senão ao acto de Fé divina. Eles asseguram que, pelos actos das suas convicções religiosas, os adeptos de outras religiões põem-se em relação com Deus, e que a partir daí esta relação deve ficar livre de toda coacção que possa afectá-la. Eles dizem: «Qualquer fé religiosa é respeitável e intocável».

Mas estes últimos argumentos são visivelmente falsos, pois pelas suas convicções religiosas, os adeptos das outras religiões não fazem mais do que seguir invenções do seu próprio espírito, produções humanas que não têm em si nada de divino, nem em seu princípio, nem em seu objecto, nem no motivo pelo qual aderiram a elas.

Isto não quer dizer que não há nada de verdadeiro nas suas convicções, ou que não possam conservar sinais da Revelação primitiva ou posterior. Mas a presença destas semina Verbi, não bastam, por si, para fazer das suas convicções um acto de Fé divina. Principalmente porque se Deus quisesse suscitar este acto sobrenatural pela Sua Graça, na maioria dos casos ver-se-ia impedido pela presença de inúmeros erros e superstições aos quais estes homens continuam ligados.

Frente ao subjectivismo e ao naturalismo dos liberais, devemos reafirmar hoje o carácter objectivo e sobrenatural da Fé divina que é a Fé católica e cristã. Somente ela tem o direito absoluto e inviolável ao respeito e à liberdade religiosa.

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar», 1987.

Catolicismo não é sinónimo de Sentimentalismo

Cristo não veio para nos tornar pessoas simpáticas. Ele veio para nos tornar homens novos.

A civilização moderna separou Cristo da Cruz, tomou-O sem ela e fê-l'O um moralista sentimental como Buda.

Mons. Fulton Sheen in «Aprendei a Amar», 1957.

A perda do sentido sobrenatural


Relato na biografia do meu marido, "The Soul of a Lion", que poucos anos após a sua conversão ao Catolicismo, nos Anos 20, ele começou a ensinar na Universidade de Munique.
Munique era uma cidade católica. A maioria dos católicos da época ia à Missa, mas ele sempre dizia que foi ali que começou a preocupar-se com a perda do sentido do sobrenatural entre os católicos. Um incidente, em especial, ofereceu-lhe a prova suficiente, e isso entristecia-o imensamente.
Quando passava por uma porta, o meu marido deixava sempre entrar primeiro os seus alunos, que eram sacerdotes. Um dia, um professor, colega dele, expressou a sua admiração e desagrado: Por que deixa os seus alunos entrar antes de si? Porque são sacerdotes, respondeu o meu marido. Mas eles não possuem Doutoramento. O meu marido ficou arrasado. Valorizar um Doutoramento é uma reacção natural; mas estar ciente da sublimidade do sacerdócio é uma reacção sobrenatural. A atitude daquele professor provava que a sua reacção para o sobrenatural havia erodido.
Isso foi muito antes do Vaticano II. Mas até ao Concílio, a beleza e a sacralidade da Liturgia Tridentina mascarava esse fenómeno.

O erro do Historicismo


Não foram os Papas que cometeram um erro histórico, ou que estavam prisioneiros de circunstâncias históricas, mas são estes teólogos que estão imbuídos do preconceito historicista, apesar daquilo que possam dizer. Basta-nos ler as referências históricas que trazem Roger Aubert e John Courtney Murray sobre a liberdade religiosa, para comprovar que eles revêem sistematicamente os ensinamentos do Magistério dos Papas do século XIX, segundo um princípio que se pode expressar assim: "Todo o enunciado doutrinal é estritamente relativo ao seu contexto histórico, de tal modo que, mudado o contexto, a doutrina pode mudar".

Não será necessário dizer o quanto este relativismo e este evolucionismo doutrinal é contrário à estabilidade da Rocha de Pedro no meio das flutuações humanas, e o quão contrário é à Verdade imutável que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Estes teólogos, de facto, não são teólogos, nem bons historiadores, pois não têm qualquer noção da Verdade ou de uma doutrina permanente da Igreja, principalmente em matéria social e política; extraviam-se na sua erudição e são prisioneiros dos seus próprios sistemas de interpretação; são pensadores cheios de ideias, mas não são bons pensadores. Razão teve Pio XII ao condenar a sua teologia cambiante, sob o nome de Historicismo:
A isto se soma um falso historicismo que, aferrando-se unicamente aos acontecimentos da vida humana, subverte os fundamentos de toda a Verdade e de toda a Lei Absoluta, tanto no que se refere à filosofia como no que se refere aos dogmas cristãos. (Encíclica «Humani Generis»)

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar», 1987.